--------PERÍODO PÓS-ARMAGEDDON. SALA DE INTERROGATÓRIO. NOVA YORK. 20 DE DEZEMBRO. 21H30 -------

        Uma sala cinzenta e escura. Uma mesa retangular metálica, azul acinzentada. Uma cadeira preta simples à frente, duas logo atrás, de frente para onde fica o entrevistado. Uma lâmpada com um pendente de metal que balançava constantemente de um lado para o outro, propiciando uma iluminação forte por onde batia, mas uma escuridão por onde não alcance o seu balanço, incômodo, interminável. Um fino assobio ressoava pela sala escura à medida que o pendente seguia seu curso de oscilação. Uma gaveta paralela à mesa e uma estante do outro lado desta vinham da nobre companhia da mochila rosa choque. Uma imensa grade de vidro espelhado paralela à mesa e aos assentos marcava presença naquele lugar lúgubre e tenebroso. Era como uma atmosfera ritualística em toda sala de interrogatório, em que quem se senta já é praticamente fadado a ser marcado como suspeito ou pode ser sugado até a última gota.


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        Vega estava sentado em um dos assentos de frente para dois interrogadores, ambos de roupas escuras, posturas agressivas e olhares inquisitivos. Sua expressão era de tédio e desprezo diante da tentativa dos seus entrevistadores de parecerem maiores do que realmente são. Ambos inclinavam seus troncos para frente e suas mãos cruzavam logo abaixo de seus queixos. Vega mantinha uma postura levemente desinclinada à cadeira, como se estivesse prestes a projetar seu quadril para frente para se debruçar no assento. Seus braços mantinham-se relaxados, com os cotovelos apoiados sobre os apoios do assento, enquanto suas mãos permaneciam quietas e jogadas em cima de suas pernas. Um de seus pés inevitavelmente balançava de um lado para outro, uma forma de compensar o tédio. Em seu corpo, a camisa vinho cavada, calça jeans vermelha e um coturno preto tratorado, de cano alto. Cansado, Vega aparentava esgotamento e desinteresse no seu. Queria por tudo não mais permanecer naquele complexo cinzento. Ainda assim, mantinha um olhar fixo para os seus entrevistadores. Só de pensar que poderia contemplar por horas a fio os rostos de seus entrevistadores e ter de responder centenas de perguntas, lhe dava sono. Era uma mais indiscreta e invasiva que a outra, o que, de certa forma, causava irritabilidade.

[Entrevistador 1] — “Seu nome de batismo?”

[Vega] — “Vega.”

[Entrevistador 1] — “Só Vega? Tem algum sobrenome?”

[Vega] — “Não, nenhum.”

[Entrevistador 1] — “Idade, Veja.”

[Vega] — “Até o momento, dez.”

        Os dois homens de terno olham com estranheza para Vega pelo fato de o rapaz parecer mais velho, apesar de muito jovial. Confuso, Vega olha para o canto, mas tenta se explicar:

[Vega] — “É que eu não tive infância... Eu já nasci na forma adulta.” — [Diz, dando um leve sorriso de constrangimento].

[Entrevistador 2] — “Você tem dez anos de acordo com o período anual de onde você nasceu? ...Em BIOTH, é isso?”

[Vega] — “Sim, é isso.”

[Entrevistador 2] — “Um ano tem quantos meses lá?”

[Vega] — “Trinta meses...”

        Os interrogadores fazem algumas anotações em suas pranchetas ao passo que fixam suas atenções em Vega. Um deles confirma positivamente a resposta de Vega para o colega:

[Entrevistador 1] — “Sim, são trinta meses mesmo, eu li o livro que catalogava uma região específica do planeta. É bem antigo e raro, mas é real.”

        Impressionados com Vega e com o que o mesmo poderia fornecer de informações reveladoras, os homens continuam a inquiri-lo.

[Entrevistador 1] — “Sua data de aniversário, Vega. Pode se lembrar?”

[Vega] — “Dia 07 do 17 de 70.093.”

        Os entrevistadores se entreolham por um tempo. O que era para ser uma entrevista corriqueira passou a se tornar ainda mais estranha.

[Entrevistador 2] — “O Senhor se lembra do dia em que desembarcou aqui?”

