-----TERRA. TAXA DE FERIDOS. MOMENTO PÓS PARABELLUM. PRISÃO DE LUXO NA UNDERGROUND. TERRITÓRIO NÃO IDENTIFICADO. 03 DA MANHÃ. TEMPO DE SOFRER----
[15 DIAS APÓS O
INCIDENTE. EDIFÍCIO ISOLADO PAREBELLUM. COMPLEXO INDUSTRIAL. RESERVAS DE
ARMAZENAMENTOS. 03H00 DA
MANHÃ]--------------------->>>>>>>>>>>>>>
[Vega] — “Espera... devo mesmo mencionar o Cash...?" — [dúvida, olhar de canto] — "Bom, esquece. Risca!" — [fala em tom muito baixo].
"Desculpe, eu parei de escrever, né? Tive que riscar o nome que falei... Sabe como isso funciona. A polícia ainda está atrás de mim, então eu tento me manter discreta. O que eu estava dizendo? Ah... Sandra. Até queria fazer amizade com ela e chamá-la para fazer parte do grupo das garotas, mas ela só me olha com ódio nos seus olhos. Na vez que tentei fazer contato em uma festa restrita, eu bem percebi a sua rejeição. Só peguei a minha bolsa e fui embora para o meu presídio de luxo. Por infelicidade, Sandra ainda é bastante preconceituosa e peca muito pela arrogância. Me magoou muito quando percebi que a pessoa a quem eu admirava me agrediu com um soco no nariz. E eu joguei uma mesa de madeira maciça em suas costas. Eu sou uma Transmorfo SH. Aguento toneladas de golpes, altíssimas temperaturas, pressões extremas, condições adversas... Mas não suporto uma facada no meu coração. Sandra era só uma suplementada. E se eu a tivesse matado? Seria mais uma morte nas costas... Quando disse à Sandra que ela nasceu estragada, eu quis ser má. Mas honestamente... Eu seria capaz de amá-la independentemente disso. Essa moça me considera uma aberração por ser um Transmorfo, mas me entristece muito saber que Bella não é estragada por fora, mas sim por dentro. Consumida pela inveja e perfeccionismo, ela cai como uma luva nas mãos daquela desgraçada da Ashley. Eu juro que se a suplementação transmórfica pudesse converter um humano em um Transmorfo, eu, Simone, e a Palwari estaríamos livres desse inferno, não seríamos mais úteis para essa merda. Se bem que... Seria realmente uma boa ideia suplementar a Ashley? Caramba, essa mulher precisa ser jogada de um penhasco!"
[CLIQUES.
DESENHOS ALEATÓRIOS. RABISCOS. GOTAS DE TINTA].
"E como se isso não fosse o
pior acontecido, eu perdi o único homem a quem eu estava prometida em
casamento. Estaria livre da Boate Underground. O cavalheiro russo mais lindo,
responsável e gentil que já conheci. Falando francamente, eu quis ter um filho
com ele, até tentei porque eu senti uma boa energia por trás daquele terno.
Parecia um homem bom, um homem puro. Não tinha perversidade. Não havia sangue
obscuro. Eu sinto quando uma pessoa é má. Mas, infelizmente, eu perdi meu filho
e o encapsulei como se fosse um ovo de avestruz. Estou me segurando para não chorar,
pois é a segunda vez que tento engravidar e perco meu bebê. Na primeira, foi no
dia do meu 'aniversário'. Hoje foi a segunda, e estou esperando amanhecer para
eliminar o ovo e alimentar as minhas amigas com ele. Elas vão estar com muita
fome quando acordarem. E o Jason...? O pobre Jason tentando me salvar, e eu só
dando trabalho: eu tento, tento, mas nunca consigo escapar daqui... Da última
vez, eu superei os aparelhos de choque vindo das armas e pulei o muro mar
adentro. Mas fui pega logo que estava fugindo por terra após ser depositada
pelas águas na costa."
"Se existe uma coisa que consegui conter muito bem durante esse tempo, foi o meu lamento. Ninguém até o momento percebeu como eu estou arrasada. Será que estou indo bem? Acho que vou coletar meu choro para fazer um tempero para o café da manhã das meninas, isso dará um sal para a comida. Sabe? Sandra... Jason... O russo... Magal... SUII... Katley... Otis Foyer, o meu pai, a Läude, minha mãe... Minha madrasta... Meus doces primos... As meninas, é claro... Guardo todos tão fundo no peito, assim como eu encapsulo o meu filho morto para um ritual de passagem por meio da nutrição. Não quero que este amor seja desperdiçado, pois ele nutrirá a todos que me custam caro. Ele fará parte de seus corpos. Quero guardá-los comigo, pois receio nunca mais poder vê-los de novo."
"......Clique....Clique....Clique.... Sempre apertando a caneta. Por que nada me deixa voar daqui?"
Após o breve momento de depósito de seus sentimentos sobre as folhas de seu caderno, Vega o fecha e o lacra com um botão acoplado a um coração preenchido de um líquido vermelho. A capa do objeto brilhava tal como o universo em miniatura. As suas folhas passavam a sensação de estar mergulhando no infinito. As palavras que riscava brilhavam mesmo sob a luz do dia, mas em linguagem vandoriana para que nenhum enxerido conseguisse traduzi-las. Estava perfeitamente confuso e ininteligível, reservado somente para Vega. A moça, já com uma de suas mãos sobre seu ventre, se põe a dormir na extensa cama macia para esquecer o que passou na Parabellum. Sem saber quanto tempo ficaria trancafiada nem quando escaparia daquele cárcere dourado, a mulher tratou de se botar para dormir em questão de segundos. Estava bem-vestida como se estivesse indo a uma festa, mas estava tão acostumada a trabalhar que mal colocava as suas roupas de dormir. Só tomava um bom banho e se cuidava para suportar as lentas horas de serviços forçados. Apenas os seus sapatos foram retirados de forma relapsa de seus pés antes de repousar. Abraçada ao travesseiro de penas, Vega adormece da mesma forma que as suas duas fiéis companheiras, Simone e Palwari. O dia já tinha sido um desastre o suficiente.
[DIA SEGUINTE.
09H30 DA MANHÃ. CÉU NUBLADO E TEMPERATURA
AMENA]------------------------>>>>>>
O dia amanhece duro e sem remorso para
as garotas. Depois do estrago na Parabellum, todas as modelos permaneceram
trancadas em quartos complexos durante uma semana. Metade delas saiu das Salas
de Emergência e foram providenciadas enfermeiras para que fossem bem cuidadas.
Era a punição que lhes cabia. A pena foi ainda mais pesada para Vega, que
terminou sendo o Bode Expiatório do ocorrido. Foi castigada a suportar um mês
inteiro de prisão. Não achou tão ruim, já que dessa vez não precisaria
trabalhar. Sandra foi internada, e diversas garotas terminaram bastante
feridas. O tempo passava devagar e o silêncio pairava pelos corredores. Passos
corridos de médicos de cima para baixo eram os únicos sons que podiam ser ouvidos
no edifício. Muito tempo sem contato externo enlouquecia as mulheres. Era muito
para se esperar e poucos suprimentos para receber. A fome batia à porta.
Faminta, Palwari se põe a procurar alguma coisa para comer nos armários do
enorme complexo em que estava trancafiada junto a Vega e Simone.
[Palwari] — [aborrecida] — "Vou falar com Owen sobre a negligência dos funcionários daqui, eles não colocaram nada para comer ou cozinhar." — [abre e fecha as portas dos armários] — "Como eles querem que trabalhemos a semana inteira nesse inferno?"
Escutando as lamúrias de sua amiga, Vega permanece triste e desolada. Seu olhar parecia cansado e vazio. Para que ninguém mais soubesse o que dizia, Palwari começa a proferir sua ira por meio de sua língua natal:
[Palwari] — "Eu ainda vou decapitar e triturar a cabeça do verme desgraçado que se propôs a sequestrar mulheres e deixá-las sem comer. Ele e os seus empregados imundos! Como eles podem fazer uma bestialidade dessas?! Raça de insetos! Sequer conseguem construir uma civilização decente ao invés de arruinar as outras. O inferno estará bem reservado para eles se pararem nas minhas mãos. É só a chance desse aparelho maldito na minha nuca estragar e eu espremo os olhos deles!" — [esbraveja].
Simone desperta diante do acesso de fúria de Palwari:
[Simone] — "Do que está reclamando aí atrás, Palwari?" — [sonolenta].
[Palwari] — "Os desgraçados não colocaram comida no nosso armário e eu estou com fome! Sério... nunca estive com tanta raiva antes..."
[Simone] — "Aguenta só mais um pouco, Pal, quando for 12 horas eles nos liberam do quarto..." — [se levanta da cama].
[Palwari] — "Deus, eu não vou aguentar ficar mais uma hora sem comer... estou há mais de uma semana só na base de água e xarope." — [revolta].
[Vega] — "Meninas..." — [tristeza].
As duas moças imediatamente param para ouvir o que Vega tem a dizer. Ambas notam a sua apatia e tristeza e percebem uma anormalidade no comportamento da amiga. Simone se aproxima da cama de onde Vega estava e tenta verificar o que se passa.
[Simone] — "Sopro... o que é que houve?" — [preocupada] — "Já faz dois dias que você está abatida... vamos, me conte, o que é que te deixou assim de repente?" — [acaricia os ombros de Vega].
[Vega] — "Eu deixei duas garrafas de leite na geladeira e um ovo em cima do balcão... é o suficiente para vocês poderem comer." — [tristeza e visão distante].
.
.
.
[SILÊNCIO]--------------->>>>>>
[Simone] —
"Meu amor, você ainda não me disse o motivo de estar tão acabada... Vamos,
deixe eu ajudar você." — [se aproxima para abraçar a amiga].
[Vega] — [suspira] — "É complicado, Simone... é um problema que eu prefiro esquecer..."
[Simone] — "E o que eu posso fazer para te animar?"
Por alguns segundos, Simone estava tentando entender o motivo da esquiva de Vega enquanto Palwari direcionava sua visão para o balcão. A mulher negra envolve Vega com sua doçura e a abraça enquanto a amiga se esforça para retribuir o carinho. Palwari franze a testa e exibe espanto em seu olhar ao vislumbrar o ovo que estava próximo da geladeira. O motivo de sua preocupação estava logo à sua vista.
Ao perceber o que se passava, a mulher de cabelos róseos nota que o que Vega estava sofrendo poderia ser pior do que o esperado. A moça se aproxima de onde estavam Simone e a Transmorfo.
[Palwari] — "Vega, de onde conseguiu esse ovo?" — [preocupada].
[SILÊNCIO DE
ALGUNS SEGUNDOS].
[Palwari] —
"Você o encapsulou? ..." — [fita a amiga].
Vega suspira fundo antes de responder e fecha gradativamente os seus olhos. Tal resposta lhe soaria como a dor de um soco no estômago. Palwari assim, coloca as mãos sobre a barriga.
[Vega] — "Encapsulei..." — [tristeza profunda].
[Palwari] — "...Deus meu..." — [movimentos de enlaçamento de dedos enquanto movimenta as mãos]. — "Isso é o que eu estou imaginando, Vega?" — [agoniada e de olhar sério].
[Vega] — "Infelizmente não tem outra resposta, Palwari..."
Palwari suspira em aflição quando escuta o que temia ouvir. Percebendo a reação das mulheres, Simone ergue seus membros superiores e olha para as amigas enquanto se mostra confusa sobre a cumplicidade entre as duas.
[Simone] — "O que vocês sabem que eu não sei? Posso saber?" — [preocupada].
[Palwari] — "Isso é algo muito delicado de se pronunciar em voz alta, Si..." — [decepção] — "Só o que posso dizer é que esse infortúnio tem a ver com o 'ovo de avestruz' que está na nossa frente." — [acena em direção ao balcão].
Simone permanece alguns segundos sem entender o que de fato se passava e começa a se sentir desconfortável de prosseguir a conversa. Quando raciocina por alguns segundos, percebe o verdadeiro significado da palavra "encapsular".
[Simone] — "Aquele ovo..." — [olha para o balcão] — "Não..." — [breve hesitação] — "Aquilo foi você que produziu, Vega? É seu ovo?" — [fita a amiga].
[Vega] — "Simone, quero que vocês duas comam esse ovo. Bebam do meu leite e usem a tigela de sal que deixei perto do armário... prometam que vão fazer isso. Ouviram? ... Eu não quero recusas." — [olhar vazio].
.
.
.
[Simone] —
"Vega, você está me dizendo que o que está naquele ovo é..." —
[interrupção].
[Vega] — "É um ovo... Simone. É um ovo. Igual ao que vocês comem. Não tem nenhum problema em consumi-lo."
Simone começa a exibir uma leve aflição em sua face à medida em que sua confidente revela aos poucos o que deve ser a origem daquele alimento.
[Vega] — "A diferença é que quando ele é aquecido, suas células se multiplicam e o ovo cresce de tamanho. Ele pode alimentar até dez pessoas... Como a Palwari come em maior quantidade, será uma quantidade boa para as duas..."
Em Simone, transita em sua face um misto de sentimentos de indignação, angústia e dor frente à resistência de Vega e Palwari em deixar claro o que realmente ocorreu. Antes que Simone pudesse se pronunciar, Palwari já se prontificou para conscientizá-la.
[Palwari] — "Simone." — [toca em seu ombro] — "Tem coisas que somente eu e minha conterrânea sabemos bem o que dói. Quando for o momento, explicaremos tudo a ti... por enquanto, vamos fazer o que Vega nos pediu."
Simone fita a mulher de cabelos róseos enquanto consola Vega tocando em suas mãos. Quando percebeu que sua confidente direcionava uma de suas mãos para o seu ventre, começou a entender que parte dela estaria sendo oferecida a ela e à sua conterrânea como forma de luto. Aquilo era para lhe causar repulsa, mas lhe despertou sua compaixão.
.
.
.
[Simone] —
"Palwari. Vega." — "Eu entendo que não queiram dar detalhes, mas
de mim, vocês não precisam esconder nada... eu já entendi o que 'encapsular'
significa." — [se volta para Vega] — "E você pode contar comigo.
Farei o que eu puder para aliviar a sua dor." — [se encosta para perto da
amiga].
[Vega] — "Vai aliviar se vocês me prometerem que não vão deixar aquele ovo apodrecer em cima do balcão... quero que vocês comam e se alimentem. Isso é importante pra mim. É a única maneira de honrar a memória do meu filho. Não quero que desperdicem nada do que ele foi... Acreditem: eu vou sofrer muito se não comerem."
Aflita, Simone fita Palwari, que devolve o semblante de angústia para a mulher. Como já entendia o ritual de luto da amiga, não hesitou em atender o seu pedido. Já Simone, demorou alguns segundos para assimilar o que estaria sendo oferecido para se nutrir. Muito triste, Vega tenta convencer Simone mais uma única vez:
[Vega] — "Simone... é um ovo. Tem o formato, textura e sabor igual ao de galinha. Não tem nada de que precise se enojar ou espantar... é um ovo bonito, saboroso e completo, tenho certeza de que não vai se arrepender."
Lágrimas começam a descer pelo rosto de Vega.
[Vega] — "Não quero que pense nisso como um canibalismo, mas como um ato de amor de uma mãe que perdeu o seu filho muito antes dele se tornar um feto... como forma de honrá-lo, não quero que nenhuma parte dele seja desperdiçada."
Naquele momento, Simone fecha os olhos e pensa em chorar quando escuta um singelo barulho de algo em pleno aquecimento na panela de frigideira. Os sons de borbulhinhos de repente acenderam o apetite de Simone como nunca havia tido por meses trabalhando na Underground. Palwari estava cozinhando com afinco o alimento que foi doado por Vega. De casca azul e bolinhas de cor amarronzada, o ovo que estava sendo preparado tinha bolinhas vermelhas ao longo de seu corpo. Sua gema era de tom lilás bem forte. O sal complementado por Vega o deixava com um cheiro ainda mais atraente.
[Palwari] — "Isso aqui vai ficar bom, melhor vir até aqui! Abra as garrafas de leite, hoje vamos comer comida de verdade." — [aliviada e bem-disposta].
Apesar do choque e da tristeza, Simone sorri aliviada depois de cogitar que não poderia atender o pedido de Vega, mas o cozimento do alimento em si, já lhe falou mais alto: estava faminta. Sem pensar muito e encerrando o assunto por ali, Simone se levanta e ajuda Palwari com os preparativos para o café da manhã. Por sorte, encontrou um pouco de café solúvel de boa qualidade para complementar a refeição.
Vega se mostra feliz ao perceber que poderia velar o seu filho nutrindo as suas duas confidentes, o que iria aliviar a sua dor. Quando menos esperava, se levanta, deparando-se com as duas mulheres saboreando a única refeição que teriam ao longo do dia. Ambas pareciam muito agraciadas.
[Simone] — "...Desculpa, amiga, mas isso aqui está delicioso... meu Deus, eu nunca comi tão bem antes." — [diz entre garfadas] — "Não vai querer também?"
[Vega] — "Se eu for, eu vou acabar com a diversão de vocês... melhor deixar para vocês duas." — [sorri, aliviada].
[Palwari] — "Eu não ia deixar sobrar mesmo...! Está muito bom mesmo, Vega... obrigada por nos salvar." — [bebe o leite].
[Vega] — "Eu é que agradeço eternamente a vocês..." — [feição de felicidade].
[HOTEL-BOLHA. 15H56 DA TARDE. NOVA YORK. CÉU LIMPO. PARADEIRO DE JASON. 15 DIAS APÓS EVENTO PARABELLUM.]--------->>>>>>>>
"Meus fabulosos inscritos, eu acabei de fazer UM TRILHÃO de visualizações nos meus Stories! É mais do que o vazamento que fizeram do Estádio Parabellum, GENTE...! Isso é um feito histórico, vocês não fazem ideia... olha, eu nunca...!" — [mãos no rosto] — "Eu NÃO sei COMO agradecer a todos vocês...!" — [mãos sobre a boca, sons de beijos] — "Muito obrigada! Muitíssimo obrigada! Eu sou eternamente grata a TODOS os meus seguidores, amo muito vocês!" — [euforia].
Em um súbito rompante de raiva, SUII lança o aparelho celular com toda a força sobre a parede, fazendo-o se romper em milhões de pedaços.
[SUII] — "Ah, vá à merda, vai se foder, vai pro INFERNO!" — [se encosta na poltrona] — "Por isso que eu não aguento Rede Social! Essa praga me dá nos nervos!"
O seu velho Tutelar o escuta do outro lado da parede enquanto transmite a notícia de seu rádio.
[Senhor] — "O que é isso aí atrás?"
[SUII] — "Nada não, japonês!" — [responde de volta].
[Senhor] — "Algum sinal do Jazón?" — [olha para trás].
[SUII] — "É ‘Jason’, japa!"
SUII abre um dispositivo portátil retangular que se une por quatro bastões e transmite uma tela projetora para o usuário. O ponto vermelho sinaliza a localização exata de onde Jason estaria. O homem garantiu à SUII que o dispositivo estaria injetado dentro de um de seus braços. A não ser que apenas o seu braço estivesse abandonado a ermo, ele ainda estaria vivo.
[Senhor] — "Fala logo, pajé! Tá me deixando preocupado!"
[SUII] — "Ele está parado! Está assim desde a madrugada!" — [verifica pela tela do aparelho].
Quando menos se espera, o telefone da Titane vibra e a moça atende ao celular. Preocupada com o namorado, a mulher leva consigo uma AR para caso de conveniência. Sua face evoluía gradativamente para um semblante angustiado e enfurecido.
[Titane Katley] — "Estou chegando perto dele, SUII. Ele se movimenta esporadicamente, mas não atende aos meus chamados..."
O local onde Katley se encontrava se localizava entre a zona urbana irrastreável e a metrópole de Nova York. Era um pequeno edifício de apenas três andares em formatos arredondados. O material era inspirado nas construções gregas, e de suas paredes brancas e envelhecidas, uma grande abertura arredondada lhe dava acesso ao panorama claro e ensolarado da região de aspecto abandonado.
A única tecnologia de que a mulher dispunha, era de um aparelho tecnológico de mesma natureza de seu amigo hoteleiro. Para auxiliar na cobertura, Audrey Smith já tratava de esconder o rastreamento de quaisquer eletrônicos que estivessem em suas mãos. Os toques de bip nas chamadas eram as provas de sua proteção.
[Titane Katley] — "SUII, vou conectar com a Audrey. Espera só um segundo." — [deixa a chamada em espera] — "Audrey, será que você pode contactar o Jason? Ele não atende minha chamada."
[DEPARTAMENTO DA
FEDERAL BUREAU OF INVESTIGATION] ------>>>>
[Audrey Smith] —
"O Jason já mandou um sinal. Pode aproximar até a boate ao lado da
lanchonete 'Red Nose'. Captou? Ele está em um hotel bem próximo dali." —
[olha para trás] — "E Kat, cuidado para não se aproximar demais da zona da
Dilworth ou da Parabellum, os hackers deles não estão pra brincadeira."
[Titane Katley] — "Ele podia dar um sinal pra mim também, né? Tá, ok, estou indo pra lá, vou tomar cuidado." — [encerra contato] — "SUII, a Audrey conseguiu contato com o Jay, estou indo encontrá-lo."
[SUII] — "Tem certeza de que não quer que eu vá achá-lo?"
[Titany Katley] — "Absoluta. Não largue o posto, pois seu hotel pode ser invadido a qualquer momento. Tá cheio de gente querendo nos saquear."
[SUII] — "Que infelicidade... vou ter que colocar ofendículos nessa merda".
[Titane Katley] — "Ofendículos não adianta, acredite, eu já tentei lá no posto de gasolina próximo da Área 51. Só funciona se tiver um segurança ou um SH como salvaguarda. Magal é meu guarda de lá, e você, o daí, então não saia até eu voltar."
[SUII] — "Beleza, só traga o desgraçado do Jason de volta." — [encerra o contato].
[Titany Katley] — [revira os olhos] — "... Ignorante como sempre." — [parte em retirada].
--------------------->>>>>>>>>>>>>>>>>>
Ao desligar o telefone, SUII volta a
ler um de seus livros que costuma comprar em uma cafeteria próxima de sua
residência. Começa a se lembrar de quando perambulava pelas ruas da metrópole
igual a um moribundo procurando por comida. Coletava lixo das ruas, em troca,
obtinha acesso a um chuveiro, roupas velhas e comida da pior qualidade. Quando
subiu um pouco de vida, passou a fazer entrega de jornais [sim, essa profissão
não morreu até hoje...]. SUII não via problema em comer diariamente alimentos
"Fast Food". Pelo contrário, gostava bastante. Até porque, não lhe
causava dano algum em seu corpo, só o nutria e o saciava. Após 50 longos anos
vivendo à base de copos de soda, sanduíches, tortas doces e batatas, teve o
privilégio de voltar a experimentar uma maçã in natura, comer vegetais e botar
um bom filé ao molho madeira adentro. Passou a desfrutar dos mais sofisticados
sucos das melhores vinícolas. O homem teve muita história para contar.
Suas lembranças o faziam divagar em suas memórias até o momento em que um sacolejante membro o faz avistar um homem completamente nu caminhando nos corredores do Hotel-Bolha, em total descompromisso com a vergonha ou pudor. SUII, não mede cordas vocais.
.................
"Hey!! Isso aqui tá virando a
casa da Mãe Joana?! Veste uma roupa, cacete!!" — [ecoa o estabelecimento].
---------------->>>>>>>>>
POSTO DE GASOLINA K7 SPRECIAL ROUTE 51. 18H35 DA TARDE.
A quietude e o silêncio tornam o tédio
barulhento para Magal. Quando não era um vigilante, era uma espécie de
"Faz-Tudo" nas horas vagas. Trabalhava seis dias ininterruptos no
posto de combustíveis junto a mais cinco funcionários quando não devorava todos
os livros de mecânica que encontrava. Dois de seus colegas também eram SH's,
mas foram contratados como avulsos. Tinham de viajar para outros cantos da
América do Norte. Foram recomendados por Vega no período em que o rapaz
laborava como faxineiro e investigador, ao lado de SUII. Titane tinha de
dividir a sua vida entre a função de vigilante e administradora de seu posto de
combustíveis. Como era de costume, Magal trabalhava sempre descamisado e de
cabelos soltos. Parecia ter aversão a tecidos no corpo que não fossem as suas
calças e botas. Uma presilha na região mediana de seus cabelos era a única
coisa que utilizava para não cobrir demais o rosto. Sua foice estava guardada
em um armário anexado à parede de um dos quartos dos funcionários. O cheiro da
torta de frutas vermelhas estava a atrair mais caminhoneiros para o local.
[Magal] — [fecha o capô de um carro] — "Esse aqui acabou." — [mãos nuas e sujas de óleo].
Magal limpa as mãos e vai até a parede próxima da loja de conveniências para sacar de um tablet anexado via corrente, pregado a parafusos. Munido de uma caneta sensível ao toque, o homem realiza as anotações do dia.
[Magal] — "Um Mustang roxo, uma Rayovax amarela, um Beyond preto... dois elétricos... um... uma tomada consertada... dez pessoas servidas de manhã... banheiros limpos. Produtos de limpeza comprados, máquinas vistoriadas e atualizadas." — [suspira] — "Caramba, onde está a Katley?"
Em meio a seus devaneios, a única resposta que lhe vinha era a dos sons dos ventos daquela tarde. Estava aguardando uma resposta de Titane no momento em que não houvesse risco de rastreamento, uma vez que poderia ser baleada a qualquer momento. Jason estava há dias transitando entre sombras e esconderijos para fugir dos guardas da Parebellum. Quando menos esperava, as portas da loja se abrem e os sinos tocam. Uma mulher surge diante do homem à procura de um copo grande o suficiente para lhe proporcionar uma golada de água.
"Magal." — [caminha até o bebedouro].
[Magal] — "Eksênia." — [fita a mulher].
[Eksênia] — "Alguma notícia do Vega?"
