------ALEMANHA. BAIXA SAXÔNIA.18H00 DA TARDE. DIA NUBLADO. AMBIENTE GELADO. ESTRADA ASFÁLTICA COM VEGETAÇÃO DE PINHEIROS SILVESTRES. FUGA E REFÚGIO----

---- RÁDIO EM PLENO VAPOR. MÚSICA EM ANDAMENTO. VEÍCULO PESADO 4X4 DE COR VERDE----

        Bater de mãos sobre o volante. Ritmo empolgante. Feição lúdica. Agitação de cabeça. Fortes tons graves de gênero industrial. O sutil balanço corporal acompanhava o movimento musical. A rádio não decepcionava naquela tarde. Todas as vertentes mais entusiasmantes de suas bandas favoritas lhe sacudiam a alma, levando-o ao ápice do prazer aos sessenta quilômetros por hora naquele ambiente cercado pela mata. Cada música tocada era uma emoção diferente, mas sempre excitante. Era a vez das versões mais pesadas.

-------- >>>>>>> "Wumpscut - Ruber Corpse"

        Era o trajeto que sempre realizava para a sua casa. Mas o dia de sexta-feira, em particular, era o mais eletrizante para o motorista. Enquanto aproveita cada arrepio de seu corpo provocado pela música, o homem agarra sua embalagem de cigarros e acende uma unidade somente com a retirada de seu lacre, o que o fazia ser queimado em contato com o oxigênio. Acostumado com a rotina simples, mas confortável, aquele era só mais um de seus bem-sucedidos dias depois de um longo trabalho. 

        Ao contrário de muitos que terminavam exaustos, o felizardo reservava muita energia no auge de seus quarenta anos. Utilizava essa disposição para aproveitar a estrada e frequentar algumas discotecas. Estava caçando um local para se entreter, pois não queria terminar a sexta-feira no zero a zero. Como não queria perder tempo, o homem já antecipava as suas vestimentas e seus pertences pessoais para levar à farra. Estacionava em casas de banho para se higienizar e ficar bem arrumado. Gostava de dançar, patinar e de aproveitar as músicas que lhe cercavam. Mulher, era consequência. Vez ou outra transava. Mas quando fazia, transava bem. Não gostava de fazer nada pela metade. Quando não podia dançar, gostava mesmo era de dirigir sem rumo pela noite. Era o seu momento de lazer.

        Sua última tentativa de tragar o cigarro rosado é interrompida quando a música da rádio é subitamente substituída por notícias de caráter urgente. Os rasgos e ciscos atravessavam a música como quem rasga toda a sua excitação. Com o cigarro na boa, o sujeito estranha a radical mudança para um plantão jornalístico. Tentou trocar a estação de rádio por meio de comandos de inteligência artificial, mas todas haviam sido embargadas pelo mesmo motivo.

[Motorista] — “... Meu Deus..." — [olha para a estrada e para a computação embarcada] — "Sério isso?"

        Quando percebe que não poderia escapar das notícias de plantão, o homem desiste de mudar a estação de rádio e deixa a transmissão seguir o seu curso. Um pouco contrariado, mas curioso com o fato inesperado, começa a prestar atenção no noticiário enquanto termina de tragar o seu cigarro.

        "Um ataque massivo a uma casa noturna provoca medo e comoção no Estado de Nova York. A polícia contabilizou pelo menos 58 mortes brutais até o presente momento. Relatos informam que um homem de pele clara, cabelos pretos e lisos, dentes de tubarão e olhos extremamente escuros com um fundo branco, foi visto em um acesso de fúria enquanto matava impiedosamente todos os frequentadores que via pela frente. Sobreviventes relatam que o homem estava coberto de espetos ósseos e utilizava suas unhas afiadas para cortar a garganta das vítimas. Outras pessoas que conseguiram escapar do massacre, relatam que o criminoso se trata de um Super-Humano do tipo Transmorfo Puro. Em entrevista ao VBC News, o organizador do evento Whinston Regneck, lamenta profundamente o ocorrido e prometeu que colocará toda a Polícia de Nova York atrás do assassino. A motivação desse ataque brutal ainda não foi esclarecida. O Governo Americano vem acendendo um alerta para o perigo da manutenção de Super-Humanos em convívio com pessoas comuns e o alto risco de morte que a irritabilidade dessas criaturas pode provocar.

        Em nota, a Empresária Backstage Sonya Brian ressalta que os recentes ataques envolvendo matricídios e parricídios, assassinatos em série, matanças em escolas e estupros contra vítimas masculinas, não estão relacionados com a utilização de sua suplementação transmórfica pelos seus usuários, mas sim, com a manipulação genética clandestina para fins de criação indevida de SH's sem fiscalização e controle profissional. Recentemente, um pequeno laboratório em Wyoming foi fechado e seus médicos presos pela manipulação ilegal e não consentida de gametas para a criação de SH's. A elaboração e isolamento de Super-Humanos em laboratórios do Equador a pedido dos pais também levantam questionamentos acerca da criação de um ideal de um ser humano destemido, superdotado, belo e perfeito, bem como o preço dessa projeção nociva e narcísica pode trazer aos cidadãos, em especial, às famílias de crianças e adolescentes."

-------->>>>> Desliga o rádio.

[Motorista] — "Ah, para, né..." — [aborrecido] — "SH's são tão inteligentes, mas não se adaptam a uma civilização? Puff!" — [volta a fumar].

        Apesar da luz alta, o ambiente rodeado pela floresta negra escurecia a estrada. O homem percebeu que as lâmpadas de seu para-choque estavam defeituosas. O veículo era antigo, mas mesmo o suprindo por muito tempo, precisava fazer manutenções. Para que pudesse retirar as mãos do volante, decidiu deixá-lo no modo automático e ativar o GPS em direção ao destino pretendido.

-------[BOTÃO DE MODO AUTOMÁTICO LIGADO. O HOMEM SE ABAIXA PARA PROCURAR SEU MANUAL DIGITAL EM SEU PORTA-LUVAS]----

[Motorista] — "Aonde foi que eu deixei o manual... tsc! ... Que dia..." — [fecha o porta-luvas e ergue de volta para o volante] — "O que...!!" — [olhar sobressaltado].

----[FORTE COLISÃO DE CORPO SOBRE O VEÍCULO. BRUSCA INTERRUPÇÃO DO MODO AUTOMÁTICO. FREIO IMEDIATO. FORTE BARULHO DE BUZINA]----

[Motorista] — [feição de medo, desespero em sua face] — "Merda!"

        De respiração ofegante, olhar sobressaltado e boquiaberto, o homem deixa seu próprio cigarro sair de sua boca tal como seu mundo parecia cair diante de sua vista. Quando o homem menos esperava, um breve vulto em direção à estrada asfáltica se choca fortemente contra seu carro, a ponto de fazer o corpo da vítima rodopiar antes de cair em cheio ao piso umedecido pela garoa gelada. Espremido contra o banco estofado de seu veículo, de mãos na cabeça e cabelos despenteados de tamanha desilusão, o proprietário aperta o volante de seu carro com toda a sua força antes de sair trêmulo do automóvel avariado. De tamanha tensão, o homem quase arranca a porta de seu veículo com seus próprios braços.

        Ao sair do carro, o homem caminha sob hesitantes passos rumo à vítima que estava caída no chão. Com o céu nublado, escuro e prestes a gotejar, o motorista somente conseguia respirar pela boca. A cada expiração, uma boa dose de fumaça quente denunciava sua adrenalina. Para a sua sorte, o homem que atropelou foi encontrado sentado no asfalto, de olhar amedrontado, joelhos dobrados e em posição de defesa com um caco de vidro em suas mãos. Estava com maquiagem borrada em seus belos olhos e seus lábios pareciam tão travados e tristes que só abriam com um pé de cabra. Sua pele era tão polida que nem mesmo se podia ver os seus poros. Cabelos e olhos castanhos arroxeados. Punhos tensos e cerrados. O homem somente usava uma calça de inverno, um sobretudo de gola felpuda e um par de botas tratoradas.

        Quando percebe que o homem que havia atropelado estava vivo, um misto de alívio e renascimento bombeia novamente o seu peito, reflexo de uma das suas mãos colada em seu tórax e de seu rosto virado para cima para se recompor. Ao abrir os olhos e voltar sua atenção para a vítima, esse, o homem, se dá conta de que o sujeito que está na sua frente era, na verdade, um SH. Sua pele, olhos e perfil físico não enganavam. É o momento em que seu misto de fúria contida e incredulidade começa a entrar em ebulição.

[Motorista] — [respiração ofegante] — "Mas... que merda é essa?" — [entre risos e raiva] — "Você ficou maluco, cara?!" — [incrédulo] — "Passar assim na frente do meu veículo, você perdeu a noção?! Você estragou o meu veículo, seu SH filho da puta!" — [dedos sobre a laterais da cabeça].

        Ao escutar os impropérios proferidos pelo homem, a vítima nada diz, apenas se cala em feição de medo e tristeza.

[Motorista] — "E se você fosse um normie, hein?! Caralho, eu podia ter te matado! Você teria me colocado pelo resto da vida na cadeia!!" — [grita em protesto e indignação].

        A voz de raiva e frustração do homem ecoa por toda a floresta. A vítima do atropelamento, ainda sob posição de defesa, tenta se explicar.

[Motorista] — "Por isso que vocês SH's não sabem viver em sociedade, acham que podem tudo! Acham que a vantagem biológica de vocês os livra de cumprir as leis!" — [aponta para a vítima] — "Como vai ficar o pagamento do conserto?!" — [franze seu rosto].

[Vítima] — "Escute... eu..." — [feição trêmula].

[Motorista] — "Não!" — [aponta o dedo] — "Eu vou processar você, SH...! Me espere! Vai ter que trabalhar pra pagar o conserto do meu carro!..." — [risos e feição de raiva, movimentação dos braços para cima] — "O que você tem a dizer agora?" — [aborrecimento].

        De rosto franzido, mas apavorado, o rapaz atingido pelo carro pensa por alguns segundos antes que sua garganta pudesse se destravar para criar coragem e contar a sua situação. O motorista percebe que estava passando do ponto quando acende a forte luz da lanterna de seu controle remoto e vislumbra a face triste e desesperada da vítima. Algumas marcas vermelhas na sua pele denunciavam que havia sido machucado por alguém. Dos seus olhos, o borrão escuro derrubado por lamentos. Em uma de suas mãos, o enorme caco de vidro afiado, pronto para perfurar alguém. Não estava bêbado, ou mesmo aparentava estar drogado. Estava bastante assustado.

[Motorista] — "Caramba... Você tá mal mesmo..." — [desfaz a raiva de seu rosto] — "O quê que tá pegando, cara? Tá fugindo da polícia? Pra quê essa arma na mão?"

--------[ENGOLINDO SECO. MOVIMENTAÇÃO TRAVADA DO ROSTO. PISCARES DE OLHOS]--------   

[Vítima] — "Boa noite..." — [meio sorriso assustado, feição travada] — "O meu nome é Tallus..." — [espreme o caco de vidro] — "Desculpe ter estragado o seu carro, mas eu estou tentando me esconder dos meus cinco estupradores..." — [trêmulo] — "Um deles é um Diretor de filmes pornô e ele me tortura todos os dias pra vender vídeos pra internet..." — [alguns segundos de silêncio, feição de receio misturado a um meio sorriso] — "Isso não é piada... E sinceramente... quem dera eu estivesse fugindo da polícia..."

[Motorista] — [feição de espanto e confusão].

        Tallus, que ainda estava no calor da perseguição, não acreditava que teria alguma credibilidade perante o desconhecido que o atropelou. Mas, no meio daquela floresta, era o único auxílio que lhe restava. Para não levantar suspeitas e terminar sendo evitado pelo motorista, o SH se levanta devagar, e de mãos para cima.

[Tallus] — "Eu sei que isso vai parecer loucura, mas preciso que me esconda no seu carro e me leve pra qualquer lugar longe daqui." — [feição sutilmente agônica].

[Motorista] — "Espera aí, que parada é essa, amigo?" — [receoso e em posição de recusa] — "Tá querendo que eu te acoberte? No meu carro?" — [aponta para o carro com o polegar para trás].

[Tallus] — "Sim... quero..." — [feição assustada].

[Motorista] — "Arrssha...!" — [mãos deslizando sobre o rosto sob feição irônica].

        Incrédulo, irritado e relutante ao pedido de socorro de Tallus, o homem caminha em círculos pelo asfalto na tentativa de processar o que estava acontecendo. De baixíssima tendência a confiar nos outros, pela primeira vez se vê confuso diante daquela situação.  Percebendo que não iria chegar a um consenso com o motorista, Tallus tenta amenizar as tensões entre os dois.

[Tallus] — "Olha... eu entendo que você não me conhece, e que por isso não confie em mim, mas estou disposto a fazer tudo o que você quiser, eu dou a minha palavra." — [gesticula com dedos sobre o peito] — "Eu me escondo no porta-malas, vou pra onde você me levar, pode me deixar até num matagal, mas preciso que me leve pra longe daqui...!" — [aflito].

[Motorista] — "Calma aí, cara, você tá me metendo numa enrascada e eu não tenho nada a ver com isso...! Vá procurar ajuda em outro lugar."

[Tallus] — "Eu sei que você não tem, mas eu não encontrei ninguém que possa me ajudar, eu estou perdido…!" — [insiste].

[Motorista] — [sob risos de estresse] — "Tá bom, filho, mas a cidade é logo ali, ok? É só você correr e pedir ajuda, qual a dificuldade disso? Você não tem nenhum lugar pra ir?" — [feição de estranhamento].

[Tallus] — [nega rapidamente com a cabeça] — "Eu não tenho... não tenho nenhum lugar pra ir... Você não entende a minha situação…!" — [aflito, aponta para si].

[Motorista] — "Você é que não entende a minha situação, colega! Eu estou aqui com um SH, que tem pelo menos MIL vezes a minha força, você acha que eu nasci ontem?" — [sorriso de raiva].

[Tallus] — "Olha, nós não temos tempo pra isso, precisa apagar as luzes do seu carro antes que eles cheguem..." — [assustado] — "Eles são doentes...!" 

[Motorista] — "Qual é, cara, eu nem te conheço, quem garante que eu não estou lidando com um golpista? Você é um SH! Não pode dar um jeito neles?" — [relutante].

[Tallus] — "Eles estão armados com AR's e não tenho pra onde correr...! Me ajude, por favor!" — [feição de súplica discreta].

[Motorista] — "E você vem correr atrás de mim, caralho?! Por que não chama a polícia?!" — [irritado e eufórico].

[Tallus] — "EU NÃO SOU CIDADÃO!" — [grita furioso].

[MOTORISTA SE AFASTA PARA TRÁS. COSTAS SE ENCOSTAM NO VEÍCULO. A MÃO SEGURA A LANTERNA COM CERTA FORÇA. FEIÇÃO DE ESPANTO].

        Alguns segundos sombrios de silêncio são mantidos entre os dois cúmplices. O tom vermelho assume a ambientação florestal, e alguns pequenos raios elétricos começam a se manifestar nos céus. Pela primeira vez, Tallus percebe o quão assustado havia deixado o homem que o havia atropelado. Com medo de reagir diante do tom assustador e furioso da vítima, o motorista esconde uma de suas mãos para trás como um sinal de alerta. Caso precisasse, estaria pronto para disparar contra Tallus um dispositivo neutralizador que carregava consigo. Notando o seu erro em tentar convencer o homem de sua confiança, a vítima muda sua abordagem para tentar acalmá-lo.

[Tallus] — "Nenhum policial me escuta ou me atende porque um SH não tem direitos fundamentais na Alemanha... Então de nada adianta recorrer a eles." — [feição de seriedade]. 

[Motorista] — [encara atentamente].

[Tallus] — "Este dispositivo aqui... Veja." — [vira de costas e exibe sua nuca].

        O homem, ainda sobressaltado, aproxima seu rosto devagar, vislumbrando o dispositivo na nuca de Tallus.

[Tallus] — "Esse negócio aqui não sai." — [vira-se] — "Toda vez que tento tirar esse aparelho, eu levo uma descarga elétrica e desmaio..."

[Motorista] — [observa atentamente Tallus].

[Tallus] — "Meu objetivo é fugir para o mais longe daqui para que o aparelho se desvincule de onde estejam os que controlam o dispositivo. Assim, eles não conseguem me abater, e eu dou um jeito de fazer esse aparelho estragar... O único jeito de me livrar deles é invalidar o aparelho, me distanciar deles, ou cadastrar um novo Tutelar..."

--------------[AMBIENTE ESCURO E PRESTES A CHOVER. CÉU CARREGADO DE NUVENS VERMELHAS]--------------------

        Percebendo que a arma que estava atrás de si poderia ser uma garantia contra eventual ataque de fúria de Tallus, o motorista se sente um pouco mais confiante em negociar a fuga da vítima.

[Motorista] — "Ok..." — [um pouco nervoso] — "Deixe eu ver se eu entendi... Seu objetivo é se livrar dessa coisa que está na sua nuca..."

[Tallus] — "Sim, isso." — [balança rapidamente a cabeça em expressão de medo e alívio].

        Ainda hesitante em depositar a confiança em um SH que havia acabado de atropelar, o homem, de olhar suspicaz e de estômago apertado, demora alguns segundos para decidir seu próprio destino e o de sua vítima, que só poderia contar com sua boa vontade. Como era um homem que não contribui sem obter vantagens, conclui que somente sairia de cena sob suas condições.

[Motorista] — "... Ok... Se eu te levar comigo..." — [aponta para Tallus] — "... você vai me ajudar a consertar meu..." — [brusca interrupção].

.....[Som de assobio]....

Ambos os cúmplices viram seus rostos e observam de longe uma pequena figura masculina acenando com uma das mãos para cima e exibindo um sorriso aparentemente alegre e cortês. O sujeito usava luvas marrons, calça social preta e camisa regata branca. Seu penteado era raspado nas laterais e de sua orelha e lábios, era ligado uma estrutura metálica, que pareciam um piercing. Tallus se ajoelha para que eventualmente não fosse reconhecido. Como resposta automática, sob feição confusa e temerosa, o motorista devolve o estranho cumprimento de maneira tímida e com ressalvas. A pequena figura confirma a presença dos homens e cobre a sua cabeça com um chapéu trilby antes de caminhar para trás.

[Motorista] — “Eu acho que viram a gente...” — [desconfiado].

[Tallus] — [tenso] — “...E quem era?” — [fita o homem].

[FORTE EXPLOSÃO DE UM TIRO PELOS CÉUS. JATOS DE COR VIOLETA LANÇADOS DE MANEIRA ALEATÓRIA. EXPLOSÃO DE UMA DAS ÁRVORES. DANO AMBIENTAL CONSIDERÁVEL].

[Motorista] — "Merda!" — [se assusta].

[Tallus] — "Se abaixa!" — [se mantém abaixado enquanto corre].

            Em um súbito disparo de dispersão, os dois homens se assustam com o forte som vindo de quilômetros de distância. Quando menos esperavam, os dois cúmplices se viam imersos em centenas de rajadas de arma de fogo restrita, alvos de inúmeras tentativas de alvejá-los. 

[Motorista] — "MERDA!" — [corre desorientado].

[Tallus] — "Entra no carro!!" — [pega o homem pelo braço e o empurra contra o seu veículo].

        Em um acesso de adrenalina, o motorista rapidamente entra no veículo enquanto Tallus adentra na entrada do banco passageiro. Sob disparos de AR, o veículo parte em retirada cantando pneus para longe dali. Com certo esforço, Tallus consegue fechar a porta do veículo no momento em que este efetuava solavancos intermináveis. Já o proprietário, estava com o coração na mão. 

Para se desviarem dos seus perseguidores, o proprietário desvia seu automóvel para a área vegetativa, sofrendo diversos solavancos enquanto tentava escapar das rajadas de tiros. Apesar da presença das gigantescas árvores, a área era aberta e com trilhas de passagem.

[Motorista] — "Cacete..." — [ofegante] — "O quê é que foi aquilo?" — [assustado].

[Tallus] — "Deixa no automático e se abaixa!" — [mãos sobre a cabeça].

        Em um único movimento rápido, o motorista aciona o modo automático de seu veículo, e, deitado sobre o banco, programa o automóvel para se dirigir em sentido contrário ao caminho que antes efetuava.  O carro, aos cantos de pneus, finalmente sai da floresta por um pequeno declive e permanece seu caminho pelo asfalto. 

[Motorista] — "Escuta... de onde você arrumou essas figuras?!"

[Tallus] — "Eu não arrumei, eles é que me sequestraram...! Você sabe como camuflar a placa?"

[Motorista] — "Não...! E não tem nenhum token pra isso...!" — [tenso].

[Tallus] — "Me dá seu celular, tem o aplicativo dele...!" — [estende a mão].

        O homem não enxerga outra alternativa senão depositar algum nível de confiança sobre o SH. Ele entrega o seu aparelho telefônico a Tallus, que rapidamente configura a camuflagem dos reais números da placa do veículo. Não demorou dois minutos para que a operação fosse concluída. Tallus entrega novamente o celular para o motorista.

[Motorista] — "O que você fez?" — [desconfiado].

[Tallus] — "Coloquei o telefone no modo desenvolvedor e acessei o token virtual. É só por um tempo até ficarmos longe deles... Onde estamos indo?"

[Motorista] — "Pra um bar no outro lado da cidade... É uns cinquenta quilômetros daqui, então eu só espero que toda essa confusão tenha valido a pena..." — [irritabilidade].

[Tallus] — "Não é minha culpa, tá legal? Eu sou a vítima nessa história." — [retruca].

[Motorista] — "..." — [olhar contrariado].  

        Fumaça se exala. Luzes frontais se apagam. Mesmo sob diversas perfurações e de aspecto de moral baixa, o veículo segue resiliente e triunfante pela estrada como se nenhuma bala o tivesse atingido. Os seus hóspedes se mantêm fora do campo de visão externo até que o trajeto seja cumprido.

-----------19H10 DA NOITE. BAR DE LUZES VERMELHAS AFASTADO DA CIDADE. CARROS NO ESTACIONAMENTO. CLIMA GÉLIDO.------------------------

        O veículo esverdeado estaciona em um dos espaços onde mais se reserva uma montanha de neve envelhecida misturada à terra. De céu escuro e ambiente gelado, o automóvel lotado de buracos em sua superfície se torna alvo de diversos olhares por quem atravessava os arredores do bar. Uma visão geral de estranhamento é lançada contra a dupla que sai do carro. A beleza de Tallus vira o centro das atenções de 80% dos frequentadores do local. Algumas para condená-lo, outras para admirá-lo. A primeira coisa que notam no SH, é a ausência de uma vestimenta para aquecer o peito por debaixo daquele enorme sobretudo. Os dois adentram mansamente o estabelecimento sem fazer alardes e procuram manter certa naturalidade diante da tentativa de assassinato que há pouco tempo sofreram.

............Ligação telefônica no banheiro.

[Motorista] — "Sim, é esse endereço que eu te falei, lá na região de floresta, próximo de uma placa de aviso laranja..." — [pausa] — "Tentaram nos alvejar várias vezes com tiros de arma restrita, uma árvore até foi destruída." — [pausa] — "Sim, tinha uma pessoa comigo..." — [pausa] — "Não, ele é um SH." — [pausa] — "O meu nome é Waldemar... Tenho quarenta e um anos" — [pausa] — "Ok, obrigado." — [desliga].

............Saída do toalete.

        Olhando para os lados, mas sem perder a discrição, Tallus aproveita um conhaque posto em um copo de dose para aliviar um pouco da tensão. Para resguardar sua origem, o homem precavidamente mantém seus cabelos para trás, de maneira que tampe o dispositivo de sua captura por completo. Ao fundo, músicas do gênero "Nu Metal" e variações de Rock, Country e Blues. Logo de cara, um dos garçons que limpava os talheres lhe destilou veneno com os olhos. Tallus não sabia se o semblante era de repulsa ou fetiche. Continuou a beber como se nada tivesse acontecido. Algumas mulheres o flertaram enquanto estavam na companhia de seus namorados. O ambiente vermelho dava um tom mais aconchegante para o bar. Volta e meia, podia ser sentido o aroma dos hambúrgueres e das batatas fritas. As janelas eram escancaradamente abertas para que houvesse ventilação para os mais calorentos. Os bancos, eram todos quase em formatos de ovos, mas cobriam bem as costas e eram bastante estofados. Tinham reguladores de altura e um bom apoio para os pés. Televisores transmitiam as partidas de futebol e alguns apostadores ficavam mais ao fundo. O novato, não conhecia ninguém que fosse de sua terra e tão pouco que se parecesse consigo. Sentia uma certa inadequação naquele ambiente. De fora do estabelecimento, o veículo cheio de perfurações estava provocando desconfianças nos motociclistas daquela região. Uns paravam para vislumbrar o carro avariado, outros, caminhavam com os pés e colavam com os olhos. 

....... Saída do toalete.......

        Em menos de alguns minutos, o homem que forneceu a sua fuga aparece para lhe fazer companhia por pelo menos algumas horas antes de partirem em retirada. Para que não virasse alvo de conspirações por motociclistas de origem duvidosa, o homem logo estende sua mão oferecendo um pedaço de lenço demaquilante.

[Waldemar] — "Toma. Limpe essa maquiagem dos olhos, senão vai chamar a atenção de extremistas aqui." — [senta-se no banco].

               Com feição de estranheza, Tallus fita Waldemar enquanto um dos empregados do bar os observa sob olhar enviesado e de desconfiança.

[Garçom] — [encara Waldemar] — "Aí... esse rapaz aí é seu?" — [indaga enquanto limpa um dos pratos].

[Waldemar] — "É meu funcionário, ele é novato." — [corta a intromissão do homem].

[Garçom] — [com semblante de tranquilização, distancia-se do balcão e vai para a cozinha].

        Sem dizer uma palavra, Tallus pega o objeto limpante e retira toda a tinta negra ao redor de seus olhos. Ao fitar novamente o seu cúmplice, o mesmo o aprova com um sinal de positivo.

[Tallus] — "O que ele quis dizer com 'seu'?"

[Waldemar] — "Depois eu explico, agora não... Tá cheio de membros da 'gangue do carneiro de chifres' por aqui, todo cuidado é pouco."

[Tallus] — "Não sabia que as pessoas daqui são neuróticas. Onde pegou isso?"

[Waldemar] — "Eu carrego comigo." — [mexe na carteira] — "Quer comer alguma coisa?"

[Tallus] — "Melhor não. Com a quantidade de comida que eu como, eu vou terminar te falindo." — [bebe].

[Waldemar] — "Deixa de docice." — [quase ri] — "Comida aqui não é uma fortuna... Anda, peça alguma coisa." — [insiste].

        Tallus, de olhar resignado e sorriso de canto, decide não resistir à boa vontade de seu colega. Estava faminto, e havia corrido centenas de quilômetros para fugir de seu cativeiro.

[Tallus] — [coça a sobrancelha] — "Bom... então eu quero uma água, uma batata frita gigante e mais um conhaque..."

[Waldemar] — "Tá fraco, hein? Pra um SH, você é moderado demais." — [olhar de deboche] — "Dois sanduíches de frango, duas batatas fritas gigantes, duas tortas de frutas vermelhas, uma água mineral, dois conhaques e um refrigerante de 500 ml, por favor..." — [diz enquanto se mantém de frente a um tablet acoplado a um microfone].

..........."Mais algum pedido?" — [voz robótica].

[Waldemar] — "Por enquanto é só isso. Debita tudo na minha conta, por favor..."

        Tallus sorri inclinando a cabeça para baixo.

-----------[PAGAMENTO LANÇADO DE FORMA INSTANTÂNEA]-------

[Tallus] — [surpreso] — "Bem prático." 

[Waldemar] — "Se eu tiver que gastar mais de dois minutos fazendo um pedido, eu nem volto mais em um restaurante..." — [encosta seu cotovelo sobre a bancada] — "Então... o seu nome é Tallus."

[Tallus] — "Éh. E o seu?" — [fita o cúmplice].

[Waldemar] — "Waldemar..."

[Tallus] — "... Prazer em conhecê-lo, Waldemar."

[Waldemar] — "O prazer é meu."

        De forma discreta e descontraída, os dois homens chocam seus copos um ao outro como forma de cumprimento. Por um breve momento, Tallus repara o patrocinador de sua fuga de maneira um pouco mais persistente. Já o motorista, sequer nota a estranha atenção de Tallus. Somente quando o fugitivo volta à sua discrição é que seu cúmplice retorna sua visão para o SH.

[Tallus] — "Trabalha com o quê, Waldemar?"

[Waldemar] — "Engenheiro de sistemas durante o dia e dançarino nas horas vagas. Trabalho no serviço público."

[Tallus] — "Você dança?" — [curioso].

[Waldemar] — "Toda sexta à noite eu saio pra dançar. Eu faço isso desde os meus 16 anos."

[Tallus] — "Olha..." — [admirado].

[Waldemar] — "Eu já ganhei várias competições de dança e fui até premiado pelos jornais Baixa Saxônia. Dançar é meu esporte favorito."

[Tallus] — "Hum." — [olhar para baixo, sorriso tímido] — "Admirável."

[Waldemar] — "Mas e você? O que fazia antes de toda essa confusão acontecer?"

[Tallus] — [leve riso] — "Meu último trabalho foi como circense e fazendo peça de teatro." — [leve sorriso].

        Como quem deixa libertar uma criança dentro de si, Waldemar se mostra positivamente impressionado com a resposta de Tallus.

[Waldemar] — "É sério?..." — [surpreso].

[Tallus] — "Sério. Eu já fiz de tudo, até palhaço eu fui."

[Waldemar] — "Ah, você tá de brincadeira...! Você já foi palhaço, cara?" — [empolgado].

[Tallus] — "Eu já fui palhaço." — [balança positivamente a cabeça].

[Waldemar] — "Caramba, que legal, cara..." — [admirado].

[Tallus] — "Se eu conseguir resgatar a minha mala, eu quero te mostrar o meu nariz roxo que eu guardo por lá. De todas as exibições que eu fazia, a palhaçaria era a que eu mais gostava."

[Waldemar] — "Eu admiro quem faz circo e teatro. Eu sempre gostei desde pequeno." — [bebe a água].

[Tallus] — "Eu gostava muito de fazer peças teatrais e de participar de circos, me equilibrar em cordas, fazer pirotecnia..." — [olha para baixo] — "Inclusive foi nesse lugar onde eu fui..." — [olhar de canto, levantar de ombros] — "raptado."

[Waldemar] — "Caramba..." — [feição de temor].

[Tallus] — "Longa história... depois eu explico. Mas foi uma das coisas que mais me fez sentir vivo, apesar dos pesares."


