----DESEMBARQUE. NEVADA. MADRUGADA DE 15 DE JULHO EM DIANTE. ANO DE 8850. CAMINHADA. PRIMEIROS DIAS EM NOVA YORK.PARTE #7-----

--------17 DE JULHO. 13H00 DA TARDE. DIA ENSOLARADO COM NUVENS AZUIS ESCURAS. TENDÊNCIA DE CHUVA--------

        A luz da manhã se extrovertia junto às nuvens escuras à medida em que o caminhão rodava. Já estava começando a chegar à época das chuvas ensolaradas, das maçãs encorpadas, dos gramados mais verdes e bonitos. Os dois cúmplices não haviam percebido, mas ao longo da escura estrada asfáltica, as vegetações e os locais arenosos caracterizados pelo extremo calor foi cedendo espaço para algumas pequenas árvores de trilhares de pequeníssimas folhas. Junto a elas, uma longa e extensa cortina sedosa de gramado brilhante, por vezes, até lotado de pequenas flores amarelas. O clima da América do Norte era estranho ao mesmo tempo em que era fascinante aos olhos do mais novo hospedeiro. 

          Visualizando a janela do retrovisor, parecia que a qualquer momento poderia chover novamente. Dessa vez, Vega não sentia que o peso das águas seria tão severo quanto anteriormente. Os pingos seriam certos, mas um pouco mais calmos. Olhando pelo retrovisor, fica de vigília sobre algum veículo policial ou eventual perseguição contra os dois companheiros de estrada. Vega olha para Russel, que estava sereno e de olhos fixados para o trajeto do veículo, o que o faz ceder um leve sorriso de canto em seu rosto. Estava contente em saber que os dois puderam fazer um pacto de relação de afeto, mesmo que por um período muito breve de sua vida. O Transmorfo checa discretamente o seu pescoço, braços, mãos, a fim de verificar se havia alguma lesão aparente em seu amigo. Nada havia que deixasse aparente qualquer ataque à sua integridade.

           Assim como muitos de sua Terra, Russel era consumidor de cosméticos e suplementos transmórficos para se manter jovem, forte, ativo e plenamente vinculado a seu único emprego de 32 anos. Sendo seu cúmplice um dos ávidos clientes de tais cosméticos, Vega só conseguia lembrar de sua mãe e o quanto queria se comunicar com ela. Ainda em seu disfarce temporário e desagradavelmente necessário, Vega procura através de finíssimos papéis digitais, os diversos telefones e endereços guardados pelo motorista para posterior contato. Tais folhas mais pareciam objetos espelhados do tamanho de um tablet, eram como as ultra antiquíssimas revistas telefônicas, só que os dados poderiam ser compartilhados à nível global em tempo real, tendo esta como a sua única e exclusiva função.

         Deslizando ansiosamente os seus dedos de baixo para cima, um desses endereços e números de telefone era da loja de cosméticos localizado na luxuosa Oklahoma: SONYA BRIAN COSMETICS. A gigantesca filial digital espalhada por trezentas cidades em todo o país. A dona era simplesmente riquíssima, mas sequer aparecia nos holofotes. Todos os empregados desesperados por um trabalho decente rezam todos os dias para serem contratados por ela, pois a vida boa e a estabilidade eram garantidas.

        Existem relatos de empregados que trabalharam por 50 anos inteiros naquela empresa, e a maioria de suas atividades são todas realizadas dentro de suas próprias casas. Läude, por exemplo, vivia em um SEMIBUNKER faustoso na Rússia. Com uma enorme e redonda janela  mirada para o sol, podia ser vista a paisagem de dentro para fora, mas não o contrário. Todo o foco de seu trabalho tinha como local principal, os Estados Unidos. Läude não gostava de ser muito evidenciada, e assim como Vega, também tinha certa irritabilidade com telas de televisores, câmeras e aparelhos telefônicos, algo até bastante comum entre os SH's.

         Atrás de Vega, havia grudado na parede um telefone fixo projetado para o contato rápido entre os Caminhoneiros da DRISCO, ou mesmo para com o mundo externo. Saindo de seu banco rumo ao aparelho telefônico, Vega tenta por diversas vezes entrar em contato com Läude pelos números encontrados no papel digital, mas em nenhum deles era possível manter qualquer contato com sua mãe.  Já a loura, omissa diante da realidade que a cercava, escuta o seu telefone móvel tocar próximo de si. Direciona os olhos para o canto inferior. Confusa, ela não sabia se deveria atender a ligação. No registro de chamada, somente poderia vislumbrar o nome ou a origem de quem ligava: VEGA.

          Seu celular de tom verde cinzento não parava de vibrar, e cada vez que tocava, Läude aos poucos vinha entendendo que não poderia se tratar de um desconhecido qualquer. Quem estava do outro lado da linha, parecia desesperado pelo seu telefonema. Depois de muito pensar, a elegante empresária backstage resolveu continuar o seu trabalho. Estava chuvoso fora de sua casa, mas a luz brilhava forte, e o reflexo caía bem com seus longos brincos, igualmente esverdeados. De lápis preto e um toque de sombra verde em seus olhos, combinavam perfeitamente com seus cabelos dourados espetados em suas pontas. Nada mudou a mulher. Nem a sua aparência. Ainda menos a sua rebeldia. Assim como Vega, era persistente no que queria.

        Do outro lado da linha, Veja tentava desesperadamente efetuar diversas ligações uma atrás da outra, o que fez o seu rosto se murchar gradativamente como se vai uma pobre rosa sem cor. Seu nome, estava escrito na tela de onde serviria para colocar uma mensagem de chamada visível para quem atende. Apesar de propiciar golpes, também facilitava a identificação. Absolutamente ninguém o atendia, nem mesmo de nenhum local do País. Durante longos 15 minutos, o Transmorfo não obtinha nenhum sinal de sua mãe.

       Para fugir um pouco de sua dor, Vega coloca o sofisticado telefone no gancho e retorna para o seu banco passageiro. Dispensa a folha digital dentro do porta-luvas do caminhão. Sem muito o que fazer com seu próprio aparelho telefônico por não ser adaptado à tecnologia daquela Órbita, preferiu se aquietar um pouco. Russel permanece totalmente concentrado na direção do veículo enquanto Vega o admira suas feições. O rapaz começa e imaginar se Läude de fato saberia de sua existência, e se ela estaria se esquivando de receber ligações de seu filho "perdido". Suspira fundo e diminui sua ansiedade emocional a ponto de neutralizá-la. Diferente de outros seres vivos, Vega pode controlar o quanto seu sistema nervoso pode produzir raiva, alegria, tristeza, euforia, vergonha, desejo, tudo isso e mais um pouco, mas raramente utilizava essa habilidade. Tinha receio de se tornar vazio e oco. Ao mesmo tempo, poderia entrar em surto feral se suprimisse a sua raiva por muito tempo. Tudo tem um preço.

        Por um lapso de tempo, Vega estava curioso para saber como era o filho de seu cúmplice e qual o motivo de seu divórcio com sua antiga mulher. Vindo de uma cultura muito divergente da que ele está atualmente inserido, era muito raro ocorrer uma separação, um divórcio, ou mesmo o Matrimônio em si, que também não era comum. Em seu lugar de nascimento, é valorizado o ditado "Alianças não são para qualquer um. O sexo, é." Era entendido pelo povo que o Casamento não era uma obrigação social ou um status: era uma responsabilidade. Era um ato de lealdade afetiva e familiar, antes de tudo.

        Um pouco entediado, mas sem querer atrapalhar a concentração de seu cúmplice, ainda restavam um pouco menos de 07 dias de bateria de seu aparelho telefônico na qual o mantinha a maior parte do tempo desligado. Esse tempo, na verdade, era equivalente a um pouco mais de 42 dias de funcionamento no atual planeta até que se desligasse por completo. Na esperança de encontrar alguma coisa que registrasse o rosto de sua mãe, os dedos do rapaz se depara com um vídeo de uma antiquíssima entrevista feita a um casal de moradores, que eram celebridades muito distantes da época de sua existência. Ambos eram cantores e compositores de um gênero musical conhecido como "Rap Metal" naquela Ilha-País. 

        O entrevistador tinha uma voz feminina, que apesar de nunca tê-la ouvido, soava bastante familiar ao rapaz. Do casal, o homem tinha cabelos raspados lateralmente enquanto os da moça era de cor branca, com um penteado confeccionado em uma franja bem pequena na testa e um corte de tamanho progressivo à medida que os fios se estendessem à sua nuca. Uma das entrevistas mais importantes da época acabou não sendo mantida por mais de três dias na TV Pública por envolver um crime doméstico. Acabou que Vega não pôde ter mais a chance de ver o rosto e a voz de sua mãe de forma simultânea. Tinha que se contentar só com a imagem estática, ou a voz que nem mesmo ele tinha certeza de que era dela. 

        Ao escutar o estranho diálogo vindo do arquivo de vídeo transmitido do celular de Vega, Russel o fita transitando pela interface de seu desconhecido aparelho e coloca novamente seu veículo no modo automático. O despertar de sua curiosidade também o lembrava de que estava começando a ficar com fome.

[Russel] — "Está com fome? Vou procurar algo pra comer..." — [contorce o pescoço e expressa certa admiração pelas pessoas do vídeo] — "quem são esses?"

[Vega] — "São celebridades... nunca os conheci." — [pensa por um tempo] — "Disse que queria comer, quer parar em algum lugar?" — [deixa um leve sorriso].

[Russel] — "Bom, minha ideia era pegar algo de algum mercado, mas se você quiser, podemos procurar algum restaurante..."

        Vega, apesar de aguentar mais tempo sem comer, já estava sentindo falta de efetuar alguns beliscões para o seu estômago. Queria sair um pouco para a luz do sol.

[Vega] — "Meu rosto está bem disfarçado?"

[Russel] — "Não só está como vai precisar dele por um bom tempo. Alguns estabelecimentos exigem a identidade." — [explica ao amigo].

        Vega se antecipa e exibe o Cartão de Identidade provisório que foi dado em suas mãos pela Chefe de Polícia que os revistou. Os cabelos em tom rosa bebê teriam que ser a regra até o final da estrada.

[Vega] — "Éh, parece que meu rosto continua igual à da Identidade... mudou alguma coisa?" — [sorriso confiante].

[Russel] — "Nem um milímetro." — [diz admirado].

[Vega] — "Então, vamos ter dias bem tranquilos até lá. Quando eu não precisar mais do cartão ou do crachá, eu jogo fora." — [sorri para o motorista] — "Quer escolher um lugar pra comer?" — [semblante animado].

        O motorista se mostra disposto a agradar seu confidente.

[Russel] — "Dessa vez, eu deixo você escolher. No porta-luvas tem algumas folhas digitais, se quiser ir olhando um bom restaurante, eu espero o seu veredito."

        Vega se empolga com a proposta do amigo e checa novamente as folhas digitais que havia guardado no porta-luvas.

[Vega] — "Prometo que não vou demorar." — [semblante devasso].

[Russel] — [estende um dos braços enquanto olha para o trânsito] — "Ah, leve o tempo que quiser." — [diz com um leve semblante animado].

        Para um momento em que atravessava tantos percalços, Vega finalmente pode encontrar um momento de felicidade com seu amigo e confidente. Deslumbrado com tantos lugares bonitos para se visitar, acabou se deparando com um restaurante bastante frequentado pelo público: La Mansión del Apetito. O lugar mantinha uma estética de vidraças anexadas a pilares de estética greco-romana. Seu cardápio era bastante atrativo, os seus pratos, quase não muito baratinhos. Sentiu gosto pelas fotografias dos alimentos. O estabelecimento estaria a 60km de onde se estavam os cúmplices. Sem pensar muito, Vega logo aponta para Russel a sua escolha premiada. O motorista checa incrédulo, mas não muito surpreso com a escolha de seu companheiro de estrada.

[Russel] — "Caramba, você não é nem um pouco caro, não é?" — [ironiza].

[Vega] — "Trezentos dólares pra três pessoas? Eu acho que vale a pena... e o prato é bem grande pelo visto."

[Russel] — "Pois então, prepara o estômago e o bolso, porque o prato mais caro daquele restaurante é cinco mil dólares..." — [olhar sério].

[Vega] — "Não se preocupe, prometo que não vou te falir." — [pequeno sorriso].

[Russel] — "E que não vai falir também... vai precisar de grana para se hospedar."

[Vega] — "Vou procurar um conterrâneo meu..." — [verifica a folha digital] — "um camarada chamado Vondano... ele é dono de um Hotel Bolha. Acho que ele vai me ajudar a ficar um tempo lá dentro."

[Russel] — "Como soube dele?"

[Vega] — "O Brunetta me contou, então eu chequei na folha digital... fico contente em saber que posso ser acolhido por alguém da minha terra." — [demonstra serenidade].

[Russel] — "Como você garante que ele vai acolher? Ele vai é te cobrar a diária..."

[Vega] — "Se ele me cobrar, vai ter que me ajudar a trocar os dez minerais da minha mochila, porque eu não conheço ninguém da minha terra que não prestaria apoio a um perdido..." — [feição de desânimo].

[Russel] — "Num contexto onde a distribuição justa de riquezas funciona, de fato, você verá um nível de solidariedade bem maior. Mas aqui... são outros quinhentos."

[Vega] — "...O que tem de tão errado com as pessoas desse planeta?"

[Russel] — "Eu posso falar pelo meu País: vivemos um ultraliberalismo corrosivo que apesar de suas vantagens, não existe nada que não tenha feito 80% da minha geração se iniciar no ramo da prostituição para ganhar os primeiros cinco mil dólares." — [fita Vega] — "Os outros 15%, são privilegiados pela Herança Familiar."