[Magal] — "Nada... nenhuma novidade. A única informação que vazou é que ele tentou várias fugas."
[Eksênia] — "Que destino... lembra da Palwari? Foi sequestrada também."
[Magal] — "Lembro dela. Era amiga da Bäuma." — [mãos apoiadas sobre um balcão].
A mulher nota a preocupação de seu colega e encerra suas atividades por alguns minutos para lhe fazer companhia. Amarrando seus longos cabelos com uma liga, a moça se encosta em um dos pilares do posto de combustíveis.
[Eksênia] — "Ele vai ficar bem. Já percebi, ele não morre assim tão fácil."
[Magal] — "Éh... mas de tanto tentarem, podem terminar matando ele." — [suspira].
[Eksênia] — "Uma hora aquele aparelho na nuca estraga. Acredite, já estive nessa situação. Nem tudo está perdido." — [cruza os braços].
[Magal] — "Assim espero... já foi mais fácil arrancar um aparelho no pescoço. Ele já está preso há meses na zona irrastreável."
[Eksênia] — "Se eu te contar que já esbarrei com a mulher que vazou nos tabloides..."
A informação acende a curiosidade de Magal.
[Magal] — "Quem?"
[Eksênia] — "Uma tal de Ashley. Uma mulher oxigenada de cabelos espetados e uma maquiagem bem marcante. Ela é bem extravagante, mas gosto das roupas dela."
[Magal] — "Ouvi dizer. Ela estava na Parabellum." — [olhar sério].
[Eksênia] — "Acho que ela deve ser a líder ou a chefe das modelos escravas. Eu queria muito que a Palwari arrumasse um jeito de fugir também, mas ela é muito acomodada. Isso é uma coisa que sempre me irritou nela."
[Magal] — "Conheço pouco da Palwari, mas Bäuma a tratava como uma boneca..." — [fita a colega].
[Eksênia] — "Palwari era submissa." — [vira o rosto para o lado].
Três longos sons de apito fazem o homem parar o que estava fazendo. Com o celular no ouvido, Magal recebe uma mensagem em poucas palavras:
[Desconhecido] — "Alô? Me localize e estrague o meu dispositivo, é tudo o que eu tenho a dizer...!" — [encerra a ligação].
Magal se mostra confuso ao ter a chamada finalizada. Chegou a pensar que a ligação era de Titane até reconhecer a voz.
[Magal] — "É Vega." — [surpreso] — "A voz é de Vega."
Eksênia fica atenta.
[Eksênia] — "O que ele disse?"
[Magal] — "Para rastreá-lo. Só um momento, vou mandar a cópia dessa ligação."
[LANCHONETE
PRÓXIMA AO DEPARTAMENTO DO FBI. RELÓGIO DE PULSO. CAFÉ QUENTE. RUÍDOS DE
CONVERSAS HUMANAS].
------------->>>>>> [Envio de cópia de ligação telefônica. Tela brilha. Aparelho vibrando].
Audrey verifica em seu relógio de pulso
uma mensagem via número sem detalhamento, identificado como
"DESCONHECIDO". De fones de ouvido, escuta discretamente a ligação
que recebera de Magal. Ao finalizar, realiza uma pausa de alguns segundos para
analisar a voz. A Agente compreende a mensagem e sinaliza para o amigo em
silêncio através de um ponto final. Magal recebe a mensagem para o seu aparelho
via "Threema".
[Magal] — "Ela recebeu. Nem vou ligar de volta."
[Eksênia] — "O que você fez?"
[Magal] — "Enviei a ligação para uma amiga para ajudar a rastrear Vega. Agora só falta a Katley dar um sinal de vida."
[Eksênia] — "Por que eles não deixam você mesmo ir atrás de Vega?"
[Magal] — "É o que eu tentei falar pra eles várias vezes, mas eles não ouvem. Depois que o vídeo da Parabellum foi vazado, agora o que eu mais quero é arrombar aquele lugar."
[Eksênia] — "Se eu fosse você, eu não daria ouvidos à sua amiga. Iria sozinha resgatá-lo." — [mãos na cintura].
...
[Magal] —
"Tá aí. Você acabou de me dar uma ideia." — [aponta para a colega] —
"Quer me ajudar a achá-lo?"
Eksênia não esperava tal oferta de seu conterrâneo. A moça exibe um semblante assustado e confuso em meio a um atordoado silêncio entre os dois. Antes que pudesse responder, um chamado lhe esperava.
"Eksênia, tem dois pedidos de torta aguardando."
[Eksênia] — "Eu tenho que entrar, mais tarde falamos sobre isso." — [caminha até a porta].
[Magal] — "Vou te esperar."
------------->>>>>>>>>>>>>>
[RUAS VAZIAS. SOMBRAS ESCURAS. LOJAS ABANDONADAS. CÂMERAS DE VIGILÂNCIA ATIVAS.
17H56 DA TARDE].
Enquanto se mantinha longe das vistas
das lentes de câmeras, Katley carregava consigo um aparelho responsável por
sabotar o funcionamento das máquinas por longos períodos. O dispositivo parecia
uma versão pequena de um "Walkie-Talkie". Ao ser acionado, uma luz
vermelha sinalizava que o trabalho estava em andamento, e as câmeras de
vigilância eram inviabilizadas. Caminhando a passos lentos e cuidadosos, a
mulher mantém a sua arma camuflada em sua cintura sem deixá-la fora de sua
vista. Titane não iria deixar ninguém que não fosse ela mesma ir atrás de
Jason. Como não podia receber ligações no momento, manteve seu aparelho celular
desligado.
Devagar, a moça de bota 3/4 atravessa o piso úmido de chuva ácida daquela região. Fazia o máximo de silêncio e mantinha uma certa discrição. Escondia parte de seu rosto com o capuz de sua jaqueta corta-vento cinza e mantinha seu cabelo amarrado em coque para que não fosse reparada. Como usava óculos com lentes digitais, improvisou um mais camuflado sem deixar o aspecto de naturalidade. Seu capuz era o mesmo que Vega havia utilizado na sua primeira tentativa de fuga, e que poderia auxiliar na sua camuflagem diante das câmeras. Os óculos eram compostos por uma armação de plástico róseo que bem complementava a cor de sua íris e seu par de brincos acrílicos, muito diferente do que costuma utilizar. Seu short, também cinza e ajustável com cordões, era parte do conjunto adquirido por Katley. A mulher também protegia seus braços com uma longa luva de dedos nus, de cor preta, tal como suas botas. Seu esmalte, também róseo, brilhava como libélulas voadoras em meio à escuridão. Para se adequar à Central Dilworth, tinha que andar com o estilo de roupas mais próximo do povo que lá vivia.
Ao se aproximar de um dos becos da zona irrastreável, Katley inviabiliza outras duas câmeras de vigilância e salta um muro pelo qual dava acesso a uma extensa rua sentido a uma enorme pilha de contêineres. É lá onde havia uma linha de metrô que ligava a Central com Nova York. Titane verifica em seu relógio o quão distante estaria de Jason a partir dali. Mesmo seguindo a linha que mantinha a localização exata de seu namorado, a mulher acabou pegando a rota errada.
[Titany Katley] — "Ah, droga!" — [ajusta o sistema de seu relógio de pulso e atualiza a página de sua tela] — "Aqui é o fim da Central."
De seu colar rosa, havia uma pequena câmera pela qual captava imagens e sons de tudo em sua volta. A moça puxa o zíper de sua jaqueta um pouco mais para baixo para que os registros ficassem mais claros. Seus óculos, aparentemente simples, possibilitavam enxergar a escuridão assim como as luzes invisíveis ao olho humano. Depois de muito caminhar, o local já estava começando a anoitecer. O sol estava se pondo e o céu estava adotando um tom mais avermelhado. Katley olha para a luz solar sob expressão de temor.
[Katley] — "..."
------------->>>>>>>>>>>
[HOTEL RED NOSE. DOIS ANDARES. UM QUARTO POR ANDAR. 18H10 DA NOITE. LUZES APAGADAS].
[Jason] —
"Kat, cadê você, caramba...?" — [impaciente, olha em seu relógio] —
"Vou ter que te mandar mensagem?"
Indeciso, mas agoniado, Jason olha para os cantos escuros de seu quarto apagado enquanto pensa sobre mandar ou não um torpedo para a namorada. Sem pensar muito, começa a digitar a mensagem em seu relógio de pulso com uma fina caneta sensível ao toque. Quando estava perto de pressionar a tecla de "enviar", Jason interrompe sua ação e põe de volta o aparelho na hibernação. Sentado no chão de madeira, somente restava ao homem aguardar na escuridão de seu quarto que sua futura esposa o encontrasse. Da frente de seu cômodo, uma janela redonda como a forma de uma lupa. Fora dela, o tom frio e quase sem brilho do panorama. Era o filtro azul do final da tarde. Úmido, frio e de pouca luz.
------------>>>>
[20 minutos depois].
Katley caminha por alguns minutos
tentando entender onde havia chegado. À medida que prosseguia, um dos aparelhos
acoplados a um edifício alaranjado estava a se movimentar. Parecia que ainda
estava funcionando. Um finíssimo fio vermelho era diretamente apontado da parte
central de sua sofisticada lente. Para a sua desgraça, Katley escuta os sons da
máquina se movimentando e vira seu rosto para trás. Temerosa, a mulher olha
para o seu bloqueador de transmissões e volta-se novamente para a câmera atrás
de si. O seu aparelho estava ligado e em alta potência, e portanto, era para a
câmera estar desativada. Titane então percebe que a máquina em si era um robô
que a espionava. O local de onde estava era o mesmo de onde Vega havia sido
raptada. A moça certifica-se de que marca seria aquela máquina e volta-se
novamente para o ponto vermelho de suas lentes. Katley pesa a sua respiração
quando percebe que robôs desse tipo reagem como abelhas: se um deles for
destruído, outros milhares rastreiam o alvo pela substância tóxica emitida
quando o aparelho é arruinado. Quando nota que o princípio básico da máquina é
a sua "colmeia", a mulher começa a arregalar os olhos.
[Titany Katley] — "...Merda."
[19H50 DA NOITE.
ENCARCERAMENTO NO QUARTO DO PRÉDIO PARABELLUM].
Passos céleres. Respiração ofegante.
Olhar de pânico. Uma mulher corre pela floresta de gramados curtos e sem
obstáculos no caminho que não fossem as espessas árvores escuras e a cortina de
fumaça próxima de seus pés. De cima, nada se vê que não seja a escuridão
infinita. Não havia céu, nem lua, nem astros por lá. Sequer havia mesmo as
típicas aves que levavam algum sinal de vida para um ambiente lúgubre como
aquele. Um emaranhado de folhas roxas cobria o ambiente cinzento sem caminho
para saída, o que deixava a mulher com a sensação de estar sendo afogada aos
poucos. Seu longo vestido lilás já apresentava diversos rasgos em sua barra
devido aos puxões que tivera que efetuar. O cenário florestal era bastante
largo, e apesar da imensa quantidade de árvores, estas sempre mantinham uma
grande distância umas das outras. Atrás de si, a moça vinha sendo perseguida
por uma multidão de pessoas, todas sob olhares vazios e rostos sem vida. A
pobre moça só conseguia correr, mesmo não podendo gritar. Nas suas costas, duas
asas pelas quais denotavam que a mulher estava sendo visada, tal qual em uma
estação de caça às aves.
Diversas armas eram empunhadas e levantadas para a mulher em tom de ameaça explícita, desde garfos, machados, cutelos, tochas, foices, martelos, até armas de fogo e granadas. Quanto mais pessoas a caçavam, mais rápido a vítima corria. Seu sapato prateado, apesar de bonito, não era muito útil para efetuar corridas tão longas. Do piso folheado, começam a emergir chamas escuras e frias que desintegram o gramado. O calçado de seus pés começa a se deteriorar. As asas de suas costas começam a se depenar. Mais pedaços de tecidos da barra de seu vestido começam a ser queimados. Quando percebe que não podia mais correr por muito tempo, a mulher se apoia em uma das árvores escuras, momento em que percebe que haveria um fim da linha a alguns passos dali. Nada mais haveria que não fosse um precipício à sua espera. As chamas azuladas inundam todo o piso de onde os seus perseguidores estavam, e a vítima finalmente consegue liberar o seu grito estridente para toda a floresta negra. Sua voz ecoa de tal maneira que assusta os seus carrascos. Agarrada à madeira, a moça de cabelos prateados finca suas unhas vermelhas com toda a força enquanto grita para despistar a multidão. Dos seus olhos, refletia um espelho d'água, e os seus gritos, se tornam ainda mais lacerantes. Com os pés em chamas e possuída de uma fúria incontrolável, a mulher se afasta da árvore pela qual estava agarrada e corre alguns metros contra os seus perseguidores, aos gritos de ódio e terror. Relâmpagos estouram em vários flashes, e sua potente voz espanta até as chamas em que seus assassinos pisavam. É quando Vega acorda de seu primeiro pesadelo...
----------->>>>>>
[Despertar. 20h00 da noite. Silêncio total].
[Vega] —
"...Eu tive um pesadelo?" — [se levanta da cama] — "Acho que vou
tomar um banho e pegar algo pra comer no armário."
A mulher coloca uma de suas mãos sobre a sua testa. Percebe que estava suando frio no momento em que sonhou.
[Vega] — "Isso é um mau sinal... se eu ficar presa aqui mais um único dia, eu fujo pela tubulação."
Trancafiada há 15 dias dentro do extenso quarto dourado, a mulher retira suas roupas de dormir e se cobre com uma toalha branca para se dirigir ao toalete e ligar a torneira de água quente. À medida que o recipiente de material espelhado era preenchido, Vega desembala um enorme sabonete e joga-o na água para que dissolvesse. A moça então mergulha fundo na banheira a ponto de entornar água espumada pelo piso brilhante. Lavou-se por inteiro e se esfregou até que ficasse coberta de espuma. Com os cabelos, fez o mesmo. Como de costume, uniu a ponta de seus dedos sobre sua testa para puxar a película de seu rosto a fim de renovar a sua pele. Peles trocadas eram sempre guardadas em caixinhas fechadas para se precisasse utilizá-las.
A mulher põe as suas mãos sobre o registro de chuveiro para baixo, deixando derramar uma forte corrente d'água sobre seu corpo para escorrer todo o sabão. Já limpa e restaurada, a mulher se seca e volta a vestir a sua roupa de dormir. Como gostava de óleos essenciais, aproveitou o que tinha para desodorizar suas axilas, pescoço e seios. Notando as unhas de suas mãos e pés, ainda estavam preservadas. Coloca então duas meias de silicone em seus pés e aplica óleo aromático nas pontas de seus cabelos. Sentia falta de um perfume e não hesitou em procurar em uma das gavetas ao lado da cama de Simone para xeretar alguma fragrância que pudesse usar. Para a sua surpresa, achou a sua favorita. Sorridente, despejou o produto com duas borrifadas em seu pescoço. Para aproveitar o gancho antes de dormir, a moça vai até o armário à procura de algo para comer. Quando abre a fechadura, uma enorme cesta de ovos gigantes é exibida diante de seus olhos. O recipiente até vinha com um laço. Uma enorme garrafa de suco tinto também estava bem junto aos ovos.
[Vega] — "Éh... parece que terei que me virar com ovos." — [pega a cesta] — "Owen, você é bem extravagante... tsc! Mas acho que vou comer um hoje, estou praguejada de fome...".
.
.
.
Os sons de cozimento do ovo escolhido
por Vega eram escutados pelas paredes ao cair na panela. O suco de uva tinto,
era depositado em uma enorme taça. Alguns temperos verdes eram adicionados ao
ovo, e o jantar estava feito. Uma refeição que daria para dez pessoas, era
perfeitamente suportável por Vega, que podia comer até mil daqueles ovos. Após
saborear o jantar e limpar os seus lábios com um lenço umedecido, a moça vai
até o toalete escovar os dentes. Em dois minutos, é o momento em que o telefone
grudado à parede começa a tocar para a surpresa de Vega. Ao correr até o gancho
para atender à ligação, o recado é de revirar os olhos da moça:
[Ashley] — "Vega, minha voz de sopro, como as coisas estão indo? Resolvi dar uma colher de chá para você. Seu período de aprisionamento acaba em uma semana e no dia seguinte, nós teremos uma festa para os membros da Casa, quero que a Senhora esteja lá."
......[Voz do Telefone]..."Ouviu?"
[Vega] — [suspira, revirando os olhos] — "Captei a mensagem..."
[Ashley] — "Ah! E outra coisa, nós teremos uma reunião logo no dia após a festa, às 17 horas, no terraço do Edifício da Underground. Todas as meninas DEVEM estar lá, inclusive você. Entendeu?"
[Vega] — "Claro. Entendido." — [tédio e desânimo].
[Ashley] — "Palwari e Simone estão loucas para vê-la. Não falte!" — [encerra a ligação].
Um som de ligação finalizada começa a tocar do outro lado da linha. Vega coloca o telefone de volta no gancho. Para a sua decepção, a ligação de quem pensava que viria, ainda nunca aconteceu. Para não dizer a si mesma que não tentou mais uma vez, Vega novamente liga para o número de telefone da Empresária Backstage, Läude, com quem nunca teve a oportunidade de ter contato. Chamada em chamada era tocada de seu telefone, mas nada de ser atendida. De um toque a outro, a moça gradativamente exibia uma expressão de angústia. Sua mãe parecia ser dada como morta. Quando recebe a mensagem de que não seria atendida, tenta novamente efetuar a ligação. Läude escuta seu aparelho vibrar de cima da pia próxima da banheira de onde tomava banho. De pernas dobradas e cabeça sobre os joelhos, a loura novamente ignora as ligações de Vega. Não as bloqueia porque, no fundo, saberia que a tentativa de contato teria a ver com sua parceria no Projeto Transmorfo.
Vega já havia tentado diversas vezes contactar Läude por anos a fio. Desde o dia em que esteve com o motorista que o levou para Nova York, não parava de procurá-la. Tentou rastreá-la por meios não convencionais, até efetuou viagens para outros Estados do País de maneira breve, sem desfrutes ou descansos. Mas nada de encontrar a sua mãe. Depois de quinze minutos de tentativas, Vega finalmente pendura o aparelho no gancho. De cabeça baixa e sentada sobre o seu leito, a mulher se mantém em silêncio por alguns segundos. É o momento em que toda a musculatura de seu corpo se contrai como uma espessa rocha.
.
.
.
..."AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHH....!!!"
[GRITO
ENSURDECEDOR. VIDRAÇAS EXPLODINDO].
Os sons de lamento e frustração da
mulher ecoaram por todo o setor daquela sombria região.
[20H30 DA NOITE.
ESCURIDÃO NO PERÍMETRO DA ZONA DILWORTH COM A NOVA YORK].
Em passos lentos e nervosos, Titany
percorre um caminho que não lhe era familiar, mas que era apontado pelo mapa
que estava em seu aparelho. Temia que tivesse sido sabotado. Quase entrando em
desespero pelas câmeras robóticas, cobre o máximo seu rosto para não deixar ser
percebida por quem a estivesse observando. Sem compreender o motivo de nunca
chegar ao ponto de onde Jason estava, a mulher atualizava a sua máquina dezenas
de vezes seguidas. O ponto de localização mudava de um local para o outro sem
nenhuma explicação. Percebeu que se não bloqueasse as câmeras de luz vermelha,
continuaria perdida e sem rumo. Com poucas luzes de postes acesas, não havia
uma alma viva caminhando por aquelas bandas. Os moradores do perímetro da
Central Dilworth costumam realizar um estranho toque de recolher no período
noturno. Pareciam desaparecer depois do pôr do sol. Aos pisos sobre a
superfície molhada, Katley interrompe sua caminhada para pensar em uma maneira
de enganar as máquinas. Se esconde em um canto e começa a procurar algo útil em
sua bolsa. Encontra um spray de tinta muito escura e que seca em apenas alguns
segundos. O líquido era tão negro que bloqueava totalmente a luz. Acoplou à
abertura do produto, uma fina e longa haste de extensão para que as lentes dos
robôs se tornassem alcançáveis.
Como única tentativa para não acionar as outras trezentas câmeras que estavam escondidas naquela região e possivelmente ser coberta de balas, Katley borrifa o spray sobre a lente de uma das câmeras. Como resultado, a máquina começa a se movimentar de maneira desorientada, de maneira que fique em modo infinito. Aquela tintura escura não iria sair tão cedo. Percebendo que essa tática diminuía a interferência de seu mapa, começou a aplicar a mesma técnica em outras máquinas ao longo do caminho asfáltico misturado à terra molhada. No final, parou na mesma avenida por onde havia uma fileira de contêineres e um muro que separava os prédios rebaixados.
Depois de correr alguns metros à frente da avenida, Titane se depara com uma rua bifurcada pela qual dava acesso a um cais com iluminação lateral noturna, logo à frente. Era algo que, até então, não havia reparado. Lá é por onde se situa um rio próximo ao ponto asfáltico de onde Vega foi sequestrada. Caminhando pela larga e espessa sustentação de madeira, a moça visualiza dois enormes prédios extremamente luxuosos bem distantes de sua visão. Um pouco à frente das construções, Katley visualiza através de seu binóculo, um enorme muro de metal que separava tudo de dentro e de fora daquelas construções. Um conjunto ultra organizado de armazéns rigidamente enumerados também cedia um breve relance aos olhos de Katley. Com isso, Titane percebe que o rio, na verdade, era o caminho para os pontos principais da Central Dilworth. Como forma de deixar sinalizado para onde deveria voltar, a mulher deposita embaixo da sustentação de madeira, um pequeno dispositivo de luz lilás no qual seria o ponto de referência para o seu mapa.
Sem perder muito tempo, Katley corre alguns metros quando encontra na rua à direita, a última câmera de vigilância com a qual havia antes se deparado. A mulher então aproveita para borrifar sua lente com tinta spray. Como era esperado, a máquina se desmiolou e começou a se movimentar em círculos. Sacou de seu dispositivo por onde gerava as coordenadas deixadas por Jason, e percebe que os pontos do mapa pararam de se engalfinhar. Decidiu então voltar para onde devia ter percorrido quando uma coisa lhe chamou a atenção. Próximo dali, a mulher encontra um fino e longo ossículo pelo qual havia alguns pequenos cacos de vidro, bem junto a uma construção predial. Olhando para cima, Titane nota um poste no qual contém um grampo aliado a uma câmera, bem no fundo de sua lâmpada. Como não queria despertar o alerta do setor, procurou aumentar a potência de seu bloqueador de sinal e transmissão para ver como a máquina iria reagir. Como era esperado, a sua fonte de luz começou a se enfraquecer.
Para não perder a pista que encontrou, Katley guarda o ossículo dentro do bolso de suas roupas e segue novamente para as coordenadas de onde Jason estava isolado. Quando menos esperava, a mulher vislumbra, para longe da costa, uma fileira de cinco barcos navegando até onde Titane estava. Para a sua desgraça, todos os navegadores estavam muito bem armados. Como algumas câmeras já haviam captado o seu rosto, não queria esperar para descobrir a quem deve a amistosa visita dos Tuxedos.
[Titane Katley] — "Vai se foder, não é possível..." — [parte em retirada].
Cantando fumaça pés à frente, a mulher se apressa em desespero para fugir daquele lugar. Atravessa os contêineres como se estivesse percorrendo um labirinto. Ao socar a porta de redes de metal já entreaberta, a moça escuta um zumbido distante de sua cabeça. Um dos drones de vigilância foi programado para acertar o que for lido como "alvo". Katley aumenta a potência de seu bloqueador de transmissão, o que tonteia a máquina a ponto de deixá-la em movimentos zigue e zague até quebrar uma das vidraças das pequenas galerias no setor. Um forte grito feminino é escutado do local onde o drone invadiu, e toda a região é colocada em alerta pela aparente perturbação do silêncio. A moça começa a escutar insultos vindos da vizinhança e alguns objetos são lançados sobre ela. A vigilante consegue se desviar para outra rua a fim de escapar do linchamento público.
[Titane Katley] — "Ah! Droga...!" — [resmunga].
Depositando suas últimas esperanças no mapa que estava em suas mãos, mas sem interromper sua corrida, a vigilante percebe que finalmente estava se aproximando de onde estava Jason. Podia ver algumas luzes neon bem distantes de sua visão. Quando se aproximava da boate que lhe havia sido mencionada, mais seis drones aparecem voando em altura ainda mais distante de onde Titane corria. Katley, já estava começando a ficar cansada.
[Titane Katley] — "Merda, vamos! Cadê você??" — [olha para trás e cobre ainda mais a sua cabeça com o capuz] — "JASON!!"
Katley grita em plenos pulmões, o que ecoa por todo o setor. Do local de onde estava, o homem escuta o grito de socorro de Katley e foge do pequeno hotel através da janela. No local onde Titane passou para inutilizar as câmeras, os homens e mulheres de terno rodeavam aquela região com lanternas cegantes. Vistoriaram o cais, a estação de metrô, os caminhos caóticos dos contêineres, tudo que podiam. Os zumbidos dos drones ficavam cada vez mais próximos de Katley. Quando a mulher estava quase chegando ao esconderijo apontado pelo mapa, seus dois braços são fortemente agarrados para que interrompesse a sua corrida.
[Titane Katley] — "Ah!!" — [se assusta].
[Jason] — "Calma! Calma, sou eu..."
[Titane Katley] — [respiração pesada] — "Jay...!"
O que era para se transformar em choro, o semblante de Katley se converte em alívio. O brusco contato, rapidamente resultou em um grande abraço. Mas naquele momento, nenhum dos dois poderia perder tempo.
[Titane Katley] — "Me ajuda... tem guardas e drones atrás de mim..."
[Jason] — "Vem cá, se esconda na sombra...!" — [pega Katley].
No local de onde o casal se refugiava, só havia uma única luz de poste acesa. No momento em que o silêncio parecia tomar a rua, uma forte luz vermelha começou a brilhar próximo da fonte de luz. Os drones, interrompem seu voo e permanecem suspensos no ar à procura do alvo.