--------GARÇON CHEGA AO BALCÃO COM A FARTA REFEIÇÃO-------


[Waldemar] — "Chegou a boia." — [pega os talheres] — "Pode ficar à vontade e comer o quanto quiser, eu vou devorar os meus."

[Tallus] — "Foram rápidos, hein?" — [feição de admiração].

[Waldemar] — "Por isso que gosto daqui." — [pega uma garrafa de vidro] — "Refrigerante?"

[Tallus] — "Aceito." — [estende a mão com o seu copo].

        Para comemorarem o fato de ainda estarem vivos, ambos aproveitam os minutos mais saborosos de seus dias após o estranho incidente que envolvera os dois homens. Enquanto a maioria dos frequentadores deixava o que não conseguiam colocar no estômago para os funcionários da casa, Waldemar e Tallus não decepcionam: seus copos e pratos terminam completamente limpos. Nenhum desperdício era tolerado naquele país. Ou o cidadão comia, ou levava tudo para casa. Após três horas de estadia no bar, os fugitivos se mostram satisfeitos e decidem se retirar de suas bancadas.

[Tallus] — "Waldemar... me ajuda com minha nuca."

[Waldemar] — "Me segue."

        Ambos os homens saem de suas cadeiras. Quando são substituídos por outros clientes, os rapazes são vistos indo ao banheiro ao mesmo tempo. Em poucos minutos, um dos funcionários atrás da bancada os segue até o toalete para bisbilhotar o que estavam fazendo.

--PORTAS SE ABRINDO. LUZES ACESAS. SONS DE ÁGUA CORRENTE--

        Ao adentrar ao local, o vigilante se depara com os dois homens em frente aos lavabos. Um deles, fazia um enxágue bucal, e o outro, lavava o rosto com bastante água e sabão. Nos baldes de lixo, alguns fios higiênicos são vistos descartados. No extremo oposto de onde Tallus e Waldemar estavam, um recipiente de enxaguante junto a mais duas caixas de fio dental, um prestobarba, objetos cortantes e um vidro de sabonete líquido próximo a escovas dentais descartáveis, haviam sido manuseados há pouco tempo. Como estavam apenas fazendo a higiene de rotina, o empregado do estabelecimento se retira do toalete e volta à bancada. 

        Ao finalizarem a limpeza, os cúmplices fitam um ao outro de maneira que ambos percebam o que cada qual pensou quando o funcionário os seguiu. Ato contínuo, os dois olham para a entrada do toalete e ficam alguns segundos silentes. Por detrás dos cabelos remexidos de Tallus, o seu discreto aparelho atrelado à sua nuca é novamente tampado pelas suas mãos.

[Waldemar] — "Melhor darmos um fora daqui logo..." — [desconfiado].

[Tallus] — "Concordo..." — [atento].

        A noite finalmente cai. As cortinas escuras cobrem os céus e o ambiente se torna gélido de exalar fumaça pelas ventas. Os homens mal haviam saído do estabelecimento e já se deparam com a formação de cobertores de neve pelo asfalto e calçadas. De um lado da cidade chovia, do outro, nevava. Um verdadeiro caos. Antes que pudessem botar as mãos no veículo esverdeado, um dos proprietários que tinha Waldemar como seu compadre, nota a presença de Tallus.

[Proprietário] — "Senhor Waldemar! Como vai? Quanto tempo, chefe!"

[Waldemar] — "Missione...!" — [aperto de mãos] — "Bom vê-lo, também." — [sorriso contido].

[Missione] — "Então, o que achou do cardápio de hoje?"

[Waldemar] — "Excelente, nunca falha. Como vão os pequenos?"

[Missione] — "Ah, estão um primor. A minha filha mais velha vai suplementar ainda essa semana, e o novo filho mais novo, que enviamos o embrião pro Equador, fica pronto na segunda-feira."

[Waldemar] — "Que maravilhoso, cara...!" — [feição de ânimo].

[Proprietário] — "Nossa, meu peito tá pra explodir! Mal posso esperar pra tê-lo de volta pra casa."

[Waldemar] — "Vai ser uma criança fantástica."

[Missione] — "Com certeza, que assim seja..." — [fita Tallus] — "E esse rapaz que está com você? É colega novato?... Bonito, hein?" — [impressionado].

[Waldemar] — "Ele é meu funcionário, cuida de tudo lá em casa. É o mais competente que eu achei."

        Tallus exibe um simpático sorriso e estende a palma de sua mão para cumprimentar o dono do bar. Em retribuição, o homem devolve o cumprimento com um sinal de continência.

[Missione] — "Bom...! Hoje em dia faz falta um secretário decente que cuide da casa." — [sorri] — "As garotas que eu contratei são preguiçosas que só o diabo, mas ainda gosto delas...!" — [cede uma piscadela].

        Ambos os cúmplices deixam escapar alguns discretos risos, que mais camuflavam seus receios de serem descobertos do que refletiam um alívio cômico. O veículo que utilizaram para efetuar a fuga estava coberto de perfurações, o que não apenas despertou a curiosidade de passantes que frequentavam o local, como também cresceu os olhos dos principais suspeitos do bar: o funcionário por detrás da bancada, os motociclistas 1% e do próprio dono do estabelecimento, que apesar de sua conduta amistosa, também não é confiável. Tallus percebe diversos olhares vindos de dentro e fora do bar e Waldemar nota que o rapaz estava sendo visado por "caçadores". O veículo dava sinais de que havia sido atingido por balas de uma AR legítima. Quando algo é destruído por armas dessa natureza, era sinal de que o alvo almejado continha grande valor: Tallus. O único SH hospedado naquela região. Ser perseguido por quem possui uma AR lhe deixava marcado como piche para os "carneiros de crânio".

        Alguns neonazistas se aproximam vagamente de Missione para escutarem sua conversa com Tallus e Waldemar. O fugitivo recente, aparentava sutil nervosismo em sua face.

[Missione] — "Caramba, o que fizeram com seu carro?"

[Waldemar] — "Me pareceu uma tentativa de assalto...!" — [levantar de braços e feição de conformismo] — "Estávamos indo pra casa quando vimos uma rajada de tiros contra nós. Do nada...! Até uma árvore foi destruída. O porquê, eu não sei, não me pergunte..." — [jogada de mãos a partir de sentidos opostos uma contra a outra] — "Mas assim... eu tenho seguro, então o prejuízo não foi tão grande."

[Missione] — "Santa mãe, e isso foi quando?" — [estranhamento].

[Waldemar] — "Hoje mesmo...! No final da tarde... Assim, eu e o meu colega estamos fingindo que nada aconteceu, mas a verdade é que ainda estamos bastante assustados com isso, foi tudo muito rápido..." — [semblante de seriedade].

[Missione] — "Eu imagino..." — [fita o veículo] — "Cara, vocês sobreviveram por milagre, isso aí foi tiro de AR, que coisa horrível." — [encabulado] — "Isso é bastante sério, chamaram as autoridades?"

[Waldemar] — "Sim, liguei pra eles no banheiro, mandei a localização e tudo..."

[Missione] — "Poxa, cara, que situação, eu sinto muito por isso. Se precisar de alguma coisa, é só falar comigo.

[Waldemar] — "Ah, não, claro, pode deixar, eu te chamo sim quando precisar. Mas tá tudo bem, o pior já passou." — [sinal de positivo] — "Estamos indo nessa." — [despede].

[Missione] — "Se cuidem, hein? E comprem coletes anti-AR, me mandem mensagem quando chegarem em casa." — [sinal de positivo].

[Waldemar] — "Pode deixar!" — [sinaliza positivamente enquanto adentra ao veículo].

        Sob olhares de desconfiança e curiosidade, Tallus e Waldemar adentram o veículo com certa pressa. Em uma estranha sincronia entre os dois homens, ambos são atingidos por um mesmo pressentimento de quando saíram do toalete.

[Tallus] — "Está pensando o mesmo que eu?"

[Waldemar] — "Não pense, dirija."

[Tallus] — "Pra onde vamos agora?" — [fita o amigo].

[Waldemar] — "Pra um hotel bem longe daqui."

        Tallus programa a viagem da computação embarcada para dirigir rumo a um hotel distante de onde estavam. Sem um rumo certo, os dois homens deixam que o veículo escolha a hospedagem que mais combinar com o padrão de buscas e preferências de seu proprietário. A procura por um bom esconderijo não durou mais do que trinta minutos. Cansados e entediados, ambos os homens saem silentes do veículo após a chegada no estacionamento e fazem o check-in para o quarto mais simples.

------------ HOTEL DOLPIN INN GERMANY. 23H DA NOITE. --------------

[Waldemar] — "Pode ligar a TV se quiser. Aqui na mala tem desodorante, produtos pra cabelo, sabonetes e..." — [esfrega o rosto em um visível semblante de sono] — "Ali tem um roupão de dormir, e lá embaixo tem uma lavanderia..." — [boceja].

[Tallus] — "Escuta, você acha que aquele Missione não é meio suspeito?" — [retira o casaco].

[Waldemar] — "Olha, eu realmente não tenho condição de conversar sobre isso agora, tá...? Eu tô muito cansado. Só vou fumar um cigarro e vou capotar na cama." — [cambaleante].

[Tallus] — "Não vai tomar banho?" — [fita o homem].

[Waldemar] — "Amanhã cedo eu tomo... Ah! O café da manhã é das sete às dez... Não se atrase." — [desliga a luz].

        Após desligadas as luzes, Tallus escuta alguns sons de vidros quebrados vindos de fora do hotel e discretamente se aproxima de uma das janelas para abrir um pouco as cortinas. Por ser uma galeria quadriculada de três andares, era mais fácil a detecção do foco do barulho. Tallus vislumbra dois veículos pretos e extravagantes, ambos sob ornamentos prateados aliados a chifres, estacionados em duas vagas próximas à do veículo de Waldemar.

        Os homens que seguiam para a recepção eram, ao todo, oito pessoas. Alguns mantinham garrafas de vidro nas mãos. Outros, carregavam escopetas nas costas. Por sorte, pareciam armas de fogo tradicionais que não machucariam o SH. O mais gordo e corpulento, era Missione. Tallus, logo liga os pontos.

[Tallus] — "Merda... Sabia que tinha algo de errado com esse cara..." — [olha Waldemar dormir profundamente] — "Não posso deixar ele aqui só..." — [sob olhar sério, fecha subitamente a janela].

          Para garantir de que nenhum dos marginais estava se direcionando para o quarto de onde estavam, Tallus revira a mala cobreada de Waldemar a fim de encontrar algo que possa ser utilizado como arma de defesa. Para sua sorte, Tallus achou uma submetralhadora travada e acoplada a um silenciador.

   Em busca de algo que contenha as balas, o SH consegue apanhar duas caixas cheias de cartuchos da arma de fogo e carrega o instrumento. Seria o suficiente para afastar Missione. De maneira que não perturbe o sono de Waldemar, Tallus fecha todas as janelas, tranca todos os vidros, apaga todas as luzes e espiona os movimentos dos oito hóspedes pelos andares do hotel. Por sorte, estavam subindo pelo bloco direito de onde estava. Dois deles adentraram ao quarto 202-D. Outros três, o 203-D. Mais dois indivíduos caminharam por mais alguns metros de maneira que saíssem do campo de visão de Tallus. O SH escuta uma porta se bater em meio a risadas. Já Missione, é o último a surgir das escadarias, munido de uma escopeta. Diferente dos outros, era o único que não estava buscando um quarto para dormir, já que o homem se movimentava por todo o corredor, olhando de um lado para o outro. O alvo de sua caçada, era quase certo que era Tallus.

[Tallus] — "Merda..." — [revira a mala].

        Apesar de parecer uma arma tradicional nas mãos de Missione, Tallus começa a perceber que um símbolo roxo e branco na superfície do instrumento poderia sinalizar que a escopeta seria "envenenada" para disparar balas projetadas para AR's. Tudo que o fugitivo mais temia, era levar um disparo desse projétil. 

        De forma muito sorrateira, Tallus sai do quarto de onde Waldemar dormia e fecha lentamente a porta para que não fizesse barulho. Como bem sabia o caminho percorrido por Missione, cedeu alguns passos para trás, observando atentamente o corredor à frente. Com medo de Missione estar se dirigindo até o bloco em que estava hospedado, Tallus rapidamente usa de um sofisticado espelho que estava próximo à parede do hotel para se camuflar nos corredores. O objeto era grande o bastante para esconder todo o seu corpo. Mal sabia Tallus que Missione estava escondido junto ao corredor que dividia os blocos do hotel. O proprietário do bar já havia se precavido da movimentação de Tallus. 

-------SOM DE DESTRAVAMENTO E RECARREGAMENTO DE ARMA DE FOGO--------

        Ante a incerteza da real natureza da escopeta que era carregada com Missione e pela ausência de alguma vestimenta à prova de armas restritas, Tallus não enxerga outra alternativa que não fosse atrair o seu perseguidor para que este desse as caras à luz do corredor laranja e vermelho. Dando passos para trás para que chegasse perto das escadarias, o fugitivo se posiciona próximo à parede adesivada de maneira que mantenha um disfarce por meio do reflexo do espelho. Como o objeto tinha um suporte por trás, ficaria mais fácil para Tallus se manter escondido. De dentro de seu bolso, o SH retira um pedaço de uma folha de metal pela qual era utilizada para cobrir um chiclete de maçã e o coloca sobre o aparelho em sua nuca de maneira que pudesse prensar as extremidades da folha logo abaixo do dispositivo. O seu intuito, era bloquear sinal de transmissão que se conectasse com o dispositivo utilizado para sua servidão.

        Missione tinha certeza de que havia encurralado Tallus, mas não tinha conhecimento de que o mesmo estaria escondido atrás de um espelho. Com total certeza de que o corredor estava limpo, o homem deu de cara com a claridade da luz, no extremo oposto de onde Tallus se escondia. Olhando de um lado para o outro, caminha alguns passos para frente enquanto mira seu instrumento para onde era a porta do quarto de onde estava Waldemar, vulnerável feito uma criança. No andar de baixo, uma das camareiras trabalhava tranquilamente no momento em que ocorre um som de um estalo, seguido de uma correria pelos corredores. A sorte é que a trabalhadora utilizada fones de ouvido.

-------FINO SOM ABAFADO DE TIRO. OBJETO EM COLISÃO CONTRA O ASFALTO. PASSOS CONTURBADOS E CHOQUES CONTRA AS PAREDES-----

        Quando menos esperava, Missione acaba tendo sua arma de fogo atingida por um disparo efetuado no exato momento de distração. A arma ricocheteia e termina sendo lançado para fora da abertura acima do muro composto de um corrimão. Como não havia vidraças nesses espaçamentos, o objeto terminou caindo em uma piscina. Missione não viu de onde ocorreu o disparo, mas Tallus, tinha visão aguçada como de uma águia mesmo a quilômetros de distância.

        Alarmado, Missione corre freneticamente para a direção oposta enquanto Tallus o persegue como gato e rato. Furioso, o SH queria agarrar Missione para surrá-lo quando o sujeito rapidamente pula direto do terceiro andar para a piscina do hotel. Ao olhar para baixo e perceber que o sujeito estava apanhando novamente a sua escopeta, Tallus atira de raspão contra Missione em advertência, mas o sujeito já estava com o instrumento em mãos. Quando Missione mira o cano contra a sua cara, Tallus se abaixa e se esconde quando percebe que o homem tenta efetuar diversos disparos com a arma, mas por algum motivo, esta travou os seus disparos. Quando deu por si, notou que seu instrumento estava com defeito. Diversos cliques podiam ser ouvidos pelo SH, que sorri de alegria quando percebe que Missione não mais podia caçá-lo. 

        Por um breve momento, a camareira retira o aparelho de suas orelhas para que pudesse prestar atenção nos sons ambientes por alguns segundos. Como nada mais despertava sua atenção, a moça pensa ter se confundido e prossegue com sua limpeza de rotina embaixo de música alta. Desistindo de sua empreitada, Missione imediatamente sai da piscina pelo lado de onde Tallus não o alcançaria e se esconde dentro da sala de sauna até que a poeira abaixasse.

        Ofegante e deslizando suas mãos sobre o rosto, o homem nota que seu braço foi ferido pelo SH. Como sua camisa estava avariada, estrategicamente arrancou um pedaço dela. Olhando para os lados, Tallus se movimenta abaixado em direção ao quarto em que se hospedava com Waldemar e tranca a porta com cuidado. Para garantir que o seu perseguidor não tentasse novamente ir para o quarto, vigiou-o incessantemente durante trinta minutos. Munido de um tecido branco para sinalizar desistência e trégua, o homem de regata, sapatos lustrados e "bermuda de montanha", sobe mansamente as escadas e caminha em direção ao quarto 202-D. Tallus, estava no 304-C. Vendo Missione entrando nos seus aposentos e não apresentando nenhum comportamento estranho, o SH volta a fechar as cortinas vermelhas da janela sob um singelo olhar letal.

        O rapaz guarda novamente a arma de fogo na mala de Waldemar e aproveita para tomar um bom banho antes de dormir. Waldemar, nada havia escutado daquele incidente. Estava apagado como uma pedra e nenhum som emitia.


----------PERÍODO DA MANHÃ. 08H30. CAFÉ DA MANHÃ NO HOTEL---------


        Xícaras, colheres e movimentações das facas sobre os pratos eram os barulhos predominantes naquela sala de refeições lotada de hóspedes. Por incrível que pareça, a confusão gerada na noite anterior não incomodou a vizinhança. Silentes e serenos, os dois homens desfrutam da boa refeição preparada pelo hotel quando Waldemar nota a mudança de expressão de Tallus ao olhar para além da mesa de onde estavam. 

[Waldemar] — "O que foi? Que cara é essa?" — [desconfiado].

[Tallus] — [longa respiração] — "Não queria dizer nada, mas o Missione apareceu aqui no hotel... armado." — [feição séria e exausta].

[Waldemar] — "... Como é que é?" — [abaixa o garfo sobre o prato].

[Tallus] — "Eu vi ele subindo no 'Bloco - D' pela janela... Não olhe agora, mas ele tá na mesa ali na frente, atrás de você..." — [olhar baixo].

        Waldemar vira o rosto para verificar se era de fato Missione que estava sentado em uma das mesas. Tal informação não apenas se confirmou, como também o braço enfaixado de Missione também é percebido pelo homem. Junto ao invasor que Tallus neutralizou, os outros sete homens estavam assentados próximos ao proprietário do bar vermelho, todos de rostos abaixados e mantendo conversas em baixo tom.

[Waldemar] — [assustado] — "... O que ele tá fazendo aqui?" — [aponta o polegar para trás].

[Tallus] — "Esse é outro detalhe que eu tenho que te contar..." — [visível incômodo].

        O homem se emudece diante da revelação de Tallus.

[Tallus] — [suspira] — "... Missione estava indo para o nosso quarto armado..." — [vira sutilmente a cabeça e pisca gradualmente os olhos] — "Tive que pegar a sua arma de fogo emprestada, usar o seu silenciador e despistá-lo acertando a arma dele, que foi jogada na piscina devido ao impacto e ficou estragada." — [olhar de tédio e aborrecimento] — "É por isso que o braço dele tá enfaixado..."

[Waldemar] — "...Que loucura é essa, Tallus?" — [assustado].

[Tallus] — "A loucura que aquele dono do bar fez..." — [aponta para o homem] — "A arma de fogo que ele estava usando, creio que provavelmente era envenenada..." — [aproxima o rosto para junto de Waldemar].

[Waldemar] — "...Como? Não tem como envenenar uma arma de fogo tradicional com balas de AR, ela derrete por inteiro." — [estranhamento].

[Tallus] — "É uma suspeita. Mas que ela tinha um símbolo roxo, ela tinha... Armas com esse símbolo são adaptadas."

        Sem acreditar no que havia escutado, o homem desliza as mãos em seu rosto para tentar acordar mais de uma vez.

[Waldemar] — "...Não, eu já ouvi demais por hoje, nós vamos dar um fora desse lu..." — [interrupção].

        Tallus interrompe o homem com uma das mãos em seu ombro.

[Tallus] — "Hey, calma, fica aí. Ele não vai fazer mais nada." — [tranquiliza Waldemar] — "Calma, Waldemar. Relaxa. Termina seu café sem pressa e mais tarde faremos o checkout. Às 16h, como combinado."

[Waldemar] — "E como é que você sabe que ele não vai fazer nada?... Ele tá com sete marginais lá atrás."

[Tallus] — "A escopeta deles já era... nenhum deles tem outra arma e na mão eles não se garantem. Não comigo. Eu tô acostumado." — [feição de seriedade e confiança].

        Sob semblante de incredulidade, Waldemar suspira enquanto deixa escapar um riso eivado de desilusão.

[Waldemar] — "...Rs...! Caramba, cara... O Missione?" — [pasmo, dedos sobre a cabeça] — "O sujeito que me recebe há anos no próprio bar..." — [indignado].

[Tallus] — "Missione é falso, Waldemar... Ele visa eliminar a concorrência e pegar o prêmio. O concorrente é você, e o prêmio sou eu."

        Sob respiração ofegante e cansada, Waldemar cobre todo o seu rosto com suas próprias mãos. De cabeça derrubada para o lado e de semblante profundamente decepcionado, o homem se vê com a amarga sensação de ter sido passado para trás. Tallus tenta confortá-lo para que o homem se sinta menos enganado.

[Tallus] — [mão sobre o ombro esquerdo de Waldemar] — "Eu vou pegar mais café, salsicha e cereais... Vai se sentir melhor."

[Waldemar] — [cabeça baixa, aspecto murcho, inconformado].

        Para ter acesso à mesa de refeições, Tallus teve de atravessar um caminho reto que aproximava da mesa de onde estava Missione e os outros acompanhantes. O homem ferido fitava o SH como quem fisga uma caça que deixou escapar. Mesmo com certa discrição, o seu olhar predatório ficou perceptível para Tallus, que ao notá-lo, largou o prato junto ao garfo e faca sobre a mesa para caminhar em direção ao homem. Quando se aproxima da mesa de onde estava Missione, todos os olhares se dobram para Tallus enquanto as mãos travam sobre os talheres. As bocas se calam diante da sua presença. De braços cruzados, o rapaz abaixa seus membros superiores e fita Missione tal como uma serpente canta com os olhos e arrepia seu chocalho. As palavras do rapaz atravessavam a espinha dos presentes como o doce chiado de uma cobra:

[Tallus] — "O braço do Senhor está melhor?" — [olhar fixo, falsa cortesia].

        O olhar do SH era levemente sobressaltado como o de um psicopata e seus olhos vívidos e brilhantes como os de uma joia rara. O seu sorriso, diminuto e simpático, mas suficiente para emitir uma advertência para o dono do bar. De rosto fascinado, mas com um discreto ato de quem vai ou não emitir um sorriso que mistura constrangimento, intimidação e decepção, Missione não consegue exprimir uma única palavra para Tallus. Seu rosto, parecia de quem não havia entendido tamanha "deselegância" praticada por quem havia acabado de sofrer uma tentativa de sequestro por rendição. Após alguns segundos de encaramento entre os dois, Tallus finalmente ergue seus membros superiores, descruza os seus braços e se direciona até a mesa de refeições para pegar mais comida e bebida para ele e seu colega Waldemar.

        Um dos injuriados que estava sentado ao lado de Missione logo se levanta no intuito de tirar satisfações com Tallus. Entretanto, antes que pudesse se erguer por completo, o sujeito é subitamente puxado pelo proprietário para que se sentasse de volta.

[Missione] — "Sem barraco, sem barraco...!" — [tom contido] — "Ficou maluco?... Senta." — [ordena sob feição de raiva].

        Agarrado pelo braço, o homem volta a se sentar à mesa a contragosto.

[Homem] — "Sujeito folgado..." — [aborrecido].

[Missione] — "Quer nos fazer ir presos? Deixe estar. Não quero escândalos..." — [volta a comer].

        Tallus observa atentamente o momento em que os membros do bar interagem entre si para eventual necessidade de entrar em combate. Como um dos amigos foi impedido por Missione, o restante daquele dia daria uma trégua para todos os envolvidos.

------------------13H30. RECEPÇÃO DO HOTEL------------------

        Descendo as escadas à procura de um café para servir a si mesmo e a Waldemar, o fugitivo se depara com uma recepcionista virada de costas para ele. Quando a observa melhor, percebe que a moça de cabelos curtos, encaracolados, caídos nos lados, e de tom azul cobalto, era sua conterrânea. Os olhos e sobrancelhas eram da cor de seus belos fios capilares. Uma rara variação de tonalidade entre os Super-Humanos, tal como o ruivo é por aqui. O tom frio e pálido de sua pele lhe era bastante familiar. A mulher que atendia clientes na recepção do hotel, era na verdade, uma aliada conhecida de longa data. Tallus fica imóvel, sem acreditar que estaria vendo sua amiga em sua frente mais uma vez. Distraída com seus afazeres, a moça finalmente nota a sua presença.

[Recepcionista] — "Tallus...!" — [surpresa].

[Tallus] — "Ramä..." — [corre para lhe dar um forte abraço].

        A moça, surpreendida pela recepção calorosa de seu velho amigo, se emociona pela primeira vez em 50 anos em que esteve na Terra. Já Tallus, a mantém em seus braços como se estivesse reencontrando toda a sua família mais uma vez. O momento era de silêncio, mas a saudade era imensa. Ambos originários de um mesmo país fora daquela órbita, somente podiam ter um ao outro naquele momento, pois passaram a maior parte de suas estadias sozinhos, solitários, sem rumo e sem amparo.

[Ramä] — "Onde... você esteve?" — [olhos marejados].

[Tallus] — "Passei por muita coisa..." — [acaricia o rosto da mulher] — "Estive trabalhando em peças de circo e de teatro. Tive que pular de casa em casa pra pagar faculdade... Fui pego pelo grupo 'Lolita Slave Toy'..."

[Ramä] — "Fiquei sabendo que era um dos nossos... Céus, que coisa horrível... Que mundo de escravidão." — [feição triste].

[Tallus] — [cabeça brevemente baixa] — "Eu me arrependo tanto de ter participado daquela guerrilha..."

[Ramä] — "E eu de ter defendido essas pessoas..." — [suspira] — "No final das contas, elas nunca valeram nada..." — [piscar de olhos, semblante de decepção].

[Tallus] — "Todos nós temos as nossas mazelas. Eu não sou nenhum santo." — [sorriso triste] — "E então? Como tem passado?"

        Encantada pelo homem, Ramä o fita por alguns segundos.

[Ramä] — "Senti sua falta, sabia?" — [sorriso leve] — "Do seu rosto, seu olhar, o seu cheiro... Fiquei pensando em você todos os dias."

        Tallus aproxima carinhosamente o rosto contra o de Ramä.

[Tallus] — "E como eu senti a sua, garotinha..." — [sorri].

[Ramä] — [sorriso aberto] — "Nunca me esqueço do dia em que nos vimos no acampamento... Tinha dezesseis casais se divertindo e você foi o último a copular comigo. Você me marcou como piche no meu coração."

[Tallus] — "Eu devia ter me casado com você quando tive tempo..." — [acaricia seus cabelos].

[Ramä] — "Nós ainda podemos nos casar, sabia?" — [encantada].

[Tallus] — "É mesmo?" — [empolgado] — “Não apareceu algum homem ou mulher à minha altura durante esses tempos?"

[Ramä] — "Humpf..." — [feição serena] — "Muito raro, mas nunca fica na memória..."

[Tallus] — "Como conseguiu se virar na Alemanha?" — [sorriso suave].

[Ramä] — "Eu fui cooptada pra trabalhar na casa de um homem e hoje ele é meu Tutelar, e também o meu esposo... É o mesmo cenário de sempre. Casar para obter vantagens legais e servir pra ganhar dinheiro. Mas eu tive sorte, ele não é muito exigente." — [olhar para cima, rosto para baixo].

[Tallus] — "Não te julgo. Eu passei por coisa parecida antes de entrar no teatro e trabalhar com palhaçaria." — [ajeita os fios de cabelo da moça].

[Ramä] — "Como vai fazer pra se livrar do dispositivo?"

[Tallus] — "Eu ainda não sei como arrancar isso da minha nuca. Mas eu dou um jeito..."

[Ramä] — "E quando é que eu vou poder te ver de novo, Tallus?"

[Tallus] — "Agora não tem mais volta. Vou ter que vir aqui te ver, nem que seja daqui a um mês." — [sorriso de canto].

        Tomando todo o cuidado para não atrair a mórbida curiosidade das paredes, Ramä lança mão de sua língua natal para relatar um novo plano para Tallus.

[Ramä] — [aproxima o rosto] — "Ainda podemos nos emancipar e dar um fora daqui."

[Tallus] — [língua vandoriana] — "Continue." — [semblante sério].

[Ramä] — "Eu não te contei em voz alta, mas o meu esposo e Tutelar é um dos membros do grupo 'Lolita Slave Toy'... Só que ele é da vertente mais 'moderada'. Não aprecia torturas. Você irá fazer o seguinte..." — [olha para os lados] — "Quando der e puder, você vai entrar em contato com meu Tutelar por este telefone que vou te entregar." — [exibe um cartão digital].

        Tallus pega o cartão.

[Ramä] — "Você vai seduzi-lo e se oferecer como empregado, nem que seja temporário..."

[Tallus] — "Ele é possessivo?" — [olhar atento].

[Ramä] — "Ele é controlador. Mas é um apreciador de voyeurismo quando encontra um homem que o atrai. Nós vamos distraí-lo, pegar o controle dele e tirar nossos dispositivos da nuca. Daí a gente foge."

[Tallus] — "Ele pode ter controles na nuvem e esses dispositivos são difíceis de se retirar..."


------------FLASHBACK. 10H30 DA MANHÃ. UM GARFO E UM ALICATE-------

        O homem força com tudo para retirar a praga tecnológica de sua nuca enquanto o garfo é torcido até se desfigurar. Quando não era o alicate que utilizava para estraçalhar o dispositivo da servidão, era uma faca, um alfinete, uma tesoura, água, fósforo aceso. Tudo o que tivesse ao seu alcance servia como instrumento de sua tentativa de libertação. Mas nada funcionava. O aparelho era bem construído para que SH's nunca pudessem se emancipar sem autorização de seus Senhores. A cada força feita em vão, Tallus se frustrava silenciosamente. Vencido pelo esgotamento emocional, suas mãos pousam sobre as extremidades da pia velha e de cor de creme. De torneira ligada, por mais água que jogasse em seu pescoço, nada fazia efeito na máquina. O homem só não foi abatido como cervo, pois estava longe do acesso remoto de seus raptores. Ofegante e desapontado, Tallus larga todas as ferramentas que utilizou para arrancar o dispositivo e preferiu cobri-lo com um papel de metal, enfiando o máximo para baixo de sua superfície para que não saísse do lugar. Respira fundo e fecha o banheiro.