[Vega] — "E os outros 05%?".

[Russel] — "Terminam igual a mim..." — [levantar de ombros] — "faz amizade, assina um contrato draconiano de total fidelidade a uma empresa e fica nela até morrer." — [sorriso irônico] — "Virou um ritual de passagem de quem quer entrar numa empresa, montar uma, ou ter estabilidade."

[Vega] — [quase ri] — "Caramba, vocês não se ajudam mesmo..." — [espantado].

[Russel] — "Tem muita coisa aqui que vai te fazer querer cair fora o mais rápido possível." — [feição simpática].

[Vega] — "Ok. Obrigado por terminar de me deixar traumatizado..." — [sorriso simpático, balançar de cabeça].

[Russel] — "Não há de quê." — [cede uma piscadela].

        Ambos os cúmplices voltam a olhar para a estrada sorridentes com a troca de suas falas irônicas. Um caminhoneiro armado até os dentes e um assassino fugitivo rumo a um dos restaurantes mais caros nos Estados Unidos. Ou pelo menos, do Estado em que se encontravam no momento.

============= La Mansión del Apetito ================

==========ESTADO DE INDIANA. ESTADOS UNIDOS==========

        Vega checa suas roupas para certificar de que estão intactas. Apostou em uma das calças sociais clássicas verde cinzenta e uma camisa sem manga de tecido invejável em rosê. Os sapatos metálicos também eram da cor de sua calça, e os óculos, de forma cinza espelhada. Russel, manteve a sua forma gótica e militar como de costume. Preservava seu coturno cano longo, calças pretas e camiseta de igual cor. Mantinha uma corrente prata como sua marca registrada. Os frequentadores do restaurante fitavam o rapaz de cabelos róseos como se estivessem de frente a uma dançarina de Poledance. Uns, com ar de repulsa, outros, de admiração. Mas a maioria, de curiosidade. Por motivo de precaução, Vega deixou seu aparelho telefônico escondido debaixo da poltrona de seu banco passageiro.

        Na porta de entrada, duas seguranças fortemente armadas realizam a revista de ambos os visitantes. As mulheres também era policiais femininas e mantinham em mãos armamentos de uso restrito, projetados especialmente para Super-Humanos. Uma das mulheres surgem de frente a Vega para vistoriá-lo.

[Segurança 01] — "Retire os óculos, por favor." — [ordena].

            Vega retira seus elegantes óculos e exibe sua íris para a policial feminina, que retira de sua pochete lateral uma pequena lanterna que continha luz branca, ultravioleta e infravermelha. O objeto também vinha com uma lupa que aproximava a visão iluminada pela lanterna.  mulher verifica que o Transmorfo de fato tinha íris cor rosa bebê, e sua pupila, parecia idêntico a de um ser humano comum. Passou a interpretar Vega como um SHGM [Ser Humano Geneticamente Modificado], e um potencial Equatoriano. 

[Segurança 01] — [guarda a lanterna] — "Seu documento de identidade e sua mochila, por favor." — [ordena].

            Vega exibe sua Carteira Provisória à policial feminina e entrega de bom grado a sua mochila à mulher. Dentro do objeto foram encontrados roupas, pijama, lanterna, documentos, dinheiro, cosméticos, pasta dental, escova de dente, uma bota-meia cor romã, uma pochete metálica branca,  uma carteira com notas de dinheiro em dólar, e outros pertences não muito relevantes. Vistoria de cabo a rabo cada canto da bolsa rosada do rapaz. Mal sabia a mulher que a mochila de Vega tinha um local secreto somente para o resguardo de suas joias. Ao finalizar a inspeção, certifica de seus dados pessoais.

[Segurança 01] — "Stanley Ipkiss, confere?"

[Vega] — "Isso."

[Segurança 01] — "Pode entrar."

             Vega adentra o restaurante e reserva uma mesa próxima à vidraça de onde poderia avistar o seu amigo, que ainda estava sendo revistado pela outra policial feminina. Algumas pessoas fitavam o distinto rapaz quase virando o pescoço. Um dos clientes que estava a algumas mesas afastada de Veja, era o exemplo claro de tal persistência. Após logos segundos de vigília do homem suspeito sobre Veja, tal comportamento já estava começando a irritar o rapaz. Em tom baixo, mas em uma frequência em que o espectador conseguiria ouvir bem, Vega pronuncia suas palavras como um morcego exprimi seus sons em meio a diversos ruídos humanos no restaurante:

[Vega] — "Quer parar de me olhar assim...?" — [diz olhando profundamente para o homem que o fitava de forma indevida].

           Bastante surpreendido com o fato de que podia escutar perfeitamente a voz de Vega em meio aquelas vozes barulhentas de pessoas conversando e movimentando objetos, o cliente observa o Transmorfo ser destacado pela luz diante de dezenas de sombras à sua volta. Seus olhos róseos eram mantidos rumo em direção aos dele. Seu corpo permanecia fixo como a de uma estátua. Vega era muito bom em causar impressões ruins. Sem entender como conseguira compreender a sua fala em meio a um ambiente tão ruidoso, o homem desiste da ideia de observá-lo, e, virando a sua face, fecha seu rosto sob implícito tom de ameaça contra o Transmorfo. O sujeito parecia ter se deparado com uma besta diante de seus olhos. Já mais relaxado, Vega volta a se portar de forma mais natural e começa a observar o teto espelhado do restaurante para se distrair. Foi momento certo de Russel aparecer em sua mesa para se sentar.

[Russel] — "Desculpe a demora. Minhas revistas são sempre as mais demoradas... esperou muito?"

[Vega] — "De forma alguma."

[Russel] — "Bom." — [pausa de alguns segundos] — "Podemos começar com qual prato?"

[Vega] — [recosta seus cotovelos à mesa] — "Que tal escolhermos o prato um do outro? Vou deixar você decidir." — [sutil empolgação].

[Russel] — "E quem garante que você vai gostar do que eu escolher? Quer pagar pra ver?" — [coleta uma folha digital que continha o cardápio do estabelecimento].

[Vega] — "Eu quero ver o quanto você sabe sobre mim." — [desafia o amigo].

[Russel] — "Vai apostar mesmo?" — [feição confiante].

[Vega] — "Estou te desafiando." — [leve sorriso] — "Eu pego uma folha, e você pega outra. Escolha um prato e o encomende pela folha digital.”

[Russel] — "Bebida também tá valendo?" — [gosta da brincadeira].

[Vega] — [pensa um pouco] — "...Na verdade, eu gostaria que bebêssemos algo juntos..."

[Russel] — [olhar confuso] — "...Refrigerante?"

[Vega] — "Não...! Eu tô mais para um suco misto de frutas vermelhas. Grande. Três litros."

[Russel] — [entre risos] — "Não... dois litros..."

[Vega] — "Dois e meio...!" — [feição de leve súplica].

[Russel] — "Dois e meio. E é só isso." — [aponta para Vega].

[Vega] — "Se eu quiser beber mais, eu pago mais..."

[Russel] — "Você tem um espaço infinito dentro do seu estômago, é impressionante..." — [leve deboche].

[Vega] — "É porque você ainda não me viu beber duas garrafas inteiras de vinho, champanhe e vodka de uma única vez. Parecia nada..." — [se gaba].

[Russel] — [riso arrastado] — "Se fosse qualquer um, já teria morrido de overdose..."

             Uma pausa de alguns segundos é feita entre os cúmplices. Satisfeito, Vega deposita a folha digital em sua mesa e aguarda a escolha de Russel.

[Vega] — "Já escolhi o seu prato." — [sorriso simpático].

[Russel] — [se mantém alerta e exibe a palma de uma das mãos] — "...Calma..." — [sorriso sem graça].

        Vega quase ri de seu companheiro de estada quando ele se atrapalha na escolha do cardápio. Cada vez que se mostrava constrangido, mais Vega o admirava.

[Russel] — "Eu ainda estou tentando escolher o que provavelmente você vai gostar... aqui..." — [fita a folha digital].

[Vega] — "É mais fácil do que você pensa..." — [uni suas mãos e mantém o cotovelo sobre a mesa].

[Russel] — "Pra oitocentos pratos diferentes... é, deu pra ver." — [impressionado].

[Vega] — "Está olhando na página errada..." — [sorriso debochado].

[Russel] — "Errado tá esse menu, ele é gigantesco...! Como que eles conseguem manter tantas receitas?"

[Vega] — "Quer uma dica?" — [sorriso].

[Russel] — [olha para Vega] — "Não." — [exibe feição séria, mas curiosa].

[Vega] — "Lembra das fotografias do meu telefone?" — [gradativo sorriso de canto].

            Russel desvia o olhar para o canto esquerdo a fim de relembrar as imagens que havia visto no aparelho do amigo.

[Russel] — "Sei... 'trezentos reais'... acho que agora eu sei o que você quer..." — [gradual sorriso].

[Vega] — "Isso é tudo." — [sorri].

[Russel] — "Mas não tem graça, era pra ser um prato surpresa." — [se encosta na cadeira].

[Vega] — "Então me surpreenda." — [desafia o amigo].

            O rapaz cruza o braços, encosta no banco de seu assento e permite que Russel escolhesse o que, de acordo com a sua íntima convicção, Vega de fato gostava. A intuição do homem sempre apontava para refeições fartas e quentes que combinavam diversos peixes e vegetais. Com certeza, não estaria disposto a decepcionar o amigo.

[Russel] — "Quer saber...? Eu vou pedir esse aqui." — [conclui o pedido e joga a folha digital na mesa].

[Vega] — "Gostei da atitude."

[Russel] — "O prazer é meu." — [satisfeito].

[Vega] — "O que vamos beber?" — [deposita os antebraços à mesa cristalizada].

[Russel] — "Exatamente o que você pediu. Frutas vermelhas. Grande. Dois litros e meio." — [olhar fixo].

[Vega] — [abre um belo sorriso] — "Gostei."

        Uma garçonete do restaurante foi checar os cúmplices para verificar se já haviam feito algum pedido, e se precisariam de mais alguma coisa para a entrada. Dois copos d'água foram providenciados. Admirada com os olhos de Vega, a moça para por alguns instantes para trocar algumas palavras com os dois amigos. Em uma de suas indagações, perguntava se a cor da íris de Vega era de fato, artificial. Testemunhou pela primeira vez que não. Eram plenamente reais. Depois de se fartarem de um belo jantar e uma grande bebida e, já tinham se passado pelo menos 02 horas desde o momento em que realizaram o pedido um do outro. Vega, ficou com faustíssimos crustáceos da melhor qualidade, todos bem grandes, suculentos e muito bem temperados. Já Russel, aproveitou da melhor carne de churrasco com molho barbecue feito em todo o Estado de Indiana. Ambos se mostravam muito satisfeitos com as escolhas feitas às cegas. Custará caro. Mas quem disse que não existe um espaço para uma Torta Americana e um Café Brasileiro? O tempo até passava devagar, e cada minuto era muito bem saboreado. Vega sorve lentamente uma xícara do Ouro Negro em suas mãos.

===== DIA ENSOLARADO COM NUVENS ESCURAS. 15H DA TARDE. ======

----------PERÍODO DAS FLORES E DAS FRUTAS---------

[Vega] — "Sua escolha foi fantástica. Quero mais momentos assim."

[Russel] — "Igualmente. Nunca comi tão bem em dez anos de estrada."

[Vega] — "Como soube que era meu prato favorito?" — [curioso].

[Russel] — "Não soube, mas combinava com você. Por isso eu escolhi."

[Vega] — "Rs...! Acertou em cheio. Esse era o prato que eu comia no almoço quando eu morava em Vandora."

[Russel] — "Vocês comem bem lá, pelo visto."

[Vega] — "Sim. Não posso negar, nós comemos muito bem." — [sorve o café] — "Não sabia que comer bem era um privilégio aqui nesse planeta."

[Russel] — [balança a cabeça] — "Aqui só come bem quem puder pagar. E muito. Senão, esqueça. É de porcaria pra baixo." — [toma o café]. 

[Vega] — "Pelo visto a minha estadia aqui vai ser mais difícil do que eu imaginava..."

[Russel] — "Relaxa, você logo acostuma... ainda mais pra você, que é versátil."

        Enquanto o motorista saboreia o café e digere a refeição, Vega certifica se um dos espiões casuais que estava na sua frente já tinha saído da mesa do restaurante. Como era previsto, o sujeito já não estava mais lá. Já tinha partido junto à mulher e seus dois filhos. O cheiro de seu perfume ainda pairava o estabelecimento. Vega guardaria aquelas notas de fragrância para quando precisasse rastreá-lo.

[Russel] — "Vai querer mais alguma coisa?" — [propõe].

[Vega] — "Não, já estou bem alimentado... tire o tempo necessário para digerir." 

[Russel] — "Minha digestão é bem rápida. Já podemos pedir a conta então?"

[Vega] — "Pode pedir." — [diz enquanto limpa sua boca com um lenço higiênico disponibilizado pelo restaurante].

            Como era esperado, a conta veio em cheio: 800 dólares. Os amigos racharam a metade do valor, e Russel ainda tirou um tempo para comprar uma minigarrafa de um licor bastante prestigiado naquela região. Para tirar onda com seu cúmplice, ordenou quatro unidades para que desfrutassem ao longo da estrada. Com estômagos lotados e de bolsos destruídos, os dois amigos retornam ao luxuoso caminhão para prosseguirem o trajeto. Cada qual no seu devido posto.