[Jason] — "É o seguinte, não deixe nem os drones ou os guardas te verem, ok? Eu distraio eles enquanto você inativa as câmeras."
[Titane Katley] — "Tá, mas você não tem colete?" — [sussurra assustada].
[Jason] — "Não adianta...!"
[Titane Katley] — "Como não adianta...!?
[Jason] — "Eu já tentei, Katley..."
[Titane Katley] — "Como você vai se proteger daqui até lá?"
[Jason] — "Eu tenho arma, mulher...! Eu sei o que eu tô fazendo..."
[Titany Katley] — “Quem” garante que você não vai tomar um tiro, cara?!" — [sussurra, exaltada].
[Jason] — "Eu sou um Semi Transmorfo, ok? Eu posso..."
[BRUSCA
INTERRUPÇÃO. ESTOURO GRAVE]
Uma forte luz piscante atravessa rente
aos corpos do casal, e o barulho estrondoso sobressalta os dois companheiros,
que se abraçam fortemente. Jason e Katley interrompem o falatório por alguns
segundos no momento em que a parede em que estavam próximos é atingida por algo
que a fez derreter parcialmente. O cheiro de fumaça ácida era bem difícil de
confundir. Titane vira seu rosto para o lado em que o tiro foi disparado e nota
que uma das câmeras em que foi borrifado o spray negro havia se autodestruído
por conta de sua sobrecarga. O robô, que até então se movimentava caoticamente
em círculos, agora expelia jatos de fogo e tremia sob estalos em várias partes
de seu corpo. A fumaça exalada da máquina tinha um forte odor, tal como de um
bicho em seu instinto de defesa. O estouro que passou próximo do casal, porém,
não era da máquina de vigilância. Sem que Katley percebesse, Jason estava com
um de seus braços munidos de uma AR, erguidos em direção à ofensiva dada contra
o casal. Um pequeno grupo podia ser visto muito além da vista de Katley. Um
pequeno "pincel" de tintas brancas e violetas já os fez deduzir que
seria o ataque dos Tuxedos. O primeiro trovão surge.
[Jason] — "...Katley..." — [raiva e olhar fixo].
[Titane Katley] — "Eu sei..." — [tensa].
[NOVO ESTOURO.
OFENSIVA MÁXIMA. PERSEGUIÇÃO DECLARADA].
A nova explosão da bala da AR passou
rente ao casal como a luz de um foguete. Katley é empurrada, Jason revida. O
homem acerta em cheio um dos tuxedos que estavam a vários metros longe de sua
vista. Muito fortes e rápidas, os barulhos emitidos pelas balas eram como se
diversas bombas de sons secos e curtos estivessem explodindo aos milhares ao
mesmo tempo. Só podiam ser avistadas luzes piscantes que cegavam os olhos. Um
dos tiros faz com que a ponta dos cabelos de Katley se queime como uma bituca
de cigarro. Sentada bem junto ao canto de concreto, Katley atira três vezes e
explode um dos botijões de gás que estava em uma casa próxima aos perseguidores
da Dilworth. Um segundo Tuxedo é brutalmente abatido. Aproveitando a brecha, o
casal parte desesperadamente em retirada.
[Titane Katley] — "CORRE...!!" — [grita em plenos pulmões].
[SONS DE
EXPLOSÕES DE BALAS. ASFALTO E PAREDES DERRETIDAS. CÂMERAS ROBÓTICAS SENDO
ALERTADAS AOS MONTES. MÚLTIPLOS LASERS APONTADOS PARA O CASAL].
Jason olha para trás enquanto são
perseguidos pelos caçadores, na terra, e drones, pelos ares. Para não deixar que
se aproximassem, o homem enchapelado atira novamente contra os Tuxedos, que
revidam o tiro e acertam bem próximo dos pés de Jason, o que quase o faz se
desequilibrar.
[Jason] — "Ah..!!" — [sente um estouro próximo de seu pé].
Titane aproveita para acertar os drones que desciam rapidamente ao seu alcance, e vários deles explodem como fogos de artifício. O tecido da barra da calça de Jason, rapidamente começa a se deteriorar devido à substância da bala a laser. Lembrando que havia passado por aquele caminho antes, Katley desvia a rota junto à Jason.
[Titany Katley] — "A próxima rua à direita...!!" — [grita].
Outros três estouros escutados pelo casal os deixam cegos devido às luzes piscantes. Por milésimos de segundos, os dois desafortunados não conseguiam vislumbrar nada além da escuridão à frente. Os sons muito rentes das balas provocaram um chiado em um dos ouvidos de Katley.
[Jason] — "Vem!!" — [pega pelo braço da namorada e desvia a rota].
Quase arrastando a mulher, o casal deixa a sua trilha de desespero em uma estrada de terra mal asfaltada e de baixa iluminação. Os Tuxedos, por sua vez, presumiam que os fugitivos estavam mantendo a direção reta. Ao chegarem onde a rua se divide em duas, um dos homens nota que Jason e Kaltey desviaram o caminho. Sem perder tempo, o assassino saca de sua arma restrita e usa de sua mira de longa distância para acertar o casal. Titane percebe, Jason ergue o braço para atirar.
[Titane Katley] — "Jay..!!!" — [grita].
[TIROS SIMULTÂNEOS.
FINO RUÍDO DE UMA BOMBA CASEIRA. MÚLTIPLAS EXPLOSÕES].
A dupla, fugitivo e perseguidor, entra
em perfeita sincronia quando ambos apertam o gatilho. Uma das balas acerta as
costas de Katley, que a empurra subitamente para baixo. A outra, desencadeia
uma sucessão de explosões que ultrapassam os limites do perímetro de onde
estava um dos Tuxedos. O homem que estava próximo do pequeno galpão, morreu na
mesma hora. A expansão desenfreada de energia joga todos os corpos que
estivessem na frente. Gritos e evasão dos moradores puderam ser escutados pela
região. Os caçadores que estavam alguns metros à frente, interrompem sua
corrida. Por azar, um dos homens é atingido por estilhaços de objetos cortantes
no rosto, o que o mata de forma súbita. A fim de escapar, os Tuxedos que
restaram procuram logo um abrigo para se esconderem, pois a intensidade das
explosões havia saído do controle. Jason se mantém deitado no piso próximo à
Katley para evitar que fosse atingido. Ao tentar abraçar a mulher, uma parte do
tecido de suas roupas começa a gradativamente deteriorar como cigarro. Katley
se contraía de dor.
A graça de se acertar uma casa de bombas é o estrago generalizado que tal feito pode causar junto à beleza que seus fogos de artifício proporcionam aos céus. Os estouros pareciam que estavam sendo realizados em comemorações de final de ano. A Zona Dilworth nunca havia ficado tão colorida. Dezenas de moradores partiram em retirada, e grupos armados de segurança foram acionados para cessar a violência. Postes foram arrebentados e boa parte da energia elétrica se extinguiu naquele local. As únicas luzes acesas seriam os geradores acoplados ao asfalto. Levantando-se com dificuldade, Katley tem suas costas impregnadas de fumaça. Jason acende a luz de seu aparelho telefônico e ajuda a sua companheira a se reerguer.
[Titane Katley] — "...Ãhnm...!" — [raiva e grunhidos].
[Jason] — "Calma... deixe eu te ajudar..." — [segura a mulher].
[Titany Katley] — "Arhg... merda...! ... Nesse chão sujo, MERDA..." — [resmunga].
[Jason] — "Anda, vamos tirar essa jaqueta..." — [retira aos poucos a vestimenta da mulher].
[Titany Katley] — "Ai, cuidado...!...Sss...Ai...!" — [exprime dor].
[Jason] — "Pronto. Vou jogar isso fora..." — [larga a peça de roupa sobre o piso úmido].
[Titane Katley] — "Ai...! Essa porcaria aí vai causar um impacto ambiental por radiação..."
[Jason] — "Que nada, até o final do dia seguinte isso vai virar pó...deixe eu carregar você e te levar pra um lugar seguro antes que você seja contaminada..."
Jason pega um dos braços e segura a mulher pela cintura.
[Titane Katley] — "Viu como é importante usar o colete?" — [sorri para o namorado].
[Jason] — "Sua roupa foi queimada do mesmo jeito, tá? Nem vem com sermão..." — [semblante sarcástico].
[Titane Katley] — "Éh, mas se não fosse essa roupa, eu é quem teria sido derretida... portanto, da próxima vez, use a porra do colete..." — [semblante irônico enquanto estica o tecido de sua roupa].
[Jason] — [leve riso] — "...Tá bom, madame... vamos logo."
Por uma prevenção extraordinária, Katley não é desintegrada pela bala de uma AR. Com proteção dupla, a moça usava a jaqueta bomber como tecido de sacrifício e uma blusa regata cor de rosa que impede que a pele tenha queimaduras. Apesar do milagre, parte das pontas de seu cabelo é desintegrada devido ao efeito do disparo. Antes que o queimado subisse para o restante do cabelo de Katley, Jason arranca os resquícios de queimado dos cabelos de Titane na mão. A namorada, devolve um sorriso de agradecimento ao seu companheiro. Parte das roupas de Jason também se queimaram até deixar parte de seu braço e perna nus. O casal finalmente consegue procurar um abrigo para fazer fogo, e só então, planejar o seu retorno para Nova York. O resgate de Vega ficaria para outro momento.
----------------->>>>>>>>>>>>
DIA DA FESTA. ALGUMAS HORAS ANTES DA REUNIÃO. 20H50 DA NOITE. MÚSICA TOCA.
O bom filho à casa torna. Tudo volta à
sua rotina e ao bom e belo azul das luzes piscantes sobre o enorme salão de
piso negro diamantado. A Underground foi aprimorada com novas mesas e a noite
foi programada para ser uma elegante festa de gala. Não haveria strippers,
homens e mulheres seminus, ou leilão de seres humanos para fins sexuais. O
encontro prometia alavancar a péssima imagem que a equipe de Dilworth adquiriu
por conta da briga generalizada no Estádio Parabellum. Então Ashley queria
corrigir as coisas. Com um belo vestido preto acetinado de gola moldada à base
de penas branquíssimas, a loura de cabelos espetados estava impaciente por não
ter visto Vega na festa.
[Ashley] — [suspira profundamente] — "...Aonde Vega está?" — [expressão de raiva] — "É inacreditável..."
Cansada de esperar, a mulher coloca seus sapatos rosa-choque para caminhar à procura de sua escrava de ouro. Seus enormes brincos, igualmente rosados e extravagantes, tilintavam na mesma sintonia que seus elegantes sapatos. Seu bracelete, também rosado, refletia todo o salão por onde sua dona caminhava. Quando menos se espera, a moça se depara com um rapaz de terno preto bem sentado a um suporte de granito próximo a uma fonte d'água. Sua elegante vestimenta acompanhava seu broche, camisa e sapatos, todos de tom cobre. Ao notar o deslizar de seus dedos pelos cabelos, igualmente acobreados e escorridos como cortinas luxuosas, a feição da mulher transita entre diversos tons de raiva e de sarcasmo. O moço pardo devolve o veneno com um sorriso discreto enquanto saboreia seu espumante. Muito contrariada, mas sem perder o sorriso, Ashley troca sua primeira palavra com o belo homem que estava em sua frente.
[Ashley] — "Vega..." — [cruza os braços].
[Vega] — [fita a mulher] — "Como vai, Ashley? Está bonita... eu gostei da maquiagem." — [sorri].
[Ashley] — "Por que está na forma masculina?" — [braços cruzados].
[Vega] — "Hoje é meu dia de folga. Preciso de descanso, me dá um tempo." — [mostrando-se levemente contrariado, bebe o drink].
Ashley apoia suas mãos gradativamente sobre seus joelhos e aproxima seu rosto de sua serviçal:
[Ashley] — "E quem disse que você tem direito a alguma folga, sua cretina?" — [olhar fixo].
[Vega] — "O seu Chefe, vadia. Winston." — [feição de nojo e desprezo] — "Tá lembrada de que ele manda em você?" — [feição irônica].
[Ashley] — "Eu não recebi nenhuma informação sobre dar folga para as mulheres da Underground." — [insatisfeita].
[Vega] — "E não tem que receber. Ele decide o que quiser." — [destina um nobre sorriso para a mulher].
[Ashley] — "É lógico que eu tenho, sua mentecapta, eu sou sócia dele. Ele DEVE satisfações a mim..." — [reforça] — “E eu não vou deixar minhas mulheres vagabundeando aqui sem fazer nada enquanto comem, bebem e dormem com o dinheiro da Dilworth...!”
[Vega] — "Bom, essa culpa eu não carrego. E felizmente hoje, ele não está se importando muito com a sua sociedade, Ashley. Então, se me der licença, eu não estou muito afim de ser uma mulher agora." — [volta a beber o espumante].
De tamanha raiva pelo descaso de Vega, o rosto de Ahsley começa a ficar vermelho como um pimentão.
[Ashley] — "Escute aqui, Vega...! Eu tive um prejuízo... IMENSO por conta da briga horrorosa que você e outras modelos tiveram na Parabellum. Tive que correr atrás de um monte de papelada e Advogado por causa dessa PATAQUADA coletiva que vocês fizeram...!"
Ashley aponta sutilmente o dedo indicador para Vega enquanto o rapaz escuta calmamente as lamúrias de sua sequestradora.
[Ashley] — "Portanto, você trate de retirar essa sua cara lavada da minha frente, TROCAR de sexo e usar a DROGA do vestido que providenciamos a você...!" — [furiosa].
[Vega] — "..." — [leve riso] — "Tá bom, Ashley... " — [se levanta e deixa a taça vazia no suporte de granito] — "Vou compensar o prejuízo que você mesma causou... " — [se mantém próximo de seu ouvido] — "Mas lembre-se que se um dos seus jornalistas marrons souber da garotinha morta debaixo de concreto, isso vai ser um prejuízo ainda maior para os seus negócios..." — [olhar fulminante de desprezo].
Ashley respira fundo depois do pronunciamento de sua escrava e rival, agora, na pele de um homem. Vega, fez questão de se aproximar bem próximo de seu ouvido para mandar o doce recado. Agora só restava uma única escolha para Ashley, que contrariada, cede à queda de braço.
[Ashley] — [Sob forte suspiro, olha para o homem] — "Faz o que você quiser...!" — [parte em retirada] — "Seu ordinário!" — [destila raiva contra Vega].
Vega volta a relaxar e respira profundamente antes de recolher-se aonde nunca deveria ter sido retirado. Senta-se novamente próximo à fonte d'água para a apreciar a beleza do salão. A música volta a ser sua fonte de imersão, e seus belos olhos cobreados se mantém distraídos em meio à multidão de pessoas elegantes.
===========FOGUEIRA
IMPROVISADA. QUIETUDE. BREU E VAZIO. LOCAL DESCONHECIDO DA ZONA DILWORTH.
22H10=============
Luz forte, pequenos sons de estalos.
Uma pausa era necessária depois de uma longa estrada de agonia para escapar da
morte. Parcialmente sujos de lama e com partes das vestes queimadas, só restava
para os cúmplices uma boa copada de macarrão instantâneo. Era o que trazia
alívio à dor de Katley. Jason percebe que sua mochila foi atingida de raspão
pela sua lateral. Felizmente, o material era resistente. Katley sente as
pulsações de dor, mas mantém-se firme enquanto termina sua refeição. Como não
havia mais a jaqueta de capuz, estava vestida com sua blusa rosa chiclete. Da
sua bolsa lateral, a mulher abre o velcro para resgatar os ossículos que havia
encontrado próximo do cais. Jason nota o material em uma das mãos de Katley.
[Jason] — "O que é isso aí?"
[Titane Katley] — "Não sei dizer, mas... isso aqui parece ser de Vega." — [checa de perto] — "Não é dele?"
[Jason] — [aproxima-se] — "...Parece uma agulha... melhor deixar a Audrey verificar isso." — [volta a comer].
[Titane Katley] — "Eu tenho a sensação de que isso é uma espécie de osso... mas é muito diferente." — [olhar fixo no objeto] — "Lembra quando Vega usou os dedos para atirar... como se fosse umas agulhas, sabe?"
[Jason] — "Sei. Lembro desse dia."
[Titane Katley] — "Então. Você não sabe da maior: próximo ao cais onde fica a conexão entre a Zona Dilworth e dois prédios largos e gigantes, sabe? Você foi por lá quando chegou na Parabellum da última vez?"
[Jason] — "Sim. Sei de qual local você fala."
[Titane Katley] — "Foi lá onde achei essas agulhas... lá em um prédio alaranjado com detalhes pretos e nudes. Eu acho que Vega foi raptada lá..."
[Jason] — "Não duvido." — [mete uma garfada] — "Se Audrey provar que os genes são de um Super-Humano, então é quase certeza de que são de Vega. Nenhum outro SH consegue disparar ossos como ele."
[Titane Katley] — "...Nossa, mesmo com a pomada eu ainda sinto muita dor..." — [bebe todo o caldo do pote de macarrão].
[Jason] — "Eu imagino... te coloquei em risco, não deveria ter te chamado." — [continua a comer].
[Titane Katley] — "Não é sua culpa... estamos nisso juntos. Somos vigilantes, temos que cuidar um do outro."
[Jason] — "Olha, eu ainda acho que deveríamos levar o Magal para resgatar Vega..."
Com um ar de surpresa, a mulher lança um olhar de estranheza para Jason.
[Titane Katley] — ..."Pra quê?"
[Jason] — "Ora, pra quê, olha o jeito que você tá..." — [sutil erguer de mãos].
[Titane Katley] — "Sabe que o Chefe mata a gente se descobrir que estamos levando o Magal, não sabe?" — [olhar de desconfiança].
[Jason] — "Sinceramente, eu quero que se dane o que Chefe acha." — [feição de desdém e contorção].
[Titane Katley] — "'Que se dane?' Jason, o Magal é visado pelo Mercado Negro...! O que você acha que eles vão fazer se ele pisar aqui?"
[Jason] — [suspira, olhar de canto].
[Titane Katley] — "Além disso, nós precisamos do Magal no Posto K7, tá lembrado? Ele é o que mantém aquele lugar longe de bandidos."
[Jason] — "A questão é que estamos correndo muito risco sozinhos, nós precisamos de reforços." — [expressa preocupação].
[Titane Katley] — [coloca o copo vazio ao lado de si] — "Nós não precisamos de reforços, Jay."
[Jason] — "É claro que precisamos...!" — [pontas dos dedos de uma das mãos unidas].
[Titane Katley] — [dedos das mãos unidos] — "Magal aqui só vai aumentar as chances de alguém sair machucado."
[Jason] — "E tem essas camisas regatas pra quê?"
A moça expressa uma cara de tacho.
[Titane Katley] — "Isso é caro pra burro, Jason, não dá pra comprar vários de uma vez...!" — [puxa uma ponta de sua blusa] — "Fora que só quem poderia aguentar esses tiros é Vega...!"
[Jason] — "Tá. Você gastou quanto nisso aí?"
[Titane Katley] — "Cinco mil dólares..." — [olhar fixo].
[Jason] — "Cinco... mil..." — [se cala de tamanho espanto].
[Titane Katley] — [une os antebraços aos joelhos] — "Olha. A questão é que os Vigilantes do Estado somos nós e essa missão é nossa. Não podemos nos dar ao luxo de colocar em risco a vida de terceiros não envolvidos no nosso caso. É o nosso dever."
[Jason] — "Magal está super envolvido nisso, Kat...! Eles dois são praticamente parentes.” — [junta e esfrega os dedos indicadores].
[Titane Katley] — “Éh, mas quem comandava as missões que Vega fazia enquanto estava na família substituta era eu, você e o SUII...” — [aponta o hashi para Jason].
[Jason] — “Pois então eu quero autorização para que mais um SH faça parte da nossa equipe, porque eu não vou mais aguentar te ver ser atingida por uma arma restrita. Precisamos... de reforços." — [fala de forma gradual].
Jason se mostra sério e receoso acerca da atual situação de risco que envolve a vida do casal. Katley se mantém resistente, mas nada suscita acerca do tema trazido pelo namorado. Suspirar e pensar por alguns minutos, é a única coisa que pode expressar naquele momento. Em um breve período de quietude, ambos os silentes abaixam suas cabeças e estendem suas mãos próximas ao fogo para se manterem aquecidos. O frio, estava de doer os ossos. Aquela zona era uma das mais arborizadas do Estado de Nova York, e naquele período, as madrugadas se tornavam bastante gélidas. Katley, é a que mais se sente desconfortável com a temperatura ambiente. Indecisos e angustiados entre encarar a escuridão incerta e partir para o Posto de Gasolina K7, o casal começa a abraçar um ao outro para compensar temperatura desfavorável. É nesse momento que Jason estranha o fato de sua companheira estar trêmula enquanto esfrega seus braços com maior frequência.
[Jason] — [desconfiado] — "Com frio?"
[Titane Katley] — "Um pouco." — [esfrega seus braços].
[Jason] — "Isso é estranho." — [coloca a mão na testa de Katley] — "Você tá sensível à temperatura. Está sentindo alguma coisa?" — [preocupado].
[Titane Katley] — "Só frio mesmo..." — [treme os lábios] — "foi o tiro... isso reduziu minha resistência. Eu quase nunca sinto frio, agora imagina isso..." — [desconfiada].
[Jason] — "Eu também fui alvejado, mas de raspão." — [olha para o braço e para o seu tornozelo] — "Tô começando a querer dar dor de garganta também..." — [alisa o pescoço].
[Titane Katley] — "Eu tenho umas pastilhas. Toma." — [cede três unidades para o namorado, que as joga boca adentro].
[Jason] — "Será que não é melhor esperarmos amanhecer pra sair daqui?"
[Titane Katley] — "Tá muito frio, mas a gente tem vai ter que voltar..." — [olha para os lados].
[Jason] — "O GPS tá funcionando?"
Katley verifica seu dispositivo.
[Titane Katley] — "Tá. Tem oitenta e sete por cento de bateria." — [trêmula].
[Jason] — "Falta quantos quilômetros pra sair da Central?"
[Titane Katley] — "Trinta e cinco quilômetros... que bosta..." — [exprime inconformismo].
[Jason] — "Caceta, vai levar várias horas pra darmos um fora daqui..." — [expressa negação] — "o pior é que não dá pra ficar moscando, vão começar a nos procurar..."
[Titane Katley] — "Eu só preciso de alguma coisa pra me aquecer, senão eu vou congelar..." — [semblante em agonia].
[Jason] — "Eu acho que não tenho nada pra aquecer aqui... deixe-me ver..." — [vasculha a mochila].
Daquilo que a luz do fogo podia tocar, somente dava para ver os postes e construções a alguns metros de onde o casal se exilava. Katley começa a se sentir exposta e amedrontada com a sensação de estar sendo espionada. O silêncio era suspeito e as paredes tinham ouvidos.
[Titane Katley] — "Jay... onde estacionou a sua moto?"
[Jason] — "No hotel. Vamos voltar pra lá e pegar a moto."
[Titane Katley] — "No hotel?..." — [olha para os lados e suspira] — "Se não denunciarem a gente, vão atirar em nós dois lá..." — [estende o braço para a lateral].
[Jason] — "Bom, alguém tem que resgatar aquela moto, não tem? Então municie sua arma e fique atrás de mim. E use isso aqui." — [entrega um casaco para Katley].
[Titane Katley] — "Bem melhor..."
[Jason] — "Pode me dar o seu GPS? Eu rastreio o hotel enquanto você desativa as câmeras."
[Titane Katley] — "Fechado. Só tô preocupada com aqueles agentes nos procurando e se os hoteleiros não são ajudantes dos Tuxedos." — [recarrega a arma restrita].
[Jason] — "Dê a carteirada. Se não adiantar, atire pra matar."
[Titane Katley] — "Se eu tivesse outro colete..."
[Jason] — "E outra coisa: não... grite." — [balança uma das mãos] — "Os robôs acionam uns aos outros se você gritar."
[Titane Katley] — "Ok. Vou fingir que não estou em desespero enquanto eu perco o meu namorado de vista e sou perseguida por um bando de drones assassinos." — [ironia].
[Jason] — "Ok, grite, aí você vai ser o resultado." — [sorri e debocha].
[Titane Katley] — "Vamos embora logo. E apague o fogo."
[Jason] — "Kat. Ainda consegue enxergar no escuro?"
[Titane Katley] — "Eu enxergo bem..." — [acena positivamente] — "por enquanto eu tô legal."
[Jason] — "Beleza." — [olha para os lados] — "Segura meu braço."
Para a garantia de sua segurança, a mulher faz o que seu companheiro a orienta e segura em seus braços. Sem muita alternativa além de permanecerem juntos, ambos caminham pela longa estrada escura munidos de um GPS e um bloqueador de transmissões ligado à plena potência. O frio encobria cada vez mais o ambiente inóspito daquela região cercada de pequenos edifícios para todos os lados. Por milagre do destino, o casal estava bem próximo do hotel de onde Jason se hospedava. Vinte minutos depois, os felizardos encontram o local onde Katley tentou encontrar a duras penas. Não havia ninguém na recepção. As luzes, estavam todas apagadas. Com receio de acendê-las de maneira a atrair a atenção de denunciantes e Tuxedos, Jason alerta Katley a não fazê-lo.
[Jason] — "Não, não. Não acende..." — [sussurra e mantém sua mão próxima a de Katley].
Em silêncio, ambos sobem lentamente pelas escadas para resgatarem alguns pertences de Jason antes de descerem para o estacionamento. De forma muito discreta, Jason sinaliza com o dedo indicador a Katley e gira lentamente a chave da porta de seu quarto de hospedagem. Discretos e macios, o casal resgata o que precisa ser remido. Após fazerem uma limpa no apartamento, os dois descem até o estacionamento e partem em retirada pela motocicleta de três rodas até Nova York para logo em seguida, pegarem um trem-bala direto para a região próxima da Área 51. Uma longa trilha de alívio é deixada por aquela estrada fria e molhada.
==========23H30.