[Vega] – “Foi em julho, no dia 15 para ser mais exato...” 

        Até esse momento, Vega apoia um dos cotovelos à mesa sob o olhar sereno para baixo e com uma de suas mãos sob seu queixo, já demonstrando uma leve boa vontade.

[Entrevistador 2] — “Qual o motivo de ter vindo pra cá?” — [indaga].

[Vega] — “Procurar uma parente. Ela fugiu e desembarcou pra cá...”

        Um dos interrogadores se estende sobre a cadeira móvel até a gaveta próxima e verifica uma papelada de documentos que estava guardada. Ao se ajeitar ao assento e pesquisar entre os papéis, o mesmo questiona:

[Entrevistador 1] — “Aqui diz que o Senhor aterrissou aqui em Nova York na condição de ‘EXPULSO’ de seu país e de seu planeta, correto?”

        Vega fica confuso pelo que acabou de ouvir. Ele imediatamente desfaz sua postura relaxada e fica em posição de alerta.

[Vega] — “Tem um engano aí nesse registro. Na minha carteira provisória de entrada está como ‘TURISTA’.” — [Vega mostra o documento de seu bolso, com um selo oficial].

[Entrevistador 1] — “Então, por que aqui está registrado como ‘EXPULSO’?” — [desconfiado e ar inquisitivo].

[Vega] — [Vega suspira] — “... Eles me confundiram com as pessoas que estavam sendo banidas por traição. Eu era o único ali que estava vindo como visitante...” — [demonstra leve impaciência e nervosismo].

[Entrevistador 2] — “Por quanto tempo você foi autorizado a permanecer fora de seu planeta?”

[Vega] — “Conforme a legislação de Vandora, eu tenho um prazo de dez anos de estadia fora do meu país, caso eu esteja fora da órbita de BIOTH.”

[Entrevistador 1] — “Dez anos em BIOTH equivalem a quanto tempo aqui?” — [o interrogador se dirige ao colega].

[Entrevistador 2] — “Muita coisa... uns 256 anos e 08 meses...”

[Entrevistador 1] — “O Senhor tem algum outro documento de autorização de viagem expedido de Vandora aí com você?” — [se projeta à frente da mesa, com braços levemente debruçados].

[Vega] — “... A minha mochila...” — [Mira seu rosto para uma estante encostada no canto da sala].

        Os dois interrogadores pegam a mochila rosa-choque de Vega e retiram dela uma pequena "pasta" em formato miniatura, extraindo da mesma um documento plastificado com os símbolos de Vandora, língua nativa, e uma assinatura por escrito das autoridades máximas de lá. Ele a entrega a um dos homens e ambos analisam atentamente o documento. Nenhum dos dois sabia interpretar a escrita vandoriana e tampouco conseguia comprovar se o documento era legítimo.

[Entrevistador 1] — “Chame a intérprete, por gentileza!” — [diz enquanto estende um rádio comunicador de seu terno].

        A intérprete, vestida de terno preto e amarelo, chega à sala e se depara com Vega e os dois interrogadores sob o mais absoluto silêncio.

[Entrevistador 2] — “Audrey!” — [amistoso] — “Por favor, entre, precisamos de uma ajuda com um documento extraterrestre deste rapaz bonitão que está na nossa frente.” — [mira para Vega].

Lisonjeado, Vega exprime um tímido sorriso para a mulher.

[Agente Smith] — “Muito prazer, Senhor Vega! O meu nome é Audrey Smith...” — [a mulher se projeta levemente para frente como sinal de cortesia e respeito].

        Vega, discretamente animado, responde:

[Vega] — “O prazer é meu, Audrey...” — [cumprimenta].

        Os dois apertam as mãos, mas os olhares permanecem grudados um no outro. 

        Após os devidos cumprimentos, a Agente Smith se aproxima de um dos interrogadores para verificar o documento oficial ali mesmo. Dispondo de todas as ferramentas específicas para verificação de fraude, a agente lançou mão de uma réplica da legislação de Vandora em mãos, um tablet profissional, um tradutor automático, uma luz negra, aplicações hackers encomendadas pelo Estado e contatos com outros agentes e investigadores. Vega observa a situação um pouco apreensivo, torcendo para que o documento seja reconhecido como legítimo, já que, de fato, era real. 