[Russel] — "Toma. Vai precisar se sustentar por mais alguns dias." — [exibe notas de cem dólares para o amigo].

[Vega] — "Quê isso, eu é que tô te devendo..." — [mostra-se pasmo].

[Russel] — "Já contribuiu bastante com o meu combustível. Vamos, pegue." — [insiste].

          Envergonhado com tamanha gentileza, Vega acena negativamente ao gesto de seu amigo enquanto toma as notas de dinheiro.

[Vega] — "Não precisava disso, Russel. Você já pagou hotel e comprou até roupas pra mim..." — [sem graça].

[Russel] — "Comprei porque eu quis, ora... não precisa se acanhar, você não tem nenhum débito comigo. Salvou minha vida daqueles assaltantes. Se dependesse de mim, iria amanhecer morto." — [liga o caminhão].

[Vega] — "Mas quem livrou meu rabo de uma AR foi você." — [sorri].

[Russel] — "Porque você distraiu os demais." — [reforça].

            Vega deixa escapar alguns risos de sua voz, o que provoca ainda mais a tentação de seu confidente.

[Vega] — "Ok. Não vou recusar o presente. Mas eu ainda acho que tenho uma dívida com você." — [olhar fixo e entreaberto, sorriso amistoso].

               A feição devassa dirigida para Russel deixa um recado bem cristalino para o homem, que cede um sorriso mal contido diante da mensagem implícita que Vega queria deixar para o caminhoneiro. Ainda um pouco zonzo pela ideia sobre o que faria se tocasse em Vega, o motorista deixa no ar um suspense sobre sua resposta. Somente seus olhos entram em contato com os de Vega. Nesse momento, o Transmorfo queria se mostrar de cara velha para o homem.

[Vega] — "Posso voltar à minha forma original? ... Esse disfarce me cansa um pouco." — [fascinado].

[Russel] — "Depende do que você se refere como original... é aquele garoto do refri de soda com uma pochete na cintura, ou o encrenqueiro de 'cabelos cor canela' e 'olhos cor violeta'?" — [vislumbra o rapaz].

[Vega] — "... O que você quiser." — [encantado].

[Russel] — "... Que tal pardo... cabelos de amêndoa, e olhos cor de mel? Com as mesmas feições. Quero o mesmo rapaz que conheci naquele dia ensolarado."

[Vega] — "Gosta da cor laranja?"

[Russel] — "Sim... gosto." — [olhar fixo].

[Vega] — "Então vai gostar da minha nova paleta de cores."

            Vega, atendendo ao pedido de seu amigo, volta a ter mesmo rosto, semblante e penteado de quando o conheceu pela primeira vez, só que neste momento, com cores inovadoras: pele parda, olhos alaranjados e cabelos cor de amêndoa, em tonalidade mais escura. A mudança dos tons de Vega fascinou o seu Amado.

[Russel] — "Caramba, isso tão bizarro quanto fantástico."

[Vega] — "Bem..." — [balança os cabelos] — "eu só não modifiquei a altura, mas..." — [fita seu amigo].

[Russel] — "Tudo bem, não tem problema, eu encaro do mesmo jeito."

            Russel consegue arrancar alguns risos genuínos de Vega, que empolgado com a ideia de que poderia estar apaixonado em um dos seus raros momentos de sua vida, lança um estranho convite para Russel. Ainda sem graça por sua declaração, o homem apenas observa seu cúmplice quase sem prestar atenção no que este fala.

[Vega] — "Eu estava pensando... nunca vi uma casa de festa desde que pisei neste planeta. Vocês saem pra dançar?"

[Russel] — [demora alguns segundos para receber a informação] — "Ah, direto... direito." — [pensa um pouco] — "Inclusive, podemos descolar uma."

[Vega] — "... Sério?" — [fita o homem].

[Russel] — "Eu tenho direito a mais duas paradas longas, então podemos sair pra dançar... se você quiser."

            Vega gosta bastante da sugestão de Russel, pois queria se movimentar para fazer alguma atividade física. Era algo que lhe fazia falta desde que aterrissou na Área 51.

[Vega] — "Olha... eu quero muito." — [feição de admiração] — "Eu tô realmente precisando me agitar." — [fita brevemente o retrovisor] — "Mas e você?"

[Russel] — "Como assim?" —  [fita Vega].

[Vega] — "Gosta mesmo dançar?"

[Russel] — "É claro que eu gosto. Eu sempre passo em algumas discotecas durante as viagens.... por quê?"

[Vega] — "Não quero que você faça isso só por minha causa." — [feição constrangida e sorridente].

[Russel] — "E você queria o quê? Que eu dançasse sozinho e terminasse a festa na mão?"

         O homem arranca boas risadas de seu companheiro de estrada.

[Vega] — "É claro. Vendo pelo lado prático, a noite é bem melhor a dois." — [pausa] — "Mas sério... não quero te explorar..." — [feição de admiração pelo motorista].

[Russel] — [quase ri] — "Hey, sou eu que estou te convidando. Vamos dançar sim.... ainda é meio cedo pra abrir uma discoteca, mas podemos ir às vinte e uma."

[Vega] — "Claro. Ficarei pronto logo, vou até escolher uma roupa." — [se dirige até o armário do caminhão].

[Russel] — "Não é pra vestir agora, a festa é à noite!"

[Vega] — "Eu sei! Só vou separá-las...!"

         A alegria no semblante de Vega nem aparentava que o rapaz estava sendo procurado pela polícia e menosprezado pela sua própria mãe. Podia finalmente gozar de um pouco de felicidade em sua breve estadia naquele mundo desconhecido. Bem, sendo justo com Läude, a loura sequer sabia quem de fato era Vega, pois a Ex Biogeneticista nunca foi informada por Otis Foyer que o mesmo tinha o seu código genético. Era mãe do primeiro Transmorfo criado em laboratório em toda a história da humanidade... Só não sabia disso.

--------------RÚSSIA. SEMIBUNKER. 18H00 DA TARDE. MESA DE CHÁ QUENTE. QUEDA DE CHUVA. CELULAR COM NOTIFICAÇÕES-----------------------

O reflexo da fraca luz solar embranquecia os pingos de chuva sobre o forte vidro blindado em forma de Casa Encapsulada. Suas formas discretas e esverdeadas se camuflavam ao ambiente e não penetrava uma alma viva adentro da linha invisível de parâmetro residencial. Läude vivia em um isolado setor de residências enfileiradas e enumeradas de “um” a “noventa e nove”. Cada um em seu próprio universo luxuoso e sofisticado. Próximo daquele complexo condomínio futurista, uma Casa-Bolha feita exclusivamente para atender os miliardários daquela região. Todos os dias eram feitas entregas de café da manhã, almoço e jantar aos seus fiéis moradores, que pagavam pelo valor mensal do usufruto dos produtos. Todos de altíssima qualidade. Um pujante shopping localizado na região central do complexo, abrigava desde lojas de roupas, produtos para casa, academia de treinos, escola de ensino fundamental e médio, clubes de águas termais, arenas de lazer, campos de esportes, Spa’s, bibliotecas, clínicas de tratamento de beleza, atendimento hospitalar, e até vendas de armas bélicas. A loura sempre fazia uma pausa de seu trabalho para comprar alguns suvenires para a família querida. Tinha tempo livre, e nunca lhe faltava estilo e elegância. A mulher é uma das mais belas e respeitadas de seu bairro.

Voltando para o SEMIBUNKER, a loura prepara um copo de chá antes de retornar ao seu computador e escuta um de seus aparelhos telefônicos. Percebe que se tratava de ligação desconhecida, o que então passa a ignorar. Após diversas chamadas não atendidas, a Empresária Backstage se aproxima da mesa de onde estava o objeto e decide guardar o número e a mensagem de apresentação contendo o nome "VEGA" em sua caixa de mensagem. Curiosa, a mulher procura informações sobre o Transmorfo de seu elegante tablet esverdeado, fazendo uma ampla pesquisa pelo seu nome nos sítios eletrônicos. Após uma longa procura pela lista de ofertas e endereços digitais "SKEMA", eis que Läude finalmente encontra a primeira imagem vazada do que seria o rosto de Vega. Eram poucas, mas eram bem nítidas. E as câmeras, não desapontavam. Dava para ver perfeitamente os olhos cor violeta de Vega quando o mesmo foi tentar fazer o saque de um montante financeiro de origem desconhecida.  A imagem havia sido registrada como uma NFT e estava sendo fornecida por R$1000 dólares a cópia. Um pouco surpresa com o tamanho do preço estipulado, a loura aproxima a tela do aparelho em seu rosto, suspeitosa com a captura da imagem. Aumentando a visualização da tela do tablet, os objetos que estavam nas mãos de Vega puderam ser vistos com mais detalhes. A mulher quase cai para trás quando certifica que as cédulas que estavam nas mãos de Vega, eram róseas. Se a curiosidade fosse uma arma, Läude já estaria baleada. Em um ato de impulsividade, a loura tecla em um botão automático de seu telefone celular e se senta em sua confortável cadeira sem perder a classe.

[Läude] — [sorve a bebida quente] — "Kleight, poderia por favor investigar o nome que vou soletrar para ti? Preciso de uma ajuda. Se chama: V-E-G-A. Localize pra mim, por favor..." — [se encosta à cadeira, e desliza as páginas da caixa de mensagens] — "Cryssin... já saiu da colégio? Podemos tomar um café no Frisson em Nova York? Eu pago uma torta alemã e um café triplo brasileiro pra nós duas, o que acha? Seu pai voltará mais tarde, então traremos algo pra ele caso não chegue a tempo.. nem esquente com o transporte, eu chegarei aí até às 20h e passarei a semana com vocês. Já estou com tudo pronto. O que acha? Às vinte e três horas?" — [afasta o dedo indicador na tecla de mensagens de voz].

          Nesse momento, uma mensagem automática de uma Inteligência Artificial responde Läude, performando perfeitamente um ser humano normal. Ao soletrar o nome de Vega, o Bot Administrador, um dos mais inteligentes e sofisticados já adquiridos pela Loura, se infiltra em todos os bancos de dados à nível global em questão de milésimos de segundo. Como não tinha funcionários, Läude colecionava uma equipe de mais de 640 máquinas devidamente hierarquizadas e de funções distintas para auxiliá-la na encomenda e entrega de seus produtos. As máquinas não eram hardwares. Eram puramente programas de alta complexidade e que quase tinham vida, de tão articuladas.

          Todas eram abrigadas em sua plataforma em formato de janelas de prompts de comando, mas adaptado em tela verde e caracteres pretos, com direito a dezenas de opções na parte lateral de sua página digital. Os diálogos eram tão realistas que Läude parecia realmente estar se comunicando com uma pessoa no mundo real. Detalhe: Empresária Backstage poderia carregar seus robôs e recipientes de HD no formato de bonequinhos falantes. Kleight, foi escolhida para ser a I.A favorita da mulher. Boros, era o seu "companheiro" diga-se de passagem.

            No fundo, Läude tinha em  impregnado em sua intuição de que após a sua expulsão, poderia ter deixado um filho para trás. Embora nunca tivesse se questionado sobre essa possibilidade, nunca imaginou que Otis poderia extrair indevidamente seus genes como parte da pesquisa. Era o seu maior medo. Foyer não encontrava voluntárias para o projeto, e por conta disso, o alvo da criação deveria ser a mulher em que ele mais confiava e conhecia por tabela: Läude. Tal suspeita começou a provocar insônias à mulher.

            Depois de dois minutos de pesquisa, Klight encontrou informações oficiais à respeito de Vega: "Suspeito de matar o Caminhoneiro Earl Cash teria fugido com o veículo da vítima e desaparecido de Nevada"; "Homem suspeito de assassinar Empregado - Chefe da DRISCO tinha os olhos 'cor violeta, pele branca e cabelos cor canela', conforme sua viúva"; "Maria Helena Cash presta depoimento presencial na Delegacia de Polícia de Nevada acerca da morte de seu Esposo"; "Funcionários do Posto de Combustíveis relatam terem escutado gritos pouco antes da morte de Cash"; "Procurado por assassinato de Cash não possui registro de sua identidade em nenhum dos Órgãos Governamentais da Europa ou América"; "Boatos sobre a existência de um Super-Humano Extraterrestre se espalham rapidamente pelos Fóruns de Internet". Nada até então foi revelado sobre a suposta filiação de Vega para com Läude.

[Läude] — [mãos no rosto] — "Devo estar ficando neurótica..."


==========15 KM DO LOCAL DE DESTINO. 20H45 DA NOITE. ESTRADA ESCURA. LUZES NAS LATERAIS DO ASFALTO. PRESENÇA DE BRILHO EM NEÓN DE VARIADAS CORES.=====================


[Russel] — "Aqui é onde ficam os motéis, hotéis, casas de banho, discotecas e outros locais de entretenimento para pessoas que viajam pela estrada. Antigamente a entrada das boates era segregada pelos Caciques dos estabelecimentos... hoje, qualquer um pode entrar contanto que seja suplementado."

[Vega] — "...Qualquer um?" — [fita o amigo].

[Russel] — "Qualquer um."

[Vega] — "Tem alguma boate em que eu possa entrar sem precisar de documento?"

[Russel] — "Todas elas. A que eu vou te levar inclusive, eu sou cliente VIP dela. Você vai gostar bastante... as músicas são lendárias." — [sutilmente empolgado].