----------------RETORNO AO PRESENTE-----------------

[Ramä] — "Podemos retirar hackeando o sistema deles... É só aguardar a deixa de doparmos ele com GHB e ele fala a senha dele..."

[Tallus] — "Talvez nem de senha precisemos." — [aproxima-se da mulher] — "Eu vou terminar de resolver minha pendência com um rapaz que está comigo, ele tá me ajudando. Daí, depois disso, eu vou te procurar... Ok?" — [pega as mãos da mulher].

[Ramä] — "Não demore demais... Preciso de você do meu lado, esse planeta é muito assustador." — [olhar de súplica para o homem]. 

[Tallus] — "Farei o máximo pra não te fazer esperar mais." — [beija os lábios da moça] — "Tenho que ir."

[Ramä] — "Vai..." — [acena positivamente].

        Tallus retorna para a sala de onde estavam servindo os cafés e realiza mais um último contato visual com sua amada amiga. Aliviada e feliz, Ramä exibe um pouco de esperança no canto de seus lábios.

--------------Quarto de Hotel------------------->>>>

        A mala é preparada e o pote de macarrão instantâneo pronto para ser consumido. As balas que ainda não foram consumidas da arma utilizada por Tallus são cuidadosamente guardadas em um porta-joias de Waldemar. Tallus se serve mais uma vez após o farto café da manhã. Como de costume, seu apetite era maior do que o da maioria das pessoas mais obesas do planeta.

[Tallus] — "Aqui servem o almoço?"

[Waldemar] — "Serve, mas o pagamento é feito à parte. Nós vamos sair do hotel daqui a pouco."

[Tallus] — "Aonde vamos?"

[Waldemar] — "Pra minha casa, ora, aonde mais eu iria depois de pular em dois lugares?"

[Tallus] — "Ah. Achei que fosse me deixar em algum lugar longe daqui." — [feição confusa].

[Waldemar] — "Tá achando que vou te mandar embora sem pagar o prejuízo do meu carro?" — [cede uma piscadela simpática] — "Se eu te deixar em algum lugar, vão te capturar de novo."

[Tallus] — "Eu agradeço a sua hospitalidade... E não se preocupe, que eu darei um jeito de pagar o conserto do meu carro. Pode me abrigar na sua casa por uns 06 meses como prova da minha transparência."

[Waldemar] — "Tá maluco, cara? Você não conseguiria pagar esse conserto nem em um ano, se brincar. Você vai ficar, mas é só por uma semana. Depois disso você vai caçar seu rumo e arrumar um emprego, ouviu? Não quero ficar abrigando homem dentro da minha casa." 

[Tallus] — [confuso] — "Ué, por quê?"

[Waldemar] — "Pega mal, Tallus, as pessoas comentam, a cidade não é tão grande, e isso atrapalha meu trabalho."

        Tallus se sentiu intrigado com a resposta de Waldemar. Sob uma feição de curiosidade e um sorriso devasso, o homem pensa por alguns segundos enquanto fita o seu cúmplice arrumar os seus pertences.

[Tallus] — "E mulher? Você abrigaria na sua casa?" — [sorriso com rabo de olho].

        Waldemar demora um pouco mais de tempo para responder.

[Waldemar] — "Se ela me ajudar nos afazeres domésticos enquanto eu estiver trabalhando, sim. Eu abrigo."

[Tallus] — "E se eu arrumar sua casa?" — [indaga].

[Waldemar] — "O quê, você?"

[Tallus] — "Sim. Se eu ajudar nos afazeres domésticos, você me deixa ficar?"

[Waldemar] — "Depende. Você sabe cozinhar? Tem experiência com arrumação doméstica?"

[Tallus] — "Eu sei lavar, cozinhar, limpar móveis, pisos, carpetes, paredes, banheiros, cortinas... organizo armários... Eu faço tudo o que você quiser..." — [exibe uma feição sugestiva].

[Waldemar] — [exibe certa estranheza em sua face] — "...Posso pensar no seu caso. Ainda assim, preferia que fosse uma mulher."

        Tallus deixa escapar um leve riso.

[Tallus] — "Você não gosta muito de homem, pelo visto."

[Waldemar] — "Não, nem um pouco." — [nega com a cabeça] — "Só aturo os amigos e os familiares com quem eu convivo."

[Tallus] — "Garanto que você vai me aturar na primeira noite que eu passar."

        Waldemar se assusta com a resposta de Tallus.

[Waldemar] — "Olha... seu filha da puta....!" — [joga uma toalha em Tallus, que rapidamente a pega com uma das mãos enquanto mantém o copo de macarrão, na outra].

[Tallus] — "Hey...! Eu falei aturar, nunca disse que seria de outra forma." — [sorri de antebraços para cima].

[Waldemar] — "Safado...! Acha que eu não sei ler nas entrelinhas?"

[Tallus] — "Não sou responsável pelo que os outros entendem." — [feição irônica de metidez].

[Waldemar] — "Mas é responsável pelo que fala. Mentiroso..." — [leve riso].


-------CHECK-OUT. 16H10. MOMENTO DE PARTIDA. ENTRADA NO CARRO--------


[Waldemar] — "Missione já foi embora?" — [desconfiado].

[Tallus] — "Não vi ele mais aqui no hotel." — [olha para os lados] — "Acho que eles fizeram o check-out antes de nós." — [fita Waldemar].

[Waldemar] — [suspira] — "Isso tudo tá ficando muito bizarro..." — [abre um tablet] — "Deixe eu ver se minha casa foi invadida pra gente voltar em paz..."

        De sua máquina, Waldemar acessa o banco de dados onde as câmeras de satélites registram o seu bairro em tempo real e certifica que não houve uma aparente destruição ou tentativa de invasão à sua residência. Voltando as filmagens para dois dias antes, tudo estava normal desde o momento em que havia saído pela porta de sua casa, aos cantos e saltitante enquanto usava fones de ouvido.

[Tallus] — "Por que estava feliz?" — [curioso].

        Como quem tivesse sido pego no flagra, Waldemar encara Tallus com certo constrangimento e o responde sob leve riso.

[Waldemar] — [momento de silêncio, breve timidez] — "... Não é nada." — [volta a olhar para a câmera e cai em si] — "Bom." — [fecha o tablet] — "Até aí, tudo normal." — [checa o retrovisor] — "Éh, por gentileza, liga o carro e dá o comando 'voltar pra casa'". — [aponta para o volante].

[Tallus] — [liga o veículo] — "Voltar para casa".

“Voltando para a residência de Waldemar.” O automóvel majestosamente começa a se movimentar enquanto o mapa aponta para o endereço exato de sua residência. O percurso dura uma hora e trinta minutos. Ambos os cúmplices se mantêm silentes durante todo o trajeto até chegarem ao elegante bairro onde vivia Waldemar e estacionarem na garagem da casa, que por sinal, também era verde de teto escuro. É quando o veículo cheio de estranhos buracos não perde o seu brilho quando unido à beleza daquela construção. O bairro era bonito e pacato. Tudo muito limpo e organizado. Ao redor das casas e calçadas, as árvores eram adornadas com folhas e flores em tons lindamente vermelhos, amarelos e alaranjados.


--------------- 30 MINUTOS DEPOIS. AMBIENTE GÉLIDO. CÉU LÍMPIDO E DE FORTES RAIOS SOLARES ------------  

 

[Waldemar] — "Bem-vindo à minha humilde residência, Tallus." — [trava o veículo com o controle remoto] — "Tenho que fazer algumas pequenas reformas em casa, mas até lá, fique à vontade." — [abre a porta e gentilmente cede espaço para Tallus].

[Tallus] — "Quanta gentileza." — [admirado, adentra a residência de Waldemar].

        Nos cantos dos tetos, havia luminárias que se acendiam de forma automática quando recepcionavam um morador ou um novo hóspede. Em cima dos móveis, ferramentas que simulavam candeeiros de ouro se acendiam de forma simultânea às luminárias, e uma fonte infinita de pétalas de rosas geradas por projeções holográficas enfeitava o cenário da casa, tornando tudo ainda mais belo. Sob os pés dos homens, um tapete que se estendia até as escadarias fazia jus às cores da fachada. Quadros adornados e móveis muito bem desenhados combinavam perfeitamente com a estética do local.

[Waldemar] — "Vou te apresentar toda a minha casa e vou te acompanhar para o seu novo quarto."

[Tallus] — "Está pretendendo me levar pra lua de mel? Porque isso foi romântico." — [sorriso devasso].

[Waldemar] — [risos arrastados] — "Deixa de ser idiota, Tallus..."

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[Waldemar] — "Até resolvermos sua situação com o dispositivo na sua nuca, você vai dormir aqui. A cama é tamanho 'queen', então tem espaço suficiente pra você..." — [ergue momentaneamente o braço] — "Era aqui que minha irmã dormia antes de casar."

[Tallus] — "Está ótimo." — [fita o quarto] — "Espero que não se importe de me levar a uma loja mais próxima para comprar roupas, eu não quero dormir nu de novo."

[Waldemar] — "Relaxa que pra isso tem internet e eles entregam via drones. Não vai precisar se arriscar."

        Tallus verifica se existe, por via das dúvidas, alguma anormalidade pela janela do quarto.

[Tallus] — "Hoje de manhã eu tentei tirar o dispositivo de novo da nuca, mas nada adiantou."


------------P.E.Q.U.E.N.O   F.L.A.S.H.B.C.K---------------


............Noite anterior........

        Um pega o alicate de ferramentas, o outro se agarra na pia do banheiro. Um puxa de sua nuca, o aparelho dispositivo que parecia não sair nem com um tiro. O outro, se aguenta meio bambo nas pernas enquanto leva algumas descargas elétricas devido à interferência no aparelho. Esse é o resumo do pequeno trecho da noite dividida entre os dois fugitivos. Enquanto utiliza luvas de borracha reforçadas, Waldemar agarra o dispositivo com tanta força que Tallus chega a quase se desequilibrar.

[Waldemar] —  "Fica quieto um pouco, Tallus" — [força com as mãos].

[Tallus] — "Eu estou tentando... mas a descarga elétrica disso me faz perder o balanço..." — [olhos tontos].

[Waldemar] — "Como que eles fazem uma coisa dessa...?" — [força] — "Uma merda que nunca sai..." — [força por mais alguns segundos até se cansar] — "Não dou conta..." — [mostra um gesto de rendição].

        Waldemar força a retirada do dispositivo da nuca de Tallus por alguns segundos até se dar por vencido. Cansado, o homem mostra desistência depois de muito tentar arrancar a máquina da servidão. Retira as luvas e joga a toalha.

[Waldemar] — "...Não dou conta... Ele é impossível de sair."

[Tallus] — "...Só tem um jeito de driblar isso..." — [fita Waldemar].

--------------R.e.t.o.r.n.o   a.o    P.r.e.s.e.n.t.e--------------

[Waldemar] — "E nada de descolar ou trincar?"

[Tallus] — "Nada. Nem ameaçou quebrar..." — [se apoia na janela] — "Eu tenho receio daqueles caras virem atrás de nós..."

[Waldemar] — "Quais caras? Os que atiraram no meu carro ou do hotel?"

[Tallus] — "Os que atiraram na gente... Os do hotel também."

[Waldemar] — "Não vai. Até lá, você já não vai ser propriedade de ninguém." — [retira o casaco] — "Se passar 72 horas, a sua Tutelagem acaba, e você fica livre pra ir embora daqui."

[Tallus] — "E quanto ao Missione?"

[Waldemar] — "Eu vou dar um jeito de despistá-lo. Vou chamar a polícia se ele se aproximar da minha casa uma única vez..."

[Tallus] —  "Você acabou de me dar uma ideia." — [vira o rosto para Waldemar].

[Waldemar] — "...Qual?" — [olhar fixo].

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..........21H DA NOITE. AMBIENTE GÉLIDO. MOMENTO DO JANTAR.


        Com uma única lâmpada central acesa sobre suas cabeças cansadas, os dois homens aproveitam o tempo que tinham para desfrutar de uma boa refeição. Com esmero e tato, toda a comida foi feita de bom grado pelo hóspede da casa. Só não se contava com fato de que o rapaz tinha um grande talento na cozinha.

[Waldemar] — "...Cara..." — [se delicia] — "Isso aqui tá maravilhoso...Sério." — [colhe garfadas] — "Eu acho que vou contratar você como meu cozinheiro particular, você cozinha bem pra cacete...!"

[Tallus] — [lisonjeado] — "Obrigado. Eu aprendi muitas coisas quando eu morava no meu país. A arte da cozinha é uma delas." — [aproveita a bebida de uva branca].

[Waldemar] — [limpa os lábios com um lenço] — "...Sabe? Eu ainda não sei muito sobre você. Você nasceu aonde? Foi produzido no Equador, na Arábia Saudita... onde você nasceu?"

[Tallus] — "Nenhum dos dois... Eu nasci em um país de um planeta muito distante chamado 'Vandora'..." — [sorriso debochado] — "Já ouviu falar?"

        Uma pequena pausa dramática é feita por Waldemar como quem havia acabado de ser posto em uma pegadinha de TV. Um pouco encabulado, o dono da casa se mostra meio cético, mas não menos curioso sobre a estranha informação que recebeu.

[Waldemar] — "Então... quer dizer que aquela história do livro do Richard Priesley não é conspiração? É real mesmo? ...Sério, Tallus, você tá curtindo com a minha cara, não está?" — [sorriso incrédulo].

[Tallus] — "Não, não estou..." — [sorriso, cabeça sutilmente baixa] — "Queria dizer que sou daqui, mas não sou..." — [limpa os lábios com um guardanapo] — "Não vai adiantar dizer que sou da França e não ter uma certidão de nascimento ou pais vivos aqui na Terra..."

[Waldemar] — "Sinceramente... Por mais que eu ache essa ideia estapafúrdia, eu não consigo duvidar de você... Pela sua aparência, dá pra ver que você é muito diferente de tudo que já vi."

        Tallus cede um leve riso. 

[Tallus] — "O Governo Americano vai negar até a morte, mas eu aterrissei na Área 51." — [bebe o drink] — "De lá, eu fui pra Nova York e de Nova York, eu peguei um avião pra Alemanha..." — [sorri] — "Desde então eu tenho vivido aqui."

[Waldemar] — "Devo presumir que o motivo de sua vinda pra cá foi uma punição?" — [indaga].

[Tallus] — "Exato."

[Waldemar] — "E por que te expulsaram de lá?"

[Tallus] — "Participei de uma guerrilha armada contra um grupo de arruaceiros que se utilizaram de assuntos pessoais para lesar a pátria." — [bebe o drink] — "O problema é que minha participação era em prol de um aliado Americano, e tal conduta era proibida no país, independente de qual grupo eu pertença." — [pausa de silêncio] — "Sou um lesa-pátria para os representantes de lá..." — [cabeça baixa].

[Waldemar] — "Tá, mas não poderia simplesmente ter colocado vocês na prisão?..." — [gesto de negação] — "Por que expulsar do planeta?" — [feição de estranhamento].

[Tallus] — "Porque nem Vandora quis nos prender e nenhum dos outros países nos quiseram para exilar... O nosso crime é considerado grave porque se aliar a um Americano era como trair a nossa raça, a nossa cidadania e ao nosso país. Então para não nos condenar à pena de morte, o Presidente da Ilha-País preferiu nos banir do planeta.” — [levantar de ombros e mão, contorcer de lábios] — “Um exagero e uma sandice, eu sei disso, mas enfim..." — [degusta mais um pouco de sua refeição e bebe o drink] — "Neuroses de nosso povo..." — [sorri].

[Waldemar] — "Caramba, seu país devia ser linha dura com quem transava com um não SH..."

        Tallus ri.

[Tallus] — "Não, ninguém lá é punido por se relacionar com um extraterreno, até porque eles levam em conta os híbridos que podem nascer..." 

[Waldemar] — "Os misturados tem alguma consideração pelo governo?" — [bebe o drink].

[Tallus] — "Lá os híbridos são parcialmente cidadãos, então não é interessante expulsar os pais, porque isso seria punir quem não pediu pra nascer." 

[Waldemar] — "Deixe eu ver se entendi, lá vocês são divididos por 'categoria'? Por raça, alguma coisa desse gênero?"

[Tallus] — "Mais ou menos por aí. O nível de privilégio lá é medido pela sua origem sanguínea. Os SH's natos são prioridade no meu país. Os extraterrenos são colocados em último lugar. Apesar disso, na minha época estávamos sendo consultados acerca de híbridos e Americanos terem os mesmos direitos que nós, e isso até gerou pancadaria..." — [olhar de canto e sorriso tímido].

[Waldemar] — "E você naturalmente participou da briga...?"

[Tallus] — "Não... por muito pouco eu quase bati em um cara... mas nada aconteceu." — [olhar baixo].

[Waldemar] — "E como você conseguiu sobreviver na Alemanha, cara?"

[Tallus] —  "Eu aproveitei o tempo que migrei pra cá e fiz uma faculdade de artes cênicas. Eu pulava de casa em casa fazendo serviços domésticos, sexuais e sendo vigiado com câmeras e dispositivos de controle, quando não por vários seguranças..." — [dá a última garfada] — "Eu me cadastrei em uma instituição para formação de adultos ‘analfabetos’ e passei o Ensino Fundamental e Médio dançando 'twerking' pra um monte desses carentes enquanto era patrulhado de maneira remota por um exército de atiradores. Eles sempre me queriam por perto, mas não o bastante para que se sintam vulneráveis..." — [levanta os ombros] — "No fundo eu entendo eles."

[Waldemar] — "Você me falou que tinha sido raptado quando estava fazendo..."

[Tallus] — "Teatro." — [fita Waldemar] — "Eu tinha acabado de fazer uma apresentação quando me eletrocutaram pelo pescoço e me sequestraram. Os vermes que me abateram eram meus próprios empregadores... pertencem a um grupo chamado 'Lolita Slave Toy'".

[Waldemar] — "Ouvi falar desse grupo. Que loucura..." — [abismado].

[Tallus] — "Eu fazia freelancing na época. Apresentava peças de teatro e amostras circenses por todo o país. Não tinha vínculo permanente com um único grupo de artistas. Sempre me misturava e treinava com muitos deles. Quando se trata de tráfico sexual, os Super-Humanos são muito visados pelos piratas... Eu aproveitei uma distração deles e consegui fugir na calada da noite."

[Waldemar] — "Ficou quanto tempo preso?"

[Tallus] — "Seis meses... o que pra mim pareceu sessenta décadas."

        Pensativo acerca de Tallus, Waldemar se certifica de que exista alguma prova de que o homem de fato possui origem diversa daquela que é entendida pelo mesmo.

[Waldemar] — "Você tem alguma lembrança de seu país?"

[Tallus] — "Tenho..." 

        Tallus tira de seu bolso, um pequeno livreto que guardou por décadas consigo, uma pequena prova de sua nacionalidade.

[Tallus] — "É um pequeno livro de instruções simples, mas contém símbolos e a língua nativa do meu país... Pega." — [entrega o livreto].

        Waldemar passa os dedos pelo livreto como se estivesse de frente a um registro apagado da história, a uma conspiração absurda se tornando realidade, ou mesmo como se tivesse avistado um ser humano voar. Dentro do pequeno livro de páginas abrilhantadas em toque rosê, um documento de identificação contendo uma fotografia 3x4 é encontrada acondicionada em uma pequena embalagem similar a um couro vermelho. Era a imagens selfie de Tallus. O homem nada havia mudado desde aquela época. No máximo que poderia ser visto, era um penteado diferente de cabelo. Detrás da imagem de seu rosto, estava o panorama praiano com edificações cujas cores e características do ambiente natural não lhe eram familiares. O céu parecia refletir o horário noturno, mas exibia aspecto meio rosado e lilás, mais estrelado que o de costume. As fotografias eram muito limpas e estavam bem preservadas. No documento havia símbolos e linguagem escrita que não lembrava nada do que era conhecido para Waldemar. Junto a essa fotografia, o homem encontra um medalhão de honra em homenagem a Tallus pelos serviços prestados ao país. As escritas, também eram irreconhecíveis a Waldemar. O nome de Tallus também estava cravado na superfície do objeto. O material, tinha tonalidade terracota, mas com aspecto que lembrava o ouro. Alguns dos escritos pareciam ser números, mas com formas estranhas e muito originais. O Anfitrião volta a olhar embasbacado para Tallus, que sem outra maneira de convencer o cúmplice de sua origem, só lhe restava levantar os ombros e exibir um olhar de conformismo.

[Waldemar] — "Você consegue ler e escrever isso aqui?" — [pasmo] — "...O que tá escrito aqui?"

        Tallus pega de volta os seus pertences e faz uma breve leitura para Waldemar.

[Tallus] — "Eu vou ler pra você...'Documento válido em todo o território nacional para fins de exercício de direito e cidadania, e em território estrangeiro para fins de certificação de existência como pessoa'." — [finaliza] — "Agora na minha língua natal...'Documento válido em todo o território nacional para fins de exercício de direito e cidadania, e em território estrangeiro para fins de certificação de existência como pessoa'." — [fecha o livreto e exibe feição resoluta para o amigo]. 

        O dono da residência permanece em silêncio.

[Tallus] — "Me vê um lápis e um papel?" — [estende a mão].

        Waldemar logo pega um de seus cadernos velhos e inusados junto a uma caneta azul intacta, elétrico de curiosidade sobre algo que nunca havia tido contato. Tallus pacientemente deposita seus manuscritos sobre o suporte fibroso e inicia a elaboração de uma longa sentença em linguagem vandoriana. Cada movimento de seu punho era um som de atrito da tinta contra o papel que ecoava nos ouvidos de Waldemar, que nada escutava além dos escritos de Tallus. As "velas" da casa acesas davam um ar mais sombrio e silencioso para o ambiente. Do lado de fora, a neve caía e a singela luz da negrume luminária dava um belo toque azul à escuridão.

[Tallus] — "Pronto. Eu vou ler."

[Waldemar] — [mudo].

[Tallus] — "...'Nada é tão frio que não se possa tirar aconchego como nada é tão caloroso a ponto de perder a rigidez. Para alcançar o melhor de si, é o balanço que deve guiar seus passos e coordenar a mente. Proporção é medida certa da força para cada força que lhe abater ou te elevar. Nunca uma chama deve ser usada para atingir uma folha, mas o sopro, quando quer se desvencilhar dela. Mas nunca uma rocha inútil deve ser retribuída com um diamante quando o valor não é nivelado com a mesma intensidade de amor. Tudo é medida, tudo é proporção. Feliz é aquele que souber dar e receber o equânime do que é dado ou recebido. Justo é aquilo que é nivelado em grau do bem, ou do mal'... Terminei." — [entrega o caderno a Waldemar] — "Pode olhar, se quiser. Quer que eu leie na minha língua materna?"

        Waldemar pega o caderno de Tallus e observa atentamente os seus manuscritos.

[Waldemar] — [confuso e surpreso] — "Não..." — [pisca os olhos várias vezes] — "Aliás..." — [aponta o dedo indicador com uma mão sobre o rosto] — "Leia. Só mais uma vez." — [entrega o caderno].

[Tallus] — "Ok. 'Nada é tão frio que não se possa tirar aconchego como nada é tão caloroso a ponto de perder a rigidez. Para alcançar o melhor de si, é o balanço que deve guiar seus passos e coordenar a mente. Proporção é medida certa da força para cada força que lhe abater ou te elevar. Nunca uma chama deve ser usada para atingir uma folha, mas o sopro, quando quer se desvencilhar dela. Mas nunca uma rocha inútil deve ser retribuída com um diamante quando o valor não é nivelado com a mesma intensidade de amor. Tudo é medida, tudo é proporção. Feliz é aquele que souber dar e receber o equânime do que é dado ou recebido. Justo é aquilo que é nivelado em grau do bem, ou do mal'... Pronto." — [passa o objeto para Waldemar] — "O que achou?"

[Waldemar] — [balança lentamente a cabeça em tom de negação] — "...Eu achei isso dantesco... estranhíssimo... e fantástico."

        Tallus deixa escapar um discreto riso arrastado.

[Waldemar] — "Sério, como que..." — [aponta para os manuscritos] — "Como que ninguém parou pra investigar sobre isso? Na televisão... Ou na internet?"

[Tallus] — "Não é do interesse deles revelar uma tentativa de colonização que deu errado..." — [bebe o drink] — "Seria humilhante pra eles... Quanto à internet, isso só é visto em fóruns de conspiração e eles são proibidos de existirem nas redes sociais."

[Waldemar] — "Pois bem. Parece que eu tenho um alienígena na minha casa..."

        Sem deixar de esconder seu constrangimento, o hóspede percebe com dentes sobre lábios, a falta de confiança de seu cúmplice. Waldemar, por outro lado, não havia provas de que Tallus pudesse estar mentindo sobre sua origem 

[Tallus] — "... Eu não estou mentindo, tá?" — [aponta para Waldemar com um de seus talheres] — "Eu sei porque está me olhando, deve achar que eu sou um maluco."

[Waldemar] — "Qual é, cara, ninguém falou que você está mentindo, relaxa... Só estou impressionado." — [pausa] — "Tá achando mesmo que eu acredito em tudo que o Governo diz? Eu não nasci ontem" — [expressão sarcástica].

[Tallus] — [suspira em alívio de palmas das mãos para o alto] — "Ah, que bom. Já tirou um peso das minhas costas." — [apoia os cotovelos] — "Já tentaram me internar num hospício só por ter feito essa declaração..."

[Waldemar] — "Nossa, e onde é que foi isso?" — [pega mais uma generosa quantidade de comida].

[Tallus] — "Onde você acha? No país da 'liberdade'..." — [ironiza].

[Waldemar] — "Ah, Estados Unidos da América? Aquele país já é aloprado tem tempos..." — [dá uma garfada] — "Eles misturam uma coisa ultraliberal caótica com uma espécie de ditadura fetichista de filme pornô falido..."

[Tallus] — "Rrsss...!" — [abaixa a cabeça para rir] — "Você descreveu bem aquele manicômio em forma de nação. Um amigo ficou dez anos preso em um Sanatório de lá e teve que fazer um acordo com FBI pra não ser punido por Conspiração..."

[Waldemar] — "É um ruivo de cabelos longos no centro e raspados nas laterais? Um que usa uma presilha na frente?"

[Tallus] — "Se for do Magal que está falando, é ele mesmo..." — [pega mais um pouco da refeição] — "Como ouviu falar dele?"

[Waldemar] — "Vários piratas anunciam ele no jornal online, todo o ramo do fórum de internet já sabe quem ele é..."

[Tallus] — "Então é pior do que eu imaginava..."

        Tallus deposita mais um  pouco de vinho em sua taça.

[Waldemar] — "À propósito, o que o nome 'Tallus' significa?"

[Tallus] — "Tallus significa 'Montanha' no lugar de onde vim..." — [exibe um singelo sorriso para Waldemar].

[Waldemar] — “E, vem cá...” — [breve pausa] — “Assim os SH’s vivem entre nós, os humanos comuns teoricamente viveram entre os SH’s do seu... planeta.” — [vira o rosto] — “Como você os via? Qual era a sensação e... como você os tratava?” — [curiosidade e estranhamento].

[Tallus] — “Olha...” — [pausa] — “Os Americanos foram o meu maior aprendizado como minha maior ruína...” — [sorve a taça] — “Mas o que eu posso dizer é que eu não fui muito gentil e hospitaleiro com os extraterrenos...” — [desconforto em sua face] — “Eu não os entendia, então... eu os via como inferiores... rasteiros... como insetos.” — [feição desconcertante, levantar de ombros] — “Eu era tolo e imaturo, mas não tinha ciência disso...” — [suspira, mão no ombro] — “Hoje eu vejo o quanto eu reproduzia tudo de ruim que vejo dos humanos daqui.” — [fita Waldemar] — “E me arrependo disso.” — [bebe o vinho].

[Waldemar] — [permanece em silêncio enquanto observa Tallus].

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......Pausa de 15 minutos.......


Os homens se mantêm por algum tempo concentrados na harmonia do silêncio enquanto apreciam o que tinham para jantar. Surpreendentemente, Tallus havia comido menos do que seu cúmplice naquele dia.

[Waldemar] — "Amigo... sério. Isso aqui estava uma obra divina. Sem exageros... estava maravilhoso." — [mostra-se satisfeito].

[Tallus] — "Obrigado, isso me deixa contente. Posso ser seu cozinheiro particular se achar que posso ser útil."

[Waldemar] — "Sinceramente, se eu não fosse arrumar encrenca pra minha vida com você por perto, eu cogitaria essa possibilidade..." — [limpa os lábio e uma parte do rosto com lenço umedecido].

[Tallus] — "Admita, eu sou um problema que compensa o risco. Se precisar... fica o convite." — [também se limpa].

[SONS DE ROMPIMENTOS E PEQUENOS OBJETOS SE QUEBRANDO. CACHORROS COMEÇAM A LATIR À QUILÔMETROS DE DISTÂNCIA. LUZES DOS POSTES COMEÇAM A PISCAR].

        Silentes, os dois homens notam uma anormalidade no bairro. Fora da residência, Tallus percebe sons e luzes emitidas por um veículo a uma longa distância. Seu olhar entreaberto denuncia um prenúncio de invasão.

[Tallus] — "A conversa está boa, mas acho que temos companhia..." — [olhar sério].

[Waldemar] — [pausa, olha para trás atentamente] — "...Também tenho essa sensação..."

[MAIS SONS ATÍPICOS SÃO OUVIDOS PELOS SILENTES. ROMPIMENTOS, BATIDAS E PASSOS PESADOS SE TORNAM CADA VEZ MAIS RELEVANTES].

[Waldemar] — "... O que está havendo lá fora...?" — [estranhamento].

[Tallus] — "Espere aqui. Eu vou dar uma olhada." — [se levanta de seu assento].

[Waldemar] — "Não saia pra fora." — [alerta, antes de também se levantar da mesa] — "Vou pegar a arma."

[Tallus] — [aponta a palma da mão em direção a Waldemar] — "Espere. Deixe eu checar primeiro o que é." — [procura pelo local próximo à grande janela espessa] — "Tem um binóculo?"

[Waldemar] — "Só do meu rifle." — [fita Tallus].

[Tallus] — [se volta para Waldemar em silêncio] — "...."

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--------- >>>>>>>>>>>> 22h10 da noite. Tempo nevoso. Baixa queda de cristais de gelo. Luz fraca. Ambiente escuro.

        De alguns metros da residência, um pequeno aclive que dava caminho para a vegetação estava marcada por passos de botas velhas. Bem mais adiante, a sombra de um veículo preto se encontra parado enquanto apenas a pequena luz da lanterna iluminava parte do ambiente interno. De portas abertas, cinco homens estavam a postos camuflados pelas plantas e árvores. Enquanto dois deles se mantinha no carro se abastecendo de macarrão instantâneo, os demais se detinham a permanecer sentados próximos aos troncos ou abaixados em posição de bruços. Um deles se munia de um binóculo, outro, de um GPS rastreador. Missione mantinha sua arma mirada para próximo à janela da casa de Waldemar. De seu aparelho telefônico, uma promessa de recompensa de 70 mil euros pela captura de Tallus era o colírio para os seus olhos. Essa era grande a oportunidade.