        A moça olha para Vega e lhe cede um pequeno sorriso dengoso como se o estivesse chamando com os olhos. O rapaz devolve um sorriso, também tímido e simpático, para a intérprete.

        À medida que a agente verifica a documentação e os interrogadores conversam entre si, Vega discretamente perpassa seus olhos ao longo do corpo da mulher, apreciando cada detalhe de suas curvas. Seu nervosismo começou a dar lugar a uma atração fora de um momento oportuno. De cabelos louros e olhos azul-tofani, a moça encara o afortunado mais de uma vez. Em contrapartida, o moço debruça suavemente seus braços cruzados sobre a mesa e vira lentamente o seu rosto para o lado, deixando parte de seu pescoço à mostra. Como forma de arrematar seu charme, exibe um belo sorriso enigmático para a moça, que retribui tímida, mas ao mesmo tempo, interessada. Nesse rápido período de 07 minutos de flerte, a agente finalmente conclui:

[Intérprete] — “O documento é legítimo. É um registro de autorização para viagens interplanetárias com direito a um microchip estampado no documento e ligado ao pescoço do usuário. Vejam só...” 

        A agente aponta sua mão com uma caneta para Vega e abre uma aplicação em seu tablet, que aciona o dispositivo de identificação no organismo de Vega. Neste, são reveladas as informações de imagem de seu rosto, tipo sanguíneo, número pessoal e seu nome completo, que curiosamente não tinha um sobrenome. 

    Após explicar as minúcias e finalizar o trabalho, o homem agradece a participação da profissional:

[Entrevistador 1] — “Obrigado pelo ótimo serviço, agente Smith! Pode ir...” — [dispensa a moça].

[Agente Smith] — “Por nada, Senhor...” — [sorri].

     Antes que pudesse sair da sala, a moça aproveita a oportunidade:

[Agente Smith] — “Boa noite.” — [fita o rapaz].

O moço, cumprimentando silenciosamente o seu alvo de encanto, esboça um discreto semblante de orgulho e devassa em sua face.

    A moça pede licença e sai elegantemente da sala de interrogatório, direcionando um olhar de atração e interesse para Vega. Este percebe as reações internas do corpo da moça e expressa um leve êxtase e satisfação para secá-la. O típico olhar 43 perdurou até que a moça fechasse a porta. Direcionando um micro sorriso de decepção e tédio por vê-la partir, Vega retoma a expressão de neutralidade, ou pelo menos o que este permitiu mostrar aos interrogadores, intrigados pelo flerte.

[Entrevistador 1] — “O Senhor não perde tempo mesmo, hein...?” — [brincou enquanto o colega do lado sorri debochadamente].

[Vega] —  “...O quê...?” — [balança a cabeça negativamente] — “Como assim...?” — [sorriso de canto, olhar assustado].

        Vega desconfiava estar sendo vigiado durante todo o tempo que esteve naquele bolha territorial.

[Entrevistador 1] — “Bom, continuando...”

        Para não perder o profissionalismo, o clima lúgubre volta a tomar conta da sala de interrogatório e a entrevista prossegue seu curso frio e objetivo. O documento de Vega é devolvido e ambos os entrevistadores ajeitam suas canetas e pranchetas.

[Entrevistador 1] — “Vega, o Senhor é da categoria SH ou Híbrido?”

[Vega] — “Sou um Transmorfo...”

        Anotando os registros no papel em sua prancheta, o interrogador volta seu olhar desconfiado para Vega. O outro colega, o fita como se estivesse lidando com uma ameaça em potencial. Vega percebe instintivamente a hostilidade dos dois homens e volta-se a uma postura menos relaxada e mais distante da mesa.

[Entrevistador 1] — “Isso explica o sutiã...” — [conclui o interrogador, voltando seu olhar para a prancheta].

[Vega] — “O quê...?” — [confuso e constrangido].

[Entrevistador 2] — “Nós tivemos que revistar sua mochila, então...”

[Entrevistador 1] — “...É isso...” — [diz o entrevistador, tentando dar cobertura ao colega].

[Vega] — “Ah...” 

        Vega, numa expressão de surpresa e constrangimento, volta-se a encostar na cadeira e fica pensativo sobre o que sabem sobre ele até o momento.