            Vega observa o ambiente escuro rodeado de majestosas palmeiras com outras vegetações e fachadas brilhantes e bonitas. À medida em que passavam pelos visitantes, dezenas de mulheres paravam tudo que faziam para prestarem atenção em Vega. Embasbacadas com a tamanha beleza do Transmorfo, moças de todos os tipos e idades paravam para certificar quem era aquele nobre rapaz de olhos cor de fogo. Os vestidos eram curtos e os sapatos finos e cintilantes. Brincos leves, mas extravagantes, com formatos pujantes de flores, borboletas e cristais. Todas as curiosas eram belas e sedutoras, não havia uma que não despertasse o encanto de Vega. Até a mais velha das Senhoras parecia estar no auge de seus 25 anos. 

            O rapaz se apoia na janela do caminhão para encarar fixamente os olhos de uma mulher oriental, que ficou lisonjeada de ter sido escolhida pelo cavalheiro. Recebido aos gritos por várias de suas fãs, as mulheres instantaneamente vão à loucura pela presença de Vega. O rapaz sentia que havia sido premiado com tanto amor envolvido. Deslumbrado, Vega olha para Russel com um sorriso que definia bem a sua mistura de indecisão com excitação.

[Russel] — "Calma aí, garanhão, você não conseguir transar com todas elas numa noite só... economiza aí." — [sorri].

          O cúmplice nada diz que não seja com um sorriso incrédulo de felicidade e mãos em seu rosto de tamanha timidez gerada pela reação das mulheres. O ambiente respirava erotismo e subversão pelos cantos mais coloridos daquela região. Cinzeiros, mulheres, políticos, vendedores ambulantes, donos de cassinos e centenas de vigilantes noturnos, definiam os rumos daqueles locais. O clima de umidade, perfumes e fumaças de cigarros, fazem provocar arrepios em Vega, deixando o rapaz profundamente extasiado com a estética do local. Mesmo os odores mais nocivos deixavam o rapaz profundamente encantado. 

         Vestidos à caráter, Russel combina elegantemente o seu estilo gótico com um tom mais mafioso e executivo de sua estética, mantendo sempre a cor preta em evidência. Seu coturno e chapéu contrastavam a sua beleza. Vega aposta em uma camisa manga 3/4 de cor azul pastel mais escurecido com uma calça social vermelha cor de sangue. Os sapatos eram vernizados do mais puro branco de cegar as vistas. O seu colar, era inteiramente dourado. O cinto, também de cor muito branca, mantinha uma fivela espelhada. Luvas pretas de dedos soltos também estava incluso no estilo de Vega. O menino só não brilhava mais do que as cores das luzes artificiais porque a íris de seus olhos já o destacavam em todo o setor.

            Uma das boates mais elegantes daquele local já havia uma fila monstruosa de estreantes esperando para adentrarem o estabelecimento. A partir do momento em que o motorista manobra o veículo para estacioná-lo, o Transmorfo se exibe soprando uma carta de baralho com uma de suas mãos para que o objeto voasse em direção às moças. Vislumbradas com a atitude do rapaz, este é recebido aos coros, assobios e gritos. Os seguranças da boate se animam com a chegada de Vega, já que o mais novo pretendente de 95% das mulheres que frequentavam o local, daria bastante movimento para Casa Noturna. Como Vega não tinha escrúpulos, sequer se importava em saber se as Damas que o saudavam eram casadas ou chaves de cadeia: queria mesmo era limpar a pista.

            Ainda aluado com tamanha graça de Vega, o homem não queria saber de outra coisa que não fosse ter o seu amigo nos seus fortes braços. Não queria terminar a viagem sem ao menos ter uma despedida digna um para o outro. Sequer um beijo foi selado, um toque nas mãos foi dado, ou um longo abraço foi experimentado. Queria o sinal de Vega, mas mal sabia ele que era Vega quem clamava ao seu cúmplice que avance o sinal. Estava muito claro desde o momento em que foi entregue uma garrafa de refrigerante de cola: não havia um único segundo em que não houvesse interesse mútuo. Por que deixar passar? Para quê deixar para depois? Por qual motivo esperar tanto? Russel não passaria dessa noite. Avançaria o sinal conforme Vega deseja, mas não diz. O amor não tem tempo para inseguranças.

[Vega] — "Vamos descer antes que as mulheres nos comam vivos." — [sorriso simpático].

[Russel] — "Acredite, você está mais ferrado do que eu." — [devolve o sorriso para Vega] — "Guarde a bolsa pois lá não tem cofres."

[Vega] — "Deixei embaixo do banco." — [checa] — "Se perguntarem, diga que eu sou seu Tutelado." — [se ajeita em frente ao espelho].

[Russel] — "Posso até falar que você é meu acompanhante que eles liberam, não se preocupe com isso." — [se olha no espelho].

[Vega] — "Ah, é verdade. Você é cliente VIP da casa." — [fita os bolsos de Russel] — "Cuidado com as chaves, alguém pode roubar."

[Russel] — "Esse bolso aqui tem uma tranca, ninguém põe a mão."

            Era só o momento de deixarem o complexo caminhão para que as Damas acenassem amistosamente para a grande estrela da noite, que em troca, cumprimentava gentilmente cada moça que lhe dava atenção. Os homens eram mais discretos, mas alguns posavam com seus polegares sobre as passantes de suas calças, dobrando um dos joelhos, e trazendo seus chapéus sutilmente para frente a fim de darem um ar de mistério. O intuito deles, era impressionar Vega de forma muito cautelosa. O moço notou o cortejo e retribuiu a gentileza com um olhar fixo nos olhos de um dos homens atraentes da Boate. O que o rapaz não contava, era que o sujeito que o havia flertado era membro da DRISCO. Russel o reconheceu de longe quando o avistou, lançando um olhar de advertência para o vigilante. Quando não era a polícia, eram uma gangue de matadores que mantinham proximidade com outras ervas daninhas da estirpe de Earl Cash.

[Russel] — [se aproxima de Vega] — "Cuidado com esse cara aí atrás. Ele é da DRISCO e era conhecido do Cash."

[Vega] — "Deixa comigo." — [segue em frente].

            Fingindo apenas acender um cigarro, o desconhecido cobre o seu rosto com sua mão enquanto se comunica mediante um aparelho de escuta.

[Estranho] — "O alvo acabou de chegar aqui. Preciso de um aparelho de choque."

[Escuta] — "Me espere aí, já estou indo. Vou te entregar um 'relógio', e você vai abri-lo, entendido?"

[Estranho] — "Copiado."

[PAREDES POLIDAS. PISOS ESPELHADOS. ILUMINAÇÕES COLORIDAS. ESPAÇO APARTADO PARA DANÇA E PARA MESAS E SOFÁS. BALCÃO PARA BEBIDAS. MÚSICAS ELETRÔNICAS À TODO VAPOR].

        Os dois olhos doces adentraram o estabelecimento ainda parcialmente vazio. Vega aproveita para conhecer a casa perpassado os seus cantos de maneira despretensiosa e aberta. Como não havia pulseiras, o pagamento da bagatela de 500 dólares seria o bastante para o direito a entrada e consumo na boate. Russel tinha o preço descontado pela metade. Os dois amigos se distanciam momentaneamente sem perder o contato visual. Vega se recosta no balcão, ao passo que Russel aproveita para receptar um sofá redondo para si e para o seu cúmplice. O rapaz impressiona os "bartenders" ao se defrontarem com seu visual. 

         Antes de agitar a festa, Vega aproveita para pedir uma bebida para si e trazer um drink para seu amigo. O exótico Transmorfo opta por um nobre "Sex on the Beach", constituído do mais belo conjunto laranja e rosado na sua composição. O Blue Lady, foi a escolha preferida de Russel. À medida em que os minutos andavam, a multidão de festeiros lotavam a boate como uma carreira de formigas invadem um pote de açúcar. Em pouco tempo, a Casa já estaria coberta de cheiros, lantejoulas, cristais, batons e os mais caríssimos ornamentos. 

           Vega acabava de se tornar a pessoa mais comentada da festa sem nem precisar mover um único dedo para obter alguma atenção dos homens e mulheres. Duas delas iniciaram seu itinerário em direção aonde o moço estava. Esse era um dos raros momentos em que alguma mulher tomava alguma iniciativa para paquerar um homem.

[Lia] — "Oi. Com licença. Desculpe-me, qual o seu nome?"

[Vega] — "Vega. E o de vocês?" — [sorriso sedutor].

[Lia] — "Eu sou Lia." — [o cumprimenta].

[Verônica] — "E eu sou a Verônica." — [acena sutilmente com os dedos].

[Ambas] — "Prazer em conhecê-lo." — [vozes sincronizadas].

[Vega] — "O prazer é todo meu." — [pega as mãos das duas mulheres e as beija ao mesmo tempo].

            Tal gesto afetuoso tirou risos alegres e lisonjeados das duas moças, o que atiçou a atenção das outras amigas que compareceram junto com elas.

[Lia] — "Você é muito seletivo, Vega?"

[Vega] — "Com mulheres tão bonitas, de forma alguma."

[Verônica] — "Se importa se dividirmos um espaço na mesa com você?"

[Vega] — "Claro que não. Meu coração tem todo o espaço que quiserem."

[Lia] — "Ai, que gracinha...!" — [encantada].

[Verônica] — "Ah...! Adorei você..." — [sorridente].

            Em pouco menos de meia hora, treze moças compareceram para cumprimentar o rapaz e o convidá-lo para dançar. Nem mesmo Russel, que até então tinha um talento nato para atrair mulheres, pôde deixar de evidenciar a ponta de ciúmes que sentia por Vega, já que não era com ele que o rapaz estaria prestes a compartilhar a pista de dança. Como não queria estragar o momento de seu convidado especial, não ficou para trás: tratou de encontrar mulheres para puxar uma boa conversa e levá-las para a mesa. Era só o tempo das fãs perderem o controle com Vega e dezenas de mãos esmaltadas o invadirem por debaixo de suas roupas sem a menor cerimônia.

            O moço não era nem um pouco tolo, sabia bem o que estava fazendo: antes mesmo de adentrar o salão, já havia liberado uma tonelada de feromônios de forma proposital para atrair o máximo de homens e mulheres que pudesse. Para não parecer tão fácil, o rapaz dava um prazo para que fosse rodeado por um número considerável de abelhas femininas para só então, iniciar o processo de lascívia coletiva. Quando menos se esperava, uma impressionante quantidade de mulheres estavam amontoadas em todos os cantos do sofá vermelho só para acompanharem Vega. Tal estrelato já estaria começando a incomodar outros homens da casa, que não mais queriam ver o rapaz pintado de ouro. Como Vega era a atração principal da Casa, os seguranças se recusaram a efetuar a remoção física da maior fonte de renda das últimas duas décadas de existência daquela boate.

            Um dos frequentadores, por mais puro despeito, espalharam a informação de que o rapaz seria um "ladrão de caixa" e teria assassinado um motorista de caminhão para tomar o veículo para si. Não demorou muito para que a informação distorcida se espalhasse pelos corredores da boate. Uns admiravam Vega. Outros o odiavam. Muitos duvidavam da informação passada à fresco como um bom pedaço de cocô. Enquanto as estruturas da boate se rachavam com fofocas especulativas, Vega já estava sendo descabelado pelas rainhas da festa, com direito a ter o seu rosto marcado de batom pelos beijos recebidos da mulher oriental de quem havia flertado um tempo atrás. Para que não provocasse tantos ciúmes em Russel, Vega aderiu ao convite das moças para se concentrarem próximo do balcão de bebidas e aproveitarem a balada por lá.

[Vega] — [se oferece] — "Por falar em drink, estou com sede. Poderiam me sequestrar?" — [levanta os braços].

            O rapaz é instantaneamente levantado e levado por um grupo de vinte e cinco mulheres para fora do sofá vermelho. Antes que perdesse Russel de vista, Vega o mantém ciente de que não se distanciaria da vista de seu amigo:

[Vega] — "Eu vou voltar!" — [fita o motorista].

[Russel] — "Ok, divirta-se!"

              Os candangos que vigiavam a estadia de Vega, esperavam o momento ideal para abatê-lo e levá-lo a um matagal bem distante do local. Estavam municiados de aparelhos de choque para acertá-lo pela nuca. Antes que começasse a ficar bêbado, Russel chama Vega pelo estalar de dedos e sinaliza a localização dos arruaceiros, um deles com o aparelho elétrico em mãos. Vega confirma o recado sinalizando positivo. Agraciado como uma celebridade dos anos noventa, o rapaz é carregado pela maré de mãos exaltadas das mulheres que se aglomeravam entre a mesa do rapaz e o balcão de fornecimento de bebidas. Em grande estilo, o moço é gentilmente posto ao chão como um belo gato de raça é reverenciado sobre uma almofada de luxo. Ao lado de uma mulher de cabelos pretos e batom escuro, Russel somente observava a histeria coletiva em torno da beleza de Vega.

          Cada vez mais insatisfeitos e aborrecidos com a concorrência desleal por parte do Transmorfo, um amontoado de homens solteiros se juntam para tentar retirar Vega do estabelecimento como forma de retaliação contra o rapaz. Mesmo importunando os seguranças da Boate até a suas últimas gotas de paciência, os homens de terno se negaram a atender ao pedido dos inconsolados perdedores por não quererem perder a melhor fonte de renda da festa. Embora outros clientes pudessem ficar desestimulados a retornarem ao estabelecimento, isso era o menor dos problemas. Cercado de 20 mulheres pelas quais Vega intercalava entre taças de bebida jogadas em sua boca, carícias lascivas e beijos ardentes, o rapaz sequer estava ciente de que um dos valentões da festa estaria prestes a atacá-lo. Um homem de jaqueta branco e vermelho, carregava consigo um discreto dispositivo elétrico para neutralizar Vega. Aproximando-se amadoramente do Transmorfo, mal contava o malfeitor que o rapaz notaria a sua aproximação mesmo sem o contato visual. Enquanto beijava uma das moças, o moço abre um dos olhos e desvia sua íris para o extremo canto.

