BIOTH. VANDORA. ENTREVISTA COLETIVA.PERÍODO DO CHOQUE CULTURAL. HIBRIDIZAÇÃO. 43H15 DA TARDE. 27º MÊS.PARTE#03

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[CENTENAS DE ANOS APÓS OS EVENTOS DA ENTREVISTA COLETIVA. PERÍODO PÓS ARMAGGEDDON. BANHEIRA QUENTE. SALÃO AQUÁTICO. BRINQUEDOS INFANTIS. ALEGMAS. CERCAMENTO DE HOMENS. ARMA DE USO RESTRITO EM MÃOS].

🎬...INÍCIO DA TRANSMISSÃO.

        Camisa cheia de cores. Gravata torta. charuto sob um suporte dourado. Sapatos cobreados. Tom metálico. Quarto lotado de brinquedos e arquétipos de clube infantil. Um diretor de filmes empunha uma rosada máquina fotográfica banhada em prata em suas mãos sem se preocupar com o constrangimento do seu capturado, algemado pelos pulsos. Completamente nu, mas sendo apresentado da cintura para cima, o rapaz continha uma leve maquiagem no contorno dos olhos e o corpo embebido de purpurina e iluminador corporal. Um dispositivo elétrico estava atrelado à nuca do prisioneiro. Era nítida a expressão de medo e aborrecimento do rapaz, que fitado pelas lentes vintage, era registrado cada movimento e intimidação que eram perpetrados contra o estrelato, colocando-o de forma ajoelhada em uma luxuosa banheira.

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[Homens Desconhecidos].

[Diretor] — "Olha pra câmera... vamos... olha pra cá..." — [chama o rapaz de maneira mais incisiva].

        A contragosto, o homem direciona seus olhos castanhos arroxeados para o seu algoz. Com raiva, mas sem deixar ser percebido, o rapaz estava sendo monitorado a todo instante por um segurança munido de uma arma com as características cores branca e violeta.

[Diretor] — "Qual o seu nome, doçura?".

[Rapaz] — "Tallus..." — [expressa ressentimento em sua face].

[Diretor] — "Tallus? Hum. Idade." - [olhar fixo].

[Tallus] — "396 anos, eu acho. Não sei ao certo."

[Diretor] — "Como não sabe?"

[Tallus] — "O tempo aqui é diferente de lá..." — [olhar cansado].

[Diretor] — "Eu ouvi falar. Um dia lá parecia ter umas..." — [pensativo] — "60 horas, é isso?"

[Tallus] — "Sim, é isso..." — [exibe sutil expressão de aborrecimento].

[Diretor] — "Ok... uau, como você é lindo. Que beleza formidável você tem..."

[Tallus] — [expressa vergonha e ressentimento].

[Diretor] — "Você é perfeito, sabia disso? Sério..." — [admiração] — "você é perfeito, Tallus." — [aproxima as lentes].

        Tallus permanece em silêncio enquanto o seu algoz desperdiça cada segundo da sua vida venerando seu escravo. As algemas em seus pulsos serviam apenas de adereços, já que o dispositivo anexado em sua nuca fazia todo o controle que o Diretor precisava para manter Tallus consigo.

[Diretor] — "Como você está agora, belezura? Não está feliz?"

[Tallus] — [deixa escapar um gradual semblante de desprezo e irritabilidade para com o homem].

[Diretor] — "Eu sei, eu estou brincando com você, filho." — [entre risos] — "É óbvio que você não está feliz... e não é pra menos, trabalhou o dia todo. Mas no fim, você continua sendo a nossa estrela brilhante..." 

        Sons de capturas de câmera são disparados junto a emissão de papéis fotográficos um atrás do outro.

[Diretor] — "você vai me fazer uma montanha de dinheiro." — [diz, animado].

        As intrusas lentes são diretamente focadas no olhar de Tallus. Cada pequena expressão de desdém misturado ao medo, receio e constrangimento, era um novo sinal para o encanto do agressor. Os outros homens permaneciam completamente mudos. Seus olhares, sedentos como coiotes à procura de carne. Incomodado, o rapaz algemado tenta desviar o rosto da câmera rosada.