[Entrevistador 1] — “Tem filhos, Vega?”

[Vega] — “Que eu saiba, não...” 

        Os dois homens voltam seus olhares para Vega.

[Vega] — “...Pelo menos não enquanto eu estive aqui...” — [Vega percebe a desconfiança dos interrogadores].

[Entrevistador 2] — “Teve parceiros ou parceiras sexuais enquanto esteve aqui, Vega?”

[Vega] — “Não...” — [responde, balançando a cabeça negativamente] — “Aliás! ...Co... Como é...?” — [semblante de desconforto].

[Entrevistador 2] — “Quantos foram?” — [inquisitivo]

[Vega] — “...[pausa]... Por que querem saber...? — [feição de desconfiança].

[Entrevistador 1] — “Apenas responda.” — [inquisitivo].

[Vega] — [vergonha e travamento] — “...Bom.... Na verdade, foram... uns cinco, no máximo...” — [Vega diz a sua primeira mentira]. 

        Os dois interrogadores olham o rapaz sem mover um pisco sequer ou pronunciar uma palavra.

[Vega] — “Mas eu nunca tive filhos por lá e nem com ninguém daqui... Eu me preveni...” — [responde com seriedade e reforça sua resposta juntando os dedos de sua mão sobre a mesa]. 

        Pensativo, o interrogado começa a se questionar internamente sobre Vandora e seus envolvimentos por lá.

        Os entrevistadores balançam sutilmente a cabeça ao contrair os lábios para baixo e as sobrancelhas para cima, demonstrando conformismo misturado a uma desconfiança com a resposta de Vega, especialmente em ocasião com o flerte que acabaram de testemunhar entre ele e Audrey Smith. Apesar de inquisitivos, procuravam não pressionar o Transmorfo.

[Entrevistador 2] — “Teve algum envolvimento com drogas ou problemas legais, Senhor Vega?” — [coloca os dois braços à mesa e fita Vega].

[Vega] — “Nenhuma que pudesse realmente me entorpecer... Quanto a problemas legais... bom, eu não conheço muito bem as leis daqui...” — [desconforto e estranheza].

[Entrevistador 1] — “Mas conhece as de Vandora, não conhece?” — [inquisitivo].

[Vega] — “Sim, conheço...” — [responde intimidado e constrangido].

[Entrevistador 1] — “Como era sua ficha por lá?”

[Vega] — “Era limpa. Nunca tive problemas por lá.” — [mantém o olhar fixo para o interrogador e os lábios travam brevemente].

[Entrevistador 2] — “Você chegou a trabalhar em uma boate, não foi? Ainda está atuando por lá?” — [curva-se para frente, com os braços debruçados à mesa].

[Vega] — “Sim, estou...” — [balança a cabeça positivamente, ainda com expressão fechada].

[Entrevistador 2] — “E você faz o quê lá? É garçom, é promotor de eventos, maître, segurança... dançarino?”

[Vega] — “...” — [Vega demora um pouco para responder] — “... Eu sou faxineiro...”

        Vega escondeu informações que não lhe interessavam fornecer para seus interrogadores, pois já estava começando a perceber que havia algo estranho na abordagem.

[Entrevistador 1] — “Faxineiro??” — [feição de estranhamento] — “...Bom. Quem é seu dono, Vega?” — [aproxima-se e debruça-se à mesa].

[Vega] — “Uma mulher chamada Ashley Dilworth... Ela é dona da boate.”

[Entrevistador 1]- “Ashley Dilworth? E ela não te colocou como segurança da boate? Puffr...! Que sujeita mais estranha...”

[Vega] — “Hum...” — [Vega permanece calado].

[Entrevistador 2] — “Ashley Dilworth... Eu sempre achei essa mulher muito estranha.” — [indaga para o colega].

[Entrevistador 1] — “Eu também não gosto muito dela... Ela comanda umas casas noturnas que mais parecem um açougue...”

        Vega continua observando seus entrevistadores se entreolharem indagados e voltarem suas atenções para ele.

[Entrevistador 1] — “Então, Vega, você deve saber bem o que rola dentro dessa boate em que você trabalha, até porque você também mora lá... Não é isso?”