            Antes que pudesse levantar o braço para agredir Veja, o rapaz imediatamente pega o seu agressor pelo rosto para beijá-lo fortemente pela boca, momento que o malfeitor tenta acertá-lo com certeiro soco sob acesso de raiva. Por azar, Vega se desvia do golpe desferido pelo homem e o joga para o outro lado do balcão de venda de bebidas pelo braço, destruindo garrafas e taças que estavam no meio do caminho. O revide causou estrago no bar, um estrago nas mercadorias e um estrago na moral do infeliz. Tal evento acendeu o pisca alerta de Russel e causou uma breve confusão no estabelecimento. 

          Injuriado com beijo surpresa e surpreendido com a força do rapaz, o homem se levanta já com o braço destroncado pelo golpe recebido. O pânico se finda quando os seguranças armados se prontificam para retirar um dos membros da DRISCO da Boate. A preferência pela manutenção de Vega se dá uma vez que o rapaz herdava os privilégios de Russel para a entrada VIP. Machucado, o agressor cede uma última olhada de desgosto para o Transmorfo. Já Vega, sorri docemente para o seu inimigo antes de voltar a sua atenção novamente para as mulheres.

            Assustadas com a força de Vega, as mulheres fitam o rapaz e demoram alguns segundos para se recomporem. Posicionado sob um gradual sorriso debochado e um levantar de sobrancelhas, as damas caem em gargalhadas pela situação bizarra que presenciaram. Ao descontrair o ambiente de tensão, as moças voltam a dançar e interagir com Vega como se nada tivesse acontecido. Russel guarda a chave municiada de uma canivete obsidiana de volta em seu bolso. A moça ao seu lado que estava na companhia de outro grupo, mostrava-se desconfiada da atenção que Russel dava para Vega. Foi nesse momento que Russel nota a bela presença da mulher. Como a moça estava conversando com membros de outra mesa, preferiu não se aproximar por enquanto. Bastante sagaz e intuitiva, ela percebia as nuances dos sentimentos das pessoas à sua volta com relativa facilidade.

            Enquanto o motorista era sutilmente flertado pela misteriosa mulher, Vega se divertia com junto às 20 mulheres aos sons da melhor lista de reprodução, escolhida a dedo pelos donos do estabelecimento. Quanto mais as moças se aproximavam dele, mais feromônios o rapaz liberava para mantê-las ainda mais atraídas para si. A euforia era tamanha que alguns homens já estavam se retirando do estabelecimento e migrarem para outra Boate, já que Vega se tornou o centro das atenções daquele lugar. As outras frequentadoras, quando não eram comprometidas, não se mostravam muito interessadas. Se exibisse sua forma oposta, o Transmorfo provavelmente causaria problemas na boate por captar cem por cento das mulheres solteiras da Casa Noturna de forma desleal. Vega era tão camuflado pelos cabelos e vestidos que passou a não ter sinal de vista para Russel. O jovem foi engolido pela doce energia das damas que pairava como veludo em seu corpo.

           Tamanho Rebu em torno de Veja fez com que o fenômeno chamasse a atenção dos famosos "Paparazzis" e jornalistas que estavam a procura de celebridades para atazanar e colocá-las em evidência. Um dos câmeras começou a posicionar as lentes de sua câmera profissional para registrar o rosto de Vega, que ao notar a mira das máquinas, se blinda habilidosamente modificando as formas de seu rosto. Sua face foi então modificada para uma versão ligeiramente diferente da suas feições originais. Quanto mais os jornalistas e paparazzis tentavam captá-lo, menos conseguiam registrar a real imagem de Vega, pois o Transmorfo queria confundi-los com uma face que não era a sua. De tanto procurarem o "verdadeiro rapaz" que estava no meio da enorme roda de garotas, os mexeriqueiros de plantão se mostraram bastante decepcionados uma vez que haviam perdido uma noite de trabalho. À medida em que o moço rodava, sua visão ia captando o semblante de confusão no rosto das mulheres, que até então, pensavam estar vendo outra pessoa no lugar de Vega. A visão do rapaz se circundava em trezentos e sessenta graus, momento que cada rosto feminino era como cenário de um bobódromo. Verônica, começa a olhar o seu copo com um semblante de indignação:

[Verônica] — "Eu tô ficando drogada ou você mudou de cara?" — [diz, perplexa].

            Vega tampa o seu rosto frente à moça e retira gentilmente suas mãos de sua face, voltando a adquirir o que seu rosto como era antes, assumindo a sua real identidade. Por um breve momento de tensão, a mulher pensa ter tido uma alucinação:

[Vega] — "Quer um copo d'água?" — [o rapaz toca nos ombros da mulher].

            Confusa e ao mesmo tempo aliviada, a mulher olha de volta para o seu copo de bebida e cede um sorriso sem graça para o rapaz Transmorfo. [Verônica] — "Ah...! Eu quero sim....!" — [risos] — "Obrigada." — [constrangida].

 À essa altura, os cameraman já haviam deixado a boate de tamanho desgosto em que estavam, e as outras moças próximas de Vega, também tiveram a mesma sensação desagradável ao ver a súbita mudança no rosto do jovem.

            Ao longo de 10 minutos após a invasão das câmeras dos paparazzis e jornalistas, um dos donos do estabelecimento percebe que a Boate estaria começando a perder pontos de credibilidade com dezenas de clientes. Noventa e cinco por cento dos insatisfeitos era do sexo masculino, o que era compreensível devido à beleza predatória de Veja que culminou com o episódio de violência no bar e a falta de notícias jornalísticas para os profissionais que tentaram capturar a sua imagem. Mesmo sem querer, o rapaz estava se tornando um péssimo negócio para a Casa Noturna, que logo se tornaria palco de repúdio por seus investidores. Sua única esperança, eram as mulheres. Ou melhor: era Vega, o que poderia piorar a situação da Casa visto que apenas dois Transmorfos foram registrados em todo o Globo Terrestre. Sem entender a sinalização negativa em sua plataforma de Tablet, o proprietário atualiza a página por mais de 10 vezes seguidas. O que era para ser o ninho dos ovos de ouro, estava começando a lhe render ervas daninhas, em vista das diversas avaliações negativas de clientes e jornalistas. O pobre infeliz se passou por mentiroso e relapso. Era questão de tempo até as mulheres perderem o interesse na Casa Noturna se não fosse para ter a presença de homens do porte de Vega. Os outros funcionários da Boate rondeiam o dono do estabelecimento para verificar o que estava ocorrendo nas avaliações.

[Proprietário] — "Não é possível...vocês viram isso?" — [abismado] — "Eu tô sendo queimado! Olha, que absurdo...!" — [gesticula].

            Enquanto a Boate parecia se desmoronar a qualquer momento, o terreno parecia cada vez mais fértil para o Transmorfo no estabelecimento. O efeito colateral já havia sido instaurado, e os gritos de animação das moças em torno de Vega junto à insatisfação dos homens, era o reflexo disso. O rapaz apenas dançava no ritmo da música enquanto era acompanhado pela maioria de suas admiradoras. Todo o movimento que fazia, elas o copiavam. Para todo o passo que daria, elas o seguiam em sincronia. De fato, a noite de entretenimento que foi prometida por Russel, se concretizou até o momento. Quase não havia nenhum homem que pudesse flertar Veja, pois ali imperavam os casais de sexo oposto, e os homens heterossexuais eram presença em peso na Boate. O único que parecia estar chupado dedo, era Russel, que até o momento, estava sozinho. 

        Quando o paparicado moço menos esperava, uma nova frequentadora havia lhe chamado a atenção: uma bela e gorda soprano ruiva, circundada de um elegante vestido longo e aveludado em azul-noturno e com um forte batom em seus lábios. A Nobre Senhora era de uma exuberante corpulência que a destacava entre todas as silhuetas. As mangas acetinadas eram como cortinas que escondiam parte de seus torneados ombros. O seu decote, em perfeita medida para deixá-la ainda mais deslumbrante. A extravagante mulher portava em suas mãos parcialmente cobertas por curtas luvas de festa, uma linda flor branca. Seus cabelos eram espessos, sutilmente ondulados e cheios de vida. A presilha que enfeitava sua formidável cabeleira vinha brindado de joias. Sua pele era lapidada como um diamante, e seu sorriso convidativo, se tornaria a rendição de Vega. Ao passo em que as garotas magras fitavam a soprano com desprezo, Vega se viu perdidamente encantado pela mulher. Russel não consegue deixar de revelar uma leve surpresa em seu rosto enquanto finge estar bebendo uma taça de drink. Os fofoqueiros da mesa ao seu lado, já o observavam com a pecha de "corno manso". Todos ali "linkaram" que o sujeito estava mais afim de Vega do que poderia esperar dele em contrapartida. Já a mulher gótica, não perderia a chance de estabelecer uma pequena aproximação do homem, que nota a sua existência.

             A loucura do rapaz pela soprano ainda era possível expressar em palavras até o momento em que a mulher começa a soltar o seu canto pelos arredores do salão, como uma pequena demonstração. A rainha da noite foi contratada para entreter os convidados com a sua potente voz aguda, e até que seu showbiz começasse, queria aproveitar o tempo para se embriagar. O seu corpo era simétrico, forte e bem distribuído, da cabeça aos pés. Não perdia para as outras mulheres que sequer a viam como uma competidora à altura. A única diferença era que a beleza, para Vega, tinha parâmetros pelas quais não eram os mais esperados pela sociedade em que ele estava abrigado, mas que se opunha ao que ele estaria mais do que  acostumado a conviver em sua distante Terra Natal. Tal feitiço dominava o coração do jovem enquanto se mantinha aficionado pela artista. Nada mais tirava seus olhos daquela mulher.

            À medida em que ela cantava para o seu pequeno grupo de fãs, Vega era chamado pela voz da soprano como quem toca um doce flauta para uma serpente. O moço admirava de longe a sua performance, sua íris brilhava sob a famélica vontade de adentrar por debaixo daquele pomposo vestido perfumado. Sentido suas notas madeira e bergamota, Vega percebe que a soprano estava se mostrando interessada em sua pessoa, mesmo estando distante de onde estava. Como forma de cortejo, a mulher de batom romã deixa a flor branca de suas mãos cair próximo de seus pés como se fosse um acidente. Como a Casa Noturna já estava bastante cheia para prestigiar a cantora, isso fez com que Vega pudesse aproveitar a oportunidade para se camuflar entre o público e sensualmente se colocar de quatro no chão tal como um felino sai busca de seu par. A cada movimento do rapaz, a mulher o atraía o chamando com um de seus dedos esmaltados e vermelhos. Bobão que era, não hesitou em procurar a flor branca que estava próximo dos sapatos prateados da cantora.

            Quando deu por si, Vega percebe a cantora descer de uma pequena plataforma para se aproximar do Transmorfo até o rapaz ficar estacionado em frente aos seus sapatos prateados. Sem a menor cerimônia, o moço captura a flor branca com seus dentes e se infiltra capciosamente sob o longo vestido da mulher, escalando o seu corpo até emergir de seu majestoso decote tal como uma linda flor de repolho nasce em solo fértil. Risonha, a mulher munida de uma taça de champanhe envolve o corpo de Vega como quem agasalha um filhote de gato, e toma a rosa branca de seus lábios enquanto canta docemente próximo de seu rosto. Aos sons de risos e aplausos combinados com os olhares incrédulos das outras mulheres, a soprano arremata a finalização de sua música com um demorado beijo na boca do rapaz, que após ter os seus lábios pintados de rosa, é levado de dentro do vestido da cantora até um dos corredores de onde havia a passagem para os quartos privativos.  Alguns ali, enojados olhavam. Outros de lá, admirados ficavam. As garotas que rodeavam Vega, tiveram vontade de cuspir. Os outros frequentadores, se comoveram com a conexão dos dois. O novo par da noite dividiu o salão entre os semblantes de desapontamento e de encanto. Tal relação jamais florescia nas cabeças de nenhuma das testemunhas ali presentes. Mas assim aconteceu: Vega se viu encantado pela mulher tal como uma mosquinha se atrai para uma quente lâmpada. Seriam os melhores quarenta minutos daquela noite para o rapaz.

[Verônica] — "...Não acredito... Ele pegou a Stella Francesca??" — [incrédula].

[Lia] — "O que ele viu nela...?" — [bestificada].

[Russel] — "...Esse tem coragem." — [sorve a bebida].

           Dois corpos quentes jogados sobre a extensiva cama macia. Sutiã sendo ardilosamente retirado de dentro do vestido. Zíperes lentamente abertos. Camisa sendo gentilmente arrancada sob beijos na nuca. Espremer de mãos sobre a pele. Rosto sufocado sobre o decote. Percorrer de dedos sobre panturrilha e sapatos lançados para fora dos pés. Cabelos segurados como cabresto. Uma tórrida noite de amor se instaurava naquele doce quarto rosa. O mundo poderia estar caindo aos pedaços, mas nada tiraria o foco dos dois amantes. Vega sorve cada parte do corpo da soprano assim como ela o consome da cabeça aos pés. Suas longas unhas prendiam em suas costas enquanto segurava os sedosos cabelos de Vega. Os dois se entregam um ao outro como o último dia de suas vidas e o melhor de seus pecados. Pernas se prendem  uma à outra como cadeados e quadris se movimentam como um ritmo de tango. Perfumes se misturam e os líquidos se encontram. O calor os envolvem. O prazer explode em súplicas mútuas. Após demorados minutos por detrás de um dos quartos de luz vermelha, Vega retorna para o corredor como quem nunca tivesse saído dos holofotes. Estava descabelado e desmanchado tal qual como um boneco que foi avariado de tanto ser balançado de dentro de uma caixa de correios. Para se recompor, adentrou a um vestiário de onde pode ter acesso a um bom banho e um sabonete.