HOTEL-BOLHA. QUARTO DE SPA.=============
Momento de relaxamento na banheira de
madeira. Clima quente e abafado. Luzes amarelas e esverdeadas acopladas nos
recipientes e cantos das paredes. Minirrádio à prova d'água ligado. Pequena
música tocando. Silêncio dos hóspedes.
"Homem de 47 anos é estuprado e torturado por 07 garotas de 12 anos de idade em Fitchburg, Massachusetts. Seu corpo foi marcado por cortes, beliscões, hematomas nos pulsos e picadas de injeções. Este é dos casos mais bizarros e bárbaros registrados envolvendo a atuação dos chamados Super-Humanos. O motivo do crime, é porque as meninas queriam transar com a vítima, que se recusou a ceder às investidas. As 07 adolescentes seguem foragidas e ameaçam a polícia caso tentem prendê-las. O homem segue internado em uma ala psiquiátrica e está afastado do trabalho pelo período de 02 anos."
...[...]...[Som estático]
"Mulheres na Rússia que fazem
pacto para matar homens realizam doação de sangue ilegal por meio de um
Transmorfo. Ele está foragido da Arábia Saudita, local de onde reside e foi
criado. Disfarçando na sua forma masculina para fugir de seu País, o homem foi
identificado como 'Zaíra Binnaz' e está envolvido com o espalhamento de seu DNA
Transmorfo para centenas de mulheres que o procuraram pra receber sangue. Como
resultado dessa intensa conversão genética, foi registrado um genocídio de mais
de 7.850 vítimas do sexo masculino, maior número desde o massacre organizado
pelo Grupo Terrorista 'Rebelião das Mulheres' no Brasil".
"Geração SH é a mais violenta e impetuosa de todos os tempos. Número de matricídios aumentou 5.800% e as mortes praticadas em Instituições de Ensino disparou em 7.000% desde que o acesso à Suplementação Transmórfica foi democratizada nos Estados Unidos. As vítimas são, essencialmente, não suplementadas e não são Super-Humanas. Número alarmante de assassinatos provoca séria preocupação para o Conselho de Segurança Nacional."
"As novas gerações de Super-Humanos são as que mais se reproduzem e são a primeira geração da história a se tornar independente financeiramente de maneira mais precoce em relação aos seus antepassados: aos 13 anos de idade. Os adolescentes aprendem dons comerciais cedo, e já estabelecem pequenas comunidades onde eles planejam morar juntos ao saírem da casa dos pais. As moças se dizem orgulhosas de engravidarem cedo e alegam que conceber um filho nessa idade é prova de sua mulheridade, uma vez que tratam o fenômeno como um projeto de perpetuação da raça. Os rapazes, se dizem muito mais leves, confiantes e livres de amarras na condição de SH's. O jornalista Vladmir Council cita que o que está emergindo é algo muito maior do que uma mera deficiência geracional, mas uma nova modalidade do Nazismo, que vem contaminando a sociedade civil como uma chaga."
...[...]...[Ruídos
sonoros].
"Cientistas descobrem que mulheres
sob efeito de Suplementação Transmórfica tende a não sofrer os efeitos da
Depressão Pós-Parto, mas podem se desvincular emocionalmente de seus filhos
quando estes adquirem a idade escolar.[...] Elas passam a tratar os filhos com
uma certa indiferença depois que ficam um pouco maiores porque elas costumam enxergá-los
da mesma forma de como elas mesmas se veem. Como são muito resistentes física e
psicologicamente, elas tendem a achar que as crianças têm que se virar sozinhas.
Já os pais, se tornam mais carinhosos e preocupados com seus filhos depois de
suplementados...[...]"
------------[GIRA
O BOTÃO PARA MUDAR A ESTAÇÃO]------------
[Senhor] —
"Pajé..."
[SUII] — "Fala, Japa..."
[Senhor] — "Tá ouvindo uma motocicleta aqui perto? Deve ser cliente..."
[SUII] — "O cliente que espere. Vou ficar mais quinze minutos..."
[Senhor] — "Vai atender logo, Pajé..." — [retira a toalha úmida de seus olhos].
[SUII] — [suspira] — "Tá bom... caceta." — [levanta-se da banheira].
Com extrema má vontade, o proprietário do Hotel-Bolha cobre-se com uma toalha dourada, calça suas sandálias e se dirige até a recepção da mesma forma como entrou no ofurô: úmido até os pés. Tamanha ousadia despertou os olhos até de quem não estaria por lá para hospedagem.
Depois de abrir a porta para certificar quem era o próximo hóspede na recepção, logo percebe que eram Katley e Jason, cansados e apoiados sobre a bancada de atendimento. Quando erguem os olhos para encarar o recepcionista, lá estava o homem, com seus dois metros e dez de altura do mais puro músculo e envergadura, olhar tão fundo como o abissal de um mar morto, dotado de um extraordinário senso de humor capaz de impressionar uma formiga.
[SUII] — [semblante avaliador] — "Relatório."
[Jason] — "Tentei... entrei na Parebellum. Tentei me aproximar de Vega." — [o homem sorri e cruza as mãos jogando-as para fora em tom de decepção] — "Mas infelizmente, não conseguimos trazê-lo de volta..."
[Titane Katley] — "Mas conseguimos chegar em casa intactos... fui lá pro cais onde fica uma Avenida de Contêineres, mas os Tuxedos e aquela porra de drones montaram em cima de mim pra me caçar... o bloqueador de sinal não é eficaz contra algumas câmeras de lá porque elas são robôs. Se estraga uma, uma colmeia é acionada e você vira alvo. A única coisa que encontrei próximo de um prédio laranja foi isso." — [exibe o ossículo].
[Jason] — "Ah, e... Katley levou um tiro na costas..." — [acena positivamente] — "não morreu por sorte."
[SUII] — "Porra, que dificuldade dos infernos... se eu soubesse que esse era um ponto de sequestro eu teria tirado Vega de lá na porrada..."
[Jason] — "A Parebellum é complicada, cara..." — [feição de desapontamento].
[SUII] — "E eu não sei?... É de lá que as mulheres são traficadas pra Espanha."
[Titane Katley] — "Pra Espanha??" — [espantada].
[Jason] — "Cara, da próxima vez eu não vou entrar de fininho, eu vou arrastar aquele baitola de lá nem que eu leve um monte de balas..." — [indignação].
[SUII] — "Você diz isso agora, mas enfrentar a Central Dilworth exige muita estratégia e paciência... Quarto 203. É onde vocês estiveram."
[Titane Katley] — "Nós precisamos de reforços. Eu e o Jason queremos colocar mais um SH pra nossa equipe, porque não dá mais pra ficar correndo risco." — [coloca a mão nas costas] — "Tem alguma ideia?"
[SUII] — "Ué, e não me incluíram até agora por quê?"
[Jason] — "O Hotel vai ficar largado, cara, o Toji não pode ficar aqui sozinho."
[SUII] — "Troca de lugar comigo então, ora." — [feição de desdém].
[Jason] — "E quem garante que você vai voltar?"
[SUII] — "Eu volto em vinte e quatro horas e com Vega no laço..." — [confiante].
[Jason] — [risos] — "Ah, tá bom cabeçudo, vou te dar meu registro." — [cruza os braços].
Katley deixa escapar um pequeno riso.
[SUII] — "Tu tem memória curta? Eu e Vega também somos Vigilantes, mané."
[Jason] — "Mas não oficiais, são amadores."
[SUII] — "Amadores, éh? A aposta tá feita, mané. Me bota nessa merda que eu chego com Vega no dia seguinte." — [aponta para Jason].
[Jason] — "Beleza, vou pensar no seu caso..." — [feição sarcástica] — "mas vai ter que cumprir o que tá dizendo, hein?" — [aponta para SUII antes de partir em retirada].
[Titane Katley] — "Mas Vega não tinha formação como Faxineiro e Vigilante?" — [confusa].
Antes que o casal subisse para o quarto e se jogassem em seus leitos, SUII fica intrigado com a proposta de Jason e Katley.
[SUII] — "Aí Katley!"
[Titane Katley] — "Diga...!" — [olha para trás].
[SUII] — "Porque não levam Magal para ajudar vocês?" — [intrigado].
Katley se silencia por alguns segundos quando percebe que tal questionamento não vinha apenas de seu companheiro. Enquanto as coisas esfriam para o amanhecer, o clima começa a ficar estranhamente quente na Área 51.
------------------POSTO
DE COMBUSTÍVEIS K7-----------------
----------------------04H30 DA MANHÃ-----------------------
Na madrugada frígida e escura, uma
fonte de luz clareia a estrada úmida que liga a Área 51 e o Posto de
Combustíveis isolado da área urbana. Os poucos postes que lá havia, iluminavam
a frente da motocicleta esverdeada. Mesmo situado em meio quase desértico, o
Posto era muito frequentado por trabalhadores da Zona Restrita assim como
diversos caminhoneiros, que quando não paravam para abastecer, paravam para
fazer uma refeição. E quando a refeição não era o problema, alguns aproveitavam
para estacionar para dormir, quando não para flertar.
[Cliente] — "Então... o que acha de receber um pagamento especial hoje?" — [alisa a cintura do frentista enquanto destila uma feição lasciva] — "Você entra na minha cabine e eu compenso a dívida. O que que me diz?" — [acaricia os cabelos do ruivo].
[Magal] — "Eu prefiro em Cash..." — [olhar frio].
[Cliente] — "Ah, qual é... eu estou usando o perfume que você mais gosta..." — [pechincha].
[Magal] — "Como sabe do que eu gosto?" — [estranha].
[Cliente] — "Tá brincando, ternura? Eu tenho ouvidos. E ótimos ouvidos" — [olhar compenetrado] — "Eu presto atenção no que você gosta. Não é romântico?"
Envergonhado, mas relutante, o frentista segura o sorriso sem manter o porte de quem parecia não se importar com as investidas do caminhoneiro.
[Magal] — "Observador... mas eu preciso deixar algumas contas em dia." — [frio, mas impressionado].
[Cliente] — "Poxa, meu amor, uma noite não vai te fazer mal..."
Hipnotizado pela beleza de Magal, o homem alto, gordo e atlético, puxa gentilmente um dos braços de seu alvo romântico para cortejá-lo ainda mais. De cabelos penteados para trás e roupas ao estilo "velho oeste", o elegante homem estava disposto a encantar o frentista como se estivesse tocando uma flauta para uma serpente.
[Magal] — "Sério... eu realmente preciso de dinheiro." — [semblante cansado].
[Cliente] — "Jesus, eu daria tudo pra me casar com você, sabia disso...?" — [acaricia as bochechas de Magal, que se mostra constrangido e relutante ao mesmo tempo] — "Por que você não fica comigo só hoje?
Magal para por alguns segundos para ceder uma breve respiração ofegante enquanto olha para o outro lado antes de responder ao seu admirador romântico. Seu semblante, era de aparente tédio.
[Magal] — "Olha. Se eu não pagar o aluguel até o final do mês, eu vou ver despejado." — [semblante de decepção].
[Cliente] — "Você pode ficar na minha casa..."
[Magal] — [constrangido] — "Não quero dar gasto pra ninguém..." — [nega com a cabeça].
[Cliente] — "Gracinha... o único gasto que você vai me dar é quando você entrar na minha cabine e tirar todas as suas roupas..."
Em um gesto claro de convite para sexo, o caminhoneiro aperta a mão de Magal, que além de se mostrar sem reação pelas investidas ousadas, ainda engole seco a cada toque sugestivo em seu corpo.
[Cliente] — "Me alivia aí, vai... eu sei que você também me quer... não quer?" — [percorre os braços do frentista em direção ao seu rosto] — "Droga, você é uma maldição, sabia?" — [profundamente apaixonado].
Antes que a conversa prolongasse a madrugada, Magal desvia sutilmente o seu rosto e coloca um ponto final na cantada do homem. Hesitante, o ruivo respira fundo antes de responder.
[Magal] — "Eu agradeço o convite, mas eu preciso priorizar as contas da casa... além disso, preciso comprar roupas novas. Eu estou sem opções."
O galanteador solta os braços de Magal em feição de desânimo. Quando a situação parecia descer rumo a um silêncio anticlimático, os sons do veículo esverdeado de três rodas interrompe a interação dos dois homens a alguns metros longe do Posto de Combustível. Era o casal Jason e Katley.
.............
SINALIZAÇÃO COM PISCAR DE LUZ.............
[Magal] —
"Eu tenho que ir. O balcão eletrônico é logo ali" — [aponta para o
local de pagamento].
[Cliente] — [acena com os dois primeiros dedos da mão sob uma feição de desânimo e tristeza].
A motocicleta é devidamente estacionada no espaço reservado para veículos e o casal desce do automóvel para acenar ao ruivo. Magal caminha até a metade do trajeto de onde poderia alcançar os dois vigilantes. Antes que chegasse até Jason e Katley, esta já aparece se queixando prontamente de suas costas.
[Magal] — "Vocês foram pro Hotel-Bolha ou pegaram o trem-bala?..." — [pausa, semblante de estranhamento] — "Kat, você tá toda ferrada..." — [preocupado].
Katley, com mãos atrás de sua cintura, caminha à passos doloridos à frente de Magal.
[Titane Katley] — "Nem pergunta, tá legal? Só me vê uma torta especial pra ver se eu consigo esquecer essa dor...!" — [resmunga].
Magal mostra-se pasmo com o estado de Katley. Jason, caminha fluidamente como se nenhum impacto tivesse sofrido.
[Jason] — "E aê, gatão?" — [acena com seus dedos].
[Magal] — "Qual dos dois quer contar primeiro que merda aconteceu com vocês? ... Real, eu fiquei preocupado."
[Jason] — "Nada...! Te contaremos tudo lá dentro..." — [mãos no bolso].
Ambos os amigos adentram juntos à loja de conveniência. Katley com dores, Jason levemente embriagado e Magal, à ponto de ter uma polução noturna.
======05H00. TORTA E CAFÉ QUENTE. MÚSICA TRANQUILA. =======
Dolorida e furiosamente faminta,
Katley tem seu momento catártico quando saboreia uma deliciosa torna de frutas
vermelhas. Quente e aconchegante, a mulher quase morta por uma arma de fogo
restrita vê seu coração se aquecer novamente.
[Titane Katley] — "Hum... vocês não fazem ideia de como eu queria comer isso..." — [fecha os olhos e aprecia o sabor] — "que alívio..."
[Magal] — "Agora vocês dois vão ter que me dizer... o que é esse roxo nas suas costas?" — [aponta para Katley].
[Jason] — "Esse roxo?" — [aponta para a moça] — “Conta pra ele, amor..." — [sorri enquanto apoia seu queixo contra sua mão].
[Titane Katley] — "hum..." — [comendo] — "tomei um tiro seco de uma AR..." — [saboreia] — "só estou viva agora por causa da minha blusa... ela é à prova de disparos..."
Magal mostra-se discretamente chocado com a descrição da amiga.
[Titane Katley] — "'Má'..." — [abocanha uma garfada] — "sabe quando você sente ARDER até o fundo dos seus ossos?"
Magal mostra-se cada vez mais chocado.
[Titane Katley] — "É quando parece que alguma coisa vai arrancar sua carne fora, sabe?" — [olhar saltado].
[Magal] — "Nunca tive esse privilégio." — [feição sarcástica].
[Titane Katley] — "...Então. É isso mesmo que eu senti quando tomei aquele tiro." — [come] — "Foi uma delícia." — [ironiza].
[Magal] — "Imagino..."
[Jason] — "Pois é... tá aí." — [feição serena, apontando para a moça sob levantar de ombros].
[Magal] — "E Vega? Conseguiram se aproximar dele?"
[Jason] — "Eu estive bem na frente dele... ele estava na forma feminina, bem acima das escadarias..." — [semblante de inconformismo] — "mas a vagabunda da Dilworth vigia Vega como um leão com seus filhotes..." — [gesticula com sinal de "OK"].
[Magal] — "Nem a chantagem funcionou?"
[Jason] — "Eu dei uma indireta pra ela, ela entendeu tudo. Mas ela mandou TODOS os seguranças irem atrás de mim... eu passei um aperto com aqueles Tuxedos que você nem imagina..." — [mãos em posição horizontal].
[Magal] — "Devia ter ido direto ao ponto, eu teria pegado mais pesado com ela." — [bebe um pouco d'água de uma garrafa de vidro].
[Titane Katley] — "Isso só vai funcionar se tivermos as provas da garota morta... sem isso, não vai adiantar de nada. É mais um cancelamento que todo mundo vai esquecer..."
[Jason] — "Eu tentei entrar na casa de banhos, tentei entrar na Underground, e já tentei entrar na Parabellum, nenhuma das tentativas funcionou. Dessa vez, eu vou me infiltrar como um deles e entrar na Underground como um Tuxedo."
[Magal] — "Vai ter que ser alguém que distraia eles... Katley vai ter que ficar no Posto pra se recuperar, eu vou contigo até lá..." — [interrupção].
[Titane Katley] — "Não, 'Ma', tá maluco? Você é visado na Central, cara." — [dedos sobre a testa, seguido de apontamento para cima].
[Magal] — "E daí se eu sou visado? Não posso continuar a ficar aqui enquanto vocês dois correm risco de tomar um tiro e serem mortos." — [aproxima seus cotovelos sobre a mesa].
[Titane Katley] — "Assim como você! Olha, se você não entendeu o que eu disse, vão te capturar e te aprisionar igual fizeram com Vega. Super-Humanos são MUITO... VISADOS pelos bandidos da Central." — [de mãos unidas, a mulher as gesticula] — "Além disso, você tem que ficar aqui pra proteger o Posto K7 de invasões."
Magal enxerga na amiga uma mistura de receio e ansiedade em seu rosto. Magal, por sua vez, se mostra inconformado com a tentativa de sua confidente de preservar sua integridade. De tamanho desgosto, recoste-se no banco estofado.
[Magal] — "Então do que irei servir se não vou poder fazer nada?” — [solta as mãos sobre as pernas] — "Não posso ficar aqui parado vendo um conterrâneo meu indo pros confins da Espanha." — [aponta o polegar para trás].
[Jason] — "É justamente sobre isso que queremos falar com você..." — [mão sobre o queixo].
[Magal] — "...Sobre o quê?" — [mostra-se curioso].
[Jason] — "Nós queremos autorização para trazer um Super-Humano pra nossa equipe. Precisamos de alguém pra terminar o serviço, porque só eu e a Katley não vai rolar..."
[Magal] — "Ok, se o problema é arrumar um SH pra sua equipe e manter o posto a salvo, porque não arrumemos um substituto pra cá?" — [exemplifica sob braço estendido] — "O Brunetta pode ser uma opção..."
[Jason] — "Ou o Thelonius..." — [enfatiza com o dedo indicador].
[Magal] — "Thelonius..." — [admirado].
Magal começa a se mostrar interessado na sugestão do Vigilante. Katley tem ressalvas com a procura do SH para laborar no Posto de Gasolina.
[Titane Katley] — "Thelonius...? Não era aquele monstro que trabalha pra Touro Vermelho?"
[Jason] — "É ele mesmo."
[Titane Katley] — "Eu acho uma péssima ideia..." — [feição gradual de negação].
[Jason] — "É perfeita...! O Thelonius bota todo mundo pra correr...!"
[Titane Katley] — "É mais fácil ele matar e violentar os clientes do posto, vocês não raciocinam? A reputação desse cara é uma merda." — [indignada].
[Magal] — "Eu conheço bem o Thelonius. Há muito mais tempo do que imaginam. Quando ele pega um trabalho, ele segue as regras à risca." — [lateral de uma mão em contato com a palma de outra] — "Ele nunca foi demitido de nenhum serviço, e os que ele exercia, permanecia por duzentos e cinquenta anos."
Nesse momento, Jason solicita uma bebida quente ao garçom.
[Titane Katley] — "E os outros cem anos e pouco?"
[Magal] — "Metade foi trabalhando aqui na Terra."
[Titane Katley] — "Ok, mas isso ainda não me convence a deixar o Thelonius no meu Posto... eu discordo dessa opção." — [cruza os braços].
[Magal] — "Tá... e por que não o SUII?" — [antebraços encostados à mesa].
[Jason] — "Mesmo problema, cara. O hotel não pode ficar vago."
[Magal] — "Então só nos resta o Brunetta..."
[Jason] — "Ou pedir ajuda pra Audrey... sério, vamos ter de pedir a infiltração direta dela nessa missão."
[Titane Katley] — [suspira] — "Audrey já tá super ocupada com outra investigação... ela não me deu os detalhes sobre o que está envolvida, mas ela disse que se trata de algo muito grande..."
[Jason] — "Então provavelmente isso deve envolver a Underground e a Parabellum... lembram da polêmica que deu o vazamento da gravação? Todos os policiais federais foram mobilizados por causa do evento na Parabellum." — [feição de orgulho] — "Audrey vai juntar o FBI e vai prendê-los em flagrante...! — [bate um toque sobre a mesa].
[Magal] — "Se for isso mesmo que está pensando, Deus guarde essa mulher." — [feição de alívio].
[Titane Katley] — "Mas a pergunta é: a gente espera? A gente avança? O que podemos fazer?"
[Jason] — "Vamos entrar de novo. Só que dessa vez, vamos ter que entrar disfarçados de seguranças deles."
[Magal] — "Eu ainda acho que vocês tinham que entrar na base da força..." — [rosto virado de lado como quem joga uma bomba e sai correndo].
[Titane Katley] — "Para ser honesta, eu tô perto de fazer isso... mas eu tenho medo de tomar outro tiro, então nisso eu tô com o Jason." — [alisa sua pele atrás de suas costelas] — "E além do mais, vamos ter que comprar camisetas à prova de AR pra nós três..."
Como uma faísca de luz que acende um fósforo, Magal se mostra surpreso e discretamente contente com o comentário da moça.
[Magal] — "...Nós três?...Isso é um 'sim'?"
Katley fita o amigo e pensa por alguns segundos.
[Magal] — "Então..." — [interrupção].
[Titane Katley] — "Não comemore ainda..." — [aponta para o ruivo] — "Isso é só uma possibilidade, não uma certeza..." — [bebe uma garrafa d'água].
[Jason] — "Já é um começo." — [é recepcionado com a bebida quente].
Nesse momento, o homem deixa escapar um singelo sorriso de orgulho pela possibilidade de ter incluído pela amiga, que muito relutante, pensa na ideia de inserir o homem como novo recruta para o resgate de Vega, em última instância. Sem que o trio percebesse, o caminhoneiro que havia tentado seduzir Magal, entrega um grande buquê de flores violetas para um dos funcionários do posto de gasolina sob a desculpa de ter sido uma mulher que havia destinado o presente romântico para o ruivo. Quando menos se espera, Eksênia surge com um belo sorriso no rosto.
[Eksênia] — "Meus parabéns, Magal. Parece que você ganhou um novo admirador romântico." — [estende os braços com as flores] — "Mandaram isso pra você." — [sorri].
Extremamente vermelho e sem onde cair de costas pela extravagância da declaração de amor, Magal olha pela janela e vislumbra o homem acenando gentilmente para ele. Muito sem graça, o ruivo devolve o cumprimento de maneira discreta, coberto por um pequeno sorriso amarelo na cara. Jason e Katley observam a atitude do caminhoneiro e ligam os pontos. O homem ruivo não mais sabia onde se esconder o próprio rosto a não ser pelas suas próprias mãos. Jason se mostra impressionado com a beleza das flores. Eram enormes e geneticamente modificadas para resistir até o deserto.
[Titane Katley] — [assobio] — "Uau...'Ma'... é seu novo namorado?" — [empolgada].
[Magal] — [nega com a cabeça] — "Não é oficial." — [bebe um pouco d'água] — "Na verdade, não era pra ser. Não da minha parte." — [feição decepcionada].
[Eksênia] — "Não sei quanto a vocês, mas eu daria uma chance pra ele.." — [sorriso simpático].
[Jason] — "Tá famoso, hein?" — [cede leves batidas nas costas de Magal].
[Titane Katley] — "Nossa, mas isso foi tão romântico... olha essas flores, Jay..." — [toca nas pétalas e as cheira].
[Jason] — "Porra, o cara roubou minha ideia, aí não vale..." — [sorri].
Surpresa e agraciada, Titane deposita suas mãos sobre o peito quando nota a intensão de seu companheiro.
[Titane Katley] — "Você ia dar rosas dessas assim pra mim?" — [sorridente].
[Jason] — "Iria? Já que o sujeito roubou a minha ideia, vou dar rosas ainda mais lindas do que essas..."
[Titane Katley] — "Ooh... Jay...!" — [apaixonada, ergue-se para beijar o seu namorado].
[Magal] — "Ok, vamos guardar isso antes que a minha reputação seja queimada..." — [pega as flores].
[Eksênia] — "Não quer que eu as guarde?" — [se prontifica].
[Magal] — "Não precisa. Eu levo."
[Titane Katley] — "Ah, não, deixe eu guardá-las? Tem um lugar lá embaixo perfeito pra elas...!"
Sem pensar muito, Katley pega as rosas de Magal e deposita algumas notas de dinheiro sobre o balcão. Jason vai logo atrás dos amigos e financia a sua parte.
[Jason] — "Até mais..."
[Eksênia] — "Boa noite." — [conta as notas].
..........ALGUNS
MINUTOS DEPOIS.........
Caminhando para fora da loja de
conveniência, Jason e Magal vão logo atrás de Titane. Pensativos sobre o que
decidir acerca do futuro do casal e de quem faria parte do trio parada dura,
tinham de vislumbrar alternativas para se organizarem e invadir a Central para
resgatar Vega antes que a mulher fosse enviada para a Espanha. Havia previsão
de transferência das modelos no ano seguinte ao Grande Plano. O resgate deveria
ser feito até o Natal, sem falta. Em um determinado momento, o trio interrompe
a sua caminhada.
[Magal] — "Sobre proposta, só não demore muito pra decidir..."
[Titane Katley] — "Tá, eu vou te avisar até semana que vem... mas óh!..." — [aponta para o ruivo] — "Se o escolhido pra entrar na equipe for você, nada de Thelonius no Posto K7, ouviu bem?" — [feição séria] — "Coloque qualquer SH, menos aquele cara."