[Vega] — “Sim...”

[Entrevistador 2] — “Você já se deparou com alguma coisa fora do normal lá dentro? Além de drogas ilícitas ou prostituição, por exemplo?”

[Vega] — “Vou ter problemas se eu contar...?” — [desconfiado].

[Entrevistador 2] — “Evidente que não, a não ser que esteja envolvido em alguma coisa ilegal... que eu penso que você não está, correto?” — [gesticula levemente com as duas mãos para sugerir dúvida].

        Vega cerra os lábios e mostra respiração prolongada enquanto encosta-se na cadeira.

[Vega] — “Estupradores circulam livremente pelo estabelecimento...” — [olhar de raiva e desprezo].

        Os dois entrevistadores olham para Vega, pasmos com o que escutam.

[Entrevistador 1] — “E como sabe disso? Chegou a reportar às autoridades?”

[Vega] — “Dezenas de vezes. Um deles admitiu na minha cara que estuprou várias meninas, vários visitantes dão cobertura pra ele. Só que eu não tenho cidadania, então ninguém me ouviu...”

[Entrevistador 1] — “Pode me fornecer o nome e o endereço dessa boate?” — [entrega um papel e caneta para Vega].

        Vega escreve todos os dados do lugar de onde fez um contrato de submissão com a proprietária do estabelecimento. Sua letra é impecável e muito bem delineada, sem falhas, tremores ou borrões. Sua expressão era de decepção e aborrecimento. Seu único intuito era obter, ao menos, o seu direito ao livre arbítrio, à propriedade e à integridade física, os mais básicos para viver, mas muito valiosos para ele. Na prática, isso ainda traria muito martírio para conquistar. Ao finalizar, um dos seus interrogadores o questiona:

[Entrevistador 2] — “Tem o número de protocolo da denúncia que o Senhor fez à boate?”

[Vega] — “Não de cabeça, mas tenho...”

[Entrevistador 2] — “Contou a mais alguém?”

[Vega] — “A própria Ashley...”

[Entrevistador 1] — “E ela... Não fez nada...?” — [balança a cabeça negativamente de forma frenética enquanto mantinha as mãos em posição paralela à mesa, virando de um lado para outro].

[Vega] — “Não...” — [balança a cabeça negativamente] — “Não quis se envolver...” — [feição fria].

[Entrevistador 1] — “E as meninas...? Elas não viram nada disso acontecer? Nenhuma delas denunciou?” — [indaga].

[Vega] — “Elas veem, mas não denunciam... Elas têm medo...” — [lábios travados e olhar de cansaço e aborrecimento].

[Entrevistador 2] — “...Medo do quê?”

[Vega] — “De retaliação...”

[Entrevistador 1] — “Que tipo de retalia...” — [interrupção].

[Vega] — “Posso tomar um copo d'água? ...Eu tô com sede” — [sob feição de ironia e impaciência, interrompe o homem].

        A brusca interrupção de Vega daquele monótono interrogatório fez surgir um breve silêncio na sala. Em algum momento, a lâmpada pendente já havia parado de balançar. Os agentes decidem dar uma pausa para água e café e mudar radicalmente de assunto para não prolongar a entrevista.


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[Entrevistador 2] — “Bom... Vamos dar uma pequena pausa...” — [olha o relógio] — “Amanda, será que você poderia trazer um copo d'água para o nosso cavalheiro aqui? Bem gelada.” — [diz o entrevistador enquanto saca um pequeno rádio transmissor do seu terno].

        Do outro lado da linha, a moça vai até a copeira buscar água para Vega. Ao lado dela, um homem pardo e robusto permanecia escutando atentamente as conversas telefônicas que havia acabado de interceptar enquanto estava sentado.

[Entrevistador 2] — “Quer comer alguma coisa, Vega? Um biscoito de chocolate, uma bolacha de sal...?” — [feição simpática, cotovelos sobre a mesa].

[Vega] — “...Um biscoito de chocolate e um café preto à brasileira...” — [acena positivamente e mostra olhar de alívio].