            Russel timidamente observa a mulher gótica que estava tentando pescá-lo aos poucos. À medida em que a moça vai mantendo certa proximidade com o homem fechado, Russel tentava não demonstrar interesse. Com certa discrição, mas sem descartar uma interação para com a misteriosa dama, o homem abre espaço para que pudesse escutá-la pela primeira vez. Seu olhar finalmente se dirige a ela. A moça fixa a visão rumo aos olhos do motorista e deixa escapar um pequeno sorriso de suspense, atraindo a atenção de seu flerte:

[Moça Gótica] — "É seu tutelado?" — [sorri enquanto degusta a bebida].

[Russel] — [breve silêncio] — "...Mais ou menos." — [diz sob um ar sem graça].

[Moça Gótica] — "Mais pra mais, ou mais pra menos?" — [indaga].

            Russel se mostra desconfiado com jogo da mulher para consigo, mas de certa maneira, todos ali já sabiam o que estaria por trás daquela relação recente dos dois. Tentou não levar muito à sério.

[Russel] — "..." — [fita a moça sob um leve constrangimento, coça a cabeça] — "Mais pra ele, menos pra mim."

[Moça Gótica] — "E porque pra ele seria mais do que pra você?" — [curiosa].

                Por um momento, Russel estranha a interferência da mulher apesar de passar a sensação de que já a conhecia. Antes que pudesse lhe dar uma resposta de corte, o homem entende que, apesar de desconhecida, a gentil dama poderia lhe fornecer algum entendimento sobre a vida. Ao invés de se sentir desconfortável com a sua presença, sentiu uma estranha confiança naquela senhora. Seu olhar era de uma mulher idosa, mas muito sábia. Sem falar por alguns segundos, o motorista acaba cedendo um pouco mais de sua abertura para aquela visitante, que já tinha vivido seus primeiros 400 anos naquele planeta. Aquela dama, teria sido uma das primeiras a ter ultrapassado além do limite da vida humana naquela Órbita. Para os humanos, 400 anos era uma eternidade, mas para a moça, sua existência parecia apenas ter principiado.

[Russel] — "Porque ele mais enxerga isso em mim do que eu nele..." — [bebe a garrafa de cerveja].

[Mulher Gótica] — "E o que você enxerga nele que ele não vê?" — [suga a bebida].

[Russel] — [esfrega a mão no queixo, mostra breve hesitação] — "...Como alguém... que eu gostaria de compartilhar uma vida."

[Mulher Gótica] — "Você se sentiria bem em mostrar o que você vê para ele?" — [fita o homem].

[Russel] — [pausa] — "Mais ou menos."

[Mulher Gótica] — "Mais pra menos?" — [olhar profundo].

[Russel] — "Menos pra mais..." — [volta a beber.

[Mulher Gótica] — "E o que o impede de fazer isso?"

[Russel] — "... Não sei se isso vai prestar... sei lá, eu tenho..." — [levantar de ombros, olhar de neutralidade].

          A mulher aproxima-se lentamente do motorista e desliza cuidadosamente uma de suas mãos no rosto do homem, que por sua vez, começa a se sentir envolvido pela mulher.

[Mulher Gótica] — "O quê?" — [proximidade].

[Russel] — "Eu não sei."

[Mulher Gótica] — "Não sabe, ou não quer dizer?" — [olhar fixo].

[Russel] — "Medo... talvez."

[Mulher Gótica] — "Medo de quê?" — [encantada].

[Russel] — "De me apegar..." — [pausa] — "de ser julgado." — [mãos na cintura da mulher].

            Em resposta à investida de Russel, a mulher apoia suas mãos sutilmente nas costas do motorista e aproxima cada vez mais seu rosto ao do homem. O cúmplice de Vega mantinha o olhar compenetrado para a mulher, já completamente amarrado à sua doçura. O seu cheiro, o levava a transcender além aquele plano por alguns minutos. A música perde a potência quando a única coisa que podia enxergar, era o olhar aconchegante da gótica.

[Mulher Gótica] — "De sofrer?"

[Russel] — [balança sutilmente a cabeça acenando positivo].

[Mulher Gótica] — "E qual amor acontece sem que nos faça sofrer?" — [indaga].

[Russel] — [pausa] — "...Nenhum...alguns mais, outros menos..."

[Mulher Gótica] — "Mas continuam sendo amor enquanto houver liberdade... respeito... parceira."

[Russel] — [sorriso de canto] — "É... é difícil..."

[Mulher Gótica] — "Será?"

            Fascinada, a mulher inclina a sua cabeça e direciona seu olhar de doçura para Russel, que se sentia gentilmente vulnerável àquela senhora. Aos poucos, testas vão se unindo uma à outra

[Mulher Gótica] — "O que você mais gostaria de fazer se fosse ele que estivesse na sua frente agora?" — [semblante envolvente] — "Você teria medo?"

            Russel, como uma luz acende em sua mente, beija a nobre moça sem pensar duas vezes. O homem envolve a mulher como quem a laça sob um extenso véu. Há muito tempo não havia tido um beijo tão apaixonado. Ao longo de 15 minutos, ambos os amantes são enviados para outra dimensão enquanto seus lábios permaneciam unidos um ao outro. Não havia música, espaço ou piso sob seus pés, tão pouco uma luz que não fosse apenas de um feixe azul que os cobrissem a partir de um ponto no infinito. Os cabelos pretos da mulher gótica tem a mesma textura dos de Vega. Se lembra de tê-los sentido por entre os seus dedos. A cada minuto de permanecia abraçado com aquela senhora, era como a estrada passando diante dos seus olhos enquanto fita os olhos cor de fogo de seu cúmplice. As suas feições o cobriam de alegria naquele mais pequenino momento de nostalgia. A mulher despertou no homem, os sentimentos mais profundos que até então demorou duas décadas para se manifestar. A música gradativamente retorna ao seu esplendor quando o beijo lentamente se finda. Russel sai de seu transe. A mulher, devolve um belo sorriso para seu ficante.

[Mulher Gótica] — "...É isso que você deve mostrar a ele."

[Russel] — "..." — [pensativo].

[Mulher Gótica] — "Sua vida passa como um fio de luz para ficar somente no 'mais ou menos'... deixe sair." — [acaricia o rosto de Russel].

[Russel] — "...."

            O homem, confuso sobre qual resposta deveria dar à moça, a observa indo embora rumo a uma porta que daria acesso aos quartos de hóspedes. Com uma das mãos na maçaneta e sem dizer uma única palavra, Russel fita a mulher o chamando com os olhos até lugar de onde esperaria pela sua presença. Virando para trás para verificar como estaria Vega, o motorista sinaliza com um laser em uma de suas mãos para avisar seu amigo que não estaria na mesa. Vega acena positivamente para Russel e o festeiro de acesso privilegiado parte em retirada em direção à gótica sem olhar para trás. Era como um menino fugindo de casa pela primeira vez ao raiar da meia noite. Por trás dos holofotes, um grupelho que desaprova a conduta do motorista espiona o casal. Ninguém até o momento tinha ciência de que a moça de 400 anos estava separada, mas nunca havia se divorciado. O "marido": um dos líderes da máfia local.

            Vega percebe os olhares dos elementos logo atrás das luzes da boate e pede licença às mulheres para ir até onde estaria Russel e verificar se a porta estava aberta. Percebe que de fato estava trancada e não queria arrombar a porta para não causar ainda mais desavenças no estabelecimento. Verifica pela fresta da porta como seriam os cômodos do outro lado da parede. Verificando que por trás da barreira em frente a si, havia um corredor de passagem com diversos quartos trancados com uma luz vermelha no topo, teria que arrumar um jeito de distrair o grupelho que o fitava de maneira predatória. Percebendo que Vega tinha alguma ligação com Russel, os membros da máfia queriam usar o Transmorfo como forma de represália para o casal. Vega direciona rapidamente seu olhar para o grupelho e se distancia para ir ao banheiro enquanto vigia os passos de quem viesse atrás de si. Através de um espelho inteligente de dentro do seu bolso, dava para observar um dos indivíduos seguindo o Transmorfo. Quem o via de longe, não consegue enxergar o reflexo do espelho que não fosse o usuário que o carregava consigo. Parecia uma tela escura para quem estivesse atrás de Vega. O moço fingia estar fotografando imagens de si mesmo quando ergue uma de suas mãos e faz um símbolo de um "L", o que na sua cultura, significa "prosperidade".

            Três de seus perseguidores continuam a acompanhar os passos de Vega em uma distância razoável, sem saberem de que haviam tido seus rostos lidos para o reconhecimento do rapaz. Ao adentrar o toalete, Vega simula que irá apenas se olhar no espelho e lavar as mãos. Os três perseguidores adentram o toalete e um dos membros discretamente tranca a ponta do local. Com a torneira ainda ligada, um dos homens aparece atrás de si para lhe aplicar um choque elétrico na sua nuca quando recebe um forte jato d'água de surpresa contra seu rosto, antes que tentasse alguma coisa contra o rapaz. Em ato contínuo, o agressor tenta enfiar o dispositivo elétrico no pescoço de Vega, que segura seus dois punhos sem dificuldade e o empurra bruscamente contra a porta de uma das cabines, momento em que o dispositivo elétrico cai no piso. Com a oportunidade lançada, uma mulher aproveita para tentar segurar o Transmorfo por trás de si e termina bruscamente repelida pela força do rapaz, colidindo com a cabeça e costas contra a parede do toalete. Quando Vega olha de volta para frente, uma membro do grupelho consegue lhe aplicar parcialmente um choque elétrico do dispositivo na lateral de seu pescoço, mesmo tendo seu punho agarrado por Vega por um triz. O rapaz se apoia com um de seus joelhos no chão, mas não desprende as mãos de seu punho, levando a agressora a ter que se agachar para conseguir manter o aparelho ligado. Como forma de reagir à eletricidade, o Transmorfo agarra o punho da mulher para tentar esmagá-lo e inutilizá-lo. Quando estaria prestes a perder a consciência, a mulher solta o aparelho de seu pescoço aos gritos por ter tido seu punho fraturado por Vega. De antebraços e joelhos apoiados ao chão, o Transmorfo recupera a sua consciência e aproveita para interceptar o aparelho de choque enquanto a agressora agoniza de dor.

              Quando percebe que Vega vai capturar o aparelho, a moça tenta se levantar para tomá-lo com a outra mão sem sucesso. Vega o desvia da mulher e permanece com o aparelho em mãos, posicionado de joelhos no piso. O homem que o havia empurrado contra a cabine, agarra o Transmorfo pelas costas para erguê-lo enquanto outra mulher retira uma "AR" de sua cintura para atirar no peito de Vega.

[Mulher Armada] — "Segura ele!"

         O rapaz ficou apavorado a ponto de ceder vários chutes aéreos que termina acertando brutalmente o rosto da mulher que havia acabado de perder o punho tentando se levantar. O guarda-costas das duas mafiosas, parecia ter seus braços sob risco de serem partidos a qualquer momento, tamanha a estupidez da força de Veja.

[Mulher Armada] — "Sai da frente, senão eu não consigo acertar!"

            Em um impulso rápido, o Transmorfo joga o dispositivo elétrico na testa da mulher e golpeia a cintura do agressor com uma cotovelada, fazendo o tiro terminar atingindo a região próxima do ombro do homem, bem na altura de seu braço. Tal feito faz o mafioso soltar o rapaz, que em um acesso de pânico, sai correndo tal como um gato parte em disparada em meio a trezentos fogos de artifício para se esconder de dentro da cabine, aos sons de diversos disparos de tiros. Estacionado em cima do vaso sanitário, o piso e paredes do banheiro estavam cheios de marcas escuras de derretimento, fazendo exalar fumaça e líquido dos buracos. Com medo de levar disparos da mulher, o rapaz trêmulo a observa se posicionar em frente a porta de sua cabine, com seus dois pés à vista. Nesse momento, Vega teme que a próxima região a ser alvejada seja a sua cabeça:

[Mulher Armada] — "Você! Saia daí, agora! Ou eu dispa..." — [interrupção brusca].

            Antes que pudesse terminar a frase, a mulher recebe um forte golpe de portada que a impulsiona rumo a uma colisão fatal de sua cabeça contra pia de concreto do banheiro. Por conta do acidente, a agressora termina morta no luxuoso piso do toalete. Maciça e rígida o suficiente para causar estrago em quem estivesse por perto, porta da cabine se fecha lentamente em frente ao corpo da mulher morta. Ainda sob estresse e adrenalina, Vega diminui os efeitos emocionais de seu corpo e toma coragem para sair da cabine e se deparar com o corpo da mafiosa em sua frente. O rapaz fita o homem com a costela estilhaçada rasgando-se de dor, e a outra mulher, atordoada com seu punho estraçalhado e sua mandíbula quebrada, com pelo menos três de seus dentes perdidos no processo. A mulher sangrava horrores quando coloca a sua mão em sua boca, mal conseguindo pronunciar uma palavra. 