[Magal] — [mãos estendidas] — "Fechado."
[Jason] — "Então vai ser o seguinte, eu falo com o Brunetta, a Kat fala com a posseira na casa da antiga família substituta de Vega, e Magal... você..." — [interrompe por alguns segundos] — ah, mais tarde eu vejo alguém e te falo...!" — [joga uma das mãos em sinal de esquecimento].
O ruivo observa atentamente a hesitação do Vigilante.
[Titane Katley] — "Tá... agora deixe eu ir deitar, que eu tô cansada..." — [dedos sobre lábios] — "beijos pra vocês..."
[Jason] — "Beijos, meu anjo. Não suma." — [acena para a mulher].
[Titane Katley] — "Eu mando mensagem."
Exausta, Titane caminha até o local de onde dava para a sua casa logo nos fundos do Posto K7. Jason e Magal, finalmente ficam sozinhos.
[Jason] — "Magal..." — [aproxima-se do homem] — "é o seguinte: fale com Thelonius..." — [mão sobre a bochecha].
[Magal] — [estranha] — "...Como assim?"
[Jason] — "Fale com Thelonius... convença ele a falar com a Kat sobre ele ficar aqui..."
[Magal] — "Jay... sua namorada vai arrancar nossas bolas e comê-las se ela descobrir que eu falei com Thelonius." — [adverte].
[Jason] — "É só dizer a ele que você não disse nada, entendeu?" — [exibe a palma das mãos] — "Qual é, Magal, você quer entrar pro time ou não?" — [junta as mãos].
[Magal] — "Claro que eu quero, mas eu também não quero enfurecer a Katley, cara." — [estende os braços].
[Jason] — [mantém o olhar fixo para o ruivo] — "Então faz o seguinte... você vai subornar esse filho da puta com 30K em dinheiro VIVO... que é justamente pra ele não contar que você compareceu pra oferecer trabalho pra ele."
[Magal] — "Olha..." — [sua fala é interrompida por Jason].
[Jason] — "Ele vai conversar com a Katley e vai tentar convencê-la a ter um trabalho temporário por aqui. Somente trinta dias... é o suficiente para resgatar Vega. Se em última instância ele NÃO convencê-la a trabalhar no posto, dê a ele a SEGUNDA opção:" — [reforça] — "você fica aqui... e ele vem comigo."
Magal se mostra pensativo por alguns segundos.
[Jason] — "Eu realmente quero muito que você venha conosco, mas se ainda assim a Katley se mostrar irredutível, minha aposta vai ser infiltrar Thelonius como um dos seguranças da Underground." — [aponta o polegar para trás] — "Essa é a nossa chance."
[Magal] — [breve silêncio] — "Você mapeou seu trajeto até Vega?"
[Jason] — "Tudo. Exatamente como a Audrey disse. Eu sei exatamente onde Vega está." — [confirma] — "Pelo menos enquanto ela não for enviada pra Espanha..."
Após ouvir o que o Vigilante tinha a dizer, Magal respira fundo de maneira pensativa, começando aos poucos se mostrar convencido em fazer o sacrifício conforme a proposta de Jason. Eles teria pouco tempo para resgatar Vega e não haveria outra chance de resgate se não pela invasão extraterritorial. A estrada seria ainda mais penosa para os amigos da Transmorfo. No mais absoluto silêncio, o homem estende um de seus braços para exibir a palma de sua mão.
[Magal] — "Me dê os 30K..." — [olhar sereno e frio].
-------------------->>>>>>>>>>
----------FESTA
NO SALÃO DA UNDERGROUND. MÚSICA AFASTADA. SALA ESCURA. JANELAS COM CORTINAS
PERSIANADAS.00H20 DA MANHÃ.-----------
Do maço de charuto aromatizado, as
cinzas do cigarro são depositadas sobre um pires dourado. A mesa acrílica era
mais vermelha e refletida do que os próprios sapatos do homem que estava
sentado sobre sua poltrona, tão pujante quanto confeccionada no ouro e veludo
bordô. As paredes azuis, eram tão vivas quanto profundas. Marcavam presença,
assim como bem casavam com os ornamentos dourados da sala. As flores tinham de
se esforçar para alcançarem tamanha relevância. Os sapatos rosados em frente à
mesa do homem de terno marrom, era o toque final do piso negro.
[Ashley Dilworth] — "Eu vim aqui..." — [distribui as notas de dinheiro] — "porque eu venho tendo problemas com essa mulher." — [entrega uma fotografia instantânea] — "É a de vestido furta-cor."
[Homem] — "Hum."
[Ashley Dilworth] — "Essa menina vem me chantageando já faz um bom tempo por causa daquele incidente envolvendo aquela adolescente estúpida..." — [silêncio e aborrecimento].
A mulher hesita por alguns segundos antes de pronunciar o nome da vítima de forma seca e bruta.
[Ashley Dilworth] — "Dotty. O nome dela era Dotty."
[Homem] — "Eu sei quem é Dotty... eu quem cuidei dela."
[Ashley Dilworth] — "Então quero que cuide de mais uma. Toda vez que tento fazê-la me obedecer, ela me afronta." — [acende um longo cigarro fino] — "Ela já tentou fugir diversas vezes da Boate, e eu sei que ela vai usar do meu silenciamento pra fugir definitivamente." — [aponta para o homem].
[Homem] — "Mas essa mulher é realmente importante pra você?" — [questiona].
[Ashley Dilworth] — [leve riso] — "Nunca fiquei tão podre de rica antes de tê-la como uma de minhas modelos... Só vou descartá-la quando encontrar outra igual a ela." — [aspira o cigarro].
[Homem] — "E como você quer que eu lide com ela?" — [expele a fumaça de seu charuto].
[Ashley Dilworth] — "Preciso de um Doppelgänger. Sequestre a vadia e mantenha ela na Casa de Banhos. Esse aqui, é o espião."
Em silêncio, Ashley entrega outra fotografia para o homem Semi Transmorfo. Intrigado, observa atentamente as feições das vítimas para executar o plano.
[Ashley Dilworth] — "É ele quem rondou a Underground e a Parabellum nos últimos meses. A imagem está satisfatória?" — [feição de seriedade].
[Homem] — "Esta aqui está ótima... Ok. Por quanto tempo devo manter a garota?"
[Ashley Dilworth] — "Por poucos dias até enfiarmos ela no primeiro avião direto pra Espanha." — [contrai os lábios] — "Uma semana no máximo. Quero despachá-la logo."
[Homem] — "Não tenha tanta pressa... eu quero aproveitá-la bastante antes de ir embora. Ela é linda..." — [admirado].
[Ashley Dilworth] — "Cuidado com essa biscate. Ela é uma Super-Humana e pode arrancar seus ossos fora." — [adverte] — "Ela um Transmorfo de categoria PURO. Todo cuidado com um SH é pouco."
[Homem] — [risos] — "É isso que eu gosto em uma mulher... fique tranquila, eu lidarei bem com ela." — [confiante] — "Aliás... pode me mostrar onde ela está?" — [bastante curioso].
Sem dizer uma palavra, Ashley trata logo de se dirigir à persiana e abrir um pouco de sua fresta para que o seu carrasco pudesse localizar Vega. O homem de cabelos cobreados e terno escuro estava a trocar algumas palavras com uma senhora mais velha. Parecia estar interessado na sua nova companhia.
[Homem] — "Olha só... ali está a peça rara..." — [admirado] — "Eu tenho que admitir: estou louco pra vê-lo fugir daqui..." — [sorri].
[Ashley Dilworth] — [risos contidos] — "Vai ter seu momento logo, logo..."
------------------------SALÃO
DE FESTA---------------------
Em meio a tantos sapatos de texturas e
cores diferentes perpassando sobre o piso fúlgido, um par se destaca dentre os
outros que caminham por direções indefinidas. Parado próximo a pés carregados por
poderosos calçados esverdeados, um deles é sutilmente cutucado pelo tecido
vernizado da barra seu terno. Surpresa, a chegada de um novo par estranho
sobressalta a dona de um dos seus pés. De baixo para cima, a Senhora nota que
os sapatos cintilantes eram tão chamativos quanto a beleza do rapaz de pele amendoada.
Como um gesto de gentileza, o homem oferece uma das taças de bebida que
solicitou em cortesia à mulher, no auge dos seus sessenta anos de idade. De
unhas bordô e batom bem vermelho, o drink era uma de suas bebidas prediletas.
Tal como as joias em seu pescoço e orelhas, era tão cristalino como as águas do
mar.
-----------------------------------[VÍBORAS
PELA JANELA. PERSIANAS SUTILMENTE ABERTAS PELA FRESTA].
[Homem] —
"Você tem que admitir que você apostou muito alto nesse Transmorfo, não
acha? ... Ele é do tipo 'PURO' que você disse?" — [se vira para a mulher].
[Ashley Dilworth] — "Ela é do tipo que você tem vontade de espancá-la a cada dois minutos." — [esconde um véu transparente sobre seus olhos] — "Pra tudo nessa vida tem um preço a se pagar. Vega foi a minha aposta para a Underground." — [ajeita a sua bolsa].
[Homem] — "Pra tudo tem que ter um fim, não acha?" — [sorri].
[Ashley Dilworth] — "Com ela na Espanha pelo menos eu fico livre dela, mas do lucro que ela gera..." — [vira-se subitamente de costas] — “jamais.”
[Homem] — "Estou falando de matá-lo, Ashley..." — [fita a mulher].
Por um breve momento, a sócia da Underground é silenciada pelas palavras do Semi Transmorfo. De olhar sobressaltado e piscar acelerado, Ashley vira as costas para o homem e caminha para fora do salão em direção ao corredor de quartos e lojas e Spa's que eram proporcionados pela Boate. Caixas eletrônicos para trocas cambiárias também eram avistadas sob a forma de monitores sobre pilares.
[Lojista] — "Ashley, aceita experimentar um de nossos perfumes árabes?" — [sorridente] — "Eles são à base de sangue humano e toques florais..." — [abre a tampa metálica do produto].
A vendedora é solenemente ignorada por Ashley, que prossegue seu caminho até as escadas direto para o grande salão de festas. Quando chega ao primeiro piso, sua visão confronta uma cena pouco frequente em sua Casa Noturna. Vega havia acabado de conquistar o coração da bela Senhora de idade, que sem gastar muito de sua estadia, já estava aos beijos com o rapaz.
[Ashley Dilworth] — [repulsa] — "...Só piora..." — [se afasta].
Naquela noite, alguns festejavam. Outros serviam. Mas o que os mais espertos faziam, era coletar informações dos andares acima da vista humana. Um loura misteriosa fazia uma varredura de um dos seus alvos.
[Mulher desconhecida] — [aciona a escuta no ouvido] — "Estou vendo ele...Copiado."
++++++++++++++
Lady Gaga - Abracadabra ++++++++++++++++++
Em uma das mesas ao centro do magnânimo
salão de festas, as cinco moças renegadas aguardam uma nova leva de clientes
enquanto aproveitam o tédio de se manterem a postos à mesa. Com fome, mas
matando a sede.
Sarah, era a moça de temperamento leve que nunca deixava de carregar uma garrafa de cerveja em suas mãos. Só precisava mesmo era uma boa festa e bebida para farrear, e algumas amigas para aproveitar o momento de celebração. A alegria e a disposição dessa mulher eram tamanhas que prisioneiros de guerra implorariam facilmente para comprá-las em garrafas antes de morrer. Sandra Bella, era feita do mais puro ódio contra a nova leva de mulheres SH's. Severa e reacionária, seu perfeccionismo e exigência a consumia como fogo em fósforo. Donna, era racional e a mais equilibrada do grupo. Tão disciplinada quanto intelecta. Contudo, sem muita receptividade. Sua falta de calor humano a tornava fria, focada e calculista. A mulher tinha uma inteligência matemática excepcional. Evory, era tolerante e amigável às diferenças. Paciente e de uma resiliência invejável, era a mais amorosa e gentil das garotas. Fazia trabalhos manuais com graça e sem tempo para terminar. Era prestativa e gostava de ajudar outras pessoas. Ingrid, era tão silenciosa como sonolenta. Não gostava muito de gente. Só queria mesmo era seguir o fluxo e cumprir o script. Um pouco fresca e arredia, era prática e só apreciava mesmo uma boa solitude, silêncio e músicas no fone de ouvido enquanto lia seus livros de romance. Não era muito competitiva. Somente se adequava conforme necessário.
Em meio a tantos ternos de mesma cor, um deles chamou a atenção de Sandra Bella. O homem russo que até então tinha sido escalado para o leilão de mulheres, foi caminhando rumo à modelo como se fosse cumprimentá-la. Com o brilho no olhar, Sandra orgulhosamente se prepara para se levantar e recepcionar o affair dos seus sonhos, quando por conseguinte, o homem passa pela moça sem nem sequer notar a sua presença. O rapaz, só tinha olhos para Vega. Abismada com a forma de como foi aparentemente desprezada, Sandra Bella olha para trás com desgosto ao notar que, mesmo na forma masculina, Vega atraía em demasia o russo magnata. Ele troca algumas palavras com o Transmorfo, que parece manifestar um singelo sorriso vermelho para o seu amante prometido. Uma de suas mãos é erguida pelo biliardário.
Decepcionada e furiosa, Sandra puxa violentamente seu echarpe para si e senta-se na cadeira sob braços cruzados. Passou a esconder o seu decote e se manter de cabeça baixa. A partir dali, a moça não mais queria parecer receptiva para nenhum outro rapaz. Como forma de confirmar o que viu, Sandra olha novamente para trás e vislumbra uma nova decepção: os dois homens de terno caminham juntos até o segundo andar, e Palwari, é trazida pelas mãos de Vega para que ela acompanhe a ele e o russo magnata para uma longa e inesgotável noite de prazer.
[Sandra Bella] — "Como era de se esperar..." — [aborrecida] — "A aberração consegue tudo o que quer..." — [olhar de fúria e lágrima nos olhos].
Com uma feição disfarçada, Donna fita Bella com receio e percebe que sua amiga pode colocar toda noite a perder.
[Donna] — "Sandra... pare com isso. Seja discreta..." — [olhar de repreensão].
Triste, mas não querendo parecer estraga prazeres, Sandra Bella vira-se para frente e volta a cobrir seus ombros e braços com seu elegante enxarpe azul claro. Assim como outras mulheres, Sandra cobiçava muito a presença do russo magnata, pois o rapaz sabia bem como tratar as moças com respeito e carinho. E o melhor: era algo genuíno do ricaço. As mulheres faziam filas para pedi-lo em casamento. Mas com Vega na Casa Noturna, a vida seria muito mais difícil para as mulheres que não fossem SH's. Sandra lança um olhar que muitos sabem bem o seu teor. Os olhos fulminantes da mulher, era o reflexo de seu reprimido desejo de extermínio em erupção, em especial, da população Transmorfo. Um motociclista com o símbolo de um crânio de um carneiro com chifres observa de longe o desenrolar da história. O sujeito de meia idade via em Bella, uma oportunidade de aumentar a influência do Braço Forte. Seu maligno sorriso em seu rosto, deixava seu intuito bem nítido. Enquanto o par de olhos do grupo nazista procurava uma vítima para recrutar, o encomendador de Ashley observa atentamente os passos de Vega pelas cortinas da janela do segundo andar.
-----------------06H30.
POSTO DE COMBUSTÍVEIS K7-----------
De um lado para o outro, pés caminham
sem direção definida pelos arredores do posto de gasolina. Mãos no bolso,
pensamentos em voos. Olhar distraído, preocupação à vista. Um som de buzina é
feito em cumprimento a Magal. O ruivo sinaliza em retorno. De olhar frio e boné
sobre a cabeça, o homem passa boa parte de seu tempo livre pensativo com coisas
que lhe afligem. A noite é mais longa do que o dia nessa época, e o céu
escurecia mais cedo que o de costume. Para aquela tarde, só lhe restava um
resquício dos raios solares em meio a uma imensidão escura sobreposta ao verde
e o amarelo. A estrada estava limpa e vazia. O piso, mais brilhante que um
lustre. Da porta da loja vem a sua conterrânea, que por sua vez, parou seus
afazeres para tomar um café.
[Eksênia] — "Magal." — [cumprimenta].
[Magal] — "Como vai?" — [braços cruzados].
[Eksênia] — "Vou bem." — [breve pausa] — "Não foi ver o Thelonius ainda?"
[Magal] — "Tô me preparando..."
[Eksênia] — "Não se preocupe com o jeito dele. Ele vai te receber bem..." — [bebe o café].
[Magal] — "Não é esse o problema." — [olhar distante].
[Eksênia] — "...O que te deixou tão abatido?"
[Magal] — "À essa altura, acho que você sabe sobre o que é." — [coça o pescoço].
[Eksênia] — [sorriso gradual] — "Está falando do homem que apareceu ontem à noite?"
[Magal] — [breve silêncio, olhar desconcertado para a amiga].
Um momento de silêncio é feito entre os conterrâneos. Magal não tinha muito o que comentar sobre a questão, algo que contrapõe o olhar inquisitivo de Eksênia. Junto ao seu sorriso adorável, seu rosto já denunciava conhecer bem as travessuras de seu companheiro de trabalho.
[Eksênia] — "Magal..." — [bebe o café].
[Magal] — [permanece atento].
[Eksênia] — "Por que tem tanta vergonha do caminhoneiro? Ele me parece ser um homem tão gentil e romântico..."
[Magal] — [feição constrangida. Esfregar de nariz. Cabeça baixa].
[Eksênia] — "Eu sempre vejo ele te tratar com tanto respeito e carinho... ele me parece tão civilizado... por que não dá uma chance para ele?"
O ruivo pensa por alguns segundos.
[Eksênia] — "...Tem receio de se apaixonar por ele?" — [encara o amigo].
O homem, pensativo, demora alguns segundos para responder à sua conterrânea.
[Magal] — "...Eu não me sinto muito bem com isso, Eksênia..." — [sinal de negação] — "Eu já tive uma grande decepção com Cash uma vez... isso acabou comigo por uns bons meses. E alguém como eu, nascido e crescido em meio a pessoas de tanta graça, jovialidade e beleza, terminar a vida gostando de alguém que não seja igual a mim é o oposto de tudo que eu aprendi como honra e valores... isso é decadente..." — [fita a amiga].
[Eksênia] — "E quem disse isso?" — [breve pausa] — "Está muito enganado sobre o amor, Magal..."
[Magal] — [se mantém em silêncio e constrangido].
[Eksênia] — "Reconheço que nós dois temos o nosso orgulho cultivado pela nossa cultura nacionalista... mas isso não quer dizer que devemos permitir que valores racistas esmaguem nossos sentimentos, concorda?" — [sorri para o amigo].
Magal escuta atentamente Eksênia sem dizer uma única palavra.
[Eksênia] — "Claro, você pode até dizer que ele é um pouco mais gordo, tem sinais de idade e algumas marcas de pele... mas falando francamente: eu não acho ele feio. Nem acho que ele seja indigno de ser amado. Para um homem com limitações mais desafiadoras que a nossa, ele é muito mais charmoso do que eu imaginava e me pareceu uma graça."
[Magal] — "Está querendo me convencer que ele seria um bom aliado?" — [sorriso debochado].
[Eksênia] — "Bom, ele nem de longe é o Cash, e você não está restrito ao seu passado com ele. Olhe: cada civilização tem seu fardo e seus privilégios, Magal... nossas diferenças deveriam servir para forjar respeito entre nós. Não para nos separar." — [bebe o café].
[Magal] — "Como aguentou trabalhar tanto tempo no Touro Vermelho?"
[Eksênia] — "Eu sei fingir bem que não estou em um lugar." — [bebe o café] — "É pra isso que servem os fones de ouvido." — [abre um sorriso].
[Magal] — "Não deve ser fácil..." — [cabeça baixa].
[Eksênia] — "Nesse ponto, eu sou grata ao Thelonius..."
[Magal] — "Quem você acha que é mais apropriado pra resguardar o posto de combustíveis?"
[Eksênia] — "Na minha opinião, o próprio." — [termina o café] — "Mas, se for muito transtorno pra vocês, eu recomendo que deixe a Titane Katley aqui, junto com Thelonius."
[Magal] — "Os dois juntos vai demolir o K7..." — [receio].
[Eksênia] — "Eles se acostumam... além do mais, não é para sempre." — [sorri].
[Magal] — [pensativo].
[Eksênia] — "Agora se me der licença, irei voltar ao batente. Mais tarde, conversamos..." — [sorri] — "Pense no que te disse."
Após a breve troca de palavras com o amigo, Eksênia retorna para a loja de conveniências enquanto Magal aguarda seu horário decisivo de partida. Sua preocupação caminha junto ao cadenciar dos ponteiros de seu relógio de pulso. Horas caminhavam. O sol escaldava. O frio paralisava. Os motores ruíam. Veículos chegavam e partiam. Enxuga a sua testa em profundo respirar ao passo que a mira da luz solar em seu rosto o alerta para o que estaria por vir. Mal piscou os seus olhos, e já era final da tarde. Era o seu pressentimento lhe despertando desconfiança que lhe esfriava a espinha. Ao mesmo tempo em que o homem ruivo tinha péssimas sensações de origem incerta, Katley não apostava em uma resposta positiva da nova moradora da casa de onde partiu em perseguição contra a Super-Humana em busca de Vega. Como era a nova posseira, tudo poderia calhar ao menor aborrecimento por parte de Titane. Impaciente e a passos apressados, a mulher se aproxima da residência de onde moravam os falecidos tutores de Vega. Sem muita cerimônia, a mulher caminha pelo asfalto da calma vizinhança e pula a cerca adentro do local.
-----------------------17H35
DA TARDE----------------------
Jason, no silêncio de seu leito,
também se inquietava em calafrios que mal sabia compreender. Mesmo de olhos
fechados, algo consegue romper a sua tentativa de paz. Seu aparelho telefônico
ao lado da cama exibe apenas dois pequenos toques, o suficiente para que o
vigilante virasse seu rosto com estranheza. Era um som bastante peculiar de seu
aparelho telefônico. Como não era comum receber esse tipo de notificação, achou
extravagante que uma mensagem tenha sido enviada para o seu antigo e-mail e não
para o seu SMS ou aplicativo externo.
O e-mail era de criação por programadores independentes e possuía mecanismos que o tornavam irrastreável. Era o último recurso utilizado quando alguém precisava se comunicar. O teor do conteúdo era uma mensagem de áudio de origem desconhecida. Com medo de infectar seu telefone com um vírus, fez uma rígida inspeção sobre o arquivo que estava temeroso de abrir. Alguns minutos de espera eram necessários para concluir o trabalho.
-------------------------18h10
DA NOITE--------------------
Passos lentos. Três toques sutis.
Discreto abrir de porta. A mulher de cabelos curtos acinzentados e olhos de tom
roxo e frio, logo destila um semblante de desconfiança para Katley.
Desafiadora, a mulher alta de short terra cota rapidamente se levanta para
encarar Titane como sua inimiga. Seu esposo, também um SH de cabelos rosê e de pele
bege de baixa nitidez, tenta intervir com um de seus braços para evitar que as
duas mulheres entrassem em um embate corporal. As duas crianças que estavam ao
lado de uma fogueira, presenciaram a situação com preocupação.
[Ambulante] — [surpresa e raivosa] — "...Você é aquela stalker de olho rosa que me acossou e me perseguiu na rua com uma AR? É muita coragem de vir até a minha propriedade. Pra quê? Está aqui pra me prender?"
[Titane Katley] — [corta a mulher] — "Oh! Relaxa aí, tá legal?" — [exibe a palma das mãos] — "Eu quero saber se você conhece esse rapaz aqui dessa foto."
Do bolso de seu short-saia, Katley exibe um folheto com a fotografia de Vega usando uma calça verde jeans com uma blusa regata marrom. O rapaz estava sujo de tinta de diversas cores e mantinha um semblante sério e apático.
[Ambulante] — "Ah, então você também está atrás dele..." — [sorriso de satisfação enquanto fita o folheto] — "Eu sei quem ele é. Mas não sei por onde ele anda." — [exibe desprezo de braços cruzados].
[Titane Katley] — "Sim, não sabe. Mas vocês eram amigos, não eram?" — [pausa] — "Vega costumava ajudar vocês com mantimentos e os mantinham em contato pra oferecer segurança. Agora eu quero saber de vocês dois: ainda se importam com ele?" — [semblante sério].
A moça e seu companheiro imediatamente fecham o rosto e olham com certa seriedade para Katley. O casal se entreolha e depois devolve suas atenções para Titane.
[Ambulante] — "E aonde você quer chegar?" — [descruza os braços].
[Titane Katley] — "Eu quero fazer uma proposta pra vocês dois. Garanto que vai ser vantagem."
[Ambulante] — [desconfiada] — "Manda."
[Titane Katley] — "Se me ajudar a resgatar Vega, eu faço essa casa ser sua pela lógica da Lei e do Estado." — [fita a mulher].
[Ambulante] — "Resgatar do quê?" — [feição de aborrecimento].
[Titane Katley] — "Do Mercado Negro. Ele está sendo feito de escravo em uma boate que fica numa zona irrastreável."
[Ambulante] — "Lamento, mas a Lei e o Estado não me interessam. A casa está vazia e os donos mortos, então ela é toda nossa. Quanto a Vega, nós não podemos fazer nada." — [discorda].
[Titane Katley] — "Nada? Aí, só não esquece que Vega é o único vivo dessa família, e na ausência dos Tutelares, o Tutelado recebe a propriedade da casa. Pra você, a Lei e o Estado pode não ter importância, mas pra Vega será vantagem. Então se não quiser se indispor com um Transmorfo do tipo 'PURO', eu acho melhor seguir a minha proposta."
A nova posseira da casa enraivece sua expressão à medida em que escuta os argumentos de Katley. Seu companheiro também expressa insatisfação com a conduta da vigilante, mas nada expressa no momento.