[Missione] — "Viu alguma movimentação?"

[Homem 02] — "Não dá pra ver direito..."

[Missione] — "Eu tô vendo ele..." — [focado] — "Tô vendo a carinha dele bem ali..."

..........Pausa.

[Missione] — "Ele tá armado com um rifle..."

[Homem 03] — "Sabe dizer se é uma AR?"

[Missione] — "Não é não. É arma comum..."

[Homem 04] — "A gente invade a casa ou vai devagar?"

[Missione] — "Não, tem que ser devagar..." — [manuseia o seu rifle com lentidão e cuidado] — "Waxine... Tá com a arma de choque?"

[Waxine] — "Tá aqui comigo." — [exibe o aparelho].

[Homem 05] — "Eu ainda acho que a gente tinha que aproveitar a chance de eles dormirem e invadir. Render os dois, matar o caseiro, enfiar o cano no umbigo dele e forçá-lo a entrar no carro... igual a gente fez com os demais.

[Missione] — "Você tá maluco? O sujeito é Super-Humano de alta categoria. Tem mais reflexo, sentido, rapidez que qualquer coisa já vista nesse planeta. Tem mais força do que oitocentos mil gorilas. Afrontar um cara desse agora é pedir pra morrer."

[Waxine] — "Ele é só um SH assustado, dá pra distrai-lo e eletrocutá-lo."

[Missione] — "À essa altura do campeonato ele já escutou seus passos e sua voz... o sujeito não é burro." — [olha para a mira de sua arma].

[Homem 02] — "Quanto tempo temos até a invasão?"

[Missione] — "Três dias... É o suficiente para a Tutelagem dele acabar..."

        Nesse momento, um dos homens que havia parado para fazer uma rápida refeição se aproxima e senta-se ao lado de outro próximo à árvore.

[Homem 03] — "Quanto tempo isso vai demorar? Estão mandando mensagem cobrando rapidez na entrega..."

[Missione] — "Fala pra eles esperarem..."

[Waxine] — "Não é melhor fazer logo essa demanda? Não é tão difícil assim capturar um SH. Já vi uns bem covardes."

        Nesse momento, a fala de Waxine desalinhou os chacras de Missione a ponto de desconcentrá-lo. De cara amarrada e suspirando em meio a uma respiração pesada, o homem apoia seu rifle sobre um suporte e vira-se para os seus homens em posição sentada atrás de uma árvore.

[Missione] — "Escuta, por acaso alguns de vocês já tentaram entrar em combate com um SH? Já discutiram ou tretaram com um SH, pessoalmente? Já encararam um desses de perto?" — [os dois dedos próximo à visão] — "Já viram um SH surtar ao vivo e em cores? Pois eu já vi...!"

-------- [Silêncio entre os presentes]--------

[Waxine] — "Pra mim é um homem como todos os outros." — [desdém].

[Missione] — "Não, ele não é só um homem porque eu quase perdi meu braço quando fui atrás desse cara. Ele e esse Waldemar!"

        Um breve momento de silêncio é feito entre os presentes.

[Missione] — "Entendem de uma vez por todas que essas criaturas não são igual aos rinocerontes que estão acostumados a caçar...! Essas coisas matam com um único soco nos seus narizes...! Entendam que Super-Humanos não tem os mesmos instintos que nós. O único instinto que eles preservam no DNA deles é o de luta, não de fuga. Se precisar matar, eles matam! Independentemente de quem sejam. Eles não são como os outros garotinhos que só no grito e no cano eles choram, se mijam e chamam pela mãe...! Aqui a gente tá lidando com uma máquina de guerra. Então, sigam o plano e não façam escândalos...!" — [aponta para cada homem] — "...Mama mia..." — [murmura e volta a manter-se ligado à mira de seu rifle].

[Homem 03] — [envios de mensagens de celular] — "Missione, eu falei pra ele esperar..." — [receio e leve angústia].

        Impaciente pela situação burocrática com os clientes, Waxine toma o aparelho de seu colega e inicia uma breve digitação de palavras para com o seu cobrador. Sem esboçar muita reação para a atitude brusca do homem, o proprietário do aparelho só poderia direcionar um olhar de incredulidade misturada a um aborrecimento.

[Missione] — "O que está dizendo a ele, Waxine?"

[Waxine] — "O suficiente pra ele calar a boca e nos deixar em paz..." — [devolve o aparelho] — "Toma."

        O rapaz pega o seu celular sob semblante de irritabilidade.

[Homem 02] — [fita Missione] — "Instala os aparelhos?"

[Missione] — "Meishan..." — [focado].

[Meishan] — "Diga."

[Missione] — "Já pode instalar os aparelhos de vigilância invisível... Faça isso com cuidado..."

[Meishan] — "Entendido." — [mantém posição abaixada, se deslocando com os pés e mãos].

        Missione retira de seu bolso uma rádio de mão para se comunicar com outros colegas.

[Missione] — "Gambino..."

[Gambino] — [atende de dentro do carro] — "Aqui."

[Missione] — "Se aparecer concorrência, desapareça com ela..." — [olhar letal].

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---------[Minutos depois]----------

        Enquanto um espionava, o outro vigiava. Missione sabia que Tallus o avistava, ao passo que Tallus também sabia que estaria sendo seguido, todavia, o invasor estava coberto com máscara, sua cabeça com um boné e seus olhos, sob óculos noturnos. Todos igualmente escuros.

[Tallus] — "Não dá mais pra vê-los... Estão abaixados..."

[Waldemar] — "Estão com os rostos cobertos?"

[Tallus] — "Todos eles... Alguns eu só consigo ver o nariz e boca, outros vem com máscaras e óculos escuros..."

[Waldemar] — "Quantos você viu?"

[Tallus] — "Eu consegui ver três lá na frente... Os demais devem estar no carro... Eles são muito amadores."

[Waldmar] — "O que eles estão fazendo lá?"

[Tallus] — "Não sei. Um deles estava com uma arma de fogo mirada pra cá, mas guardou."

[Waldemar] — "..." — [olha para a janela] — "Conseguiu escutar alguma coisa de lá?"

[Tallus] — "Eu escutei um sujeito falando algo como 'Mama mia'..."

[Waldemar] — "Que estranho... Isso me pareceu meio familiar." — [pensa por alguns segundos apoiando o seu cotovelo sobre a cadeira] — "Tem alguma ideia de quem seja?"

[Tallus] — "Eu suspeito que seja o Missione..." — [fita Waldemar] — "Só pode ser ele..."

[Waldemar] — "Como sabe que é ele?" — [desconfiado].

[Tallus] — "O sotaque ele é bem específico. Já viu mais alguém falar assim além dele?"

[Waldemar] — "Não... De italiano eu só conheço o Missione."

[Tallus] — "Então ele é naturalizado?"

[Waldemar] — "Ele é." — [pausa] — "Mas... Tallus..." — [mão cerrada próxima ao rosto] — "Você disse chegou a ver o Missione no hotel ontem à noite..."

        Tallus volta seu rosto para Waldemar.

[Tallus] — "Sim. E era ele, eu vi o rosto dele."

[Waldemar] — "E o quê que ele quer caçando você? Ele já é podre de rico." — [incrédulo].

[Tallus] — "A ganância desses caras é infinita. Um SH potencializa os lucros dele..." — [abaixa a arma de fogo] — "O carro deles já partiu... Não sei o que eles fizeram, mas eu tenho a impressão de que estão rastreando os nossos passos."

[Waldemar] — "Eu vou chamar a polícia, cara. Isso já tá virando palhaçada..." — [se levanta bruscamente da mesa e se dirige para outro cômodo].

        Em silêncio e sentindo-se um pouco responsável pelos transtornos ao seu anfitrião, Tallus recolhe os talheres e pratos da mesa, organiza tudo o que precisa ser feito e deixa a pia  limpa e a mesa de jantar arrumada. Com a casa sob fracas luzes de luminárias e velas artificiais, o homem sobe até o quarto de Waldemar. Nota que o proprietário da casa estava a apoiar as mãos sobre as laterais da janela e compenetrado com o que via além da vidraça. Preocupado com o impacto que sua estadia estaria provocando na vida do homem, Tallus se mostra um pouco desapontado e constrangido com a situação em que viviam. Um homem daquele porte morando de favor na casa de outro homem que mal conhecia, e trazendo de bagagem, uma série de prejuízos. É nesse momento em que Waldemar percebe a sua presença e lança e uma feição de resignação diante de uma situação iminente de invasão domiciliar.

[Tallus] — "Eu estou te trazendo muitos problemas, não estou?" — [preocupado].

[Waldemar] — "Humpf..." — [sorri olhando para a janela] — "Relaxa, Tallus... você não pediu pra ser atropelado. Se não fosse eu, seria outro no meu lugar." — [acende um cigarro].

[Tallus] — "Olha, quanto ao seu carro, eu..."

[Waldemar] — "Não, não, esquece o carro..." — [ergue uma das mãos e expressa negação com a cabeça] — "Esquece o carro. Não foi você que atirou nele." — [pausa] — "Vamos fazer o que a gente combinou, ok? Você fica aqui três dias e depois você vai embora e fica tudo certo."

[Tallus] — [estranhamento] — "...Não era uma semana?"

        Waldemar pensa por alguns segundos antes de responder.

[Waldemar] — "...Era..." — [pensativo].

[Tallus] — [pausa] — "...Claro." — [confirma] — "Vai precisar que eu prepare sua banheira?" — [aponta para o outro lado].

[Waldemar] — "Ah não, Tallus, aí você tá fazendo o trabalho de um mordomo...!" — [esboça um feição contrariada em seu rosto].

[Tallus] — "Não é pra menos. Você me abrigou na sua casa. É justo que eu sirva pra alguma coisa."

        Resistente em aceitar a ajuda de Tallus, Waldemar o faz à contragosto, mas sem reclamar.

[Waldemar] — "Ok, então, se você quer me ajudar, fique à vontade. Só não se sobrecarregue, eu sei me virar com algumas coisas aqui."

[Tallus] — "Tá bom. Me chame quando precisar que eu leia alguma coisa pra você dormir."

[Waldemar] — "Ah, há...! Piadista... Vai te catar, viu?" — [ironiza].

        O homem caminha pelos corredores sob risos discretos. Após preparar a o banho de seu anfitrião, era a vez de Tallus de se purificar de toda a impureza que que as altas cargas de estresse lhe fez enquanto esteve preso. Pela primeira vez após 06 longos meses, o homem volta a sentir-se seguro e aconchegado pelo calor da água corrente que escorre em sua pele. Nada de banheiras insalubres e águas oleosas. Pela primeira vez, os seus lapsos de memórias tenebrosas em sua mente estavam neutralizadas. Após bastante se ensaboar, lavar os cabelos e cuidar de sua limpeza bucal, o seu corpo volta a reviver as ondas de arrepio e prazer que eram impossíveis à sua existência enquanto vítima. Pela primeira vez, se sentia acolhido, em casa. O homem se assusta com a forte energia que havia lhe invadido as entranhas e apoia sua mão sobre a parede azulada do toalete. Quando olha para baixo, não sabe muito bem o que fazer com aquela tensão que lhe exigia a sua liberação. Respira fundo enquanto mantém os olhos fechados, e pela primeira vez, o homem sente vergonha. Vergonha de seu próprio desejo. Antes de toda a tormenta que teve que passar, não havia dúvidas do que deveria fazer com seu corpo. Era acostumado a colecionar diversas relações casuais, até mesmo com sua própria mão. Agora, o homem estava travado. Não consegue olhar para o seu próprio corpo sem se sentir maculado e indigno. Toda vez que seus impulsos ameaçavam emergir, lembranças das infames imagens da Entrevista Coletiva lhe viam para atormentá-lo. 

        Enquanto aumentava a temperatura do chuveiro, seus pensamentos somente se esbarravam em Räma e Waldemar. Eles são a ponte para o esquecimento de sua vergonha, ou pelo menos, a amenização de sua culpa. Embora não tivesse a menor chance com o seu anfitrião, isso o atiçava de maneira inimaginável, pois tal dificuldade valia o mistério, a conquista, a provocação. E Räma, desde sempre foi sua grande cúmplice do prazer mútuo. Sempre ganhou homens e mulheres só com algumas trocas de palavras ao pé do ouvido. Jurou para si mesmo que não tocaria em quem não fosse um semelhante seu, e novamente, vem o sentimento proibido da da "mistura de raças", tão combatida e propagada pelos jornais rosados de sua Terra Natal. A respiração do homem se escalava à medida em que contia seus impulsos com toda a força. De olhos cerrados, fugia daquilo como quem não quer acordar de um longo sono. Com as mãos sobre os cabelos, suas unhas começam a espremer o seu couro cabeludo a ponto de as pontas de seus dedos avermelharem. Com a resistência à sua catarse, essa lhe pulsava de forma cada vez mais impiedosa em seu corpo. De tanto evitá-la, seus joelhos começam a tremer a ponto de quase se desequilibrar. Quando quase quebra os seus dentes de tanto cerrá-los, o homem vocaliza sem querer, caindo de joelhos sobre a superfície da bacia, a ponto de trincá-la. Quando volta a si, observa a parede azulada marcada com o fruto de sua erupção. Ofegante e sentindo-se estúpido, Tallus imediatamente limpa as evidências de sua volúpia e não sabe o que fazer com a banheira.

[Tallus] — "Droga... primeiro o carro, agora a banheira..." — [respira ofegante] — "Merda..." — [raiva, força sua mão sobre a parede].

        Quando nota um estranho barulho por detrás das paredes, Waldemar certifica de que seu amigo não havia morrido afogado.

[Waldemar] — [efetua três batidas na porta com um dos dedos] — "Tallus? Bateu a cabeça?"


---------[SOM POR DETRÁS DA PORTA DO BANHEIRO] --------- "Tá tudo bem aí atrás?"


[Tallus] — "Sim, tá tudo bem! Eu escorreguei..."

[Waldemar] — "Eu esqueci de te avisar que eu poli essa banheira essa semana e ela está bastante escorregadia."

[Tallus] — "Ah, sim, tudo bem... eu acho que a superfície dela trincou com meu joelho..."

[Waldemar] — "Essa banheira já tá caindo aos pedaços, eu vou comprar outra."

[Tallus] — "...Ok." — [feição de preocupação, água corrente sobre sua cabeça].

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-------[MANHÃ SEGUINTE. 09H15 DA MANHÃ. PREPARAÇÃO PARA COMPRAS DE VESTIMENTAS EM ESTABELECIMENTO COMERCIAL PRÓXIMO]----------

[Waldemar] — "Eu vou sair pra fazer umas compras e trazer algumas roupas pra você se vestir. Quer vir comigo ou prefere ficar aqui?"

[Tallus] — "Eu vou contigo, mas eu vou usar o boné e os óculos se você não se importar."

[Waldemar] — "Quando chegar lá, vai ter que tirar os óculos. Fica estranho pra cacete e as pessoas vão te olhar por lá."

[Tallus] — "Tá bom." — [se conforma].

----------------->>>> 10H30 DA MANHÃ. LOTAÇÃO BAIXA DE PESSOAS. LUZ SOLAR PERPASSA AS VIDRAÇAS DO TETO DO CENTRO COMERCIAL. OLHARES INDISCRETOS.

        Mesmo com toda a discrição em sua forma de se vestir, nada poderia fazer Tallus se desviar das centenas de olhares para si. As pessoas o fitavam como se fosse uma enorme pedra de diamante lapidada. De fato, o homem era extremamente bonito para os níveis mais exigentes daquela sociedade. Enquanto alguns puxavam seus filhos pelo braço sob semblante de ressentimento, outros desconhecidos filmavam o rosto de Tallus a uma certa distância como quem registra uma celebridade. Nenhum daqueles frequentadores estavam acostumados com pessoas do porte de Tallus presenciando os mesmos espaços que eles. Todos os outros de seus conterrâneos, estavam mais concentrados em toda a América. Tallus era um dos únicos SH fisicamente presente em toda a Alemanha e Europa, além de Räma. Um único Super-Humano do tipo Transmorfo se hospedava na Arábia Saudita, e o outro, nos Estados Unidos. O homem era uma raridade naquele território. Percebendo o desconforto de Tallus, Waldemar o guia com a cabeça para que desviasse o caminho direto para uma das lojas do shopping. Ao final do corredor, havia uma das dezenas de instituições públicas de registros cíveis e extraordinários dos estados do país.

.................15h30 da tarde. Vegetação próxima da residência. Investigação policial.

[Waldemar] — "Ontem nós vimos um veículo se aproximar dessa região e ficar estacionado aqui por uns 40 minutos..."

[Policial] — "Deu pra ver quantos eram?"

[Waldemar] — "Meu empregado só viu três deles, mas estavam cobertos com máscaras, bonés e óculos escuros... Ele suspeita que um dos membros é um camarada chamado Missione Constanzo."

[Policial] — "Missione?" — [fita Waldemar].

[Waldemar] — "Sim, é o dono do 'Bar Vermelho'. Fica há uns 50 quilômetros da minha casa. Minha residência fica logo ali".

        O policial vira seu rosto em direção ao local onde estava a residência de Waldemar. Logo nota a presença de Tallus pela janela. Com um binóculo em mãos, o homem melhor visualiza o rosto do SH. Por meio de seu tablet, rapidamente identifica Missione na lista de banco de dados coletados pelo Governo Alemão. Sua ficha não era muito de se animar. Os detalhes de seu histórico acende uma luz em sua mente quando fita Tallus pela primeira vez.

[Policial] — "Aquele ali é o seu empregado?"

[Waldemar] — "Sim, ele é. Faz serviços domésticos." — [coça a cabeça].

[Policial] — "E você o tutela?"

[Waldemar] — "...Não, ele não é tutelado por mim."

[Policial] — "Ele dorme na sua casa?"

        A pergunta causou uma boa dose de desconforto em Waldemar.

[Waldemar] — "Desculpa, mas..." — [acelera o piscar de olhos] — "Por que a pergunta?"

[Policial] — "Foi o senhor que relatou ter recebido uma rajada de tiros no seu carro anteontem. Não foi?"

[Waldemar] — "Sim. Fui eu."

[Policial] — "Esses sensores aqui..." — [exibe o pequeno aparelho] — "Eles foram colocados nas árvores para rastrearem os movimentos de quem entra e em quem sai do perímetro do bairro... O sujeito que está aqui" — [exibe a tela do tablet] — "Ele é suspeito de integrar um grupo obscuro chamado 'Lolita Slave Toy'. Já ouviu falar?"

[Waldemar] — "O Tallus me contou. Ele já foi sequestrado uma vez pelo mesmo grupo."

[Policial] — "Foi o que eu pensei." — [olha para os lados] — "Já acionei as autoridades e identificamos o veículo que partiu desse bairro. Em breve o senhor ficará a par de mais novidades."

[Waldemar] — "Ah. Obrigado."

Antes de partir, o policial lhe cede uma breve advertência acerca da interação de Waldemar com Tallus.

[Policial] — “E chefe...” — [se aproxima para próximo do anfitrião] — “... toma muito cuidado quando colocar um desses SH’s dentro da sua residência, pois na menor contrariedade que o Senhor causar a essas criaturas isso pode te custar a vida. Eles não sentem culpa, medo ou vergonha de seus próprios instintos, portanto, não se esqueça que o que você tem na sua casa não é uma pessoa, é um tanque de guerra.” — [deposita o quepe sobre a cabeça] — “passar bem.” — [se dirige até a viatura].

        Sob discreta insatisfação em sua face, Waldemar parte em retirada de onde estava direto para a sua residência. Embora não parecesse, Tallus conseguia escutar conversas humanas a vários quilômetros de distância. Mesmo sem querer, sua presença estava começando a se tornar um incômodo para Waldemar e alvo de comentários da vizinhança. Mesmo percebendo sua contrariedade, Tallus permanece realizando os afazeres domésticos.

[Waldemar] — [adentra a casa] — "Suas impressões estava certas..." — [pendura o casaco sobre um cabideiro] — "Missione é um dos suspeitos de integrar o grupo 'Lolita Slave Toy'. E pelo andar da carruagem, ele pode estar atrás de você."

[Tallus] — "Já senti algo estranho no sangue daquele Missione desde a primeira vez que olhei na cara dele..." — [pausa] — "O café e o queijo com geleia de goiaba estão prontos..." — [diz enquanto limpa os móveis].

[Waldemar] — "Quê isso, tá querendo assinar carteira de trabalho agora?" — [impressionado] — "...Você é rápido... mas não precisava."

[Tallus] — "Claro que precisa, não vou abusar da sua bondade. Vamos, venha comer." — [larga o pano sobre uma cadeira] — "Farei o jantar às 21 horas." — [limpa as mãos com álcool].

[Waldemar] — "Pode deixar que dessa parte eu cuido. Você já arrumou demais essa casa, já tá dando agonia."

[Tallus] — "Vai me dizer que está com ciúme da cozinha agora?" — [sorri enquanto serve o café].

[Waldemar] — "Claro, meu próprio hóspede cozinha melhor do que eu, não podia deixar passar essa chance."

[Tallus] — "Olha que é difícil me derrotar na panela..."

[Waldemar] — "Ah, é? Me dê só um tempo de te provar o contrário..."

[Tallus] — "Manda ver." — [sorri].

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        O dia passou e um breve momento de paz cobriu aquela região. Tallus vigiava as ruas pela janela a cada hora enquanto mantinha seus afazeres que se obrigava a cumprir em troca da hospitalidade de Waldemar. O anfitrião lia algumas páginas de um livro e organizava coisas de seu trabalho para os próximos dias em frente ao seu laptop. O dono da casa tinha um móvel e uma estante com abajur só para leitura e outro canto só para o seu computador. Tallus aproveitava as roupas que havia colocado na máquina de lavar e as colocava em um compartimento à laser que as secava e as desamassava em menos de alguns minutos. O homem separava as roupas e as punham em grupos na máquina, cada um por vez. A casa dispunha de eletrônicos de alta tecnologia e instrumentos mais evoluídos para auxiliar em limpezas mais profundas e velozes. Quando não queria gastar tempo lavando os pratos na água aquecida da pia, que mais parecia uma fonte com bica horizontal e reta, depositava os talheres dentro de uma máquina de lavar louça. Todos os 120 objetos metálicos de cobre estavam prontos em 30 minutos. Os restos orgânicos eram triturados na própria pia da cozinha e nos fundos do porão da casa, havia um local destinado à combustão desses restos. Uma fornalha que transformava absolutamente tudo em pó.

        No período noturno, ambos já tinham terminado de desfrutar de um belo jantar, um bom suco tintado de groselha e passaram um tempo tomando café junto a uma saborosa sobremesa. Camarões gigantes ao nero de sépia com alguns legumes. Logo após, uma torta alemã. Não havia celular, não havia distrações e não havia a agitação descomunal da modernidade sobre a mesa naquele momento. Só o silêncio e a contemplação da quietude. Em breve, já terão passadas 48h do momento em que Tallus escapou de seu cativeiro. Após o jantar, ambos recolhem a mesa e deixam tudo ajeitado para se prepararem para o banho, e por fim, fazerem uma pausa para uma boa leitura de alguns livros. Após o longo período de descanso para os dois, Tallus observa o relógio da parede do quarto de Waldemar e deixa o livro sobre a cama para ir até a cozinha. Precisava efetuar uma ligação antes que a oportunidade pudesse passar.

[Waldemar] — "Onde é que você vai? Fica aí." — [feição de leve inconformismo].

[Tallus] — "Eu vou ligar pra uma amiga minha. Ela trabalha no hotel onde a gente se hospedou. Eu volto logo."

[Waldemar] — "Tá falando da recepcionista?"

[Tallus] — "Ela mesma."

[Waldemar] — "Ah... Ok, garanhão. Vai lá." — [leve sorriso, recolhe-se e coloca seus fones de ouvido sem fio].

        Tallus sai do quarto de Waldemar e desce as escadaria rumo à cozinha. Lá dentro, havia uma sala de despensa e um local reservado para os eletrodomésticos, varais, janela e um canto destinado a abrigar uma computação embarcada para telefonemas por voz, vídeo e à guarda de uma imensa lista telefônica virtual à escolha do usuário. Tallus disca para a recepção do hotel no intuito de contatar Räma.

[Tallus] — "Olá, boa noite, estou falando com a recepcionista chamada 'Räma'?"

[Räma] — "Sim, sou eu. Tallus?"

[Tallus] — "Eu mesmo. Preciso de uma ajuda sua."

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        Em pouco tempo, Tallus retorna para o quarto de Waldemar, onde novamente pega o seu livro e se senta na cama de seu anfitrião. Só de meias e pijamas, Tallus é observado por Waldemar, que se impressiona com a quantidade de livros que o SH já havia lido em menos de um dia.

[Waldemar] — "Você já leu os três livros?"

[Tallus] — "Sim. De ontem pra hoje."

[Waldemar] — "... 'Codex Seraphinianus'... Como você dá conta de ler isso?"

[Tallus] — "Os manuscritos desse autor são muito parecidos com os de Vandora... Algumas coisas eu consigo entendê-las."

[Waldemar] — "Pirei. Esse troço é de mais de 20 mil anos atrás."

[Tallus] — "Já chegou a dar uma olhada nele?" — [feição serena].

[Waldemar] — "Eu não entendo nada do dialeto desse livro... Bom, acho que já vou encerrar por aqui. Já estou ficando cansado."

[Tallus] — "Eu vou ler mais um pouco. Se quiser, pode apagar a luz, eu enxergo bem no escuro."

[Waldemar] — "Ok, então." — [desliga a luz] — "...Aliás..." — [vira-se para Tallus] — "Se quiser ficar nessa cama e dormir aí mesmo, pode ficar."

        A fala de Waldemar desperta a curiosidade de Tallus.

[Tallus] — "Eu posso?"

[Waldemar] — "Claro, ora, se tem duas camas, uma é pro hóspede. Além do mais, a cama da minha irmã é meio que pequena pra você. Você é alto e atlético." — [aponta o braço para Tallus].

[Tallus] — "Admito que eu gosto dessa daqui... é bem espaçosa. Ok, eu fico aqui." — [sorriso discreto].

[Waldemar] — "Bom... boa noite." — [deita-se e vira-se].

[Tallus] — "Boa noite."

        Em menos de dois minutos, Waldemar cai no seu sono mais profundo. Tallus era bastante silencioso, e a vizinhança daquele bairro não era diferente. A única presença eram as luzes de alguns postes. Tallus se ajeita para uma melhor posição e volta a perpassar seus olhos pelas páginas inundadas de letras frias e pequenas. Mesmo de longe, enxergava os caracteres tal como uma água visualiza sua presa a quilômetros de distância. Nenhuma gota d'água tirava o seu foco. Logo abaixo dos andares da casa, a fornalha do porão queimava como o inferno. Debatendo-se para se libertar, um homem agarrado pela sua nuca enquanto seu carrasco aproxima seu rosto ao fogo, tem sua pele ardendo em carne viva. Os seus gritos de desespero ecoavam todo o andar do subsolo até que sua própria língua derretesse junto à sua face. Ambos de vestes pretas do pescoço aos pés, o perpetrador da tortura cobria inteiramente seu rosto sob um manto siliconado preto. De joelhos, o torturado mais se queimava cada vez que tentava desviar do fogo. O barulho de seu lamento era tamanho que acordou Waldemar sobressaltado.

-----[DESPERTAR ABRUPTO. 03H00 DA MANHÃ. SUOR FRIO PELO CORPO. RESPIRAÇÃO OFEGANTE]-----

[Tallus] — [desperta] — "Waldemar, o que houve?"

[Waldemar] — [respiração ofegante]

        Preocupado com o estado de choque de seu anfitrião, Tallus rapidamente vai até o leito de Waldemar checar seus batimentos cardíacos. 

[Tallus] — "Wal, tudo bem?" — [toca o ombro do homem].

[Waldemar] — "Tive um pesadelo..."

[Tallus] — "Calma, respira."

        Ao sentar-se próximo do homem, Tallus coloca a sua mão sobre o rosto e pescoço de Waldemar. Nesse momento, o homem sobressaltado começa a voltar em si, mostrando um estranhamento em relação ao semblante de Tallus. Sua mão mantinha-se firme sobre parte da lateral de seu rosto e pescoço enquanto a sua respiração se mostrava pesada. Seu olhar era tão fixo que mal conseguia submergir de suas profundezas. Waldemar começa a se sentir afogado pelo olhar penetrante de Tallus tal como se estivesse sendo puxado por uma sereia maligna. À medida em que Waldemar se acalma e se sente acolhido pelo homem, também mostra-se intimidado desconfortável com o nível de proximidade de Tallus para consigo. É nesse momento em que Waldemar percebe que Tallus estava aproximando seu rosto contra o seu. Sua imediata reação, é a de retirar a mão de Tallus de seu rosto e virar-se para o lado oposto, em um ato claro de negação de sua investida. Waldemar percebe o nível de força do braço de Tallus quando o retira de perto de si. 

[Waldemar] — "Tallus... eu acho melhor pararmos por aqui."

[Tallus] — [um pouco constrangido, afasta lentamente seu rosto de Waldemar] — "Desculpe... eu não podia deixar essa oportunidade passar... eu fiz de mal jeito..."

[Waldemar] — "Tallus... onde quer chegar?" — [negação e estranhamento].

        Profundamente apaixonado como uma abelha que se atrai para as flores, o homem não desvia o olhar de Waldemar um único milímetro. Sua íris era tão viva quanto a de uma pedra lapidada e tão funda como o abissal.

[Tallus] — "Eu sei que essa não é a melhor forma de me declarar, mas... eu gosto de você, Waldemar.... muito." — [balança a cabeça positivamente].

[Waldemar] — "Como assim...?" — [confuso] — "Você mal me conhece direito." — [feição de estranhamento].

[Tallus] — "O suficiente pra saber o que sinto... Sério. Eu te acho incrível, Waldemar... me atraio muito por você. Seu jeito, seu semblante, seu corpo. Desde a primeira vez que o vi, eu não poderia passar todos esses dias sem te dizer nada mesmo que eu não tenha retorno de seu afeto."

------>>>>>>>> [Longa pausa de silêncio]

        Nesse momento, Tallus pega gentilmente as duas mãos de Waldemar e as aproxima contra seu peito, abrindo todo o seu sentimento para o alvo de sua admiração e fascínio.

[Tallus] — "...Transa comigo, Waldemar. Me dê a chance de provar o meu valor... me deixe ficar com você. Eu sei que você não é afeito a pessoas como eu. Mas eu quero ter a chance de te conquistar. Quero que você saiba que você balança meu coração, Waldemar."