        Vinte e cinco minutos de pausa foram dados enquanto Vega foi deixado sob vigilância sozinho, comendo e bebendo quieto na sala de interrogatório. Já mais calmo, mas ainda cansado, o rapaz conta os minutos para que aquilo finalmente terminasse. Só pensava em voltar para sua antiga casa, já que somente passava os finais de semana ao “ar livre” no térreo da empresa sob a permissão de Ashley Dilworth, se não fosse para se matar de trabalhar. Nos momentos em que nada fazia, lembrava-se de quando vivia no Hotel-Bolha ao lado de SUII, do qual era proprietário. Longe daquele inferno da boate Underground, o rapaz era feliz. Era livre. Era solto. Nos momentos em que servia à Casa Noturna, Vega era obrigado a manter sua forma feminina. 

        Sob vestido preto, calçados e brincos prateados, cabelos brancos, batom e olhos arroxeados, Vega costumava sentar-se em um balanço enquanto mantinha um olhar lúgubre e melancólico. Somente o barulho dos ventos e os raios solares o mantinham sereno e calmo naqueles tempos turbulentos. O pequeno jardim que se abrigava para desacelerar seu coração era pequeno e cercado por gigantescas fortalezas em negrume por todos os lados. Mas nenhuma delas foi capaz de tampar a luz do sol.

        Esses vinte e cinco minutos pareciam durar horas para Vega, mas eram os preciosos minutos de quietude que ele precisava. Com o copo, xícara e prato vazios deixados em cima de uma gaveta na parede paralela à mesa, Vega observa o relógio e contempla a luz pendente sobre a sua cabeça. Sentia saudades de seu lar, de como as horas eram mais longas, como a vida era mais estimulante, como os alimentos eram mais saborosos, como o contato era mais humano. Os dois interrogadores chegam à sala com seus copinhos de café vazios em mãos para serem descartados no lixo, e sentam-se à mesa. Os dois começam a indagar sobre seu passado:

[Entrevistador 1] — “Bom, Vega... Trabalhou em quais outros lugares anteriormente?”

[Vega] — “Fui ajudante de hoteleiro...”

[Entrevistador 1] — “Hum... Fazia o quê?”

[Vega] — “Limpeza, organização dos quartos, administração de clientes... Café da manhã...”

[Entrevistador 2] — “Hum... Café da manhã é bom...” — [sorri simpaticamente].

[Vega] — “É sim...” — [sorriso tímido].

        Um dos entrevistadores pega um caderno de registro e anotações e solta o que seria um canhão para Vega:

[Entrevistador 1] — “Aqui diz que você viveu no mesmo teto com um homem bem mais velho por 06 meses e meio em um hotel num bairro mais afastado de Nova York, em frente a uma padaria famosa... Esse homem seria seu parceiro?” — [inquire].

        O homem cruza os dedos das mãos um no outro enquanto os dois polegares se digladiavam. Seu olhar inquisitivo era direcionado para Vega. O seu rosto, era sutilmente mantido para baixo. Vega expressa espanto e indignação para com o entrevistador quanto à sua insinuação indiscreta sobre sua relação com SUII. O interrogador se corrige:

[Entrevistador 1] — “Não é nada disso que você está pensando...! Eu quis dizer se vocês dois conviviam na mesma residência em que trabalhavam, é só isso...” — [o homem gesticula as mãos em posição de conciliação e afastamento para tentar se corrigir].

        Antes mesmo de finalizar a justificativa do entrevistador, Vega lembra que atrás de sua nuca estava preso um dispositivo elétrico que poderia ser disparado se tentasse sair da sala de entrevista, por mais desagradável que seja. Com isso, uma de suas mãos próxima à sua nuca serviu para lembrá-lo de que este não poderia sequer fugir da sala. Vega, o responde constrangido.

[Vega] — “SUII era meu amigo e nada mais... Desculpe, mas qual a relevância dis...”

[Entrevistador 1] — “Só responda às perguntas, por favor.” — [interrompe o homem].

        Vega sente como se um balde de água fria fosse constantemente jogado em sua cabeça. O rapaz passou a ser podado a cada momento em que fosse retrucar.

[Entrevistador 1] — “Quem são seus pais, Vega? Irmãos, primos, tios... Possui familiares?”

[Vega] — [suspira, tentando conter a raiva e manter a educação] — “Só meu pai... E uma mulher que eu posso dizer que foi uma espécie de madrasta pra mim. Eu nunca conheci minha mãe desde que nasci e tenho mais uns 02 tios e 06 primos com os quais eu interagia...”