[Ambulante] — "...Hah...! Chantagem. Acha que pode jogar com nossa cara?" — [mãos na cintura] — "Se nem o Estado quer que tenhamos direitos, então não temos obrigação nenhuma perante as suas Leis."
[Titane Katley] — "Isso é o que você acha. Quem é um SH 'livre' tem mais obrigações do que quem tem um Tutelar. Qual é, cara, vocês não tem uma gota de lealdade com o amigo de vocês? Eu tô tentando te ajudar."
[Ambulante] — "Me ajudar, éh? E quem garante que sua proposta não é uma emboscada?" — [olhar fulminante].
[Titane Katley] — "É muito simples. A melhor forma de cancelar a herança é por transferência de Tutela. A minha ideia é fazer de Vega o meu Tutelado. Daí ele vai morar na minha casa ou no meu posto de gasolina."
[Ambulante] — "...Isso é até verdade, mas ainda não é o suficiente pra confiar em você. Vega não seria raptado de forma tão amadora."
[Titane Katley] — "Vega é meu amigo íntimo, dona. Acreditando ou não, você não tem escolha. Mais cedo ou mais tarde, as autoridades vão reivindicar essa casa e você vai ter que sair." — [senso de superioridade].
Nesse momento, o homem de pele bege acinzentada perde a compostura e começa a desafiar Katley.
[Homem Ambulante] — "Não!" — [breve pausa] — Nós temos escolha sim, e com quem quer que queira a casa, nós sabemos muito bem lidar, não precisamos de você pra nada." — [responde].
[Titane Katley] — "Ah, é? E como pode ter certeza disso?" — [cruza os braços].
[Homem Ambulante] — "Porque você não quer a nós. Você quer a casa." — [aponta para a vigilante] — "Desde aquele dia você vem tentando tomar a casa pra você pra montar seu território." — [semblante de raiva].
Katley se enfurece e mira seu dedo indicador contra o nariz do Super-Humano, em expressão de revolta.
[Titane Katley] — "Olha aqui, cara, eu não preciso roubar nada de ninguém, tá legal? Fica na sua aí, porque ao contrário de você, eu não tô com o cu na reta...!" — [brusca interrupção].
O homem duplica o volume de sua voz e inclina seu corpo para frente enquanto aumenta a agressividade contra Katley.
[Homem Ambulante] — "Fica VOCÊ na sua, vigilante! Você é uma intrusa que quer roubar a casa e veio coagir minha família! Ainda assim, está na nossa propriedade sem nosso aval! Portanto pegue a sua chantagem e dê um fora da nossa casa antes que eu te tire daqui à força...! Minha paciência com você e aquele seu namorado espião acabou!" — [desafia Katley].
[Titane Katley] — "....'Namorado espião'?" — [levanta uma das sobrancelhas e lança um olhar frio].
Surpresa, mas não chocada com a resposta do homem de cabelos rosê, um breve silêncio é feito por todos os presentes. Preocupada com as crianças, a mulher ambulante fita rapidamente seus dois filhos logo arás de si, prontos para municiarem armas de uso restrito caso fosse necessário. Katley respira fundo enquanto destila um breve sorriso em seu rosto, seguido de um olhar de desprezo. Nesse momento, a moça sutilmente carrega a sua bolsa e a abre, aparentemente no intuito de mostrar algo para o casal. Por um breve momento, os cúmplices entram em estado de alerta pelo momento de suspense. É quando um pesado minério furta-cor de dentro de uma rede com amarrações é exibido para os posseiros.
[Titane Kitane] — "Isso aqui prova o meu ponto pra vocês dois?"
Ambos homem e mulher, aliviados por não terem sido ameaçados com uma arma restrita, se entreolham surpresos pela oferta de Katley.
[Titane Katley] — "Se me ajudarem, esse minério é todo de vocês."
Fixada no minério, a matriarca tenta timidamente levantar uma das mãos para pegar a pedra para si. Seu companheiro, porém, a impede de agir e a adverte.
[Homem Ambulante] — "Isso não é uma boa ideia. Pelejamos muito pra ter um lar e não podemos perder de graça."
[Ambulante] — "Precisando de dinheiro." — [fita o esposo].
[Homem Ambulante] — "Precisamos ficar uns com os outros. Nós já reciclamos materiais, não precisamos nos vender por isso." — [mira para o minério].
[Ambulante] — "Esse dinheiro é o que vai nos dar a Cidadania, e a nossa casa." — [feição de aflição] — "Nós vamos entrar pela porta da frente dessa vez."
[Homem Ambulante] — "...Só esteja ciente de que essa mulher é uma estranha..." — [feição de desconfiança].
[Titane Katley] — "E então? Querem conversar?" — [fita o olhar para a posseira].
Ainda vislumbrada com a joia nas mãos de Katley, a mulher aproxima lentamente os seus dedos para o minério quando subitamente, este é retido por Titane.
[Titane Katley] — "Calma lá. Eu disse: se me ajudarem, o minério é de vocês. Mas tem que prometerem que vão cumprir o compromisso." — [reforça] — "Eu ofereço o serviço, e vocês recebem. Bem simples." — [guarda o minério].
[Ambulante] — "E como vai garantir que isso não é uma armadilha?" — [desconfiada].
[Titane Katley] — "Nós temos muito mais de onde esse minério veio. Abrir mão de um só não vai nos prejudicar. Além disso, vocês devem muito a Vega. Pela amizade que ele mostrou a vocês dois. "
[Ambulante] — "E você acha que essa transferência de tutela vai funcionar?" — [reduz a guarda].
[Titane Katley] — "A transferência é automática, gata. Além disso, se por acaso a lei melar, vocês têm dinheiro pra comprar a casa ou mesmo uma melhor do que essa. Aonde quiserem." — [sorriso com franzir de sobrancelhas].
Por um breve momento, a posseira se encantou com a ideia de Katley. Parecia ter entrado na lábia da vigilante por alguns segundos, uma vez que viu a possibilidade de um belo futuro deixá-la sonhar. Aos poucos, sua feição e gestos corporais que denotava uma mistura de alívio, relaxamento e um fio de súplica, foi quebrando-se novamente para um semblante arredio e defensivo da mulher, o que já levantava um sinal de alerta para raiva e advertência. Katley estranha a mudança súbita no rosto da posseira.
[Ambulante] — "Eu só espero que esteja dizendo a verdade, Katley. Porque esse tempo que você me faz perder, vai custar a sua vida se não fizer valer a pena para mim e a minha família. Eu fui clara?" — [feição intimidadora].
[Titane Katley] — "Relaxa, doçura. Eu cumpro a minha palavra. Se por acaso eu me esquecer, você pode me cobrar." — [voz doce e mãos na cintura] — "Sabe onde eu trabalho. Fico em Nevada, no Posto K7."
[Ambulante] — "Certo." — [cruza os braços] — "Então... qual é o próximo passo?" — [olhar de desdém e sobrancelhas franzidas].
[Titane Katley] — "Primeiro, eu gostaria de saber os nomes de Vossas Senhorias..." — [mira sutilmente a mão para o casal].
[Ambulante] — [descruza os braços] — "Anaíh."
[Titane Katley] — "E o seu?" — [mira para o belo homem de cabelos rosê].
[Homem Ambulante] — "...Ofrey... Óshi e Niagara, essa é a Titane Katley." — [direciona-se para os seus filhos] — "Titane, esses são meus filhos. Todos nascidos em Vandora. Ambos tem trinta e dois e trinta e três anos."
[Titane Katley] — "Olá, crianças." — [sorriso amistoso enquanto exibe a palma de sua mão].
Os meninos, ainda receosos com a presença da vigilante, nada dizem a não ser levantarem timidamente as suas mãos para cumprimentá-la. Mesmo armados, eles aprenderam a permanecerem em silêncio caso não tenham nada de bom a dizer.
[Anaíh] — "Bem... acho que já nos apresentamos. Agora nos explique como esse trabalho vai funcionar."
[Titane Katley] — "Costuma dirigir carro?" — [cruza os braços].
[Anaíh] — "Eu dirijo bastante. Já peguei veículos emprestado."
[Titane Katley] — "Então vocês dois farão o seguinte pra mim..."
O casal, Anaíh e Ofrey, escutam atentamente o plano de Katley para a invasão da Central Dilworth. Tal plano envolveria silêncio e disfarce. Dois elementos que, se quebrados, podem fazer dezenas de prisioneiras serem deslocadas para outro país em prazo menor. Ao longo da trilha asfáltica da bela vizinhança, uma bicicleta violeta circulava em baixo movimento entre as luzes e sombras da praça.
A roda girava. Os ventos circulavam. Os pés pisavam suavemente sobre os pedais. Os sons dos sinos da bicicleta tilintavam nos ouvidos de Jason à medida em que seu telefone novamente emite um alerta de mensagem não visualizada. O homem cochilou enquanto realizava a inspeção do arquivo. Estava limpo. Mais limpo, porém, seria o que os ouvidos do homem poderia suportar até que as frequências fundamentais ficassem brutalmente cravadas na sua alma:
[Voz do E-mail] — "JASON, VEM CÁ AJUDAAAAR....!!!" — [grito de desespero].
O homem salta de sua cama e cai certeiro no chão vermelho como quem tivesse escutado um lamento vindo direto do inferno. Com o choque pelos gritos que teve de ouvir, o impacto fez com que o aparelho telefônico de Jason caísse no piso e seu coração quase estourasse de seu peito. Seu olhar era pior que a um sequelado em meio a um bombardeiro de guerra. Apavorado, Jason percebeu que essa voz lhe era familiar. Ainda tonteado e com as mãos trêmulas, o homem saca de seu celular e reproduz novamente o arquivo de áudio, dessa vez em volume baixo. Parando para prestar atenção, o homem imediatamente se lembra da voz feminina que foi enviada ao seu e-mail e rapidamente liga os pontos que faltava para ter certeza de que os gritos que ouvia, era de quem já conhecia.
[Jason] — "...Vega..." — [levanta-se com sebo nas canelas].
O homem intercepta os poucos objetos que tinha para realizar os trabalhos e ranca-se ligeiro pés à frente para fora do quarto avisar a Magal sobre o que havia escutado. Não daria mais tempo de seguir com o plano que ele, o ruivo e Katley, havia planejado em um primeiro momento. Quando Magal vê o homem, o sujeito parecia um peru despenado fugindo da Ceia de Natal:
[Jason] — "Acabou o nosso prazo...!" — [cruzar de mãos paralelas].
[Magal] — "O quê?" — [feição de entranhamento, com braços cruzados]
[Jason] — "Acabei de receber um pedido de socorro de Vega. Pegue o que tiver e suba na moto...!”
[Magal] — "Como é que é?" — [espanto].
[Jason] — "Você ouviu, cata suas coisas e suba na moto! Agora!" — [senta-se no veículo].
Ambos os amigos, caminham apressadamente até o local próximo de estacionamento.
[Magal] — "Calma aí, mas e a Katley, e o nosso plano??"
[Jason] — "Não dá tempo, cara, o que tiver que avisar, a gente avisa na estrada, e o que tiver que comprar, a gente para pra comprar! Sobe!" — [ordena com a cabeça].
[Magal] — "Tá, mas me explica melhor que áudio foi esse que Vega enviou...!" — [braços estendidos para baixo].
[Jason] — "PEGA suas tralhas e sente este RABO no banco da moto, caralho! VAMBORA, PORRA!" — [ordena enquanto gesticula].
[Magal] — "Vou pegar minha bolsa, só um minuto...!"
Enquanto corre velozmente para capturar sua bolsa cheia de pertences, Eksênia escuta os gritos vindos de fora do Posto de Gasolina e decide verificar o que está havendo. Não tendo espaço para fazer perguntas, a mulher apenas fica muda diante da pressa de Magal.
[Magal] — "Eksênia, cuida do posto, eu tenho que ir...!" — [dispara em retirada] — "Olha a minha agenda...!" — [voz distante].
Magal salta rumo ao banco da sofisticada motocicleta e ambos os amigos saem cantando pneus pela longa estrada escura e vazia do local entre a Área 51 e o meio do nada de Nevada.
----------------------18H20.
BREU NA ESTRADA---------------
[Magal] —
"Vamos ter que achar um trem-bala perto!"
[Jason] — "É claro que nós vamos achar um trem-bala, é pra lá que eu estou indo! Segura aí!" — [manobra a motocicleta em alta velocidade].
Caminhando a passos apressados, Eksênia encontra logo em cima da bancada, uma agenda verde escura deixada por Magal. Dentro de suas páginas, estava um dos trezentos números de telefone de Titane. O mais atualizado, estava no topo da lista. A mulher efetua a ligação e ativa o modo "BLOCK" para evitar interceptações.
[Eksênia] — "Katley, oi. É a Eksênia. Tivemos uma emergência aqui. Magal e Jason saíram às pressas do K7 e acho que isso tem a ver com o resgate de Vega."
[Pausa de alguns
segundos]...
[Eksênia] —
"Não gostaria de dizer isso, mas acho que agora vamos precisar do
Thelonius aqui no posto. Agora." — [olha para o lado pensativa].
.
.
.
-------------------09h50
DA MANHÃ. BREVE CALMARIA----------
O belo terno branco com flores róseas
estava cautelosamente sendo dobrado pelas mãos de Palwari. Gentil e cuidadosa,
a mulher não deixava amarrotar um único tecido que caísse em seus braços.
Disso, incluía o terno que Vega usou em seu corpo na noite anterior. Sua bela
roupa florida em particular, era de um tecido de alta sofisticação e um
presente que foi dado para a jovem SH. Em meio a tanta beleza e cuidado vindo
daquele imenso quarto milimetricamente higienizado, uma enorme e oportunista
barata vermelha aparece subindo pelo corpo da SH, que sob feição de
estranhamento, logo a repele com um certeiro tapa que a faz colidir contra o
límpido piso. O animal imediatamente se despista rumo à fresta da porta.
[Palwari] — [suspira sob leve riso] — "Estão suplementando insetos..."
Após uma tórrida noite de amor com sua amiga conterrânea, agora na forma masculina, Vega apenas confabulava em baixos ruídos de sua voz enquanto mergulhava nos seus sonhos mais profundos. O rapaz dava tremeliques. Parecia estar imerso em uma guerra espiritual enquanto sonhava. Palwari, disposta e alegre, fita Vega dormir enquanto exibe um sorriso de contentação pela sua amiga, que estava sob o sexo oposto. Se deparando com um estonteante vestido azul royal que havia sido disponibilizado para Vega, Palwari se mostrou encantada pela sua costura e molde. Pena que nenhuma dona se dispôs a vesti-lo.
No corpo de Palwari, abrigava a sua predileta marca da linha de lingeries que comprava com certa frequência. Diferente de muitas, as peças de roupas não eram tão extravagantes e valorizava o corpo da mulher. Depois de preparar as vestimentas, a donzela de cabelos róseos saca de um pequeno sino dourado que guardava em sua bolsa, uma cortesia da casa para utilizar como despertador. A moça vira-se com o sino mirado em direção ao rapaz, e com um único toque, seus sons provocam o despertar de Vega.
[Vega] — [Leve sobressalto, abrir de olhos] — "....Pal..." — [se estica] — "que horas são?" — [voz soprosa].
[Palwari] — "Dez horas... Dormiu bem?" — [aproxima-se da cama com uma peça de roupa na mão e projeta-se à frente sob um sorriso simpático].
[Vega] — "Ah... queria ter dormido mais um pouco..." — [feição cansada].
[Palwari] — "Hoje tem reunião às cindo horas, não pude deixá-lo descansar mais." — [volta seu corpo para trás e dobra uma camisa] — "Além disso, nós temos que terminar de planejar a nossa fuga daqui o mais breve possível. Sinto que as coisas podem piorar e não quero ser mandada pra Espanha."
[Vega] — "....Espanha...? Você diz... outro país?" — [olhar derrubado].
[Palwari] — "Não escutou pelas paredes?" — [finaliza as roupas] — "Ashley quer nos enviar para a Espanha até o final desse ano. Se nenhum dos seus amigos vierem nos resgatar, vamos ter que sair daqui de um jeito ou de outro." — [semblante sério].
[Vega] — "Eu não parei pra ouvir... Ah... não acredito nisso." — [desliza lentamente a mão em seu rosto].
[Palwari] — "Pois acredite. Ela vai recrudescer a nossa prisão. Se isso continuar assim, vamos parar na Arábia Saudita...! Estou achando que terei que quebrar o pescoço dela e concretar o corpo em algum lugar."
[Vega] — "Era pra eu estar resgatando a minha mãe e estou perdendo tempo com nessa palhaçada..." — [ergue-se com lentidão para ficar sentado sobre a cama] — "Já não basta tudo que essa mulher me sugou..." — [feição de nojo de desalento].
[Palwari] — "Hey...!" — [estala os dedos] — "Recomponha-se. Lembre-se de onde você veio. Não iremos sair daqui se ficar se lamentando. Nada de desânimo." — [olha para o lado] — "Mais do que nunca agora vamos ter que usar a força bruta."
[Vega] — "Está se esquecendo do oceano de aparelhos elétricos onde estamos..."
[Palwari] — "Sim, mas todo aparelho um dia estraga. Só iremos descobrir um jeito de fazer com que o está na nossa nuca fique obsoleto mais rápido." — [voz discreta, quase em sussurro].
Mesmo sob incentivo de Palwari, o semblante de Vega parecia afundar cada vez mais que tivesse que escutar previsões ruins sobre seu futuro. A mulher, se abala em feição de tristeza.
[Palwari] — "Oh, Vega." — [deposita seu corpo gradativamente abraçada sobre Vega, que amolece perante os braços de Palwari] — "Vai dar tudo certo..."
[Vega] — "Será que podemos transar só mais uma vez? Estou tenso por conta do que pode acontecer nessa reunião..."
[Palwari] — "Contra você ela não pode fazer nada." — [fita o amante].
[Vega] — "Não é comigo. Eu tenho medo pela Simone. E por você também..."
[Palwari] — "Eu sei lidar com ela. Tenho bons contatos aqui, isso vai me manter com costas quentes e deixar a Simone longe de conflito."
[Vega] — "A Ashley não liga pra isso. Se ela decidir que quer matar alguém, ela simplesmente mata."
[Palwari] — "Um dos SH's que trabalha como garçom é meu amante e amigo próximo de Ashley. Pelo menos no momento, a bruxa maligna tem alguma consideração por ele."
Ambos os amantes se afastam sutilmente um dos outro e se sentam na cama.
[Vega] — "Quando pretende fugir?" — [feição aflita e séria].
[Palwari] — "No próximo evento que nos enviarem. Não vou perder mais um segundo aqui..."
[Vega] — "E o Owen?"
[Palwari] — "Owen não quer largar o serviço. Tem contrato de fidelidade. Se fugir, é escravizado e morto pela empresa."
[Vega] — "...Deus..." — [aflito].
[Palwari] — "Meu peito dói ao dizer isso, mas parece que vou ter que esquecê-lo..." — [feição amarga].
[Vega] — "Ainda dá tempo de salvar ele e a Simone. Podemos tirá-los daqui na surdina."
[Palwari] — "Muito difícil isso acontecer... eles também possuem um chip de rastreamento, só que dentro do coração. Teríamos que destruir os aparelhos celulares daqui ou inutilizar os chips. E sem um mapa, é muito difícil sair da Central."
[Vega] — "Eu já tentei fugir daqui uma vez pulando o muro de ferro que fica em frente ao mar. Eu lembro onde é o outro lado. Tem bancas de revista de onde eu fui abatido. O mapa não será problema."
[Palwari] — "Queria ter tido a chance de fugir assim também... mas eu seria entupida de balas de AR..." — [desmancha sua face em decepção].
[Vega] — "Eu só não fui morto porque Ashley me quer vivo. Enquanto eu for útil, ela não vai deixar os guardas me abaterem. O capuz que eu usei me ajudou a escapar na maior parte da estrada sem ser detectado. Isso pode servir de escudo para o Owen e a Simone..."
[Palwari] — "...O capuz..." — [aponta para Vega] — "O que você usou para fugir daqui uma vez..."
[Vega] — "É o capuz bloqueador de sinal. Ele impede a detecção dos aparelhos..."
[Palwari] — "Onde você comprou?"
[Vega] — "Na casa de banhos... ao lado da sauna."
[Palwari] — "E como você pagou?"
[Vega] — "Foi com 3kg de carne da minha perna e minérios... ele ainda disse que tenho direito de pegar mais se eu quiser."
[Palwari] — "Esse lugar fica no bairro oriental?"
[Vega] — "Sim. Foi lá próximo dos escombros e contêineres que encontrei a Dotty morta. Em um bunker, abaixo do piso de concreto." — [semblante sério].
[Palwari] — "...Então é por isso que você está com medo... a chantagem que fez contra Ashley por conta da Dotty..." — [receio].
[Vega] — "Sim, mas isso não vem ao caso agora... Precisamos encomendar quatro capuzes e sair daqui em segurança. Temo pelo que Ashley é capaz de fazer."
[Palwari] — "Irei olhar isso hoje..." — [olhar de canto, pausa] — "Espere qualquer coisa dessa reunião, Vega. Em algum momento teremos de partir pra cima de Ashley e Winston..." — [olhar sério].
[Vega] — "..." — [olhar de preocupação].
Sem esboçar uma única palavra, Palwari olha no fundo dos olhos de Vega, e através de um único dispositivo ao lado de seu amante, desliga todas as luzes do imenso quarto dourado e fecha todas as cortinas e janelas, deixando ligado somente os micro ares-condicionados. Somente as silhuetas escuras de seus corpos fundindo um ao outro podiam ser vistos.
----------------127º
ANDAR. LUXUOSO TERRAÇO. MESA CENTRAL, POLTRONAS E SOFÁS. 17H00 DA TARDE.
REUNIÃO DAS MODELOS. FORTE LUZ SOLAR -----------------------
Feixes de luz à céu aberto
escancara beleza assustadora do mais alto edifício já construído naquela época.
Todo pelas mãos de escravos modernos. Tudo à custa de dor e exaustão. Se
pudesse conjeturar do que cada pedaço daquela magnânima opulência seria feito,
eu diria que aquela montanha é forjada por uma longa trilha de sangue.
De clima gélido e luz solar de forte presença no negrume Terraço, nenhuma das taças exibiam barreiras. Apenas o fulgor do doce vinho derramando sobre cada uma delas. Das duas portas douradas de cinquenta metros de altura, partiam duas fileiras de mulheres, cada uma delas destinada a um dos sofisticados sofás aveludados, com direito a escrivaninhas, um bombom, uma máquina de cafés e um cálice de bebida. Cada um dos passos de seus nobres sapatos sequer emitiam sons sobre o piso negro.
À medida em que as moças se posicionavam nos assentos, vários garçons as serviam com frios de entrada para saborearem junto aos espumantes. Um deles, era um SH. Um homem alto, forte, pardo, cabelos castanhos claros, olhos verdes de poção, traços finos e de semblante imponente. Vega rapidamente o reconheceu pelas suas distintas características. Enquanto servia as mulheres, os dois trocam um breve momento de olhar. Como conterrâneos que eram, a comunicação silenciosa ficou muito clara entre os dois. Assim como Vega, o homem também mantinha um dispositivo em sua nunca, na qual uma vez que é colocado na pele, nem uma alma viva consegue tirá-lo naquele lugar. Tal como a capturada, o homem planejava desaparecer dali, mas não podia quebrar as ordens.
Palwari nota o movimento do Super-Humano e degusta lentamente a taça de espumante em suas mãos. A mulher de cabelos rosê observa o comportamento do grupo de Sandra Bella. A severa modelo encara Palwari sob uma feição desafiadora, o que de modo algum intimida a conterrânea de Vega. Atrás da SH estava Simone, discretamente posicionada um pouco atrás das cortinas douradas e escondida da luz do sol, no intuito de ser o menos notada possível. Estava temerosa de que fosse se tornar um alvo da punição da Casa para servir de exemplo, já que a moça não era uma "privilegiada". Já Sandra Bella, sequer estava preocupada com sua segurança. Bebia e se mantia em evidência para chamar mais atenção dos líderes do que as outras mulheres. Palwari vira seu rosto para trás e sinaliza positivamente para a amiga a fim de tranquilizá-la. Pega em uma de suas mãos para lhe prestar apoio. Simone responde com um rápido balançar de cabeça.
Winston, o Chefe da Underground e principal líder político da Zona Dilworth, nada parecia satisfeito com a postura das moças de sua Gaiola de Ouro. Ao seu olhar, pareciam desleixadas, folgadas e sem propósito. Vega, matinha os olhos bem abertos para o sujeito que estava a alguns metros de distância dela. Winston percebe a sutil ameaça da Transmorfo e deixa escapar um discreto e acidental sorriso enquanto desfrutava de sua melhor bebida. O garçom que Vega havia encarado é abordado por uma das seguranças da Boate, que lhe pronuncia algumas palavras próximo de seu ouvido. Loura, cabelos em coque, de terno preto e olhos azuis, seu rosto estava parcialmente tampado por uma máscara preta.
Fortemente armada com uma AR em suas mãos e cobertas de luvas pretas, Vega tem a sensação de já tê-la conhecido em algum momento. Quando estava prestes a fazer o reconhecimento do rosto da mulher, a moça escuta passos familiares próximo à entrada do Grande Terraço.
Ashley, aparentemente regozijada com a pressão que submeteria suas escravas, ousa em sua melhor roupa e caminha audaciosamente sobre Terraço até a sua cadeira mais próxima de seu Superior Hierárquico. O homem cumprimenta gentilmente sua sócia, carro-chefe e braço direito de sua empresa.
Sandra, Vega, Pal e Simone, fixam seus olhos e ouvidos atentamente para o próximo discurso que viria anteceder à punição contra as modelos, que a princípio, iriam ser penalizadas em conjunto pelo incidente ocorrido na Parabellum.
[Winston] — "Bem... Eu irei poupá-las do meu costumeiro monólogo de 15 minutos acerca da história desta Casa e da origem da Zona Central, porque sei que nenhuma de vocês irão escutar... Sim, eu reconheço, eu falo demais." — [cede um sorriso].