        Sob um leve sorriso de constrangimento e lisonjeio, Waldemar balança a cabeça em tom de negação e discretamente afasta suas mãos de Tallus.

[Waldemar] — "Caramba...” — [pequena pausa] — “Olha, Tallus... foi bastante corajoso da sua parte se declarar pra mim. Mas eu gostaria de deixar uma coisa bem clara... por tudo que eu li sobre os Super-Humanos, nós dois sabemos que um SH sabe perfeitamente quando alguém se atrai por ele.” — [pausa] — “E você sabe muito bem que eu não sou atraído por você."

        Tallus abaixa a cabeça em sinal de desapontamento. Apesar disso, o homem balança a cabeça positivamente em tom de conformismo.

[Waldemar] — "Meu negócio não é com homem, entendeu? Eu gosto de mulher." — [semblante sem graça].

[Tallus] — "Tudo bem, me desculpe..." — [cabeça baixa, seguindo de retorno do olhar para Waldemar] — "Eu não devia ter dito isso, avancei o sinal..."

[Waldemar] — "Tudo bem, Tallus... Você fez bem em falar. Em..." — [gesticula com a mão] — "me pedir. Foi honesto e limpo comigo. É mais civilizado do que muito sujeito por aí."

[Tallus] — "Que bom, obrigado." — [sorri para o homem].

[Waldemar] — "Olha, você tá tenso, tá precisando extravasar, você não quer... trazer alguém pra passar a noite, eu tenho um quarto de casal logo ali atrás, vocês podem ficar mais à vontade." — [oferece ajuda].

[Tallus] — "Não, cara, melhor não. Seria até loucura trazer gente aqui sabendo que tem uma cidade inteira me caçando... Não é seguro."

[Waldemar] — [pensa um pouco] — "Éh, não. Você tem razão."

        Após uma pequena pausa de silêncio, Tallus se retira da cama de Waldemar e vai direto para o seu leito de onde esteve.

[Waldemar] — "Aí... Você vai ficar bem?" — [preocupado].

[Tallus] — [cede um sorriso para Waldemar, em tom de risadas discretas] — "Relaxa, eu estou bem." — [ajeita os cobertores] — "Boa noite."

[Waldemar] — "Boa noite." — [pega o seu celular e procura alguma música para acalmá-lo."

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. ------->>>>> [DIA SEGUINTE. 17H30 DA TARDE. VEGETAÇÃO PRÓXIMA]

        Aproveitando o dia para caminhar pela mata próxima de seu bairro, os homens cobrem o solo com um enorme lençol de grossa espessura para fazerem uma pausa para refeição. Waldemar vinha com o café preto e biscoitos de gergelim e Tallus, com o macarrão instantâneo com legumes.

[Waldemar] — "Catei mais um sensor aqui grudado na árvore." — [exibe um na palma da sua mão].

[Tallus] — "Tenho três aqui comigo." — [mira o rosto para a pequena bolsa onde havia guardado os dispositivos] — "... Vai comer só esse biscoito?" — [estranhamento].

[Waldemar] — "Vou, cara, eu avacalhei esses dias e preciso pegar um pouco mais pesado na dieta."

[Tallus] — "Avacalhou nada, só comeu coisa boa."

[Waldemar] — "Macarrão e pudim são gordos, cara. Camarão aumenta o colesterol e suco de frutas também podem engordar se beber demais."

[Tallus] — "Você não é suplementado?"

[Waldemar] — "Pior que sim, Tallus. Mas a suplementação aqui é bem controlada. Só posso realizar nova suplementação a cada 05 anos."

[Tallus] — "E quanto tempo dura o efeito da sua?"

[Waldemar] — "A duração do efeito da suplementação dura só 03 anos. Por isso meu médico me proibiu de comer tanta porcaria e de beber cerveja por esses tempos... Uma pessoa que não é suplementada tem que evitar comer mal, usar drogas, fazer esportes radicais, se meter em brigas ou se contaminar em relações sexuais."

[Tallus] — "Caramba, vocês não podem beber, não podem fumar, não podem comer, não podem foder, não podem brigar, nem se arriscar..." — [conta nos dedos] — "Como é que vocês vivem?"

[Waldemar] — "A gente se adapta às limitações e vive com parcimônia. Isso nos faz criar noção de responsabilidade e consequência."

[Tallus] — "Honestamente, eu diria que é uma vida bem miserável..." — [tédio].

        Waldemar se surpreende com o comentário de Tallus a ponto de virar lentamente o seu rosto para o SH, que percebe que tocou no calcanhar de Aquiles de seu anfitrião.

[Waldemar] — "Porra, vai se foder, Tallus... Miserável?" — [aborrecido e inconformado].

[Tallus] — "Não falei por mal..." — [defende-se] — "Só acho que a vida é muito opressiva com vocês. Tudo é muito difícil e limitado, por mais que se esforcem. É como se estivessem sendo castigados sem nenhum motivo."

[Waldemar] — [leve sorriso] — "Não posso discordar." — [balançar de cabeça em tom positivo] — "Nossa vida é bem caótica mesmo... Mas a gente supera, sabe? Convivemos com isso e desde os primórdios da humanidade, e aqui estamos." 

[Tallus] — "E é por isso que a suplementação é uma mão na roda."

[Waldemar] — "Sim, com certeza. Vocês SH's têm uma posição de privilégio que chega a dar um pouco de inveja, sabia? Vocês não adoecem, nunca envelhecem... não estragam, não ficam feios, não precisam enfrentar o medo de se machucar em tempos de paz. Regeneram... trabalham 05 dias sem parar. É até meio difícil pra vocês acreditar que do outro lado da galáxia existem pessoas que estão passando fome."

[Tallus] — "Antes de vir, eu não acreditava que havia tanto sofrimento... Isso me fez enxergar o mundo com outros olhos."

[Waldemar] — "Faria algo diferente se pudesse voltar atrás?"

[Tallus] — "Não... eu faria quase tudo igual" — [levantar de ombros, inclinar de rosto] — "Quase. Não tudo. E seria expulso do mesmo jeito..." — [sorri].

        Waldemar solta uma leve risada.

[Waldemar] — "Então você tem princípios." — [bebe o café].

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[21H30 DA NOITE. SILÊNCIO NA VIZINHANÇA. CÂMERAS DE SEGURANÇA CONECTADAS A UM SRVIDOR. FORNALHA EM FUNCIONAMENTO].

        

        Os dois cúmplices organizam os talheres, copos, xícaras e jogos americanos para depositarem as suas refeições junto a uma garrafa de suco, aliado a duas compridas taças. O bule de chá vinha depois. Era mantida quente e seu sabor se valorizada à medida em que passava o tempo. Itens de higiene e limpeza são postas em um recipiente à parte dos objetos da mesa de jantar. Tallus organiza a limpeza dos utensílios utilizados para cozer os alimentos enquanto Waldemar prepara a fornalha para trabalhar. Como tinha duas aberturas, uma pequena e uma grande, a debaixo era mantida fechada a maior parte do tempo. De tanto passar sem receber a devida manutenção, a tranca de uma delas aparentava estar bastante desgastada. De seu monitor remoto, Waldemar certifica o funcionamento das câmeras de segurança e dos alarmes da casa. Antes de sentar à mesa, Tallus envia uma mensagem de tela pelo telefone de parede da área de dispensa. As pequenas luminárias são acesas para dar um toque de modéstia e beleza nos tons menos claros. Ambos os homens se recolhem aos seus assentos e preparam seus garfos e facas.

        Trinta minutos de quietude se passaram. Enquanto sorvia sua bebida quente, Tallus nota uma pequena movimentação vinda pelas plantações próximas da residência. Em silêncio, Waldemar também fita Tallus sob a mesma sensação. Um relógio eletrônico projetado para simular sons de "tic tac", tocava harmoniosamente a cada segundo que passava. Os dois terminam o que tinham nos pratos e xícaras, se limpam com lenços umedecidos e se preparam para se armarem.

        Tallus pega o fuzil, Waldemar a escopeta. De seu laptop, o anfitrião acessa as câmeras de segurança com visão mais próxima do alcance de sua casa, tanto nas laterais, como na parte de frente e de trás. Após alguns minutos de vigilância, o homem viu algo se movimentar entre as vegetações na lateral esquerda de sua residência. Estava escuro, mas não impossível de identificar. Um vulto, que mais parecia a de uma forma humana, estava coberto com tecidos muito escuros do que a de um suposto animal silvestre. Poderia ser uma raposa, um cachorro ou um coiote. Mas era pior. Da sala de estar, o SH desliga todas as luzes do salão de jantar em silêncio e fecha um pouco mais as cortinas de persiana. Temia que o sujeito pudesse adentrar e matar Waldemar.

        O dono da casa desce as escadarias armado e toma a frente para investigar o porão. Temente que algo o machuque, Tallus vai atrás.

[Tallus] — "Wal, espera." — [toca o braço do homem] — "Fica atrás de mim."

[Waldemar] — "Não, me dê cobertura atrás, eu vou acionar os alarmes no porão." — [fita Tallus].

[Tallus] — "Tem algum colete de proteção?"

[Waldemar] — "Só tenho armas"

[Tallus] — "Então vá devagar, que eu quero acompanhá-lo."

        À passos macios, os homens fortemente armados se dirigem, aos poucos, rumo às escadarias que dão acesso ao porão e à incineradora. Sob fracas luzes dos cômodos, os dois cúmplices fazem parecer que a casa já estaria inabitável. Seus pés cobertos de meias escuras não deixam enganar. Munidos até os ossos, Waldemar e Tallus descem vagarosamente as escadarias de acesso ao local de descarte de material orgânico e armazenamento de produtos de limpeza.

        O local estava enegrecido e de baixa iluminação, que era emanada pelas chamas da máquina de incineração. Tallus aguarda um pouco acima das escadarias, mas sem perder o panorama de vista para a mira de sua arma de fogo. Ao adentrar o ambiente aquecido, Waldemar se desarma por um instante e não consegue vislumbrar nada naquele porão. Antes que pudesse erguer uma das mãos para ligar as luzes, uma protuberância escura se sobressai logo no canto direito do local de onde a luz da incineradora não a alcançava. Parado por alguns segundos, Waldemar fita aquele corpo alarmado, mas silenciosamente programando um movimento surpresa para o que quer que fosse o que ali estava. Tallus localiza o corpo estendido na parede e mira cuidadosamente sobre a sua região mediana, que mais parecia o seu abdômen. Sem pensar muito, Waldemar olha diretamente para Tallus, que acena positivamente para o mesmo. Na ousadia, o homem logo aperta o gatilho de sua escopeta contra aquele corpo parado sobre a parede. Todavia, a arma não dispara. Tallus percebe a gafe, e direciona o olhar discretamente surpreso para o seu amigo.

--------[BRAÇO ESTENDIDO. ARMA DE FOGO MIRADA PARA WALDEMAR]--------

[Waldemar] — "Oh, mer..." — [forte som de disparo, partida em retirada].

        Antes que o estranho vitimasse Waldemar, Tallus dispara um projétil certeiro contra o seu agressor, o que faz com que sua arma voe para longe e Waldemar ganhe tempo para correr. Não havia mais um segundo para pensar, e por conta disso, o bandido persegue o dono da casa. Mesmo sendo ágil para a fuga, o mascarado de roupas negras é mais rápido para derrubar o que visse pela frente, pegar a escopeta de Waldemar e prensá-lo pelo pescoço contra a parede no intuito de enforcá-lo, Tallus, porém, se joga por inteiro contra o corpo do agressor e o faz ser derrubado no chão em meio a uma poça de combustível que havia derramado ao piso.

        Ao se levantar para pegar a sua arma de fogo que havia sido lançada de seus braços, Tallus logo se apressou em agarrar o homem como uma boneca de pano e o lançá-lo diretamente contra a máquina incineradora. O homem colide contra o fogo e imediatamente é visto ser inundado em chamas, da cabeça até as pernas. A vítima se ergue sobressaltada e corre e meio a gritos de dor, que ecoam por toda a residência como um condenado ao inferno. Tallus permanece parado e encarando seu algoz com ódio em seus olhos. Assustado com a cena de horror, Waldemar saca de um balde de água que havia coletado das chuvas e joga com tudo sobre o corpo do homem, que se lança sobre o piso para conter as chamas. Apesar do estrago feito em sua pele, as suas roupas ainda permaneceram intactas. De um rasgo comprido de sua calça, dava para vislumbrar a sua perna mais vermelha que um pimentão. Horrorizado, Waldemar desliza suas mãos pelos cabelos de sua cabeça enquanto cerra os olhos, e progressivamente, direciona seu rosto para Tallus. Afoito de raiva, mas envergonhado pela tragédia que causou, seu semblante foi se desfazendo diante da feição de censura de seu anfitrião. À essa altura, Waldemar dizia um milhão de palavras com apenas o olhar.

[Tallus] — [constrangido] — "... Desculpe..." — [ergue os braços e exprime negação de cabeça baixa] — "Tá, você tem razão, eu tô muito tenso e não conseguindo me aguentar, preciso trepar com urgência ...!"

        O olhar estático de Waldemar não possibilitava discernir entre a incredulidade, espanto ou irritabilidade. Qualquer dos três já era previsível. Enquanto o homem agonizava no chão, os dois cúmplices pensam por alguns minutos o que fazer com mais um habitante daquela residência. De azarado, Waldemar já tinha de sobra. Já bastasse eu veículo perfurado e sua banheira destruída.

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[23h50 DA NOITE. FILEIRAS DE CURATIVOS E KITS DE PRONTO-SOCORRO. ARMAS DE FOGO INTERCEPTADAS. POTES DE MEDICAMENTOS. LUZ ACESA].

        Finalmente, a máscara foi retirada e o bandido foi revelado. Em estado deplorável e cerrando os olhos o máximo que pode para aguentar a dor, o invasor tem todos os seus pertences confiscados por Waldemar enquanto tem seus ferimentos tratados por Tallus.

[Waldemar] — "Pinça... alicate... tesoura... navalha... preservativo... Ah, olha o que temos aqui... um dispositivo de eletrochoque." — [exibe o aparelho para os dois homens] — "Você ia raptar o meu amigo aqui, não ia?" — [aponta para o Super-Humano].

[Homem] — "Não tinha proximidade suficiente pra isso..." — [voz craqueada e atritosa].

[Tallus] — "Você não me abateria nem se quisesse me beijar." — [diz, quanto organiza as ferramentas de pronto socorro.

[Waldemar] — "Como está as queimaduras? São muito feias?"

[Tallus] — [rasga parte das roupas do homem] — "Não. Só está vermelho. São queimaduras mais leves. A roupa que ele usou é um protetor de chamas... Somente atrasa os ferimentos."       

        Tallus termina de rasgar por completo as roupas negrume do homem e enfaixa toda a região da perna, abdômen, peito e braço esquerdo do homem que invadiu a residência, após utilizar um spray para suavizar as queimaduras médias. Luvas de proteção são postas em suas mãos e algumas de suas queimaduras já havia parado de arder. Boa parte dos ferimentos já poderiam ser tratados em casa e a evolução tecnológica garantia maior autonomia populacional. Atrás de Tallus, a arma de fogo do próprio invasor mirado em seu rosto por Waldemar. De cabeça baixa e sem expressar emoção, o intruso tem todas as suas roupas retiradas e teve como sobra, apenas uma calça de moletom muito branca com detalhes prateados na sua cintura, uma vez que suas roupas íntimas estavam intactas juntamente com sua região genital. Seus sapatos não precisaram ser trocados. Eram coturnos igualmente pretos. Se caso ousasse fazer algo contra qualquer um dos dois, seria alvejado a qualquer momento.

[Tallus] — "Qual é seu nome?" — [olhar frio].

[Waxine] — [breve pausa] — "... Waxine."

[Tallus] — "Quem foi que mandou você pra cá?" — [olhar fixo para o homem].

        Waxine demora alguns segundos para responder, o que faz o SH virar seu rosto para certificar o que ocorria por debaixo de sua cabeça abaixada. Tal mudez provoca a irritação de Tallus.

[Tallus] — [saca de sua arma de fogo e ergue o nariz de Waxine pelo buraco do cano] — "Hey... Abra a bosta da boca, Waxine."

[Waxine] — [intimidado e relutante] — "É um italiano..."

        Não satisfeito com a resposta, Tallus cede um pequeno toque com sua arma de fogo sobre o ombro ferido do homem, que quase pula de tanta dor.

[Tallus] — "Nome, filho. Eu quero os nomes." — [olhar de desprezo].

[Waxine] — [trêmulo de dor] — "...Missione..."

[Tallus] — "Missione... E os outros?" — [olhar letal].

[Waxine] — "Meishan, Gambino, Pakino, Arksan e Miguel..."

[Tallus] — "E o que o Missione veio fazer aqui nesse bairro?"

[Waxine] — [voz dolorida] — "Eh... ah, ele veio atrás de você."

[Tallus] — "Ótimo... isso é tudo que eu queria saber." — [olhar fixo] — "É suplementado, Waxine?"

[Waxine] — "...Sou."

[Tallus] — "Então vai sarar rápido. O suficiente para dar o cumprimento de boas-vindas para os seus amigos."

        Waxine, vulnerável e lotado de faixas pelo corpo, pensa alguns segundos antes de indagar Tallus.

[Waxine] — [imóvel e debaixo de dores] — "...Conhece o Missione?"

[Tallus] — "É claro. Seu colega faz parte do grupo ‘Lolita Slave Toy’, lembra? Está sendo investigado pela Polícia Federal como suspeito." — [olha para Waxine enquanto saca algumas coisas da caixa de prontos-socorros] — "Eles sequestram, estupram e torturam pessoas como eu para vender mídias a um bando de vermes doentes como você e os seus comparsas." — [breve silêncio] — "Você e seus amigos representam tudo de ruim que o Lolita Slave Toy fez comigo que durante esses seis meses."

[Waxine] — "Não sei do que está falando..."

[Tallus] — "Você não precisa saber, só precisa calar o raio de boca e ouvir."

         A resposta ríspida e o semblante frio de Tallus o faz novamente abaixar a cabeça.

[Tallus] — "Quando eu era um prisioneiro, eles utilizavam uma gravação de uma câmera muito antiga da época que eu era um criminoso convicto... Eles sempre me mostravam as imagens do vídeo para que pudessem me violentar todos os dias..." — [enfaixa mais um pouco da panturrilha de Waxine] — "Faziam isso por esporte. Vocês brincam com a culpa e a vergonha das vítimas para fazerem o que quiserem com elas, e é isso que os tornam muito piores do que quem vocês escravizam."

[Waldemar] — "Então é verdade mesmo...?" — [olha para o homem rendido] — "É por isso que Missione estava de olho no Tallus..." — [surpreso].

[Tallus] — [olha para trás] — "Eu sou leiloado na deepnet por um bilhão de dólares... O maior sonho desse grupo é capturar uma moça Transmorfo chamada Vega... só que ela não parou nas mãos deles por ser propriedade de Ashley Dilworth, da CENTRAL." — [trata os ferimentos do homem rendido]. 

[Waxine] — "...E o que você fez...?" — [curioso].

[Tallus] — "Não vem ao caso. Eu já cumpri a pena e ressarci a pessoa que eu prejudiquei.... Feche os olhos."  — [ordena].

        Waxine vira para o lado de olhos fechados e Tallus joga um pouco mais de spray anti-incêndio sobre os seus ferimentos.

[Tallus] — "Diferente de vocês, Waxine, nós devolvemos a vida e a dignidade de pessoas." — [termina de utilizar o spray] — "Já vocês, as aniquilam por puro prazer de destruí-las."

        Waxine se recolhe e prefere se manter em silêncio.

[Waldemar] — [olha brevemente para trás] — "Tem um minuto?"

[Tallus] — "Vamos." — [confirma com a cabeça e se aproxima de Waxine] — "Olha. Nós vamos subir lá em cima e pegar alguns remédios. Se mover um milímetro daqui, te matamos, ouviu bem?" — [adverte].

[Waxine] — "Ok... eu nem posso, não consigo me mover...." — [intimidado].

        Waldemar e Tallus se dirigem até as escadarias para discutir os dilemas legais da circunstância em que se encontram.

[Waldemar] — "...E agora, Tallus?" — [pausa] — "O que a gente faz?" — [preocupado].

[Tallus] — [olhar de canto] — "Fazer o quê?" — [levantar de ombros] — "Esperamos um tempo e mandamos ele ir embora."

[Waldemar] — "Olha, temos um cara... queimado e seminu dentro do  nosso porão..." — [pausa] — "Isso vai aparecer nos noticiários amanhã cedo." — [aponta para o lado] — "Se a polícia bater aqui na nossa porta, vamos ter que nos explicar."

        Tallus posiciona a palma de sua mão sobre a parede.

[Tallus] — "Para todos os efeitos, é legítima defesa. Ele é o invasor. Só estamos protegendo a nossa propriedade."

[Waldemar] — [olha para trás e exibe leve nervosismo] — "E o excesso? E a quantidade de ferimentos em cinquenta porcento do corpo dele?"

[Tallus] — "Wal.. Ele entrou armado, com roupas de camuflagem, te enforcou e tentou nos liquidar. Fim da história." — [traça uma linha reta com a mão] — "É invasão. Não temos nada com o prejuízo dele." — [olhar frio e sereno].

        Waldemar permanece em silêncio por alguns segundos.

[Waldemar] — "Soltamos ele agora?" 

[Tallus] — "Espere pelo menos uma hora. Vou buscar os medicamentos enquanto você o vigia."

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.......... 40 minutos depois..........

[Luzes piscando. incineradora trabalhando em menor potência].

[Waxine] — "....Vocês... vão me levar para o hospital?"

[Tallus] — "Não." — [frieza] — "Você invadiu a casa, agora vai ter que se virar sozinho."

[Waxine] — [nó na garganta] — "...Tem algum casaco?"

        Tallus olha para o homem, seguido para o seu amigo logo atrás.

[Waldemar] — "Lamento, mas vai ter que caminhar no frio." — [feição serena].

[Waxine] — [abismado] — "Isso... isso é negligência." — [olha assustado para ambos].

[Waldemar] — “Negligência aonde, animal? O Tallus fez por você até demais.” — [mira para o amigo].

[Tallus] — "Isso chama-se 'assumir as consequência dos seus próprios atos.'" — [aponta para o homem enquanto sorri].

        Tallus se levanta para pegar as chaves e Waldemar se posiciona para destrancar a abertura na janela no fundo do porão para liberar o homem pelo mesmo local de onde entrou.

[Waxine] — "Mas... ah, ah... mas..." — [atordoado].

        Tallus se dirige até o invasor neutralizado e se abaixa enquanto mira o cano de sua arma contra o rosto de Waxine e pressiona o cão de seu dispositivo como arremate para dar o seu último recado.

[Tallus] — "Agora, Waxine, você vai fazer um grande favor pra mim: diga para o Missione... BEM na cara dele..." — [reforça, aproximado o rosto] — "Que o grupo Lolita Slave Toy terá troco... Ouviu bem?"

        O homem balança a cabeça diversas vezes para confirmar a reposta.

[Tallus] — "Ótimo... boa sorte na viagem." — [se ergue].

[Waxine] — "Mas... tá extremamente frio lá fora." — [aponta para o lado, incrédulo].

[Waldemar] — "É claro que está frio lá fora, você não veio aqui sozinho em roupa de legging? Vai sair do mesmo jeito que entrou." — [debocha].

        Ambos, Waldemar e Tallus, levantam Waxine pelos dois braços e o empurra sutilmente para frente para que o invasor ferido fosse embora.

[Tallus] — "Aí...! Como prêmio de consolação, pode pegar isso aqui se precisar aquecer a garganta." — [joga um enxarpe verde claro cheio de flores cor de rosa para Waxine, que se sente humilhado].

[Waldemar] — "Ah, e não esquece a bengala, tá difícil andar na neve... sabe como é." — [leve sorriso].

    O Anfitrião joga um bastão de madeira marrom para próximo de Waxine, que se abaixa e o pega.

[Waldemar] — "A janela de onde você saiu tá bem ali em cima, já abrimos e tiramos toda a neve."

        Juntos, Waldemar e Tallus mira sincronizadamente suas armas de fogo contra Waxine, para caso ainda reste dúvidas ao marginal.

[Ambos] — "Vai!" — [miram os canos dos dispositivos bélicos].

        Destroçado por dentro e se vendo sem alternativas, Waxine caminha com certa dificuldade até a janela de onde entrou para invadir a casa e render seus moradores. Com ajuda de duas caixas que estavam à sua frente, o homem as escala e projeta seu corpo para frente rumo à abertura da janela direto para o solo nevoso, subindo aos poucos e com uma boa dose de esforço. Depois de muita labuta, o homem finalmente consegue sair pela saída dos fundos do porão, deixando pequenos rastros de neve caindo sob seus pés. O som da queda era tão opaco quanto a sua decadência.

        O mafioso rendido e neutralizado, demora alguns minutos para caminhar à passos largos sobre a neve congelante. O faz com passo na alma e sofrimento físico. Quando notam que o sujeito desaparece do mapa, ambos finalmente abaixam suas armas. Para certificar-se de novas invasões, Waldemar checa as imagens ao redor de sua residência por meio de seu aparelho portátil. Após alguns minutos, Waxine já estava a alguns metros de distância longe da casa.

[Waldemar] — [aliviado] — "Foi embora... Ahh... Deus...!" — [desliza a mão sobre o rosto].

[Tallus] — [balança a cabeça em negação] — "Quanta ousadia desses caras..."

[Waldemar] — "O nome do sujeito era Waxine?" — [estranhamento].

[Tallus] — "Os outros são piores..."

[Waldemar] — "'Miguel' é o mais normal de todos eles..."

[Tallus] — "...Éh... Parece que agora ele faz jus ao próprio nome... arrancamos o mal pela raiz." — [olha para Waldemar com uma feição de deboche].

           Ambos os amigos se quebram em risadas arrastadas, mas segurando-se para não explodirem. 

[Waldemar] — "Puta, você é muito besta, Tallus..." — [mãos sobre nariz e boca, seguido de mãos sobre os joelhos].

[Tallus] — [segurando as risadas] — "Tem que ter alguma coisa engraçada por trás de toda essa zona..."

[Waldemar] — "Pode crer." — [respira fundo].

[Tallus] — "Bom... acho que podemos ir dormir agora... Deixe eu só verificar se a área tá limpa."

        Enquanto Tallus checa a máquina de vigilância do anfitrião, Waldemar caminha de um lado para o outro ao redor do porão, pensando no que fazer no dia de amanhã. Quando para para fitar Tallus por alguns segundos, o anfitrião exibe estranhamento pelo olhar focado do SH.

[Waldemar] — "Aquilo que você falou pra mim foi sério?" — [olhar de estranhamento].

[Tallus] — [tirado do foco, fita o cúmplice] — "O quê?"

[Waldemar] — "Que sua tensão sexual acumulada te fez jogar aquele cara na fornalha?" — [aponta para o fogo].

[Tallus] — [lento virar de rosto, cara de tacho] — "Sim. É verdade." — [confirma com a cabeça].

        Um silêncio dramático de segundos é feito entre os dois.

[Waldemar] — "Me faça um favor, Tallus... cace uma mulher." — [parte em retirada] — "Com urgência." — [olha para trás].

        Tallus quase descamba a rir da sugestão de Waldemar. Após concluir a verificação dos parâmetros da residência, desliga o aparelho e se retira para subir as escadas. De pano úmido sobre a testa, quando encosta a sua cabeça para trás para fechar os olhos por alguns minutos, o homem de cabelos castanhos arroxeados desliza sobre a banheira ao ponto de mergulhar fundo nas águas enxarcadas de óleos essenciais e sabonete líquido. O vapor quente toma conta de todo o toalete e embaça o espelho por completo. Microbolhas se acumulam sobre toda a superfície do recipiente aquático. Alguns minutos se passam desde que Tallus se afundou para o mais fundo na banheira e se entregou por inteiro para o mundo aquático. As pequenas ondas que oscilavam as águas se cessam depois de algum tempo. Quando nada mais se agita, somente um pequeno jato ascendente aliado a algumas bolhas de sabão são vistos sobre a superfície. 

Um minuto se atravessa. Dez minutos de passam. Quarenta minutos voam. Três horas viajam. Tallus subitamente se levanta de sua breve hibernação enquanto cospe uma grande dose de água e sabão de seus pulmões. Sob tosses aquosas, o homem adormeceu sem perceber que havia se esquecido de deixar o chuveiro. Olhando para a janela, abre um pouco de sua fresta, arranca a tampa do ralo do recipiente aquático e espera vazar toda a água vermelha buraco adentro. Tallus liga o chuveiro, e depois de muitas tosses para eliminar o sabão que havia ingerido, o homem termina de se lavar por completo.

        Quando nota além do espaço em sua frente, o ambiente de todo o toalete estava úmido e abafado. O homem se seca, vai até a pia e elimina um pouco mais de água dos pulmões. Desliza sua mão sobre a boca e termina de secar seu rosto. Sem pensar muito, se utiliza de um desodorante próximo de si e dirige-se para fora do banheiro rumo a seu quarto de hospedagem. A escova e pasta dental estavam apoiados próximo à abertura da pequena janela.

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[09H DA MANHÃ. FERIADO NACIONAL. PERÍODO DE SOL QUENTE E VENTOS FRIOS. VAPOR DE CAFÉ].

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        Com pedaços de neve degelada caindo sob teto da residência, alguns passarinhos aproveitam para invadir as casas e procurar algumas flores desavisadas perante o sol daquela manhã. O local era arborizado e as árvores quase abraçavam as construções. O tempo muito frio contrastava bem com o pequeno ascender de calor naquela região, o que dava uma trégua aos corpos dos moradores do setor. O aparelho digital acoplado à parede vibra no fundo da cozinha e os ovos borbulham sobre a panela quente enquanto o preparo do café exala seu doce perfume. Para os mais amantes, o brasileiro era o favorito. Um boa dose de geleia de frutas vermelhas e um bom pão de forma entremeado de queijo e presunto, também caía bem. Após uma boa refeição, era hora de ficar a postos e vigiar as fronteiras da casa enquanto o anfitrião estiver fora.

[Waldemar] — "Vou fazer uma compras no centro de convenções, preciso que você me espere aqui até eu voltar."

[Tallus] — "...Vai demorar muito?"

[Waldemar] — "Vai ser rápido." — [veste um casaco] — "Se aparecer alguém, não atenda e esteja armado." 

[Tallus] — "Copiado."

[Waldemar] — "Se precisar me ligar, use o celular que está em cima da gaveta... Tem familiaridade com esse sistema operacional?"

[Tallus] — "Tenho sim, eu já tive um."

[Waldemar] — "Ótimo." — [saca de uma bolsa transversal] — "Eu já volto." — [parte em retirada].