        Vega assume postura com a coluna para frente e as duas mãos apoiadas sobre a extremidade do banco da cadeira, por entre suas duas pernas. Enquanto olhava atentamente para os entrevistadores, os seus dois pés balançavam.

[Entrevistador 2] — “Quais são os nomes deles?”

[Vega] — “Otis, é meu pai, e Läude, a minha mãe... Mas... Por que vocês precisam dos dados deles...?” — [manifesta expressão de desconfiança].

[Entrevistador 1] — “Nós é que fazemos as perguntas aqui, Vega. Cabe ao Senhor apenas respondê-las...” — [Diz o entrevistador com olhar inquisitivo e com uma das mãos em posição horizontal, paralela à mesa].

        Vega perde totalmente a postura relaxada em que se encontrava e se encosta na cadeira, visivelmente aborrecido e com um olhar desafiador.

[Vega] — “...É tudo que eu sei...”

        Suas mãos, que até então estavam soltas, começam a se cerrar, e suas pernas, a se enrijecer. Vega se recusa a fornecer mais informações aos seus estranhos entrevistadores. Percebendo a situação iminente que estaria por vir, o outro colega intervém:

[Entrevistador 2] — “Nós não queremos desrespeitá-lo ou invadir seu espaço de forma alguma, Senhor Vega. Nós temos um protocolo rígido que temos que seguir à risca aqui na empresa. Além disso, nós não queremos que essa entrevista se alongue demais e, para que possamos lhe providenciar sua cidadania parcial, precisamos conhecer melhor sobre você, então é normal que perguntas assim sejam feitas. Afinal de contas, é no nosso território em que o Senhor se encontra. Nada mais justo do que investigar a vida pregressa de quem quer se hospedar aqui e se submeter às regras deste lugar, correto?” — [o homem tenta convencer Vega mediante argumento diplomático].

[Vega] — “É que algumas dessas perguntas são desnecessárias para essa função...” — [responde com firmeza].

[Entrevistador 2] — “Olha, é que...”

[Vega] — “Eu só acho que questionamentos sobre minha vida íntima não são relevantes para imprimir uma certidão de cidadania parcial...” — [finaliza].

        Os dois entrevistadores olham confusos e ao mesmo tempo exibem as mãos para cima numa tentativa de contornar a situação de forma diplomática e pacífica. Os dois colegas começam a tropeçar nas palavras um para o outro e ficam indecisos sobre quem daria cobertura. Até que um deles decide:

[Entrevistador 2] — “Olha, nós nos comprometemos a não mais fazer perguntas que digam respeito à sua intimidade, pode ser? Em troca, você responde todos os outros quesitos sem questioná-los e liberamos rapidamente a sua certidão, podemos fazer assim?" — [exibe certa simpatia em sua face].

        O outro colega olha para o entrevistador com um ar de espanto. Um semblante surge em seu rosto que claramente denunciava um sonoro "Você ficou maluco, não ficou?".

        Vega responde positivamente com a cabeça, apesar de ainda demonstrar aborrecimento e se sentir constrangido com a repreensão.


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        Em silêncio, Vega apenas se comprometeu a responder de forma calma e fria todas as perguntas que lhe faziam, até as mais estapafúrdias e idiotas que ele poderia imaginar. O mesmo perdeu a vontade de esconder qualquer coisa que tentavam tirar dele e adotou uma expressão mecânica e vazia por pelo menos umas 03 horas depois do incidente. Sentiu-se tão invadido que nem sua alma parecia possuir naquele momento. Sua irritabilidade, vergonha, tédio e raiva deram lugar a um sentimento de tristeza, indiferença, desânimo e apatia em seu rosto. Seu olhar era de quem havia sido rendido pelo cansaço. Depois de uma eternidade de perguntas sem fim, a entrevista finalmente termina de vez:

[Entrevistador 1] — “Muito bem, Vega! Terminamos por aqui.” — [guarda a prancheta e outros documentos] — “Agora vamos imprimir sua certidão, incorporá-la e coletar sua assinatura...”