[Olhares
sobressaltados. Bocas entreabertas].
[Winston] —
"Mas de forma resumida... A Central foi criada por um homem nomeado
'Marcus Dilworth'." — [deposita a bebida na taça] — "Minha sócia,
Ashley, é descendente direta de Marcus. Diferente de muitos homens, Marcus
tinha o sonho de construir uma sociedade livre." — [sorve a taça] —
"Uma comunidade onde todas as interações humanas se baseassem em trocas
voluntárias, e que cada cidadão tivesse o livre acesso a todas as ferramentas
necessárias para o desempenho de suas atividades. Livre acesso à tecnologia,
banco de dados, armas, equipamentos de medicina, de laboratórios, poder de criar
e comercializar... liberdade para vender o que quiser e quando quiser,
desburocratização das atividades hacker, e um entendimento inédito de que o ser
humano é plenamente capaz de responder por si mesmo, desde o momento em que ele
aprende a falar e raciocinar..." — [mira a sua taça de vinho para as
garotas, em fala progressiva].
Vega, sob olhos azuis escuros e coberta com o vestido azul royal pela qual havia sido confeccionado para si, percebe que o líder da Underground estava a mirando como possível alvo de sua reprimenda. Palwari suspira ao notar que Vega e Winston, estavam tendo uma interação subliminarmente agressiva. Ashley, só aprecia o momento.
[Winston] — "Para não me estender demais... Marcus temia o rumo que a América estava tomando quando uma Ditadura estava começando a se instalar nos confins da Casa Branca. Muitos Estados resistiram a esse regime autoritário, mas somente poucos conseguiram se manter de pé." — [deposita mais vinho sobre a taça] — "Quando Marcus criou a Central, ele já tinha tido seus pais trancafiados em um presídio de Guantânamo por questionarem o presidente da República da época. Ele sempre dizia que uma sociedade ultraliberal é muito diferente de uma sociedade sob desordem." — [reforça] — "Um regime ultra liberalista não deve ser visto como um regime ultra libertino, porque até mesmo em uma comunidade liberal, regramentos mínimos devem ser seguidos para que uma civilização não se transforme em uma barbárie." — [sorve a taça] — "Tudo nesta comunidade deve ser pautada em pelo menos três princípios:" — [enumera] — "o Princípio da Não Agressão, o Princípio do Embasamento Real, e do Direito do Revide ao Agressor".
Vega direciona seus olhos para Palwari, que percebe a sinalização da conterrânea e se posiciona sob precaução para caso tenha que entrar em combate. A moça fita a arma de fogo da segurança loura, e uma garrafa de vidro logo atrás da mulher. Vega tranca seus punhos e mira um deles para onde poderia alcançar a arma restrita, uma vez que poderia produzir ossículos de propulsão similar ao impacto de uma mini submetralhadora.
[Winston] — "O primeiro princípio, é o que mais foi atacado quando o nosso maior evento anual foi palco de brigas generalizadas, iniciadas, é claro, pelas duas Senhoritas: Vega e Sandra Bella." — [aponta para as moças].
As duas modelos miram atentamente o seu olhar para Winston. Sandra Bella, indignada com o apontamento, exibe feição colérica em seu rosto, momento em que bruscamente se levanta para desafiar o Líder da Zona Dilworth. No entanto, antes mesmo que destilasse impropérios pelos quatro cantos do Terraço, a mulher é imediatamente pega pelo braço por Donna, que a puxa de volta ao assento aveludado. Desconfiado da conduta da mulher, Winston se silencia por alguns segundos antes de prosseguir seu discurso.
[Winston] — [momentâneo olhar severo] — "...Quando Vossas Senhorias armaram aquele espetáculo na Parabellum, vocês não só prejudicaram os nossos negócios como também nos impuseram consequências jurídicas muito sérias." — [interrompe sua fala para fumar] — "Oitocentos milhões de dólares foram só o que utilizamos para pagar os nossos sessenta advogados... que aliás!" — [aponta o dedo para cima] — "O dono do escritório é um SH, igual a ti, Vega." — [sorri].
Vega, escutando cautelosamente o sermão que lhe era direcionado, mantém olhar entreaberto, franzindo as sobrancelhas. Já Sandra Bella, esboçava o olhar saltado enquanto cuspia fogo pelas ventas.
[Winston] — [breve sorriso] — "...Agora, eu pergunto para as duas que estão me olhando com essas caras de raiva:" — [pausa] — "quem vai pagar pelo prejuízo?" — [ergue os antebraços] — "...Será que eu deveria punir todas as modelos?"
[Sandra Bella] — "Isso é ótimo... que tal demitir logo todas elas?" — [diz em alto e bom tom enquanto exibe um sorriso].
Vega destila um olhar de desdém para a sua rival enquanto tem uma noz entre os seus dedos.
[Winston] — "Cale a boca que eu não terminei!" — [silencia a mulher].
Constrangida pela admoestação, Sandra cruza os braços em resposta e se encosta sobre o assento. Uma breve pausa de alguns segundos é feita pelos presentes. Winston, finalmente se levanta de sua cadeira e apoia suas mãos sobre a mesa escura:
[Winston] — "... Quem irá pagar pelos prejuízos causados à Parabellum?"
[Vega] — "Humpf... Eu, pelo visto." — [decepção e desdém].
[Ashley Dilworth] — "...Vega...!" — [travar de lábios feição enfurecida].
Captando o desaforo e sarcasmo da Transmorfo, o homem mira gradualmente a sua atenção para a rebelde.
[Winston] — "...E por que tem tanta certeza disso, Vega?"
[Vega] — "O Bode Expiatório sou eu. É claro que a conta vai cair pra mim." — [cruza os braços].
[Winston] — "Ah...” — [feição irônica] — “Um bode expiatório que mantém conexões com um espião?" — [levanta um dos braços].
Winston exibe folhas das páginas do polêmico jornal de imprensa Novaiorquina no intuito de constranger Vega. A moça, no entanto, não se mostra tão surpresa.
[Vega] — "Espião?" — [nega com a cabeça] — "O rapaz era um comprador. Ashley armou pra Bella pra me ferrar." — [aponta energicamente para a Chefe enquanto exibe raiva em seu rosto].
[Ashley Dilworth] — "Víbora mentirosa! Prova que fui eu quem armei esse circo!" — [furiosa, aponta o dedo para Vega].
[Vega] — "Prova VOCÊ, Ashley!" — [aponta para a carrasca] — "Armou uma matéria fake pra me ferrar com a Bella! Há muito tempo você já sabia que essa mulher me detestava!"
[Ashley Dilworth] — "Ah...! Mas quem era a pretendente do dito cujo 'Jason' é VOCÊ!" — [aponta fortemente para a Transmorfo] — "Faz MESES que vocês trocam olhares e mantém contato um com o outro...!" — [múltiplos estalares de dedos] — "Ou você acha que as câmeras de segurança não mostram?"
[Vega] — "Isso não prova nada. Se está tão insatisfeita com a minha estadia, rompa meu contrato e me mande embora..." — [feição de aborrecimento].
Para tirar proveito da posição desprestigiada de Vega, Sandra Bella dança sobre a sua caveira.
[Sandra Bella] — "Eu tenho uma ideia melhor... libera todas as modelos e deixe somente Vega para trabalhar na Casa." — [sorriso de satisfação].
[Vega] — [Revirar de olhos] — "Tenha uma vida, minha filha..." — [cruza os braços].
[Sandra Bella] — [Mostra o dedo do meio] — "Fale por você, amadora..."
[Winston] — "Senhorita, não tente insultar a minha inteligência porque você não tem nenhum poder de decisão aqui na Underground! O que vocês duas fizeram naquele evento é um atentado a vidas naquele estádio." — [aponta para Bella].
Em um ato explosivo, Sandra Bella se levanta e aponta seu dedo indicador para Winston várias vezes.
[Sandra Bella] — "Atentado é vocês nos colocarem na geladeira enquanto só uma modelo se destaca! Tenham a decência de pelo menos nos enxotarem daqui ao invés de nos deixarem assistindo essa aberração tomar TODOS os nossos espaços!" — [aponta para Vega].
Cansada de ter raiva de sua algoz, Vega suspira sob o mais puro semblante de exaustão antes de retrucar à provocação de Sandra:
[Vega] — "Se quer se demitir, faça isso logo de uma vez, Sandra... Você nem é vinculada." — [desdém no olhar, braços cruzados].
[Sandra Bella] — "Não pedi sua opinião, escrava..."
[Vega] — "Não teria pedido se não tivesse aberto seu raio de boca pra me torrar a paciência...!" — [afasta seus braços e apoia suas mãos sobre o sofá de forma enérgica].
[Sandra Bella] — "Trapaceira."
[Vega] — "Invejosa."
[Sandra Bella] — "Aberração."
[Vega] — "Feiura ambulante."
[Sandra Bella] — "Alien imunda."
[Vega] — "Frustrada."
[Sandra Bella] — "Vagina falsa."
[Vega] — "Mama torta."
[Sandra Bella] — "Vadia sem rosto!" — [olhos arregalados].
[Vega] — "Zé coitada!"
[Sandra Bella] — "Farsante golpista!"
[Vega] — "Vitimista fracassada!"
[Sandra Bella] — "Sebosa!"
[Vega] — "Gene ruim!"
[Sandra Bella] — "Sem dignidade!!" — [aumenta o tom de voz].
[FORTES SONS DE
BANGALA BATENDO SOBRE A MESA]
[Winston] —
"Cheeegaaa...!!!" — [sua voz ecoa todo o terraço e Winston bate na
mesa várias vezes] — "Será que eu posso terminar minha fala sem que vocês
duas se matem no meio do caminho?!" — [exalta a voz].
Todo o ambiente se silenciou e os rostos se miraram para Sandra e Vega, em tom de censura e desprezo. Com exceção de Palwari, todas as presentes aguardavam para que ambas as modelos se colocasse em seus devidos lugares. Sandra, finalmente se acomoda em seu luxuoso assento depois de depositar toda sua raiva contra a Transmorfo. A moça de olhos azulados, porém, ainda mantinha toda a sua indignação enclausurada dentro de si, o que não poderia ser resolvido se não fosse especificamente naquele momento. Uma pausa de alguns minutos é feita por todos os presentes.
[Vega] — "...Eu vou falar." — [levanta uma das mãos esmaltadas].
[Winston] — [Forte suspiro] — "...E o que você quer falar agora, Vega?"
[Vega] — "Com todo respeito, Winston, o que você, Bella e a Ashley fazem comigo é covardia!" — [aponta para o líder].
[Winston] — "Covardia??" — [indaga Vega].
[Vega] — "Éh! Covardia!" — [protesta] — "Não sei se o Senhor lembra, mas sua sócia me sequestrou e roubou dados da minha íris pra me fazer assinar um 'contrato' leonino contra a minha vontade!" — [aponta para si].
[Winston] — "Eu não sei se a Senhorita está cien..." — [brusca interrupção].
[Vega] — "E DEPOIS!" — [aumenta a voz para intimidar o homem] — "Ela me fez trabalhar prometendo que se eu pagasse uma suposta dívida por espionagem e invasão de território, eu sairia daqui sem nenhuma pendência para a Underground! E agora, além de ser forçada a trabalhar ad eterno, eu ainda tenho que ser HUMILHADA?!" — [aponta o dedo para Sandra Bella] — "Por uma mulher reacionária que acha que eu quero tomar o poder dela?!" — [feição indignada e furiosa] — "Por uma carrasca que explora meu corpo ao MÁXIMO e me inferniza a cada dois minutos?!" — [mira para Ashley] — "Que troca justa é essa?!"
[Sarah] — "Cara, não discute...!" — [antebraços em súplica, tenta interferir].
[Vega] — "Cala a boca, Sarah!" — [em reposta brusca, vira-se para a mulher].
Em choque, a mulher se mostra ultrajada e constrangida com a maneira de como Vega a tratou na frente das mulheres. Com um sinal de "positivo", a moça balança a cabeça e exibe decepção em seu semblante. Em resposta ao ato de Vega, Sandra se levanta em cólera para defender a amiga.
[Sandra Bella] — [bate com força na mesa e se levanta] — "Você não fale dessa forma com a MINHA AMIGA, sua marginal intergalática...!" — [fala sob ranger de dentes].
As duas mulheres se aproximam perigosamente uma da outra.
[Vega] — "Você não cansa mesmo de apanhar, né minha filha?" — [sorriso de satisfação].
Sob risco de escalar uma agressividade generalizada, Palwari, Donna e a segurança loura, imediatamente interferem no atrito. Enquanto a SH de cabelos róseos segura Vega, Donna agarra-se aos braços de sua amiga e a virar fortemente para longe da Transmorfo. A profissional mascarada lança mão de uma advertência por meio da exibição de sua arma de fogo restrita, artefato temido pelos Super-Humanos.
[Segurança] — "As duas, calem a boca e sentem nos seus lugares. Já." — [mira a AR para as duas modelos] — "Especialmente você, Vega. Vive caçando brigas na Boate." — [olhar de reprimenda].
[Vega] — "Ah, qual é!! Foi ela que começou...!" — [feição de raiva e frustração].
[Segurança] — "Sente-se, já!" — [ordena].
Sandra Bella imediatamente se recolhe, de mãos miradas para cima. Já Vega, é empurrada contra o sofá pela segurança por meio do cano de sua arma restrita. A forma brusca com que foi compelida, atiçou um olhar furioso da mulher. Neutralizado o conflito, o líder da Zona Dilworth prossegue seu discurso, dessa vez, direcionado para Vega.
[Winston] — "...Sabe, Vega? A Senhorita acha que pode vir aqui e sobrepujar a todos ao seu redor por conta de sua vantagem biológica." — [gesticula] — "Mas se Vossa Senhoria não está ciente de um importante detalhe na sua vida, eu vou lhe dizer: você... não é... cidadã." — [aponta paga Vega].
De rosto fechado, Vega escuta atentamente a fala de Wiston sob uma discreta respiração ofegante de raiva.
[Winston] — "Quando a Senhorita, na condição de Tutelada, resolveu participar de uma invasão territorial coordenada pela sua família substituta, já assumiu o risco de ser capturada e colocada para SERVIR à Central. Aqui você não verá igualdade ou democracia para Super-Humanos."
[Vega] — "Pelo visto não está pior que a Constituição Americana..." — [feição de desdém].
[Winston] — "Não, não está. Está melhor. O Governo Americano sabia muito bem com que estavam se metendo quando SH's embarcaram neste planeta, e não seremos tão idiotas a ponto de nivelar Super-Humanos com a população americana. Não nessa vida. Você pode até ter sido considerada uma sujeita de direitos na SUA TERRA. Mas aqui na América, Super-Humanos não possuem os mesmos direitos fundamentais, mas sim, são nossos Tutelados. E no que depender de mim, vocês irão continuar... não sendo... cidadãos." — [aponta para si mesmo sob fala pausada].
[Vega] — [leve riso] — "...Até você virar um de nós, né Winston?" — [feição irônica].
[Winston] — "Talvez... Se minha relação com você não resultar em prejuízo para mim ou para os humanos terrenos, talvez flexibilizemos as regras." — [braços afastados, mãos sobre a mesa] — "Mas enquanto a existência de SH's na Central for um risco de massacre, nós continuaremos a tratá-los como bem merecem serem tratados: como serviçais." — [movimento vertical linear com uma das mãos].
Palwari, já injuriada de ter de ouvir o discurso de Winston, se retira momentaneamente do centro do terraço para dar uma volta pelo gramado. Vega fecha os olhos e exala uma forte respiração enquanto se dá conta de onde havia sido encarcerada.
[Vega] — "...Certo... e a tal 'dívida' que essa megera do seu lado tanto bateu na tecla?" — [feição irônica].
[Ashley Dilworth] — "A dívida perdura enquanto for a vontade da empresa, ternura."
Ao observar o cinismo de Ashley, a raiva e indignação de Vega pouco a pouco vai se escalonando através de seus olhos. Da sua testa, as gotas de suor mais pareciam parte seu cortisol contido no seu organismo no lugar dos minerais. Como forma de amedrontar o braço direito da Underground, Vega lança sua última tentativa para convencer o Líder da Central de sua expulsão da Casa:
[Vega] — "E se eu revelar o seu segredo, Ashley?" — [pausa] — "Será que vai mesmo continuar me mantendo aqui sabendo que posso arruinar sua carreira?" — [olhar de raiva].
De forma inusitada, Ashley ri da ameaça de Vega. Quando a Transmorfo menos esperava, sua algoz exibe uma estranha tranquilidade pela qual não esperava, uma vez que a tragédia ligada a uma menina de treze anos também poderia trazer estragos à imagem da empresa. Apesar da provocação direta, Ashley nada diz para sua capturada. Cruza os braços e mantém uma postura triunfante.
[Vega] — "Qual é a graça? Eu tenho você pelo seu pescoço, está lembrada?" — [sorriso debochado].
[Winston] — "Tem pelo pescoço a quem, sua anta? Você acha que ninguém aqui sabe quem é Dotty? Aqui não é Nova York, minha filha."
Vega se mostra espantada com a resposta do Líder.
[Winston] — "Não temos leis que acobertam garotas estúpidas que se metem aonde querem e depois não enfrentam as consequências. Nós não matamos ela, tão pouco obrigamos ela a estar aqui." — [ergue a palma das mãos] — "Se quiser contatar um dos seus espiões para espalhar a notícia, fique à vontade." — [bate as mãos em sentido oposto] — "Ninguém vai te levar a sério."
[Vega] — "Como explica o corpo dela debaixo do concreto perto da Casa de Banhos? Somente seus seguranças particulares têm acesso ao depósito de lixo."
[Winston] — "Nossos seguranças não têm nada a ver com essa garota. Vossa Senhoria não é investigadora e não pode acusar nenhum de nós de matar a Dotty!" — [feição de desdém].
[Vega] — "Verdade, não sou investigadora. Mas e o FBI? O que eles achariam disso? Vai alegar a soberania legal a eles também? Se Dotty era menor de idade quando veio aqui, então a empresa é responsável por ela."
Ao se defrontar com a postura desafiadora da Transmorfo, os traços faciais do homem se convergem de uma expressão serena e orgulhosa para um semblante de ódio e repugnância. O efeito de seu ato atingiu o ponto mais fraco dos dois carrascos. Ashley desfaz o seu sorriso vermelho e descruza seus braços. Aporrinhado pela postura petulante de Vega, o homem levanta-se à mesa sob forte colisão de suas duas mãos, retirando por debaixo desta, uma arma de fogo restrita de proporções robustas e demasiadamente pesada para quem a carrega. Seu disparo, obliterava qualquer forma de vida que estivesse à frente dela, incluindo os átomos das criaturas mais microscópicas.
O homem caminha lentamente até a mulher de modo ameaçador, um ritual que costumava seguir para neutralizar seus prisioneiros mais rebeldes. Todas as mulheres ao redor do Terraço começaram a se mostrar apavoradas e se mantinham cada vez mais afastadas de Vega à medida em que o Líder da Zona Dilworth se aproximava da moça. Temerosa pelo destino de Vega, Palwari tenta interferir na conduta de Winston, sem sucesso. Ao perceber a proximidade da conterrânea de Vega, o homem não hesita em adverti-la:
[Winston] — "Não se atreva, Palwari." — [mira a arma de fogo contra o peito da SH].
Assustada, mas injuriada com a reação do Líder, Palwari esboça em seu rosto o desejo que nutria por estrangulá-lo. Como a segurança loura estava por perto, ambas as amigas estavam de mãos atadas. A pobre Simone, mantinha suas mãos contra sua boca para não gritar de desespero. Sem muito o que fazer devido ao dispositivo em sua nuca, Vega apenas acompanha cautelosamente o movimento de Winston. A moça verifica a arma da segurança e volta a fitar as mãos de Winston. Como sabiamente tinha ciência dos reflexos de Vega e traduzia cada manobra da Transmorfo, o Líder da Zona Dilworth se precaveu de se manter excessivamente perto da mulher. De maneira afastada, mas com o cano da arma mirada diretamente em seu rosto, Winston lança seu último aviso:
[Winston] — "Saiba que eu só não estourei seus miolos com essa máquina que está nas minas mãos por muita insistência de Ashley. Você pode até ter a sorte de fugir daqui viva e tentar nos denunciar aos Federais, mas no que depender de mim, Vega... toda a Central vai caçar você e seus colaterais até inferno. E acredite, eu conheço TODA a sua família. Inclusive aquela que você tanto procura aqui na terra." — [fixa o olhar em Vega].
Tal revelação devastadora do Líder da Central para Vega, a faz gelar da espinha até o último átomo de seus ossos. A última coisa que jamais queria nem nos piores pesadelos, era ver a sua mãe morta, e de forma tão vil e estúpida. Winston tocou justamente onde a mulher jamais esperaria. Seu olhar se modifica e seu rosto se ameniza diante da fala brutal.
[Winston] — "Portanto, eu vou te dar um último aviso: o que acontece com as modelos daqui, não... te diz... respeito. PONHA-SE no seu devido lugar." — [fala gradual].
Ambos os inimigos olham profundamente nos olhos um do outro. Veja lança mão de um ato de diplomacia:
[Vega] — "Então da mesma forma vocês dois... Já que o caso Dotty não diz respeito a mim, então o que ocorre entre mim e Jason, também não diz respeito a vocês dois. Não podem me acusar de espalhar difamação contra nenhuma das modelos daqui porque não existem provas. Dessa forma, ninguém acusa ninguém." — [responde cautelosamente a Winston].
[Winston] — "Justo." — [satisfeito, abaixa a arma de fogo].
Conquistado o objetivo pretendido, o homem exibe um sorriso de satisfação e faz o retorno oposto direto à sua mesa negrume, local de onde aguardava contentemente a sua sócia, que com um brilhante sorriso no rosto, exibia um forte batom vermelho em seus lábios. Ambos os cúmplices trocam algumas palavras enquanto Sandra encara Vega a fim de indagá-la sobre o fatídico incidente contra a sua honra e imagem. As duas rivais se comunicam em voz contida e discreta.
[Sandra Bella] — [Fita Vega] — "E como explica a assinatura do nome dele na matéria? O Jason?" — [voz contida e feição de aborrecimento, olhar de cima e baixo].
[Vega] — "Qualquer um pode colocar seu nome em uma notícia falsa. Você deveria saber disso..." — [olhar de desdém e raiva].
[Sandra Bella] — "Ah, é? Por que não prova então?" — [encara a mulher].
[Vega] — "Quem tem que provar alguma coisa é quem acusa..." — [fita Sandra] — "Agora cala essa boca e curta o momento." — [irritabilidade].
[Sandra Bella] — "Humpf... aproveite bastante seus cinco mil anos aqui." — [sorve uma taça de champagne].
[Vega] — [Pausa. Revirar de olhos].
.
.
.
[05 MINUTOS DE
SILÊNCIO. OLHARES TEMEROSOS. PIADOS DE PÁSSAROS EM TORNO DAS PEQUENAS ÁRVORES.
FLORES DE CORES VIVAS E FORTES].
Após uma pequena troca de palavras
entre os dois sócios, o julgamento estava decidido. O Tribunal de Exceção
instaurado pelos dois proprietários da Underground, já havia estabelecido qual
seria a devida punição para as responsáveis pelo massivo evento belicista na
Parabellum. Os olhares tensos e amedrontados das mulheres eram desnudados pela
forte luz solar da tarde. Os olhos de Palwari, eram os únicos de denunciavam
seu instinto homicida naquele Terraço.
[Winston] — "...Todas, sentem-se."
Todas as modelos se sentam em seus respectivos assentos.
[Winston] — "... Depois de um longo consenso com Ashley, finalmente foram decididas as respectivas punições a serem aplicadas às mulheres responsáveis pelo fiasco que ocorreu na Parabellum." — [balança a cabeça] — "Sim, responsáveis." — [coloca uma caneta sobre a mesa] — "Porque no final das contas, o que estamos discutindo neste julgamento não é a motivação para o desencadeamento de espancamentos coletivos em um evento que era para ser Sacro, mas sim, o ato em si. Independentemente de sua motivação. E aqui então decidimos as seguintes penas..." — [passa a palavra para Ashley].
[Ashley Dilworth] — [Abre um papel digital na forma de um falso pergaminho] — "...Para Vega, sua pena será a transferência para realização de trabalhos pesados em presídio de segurança máxima... na Espanha". — [finaliza].
Tal revelação surpreende Vega de maneira negativa, fazendo a moça pela primeira vez temer ser colocada em um isolamento ainda mais severo do mundo externo. Espantada com a sua pena, a mulher olha para Palwari, que também devolve o mesmo semblante para sua conterrânea.
[Ashley Dilworth] — "E pode ficar feliz, meu anjo, porque se dependesse de mim, você seria transferida para Guantânamo..." — [abre um sorriso].
Palwari fecha o seu rosto em contrariedade. Vega, engole seco. Os rumores de que algumas das modelos seriam transferidas para a Espanha, se concretizou como um gosto amargo na garganta das conterrâneas.
[Ashley Dilworth] — "E quanto a você, Senhorita Sandra Bella..." — [fita a modelo] — "você está rebaixada." — [feição de desdém] — "Você não é mais uma de nossas modelos..."
[Sandra Bella] — [Rompe-se em espanto] — "O quê?!" — [derruba a taça de champanhe].
Sandra recebe a notícia como quem reage a um explosivo lançado bem rente aos próprios olhos, fazendo-a saltar bruscamente do assento de onde estava acomodada. Seu cálice de bebida se quebra no piso negro e os olhos da mulher se inflamam de espanto e indignação. A cada momento de sua ira, uma gota de lágrima derrama sobre seu rosto. A moça se enxuga, e de pé sobre o pavimento e humilhada diante da aterradora revelação, Sandra não pensa duas vezes antes de expelir todo o rancor que havia nutrido pela Ashley.
[Sandra Bella] — "Você está me rebaixando, Ashley??" — [aponta o dedo sob feição de amargura e raiva].