+++++++++++ Life Sober - Cristobal Tapia de Veer +++++++++++++++++++


        Em poucos segundos, Waldemar deixa a residência para dar início aos seus afazeres enquanto Tallus mantém a vigilância da casa. O feriado era o momento certo para aproveitar chances que a semana de trabalho não permite. As ruas estavam úmidas pela neve aquecida e parte do gelo cobriam as laterais. Ao invés de pegar o seu veículo, Waldemar preferiu pedir um motorista de aplicativo para levá-lo ao centro, pois deixou seu carro na calçada para que os profissionais de manutenção viessem buscá-lo no dia seguinte. Por precaução, saiu mais cedo para abastecê-lo. Tallus se vê completamente sozinho naquela residência frígida e de baixa iluminação. Como queria receber a luz do sol, abriu todas as janelas para deixar que a luz bata em todos os cômodos da moradia. Pela primeira vez, se vê em um estranho bloqueio que o impede de realizar qualquer atividade doméstica. Estava tudo muito organizado e limpo. Nem mesmo os armários, gavetas e as paredes havia deixado para trás. Andando de um lado para o outro e abrindo todos os móveis da casa, Tallus se vê entediado e em estado de alerta. Joga-se no sofá para tentar pôr a cabeça no lugar. 

        Uma hora se passa. Duas horas se passam. Cinco horas voam. Sete horas se arrastam. E nada de Waldemar voltar para casa. Tallus havia até deixado a refeição pronta para quando o anfitrião voltasse. Começou a sentir um pouco da solidão bater à sua porta. O homem passou toda a manhã e tarde sentado no sofá enquanto a luz do sol percorria os cantos de seu corpo e da sala. Não ligou a TV, não usufruiu do celular. Não parou para jogar um jogo. Não fez nada que lhe deixasse distraído ou relaxado. Somente se manteve de coluna ereta, sentado, e com um olhar melancólico por todo aquele tempo. Quando deu por si, já era 16h da tarde. Tallus vai até o quarto de Waldemar e finalmente verifica uma mensagem: "...Desculpe a demora, já estou voltando."

        Tallus estão escreve: "Você estava dando uma trepada pra demorar desse jeito??". A pergunta audaz não obteve resposta. Tallus então joga o aparelho na cama e passa mais um tempo aproveitando a brisa do ambiente enquanto fica esparramado no sofá.

        Após alguns minutos, o homem lembra que o prazo de setenta e duas horas de validade de controle que estava em sua nuca estava prestes a se esgotar. Bota a mão em sua nuca e rapidamente sobre as escadas para pegar o celular de Waldemar para verificar o aplicativo de controle elétrico para tutelagem de SH's. Ao abrir a página e pesquisar pelo seu nome, Tallus verifica que seu controle está vago, o que significa que havia espaço aberto para interessados em sua caça. O hóspede começa a mostrar um leve nervosismo pela possibilidade de invasão à residência. Tallus começa a refletir se matar Waxine não teria sido a melhor alternativa, mas ainda assim, volta a si. Joga sua cogitação pelo ralo para evitar pensar em alguma besteira.

        Ao descer às escadas, o moço nota as armas da casa que estavam fixadas à parede do outro lado da sala. Aproveita para pegar a mais eficiente delas e mater vigília.

[SOM DE PASSARINHOS. MÁQUINA DE LAVAR COMEÇA A PISCAR].

        Quando escuta o toque da máquina de lavar louças e roupas, simultaneamente, Tallus larga a arma de fogo sobre uma pequena mesa de vidro e vai até a cozinha organizar os talheres, e logo em seguida, colocar as roupas no cesto para pendurá-las no varal do jardim da residência. Ao sair pela porta de onde dá acesso ao jardim, o rapaz não nota que algo estava bem atrás de si, parado e à sua espreita. Quando estica uma das roupas e a estende no varal sobre prendedores, a silhueta humana desaparece. Tallus nota passos anormais a alguns metros de distância e sente um odor de um perfume que não era de seu anfitrião. Antes que tentasse verificar o que ali havia, Tallus larga o cesto de roupas em uma mesa de madeira e corre de volta à sala de estar para pegar a arma de fogo. Verificando se havia munição o bastante para se defender, Tallus novamente sai para o local de onde deixou o cesto de roupas, momento em que subitamente encontra Missione caminhando para próximo de si, a passos desajeitados. Ambos se assustam com a presença do outro.

[Tallus] — [aponta firmemente a arma contra o Missione] — "...Eu já tenho dono... Eu já sou tutelado!" — [raiva e nervosismo].

[Missione] — "Ou, ou, ou, cara...! Calma aí, rapaz, sou eu... Missione." — [mãos para cima e um sorriso falso] — “... Eu sou conhecido do Waldemar, esqueceu?"

[Tallus] — "...Como você entrou aqui?" — [olhar de ódio].

[Missione] — "Qual é, cara, eu sou chegado, eu estava preocupado com vocês, sabia? Chegaram até saírem no jornal essa manhã..." — [mira os dois braços para o outro lado] — "Eu pulei o muro porque queria ver meu amigo..." — [feição de surpresa, braços inclinados] — "Você nunca teve amigo, meu irmão?"

[Tallus] — "Vigiou o setor esse tempo todo..."

[Missione] — "Que vigiar o quê, cara, você acha que eu sou o quê? Um voyer?" — [sorriso maligno] — "Eu vim aqui em paz, meu chapa, relaxa, eu tô desarmado...!"

[Tallus] — [olha para os lados] — "Quem mais está aqui na casa?"

[Missione] — "Ninguém, cara, pô, você está achando que eu sou um bandido? Logo eu??" — [mão direcionada para o próprio peito].

[Tallus] — "Não me interessa quem você seja. Já disse, eu já tenho dono e não lhe devo satisfações. Agora VAZA!" — [sacode seus braços com a arma de fogo para espantar Missione].

[Missione] — [recua brevemente com o ato de Tallus] — "Qual é Tallus, você tá ameaçando um cidadão de bem, filho..." — [aponta o dedo para Tallus em feição de advertência] — “Mas tudo bem... Vou te dar uma chance de você mudar de ideia e conversarmos direito.” — [sorri].

[Tallus] — "Waxine falou de você." — [permanece com a arma apontada para Missione] — "Você é do 'Lolita Slave Toy'. 

        Percebendo que sua máscara foi desvendada, Missione relaxa suas mãos, olha para Tallus tal como se estivesse lidando com uma criança valente e destila um sorriso simpático e sereno para o SH. Sentindo-se no controle, Missione cede um discreto passo para próximo de Tallus, que recua, com medo de ser eletrocutado e raptado.

[Missione] — "Waxine não é chegado meu, cara... ele é um devedor. Um  cara sujo que não paga e tenta manchar o credor. Esse negócio de ‘Lolita Slave Toy’ é coisa de bandidão, amigo, isso não é comigo não." — [pausa] — "Eu sou empresário e agenciador de modelos." — [reforça].

        Um momento de estranho silêncio é feito entre os dois rivais. Um pensa na hora de matar. e o outro, de caçar.

[Missione] — "Mas ok, Tallus...!" — [palmas das mãos à mostra e lábios cerrados] — "Eu vou direto ao ponto com você. Eu tenho uma grande oferta pra te fazer." — [aponta para o SH enquanto sorri].

[Tallus] — "Seja lá o que for, a minha resposta é não."

[Missione] — "Eu vi você pela primeira vez no meu restaurante cara, e francamente... eu estou encantado com você, Tallus." — [mira gentilmente sua mão de dedos colados para Tallus] — "Você é muito fotogênico, muito simétrico."

        Tallus observa a tentativa de assédio por parte de Missione.

[Missione] — "Meu caro, você nunca pensou em mudar de vida?" — [mãos unidas à frente do ventre] — "Pessoas assim como você ficam famosas, óh...!" — [estalo] — "Em dois tempos." — [sorri] — "Já pensou em ser o garoto propaganda da minha empresa? Hein? ...Olha a sua beleza, rapaz...! Não tem nada igual nesse país. Sabe quantos SH's tem só na Alemanha?" — [pausa] — "Dez... contando com você." — [aponta para o homem] — "...E sabe?... Eu realmente estive pensando... como que alguém do seu porte pode passar a vida limpando privadas dos outros quando se pode visitar todos os países do mundo?" 

        Enquanto tenta distrair Tallus, Missione desliza suas mãos lentamente sobre seus bolsos a fim de pegar algo que guardava consigo.

        Tallus reforça a mira de sua arma.

[Missione] — "Eu... Opa! Que foi?" — [surpresa].

[Tallus] — "Não ponha as mãos do bolso, Missione." — [adverte].

[Missione] — "...Ok! Tá bom. Sem mãos no bolso...!" — [risos] — "Nada de mãos no bolso, tá livre, olha...!" — [exibe as mãos].

[Tallus] — "Agora diga logo o que você quer." — [olhar letal].

[Missone] — "...Eu quero que você seja meu modelo, Tallus! Quero botar você em todas as capas de revistas e sites de internet. Sabia que eu posso te tornar uma estrela?..." — [pausa] — "Hum?" — [fita o homem].

[Tallus] — [rejeição] — "Eu não vou ser seu tutelado, Missione..."

[Missione] — "Ah... mas devia. É um oportunidade rara! Nunca se inspirou em um grande artista? Você já até foi circense, não foi?" — [sorriso capcioso] — "Tem habilidades artísticas muito primorosas...! Vai ser muito amado por todos que te conhecerem."

-------[PAUSA. MÃOS SUADAS SOBRE A ARMA DE FOGO.]-------------------

[Missione] — "Você nunca quis ser amado, Tallus?" — [sorriso ampliado].

[Tallus] — "Saia daqui, Missione." — [nojo e rejeição] — "Eu não quero mais te ouvir."

        Ao perceber que não conseguiria aliciar Tallus, Missione  desfaz a sua face simpática para um semblante sombrio e de desdém.

[Missione] — "Sabe, Tallus? Você e o Waldemar estão numa situação meio complicada..." — [vira sutilmente o rosto] — "Sabe... queimaram um homem dentro de casa, o mantiveram encarcerado... fizeram ele caminhar treze quilômetros no frio de cinco graus negativos..." — [contorce os lábios para baixo e vira as mãos para cima] — "Você não está muito em condição de protestar contra a minha oferta. Já foi aberta uma investigação contra vocês."

[Tallus] — "Tá preocupado com o Waxine agora, seu merda?" — [mantém a mira contra Missione].

[Missione] — "É pegar ou largar, Tallus." — [feição debochada] — "Com uma única ligação eu troco sua prisão pela sua carreira na modelagem. Sua vida vai ser linda." — [sorri].

[Tallus] — "Então somos dois, porque você também vai mofar na cadeia."

[Missione] — "Eu tenho muita gente na minha mão, doçura, pode ficar sossegado..." — [converge seu semblante] — "Anda, fala logo que aceita, deixa de palhaçada. Você nem cidadania tem aqui, filho. Acha que vai durar quanto tempo depois que o prazo de setenta e duas horas acabar, hein?" — [feição de raiva e deboche].

        Quando menos espera, Tallus escuta uma movimentação sobre as folhas vinda a alguns metros atrás de Missione. Quando foca a sua vista, percebe que Pakino estava mirando um rifle elétrico contra si, o que o apagaria na mesma hora. Quando se distrai por poucos segundos, Missione coloca uma das mãos sobre o bolso.

[LENTA DIREÇÃO DE UMA DAS MÃOS SOBRE O TECIDO DA CALÇA. SUOR SOBRE A TESTA. CÃO ACIONADO POR MÃOS FEMININAS COBERTAS DE LUVAS PRETAS. MIRA DO RIFLE SOBRE O ROSTO DE TALLUS. DEPÓSITO DE UM PEQUENO PASSARINHO SOBRE O CANO DA ARMA DE PAKINO].

[Pakino] — "Cacete, agora não..." — [murmura].

[FORTES BARULHOS DE DISPAROS ECOANDO O SETOR. ESPANTO DE PÁSSAROS PARA LONGE DAS ÁRVORES. FOLHAS CAINDO DOS GALHOS].

        A distração foi o estopim. Missione imediatamente mira a arma de choque contra o pescoço do SH no mesmo momento em que Tallus atira contra seu ombro do homem, assim como dois tiros simultâneos são disparados por Pakino e Räma, que estava camuflada após a residência de Waldemar, escondida entre os galhos de árvores. De espartilho branco, calça marrom, brincos dourados e botas vitorianas pretas, a mulher atinge em cheio a cabeça de Pakino, que cai do teto da casa direito para o solo. Já o tiro do comparsa de Missione, por pouco não acerta Tallus, que só não foi atingido por ter se abaixado logo depois de neutralizar o mafioso italiano. Tallus corre para dentro da casa e fecha a porta com força para repelir Missione, que também se mostrava rápido na perseguição. Caindo para trás devido à pancada em seu rosto, o homem desiste de arrombar a porta e se apressa para pegar a sua arma de fogo junto aos outros comparsas armados. Meishan, Gambino, Arksan e Miguel estavam a postos para caçar Tallus. Waxine foi neutralizado e Pakino estava morto, graças a um reles passarinho.

        Miguel lança bombas de efeito moral projetados para SH's adentro da janela da sala onde estava Tallus. Ambas disparam descargas elétricas que se espalham pela maior parte do local. Tallus, porém, consegue escapar delas e efetuar um disparo contra Miguel, que cai no chão ferido. Se arrastando pelo asfalto, Miguel sai de cena para evitar danos maiores. Missione corre em disparada para arrancar um rifle de disparos elétricos de seu carro, e se posicionar em cima do teto do veículo para tentar acertar o pescoço de Tallus, o que só seria possível quando tivesse a oportunidade de vê-lo pelas janelas. Arksan, faz o mesmo, só que agora com um lança dispositivos que se espalham por toda a sala e corredores do segundo andar. Arkan não perdoa e faz quase toda a residência ser eletrocutada. Tallus se esconde no banheiro até que os tiros se cessem. Ambos os atiradores se preparam para invadir a casa e tentar render o SH.

[Missione] — "Entra na casa e rende ele, vai...! Ele tá no banheiro do segundo andar."

        Arksan imediatamente corre até a residência e sobe as escadas para arrombar o toalete onde estava Tallus. Quando o faz, encontra o local vazio. Por alguns segundos, Arksan caminha em silêncio sobre o cômodo e aciona filtro de seu óculos que o permite enxergar por além das paredes da casa. Nenhuma forma humana é avistada. O homem desliga o aparelho e subitamente é atingido por um objeto de vidro arremessado contra a sua cabeça.

[Arksan] — “Ah!... Merda!”

        O homem olha para trás devido ao ferimento feito contra si, momento perfeito para Tallus disparar rumo à cabeça de Arkan de dentro da banheira. O homem imediatamente morre caído no piso e seu sangue se espalha por todo o banheiro. Por sorte, o SH não foi detectado pelo óculos de Arksan por conta do material que compunha a banheira. Tallus parte em retirada e o disparo efetuado no toalete é escutado por Missione direto de seu rádio.

[RÁDIO NA CINTURA DO HOMEM ABATIDO].

[Missione] — "Pegou ele, Arksan?? ... Arksan! ... ARKSAN!..."

...............[DESLIGA O RÁDIO].

[Missione] — "Tsc...! Caralho." — [negação com a cabeça e feição de aborrecimento] — "Volta pro carro, Miguel!!" — [grita].

[Miguel] — "Tá!" — [corre mancando enquanto sua calça se inunda de sangue].

        Miguel se refugiaria no veículo para procurar por caixas de pronto-socorro e estancar seu ferimento. Missione volta para o teto da residência vizinha onde se camuflaria pelas árvores. Gambino muda sua estratégia e sai de sua posição para se esconder em uma região mais alta e afastada da zona de fogo. O italiano estranha sua movimentação.

[Missione] — "Aonde você vai, desgraça??" — [indaga].

[Gambino] — "Esqueceu que tem que eliminar a concorrência, seu animal?" — [olhar de desdém] — "Vou voltar pro posto pra ficar no lugar do Pakino, porque infelizmente ele tá morto." — [vira brevemente o rosto em feição de aborrecimento e deboche] — "Chama o Meishan." — [parte em retirada].

[Missione] — [negação com a cabeça e semblante de descontentamento].

        Gambino sai silenciosamente do teto de outra residência por meio de uma árvore robusta para acesso ao solo. Como quase todos os seus homens foram abatidos, Missione não vislumbra outra alternativa senão dar a ordem para Meishan, a sua melhor aposta.

[ACIONA O RÁDIO].

[Missione] — "Meishan, vai que é tua!" — [desliga, já irritado].

        Passos firmes e constantes são dados. Sobretudo e macacão branco com detalhes violeta. Coturnos igualmente brancos e luvas roxas. Seus olhos brilhavam como neon e sua máscara branca cobria sua boca e nariz. Protetores de braços, joelhos e para o peito e abdômen. Todos muito brancos. Cabelos brancos até o pescoço e pele tão bonita como dificílima de cortar. Esse era um dos assassinos mais eficientes da máfia. Sua competência foi comprovada por diversas vítimas capturadas para o grupo Lolita Slave Toy e muitos outros espalhados pelo planeta, inclusive, por neutralizar Vega à serviço da CENTRAL.

        À passos largos, Meishan arromba a residência com um dos pés e adentra munido de dois aparelhos curtos que acionam projeções pontudas à laser. Tallus sobe às escadas enquanto efetua disparos contra o homem de máscara e cabelos brancos. Seus olhos azuis brilhantes auxiliam a rastrear a temperatura de corpos que estejam na residência. Por mais que Tallus disparasse, o homem mostrava resistência aos tiros. Por várias vezes, Meishan acerta as paredes, objetos e móveis da casa no intuito de alcançar Tallus. Telefones, modem, computadores e servidores são todos destruídos, tornando seus moradores incomunicáveis. A cada contato com o laser, muita fumaça era expelida dos pontos de queima e derretimento. De seu rádio, o rapaz estiloso escuta os dizeres de Missione:

[Missione] — "Meishan, não é pra matar ele! Traga ele vivo!"

[Meishan] — [desliga o rádio] — "Ah... cala essa boca." — [murmura].

        Por conta da fumaça exalada dos objetos que Meishan acertou, o alarme de incêndio é acionado no teto da residência, fazendo com que uma boa quantidade de água seja eliminada pelos cômodos da casa. Alarmes barulhentos também são acionados junto a um aviso às unidades policiais.

[Meishan] — "Ah, que ótimo." — [parte em retirada].

        A perseguição se escala e os dois homens iniciam uma dinâmica de gato e rato por todos os cantos do segundo andar. Tallus derruba tudo que pode para obstruir Meishan e salta escada abaixo para escapar pela cozinha, ao passo que o perseguidor também salta para baixo e corre atrás do SH. Os objetos que estavam nas mãos de Meishan podiam cortar facilmente qualquer coisa que estivesse na frente, inclusive Tallus. Era mais quente do que o maçarico utilizado para afligir Tallus durante uma das gravações doentias do Diretor.

        O SH encontra uma saída pelos fundos da área de dispensa, mas não encontra uma saída fora dela que não sejam muros de concreto. Tallus então pendura a arma sobre as costas e salta bem alto para ultrapassá-los. Meishan tenta acertar os pés do rapaz com o laser sem sucesso e forma vários cortes no muro. Acopla os objetos na cintura e salta para pular os muros da casa. Ao decorrer da caçada, Missione avista Meishan correndo em direção a Tallus e lança rajadas de tiros contra o SH, chegando a quase acertar seu comparsa. Tallus, porém, conseguiu se desvencilhar dos disparos, e tal movimento de Missione provocou a irritação em Meishan.

[Meishan] — "Não atira, caralho!" — [feição de raiva].

[Missione] — "Vê se termina o serviço logo, Meishan!" — [adverte enquanto olha para trás].

        Meishan ignora os dizerem de Missione e volta a manter seu foco para Tallus. Habilidosos na arte de escalar paredes e saltar lugares altos, ambos fazem um trajeto em círculo por todo o setor, subindo lugares íngremes e percorrendo vários metros de distância pelo asfalto. Arrancando tudo que pudesse de onde estivesse, Tallus saca uma bela quantidade de neve na forma de gelo espesso e joga contra a cara do perseguidor, que não se abala. Uma caixa de correios com luzes pisca-pisca de natal também é lançado contra o homem mascarado, que o repele com o braço. O SH cata uma pedra e joga com toda a força contra Meishan. Nenhum dano é feito. Tallus dispara balas rumo aos dispositivos das mãos de Meishan, a fim de que ele os soltasse. Nada funcionou. Como último recurso, Tallus desencrava um hidrante vermelho com toda a força, causando um imenso fluxo de água contra si e Meishan. Tallus joga o hidrante contra o rosto do perseguidor, que apenas tonteia, mas não é ferido. Mesmo diante de várias tentativas, o SH não conseguia se desvencilhar de Meishan. No final das contas, nenhum dos dois se cansava de correr.

[Meishan] — "Desista, Tallus!"

       Farto de passar por todo o tempo tentando escapar de Meishan, Tallus desvia a rota direto para a mata vegetativa na região de aclive próximo do seu bairro. Apostava em enganar a visão de Meishan. Árvores e mais árvores atravessam o caminho do homem mascarado de cabelos brancos. Folhas e mais folhas tampavam o seu rosto, o deixando com raiva. Quando Tallus finalmente começa a se distanciar de Meisham, o homem cai direito em um buraco disfarçado por folhas e galhos preparado por Pakino e Miguel. O local era fundo e havia sido reservada uma luminária antiga ao final do espaço para caso quisessem se abrigar.

[FORTE IMPACTO NO SOLO].

        Tallus cai de corpo e alma no buraco disfarçado ao ponto das folhas se levantarem do chão. Mesmo sob o impacto, o SH rapidamente se levanta para tentar fugir daquela armadilha, apesar da leve tontura. Para a sua infelicidade, sua escapatória falha quando Meishan aparece justamente na entrada de onde o homem havia caído, já com as armas à laser acesas em suas mãos. Tallus recua para trás com medo de ser cortado ao menor movimento. Meishan salta para o chão e fica no mesmo buraco que Tallus. Satisfeito com a caçada ao seu prêmio, o homem revela seu sorriso ao retirar sua máscara branca e jogá-la no chão. Quando Meishan se aproxima, Tallus se vê encurralado pelos corredores de terra e rocha.

[Meishan] — "Que foi, Tallus? Tá sem alternativa?" — [ergue o aparelho em suas mãos] — "Gostou da casinha que Miguel e Pakino fizeram? Ela foi projetada especialmente pra você, Tallus. Agora, você vai se render e vir comigo até o carro, ou irei te cortar em pedaços." — [sorriso de satisfação].

[Tallus] — "Então se for me matar, faça isso logo de uma vez." — [feição séria].

            Meishan abaixa a sua arma à laser e se vê intrigado com a resposta de Tallus.

[Meishan] — "E quem aqui falou em matar? Eu não mato SH's.” —  [sorri] — “Missione quer você vivo para ser vendido na Deep Web, então eu só preciso cortar seus braços e suas pernas para levá-lo para o Lolita Slave Toy." — [sorriso] — "Como a sua regeneração demora em torno de três dias em BIOTH, aqui na Terra duraria pelo menos umas três semanas... o que seria tempo suficiente pra brincar com cada pedaço do seu corpo..." — [olhar fixo].

        O rosto de Tallus vai se convergindo para um leve semblante de medo e nervosismo.

[Meishan] — [olha Tallus de cima e embaixo sob sorriso devasso] — "Eu já vi alguns vídeos seus feitos pelo Diretor." — [acende os dispositivos à laser] — "Imagine o tanto de dinheiro que eu faria cada vez que eu cortasse cada membro de seu corpo pra vender. O meu lucro iria quintuplicar" — [sorriso sádico].

        Tallus se encosta à parede sob grande vontade de fugir dali.

[Meishan] — [morde os lábios] — "Missione tem planos incríveis para cada uma das partes de seu corpo. Eu, por exemplo, partirei o seu pênis toda vez que ele voltar a regenerar e vou fazer os melhores vibradores com ele..." — [sorriso maligno].

        Ao erguer um dos dispositivos à laser, os dois aparelhos subitamente começam a mostrar defeito e param de funcionar, interrompendo as projeções do laser. Sem saber o que ocorreu, todo o brilho do rosto de Meishan se esvai como um rojão que falha ao ser disparado.

[Meishan] — [mantém o sorriso, agora, disfarçando o medo e a surpresa] — "O quê?"

        Aos poucos, Tallus nota que a arma pela qual Meishan se gabava estava parando de funcionar. O constante contato com a água e os intensos disparos feitos contra os aparelhos pelo SH, os fizeram se danificar. O medo agora se desfaz, dando lugar ao âmago de fúria em sua face.

[Meishan] — "Não é possível..." — [fala sussurrada e sorriso de nervosismo].

        Trezentas balas. Quinhentas balas. Mil balas. todas disparadas em cheio contra cada parte do corpo de Meishan como forma de descontar toda a sua raiva. E ainda restava munição o suficiente para mais trinta minutos de disparos. A submetralhadora que foi tão subestimada pelo grupo, agora está fazendo um grande papel de, ao menos, deixar alguns dentes de Meishan trincados. 

        De tantas balas ricochetearem, uma delas entrou no ouvido do perseguidor. Empurrado para trás devido ao impacto das balas, Tallus laça uma pesada no ventre de Meishan para fazê-lo bater contra a parede. O mafioso solta os dispositivos no chão e ambos se agarram em uma disputada acirrada de trocação de socos no rosto de cada um. A cada dois golpes de Meishan contra Tallus, o SH recompensava com mais três socos nas fuças do rapaz. Agarrados um no braço do outro como rocha, os dois caem simultaneamente no solo frio, momento em que Tallus assume o comando e cede vários golpes contra o rapaz. O até então mascarado se protege com seus braços para evitar danos maiores. Meishan dá uma joelhada contra os testículos de Tallus, e golpeia sua garganta, fazendo-o sair de cima de seu inimigo sob grande desconforto. 

        Quando tenta fugir da caverna, Meishan é agarrado fortemente pelo pescoço, momento em que o rapaz de cabelos brancos lança Tallus para frente para se desvencilhar. O homem é arremessado em cheio contra a parede, mas não desiste de linchar o bandido. Meishan sobe rapidamente pelas escadas de madeira do esconderijo quando é puxado por Tallus com toda a força, o que o faz tomar um forte tapa de mão aberta por Meishan e deixá-lo tonto. Na segunda tentativa, Tallus agarra Meishan pelas roupas, o que lhe rende um forte chute em seu rosto e o faz cair para trás.

[Meishan] — "Sai de mim!" — [grita].

        O cavaleiro branco tenta novamente subir as escadas, não contando com o fato de que o seu rival também é muito rápido para se recompor. Dessa vez, Tallus segura firmemente o pé do homem e o arremessa vigorosamente contra o chão, o que lhe arranca um pouco de sangue, dignidade e uma lágrima de seus olhos.

[Meishan] — "....Merda..." — [sob feição melancólica, é puxado por Tallus, que o agarra pelos seus cabelos] — "Ah, ah...!" — [dor] — "Eu me rendo..." — [tristeza].

        Antes que Meishan pudesse terminar de falar, Tallus cede vinte socos contra o rosto do homem. Cada soco recebido era uma dose de arrependimento a mais que sondava a mente do mafioso de cabelos brancos. Cogitou a se questionar do porquê não preferiu ficar calado no momento em que finalmente encurralou Tallus, uma vez que o SH o golpeava cada vez mais. Quando finalmente termina a sessão de tortura, Meishan, sangrando pela testa e bochecha, mas ainda com sua estética intacta, joga sua mão fechada contra o estômago de Tallus, que cai momentaneamente no chão sob dificuldade de respirar. Furioso, Meishan agarra o homem pelo pescoço e o joga contra o chão no intuito de enforcá-lo com toda a sua força. Suas unhas eram afiadas e o rapaz tinha muita envergadura nos braços. Tallus, posicionado por debaixo de seu inimigo, também agarra o pescoço de Meishan pela sua coleira de submissão e tenta estrangulá-lo da mesma forma. Os dois disputam para ver quem conseguia interromper o fluxo de oxigênio primeiro um do outro. Mesmo tendo seu pescoço constringido pela coleira, Meishan aproveita o último momento para ameaçar Tallus.

[Meishan] — "Você é meu..." — [sorri].

        Sob acesso de raiva, Tallus utiliza a outra mão para esmagar os testículos de Meishan como se estivesse espremendo um slime. O homem, que até então estava manifestando uma ereção pelo sadismo, virou os olhos de dor. Tallus cortou toda a sua rigidez a ponto de torná-lo molenga como uma massinha. Como já não conseguia mais focar no estrangulamento, Meishan foi jogado para o lado por Tallus de modo que o que o faz bater a cabeça contra uma das pedras. Ainda sob muita dor, Meishan tenta se levantar com dificuldade, mas é golpeado no pescoço pelos dedos firmes de Tallus, o que piorou sua situação. Antes que se apoiasse em seu joelho, Tallus o chuta fortemente pelo abdômen, fazendo-o permanecer no chão. Quando Tallus mais uma vez o agarra e o levanta pelos seus cabelos, Meishan o chuta pelas costelas por diversas vezes para se desvencilhar. Apesar do desconforto, Tallus não exibe uma única feição de sofrimento. É aí que o homem desce o braço por inteiro contra o rosto de Meishan mais uma vez, mesmo sob fortes socos e tapas dados pelo cavaleiro branco. Um dos seus canais auditivos começa a perder a sua capacidade e Meishan começa a ficar surdo de um dos lados. Percebendo que não poderia mais perder tempo com Tallus, o mafioso saca de um dispositivo que aciona um ruído de alta intensidade para tontear o SH.

        Tallus cai ao chão devido à sensibilidade auditiva, o que o deixou imóvel por alguns segundos. Com isso, Meishan finalmente se liberta dos braços do SH. Com certa dificuldade de andar. e sob leve vertigem, o homem descabelado e de roupas rasgadas se levanta para sacar de seu aparelho elétrico no intuito de neutralizar o homem de uma vez por todas.

[Meishan] — "Eu tinha me esquecido..." — [risos] — "Eu tenho aparelho de choque..." — [mira o dispositivo para Tallus] — "Te vejo na piscina de brinquedos, Tallus." — [sorriso cansado].