[Diretor] — "Hey... por que está virando o rosto? Vamos, coloque os dedos entre as orelhas." — [ordena] — "Tire um pouco dos cabelos. Isso mesmo. Vire pelo menos os olhos pra cá. Muito bom, muito bom..."

        Um longa pausa para aproximar a imagem das lentes para o olhar de desalento de Tallus é despendida pelo Diretor, que tira várias fotos uma atrás da outra, para se deleitar com as feições do homem.

[Diretor] — "Você merece um nome mais bonito, Tallus... seus pais não o batizaram como merecia." — [feição irônica] — "Desculpe por isso." 

        Tallus volta seu olhar para a câmera e mostra-se sutilmente ultrajado pelo desdém do homem. O carrasco, no entanto, adorava seus olhos como quem venera um diamante.

[Diretor] — "Hum. Olhar profundo. Íris marcante. Sabe por que está aqui, Tallus?"

[Tallus] — "..." — [exibe silêncio e constrangimento, desviando o seu olhar].

[Diretor] — "Sabe?" — [aproxima as lentes].

        Tallus respira fundo e mostra-se receoso em responder à pergunta de seu carrasco.

[Diretor] — "Quando você aterrissou aqui na Terra?"

[Tallus] — [mostra breve hesitação] — "Foi... em 24 de Abril de 8.888 depois de Zero..." — [expressa desconforto].

[Diretor] — "Veio de onde?"

[Tallus] — "BIOTH. Vandora. Ponto-Leste." — [olhar de desalento].

[Diretor] — "Não quer contar para nós do porquê veio pra cá?"

        O homem exibe uma expressão devassa à medida em que conduzia as respostas do Super-Humano. O rapaz desvia novamente o olhar para baixo e cerra brevemente os olhos antes de responder ao homem:

[Tallus] — "Eu fui condenado ao Exílio... banimento." — [olhar de decepção].

[Diretor] — "E por quê?... Hum?"

          Uma breve pausa foi dada por Tallus, que se sentia envergonhado de lembrar da perda de sua condição de cidadão de seu País.

[Tallus] — "Fui expulso por participar de guerrilha armada..."

[Diretor] — "Contra quem?"

        O rapaz nu volta a desviar o rosto para o canto inferior direito, o que faz com que o Diretor volte a enviar comandos ao capturado por meio de estalar de dedos.

[Diretor] — "Hey! Olha pra câmera, Tallus... não tem motivo pra ser tão tímido. Tem?"

        Pausa.

[Diretor] — "Posso ver você mais de perto?"

        Pausa. Lentes aproximam-se do rosto de Tallus enquanto este se mantém com o rosto levemente abaixado, triste e abatido. Tallus tenta deixar o rosto ereto, mas seu olhar denuncia a exaustão que sentia pela ausência de oito semanas de descanso, o que o impedia de manter os olhos abertos. O Diretor, estala novamente os dedos no intuito de chamar a sua atenção.

[Diretor] — "Fala." — [ordena].

        Tallus desperta.

[Diretor] — "Sabia que você é melhor do que tudo que já foi criado? Tem ideia de como você é perfeito?"

[Tallus] — "..." — [abatido].

[Diretor] — "Fala pra nós. Diga que você é perfeito. Queremos ouvir você. Sua voz é bonita... Vai nos dizer?" — [segura firmemente a câmera].

        Tallus suspira em meio ao cansaço e humilhação.

[Tallus] — "Eu..." — [engole seco e olha para baixo] — "sou perfeito, eu acho."

[Diretor] — "Você acha?" — [leve sorriso] — "Você é."

        Breve silêncio.

[Diretor] — "Ele não é fantástico?" — [pergunta para um dos seguranças, que confirma com a cabeça].