            Temendo que mais um bandido viesse atrás de si, Vega rapidamente desmunicia a arma "AR" e a esmaga junto ao aparelho de choque com um de seus pés, não mais querendo permanecer um único minuto naquele toalete. O rapaz joga as balas da arma restrita no vaso sanitário e dá descarga para que as cápsulas sumissem. Como eram mais leves que as comuns, não seria um problema para que o Transmorfo se livrasse delas. Imediatamente troca a pele de suas mãos, descartando a pele velha no mesmo vaso sanitário. Para que não desse margem a mais suspeitas, o Transmorfo modifica as suas digitais, adotando um desenho diverso do que já havia nas suas mãos e dedos. Antes que a mulher tentasse balbuciar alguma coisa e erguesse um de seus braços para tentar tocar na perna de Vega, o rapaz lhe dá um safanão em sua mão, desferindo um olhar de raiva e surpresa para a agressora já neutralizada. O homem lesionado pelas costelas não conseguia realizar qualquer movimento contra Vega. Para se safar, tenta armar uma situação ao seu favor para acusá-lo.

[Homem ferido] — "Alguém, socorro...!" — [fita Vega].

[Vega] — "Cale a boca, senão vai ser pior pra você!" — [aponta para o agressor] — "Nem tente sair daí, senão eu acabo com você." — [diz enquanto lava as mãos com bastante sabão].

           O homem caído imediatamente se silencia. Ao verem que suas empreitadas custaram a vida da colega, nenhum dos agressores atreveram a dobrar a aposta. Uma nova demonstração de audácia poderia lhes provocar prejuízos mais severos. Vega finalmente se retira do local sem olhar para trás. A infelicidade da circunstância, é que ninguém escutou os tiros e as agressões contra Vega. O maldito banheiro em si, era acusticamente isolado, e ninguém muito se preocupava se por acaso alguém precisasse pedir socorro. Era uma deficiência muito primária, mas o dinheiro fala sempre mais alto. Veja percebe a chave prateada jogada no piso e a utiliza para destrancar a porta do banheiro, fechando-a em seguida.

            Já fora do toalete e assustado com o que tinha acabado de acontecer, Vega vai até o local de pista de dança pensando no que iria fazer diante daquela situação. Com mais uma morte nas costas, o rapaz estava começando a sentir um mal-estar diante da cena que havia acabado de presenciar. Com olhar de súplica e lábios de tristeza, a música tocava enquanto Vega fecha os olhos e respira profundamente para que pudesse se distanciar do trauma. Earl Cash. Uma desconhecida que tentou matá-lo. A contagem de mortes parecia um rastro de maldição na vida daquele rapaz. Nunca um acidente, mas sempre um acidente. Uma das moças que estava ao lado do balcão, vai em direção ao rapaz para certificar se o moço havia passado por algum transtorno.

[Lia] — "Tá tudo bem?" — [preocupada].

            Vega se recompõe e finge que nada muito grave aconteceu.

[Vega] — "Sim, estou bem. É só uns tarados que ficaram me seguindo pela boate."

[Lia] — "Vem que a gente te dá cobertura. Aí nenhum deles chega perto de você." — [solícita].

[Vega] — "Você sabe lutar?"

[Lia] — "Sei. Pratico Artes Marciais desde pequena, então eu aprendi a lidar com esses arruaceiros. Vejo que você também é bom de briga." — [admirada].

[Vega] — "Éh, quase isso. Não sou muito profissional. Mas aceito sua cobertura."

[Lia] — "Vem, vamos comer alguma coisa. Deixe esses idiotas pra lá." — [sorri].

            A mulher sorri e guia Vega pelas mãos até onde as moças estavam. Com a companhia das meninas, o clima volta a se tornar um pouco melhor. Vega aproveita a festa sem deixar de observar a porta por onde Russel poderia sair a qualquer momento. Foi questão de 30 minutos até que uma aglomeração viesse a ser formada no banheiro da boate e dois feridos fossem retirados do estabelecimento guiados por outros dois integrantes da máfia. Preocupado, mas tentando manter a tranquilidade, Vega observa a mulher que havia batido a cabeça na parede sendo transferida em uma maca para que tentassem ressuscitá-la sob suplementação transmórfica. Sem dizerem uma única palavra, os seguranças olham para Vega como se fosse o principal suspeito. No fundo, Vega estaria torcendo para que a mulher fosse ressuscitada. Cada gole e mordida, era um pedaço de sua preocupação que estava tentando tampar com gordura saturada e um pouco de suco de laranja. Para a sorte do rapaz, os mafiosos não gostavam de envolver a polícia e hospitais nos seus problemas internos que não fossem parte de sua estrutura. A movimentação entorno do toalete fez ascender  rumores de que havia um “serial killer” na Casa Noturna. Os olhos maldosos começavam a se voltar para Vega, que percebe as acusações nas entrelinhas.

        Com um pouco de mal-estar pela desconfiança que estava gerando no estabelecimento, Vega planejava pegar Russel para tirar os dois dali. Sem poder se despedir de todas as mulheres com quem estava amasiado, Vega parte em retirada para procurar seu amigo de estrada.

[Vega] — "Lia, Verônica, vou procurar o meu amigo da mesa lá da frente."

[Lia] — "O quê, você já vai embora?" — [desapontada].

[Vega] — "Acho que já vamos, temos que pegar a estrada um pouco mais cedo..."

[Verônica] — "Ah, qual é, fica mais uma hora...!" — [feição de seriedade].

[Vega] — "Eu realmente adoraria, mas acho que vamos nos atrasar se demorarmos demais aqui, nosso patrão é meio chato..." — [sorriso triste].

[Lia] — "Mas que pena... vamos sentir sua falta." — [semblante triste].

[Vega] — "Me passem seus telefones?" — [sorri].

[Verônica] — "Mas é claro!" 

[Lia] — "Lógico. Aqui está."

            Vega recebe dois cartões com os números de contato profissionais para que pudesse manter proximidade com as mulheres.

[Lia] — "Me liga!" — [sinaliza com as mãos].

[Verônica] — "Não me deixa de fora!" — [manda beijo].

[Vega] — [une as duas mãos sobre a boca e lança um beijo para as duas mulheres].

            A passos largos, Vega se direciona até onde estava a porta que ligava o corredor de quartos vermelhos. Sem que percebesse, outros homens enchapelados que não participaram da luta corporal com Veja, estavam em uma mesa distante sob vigília. O rapaz, no entanto, sabia que outro ataque poderia ocorrer a qualquer momento. Entrando no corredor, Vega se depara com Stella Francesca saindo do quarto vermelho, já recomposta e organizada para se preparar para a sua apresentação. Os dois cedem um breve cumprimento e Vega segue procurando em qual quarto Russel estava. Como as portas não deixavam frestas, o Transmorfo teve de se virar colocando seu ouvido sobre as paredes para escutar o que vinha do outro lado. Por seis delas, nada vinha parecido com a voz de seu amigo. Já na sétima porta, o rapaz conseguiu identificar a voz do motorista. Ele estava conversando com a sua amante. Afunilando a unha de seu dedo indicador e retirando um foleado de pele de seu de seu peito para escrever com seu sangue, o moço manda um recado rápido para que seu cúmplice pudesse ler passando o "papel" por debaixo de sua porta. O foleado de pele era mais espesso e com o atrito de papel vergê. Aproveitando o momento em que ainda não foi visualizado pelos bandidos, Veja se apressa para se esconder no vestiário nos fundos do corredor. Os carrascos avançam sobre o tapete vermelho aveludado em busca do casal. Russel nota o recado de Veja enquanto veste suas roupas e visualiza o que está escrito: "Tem alguns caras atrás de você, e eles estão vigiando a porta do corredor. Acho que tem algo a ver com a mulher que está com você!"

            Era o momento exato para o homem acender o pisca alerta e começar a se arrumar para sair do quarto. A moça de extensivos cabelos pretos o nota um pouco mais agitado.

[Mulher Gótica] — "O que foi, amado?"

[Russel] — "Ah." — [silêncio] — "Nada."

[Mulher Gótica] — "É seu bebê que está chamando? O que é isso na sua mão?"

[Russel] — "Preciso ficar a postos. Daqui a meia hora irei pegar a estrada."

[Mulher Gótica] — "Mas já? Você mal aproveitou a noite. Por que não dorme aqui comigo?"

[Russel] — "Quem dera." — [sorri] — "Eu não recusaria se não fosse o meu chefe."

[Mulher Gótica] — "Chefe? Está falando daqueles mafiosos que ficaram nos olhando da mesa de fundo?" — [olhar transitório do melancólico ao simpático].

            Russel trava momentaneamente e presta atenção à mulher enquanto se mostra surpreso. De fato, havia notado uma movimentação por detrás dos holofotes espionando a ele e sua amada por longo tempo.

[Russel] — "Vem cá... de onde você arruma tanta precisão nas suas conclusões?" — [desconfiado].

[Mulher Gótica] — "É que eu já fui casada com um deles. Mas..." — [interrupção].

            Antes que pudesse responder, o casal escuta alguém bater à porta por quatro vezes seguidas. Os sons eram abafados, mas firmes o bastante para sinalizar que o próximo hóspede não seria pacífico. Já com o semblante bastante sério pela vigilância infame de seu ex- marido, a mulher se levanta da cama para colocar um roupão escuro com uma marca de dragão dourado nas costas. Russel, começa a travar a sua musculatura e a redobrar a atenção nos passos da mulher:

[Mulher Gótica] — "Caso as coisas se escalem, quero que saia daqui pela janela do banheiro, você ouviu bem?" — [fita Russel].

[Russel] — "..."

[Mulher Gótica] — "Não fique aqui mais um minuto se eles me atacarem. Estão armados com uma AR."

[Russel] — "..." — [pausa] — "Eu posso te ajudar."

[Mulher Gótica] — "Não, não pode. Avançar será morte certa." — [alerta ao homem] — "Acredite, você não vai conseguir triscar em um único fio de cabelo deles."


[TRÊS BATIDAS FORTES NA PORTA]


                            "Eu estou ouvindo vocês!"


[OLHAR FECHADO E APREENSIVO DA MULHER]


             "Abra essa porta, Madalena! Você não tem autorização para se engalfinhar com outro homem! Você ainda é minha esposa e tutelada!" — [aponta o dedo] — "Saia daí e largue seu amante descarado que você usa como copo engordurado!"

[Russel] — "Escuta aqui, seu palhaço, você não manda...!" — [raiva incontrolável].

[Madalena] — "Ssshh!" — [tampa a boca de Russel com certa força] — "NÃO RESPONDE..." — [tom gradual de raiva].

            "Eu não mando o quê?! Responda se tiver coragem, seu bastardo! Sabe com quem você tá falando, sua boneca inflável?! Eu vou desossar você e vou escravizar aquela gracinha que anda com você! Ele é seu amante SH, não éh? VAI FALAR ALGUMA COISA AGORA?!" — [bate à porta com força].

[Mulher Gótica] — "Cala essa boca, Vicenzzo!!" — [bate à porta] — "Sabe que se eu abrir essa porta, eu mato você! VAZA DAQUI! Seu velho pedante e decadente!!" — [responde com brutalidade].

[Vicenzzo] — "Você vai ver quem é decadente aqui, sua ordinária!! Se não abrir essa porta, sou quem vou arrombá-la!!" — [aponta ostensivamente o dedo].

               Encorajado a lutar mas segurando o impulso de arriscar sua vida, Russel suspira com raiva e cerra seus punhos tal como um balde de água fria fosse jogada no seu corpo. Logo após, voltou para si: percebeu que poderia facilmente virar um cadáver se ousasse a avançar passos à frente de sua cúmplice.

[Madalena] — "Fique atrás de mim...!" — [sinaliza com um dos braços] — "Não entre nisso, que eles vão matar você!" — [suspira].

[Russel] — "Mas e você, vai enfrentar eles sozinha?! É uma SH?!"

[Madalena] — "É claro que sou! Senão eu não teria essa bola toda..." — [fita a porta].

            "Abra essa porta, Madalena!!" — [desfere tapas na porta].

       A mulher caminha lentamente rumo à porta sob fúria incontrolável enquanto o seu dedo indicador aponta para onde estava a maçaneta, bem em frente ao umbigo de seu algoz. O olhar raivoso de seus olhos cinzentos miravam rente ao olho mágico por onde Vicenzzo poderia ver a sua ex-mulher.

[Madalena] — "Vicenzzo, eu juro que você se atrever a invadir esse quarto, eu LIQUIDO você e seus capachos!!" — [adverte].

[Pausa de segundos]

[Madalena] — "DÊ UM FORA DAQUI!!" — [berra].

          A potência vocal de Madalena faz os homens se sobressaltarem por um breve momento e recuarem um passo atrás. Mesmo que negasse a realidade diante de si, Madalena era uma ameaça em potencial à vida de todos que cercavam aquela porta. Ao se entreolharem por milésimos de segundo, os invasores caem em si e novamente avançam para tentar intimidar o casal de amantes. Sentindo-se constrangido e culpado, Russel apenas observava atentamente a discussão dos dois separados. O motorista mal sabia onde enfiar a cara.

[Vicenzzo] — "Pois então EU VOU INVADIR ESSE QUARTO, MADALENA! Eu tenho uma AR e você não pode me intimidar!" — [ameaça pelo buraco do olho mágico].

            Quanto menos Vicenzzo esperava, um som estrondoso sobre a maciça porta faz com que um amasso projetado com o formato da mão de Madalena pudesse ser visto bem próximo de seus órgãos vitais. Tal advertência saltou os olhos do homem.