        Quando Tallus estava perto de ser raptado, um estouro contra a nuca de Meishan o faz estrebuchar de pé e se lançar ao chão, mantendo-o desmaiado por definitivo. Tallus retira o homem de cima de si e se levanta mais disposto do que nunca. À sua frente, era Räma. Em silêncio e armada com um dispositivo de disparo elétrico, a mulher observa o estado devastado de Tallus apesar de não exibir nenhuma marca de ferimentos. Como forma de se vingar pela humilhação que sofreu por parte de Meishan, Tallus se dirige até onde os aparelhos à laser foram jogados no chão e saca pelo menos de um. Caminhando calmamente até onde o homem estava, o SH dá um pequeno chute sobre as costelas de Meishan, o que o faz se erguer pelos braços com muita dificuldade. Ao dolorosamente virar-se de barriga para cima, Meishan nota que Tallus havia conseguido ligar o laser do aparelho que esteve munido até pouco tempo. Seus olhos, que até então eram de exaustão, começam a se sobressaltar.

[Tallus] — "Adeus, Meishan." — [parte a garganta de Meishan com o aparelho à laser de maneira rápida].

        Tallus cortou o pescoço de Meishan de maneira que metade dele ficou exposto em sangue e carne viva. O efeito da queima pelo contato com o laser provocou um cozimento de seus tecidos que exalou um cheiro de carne assada. Os olhos do homem se reviram, e a cor se esvai de sua pele enquanto cede o último suspiro para a morte. Para finalizar o que começou, Tallus agarra Meishan pelos seus cabelos sedosos e brancos e rasga seu pescoço por completo, partindo a cabeça de seu corpo de uma vez por todas. O calor era tamanho que expelia vapores de suas lâminas à laser. Como forma de lembrança, o que restou de Meishan foi deixado sobre uma pedra próxima à luminária para ficar como adereço. Um olho se voltava para cima, o outro, para baixo. A lente de contato azulada que se mantinha no centro ocular de Meishan, decai o suficiente para revelar a verdadeira cor de seus olhos: lilás. Räma observa o cenário de violência sem se mostrar muito surpresa.

[Räma] — "Acabou." — [semblante sério].

[Tallus] — "Finalmente." — [mãos sobre o cabelo sob respiração levemente ofegante] — "Já era sem tempo."

        Contente e aliviada pela vida de Tallus, a moça vai até o seu companheiro para prestar-lhe apoio enquanto expressa melancolia em seus olhos.

[Räma] — [toca o ombro de Tallus] — "Você está bem?" — [preocupada].

[Tallus] — "Estou bem. Graças a você." — [abraça intensamente a mulher, seguido de um longo beijo].

        Após o momento de afeto, ambos certificam de que Meishan de fato estava morto. Räma nota as mãos cheias de pó do homem assassinado.

[Räma] — [olha para o corpo de Meishan] — "É muita ousadia desse sujeito andar com uma AR."

[Tallus] — "...O cretino era militar. Isso explica muita coisa." — [olha para o corpo de seu inimigo morto].

[Räma] — [aponta para o braço com o tecido rasgado de Meishan] — "Olha. Ele é um SH Geneticamente modificado. O laboratório é do Equador. É lá onde os pais ganham uma fortuna pra deixar o filho para ser moldado."

[Tallus] — "Foi o que eu pensei... ele não tem a cultura e o espírito de união da raça que os SH's originais tem." — [feição de seriedade].

        Depois de tanto tempo sem se reencontrarem de maneira apropriada, Tallus e Räma finalmente consegue dedicar um momento encarando nos olhos um do outro.

[Tallus] — "Salvou minha vida... Obrigado." — [sorri].

        A mulher devolve o sorriso para Tallus.

[Räma] — "Não há de quê."

        O casal escuta barulhos de sirenes a vindos do sentido leste para o oeste. De maneira silenciosa, ambos presumiram que poderia ter a ver com a confusão ocorrida na residência de Waldemar.

[Räma] — "Aquilo é a polícia?"

[Tallus] — "Sim. Tenho certeza que é denúncia de vizinho, e não é pra menos." — [olha para o rumo da saída] — "Isso aqui virou uma zona..." — [negação com a cabeça].

[Räma] — "...O que faremos com o corpo?" — [olha para o corpo de Meishan].

[Tallus] — "Deixa apodrecer. Um miserável desse não merece nem um enterro. Já tem um cemitério próprio." — [parte em retirada junto a Räma].

[Rämas] — "E essas armas?"

[Tallus] — "Vou consertá-las. Eu gostei delas."

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[ALGUNS MINUTOS ATRÁS]---------------- >>>>>>>>>>>>>>>>>

        Tallus e Meishan haviam pulado a área murada da residência antes de iniciar a longa caçada do "cavaleiro branco" contra o SH de cabelos castanhos arroxeados. À essa altura, Gambino e Miguel já escafederam da cena para um dos esconderijos do grupo. Esse momento é o timing para Waldemar sair de um esconderijo logo atrás de uma das paredes do muro de concreto, à procura de uma estação policial próxima. Apressado, o dono da casa corre para fora da porta para verificar até onde pode ir, e sai caminhando à passos largos sua direita, momento em que é sorrateiramente seguido por Missione na mesma velocidade. Como uma serpente que balança seu chocalho, o italiano destila um sorriso maligno quando assobia delicadamente próximo de Waldemar.

[Missione] — [assobia].

[Waldemar] — [interrompe seus passos].

        Quando Waldemar se vira, Missione o pega fortemente pelos ombros e o joga em direção oposta de onde estava caminhando. O homem chega a esbarrar em três baldes de lixo. O anfitrião é jogado de uma distância considerável, momento ideal para ganhar tempo para se levantar. Desesperadamente, o proprietário da casa tenta escapar das mãos do mafioso sem sucesso. Para o seu desastre, Waldemar é novamente pego covardemente por Missione pelo cinto e pela gola de sua camisa e é jogado mais uma vez para bem longe, só que dessa vez contra seu carro quadrado na cor vinho. O impacto fez Waldemar amassar o para-choque do veículo e ultrapassar as suas barreiras em movimento rotativo. O homem cai sentado e é quando finalmente consegue correr o mais rápido que pode alguns metros à frente, em seguida, desviando caminho para sua casa. O agressor também acompanha o ritmo de Waldemar.

[Missione] — "Me dá esse controle, Wal!"

[Waldemar] — [corre ofegante].

[Missione] — "Você não vai ficar com a tutelagem de Tallus, seu filho da puta!"

        Sem entender como o italiano descobriu seu combinado com o SH, Waldemar derruba vários objetos para atrapalhar o percurso do bandido. Cada vez que Missione ultrapassava os obstáculos, se escorregava e terminava se desequilibrando para o chão. Waldemar finalmente consegue pular o muro de madeira e acessar a janela de sua casa. Furioso, Missione se levanta e corre até o muro de madeira da residência de Waldemar para saltá-lo. Sem qualquer dificuldade, o homem se lança a três metros de altura sem tocar o obstáculo, mesmo acima do peso. Vendo a janela próxima de si, o invasor se joga com tudo sobre a sua abertura da casa e cai de pé na sala de estar. Olhando para os lados, o sujeito derruba e levanta tudo o que vê para caçar Waldemar. Felizmente, o anfitrião tinha seus meios para se esconder.

[Missione] — [raivoso] — "Aparece, Waldemar!" — [quebra um dos jarros da sala de estar] — "Você fez de propósito, não foi?"

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[SONS ABAFADOS DOS GRITOS DE MISSIONE. ESCONDERIJO COM APENAS UMA PEQUENA LÂMPADA E MATERIAIS DE EMERGÊNCIA]

[Waldemar] — "Do quê que esse bastardo tá falando...?" —  [olha para cima].

[SALA DE ESTAR].

[Missione] — "Você sabia que eu queria o Tallus na minha empresa, seu imbecil! Eu te mostrei a foto dele antes de você trazê-lo pro meu bar!"

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[Waldemar] — "....O quê?..." — [incrédulo].

[SONS DE VOZ ABAFADA] — "E agora...!"

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[Missione] — "Só porque eu apareci por lá você o inscreve como TUTELAR dele?! Você é um baita de um filho da puta! Ladrão!!" 

        Missione brutalmente derruba tudo o que vê.

[Waldemar] — [olha para os lados a procura de algo].

        Em busca de um socorro para si, Waldemar abre todas as caixas de ferramentas do esconderijo à procura de algo que neutralize Missione. Dentro de uma delas, o anfitrião encontra o pote de vidro em pó. Na outra, um comprido taco de baseball de alumínio dourado que havia sido deixado abandonado por Waldemar, é retirado de uma caixa de metal quinze anos depois. Bonita, brilhante e intacta.

[Waldemar] — "...Ótimo." — [aliviado].

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        Do outro lado da casa, Missione encontra a estante de armas de fogo penduradas no canto escuro da sala de estar de Waldemar. Sentindo-se em vantagem, o italiano arranca uma delas e se apossa do objeto mortal. Verificando se estava recarregada, a arma de fogo somente dispunha de dez balas para gasto. Descontente mas conformado, Missione destrava o instrumento e sai a procura de Waldemar.

[Missione] — "Aí, Waldemar!" — [sorri] — "Você esqueceu sua arma, seu burrinho!" — [exibe a ferramenta] — "Como é que você se esconde e não pega a sua própria arma?!" — [fala em alto e bom som].

        Waldemar respira fundo, desliza as mãos sobre a boca e tenta se manter calmo a fim de pensar no que fazer para sair de seu esconderijo. Ao menor deslize, o homem poderia ser fatalmente alvejado por Missione, então teria que esperar o bandido evadir de sua residência.

[PASSOS LENTOS E PESADOS. SOM DE MANUSEIO DE OBJETO DE METAL. MÓVEIS SENDO ARRASTADOS].

         Missione finalmente chega até o local fora do quarto de dispensa e adentra a região murada, reservada para o jardim e guarda de equipamentos de emergência. Pensando se tratar de uma forma humana subindo em uma árvore, Missione se sobressalta e cede uma rajada de disparos contra uma multidão de passarinhos, que voaram assustados. Por sorte, nenhuma das oito balas pegou os pobres bichos. Waldemar também se assusta com o barulho da arma, o que o faz ficar ofegante e ansioso. De olhos fechados, o homem chega a sentir sua respiração pesar sobre seu peito.

[Waldemar] — "Apareça, Waldemar!" — [olha para a computação embarcada da arma] — "Que merda, só tem duas balas..." — [pausa, agitação no corpo, levantar de cada um dos ombros] — "Uma delas vai direto pra tua cabeça, Wal!" — [feição de raiva].

        O mafioso já havia vasculhado em todos os quartos, todas as camas, todos os armários e em todos os banheiros. Até o porão já havia vistoriado a procura de Waldemar. Chutou tudo o que podia e arreganhou todos os objetos que lá habitava. Colocando a mão no muro e apalpando brutalmente as plantas do proprietário, Missione certifica se havia algo além das paredes dos muros do jardim. O nervosismo de Waldemar aumenta ao ponto de projetar sua mão para segurar silenciosamente a maçaneta da porta de chumbo maciço, caso Missione a tentasse pressionar em sentido oposto. Sua respiração acelera e o homem se mantém de olhos fechados enquanto abre o pote de vidro moído. O italiano arranca as plantas, bate nas paredes, vandaliza as pobres flores, mas não identifica o esconderijo de Waldemar, que foi muito bem projetado para proteção contra violência doméstica. Quando termina de vistoriar todo o jardim em forma de corredor murado, o homem se cansa de procurar Waldemar. Chegou à conclusão que o homem havia fugido da casa.

[Missione] — "Não tá aqui... O filho da puta conseguiu vazar." — [sai de cena, deixando Waldemar aliviado].

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[FORA DA RESIDÊNCIA. POÇO DE ÁGUA CORRENDO PELO ASFALTO. MARCAS DE DESTRUIÇÃO E AVARIAS EM DIVERSAS REGIÕES DO SETOR].

[Missione] — "O que caralhos aconteceu aqui nessa merda??" — [impressionado].

        Estranhando o sumiço de Meishan, Missione carrega o seu rádio e tenta entrar em contato com o cavaleiro branco.

[Missione] — "Meishan, cadê você, seu peste?! Tu mutou essa porra desse rádio por quê?! Tá demorando demais pra pegar o Tallus, anda logo com essa merda!" — [insatisfeito].

        Sem perceber o que estava se aproximando pelas suas costas, Missione se mantém distraído pensando estar sozinho na calçada. Quando menos espera, o homem termina se virando por impulso e recebe um belo golpe de taco de baseball em sua cabeça. Missione se desequilibra e deixa cair a arma de fogo no chão. Waldemar rapidamente afasta o instrumento bélico com seu pé para longe de seu rival.

[CORPO EM QUEDA LIVRE SOBRE O RIACHO DE ÁGUA CORRENTE DO ASFATO].

        Zonzo e molhado, Missione se levanta sob acesso de fúria para partir para cima de Waldemar. Seu golpe impulsivo contra o rosto de seu rival falha no momento em que este se desvia e joga uma grande quantidade de vidro em pó nos olhos do italiano, que é interrompido em meio a dor e desorientação. O material que foi lançado por Waldemar estava no jarro amarrado à sua cintura. Ao virar-se rumo ao proprietário, este aproveita para novamente dar uma paulada com contra o rosto de Missione com seu taco de baseball. O mafioso tonteia e vira-se rumo à porta de Waldemar, dando alguns passos para frente. Tirando vantagem da deixa, o anfitrião agarra o italiano e joga contra um poste a um metro longe de si. Missione colide com o obstáculo e cai sentado com as mãos sobre sua cabeça. Quando Waldemar se aproxima, Missione taca uma pedra contra a testa do homem, ferindo-o parcialmente. Waldemar, porém, não hesita em novamente levantar o rival na base da força e jogá-lo com todo o vigor contra o vidro de seu próprio veículo. Com a testa ferida e de janela quebrada, Missione acerta seu pé contra o abdômen de Waldemar, que sob dor, mantém suas duas mãos coladas em seu estômago.

        Missione arrebenta os vidros de seu automóvel para tentar interceptar sua arma de fogo, o que falha miseravelmente pelas mãos de Waldemar ao puxá-lo pelas suas roupas e jogar seu rosto contra o para-choque do veículo marrom. O impacto fez Missione cair sentado no riacho de água. Quando novamente agarra o italiano para subjugá-lo, Missione cede-lhe uma cabeçada para tentar se desvencilhar dos braços de Waldemar. O proprietário, entretanto, devolve um soco contra o rosto do homem mesmo sob tontura e dor. O mafioso se ergue tentando revidar a agressão com mão fechada, mas o anfitrião habilidosamente bloqueia o golpe direcionado a si, e desfere uma certeira joelhada contra o seu abdômen. Missione é derrubado na água corrente e é pego por Waldemar com diversos socos em seu rosto, um para cada prejuízo causado em seu carro, em sua casa, e contra a vida. No oitavo golpe contra suas fuças, Missione estava tão desorientado que se descamba em risadas arrastadas depois de cuspir sangue. Waldemar agarra seu rival e o aproxima para bem próximo de sua face.

[Waldemar] — "Você nunca mais invada a minha residência ou tente me vigiar mais uma única vez..." — [adverte] — "Se eu o vir aqui no bairro mais uma única vez... Você morre." — [aponta o dedo].

[Missione] — [expele sangue de sua boca] — "....Tchrssssss... rsrsrsrs... hi,hi,hi,hi,hiiii... ha,ha,ha,haaaa..." — [risos genuínos].

        Como golpe final, Waldemar levanta Missione e o arremessa com toda a sua força contra o vidro do banco motorista do automóvel, quebrando-o por completo. O impacto do choque provocou o desmaio instantâneo de Missione, que manteve metade de seu corpo para dentro do veículo marrom. Ofegante e de alma lavada, Waldemar caminha pela água corrente enquanto se depara com sua mão lesionada das marcas do espancamento. Após um tempo, o nível da água diminui e viaturas dos bombeiros e policiais realizam uma visita no setor caótico da cidade.

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30 MINUTOS DEPOIS...

        Final da tarde. Céu ensolarado e vizinhança espalhada pelas ruas do setor. Waldemar se mantém sentando na cadeira próxima à calçada à espera de Tallus. Enquanto os policiais coletam informações junto a outros moradores, Tallus e Räma aparecem unidos em meio a um ambiente bastante avariado e destruído. Os próximos noticiários dos jornais e celulares já tinham o escândalo programado. Waldemar seria investigado, mas provavelmente para confirmar legítima defesa. Tallus, idem. Apesar de não ser cidadão, Waldemar era seu guardião temporário. As câmeras não mentem e as imagens são claras: houve uma clara invasão de residência. Após um período apagado, Missione é algemado e as sirenes policiais piscam próximos do rosto do homem. Duas autoridades levantam o italiano para lhe interrogarem. O trio parada dura finalmente se reúne. 

[Waldemar] — "...E aí?" — [fita Tallus].

[Tallus] — "...E aí?" — [sorriso tímido].

[Waldemar] — "Acabou, né?" — [satisfeito].

[Tallus] — "Éh. Agora acabou." — [aliviado e sereno] — “Teve uma Briga?” — [feição leve].

[Waldemar] — “Éh, digamos que tivemos uma mini DR...” — [sorriso debochado].

[Tallus] — [leve riso] — “Percebi.” 

O casal observa Waldemar com alguns ferimentos sentado sobre uma cadeira. Os amigos se entreolham com expressão de orgulho e unidade um para com o outro. Tallus oferece a mão para levantar Waldemar, que aceita o apoio e a mantém unida ao do SH como forma de cumprimento e respeito. Waldemar de repente nota a presença de Räma.

[Waldemar] — "..Essa é a moça que você tinha me falado?" — [refere-se à mulher].

        Räma fita os dois homens de maneira simpática.

[Tallus] — "É sim. Wal, essa é a Räma, minha parceira fiel de longa data. Räma, esse é o Waldemar." — [apresenta os presentes].

[Waldemar] — "Prazer, Räma." — [cumprimenta].

[Räma] — "Prazer, Waldemar." — [devolve o cumprimento e olha para o lado] — "Vou dar uma palavrinha com os policiais ali do lado e já volto." — [caminha].

        Impressionado com sua beleza, Waldemar não deixar de ficar hipnotizado pela mulher enquanto ela caminha para alguns metros de distância.

[Waldemar] — "Bonita, hein?" — [olhar fixo] — "...Com todo o respeito, é claro." — [não esconde o receio].

[Tallus] — [leve riso] — "Nada... ela é bonita mesmo. É o meu orgulho de viver." — [fita a mulher].

        Ambos os cúmplices observam Räma encantados, de longe de suas vistas. Tallus vislumbra sorrateiramente Waldemar enquanto finge manter o script.

[Waldemar] — "Eu não imaginava que esses vandorianos era tão fantásticos."

[Tallus] — "...Se quiser participar da brincadeira." — [cutuca sutilmente o amigo enquanto sorri].

[Waldemar] — [riso tímido] — "Ah, deixa de ser besta, Tallus..." — [negação com a cabeça].

[Tallus] — "Tá, mas se fosse duas mulheres, você ia querer."

[Waldemar] — "Claro que eu ia querer, porra, são mulheres." — [feição irônica].

        Tallus vira-se para a casa completamente destruída de Waldemar e uma onda dolorosa de surpresa e decepção percorre seu peito a ponto de colocar a sua mão rumo ao seu coração.

[Tallus] — "Nossa..." — [sorriso de decepção] — "Acho que eu acabei com a sua casa... Deus, que horror..." — [desconcertado] — "Eu posso conseguir algum trabalho..." — [interrupção].

[Waldemar] — [com palma da mão à mostra, exprime rejeição com a cabeça, despreocupado] — "Tsc...! Eu tenho seguro pra tudo isso aí, irmão. Relaxa..." — [sutil sorriso] — "Eu construo tudo isso aí de novo." — [confiante].

        Tallus sorri de alívio e nota a feição serena e relaxada de seu cúmplice enquanto mantém as mãos firmemente posicionadas em seus quadris. A calmaria de Waldemar era uma coisa que o SH não havia tido contato desde a primeira vez que o avistou esbravejando contra si.

[Tallus] — "...Trocou muito soco com o Missione?"

[Waldemar] — "Trocar? Eu dei uma surra nele..." — [olha para o pôr do sol sob leveza em sua face] — "Fazia tempo que eu não brigava."

[Tallus] — "Dá um alívio, né?" — [sorriso discreto].

[Waldemar] — "E como." — [fita a vegetação quieta e as ruas umedecidas].

[Pausa]

[Waldemar] — "...E aquele maluco de cabelo branco? O sujeito se chamava 'Meishan', não era?"

[Tallus] — "Nossa briga foi bem feia... Eu acabei machucando ele pra valer."

[Waldemar] — "Ele me parecia um SH."

[Tallus] — "Era um Equatoriano. Fabricado em laboratório."

[Waldemar] — "Isso explica muita coisa..."

        Enquanto Räma depunha, Missione era mantido sentado na calçada úmida, algemado de mãos para trás. De tão arrebentado, não arriscaria uma nova fuga para tomar um tiro nas ventas. De cabeça baixa, aguardava a condução dos policiais até a sua nova casa. No presídio, Missione não teria um bar, assim como não teria pizza, família ou amigos.

[Policial 01] — "Levanta." — [ergue Missione pelo braço].

        Dois policiais levantam o homem simultaneamente e o levam até próximo da viatura. Antes de abrirem a porta do veículo, é feita a leitura de seus direitos e deveres como preso. Missione, escuta pacientemente. Räma, retorna para a dupla.

[Räma] — [passos largos] — "E então? Vai ser preciso dar mais algum auxílio?"

[Tallus] — "Por enquanto é só isso. Temos que passar na sua casa antes do seu Tutelar chegar."

[Räma] — "Ele vai ficar fora até às 18h30. Costuma chegar tarde, mas não é garantido que ele não vai aparecer. Eu espero que dê tempo de seguir com o plano."

[Waldemar] — "Desculpe interromper, mas que plano?" — [aponta para os dois].

[Tallus] — "O plano de tirar o dispositivo do pescoço dela e libertá-la."

[Waldemar] — [olhar de paisagem seguido de um sobressalto] — "..Tutelada?" — [aponta para Räma].

        Räma vira de costas e exibe sua nuca para Waldemar.

[Räma] — "O controle dele fica no quarto". — [vira de frente] — "Ele não o leva consigo todos os dias, mas o cômodo tem sensores. E é por isso que preciso do Tallus pra pegá-lo."

[Waldemar] — " Entendi... faz sentido."

        Räma escuta uma vibração de seu aparelho telefônico e o saca de seu bolso para ver do que se tratava. Infelizmente, uma mensagem em áudio de seu Tutelar é enviada para o seu SMS, uma vez que a moça não instalava sequer um aplicativo de jogo em seu celular. Da mensagem, o trio escutou o sermão de chá da tarde: "Räma, minha querida... O seu aparelho está sinalizando que você não está no trabalho que eu designei a você. Seja lá o que estiver fazendo, a Senhora estará aqui em casa até às 21h. Se eu perceber que você está fugindo, eu boto todos os meus homens pra encontrá-la!" — [finaliza a transmissão]. Por esperar tal atitude de seu escravocrata, Räma revira os olhos.

[Räma] — "Temos que desativar esse aparelho o quanto antes..." — [vira o rosto para o canto] — "Se depararmos com o meu Tutelar, vai ter efeito colateral." — [guarda o telefone].

[Tallus] — "É bom que tenha. Eu tô precisando esmagar a cabeça de alguém." — [expressa discreta raiva enquanto olha em direção ao carro da polícia].

        A reunião é momentaneamente interrompida pelos passos capengas e sorriso torto de Missione. Como um cachorro abandonado que pede afago, o homem decide dar algumas palavras antes de ser levado pelos policiais. O trio, lentamente desvia o olhar direto para o homem todo machucado.

[Missione] — "Aí... Waldemar... poxa, só queria vir me desculpar... eu sei que eu peguei pesado com você, sua casa... minha abordagem com Tallus não foi das melhores, mas..." — [levantar de ombros] — "Será que a gente pode levar isso pra melhor...? Sem ressentimentos?" — [sem graça].

        Waldemar aproxima um pouco mais o seu rosto para falar com o seu rival.

[Waldemar] — "Olha, Missione, eu posso até cogitar em deixar isso tudo pra trás, mas até lá... você acabou de perder um cliente." — [largo sorriso no rosto] — "Até mais."

        Com a perca do brilho do rosto Missione tal como uma pamonha espremida por um garfo, sua autoestima se esvai de sua face junto com a sua moral e perspectiva de barganhar qualquer coisa de Waldemar. Os policiais o puxam para trás como um cavalo manipulado por um cabresto e o levam em direção à viatura. Depois de empurrá-lo pela cabeça adentro do veículo e finalmente retornarem aos seus respectivos bancos, os homens percebem uma pequena figura humana afastada de suas visões junto a um pequenino buraquinho metálico apoiado sobre seu ombro. 

[Policial 02] — “O que é aquilo?” — [desconfiado].

De longe, a pequena figura exibe um objeto brilhante erguido de seus braços, que emana um forte brilho pela luz do sol. O momento em que os policiais param para observar atentamente aquela imagem afastada de seus olhos, era tempo insuficiente para perceber uma longa rajada de laser se aproximando em alta velocidade contra eles, o que a faz acertar em cheio o carro policial. Tal disparo, acabou por matar os três integrantes que estavam dentro do alvo. Nesse momento, tudo que existia no automóvel vai aos ares. Missione, virou pizza.

.......[Esconderijo há alguns metros do setor]

[Gambino] — [binóculo em mãos] —  “...Merda!” — [olha para os lados, em seguida para trás] — “Miguel! Acelera isso aí, rápido!” — [diz alarmado].

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[CHIADO LONGÍGUO. FORTE EXPLOSÃO. COGUMELHO DE FOGO E PEDAÇOS DE METAIS ESPALHADOS PELOS ARES].

        Waldemar se assusta, mas mantém-se atento e posicionado. Tallus e Räma percebem quem eram os atiradores e os dois se guiam desesperados pelas mãos um do outro para se abrigar na casa, escondendo-se no canto do fundo da sala. Como animais pequenos prestes a ser abatidos, o casal se abraça enquanto respiram ofegantes pela presença do estranho grupo de marginais. Tudo voa para a quilômetros de distância e o carro é visto ser inundado pelo fogo. Só o que restava, era a estrutura de metal do automóvel e uma pasta com documentos confidenciais contendo algumas revistas eróticas de Meishan dentro de um presídio federal.

        Os rostos dos sujeitos pareciam familiares a Waldemar. Quando olha com mais calma para os homens, se lembra que um deles atirou dezenas de vezes contra seu veículo. De piercing conexo com lábios e orelhas, aliado a uma camisa regata branca e calça social preta, Waldemar sentia a rigidez dos passos de seus enormes coturnos a cada segundo que se aproximava. Na sua cintura, carregava um chapéu trilby e usava as mesmas luvas marrons que na primeira vez que o avistou. Em uma de suas mãos, se munia de um dispositivo AR nas cores branca e roxa. Tentando manter a cortesia e apostando na tática da relação de boa vizinhança, o proprietário esfria seus pensamentos e volta calmamente para a porta de sua residência destruída, apoiando gentilmente sua mão sobre a guarnição, e a outra, sobre seu quadril. Sob olhar sereno, o homem não corre, não luta, não se desespera e nem pensa em como escapar daquela situação. Não se sentiu ameaçado pelo poder bélico do assassino.

        Junto ao atirador, outros cinco homens andavam paralelamente ao seu líder, apenas acompanhando seus movimentos e aguardando suas ordens. Diferentemente do que se esperaria, o sujeito de penteado raspado nas laterais age de forma cortês com Waldemar. Mas com um belo toque de ameaça no ar.

[Diretor] — "Boa tarde!" — [sorriso] — "Eu estou falando com o Senhor Waldemar?"

[Waldemar] — [semblante tolo e sereno] — "Boa tarde... sim, sou eu mesmo..." 

        Em um breve momento de pausa, Waldemar olha para o homem em sua frente e desvia lentamente o olhar para verificar o que havia sobrado da viatura policial e de seus três integrantes. Ao que parece, sequer havia sinal dos restos mortais.

[Waldemar] — [levemente impressionado] — "Nossa... Éh... Vocês... explodiram o carro da polícia...?" — [vira-se gradualmente para o homem].

[Diretor] — "Como o Senhor pôde ver, sim." — [exibe sutilmente a arma de fogo com um sorriso simpático].

[Waldemar] — [pausa dramática] —  "...E vocês realmente precisavam fazer isso?"

[Pausa. Momento de silêncio].

        Para evitar entrar em uma seara que não gostaria, o homem muda imediatamente de assunto.

[Diretor] — "Na verdade, eu vim aqui porque preciso de uma ajuda sua." — [sinaliza positivamente].

[Waldemar] — "Ok..." — [breve pausa] — "No que eu auxilio o Senhor...?" — [confuso].

[Diretor] — [semblante feliz] — "Marconi. Prazer, Waldemar." — [estende a mão].

[Waldemar] — "O prazer é meu." — [ambos apertam as mãos com certa firmeza].

[Marconi] — "Por acaso eu vi que um rapaz nosso está abrigado na casa do Senhor, ele é um Tutelado. O nome dele é Tallus. É branco, cabelos castanhos meio beringela e olhos róseos... um pouco lilás." — [gesticula] — "Não sou muito bom de cores, mas..." — [mostra jogo de cintura].

[Waldemar] — "E o Senhor veio buscá-lo?"

[Marconi] — "Exatamente." — [projeta sutilmente a cabeça para frente].

        O mafioso distrai-se por um momento e depara-se com Räma nos braços de Tallus. O SH se manda um olhar ameaçador.

[Marconi] — [sorri] — "Pelo visto o Senhor também abriga uma moça."

[Waldemar] — "Ela já tem dono. Só veio ajudar o amigo porque a casa foi invadida."

[Marconi] — "Eu percebi. Como eu ia dizendo, nós viemos buscar o nosso Tutelado que está dentro da sua residência. Iremos levá-lo imediatamente para a empresa onde ele trabalha. Poderia nos devolvê-lo, por gentileza?"

        Tallus abraça Räma com mais força, que fecha os olhos com medo de perder seu companheiro.

[Waldemar] — "Ah, cara... o Tallus..." — [esfrega as mãos no rosto e pensa por dois segundos sob testa franzida] — "Poxa... eu lamento muito dizer isso, mas acho que o Senhor perdeu o direito à tutelagem dele, Marconi." — [desconcertado].

        O sorriso de Marconi se desfaz quando percebe que perdeu a propriedade sobre o SH.

[Marconi] — "Como é?" — [inconformismo].

[Waldemar] — "Então, cara, eu..." — [pensa um pouco] — "Eu sou o atual dono dele."

[Marconi] — "Como assim?" — [sorriso irônico].

        Waldemar exibe um documento oficial atestando ser o atual proprietário de Tallus e tira de seu bolso o controle do dispositivo conectado ao aparelho na nuca do SH.

[Marconi] — "Não, o Senhor está enganado, você não pode ser o dono dele... eu o cadastrei primeiro." — [aponta para onde estava Tallus] — "É ordem de chegada."

        Waldemar deixa escapar um discreto riso.