        Após segundos de pausa, um dos seguranças armados pega um patinho de borracha próximo a uma pilha de brinquedos e o coloca nas mãos algemadas de Tallus sob os comandos gestuais do Diretor. O olhar do capturado se fixa fortemente à arma de uso restrito junto ao homem de terno, o que o faz ficar momentaneamente amedrontado, temendo ser alvejado caso desse uma má resposta ao seu algoz. Por sorte, o vigilante apenas lançou um sorriso para o pobre rapaz que estava nu e vulnerável em uma banheira de água enfeitada de produtos para festas. Segurando o brinquedo, o rapaz volta seu olhar para o seu carrasco.

[Diretor] - "Nunca é demais repetir, eu sei que você já está entediado de ouvir isso, mas... você tem ideia do quanto você é perfeito?" — [mantém a câmera segura].

[Tallus] — "...Não."

[Diretor] — "Você bate de frente com a "INVEJA", sabia disso? Conhece a Inveja?"

        Tallus se silencia.

        Um dos seguranças resolve participar do assunto abordado pelo carrasco.

[Segurança] — "Inveja é uma Indústria de Cosméticos Brasileira, a mais difundida e respeitada de todas já conhecidas".

[Diretor] — "Oh, a minha esposa adora essa marca...!" — [sorri, jogando uma das mãos para frente] — "Nunca quis se suplementar, não sei por quê." — [ironiza].

[Tallus] — "Eu sou melhor do que uma empresa de cosméticos?" — [olhar de desolamento].

        Uma breve pausa é iniciada com a indagação de Tallus, que atrai o olhar perverso do Diretor.

[Diretor] — "Sim. É por isso que você está aqui. Fala pra mim."

[Tallus] — "... Falar o quê?" — [cansaço].

[Diretor] — "Sua história com seu povo. Você ainda não me respondeu contra quem você participou de uma guerrilha armada no seu País... Vandora, não é? Nome exótico." — [fixa as lentes em frente ao rapaz, que é exibido da cintura para cima] — "Gosta de pegar numa arma, Tallus?"

        Discretos risos coletivos ecoam naquele ambiente que mais parecia uma mistura de sauna com um parque aquático. Constrangido pela provocação, o rapaz exibe uma leve irritabilidade evidente em seu rosto, mas continua mantendo as aparências.

[Tallus] — "Contra vocês..." — [exibe um olhar de desprezo para o homem].

[Diretor] — "Vocês quem? Os alemães?"

[Tallus] — "Não. Os Americanos..." — [mostra uma discreta raiva e desprezo em seu rosto].

[Diretor] — "E é por isso que você está aqui agora, não é? Você é o nosso garotinho agora." — [foca sua câmera].

        Tallus exibe discreta irritabilidade em seu rosto. A vontade do homem era de triturar o crânio de seu carrasco com suas próprias mãos. Como poderia ser alvejado, preferiu não desperdiçar sua vida.

[Diretor] — "Como você está agora?" — [indaga].

        Tallus não entende a pergunta de seu raptor.

[Diretor] — "Posso ver seu corpo?"

        Tallus mostra-se constrangido.

[Diretor] — "Não vai se negar a mostrar o seu corpo, vai?"

        O rapaz respira fundo e cerra brevemente os olhos.

[Diretor] — "Você não tem muita escolha, vai ter que se levantar se quiser que nos demos bem. Vamos. Queremos ver você. Levanta." — [ordena].

        Olhando para os lados, o capturado se mostra profundamente desconfortável com o comando de seu algoz, cerrando seus olhos e lábios como um sinal evidente de vergonha. Resistente em ser visto nu pelos dez homens que estavam no recinto, o olhar do Diretor se contrapõe ao seu sorriso mascarado de raiva e cede um leve toque nas mãos de um dos seguranças, que sutilmente aponta a arma de fogo para próximo de Tallus. O capturado mostra-se intimidado pela ameaça evidente contra sua vida. Sem opção, o rapaz de cabelos e olhos castanhos arroxeados ergue-se lentamente da banheira a fim de que seu corpo pudesse ser totalmente exibido em frente às lentes da câmera. Encostado à parede como se quisesse fugir, o rapaz cobre suas partes íntimas para tentar diminuir um pouco da vergonha que sentia.