        O homem expressa um sorriso amigável para Vega e ambos os interrogadores se preparam para sair da sala. Vega olha para cima com suas mãos no rosto, expressando o maior alívio que já sentiu em sua vida como um mais novo Nova-Iorquino. Expirando de desafogo, este se debruça de vez à cadeira, finalmente relaxado e pronto para respirar o ar da meia-noite. Vega não precisou nem de 05 minutos para esperar pelo seu tão sonhado documento de cidadania parcial (e diga-se de passagem, ele ainda irá precisar realizar nova triagem para pegar a cidadania total, ou seja, uma verdadeira bosta).

        Com o documento finalmente em mãos, Vega pega a sua mochila e a coloca nas costas, mas antes de ir embora, um dos homens o alerta:

[Entrevistador 2] — “Só mais uma coisa, Vega. Precisamos que você saia pela porta logo à frente, dessa à sua direita ao invés do lugar por onde você entrou, entendido? — [inquisitivo e suavemente gesticulando para instruir Vega].

[Vega] — “Entendi.” — [olhar de tédio e cansaço].

    Ambos os interrogadores se dirigem a Vega:

[Entrevistadores] — “Boa noite, Vega!” — [sorriem com "hospitalidade"].

[Vega] — “Boa noite.” — [não esboça qualquer sorriso].

       Vega sai a passos largos e apressados da sala de interrogatório e vai em direção à porta da frente, como instruído. Mal sabia ele que, ao lado da porta, havia um vidro espelhado que camuflava os 04 agentes de terno escuro fortemente armados, olhando fixamente para o Transmorfo e de posse de controles de dispositivos elétricos prontos para "abater" Veja, caso ele se rebelasse contra os oficiais.

        No corredor, Vega se depara com a sala de Audrey Smith. Logo saca de seu bolso um cartão vermelho e o joga por debaixo de sua porta. Audrey nota um cartão vermelho no chão, ao lado da entrada da sala onde trabalhava. Na porta principal, no final do corredor, um segurança ordena que Vega se vire de costas para que seja retirado o dispositivo que estava grudado atrás de seu pescoço. Aliviado, Vega sobe as escadarias escuras envoltas em uma cortina de veludo, deslizando sua mão em sua nuca. Ele abre as cortinas e se depara com uma loja de objetos de decoração disfarçada, cheia de enfeites natalinos. Ao sair da loja, um barulho de um sino é feito para sinalizar movimentação. Vega deixa o lugar caminhando pela calçada à noite, com as mãos no bolso, cabelos em movimento e sua mochila em suas costas. Com toda a cidade enfeitada para o Natal, só havia atrás de Vega, uma placa decorativa com os dizeres "Só o Amor Constrói. Feliz Natal".


                  "Louis Armstrong — What a Wonderful World"


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05 minutos depois...

        O silêncio impera na sala de interrogatório. Ambos os dois colegas se entreolham lentamente e um não sabe exatamente por onde começar. Um deles questiona, insatisfeito:

[Entrevistador 1] — “Nós cedemos demais às condições dele. Acho que deveríamos ter sido mais firmes.”

[Entrevistador 2] — “Não...” — [discorda] — “Mais do que já fomos?

[Entrevistador 1] — “Ele praticamente nos dobrou...”

[Entrevistador 2] — “Não, ele não nos dobrou, Harry. Só fomos prudentes.” — [Harry suspira e permanece em silêncio] — “Se tivéssemos trabalhado aquele transmorfo da mesma forma que fazíamos com pessoas comuns, com um único sopapo que ele desse em sua face, seu crânio iria virar uma massinha de modelar... Até ser abatido, estaríamos mortos. Portanto, todo cuidado é pouco. Não podemos arriscar nossas vidas por aqui.”

[Harry] — “Éh... Está certo, Frank.” — [acena positivamente] — “Talvez você tenha razão...” — [Harry dá o braço a torcer].

        Os dois, em postura reta em suas cadeiras e com seus antebraços postos à mesa, junto às suas mãos cruzadas uma para outra, olham fixamente para frente durante alguns segundos...

[Frank] — “Harry...?”

[Harry] — “Diga, Frank.”

[Frank] — “Cara ou coroa?” — [saca uma moeda e olha para Harry]. ”

[Harry] —"....”— [olha para Frank].



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