[Waldemar] — "Não, é aí que está, Marconi. O prazo legal pra manter um Tutelado sobre o seu poder quando ele foge é de 72h. Passou disso, ele passa a ser livre" — [sereno].

        Abismado com a fala de Waldemar, o homem cede um breve riso de descontentamento e contrariedade. Mesmo que mal demonstrasse, não conseguia aceitar perder seu "prêmio".

[Marconi] — "Então eu presumo que esse prazo ainda não passou..."

[Waldemar] — "Ah, não?"

[Marconi] — "Não."

[Waldemar] — "Então que horas que ele fugiu?"

[Marconi] — "Perto de 18 horas da tarde." — [cruza os braços].

[Waldemar] — "No registro do dispositivo mostra que a perda de sinal foi às 16h30." — [olhar sereno e discreto deboche].

        Insatisfeito e sob profundo respirar de raiva, Marconi desliza a mão sobre eu rosto, tentando escolher as melhores palavras para se dirigir a Waldemar, já que o homem lhe representa um obstáculo.

[Marconi] — "Mas me conta, como que você registrou Tallus em tão pouco tempo...?" — [desconfiado].

[Waldemar] — [olhar de canto, ombros levantados] — "...Registrando. Foi ele que me pediu." — [levantar de ombros] — "Eu não encarcerei ele na minha casa."

[Diretor] — "E aceitou dar fuga pra um SH que você sabia estar Tutelado?" — [sorriso debochado]

[Waldemar] — "Olha, sem querer contrariar, mas eu posso abrigar quem eu quiser na minha casa."

[Marconi] — "O SH não. Na verdade, era para o Senhor ter trazido o Tallus pra nós." — [aponta para si].

[Waldemar] — "De que jeito? À força? O cara é mais forte do que eu." — [negação e irresignação em seu rosto].

[Marconi] — "Me ligando." — [faz sinal de telefone com a mão] — "Entrando em contato através dos dados do dispositivo na nuca dele. Não pode abrigar um SH que não for Tutelado seu na sua residência, Senhor Waldemar."

[Waldemar] — "Com base em qual norma o Senhor diz isso?"

[Marconi] — "A mesma Lei Federal que rege as relações familiares extraordinárias e a Tutelagem Geral. Nela diz que se você aproveitar esse tempo para colocar um SH sob tutela dentro da sua casa só pra registrá-lo é ato nulo."

[Waldemar] — "Essa mesma lei diz que você não pode maltratar seu Tutelado."

[Marconi] — "E você pode provar o que está dizendo?"

[Waldemar] — "As gravações já provam." — [braços cruzados].

[Marconi] — "Aquilo é ficção...! — [quase se exalta].

        Waldemar se silencia por alguns segundos e cruza os braços e os pés pouco antes de responder o homem.

[Waldemar] — "Tudo bem, se não houve maus tratos e o que eu fiz é considerado um ato nulo, então o que explica ele estar fugindo desesperadamente de vocês?"

[Marconi] — "É o que o Senhor deveria ter nos perguntado antes de escondê-lo." — [postura confiante, braços cruzados].

[Waldemar] — "Bom, talvez eu não tenha procurado os Senhores porque um de vocês cobriu o meu carro de balas três dias atrás..." — [polegar para trás, feição irônica].

        Um breve momento constrangedor de silêncio põe à mostra um expressão sem graça e desconcertante no sorriso do Diretor, o que o fez ser silenciado por alguns segundos enquanto esfrega o seu rosto e fecha seus olhos. Após a evidente situação vexatória em que se meteu, o Diretor começa a jogar ainda mais para o fundo do poço.

[Marconi] — "...Senhor Waldemar, você sabe por que Tallus estava fugindo de nós?" — [aponta para onde estava o SH].

[Waldemar] — "Diga." — [dobra a aposta].

[Marconi] — "O que você mantém dentro da sua residência é um jack. Um antigo estuprador condenado a sete longos anos na terra natal dele por violentar uma americana que ele pensou estar consentindo com o ato. Ficou enjaulado, teve de indenizar a mulher e depois foi expulso do próprio planeta em que vivia. Ele sabe que com histórico dele o país inteiro disputa pela Tutelagem dele. Então ele busca obter cidadania pra ter o domínio sobre os humanos."

[Waldemar] — "Ah, então ele foi condenado." — [sinalização positiva] — "Ele pagou pelo crime que cometeu, não pagou?" — [gesticula de forma discreta].

[Marconi] — "Isso não muda o fato de que o Senhor está abrigando um estuprador dentro da sua casa."

[Waldemar] — "Ok, mas não é o que a sua empresa também faz com os SH's que vocês capturam?" — [mãos em movimentos verticais, contração dos lábios]. 

        Marconi tem um revirar de olhos e vira o rosto para o lado.

[Marconi] — "Aquilo que você vê é uma atuação. SH's não podem reclamar de abusos." — [negação].

[Waldemar] — "Mas não deixa de ser uma violência, você não concorda? Tallus violentou uma mulher uma única vez, mas vocês o violaram por seis meses seguidos. Não só ele, mas como vários atores que vocês forçaram a trabalhar. Não tem diferença." — [tom sereno e relutante] — "Ou será que todos eles também são jack?"

[Marconi] — "Os meus SH's são minha propriedade, Waldemar. Eles não são cidadãos, são meus serviçais."

[Waldemar] — "Então por que está tão preocupado com o passado dele? Ele nem sujeito é, não é mesmo?"

[Marconi] — "E o que te faz achar que é benéfico abrigar um SH com um histórico de estupro na sua casa, e com mais de mil vezes a sua força física?" — [semblante aborrecido].

[Waldemar] — "Bom, até agora o Tallus não fez nada comigo. Se ele quisesse me forçar sexo, ele já teria feito sem esforço."

[Marconi] — "Mal conviveu três dias com ele, como sabe que ele não fará nada contra você?"

[Waldemar] — "E quem disse que precisa de mais tempo? Quando alguém quer violentar outra pessoa, ela vai e faz, não precisa esperar três dias."

[Marconi] — "O Senhor é muito inocente, Waldemar."

[Waldemar] — "Éh, talvez eu seja, mas não por minha culpa."

        Sob sorriso irônico e braços cruzados, o gângster expressa negação com a face ao perceber que sua tentativa de convencimento amigável estava chegando ao fim. Como última forma de não romper a barreira da aparente "civilidade", o homem apela para a sua autoridade como Tutelar, e como criminoso.

[Marconi] — "Ok, Senhor Waldemar. Vou ter que tirá-lo à força para que você me deixe resgatar meu Tutelado?"

[Waldemar] — "Invasão de propriedade. A minha casa é inviolável e a Tutelagem do Tallus já foi transferida a mim por direito."

[Marconi] — "Pois bem, Senhor Waldemar, eu volto a repetir de novo: Tallus é meu Tutelado, é minha propriedade, e o Senhor está violando o meu direito como Tutelar. Ou o Senhor me devolve o rapaz, ou..."

[Waldemar] — "Ou o quê?..." — [desafia] — "Está sugerido que vai me matar?"

[Marconi] — "Em última instância, Waldemar..." — [exibe a comprida arma de fogo em suas mãos e a recarrega] — "terei que fazer o que for preciso para você me dar passagem." — [expressão de raiva].

[Waldemar] — "Tudo bem, cara, todo mundo vai morrer um dia." — [serenidade, levantar de ombros] — "Mas é aquela coisa... o bairro tá lotado de câmeras de segurança, inclusive as das árvores implantadas pela turma do Missione, lá atrás." — [sinaliza com o rosto] — "Ali, óh... você acabou de explodir o carro da polícia..." — [aponta para o local] — "Tá registrado."

        Marconi nota que, por trás de toda a destruição, o local era infestado de "passarinhos" em forma de câmeras de vigilância com viva voz. Ele e seus homens incorreram em erro quando calcularam que não haveria nada que vigiasse seus atos no setor. Deixaram registradas dezenas de informações que poderiam incriminá-los caso fossem pegos. Os outros homens seguem sincronizadamente o olhar do Diretor sobre os pontos estratégicos das câmeras.

[Waldemar] — "Elas são meio que indestrutíveis, sabe...?" — [levantar de ombros, virada de cabeça] — "As filmagens estão todas registradas na nuvem de cada um dos moradores daqui e dos seus rivais que ainda estão vivos." — [mãos unidas, braços abaixados] — "Se alguém quiser enviar aos servidores governamentais, todo mundo aqui e ali pode fazer isso, inclusive eu." — [aponta para si e sinaliza positivamente] — "Tudo o que você fizer será descoberto, e se isso acontecer, o Senhor pode pegar prisão perpétua, pode pegar cadeira elétrica, ou pior..." — [levanta o dedo indicador] — "O Senhor pode perder sua cidadania e seus direitos fundamentais... Aí vai ser complicado porque ao contrário do Senhor, o Tallus aguenta a temperatura de um maçarico... você não." — [feição serena].

        A fala de Waldemar pela primeira vez começa a atemorizar Marconi. Apesar dos privilégios como Tutelar, não poderia ferir a integridade de um cidadão legítimo, tão pouco invadir a sua casa onde Tallus estava. Quando se via sem alternativas para capturar o SH, um dos seus homens o alerta sobre as notificações de seu celular.

[Homem] — "Marconi... O score do Tallus tá em queda livre."

        Marconi vira seu rosto sob expressão sobressaltada e recebe em mão o aparelho telefônico onde estaria aberta uma página de uma grande rede social da época. Criada e modelada pela Drisco, é claro. Nela, dizeres negativos como "Tallus matou o Meishan!", "Tallus invejoso.", "Esse SH nojento matou o nosso melhor ator!", "Vergonha de você, Tallus!", "E agora, quem fica no lugar do Tallus?", "Meishan era o único que prestava nessa merda, os outros só fazem chorar e gritar!", "Risca o Tallus!", “Gambino, nosso herói!”, “levaram o Meishan pro Turkson, vocês viram?” circulavam dentre tantos outros protestos e barbaridades. A aprovação de 90% do SH caiu para 40%, e os movimentos de cancelamento eram implacáveis. Para ter sucesso e ser aceito em determinados ambientes, o score conta como auxílio para empresas, consumidores e pessoas influentes. Por sorte, poucos bastardos ainda arriscavam compartilhar suas vidas nessas plataformas amaldiçoadas. Marconi nota que os fãs buscavam o banimento de Tallus.

[Homem] — "Se levarmos ele conosco, ele só vai nos dar prejuízo."

[Marconi] — "Quem espalhou isso?" — [estranhamento].

[Homem] — "Gambino..." — [exibe o perfil do sobrevivente da tropa de Missione].

        Enquanto o mundo de Marconi era demolido, Waldemar nem percebe do que se tratava o "Social Blade". A pequena bolha de controladores da internet estava quase estragando a mínima relação profissional dos empresários com os SH's.

[Waldemar] — "Marconi, porque o Senhor não deixa o Tallus ficar aqui, é melhor pra ele quanto pra vocês, e sinceramente? Tem tantas formas mais justas de se ganhar dinheiro com os atores que vocês procuram."

[Marconi] — [leve riso] — "Fala como se fosse fácil encontrar um ator para essa demanda."

[Waldemar] — [semblante de negação] — "Tem tantos por aí, cara. Por que não largam esse negócio de escravidão e comecem um empreendimento real com os SH's? Uma troca, uma relação de equidade entre vocês, sabe?" — [gesticula gentilmente].

[Marconi] — "Você não entende nada do que os consumidores querem, Waldemar." — [sorriso irônico].

[Waldemar] — "Então está atendendo os consumidores errados."

        A queda do nível de respeitabilidade à imagem da empresa culminada com a serenidade audaz de Waldemar esgotou todos os recursos que Marconi tinha nas mãos para reaver sua propriedade. Todo o brilho de seu rosto se transformava em peso gravitacional à medida que a maré de azar entupia as notificações de seu telefone corporativo. Fodido e desapontado pela intervenção de seus compradores pervertidos, Marconi fulmina Waldemar com os olhos enquanto o seu dedo indicador implorava para apertar o gatilho da arma restrita.

[Marconi] — "Muito bem, Waldemar. Você venceu. Não vamos mais precisar do seu criado porque ele acabou de se tornar um prejuízo para a nossa indústria..." — [fita Tallus de longe

[Waldemar] — [discreto sorriso de deboche] — "Espera um minuto, o Tallus foi cancelado?"

        Insatisfeito, Marconi prefere não responder a Waldemar. Ao invés disso, o Diretor aproxima seu rosto em direção onde estava o casal de SH's para dizer-lhes em alto e bom tom.

[Marconi] — "... Sorte a sua, Tallus! Os fãs já não querem mais você!" — [exibe raiva].

[Tallus] — "Bom saber disso, desgraçado..." — [raiva, voz controlada].

        Räma se revolta.

[Räma] — "Vá embora, raça imunda e ressentida!" — [expressa a sua língua natal, momento em que é contida por Tallus].

[Marconi] — "Fala alemão, sua rata!" — [devolve o insulto].

[Waldemar] — "Hey, hey, hey, cara, vai com calma...! Sem baixarias aqui, ok?" — [levanta uma das mãos em tom de mediação].

        Convencendo-se de que não venceria Waldemar pela força, o homem muda a sua postura e imediatamente sinaliza que está prestes a ir embora do local.

[Marconi] — "Pois bem, Waldemar. O Tallus agora é seu."

[Waldemar] — [Sinaliza positivamente com a cabeça].

[Marconi] — "Mas eu quero que o Senhor saiba que irei acioná-lo judicialmente por se apropriar indevidamente de um super-humano tutelado e ter sido o responsável por estimular a disputa indevida de um SH. Toda a destruição que você causou do seu bairro vai te custar caro, e o Senhor irá me indenizar por isso." — [breve sorriso, sinal de positivo] — "Passar bem." — [vira-se de costas e caminha].

        Waldemar suspira em negação com braços suspensos e pensa rapidamente em uma alternativa para sua infelicidade antes que tivesse que vender seu terreno para pagar as custas processuais futuras.

[Waldemar] — "Ai, meu Deus..." — [diz em tom baixo e coça a cabeça] — "Oh Marconi!" — [chama o homem].

        O homem interrompe seus passos por alguns segundos e vira lentamente seu rosto para Waldemar, já com um singelo sorriso no rosto.

[Waldemar] — "E se eu te doar o meu carro?" — [negocia].

[Marconi] — "Quê?"

[Waldemar] — "Isso, o meu carro. Ele tá estacionado ali na calçada." — [vira brevemente o rosto, cruza os braços].

        Ao ouvir Waldemar, Marconi chama os outros comparsas com um dos dedos e ambos caminham para próximo do Anfitrião de Tallus. A troca de um veículo caro e sofisticado, acendeu o interesse do Diretor.

[Marconi] — "Me conte mais..." — [atento].

[Waldemar] — "Olha, vamos fazer o seguinte, você fica com o meu carro, e eu fico com o Tallus." — [gesticula] — "A gente resolve isso e ficamos quites um com o outro, o que acha?"

        Marconi reflete por alguns segundos acerca da proposta de Waldemar. Quando vai erguer o dedo, interrompe para pensar. Quando pensa em falar, sua voz não sai de sua boca. Seus lábios travam e de seu olhar vem a dúvida e o desejo. A oferta do proprietário é mais sedutora do que se podia esperar pelo Diretor. Olhando para o veículo, o carro, apesar de alguns furos das balas, estava em perfeito estado. Era um dos melhores da época.

[Waldemar] — "Viu? É aquele verde ali." — [aponta para o veículo] — "Eu troquei óleo, verifiquei o sistema de flutuação, acabei de abastecer com ele."

        Curioso, Marconi deseja verificar o automóvel mais de perto. A troca de um SH por um veículo luxuoso parece ser promissora.

[Marconi] — "O Senhor... está negociando o seu veículo?"

[Waldemar] — "Claro! Mesmo todo cheio de furos, ele funciona perfeitamente. O sistema de I.A dele funciona, os câmbios estão ótimos, a sinalização tá intacta, a frenagem é de primeira, a direção dele é DELICIOSA..." — [reforça enquanto gesticula, para o deleite dos presentes] — "Comprei ele há uns 10 anos, mas parece que foi comprado ontem..." — [balança a cabeça positivamente].

[Marconi] — "Posso checá-lo?"

[Waldemar] — "Claro, pode verificar." — [sinaliza gentilmente] — "As janelas estão abertas e as portas destrancadas."

        Aos poucos, Marconi e seus homens se aproximam de forma tímida do veículo posto para a troca. Todos examinam portas, os estofados, computação embarcada, freios, volante, buzina, porta-malas. Tudo é minuciosamente vistoriado pelos mafiosos. As características do carro parece tê-los deixados satisfeitos com o que viram. Com o semblante mais animado e otimista, Marconi acena para Waldemar para pegar as chaves do veículo, que prontamente o faz jogando o objeto de longe rumo a uma das mãos do criminoso. Impressionado com a mira de Marconi, Waldemar observa todos os homens entrando no veículo e iniciando um teste drive. Apesar de todas as avarias, o automóvel funcionava de maneira perfeita. 

[Waldemar] — [inclina seu corpo sutilmente para trás] — "Aí... Pode relaxar que o cancelamento te salvou." — [sorriso de deboche].

[Tallus] — "Shiu!" — [dedo indicador à frente da boca].

        Enquanto dirigia por alguns metros daquela região, Marconi manobrava o automóvel maravilhado pelo seu desempenho. Era uma máquina que não deixava a desejar. Ligou a computação embarcada e passou a escutar um pouco de jazz. Os outros comparsas também pareciam animados pela negociação. Naquele momento, todos já tinham plena convicção de que levar o carro era mais vantajoso que levar Tallus. Nesse período, foram-se 15 minutos de experimentação. Quando o veículo partiu pela pista, Waldemar aproveita para checar o casal de SH's.

[Marconi] — "Vocês já podem se levantar, o cara vai pegar a bolada."

        Tallus e Räma levantam-se aos poucos, ainda receosos:

[Tallus] — "Como sabe que a negociação vai funcionar?"

[Waldemar] — "Você não viu a cara de alegria do sujeito quando pegou o meu carro. Tá tudo bem amarrado pra funcionar... Relaxa que eu não falei das luzes do meu para-choque.”

[Tallus] — "...Por quanto tempo você estipulou a tutelagem?"

[Waldemar] — "Até a desvinculação legal... Basta ficar três dias longe o suficiente para não ser detectado e a Tutelagem acaba."

[Räma] — "Alguma ideia de como arrancar esse dispositivo dele?" — [mira para a nuca de Tallus].

        Em resposta, Waldemar entrega discretamente à Räma o seu novo token de acesso à sua conta através de dispositivos diversos. Räma nota que o aparelho é desvinculado da nuca por meio de senha.

[Waldemar] — "O token tá desbloqueado. É só acessar a senha de libertação e o dispositivo cai no chão."

        Antes que a moça mexesse no aparelho para libertar seu companheiro, Waldemar a interrompe.

[Waldemar] — "Espere." — [sinaliza com a mão] — "Deixe eu terminar o teatro aqui primeiro, depois vocês executam o plano."

        Räma acena positivamente. Os SH's escutam o veículo se aproximar da calçada próxima à residência do anfitrião e ambos voltam a se esconderem dos olhos dos mafiosos. Juntos e abraçados, torciam para que a negociação finalmente finalizasse.

[Marcone] — [sorridente] — "Waldemar... um espetáculo. Seu carro é realmente esplendoroso."

[Waldemar] — "Que bom, fico feliz que o Senhor gostou. Foram trezentos mil euros, mas muito bem pagos..."

[Marconi] — "Imaginei que fosse um veículo mais caro. Muito sofisticado." — [suspira] — "Pois bem, Waldemar. Aceito o nosso trato." — [breve balançar de cabeça] — "Ficarei com seu automóvel." — [sorri e cede a mão para cumprimentar Waldemar] — "Foi um prazer negociar com o Senhor."

        Ambos apertam firmemente as mãos.

[Waldemar] — "Obrigado, o prazer é meu." — [retribui] — "Tudo resolvido então?" — [movimento de mãos horizontalizadas].

[Marconi] — "Absolutamente." — [coloca o chapéu sobre sua cabeça] — "Obrigado mais uma vez, Waldemar, pelo ótimo negócio." — [sorri enquanto caminha até o veículo esverdeado].

[Waldemar] — "Não há de quê." — [estende a mão e sorri enquanto cruza os braços].

        Quando notam que a troca foi bem-sucedida, Tallus e Räma lentamente deixam de se apertarem nos braços um do outro e começam a se distender. Os olhares de raiva, medo e tristeza, começam a dar lugar ao alívio e um peso de uma cruz havia sido tirada das costas do casal. Sentindo pela primeira vez que poderia viver como um cidadão comum, Tallus dirige um olhar fundo de agradecimento para Waldemar. Balança sutilmente a cabeça e o recebe na mesma retribuição. Räma finalmente começa a tensionar os músculos dos seus lábios para os lados opostos, o que por muito tempo a sua vida não lhe permitia.

[Tallus] — [alívio no olhar] — "...Obrigado, Waldemar." 

[Waldemar] — "Não há de quê." — [satisfação].

        Tallus e Räma se olham entre si e ambos se jogam em um breve e forte beijo nos lábios um do outro, o que revela a libertação plena dos dois após um longo período de dor. Acariciam o rosto um do outro e os dois finalmente se sentem livres para iniciar uma nova vida juntos. Se vendo orgulhoso de sua dedicação por um homem que mal havia conhecido, Waldemar tem a estranha sensação de que seu dever, que nem era dele, foi finalmente cumprido. A recompensa não era apenas física, mas era interna, e de coração.

[Tallus] — "Não consigo acreditar que fez isso por mim..."

[Waldemar] — "Hey, se situa, cara, você salvou a minha vida quando Missione invadiu o hotel." — [feição serena e tom debochado].

[Räma] — "Como podemos agradecer ao Senhor?" — [solícita].

[Waldemar] — "Começa dando juízo pro seu namorado." — [sorri].

        Tallus e Räma cedem um leve riso, momento em que o som do veículo é finalmente iniciado para dar a partida. Os três escutam o automóvel e o casal se levanta devagar de onde estavam abrigados para se dirigirem até Waldemar, que estava um pouco mais à frente da porta de sua residência para espiar os mafiosos. Os olhos atentos se fixam na imagem dos homens e a expectativa é que esse ritual se siga até que o carro desaparecesse de vista por completo. O motorista dirige alguns metros para longe e manobra o veículo para o sentido de retorno aonde haviam chegado. Marconi acena para Waldemar, que sinaliza de volta. Quando o novo proprietário finalmente começa engrenar na estrada, o inesperado veio para ficar.

[SUPER EXPLOSÃO DO VEÍCULO. FORTE LUZ BRILHANTE. MASSA INCENDIÁRIA NA FORMA DE UM GIGANTE COGUMELHO. FORTE ENERGIA PROPULSORA ARREMESSA MILHARES DE PEDAÇOS DE AÇO, TECIDO, CARNE E PLÁSTICO. VOLANTE SENDO JOGADO NOS ARES. SILHUETA DO ESQUELO DO VEÍCULO SENDO PERCORRIDO PELO INTENSO FOGO].

        A repentina explosão do veículo pegou Räma, Waldemar e Tallus de surpresa. Assustados, os três se afastam de braços erguidos para protegerem seus rostos. Incrédulos, não haviam pensado, ou sequer planejado tal sinistro. Junto com o veículo, as armas de uso restrito que estavam sob a posse dos mafiosos também haviam potencializado o efeito da explosão. Horrorizado, Waldemar não consegue crer no que havia ocorrido diante de sua vista sobressaltada. Tudo havia se transformado em bolas de fogo distribuídas aos milhões de pedaços, seja de coisas vivas, ou de coisas materiais. Os três procuram onde estariam os que abrigavam o veículo, mas somente o que avistaram era o fogo consumindo com voracidade tudo o que tocava. Pelo estrago que a explosão havia feito, uma coisa era certa: os cinco homens estavam mortos e carbonizados até os seus últimos átomos.

[Waldemar] — "...Como... que essa merda aconteceu...?" — [incrédulo].

[Tallus] — [breve pausa] — "A substância da AR deve ter entrado em contato com o combustível..." — [desliza uma mão na cabeça].

[Waldemar] — "Não é possível, cara..." — [negação com a cabeça].

        Räma se aproxima de Tallus.

[Räma] — "Isso foi muito aleatório..."  — [estranhamento].

[Waldemar] — [desolado, mãos na cabeça] — "Deus, acabei de perder meu seguro..."

[Tallus] — "Bom... acho que agora você vai ter que usar transporte por aplicativo..." — [leve erguimento dos braços sob decepção].

[Waldemar] — "...Que porra de final de semana foi esse, velho..." — [decepcionado].


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--------22H50 DA NOITE. PONTO DISTANTE DA CIDADE. LUZ EMANADA DE UM ÚNICO POSTE. SETOR CERCADO DE GELO -----------------

        Copo de vidro quebrado no brilhante piso acetinado azul, inundado de bebida alcóolica. Logo na pequena mesa próxima, uma grande garrafa de Vodka, um belo vaso de flores e um cinzeiro metálico para cigarros. Em cima do vaso sanitário, um homem desnudado, com um buraco certeiro no centro de sua testa. A toalha que usava para se cobrir, estava deslizada pelas suas pernas. O sangue já havia se espalhado por boa parte das paredes do banheiro. O chuveiro jorrava sobre um recipiente que já transbordava muita água, já que o homem alvejado havia acabado de sair do banho. Sua chegada foi milimetricamente calculada e o seu quarto foi logo destrancado pelo casal de desventurados. Na sua cama, Räma e Tallus. Ambos nus, libertos, aos beijos, colados um ao outro em uma tórrida noite de amor. Cada movimento dos quadris de Tallus lhe presenteava o som de prazer da mulher, o que em breve culminaria em uma grande explosão de volúpia, tanto tempo fingida, tanto tempo suprimida. O homem, que até então tinha medo e culpa de gozar, agora se entrega de corpo e alma para a moça que sempre amou.



                        ............And One - Eletrocution..........




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.....[VIDEO TAPE. VHS. 20H17 DA NOITE. 08 DE MAIO]......

[Inicialização da Gravação de Entrevista].

Um homem alto, corpulento, de olhos claros e cabelos penteados para trás se senta em uma das poltronas de onde efetuou sua primeira entrevista. Como de costume, usava calça social preta, sapatos marrons, camisa regata branca e uma corrente prata. Para quem faria a primeira entrevista de “emprego”, parecia estar bastante animado e otimista. 

[Missione] — “Olá a todos. Meu nome é Missione. Sou  italiano e alemão naturalizado, empresário, pizzaiolo e agenciador de modelos. Sou apaixonado pelo meu trabalho, pela vida, pela minha família... tenho dois filhos lindos, uma esposa magnânima, uma família incrível... enfim.” — [pensa por um tempo] — “Eu sou um cara bastante ambicioso, visionário, com vontade de crescer, de prosperar...” — [gesticula] — “Eu sempre gostei dessa coisa de investir em um SH para retorno financeiro rápido e eficiente, e sabe? Nunca tive um tutelado, mas tenho interesse em adquirir um Super-Humano para trabalhar como modelo para a minha empresa.” — [sorri].

[CORTE PARA O MINUTO 08].

[Missione] — “...Eu sou muito fã do Lolita Slave...tsc! Digo...” — [cerra os olhos e balança brevemente a cabeça] — “Eu tenho muito respeito pelo projeto, pela modelagem, pela atuação dos SH’s.” 

[CORTE BRUSCO DE CENA].

[Missione] — “Eu sou fascinado pelos SH’s... Eu sou realmente apaixonado pelos Super-Humanos...” — [fascinado].

[Voz de Fundo] — “É mesmo?”

[MUDANÇA PARA O MINUTO 19M40S].

[Missione] — “Eu soube recentemente que eu tive um irmão gêmeo, cara...” — [admirado] — “Nós fomos separados ainda quando bebês. Ele ficou em Nova York e eu vim pra Itália. Soube bem mais tarde da existência dele.” — [sorri envergonhado] — “Meus pais nunca me contaram sobre ele...”

[Voz de Fundo] — “E você chegou a contactá-lo?”

[Missione] — [pausa de alguns segundos, cabisbaixo] — “Então... quando eu soube que ele era meu irmão, ele já tinha falecido...Tsc...” — [inclina rapidamente o rosto] — “Queria muito ter tido a chance de falar com ele, mas...” — [levantar de ombros].

[Voz de Fundo] — “E qual era o nome de seu irmão?”

O sorriso de Missione volta a se acender.

[Missione] — “O nome dele era James Earl Cash...” — [olha para baixo] — “Sabe?... Eu descobri que nós tínhamos muita coisa em comum... Os gostos, o talento pro empreendedorismo, a ambição, a visão...” — [aprovação com a cabeça] — “Ele trabalhava pra uma das empresas que eu tinha filiação, sabia? A Drisco. Ele era fazendeiro, e dos grandes... Isso me fez admirar meu irmão ainda mais, mesmo sem nunca tê-lo conhecido.” 

[Voz de Fundo] — “O que causou a morte dele?”

O semblante de Missione derrete todo o seu brilho e cede lugar a uma decepção e tristeza.

[Missione] — “...Um garoto de programa matou meu irmão...” — [olhar declinado].

[Voz de Fundo] — “Como reagiu depois do ocorrido?”

[Missione] — “Ora... Eu tirei satisfação com a Ashley Dilworth, cara... liguei pra ela e pedi uma providência. Afinal de contas, ela é a manda-chuva da CENTRAL. Cash era meu irmão.” — [semblante de protesto] — “Minha empresa decaiu por causa dessa morte. Tive prejuízo. Toda a cadeia produtiva foi afetada. Não é justo o que aquele Transmorfo fez com ele...” 

[Voz de Fundo] — “E as acusações de estupro contra ele?”

[Missione] — “Todas essas acusações que estão fazendo contra o Cash é pura mentira.” — [indignado] — “Toda a vida meu irmão teve boa fama, conduta ilibada, só tinha respeito das pessoas, falavam bem dele... tinha uma esposa incrível, uma vida invejável, era centrado...” — [mira o braço para longe] — “Esses moleques de 14, 15 anos já estão transando adoidado com pessoas até mais velhas do que eles... e no dia seguinte eles vão pra escola como se nada tivesse acontecido! Até onde o adolescente realmente não sabe o que tá fazendo? Eu sempre soube o que era certo ou errado desde novo!” — [aponta para si].

[Voz de Fundo] — “Hum... Interessante.”

[DESLIGA A GRAVAÇÃO VHS TRANSMITIDA PELO TELEVISOR].

[00H50. ESCRITÓRIO SUBTERRÂNEO DO FBI. NOVA YORK].

[Audrey Smith] — “...Isso explica muita coisa.” — [saca o aparelho telefônico].


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