[Ashley Dilworth] — "..." — [mãos paralelas unidas e feição irônica] — "Você ouviu."
[Sandra Bella] — "Eu fui ATACADA pela imprensa marrom que VOCÊ MESMA denunciou, e EU tenho que ser rebaixada?? Se vocês tivesse alguma decência na vida miserável de vocês, teriam me demitido e não me rebaixado!" — [risos de indignação] — "Isso é PIOR do que a pena de Vega!"
[Vega] — "O que é esse rebaixamento?" — [estranhamento].
[Sandra Bella] — "Você não sabe o que é rebaixamento, sua vadia?!" — [furiosa].
[Visão de espanto de Vega].
[Sandra Bella] — "É o banimento de acesso a quaisquer posições de prestígio na Underground, ou na Parabellum, ou na Central! Tá satisfeita agora?!" — [grita].
[Vega] — "Mas como sua punição pode ser pior que a minha? Eu vou me ferrar em um presídio da Espanha..." — [gesticula sob feição despreocupada].
[Sandra Bella] — "Mas vai continuar tendo a vida de RAINHA!" — [tristeza no olhar] — "Vai ter um quarto, um chuveiro, um closet, roupas de marca, joias, uma banheira, um espelho de maquiagem!" — [conta nos dedos] — "Eu vou perder o direito de acesso a TUDO que pode me fazer acender socialmente!" — [aponta o dedo para o alvo de seu ressentimento] — "Nem Nova York, nem nenhum patrão de outro Estado vai me querer com esse histórico no meu currículo...!" — [ofegante].
Vega nada diz diante do impacto emocional de efeito danoso que estava a confrontar Sandra Bella. A Transmorfo, só poderia sentir pesar pela desgraça da rival. Ainda assim, nada a ela diz. Somente a encara nos olhos enquanto se mantinha sentada recebendo todo o veneno. Ashley, serena e contente pelo que havia provocado, senta-se confortavelmente em uma das cadeiras da mesa e cruza as suas pernas.
[Ashley Dilworth] — "Bom, teoricamente quem começou a agredir Vega foi você, querida."
[Sandra Bella] — "Foi VOCÊ que me inflamou contra Vega, Ashley! Não fui eu que fui atrás de saber quem foi que armou contra mim!"
[Ashley Dilworth] — "Isso não interessa, você aprontou um maior escândalo na frente de um monte de câmeras, deu um soco no nariz de uma de suas colegas e manchou a imagem da empresa de forma a NUNCA mais voltar ao que era antes. Portanto a sua pena é demasiadamente justa!" — [aponta as unhas pontudas em direção a Sandra Bella].
[Sandra Bella] — [Olhar colérico].
[Ashley Dilworth] — "E pare de me olhar dessa forma, porque se a Senhorita não se lembra, você apontou uma arma de fogo na MINHA CARA no momento em que tentei impedi-la de ir atrás de Vega. Entrar na Parabellum ou na Underground com uma arma de fogo irrastreável é de uma ousadia atroz, Sandra! Uma traição contra a Casa! Eu e o Winston percebemos que nós não podemos confiar em você para ser uma de nossas modelos."
Sem muito o que fundamentar o que estava entalado de seu rancor e tristeza, à Sandra Bella, só lhe restava derramar as últimas lágrimas a serem colididas contra o piso negrume daquele imenso Terraço. Como sua imagem profissional já havia sido incluída em uma lista negra a ser compartilhada com centenas de empresas de renome, Sandra decide destilar um maligno sorriso à sua Superior Hierárquica enquanto seca seu rosto. A moça saca de seu contrato leonino de sua bolsa, e, sem a menor cerimônia, o rasga em diversos pedaços sob o gesto do mais puro desprezo.
[Sandra Bella] — "Quer saber Ashley?" — [sorri] — "FODA-SE essa sua bosta de contrato..." — [rasga os papéis] — "leonino... de merda!" — [rasga as folhas com mais intensidade] — "Agora quem vai se demitir aqui sou eu!" — [joga todos os pedaços no chão] — "Estou deixando esta Casa...!" — [lança o seu braço para cima, soltando-o de volta contra sua perna, em sinal de desprezo].
Sentindo-se desafiada pela explosão de Bella, Ashley imediatamente se levanta da cadeira, contrariada pela demissão de Sandra.
[Ashley Dilworth] — "Não pode se desfazer da Casa."
[Sandra Bella] — "Eu me desfaço do que quiser! Vá à merda com sua empresa!" — [dá as costas e joga uma das suas mãos para cima].
[Ashley Dilworth] — "Não pode sair da empresa sem antes de assinar o seu distrato!"
Uma pequena pausa paira o ambiente por alguns segundos no momento em que Sandra, já de maquiagem borrada e feição de estranhamento, vira-se lentamente para a sua carrasca sem acreditar no que estava ouvindo.
[Sandra Bella] — "...Distrato?...” — [põe as mãos sobre a cintura e feição de desconfiança] — “Como assim... distrato? ... Vocês fizeram um documento de distrato pra mim?" — [aponta para si].
[Ashley Dilworth] — "Claro, querida! Nós sempre fazemos modelos de distrato por precaução, até Vega tem o dela. Ande, venha assinar!" — [chama com a mão].
[Sandra Bella] — "E se eu não quiser assinar essa merda?" — [dobra a aposta].
[Ashley Dilworth] — "Daí meus seguranças te neutralizam e mandamos você direto para o quarto de hóspedes projetados para os faxineiros da casa! É o que você quer? Ou você acha que vai sair daqui sem ser devidamente fichada? Está descumprindo um contrato leonino, vamos usar a sua fortuna pra pagar uma multa e assinar o distrato!" — [cruza os braços e exibe olhar de descontentamento].
[Sandra Bella] — "MULTA?!” — [espantada] — “Você só pode estar de brincadeira comigo...!" — [raiva sob risos irônicos].
[Ashley Dilworth] — "Você acha que alguém aqui é idiota?! São regras da Casa, minha filha! Tenha respeito!" — [mostra raiva].
[Sandra Bella] — "No seu distrato vai constar o MOTIVO da minha conduta também Ashley? Ou só a versão da Casa irá valer??" — [rosto altivo, desdém no rosto, gesto de nojo com as mãos esmaltadas].
[Ashley Dilworth] — "Você quer sair daqui ou não!?" — [estende os braços] — "Vem assinar logo essa BOSTA, vadia!" — [perde a paciência com Sandra].
[Sandra] — "Aaaargh...!!" — [puxa a barra de seu próprio vestido e o joga com toda força para o lado oposto].
Ainda injuriada pelo tratamento recebido pela Casa, a ex-modelo caminha sob suspiros de aborrecimento e frustração pelo fichamento que terá que enfrentar em troca de sua desvinculação com a empresa. Sob passos pesados, ombros caídos e borrão de sua tristeza sobre sua face, Sandra se dirige com raiva e de aspecto morto em seu rosto para assinar o termo de distrato. Sem muita pressa, a mulher escolhe uma das canetas que estava disponível na mesa negra para que pudesse deixar seus manuscritos mais embelezados. Sob semblante de satisfação, Winston deposita uma de suas canetas com certa firmeza sobre a mesa, mas sem fazer barulho. Esse gesto foi o suficiente para acender o alerta da Transmorfo.
[SUTIL COLISÃO
CONTRA O VIDRO. SOM DE ECO. ROMPIMENTO SÚBIDO DE SOM. LEVANTAR DE CABEÇAS].
É nesse momento em que Vega se levanta
de forma sincronizada de seu assento junto a Palwari. Era como se ambas as
mulheres tivessem tido o mesmo pressentimento uma da outra. As conterrâneas se
entreolham por alguns segundos sob discreto semblante de medo e aflição. A dama
de cabelos róseos entende a silenciosa mensagem de Vega e a segue aos poucos,
por trás. Apreensiva e preocupada, a jovem de vestido azul royal caminha
devagar em direção à extensiva mesa negrume para certificar o que estaria sendo
executado pelo casal de sócios. O coração de Vega dispara pelo que parecia
estar por vir. Para melhor se posicionar, Palwari se mantém ao lado da moça de
cabelos até a altura do pescoço.
Simone, Sarah, Donna, e as outras modelos presentes, logo se mostram confusas acerca de um suposto documento de distrato pela qual nunca se viram familiarizadas com os valores daquela companhia. As mulheres começam a cochichar no ouvido umas das outras e especulações começavam a se espalhar pelas cantos do Terraço.
À medida em que as duas moças se aproximavam, os finos enrugamentos nos cantos dos olhos, testa e laterais dos lábios do Líder da Zona Dilworth se convergia para uma expressão de ira, o que culminou com o sorrateiro movimentar de uma de suas mãos para debaixo da mesa. A manobra era certa. As duas mulheres interrompem seus passos.
[Winston] — "Não se atrevam a intervir no distrato." — [adverte].
Ashley perde a concentração e volta sua atenção para Winston e as duas modelos. A loura de cabelos espetados e olhos marcantes se mostra contrariada com a proximidade das duas moças e direciona seu olhar para o homem garçom, que até a pouco tempo, estava servindo as mulheres com entradas e bebidas espumantes. O SH acena positivamente para o braço direito de Winston e a Dona da Underground se tranquiliza momentaneamente, apesar do enraivecimento em sua face.
Bella assina o documento com os melhores traços que poderia deixar como legado de sua individualidade, mesmo mal conseguindo se manter sobre seus pés. A mulher estava anestesiada e estilhaçada por dentro e por fora. De olhos borrados, batom azul escuro colados em seus lábios, de longo vestido branco e ornamentos azulados, a ex-modelo cede uma última olhada para a luz do sol antes de pensar em virar as costas. Foram os segundos mais longos de sua existência. Era uma das paisagens mais estonteantes que poderia se deparar. A assustadora imensidão quase fundida pelas nuvens iluminadas, encantava a mulher. Pela primeira vez, percebe que poderia vislumbrar além da gaiola de ouro. Sob um leve e irônico sorriso em seu rosto, Sandra Bella finalmente cede o seu primeiro passo sobre o seu belo sapato azul para caminhar em direção ao gigantesco portão dourado. É quando o diabo sussurra em suas costas:
[Ashley Dilworth] — "Ah, querida Sandra, antes de você ir embora, me responda só uma coisa, meu amor?"
Sandra vira-se para Ashley sob olhar de tédio e cansaço emocional. A luz solar avermelhada, iluminava seu rosto decepcionado, mas cheio de alívio em sua alma.
[Sandra Bella] — "Fala..." — [indiferença].
[Ashley Dilworth] — "Faz quanto tempo que a Senhora não se suplementa?"
[Sandra Bella] — [pausa, breve olhar de canto, lábios caídos] — "Uns três meses e meio..." — [lento piscar de olhos].
[Ashley Dilworth] — "Que ótimo." — [sorri] — "Nós guardamos um presente para você levar de lembrança para a sua casa, pois sabemos que vai precisar se recompor para o dia seguinte..." — [animada] — "Espero que goste." — [sorri para a mulher].
Ashley estala os dedos de sua mão.
[Ashley Dilworth] — "Bávaro Corsarra? Pode vir, meu amor..." — [exibe um belo sorriso].
Interceptando uma bela cesta do que parecia estar lotada de produtos de beleza e alimentícios, o garçom calmamente se dirige até para bem próximo de Sandra Bella, que começa a sentir estranhos calafrios na presença do homem. De olhar sobressaltado e semblante de angústia, Vega sente algo similar a um objeto pontudo e cortante de dentro do seu peito. Aproveita o momento crucial para deixar os pés descalços e prepará-los para grandes impulsos. Palwari percebe o movimento estratégico de Vega e retira discretamente seus pés de seus calçados.
[Bávaro Corsarra] — "Abra." — [exibe um cartão].
Corsarra entrega nas mãos da moça um misterioso cartão de despedida. Com certo receio, Sandra Bella abre o cartão digital por onde veio escrito em letras rosas: "foi um luxo ter você por aqui". Ambos, Bávaro e Ashley, permanecem parados por alguns segundos próximo de Sandra Bella. Quando menos se esperava, a moça nota que dentro da cesta, não havia os produtos que lhe havia sido prometido. Sentido um ataque contra seu peito, a moça pergunta sob feição de estranheza.
[Sandra Bella] — "...Cadê o presente?" — [desconfiada].
[BRAÇO AGARRADO E
CORPO JOGADO VIOLENTAMENTE PARA FORA DO TERRAÇO, DESCENDO ANDARES ABAIXO].
Sob frieza no olhar e sem uma gota de
misericórdia em suas veias, Bávaro pega violentamente Bella pelos braços e a
joga em uma distância de 20 metros, para que caísse pelos longos e aterradores
127 andares do gigantesco e complexo edifício, como se nada fosse. O vestido
balançado pelos ventos era a única coisa que as mulheres poderiam ver de Bella.
Em milésimos de segundo, o coração da vítima para de bater, tamanho impacto ao
se deparar com a morte. No mesmo minuto em que Sandra é pega pelo braço, Vega e
Palwari se lançam fortemente para 30 metros de distância na esperança de alcançar
as mãos de Bella e resgatá-la. Por pura covardia, Bávaro colide contra Vega com
uma única braçada inerte e Palwari é eletrocutada pelo dispositivo que estava
em sua nuca, fazendo-a desmaiar bem próximo da linha de onde dividia o espaço
entre o Terraço da queda livre para a morte. Quem estava com o controle nas
mãos, era Ashley, de feição perversa e triunfante. Após a estrondosa colisão,
Vega cai de corpo e alma sobre o piso negro.
Mesmo diante da forte colisão contra o robusto braço de Corsarra, Vega corre desesperadamente para o ponto de onde Bella havia caído, e sob potentes gritos de tristeza de sua voz, se ajoelha engatinhando próximo ao local de onde era demarcado o limitar do Terraço. A moça nunca se sentiu tão inconformada.
[Vega] — "Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhh..!!!" — [grito similar a um forte apito]
Os gritos da mulher ecoam todo o perímetro daquela região iluminada pela luz solar. Triste e desolada, Vega só poderia olhar para o abismo consternada por não ter conseguido salvar a vida de Bella, que ao final da queda, estava irreconhecível sobre o asfalto inundado de sangue. Todas as suas vísceras, ossos, dentes, pedaços de sua carne, orelha e cérebro, estavam escancarados à vista para dezenas de transeuntes. Uma criança de 10 anos foi sujada com respingos de sangue em suas roupas brancas e em seu sorvete de baunilha. O escândalo perpassa as multidões e veículos se chocam pela estrada. Buzinas tocam. Sirenes apitam. Motoristas se acidentam. Vidros se quebram. Foi desencadeada uma tragédia em cadeia.
O seu belo sapato azul que costumava colocar nos pés, acabou sendo parado por um mastro pontudo próximo aos primeiros andares do complexo edifício. Preso ao calçado que terminou agarrado pelo mastro, estava o pé arrancado de Sandra Bella, rodopiando sobre o scarpin de salto alto e enfeitado com joias de mesmo tom. Era o que precisava para finalizar a tragédia. Horrorizada, Simone gritava aos prantos pelo que acabara de ver. Donna, Evory e Ingrid, estavam profundamente consternadas com o ato desumano contra Bella, a amiga de quem por muito tempo conviveram. Só podiam tampar os seus lábios enquanto lamentavam a dura perda da mulher. Sarah, desesperada pelo assassinato de Bella e por quem também teve grande proximidade entre as mulheres, corre em direção a Winston para lhe arrancar seu terno na unha enquanto suplica por uma explicação plausível pelo que havia acabado de presenciar. Vega, de respiração ofegante e de peito estraçalhado, nada podia fazer que não fosse contemplar o vazio daquele imenso precipício e lamentar a morte da ex-modelo.
Para curtir o momento de trauma e angústia de Vega, Ashley se aproxima devagar e sorrateiramente da pobre mulher para lhe mandar um certeiro recado. Sob um maldoso sorriso e um olhar de vingança, a mulher finca suas unhas afiadas sobre os ombros de Vega, que pela primeira vez, se assusta com o modo de como sua carrasca e cúmplice do homicídio de Sandra, a surpreende fortemente com suas duas mãos. Ashley, aproxima sutilmente seu rosto para perto do ouvido da Transmorfo.
[Ashley Dilworth] — "Viu só o que acontece quando uma garota se rebela contra a Casa?" — [feição maligna] — "Sandra Bella foi só o aperitivo do que vai acontecer com seus pares se você continuar a me desafiar, Vega." — [adverte] — "Titane Katley... Jason, SUII... o seu amiguinho ruivinho, Magal..." — [conta nos dedos sob feição de deboche] — "Palwari... Simone, Eksênia, um tal de Thelonius... e, ah! É claro..." — [sussurra no ouvido de Vega] — "a sua doce mãezinha, Läude... mais conhecida como 'Sonya Brian'...aquela pela qual você ligou VÁRIAS vezes pelo telefone do seu quarto privado, tá lembrada?" — [aponta um dos dedos esmaltados para Vega].
À medida em que escutava o nome de cada um dos seus amigos e familiares, lágrimas de indignação e culpa desciam dos olhos marejados da Transmorfo, que passaram a mudar de cor por várias vezes seguidas devido ao transtorno emocional.
[Ashley Dilworth] — "E se por acaso a desova deles não for o suficiente para te disciplinar... Nós vamos arrumar um jeito de fazer VOCÊ ser jogada no abissal marítimo enquanto permanece sendo eletrocutada ad eterno... ATÉ... MORRER..." — [reforça].
A Transmorfo e prisioneira, fecha os olhos sob profunda respiração e se controla fortemente para não arrancar a cabeça de Ashley com as suas próprias mãos. Sabia que as consequências iriam pesar para aqueles pelas quais não queria envolver. Mas no seu âmago, desejava arrancar todas as vísceras da mulher.
[Ashley Dilworth] — "Portanto, minha flor... eu quero muito que você continue com essa palhaçada pra cima de mim e do Winston, pois nós vamos DESTRUIR você...!" — [espreme os ombros de Vega sob expressão fechada de ira] — "Eu fui clara?" — [olhar fixo de raiva].
Sob olhar de tristeza, Vega nada diz, nada manifesta. Apenas chora, silenciosamente. Palwari, acorda de seu abate e se depara com o precipício bem em frente à sua vista. Por pouco, não termina caindo junto a Bella do edifício. Ainda assim, sobreviveria de qualquer forma. Ainda meio zonza e indignada com a atitude de Ashley e Winston, a conterrânea de Vega encara os dois sócios com semblante de ódio enquanto se mantém de quatro sobre o piso negro. Tal ato covarde contra uma das modelos, foi a gota d'água para a mulher.
[Ashley Dilworth] — "Por que está tão brava, Palwari querida?" — [larga Vega e destila um sorriso animado] — "Até parece que você não conhece as regras da Casa...hum?" — [aproxima de Palwari].
Ao manter proximidade para com a mulher de cabelos róseos, Ashley acaricia o rosto e o queixo de Palwari enquanto esta a encara fixamente sob ressentimento e mágoa. A carrasca, ainda assim, ironiza a indignação da modelo e escrava dourada.
[Ashley Dilworth] — "Oh... você não precisa ficar tão aborrecida. Se prometer se comportar, você e Vega poderão ser enviadas juntinhas para os locais de acesso a todos os privilégios e ambientes mais luxuosos da Espanha, com os melhores homens..." — [aponta para Palwari] — "as melhores bebidas, as melhores comidas, as melhores roupas... e quem sabe... uma linda cama de casal só para vocês duas..." — [feição sarcástica].
Ashley pisca um dos olhos para a moça, já rendida pela humilhação, e depois a solta bruscamente de suas mãos, jogando o seu rosto para o lado. Palwari, nunca se sentiu tão aviltada pelo tratamento dado pela Casa. Sob feição de desprezo, Ashley estala os dedos para mobilizar todos os seguranças da boate.
[Ashley Dilworth] — "Levem-nas daqui!!" — [ordena].
Todos os guardas da Underground se reúnem em pelo menos 10 pessoas, contando com a moça loura mascarada, para levarem todas as modelos para os seus respectivos quartos dourados. A maioria, estava escondida por detrás das gigantescas portas de 50 toneladas. A moça de máscara, é a que ergue Vega e a leva para fora do Terraço. Palwari e as outras modelos, são guiadas como cordeiros sob pressão e rispidez. Sarah terminou sendo arrancada pelos cabelos pelo próprio Winston enquanto se debatia com todas as suas forças. Sua fúria culminou com dois seguranças segurando a mulher tal como se fosse um animal selvagem.
Todas as modelos foram jogadas para dentro dos sofisticados elevadores, cada qual rendida por uma arma de fogo restrita. Simone é uma das poucas que soluçam em prantos enquanto a cabine descia cada um dos 127 andares do edifício, como se seus passageiros estivessem descendo para o inferno.
--------- [PORTAS
DOS VEÍCULOS PRETOS SE FECHANDO. CARROS A CAMINHO DA ESTRADA] ------------
Já postas dentro dos veículos, as moças
de olhares cobertos são imediatamente levadas para longe do monstruoso complexo.
Sarah, é posta para dentro do porta-malas de um dos carros que a levariam para
a Underground. O ódio e revolta de Sarah logo resultaria no ímpeto de uma nova
rebelde para a Casa. Abraçadas, Evory, Ingrid e Donna permaneciam grudadas umas
às outras como única maneira de obterem suporte emocional e de se manterem
distantes do pesadelo em que estavam vivenciando.
----18H00 DA
TARDE. CHEGADA AO EDIFÍCIO UNDERGROUND.------
Quando chegam ao edifício da
Underground, as reféns são levadas separadamente umas das outras e mantidas
isoladas em seus respectivos aposentos, incomunicáveis, perdidas e por um bom
tempo, sem comida. O único gesto de misericórdia que tinham, era o acesso ao
banheiro, água e produtos de higiene e cosméticos. Ao ser colocada de volta
para o quarto de onde esteve com Palwari, Vega, ainda de olhos vendados é
puxada para próximo da boca da loura mascarada, que retira bruscamente o tecido
de seu rosto e sussurra nos ouvidos da moça para que ela siga suas instruções:
[Segurança] — "Vega, me escute com atenção...! Você será enviada para a Casa de Banhos daqui a uma semana... seu aparelho está para vencer e em breve ele irá pifar. Quando isso acontecer, FUJA pelos fundos prédio, e não olhe para trás!" — [solta a mulher e sai andando apressadamente trancado a porta do quarto].
Vega lentamente retira a venda de seus olhos, sem acreditar muito no que havia acabado de escutar. Apesar de todos os seus fracassos, teria finalmente a chance de deixar a Underground e se salvar das garras de Ashley antes que fosse enviada para a Espanha. Sua incredulidade dá lugar a um misto de alegria e alívio. Quando finalmente retira todo o tecido de seu rosto, vem à lembrança que a voz daquela mulher era de quem já conhecia a um bom tempo. Sua fragrância, remetia a uma nota marcante de seu perfume. De seu rosto, um leve cheiro do batom que costumava a usar com certa frequência. Vega, aos poucos, começou a reconhecer a voz de sua guia pela qual mantinha a arma apontada para ela e Palwari. Percebeu que, da mesma mulher, a voz foi modulada. O tecido preto com um símbolo da casa que estava no chão, vinha com um aparelho modulador de voz para disfarce. Veja então entendeu que aquilo não foi deixado no piso sem um bom motivo. Era para destruir o objeto que estava em suas mãos. O gesto único e discreto, só poderia partir de uma única pessoa que estava naquele andar, e que provavelmente, também a conhecia.
[Vega] — "Audrey..." — [feição de súplica e alívio].
Sua ânsia, agora faria sentido. Sua angústia, agora teria um bom motivo. Sua pressa de se libertar e trazer consigo as mulheres que tanto lutou para salvar, agora não seria em vão. Toda a sua aflição daria luz à sua esperança, até então lacerada. Seu intenso grito pelo pedido de socorro a Jason via e-mail anônimo, finalmente faria sentido para o seu coração. A morte de Sandra fez explodir de seu peito, aquilo que estava amordaçado dentro daquela gaiola de ouro.
.
.
.
............Raios
e trovões. 02h30 da manhã. Gotas de chuva e plena escuridão. Escassos postes de
iluminação............
A potente motocicleta corria em peso
sobre a estrada tal como um lançamento de um foguete. Nem a chuva ou a
escuridão parava aquele tanque de três rodas. Alguns postes, sequer tinham
iluminação. Somente restavam a lua e as estrelas. O vigilante estava
determinado a tirar Vega daquele lugar e quem mais estivesse com ele. A coleção
de multas que Jason iria acumular, compensaria a dedicação dos dois amigos para
resgatar a mulher.
Katley, aguardava ansiosamente pelo retorno de seu namorado junto a Magal, com Vega sã e salva. Eksênia, lhe prestava suporte pela preocupação que assolava o peito da mulher de cabelos pretos e olhos róseos. Mas não se enganem: Titane tinha um Plano B. E esse plano, era SUII.
Anaíh e Ofrey, estavam a postos para ajudar Katley em troca do gigante minério que os enriqueceria. Os dois SH’s seriam bastante promissores para os Vigilantes. Brunetta, recebia as mensagens por e-mail enquanto se mantinha a par do caso de Vega. Por seu histórico de tortura, o homem se declarou aliado do grupo e estava disposto a colaborar com os amigos da Transmorfo.
Magal, de tanto acumular azar nos afetos, pensa mais de mil vezes antes de se envolver novamente com outra companhia. Mesmo com extensa experiência de vida, o homem se vê em dúvida pela primeira vez sobre o futuro de suas relações. Mas ainda assim, ele tinha Vega, seu único filho e amigo com quem podia confiar. Detrás no banco passageiro da motoca de três rodas, o ruivo lembra que Jason, Katley, Eksênia, SUII, não chegaram à toa em sua vida. Mesmo expulso de seu próprio País, e até mesmo de sua própria órbita, o homem tinha uma família. Família esta que ele faria questão de cultivá-la como quem rega uma flor.
"Scarface Ost [Theme] - Calling On Mama And Gina.
Extended".
Comments
Post a Comment