[Madalena] — "O próximo vai ser a minha mão arrancando seu intestino!!"

            O estranho barulho fez com que os seguranças da boate estranhassem as batidas nas espessas portas vindas dos corredores dos quartos.

[Segurança 01] — "Você ouviu isso?"

[Segurança 02] — [aponta o dedo rumo às janelas dos fundos da boate] — "Também ouvi gritos."

[Segurança 01] — [pausa por alguns minutos] — "É aquele SH..."

            Percebendo que se tratava de uma emergência, um dos seguranças aciona um dos walkie-talkies para se comunicar com outros colegas:

[Segurança 02] — "Monet, o corredor dos quartos privativos está tendo gritos e socos na porta."

[Desconhecido] — "Já estamos indo pra lá." — [encerra].


------[VÁRIOS SEGURANÇAS FORTEMENTE ARMADOS ADENTRAM A BOATE]-------

            

            Os seguranças do estabelecimento invadem a boate de tal forma que se assemelhavam a um enxame de abelhas que acabaram de terem sua colmeia chacoalhada. Antes que Vicenzzo e seus agressores pudessem de fato arrobar a porta para derrubá-la, três tiros são escutados de fora da Boate. Segundos se passam e surge Veja tal como uma sombra de um gato que se arranca em carreira para fora do corredor de quartos. Foi tão rápido que em milésimos de segundo desapareceu de vista. Três homens que estava em frente ao quarto de Madalena e Russel, arrancam pés a frente para irem atrás de Vega e caçá-lo, enquanto Vicenzzo e os outros dois comparsas estavam sem entender nada do que estava acontecendo. Por conta a confusão, a porta é fortemente arrombada por Madalena contra seu ex-marido, que termina sendo fortemente golpeado e jogado contra a parede do corredor. 

            Quando Vega menos esperava, uma tonelada de seguranças munidos de AR em seus punhos aparecem no salão para cercar a pista como quem persegue um terrorista. Como foi o único a ser visualizado saindo do quarto, o primeiro segurança que lhe apontou o dedo já o deu por decidido com um alvo em sua testa: era o "culpado" pela confusão. Afinal de contas, quem poderia amassar aquela porta? Madalena, ou Vega. Madalena era da casa, Vega, não. Tombando em todos os cantos do estabelecimento, o rapaz pulava desesperadamente as mesas da boate como uma lebre apontada para ser a próxima refeição do dia de ação de graças.

        Os três homens que estavam caçando Vega foram instantaneamente atropelados e derrubados ao piso pelos brutamontes. Um deles foi jogado contra as mesas e parede. Os outros, foram agarrados por vários guardas que jogaram todo seu peso contra os seus corpos. Pensaram se tratar de comparsas de Vega. Como o Transmorfo deixou suspeitas do assassinato no toalete, todos os agentes de segurança acenderam seus pisca-alertas. Mais dois tiros foram disparados para cima, o que fez com que o moço derrubasse tudo o que visse pela frente, desde mesas, holofotes, cadeiras, extintores de incêndios, garrafas e até pessoas. Sequer uma sombra foi poupada do pânico de Veja.

             O rapaz estava tão apavorado que partes dos botões até foram arrancadas de sua elegante camisa. De tão estúpidos e irresponsáveis, os seguranças deixaram vários buracos nas paredes do estabelecimento por conta as armas AR, o que provocou um imenso prejuízo para o dono da Casa Noturna. A confusão era tamanha, que a pobre cantora soprano se escorregou em meio ao piso ensopado de champagne e outras bebidas alcoólicas. Pessoas eram empurradas e muitas até se machucavam.

            Madalena, de frente aos outros três homens sedentos por sangue, inicia um jogo de tapas e mãos sendo contidas contra seus algozes enquanto toda a luta corporal é feita diante dos olhos de Russel. Tudo ocorreu de forma muito rápida e brutalizada. A cada tapa no rosto de Madalena, era outra mãozada na face de um, uma braçada no nariz de outro, e uma pesada no estômago do último. Os três homens tentam inutilmente segurar a mulher quando ela derruba cruelmente os bandidos como elefante esmaga suas vítimas. A moça lança um deles contra a parede, cede uma ombrada que colide a cabeça de outro, e torce os dois braços do último antes de completar o golpe final por meio de um de seus pés.

         Antes que Russel pudesse auxiliá-la, Vicenzzo se levanta para mirar a arma de uso restrito contra o motorista, que é fortemente empurrado pela mulher contra a parede próxima ao banheiro. Quando o homem dá por si, Madalena já tinha levado um tiro em sua cabeça, caída no chão. Apavorado, Russel se tranca no banheiro, saca o máximo que conseguia de seus pertences, e se retira do estabelecimento pela única janela que havia disponível no toalete. Em ato contínuo, Russel corre ligeiro para o outro lado da casa para interceptar Vega o mais rápido que pudesse. Com o pânico instalado na Boate, em especial, pela difusão do boato de um Serial Killer entre os frequentadores da Casa Noturna, muitas mulheres estavam aterrorizadas para saírem do estabelecimento. Todas estavam prontas para destruírem as paredes da Boate e partirem para longíssimo dali. Em oposição ao ato de fuga das frequentadoras, um dos burocratas do estabelecimento bloqueia a passagem da porta principal:

[Mulher 01] — "Moço, tem um assassino a solta na Boate, pelo amor de Deus, tem DUAS mulheres mortas aqui!"

[Segurança] — "Não tem nenhum Serial Killer aqui, isso é fake! Se acalmem todo mundo!" — [grita estendendo os braços].

[Mulher 02] — "Deixa a gente sair, cara, eu tenho uma filha me esperando lá em casa!" — [implora].

[Mulher 03] — "Vão esperar que ele mate mais alguém aqui?!" — [clama].

[Segurança] — "Não vai sair ninguém sem pagar! Para trás, todas vocês!" — [aumenta a voz e fecha a cara].

[Mulher 04] — "Isso é cárcere privado! Nós vamos PROCESSAR essa casa!" — [aponta].

[Segurança] — "Processa, minha filha! Eu não sou o dono daqui! Eu só estou seguindo ORDENS da Boate! NÃO...VÃO..PASSAR!" — [gesticula].

          Enquanto uma população se aglomera para sair do estabelecimento e o medo de um suposto Serial Killer à solta se escalona, um grupo de homens munidos com um taco de baseball se une a procura do elemento fictício que havia sido criado no consciente coletivo. As armas entravam de livre acesso na Boate. Bem... Não me perguntem por quê. Em poucos minutos, o termo "Serial Killer" já entraria nos assuntos mais relevantes do momento nas redes antissociais da época. Celulares começavam a ser apontados ostensivamente como forma de caça às bruxas a quem era colocado como o potencial autor de uma matança. Tudo parte de uma grande histeria e confusão. Russel, desesperado para encontrar Vega enquanto os seguranças da Boate deixam outras entradas do estabelecimento desprotegidas, acaba sendo alvo de uma das imagens de feitas por um dos neuróticos que o coagia com perguntas inquisitórias.

[Advogado] — "Dá licença, Senhor, você é o rapaz que entrou com um ruivo aqui na Boate? Poderia me informar por que o Senhor entrou pelas portas do fundo??"

                Russel estende a palma da mão para tampar a câmera, desviando-se da tela de celular à procura de Vega.

[Advogado] — "Hey! Eu tô falando com o Senhor! Olha aí, gente, esse rapaz aqui entrou pelas portas do fundo da Boate! Ele é suspeito de ter ligação com o Serial Killer!" — [explana].

                Sendo insistentemente molestado pelo nobre cidadão de porcelana, Russel não aguenta tamanho insulto contra seu caráter e lança mão de sua Magnum 50 contra o nariz do rapaz insolente. Para o seu azar, o silenciador da arma de fogo era do tamanho de sua língua. A conduta de Russel afastou outras pessoas que estavam cercando o motorista para acuá-lo. Por conta da reação inesperada de Russel, o profissional deixa seu celular cair no chão.

[Russel] — "Se continuar colocando essa merda na minha cara e ficar me acusando de alguma coisa, sou eu quem te levo pra cadeira, seu bastardo!"

[Advogado] — "...Abaixa essa arma! Você tá ameaçando um advogado!" — [aponta o dedo com medo].

[Russel] — "Ah é? E eu sou policial! Quer ver minha credencial?? Some daqui, seu caluniador de merda!!" — [parte para cima da moral do homem].

            Temendo pela sua vida, o sujeito pega seu celular de volta no chão e fita Russel com raiva antes de partir. Antes que o motorista pudesse se virar para voltar a procurar Vega, o rapaz de olhos alaranjados surge por debaixo das sombras às pressas e derruba uma das mesas que ainda não tinham sido vandalizadas. Um dos caçadores o segura pela sua camisa e desfere uma garrafa de bebida vazia em sua cabeça. Em ato contínuo, Vega golpeia os membros dos justiceiros amadores com suas mãos para mantê-los ocupados de dor. A trazida do Transmorfo à luz dos holofotes provocou nova agitação no estabelecimento. Russel, temia que fosse iniciado um linchamento contra os dois. 

+++++++ The Substance [Original Motion Picture Score] ++++++++

https://www.youtube.com/watch?v=tKxKuYsx2R0

         A noite caiu bem como um desabamento de terra. O lamaçal de mentiras, maus entendidos e meia verdades, já haviam sido fabricados como estrume fresco. Homens ressentidos, maridos traídos, mafiosos humilhados, mulheres amedrontadas, jornalistas iludidos, seguranças histéricos, sócios falidos, valentões amadores, acertadores de contas loucos por um "Payback". Palhaços Unidos em um só pânico moral: todos se sincronizam para lançarem garrafas de todas as cores espessuras e tamanhos contra os dois aventureiros da noite, uma vez que já tinham sido cravados como alvos do julgamento por conveniência. A fogueira, já havia sido acesa.

             Em um impulso de tirar seu amigo dali, Russel rapidamente arranca Veja pela camisa de seu braço para pularem fora da Boate o mais ligeiro que pudessem. Uma das garrafas que fora jogada a uma distância de 02 metros contra Vega, o acertou sua cabeça, o que fez com que o impacto produzido o fizesse cair sobre o piso escorregadio. Russel o agarra pelos cabelos e corre arrastando seu cúmplice pelo estabelecimento até o portão principal. Reconhecendo o rosto de Russel, um dos vigilantes da Boate abre uma das portas para permitir que o homem partisse com Vega antes que a situação se escalasse ainda mais. Sob vidros, copos e garrafas, Vega se levanta sob as mãos de Russel em seus cabelo e corre junto a seu amigo até o complexo caminhão. Descabelado e molhado de bebida, Vega tem parte dos botões de sua camisa arrebentados pelas agressões e colisões contra seu corpo. Parte de seu braço e ombros já estavam descobertos de tanto que foi puxado de todos os cantos. Antes que o veículo fosse alvejado por armas de fogo, Russel o manobra rapidamente para partir em retirada da Boate. Nada mais ali seria lembrado que não fosse mais um pesadelo como no Motel Dolphin.

              Exceto se não fosse por mais um trágico detalhe...

[VEÍCULO EM MANOBRA DE RÉ]

[Madalena] — "Russel...!!" — [corre pelo asfalto úmido] — "Espera!! Você esqueceu seu...!!" — [interrupção].


[ATROPELAMENTO BRUSCO DE VEÍCULO AUTOMOTOR PESADO DE OITO RODAS].


            Por impulso, o motorista arremessa um de seus pés com toda a força contra o freio do caminhão, o que faz o veículo cantar pneus e expelir fumaça. Como resultado da cena que havia acabado de presenciar, Russel e Vega olham espantados para a tamanha brutalidade com que a pobre mulher tinha acabado de ser atropelada. De camisola em tons escuros e com uma bala cravada na lateral de sua cabeça, a moça gótica ainda arrumou forças para correr até seu amado para lhe trazer o seu aparelho celular. O telefone que estava em sua mão, também se estilhaçou em milhões de pedaços. Apesar do tiro, parte de seu ferimento já havia sido regenerado, o que explica a razão dos dois azarados se depararem como uma mulher tonteada correndo desmioladamente pelo asfalto. O caminhão que ali passava era mais alto e robusto do que o que Vega e Russel estavam. Num ato de extrema ignorância, o condutor estava tranquilamente saboreando sanduíches e bebidas de Fast Food enquanto pilotava o veículo da FUGAN FOX ATACADISTA. Aquele seria o início de um novo trauma para os dois cúmplices naquela noite terrível. Em choque, Vega cobria seu nariz e boca com suas mãos. Russel, colocava as duas mãos em sua cabeça, incrédulo.

                    Quando os frequentadores da Boate foram verificar o que estava acontecendo, Madalena já tinha desaparecido pela estrada. Somente alguns fios de cabelo, pedaços de suas roupas, brincos destroçados, e restos de suas sandálias ainda estavam espalhados pelo asfalto. Dos destroços do celular de Russel, o seu chip telefônico era o único que restava intacto. Pneus do caminhão passam em alta velocidade sobre o único vestígio jogado no meio da estrada. Do que havia sido deixado, nada mais valia à pena. Madalena tinha sido levada pelas rodas assim como leva as memórias daquela Boate. Agora todos os convidados, donos e funcionários deixariam aquele estabelecimento sob ressentimentos, raiva, falência e dores a serem coletados por muitos meses seguidos. O boato do Serial Killer estaria começando a se espalhar como uma praga por aquelas palmeiras iluminadas pela luz da lua.

 

 

         ........."The Godfather 2 Game Music - New York Mood"


 







             


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