[Diretor] — "Tá cobrindo por quê? Retire as mãos." — [ordena]. 

        Um dos homens do recinto afasta as mãos do capturado, que não enxerga outra alternativa senão aceitar as ordens de seu carrasco. Tallus vira seu rosto e tampa suas feições o máximo possível com os seus cabelos curtos.

[Diretor] — "Viu só? Não motivo nenhum pra você ser tão tímido. Olha esse corpo! Olha que simetria..." — [filma o corpo e o rosto escondido pelo rapaz] — "Olhe para a câmera, filho, não me faça repetir outra vez."

        A vítima se assusta com a ameaça e fixa seu olhar para a câmera, que não interrompe o registro do medo e indignação expressa em seu rosto. Tudo que Tallus queria era fugir dali.

[Tallus] — "Já posso me sentar?" — [levemente ofegante].

[Diretor] — "Ok, vire de costas, filho." 

[Tallus] — "O quê...?"

[Diretor] — "De costas." — [gesticula].

        Tallus vira-se de costas para as vorazes lentes do Diretor de filmes adultos, que gostava de humilhar suas vítimas para fazer o deleite de seus clientes mais perversos.

[Diretor] — "Levante os ombros. Não esconda a sua beleza. Isso... Muito bom." — [tira algumas fotos] — "Relaxa o corpo, você é muito rebelde. Precisa aprender a se soltar se quiser ganhar algum respeito.... muito bem, terminamos. Pode se sentar."

        Bastante traumatizado, Tallus volta a se sentar cobrindo até mesmo os seus ombros e pescoço com a água da luxuosa banheira.

[Diretor] — "Viram só? O menino é uma Joia, não é? Eu falo, não tem nenhum motivo para se esconder."

        Tallus, ainda de costas para a câmera, vira gradualmente o seu rosto quando destila um ácido olhar de receio e desdém para as lentes do seu carrasco.  

[Diretor] — "Já pode virar de frente para a minha câmera, Tallus. Está em live?" — [continua filmando].

[Segurança] — "Está. Tem 100 mil pessoas no ar."

[Diretor] — "Ótimo. Agora que vem a cereja o bolo..." — [cede um maligno sorriso].

        Tallus, de cabeça baixa e com uma sensação de que seria apunhalado em seu peito a qualquer momento, quase implora para sair das filmagens.

[Diretor] — "Posso te fazer mais algumas últimas perguntas, Tallus?"

[Tallus] — [respiração ofegante, olhar expandido] — "Não". 

        O dono da máquina fotográfica deixa escapar algumas risadas.

[Diretor] — "Vamos, é claro que pode. Vai ter que me responder, você é a estrela da noite, não é?" — [empolgado].

        Tallus começa a exibir um olhar tenso. Suas brilhantes írises de cor ambígua mostram-se bem evidentes rente à câmera rosada.

[Diretor] — "Eu tenho aqui um filme seu... antiquíssimo por sinal." — [analisa o aparelho de mídias] — "É de uma entrevista que uma mulher deu a você e outras pessoas enquanto você ainda era cidadão de lá. Nos diga, você era um dos praianos de Vandora, não era?" — [feição irônica] — "Você é bem mais velho do que eu, deve ter pelo menos visto essa garota de algum lugar. É uma loirona, olhos de diamante, linda pra cacete..." — [se deleita].

        O rosto de Tallus paralisa, seus olhos não movimentam um único milímetro. Seus lábios se mantêm cerrados junto à mudez de sua voz. O Diretor sorri quando percebe o desespero do capturado.

[Diretor] — "Me parece que você era sim. Inclusive você mesmo relata que comeu uma cidadã Americana até ela entrar em estado de choque, não foi?" — [sorriso de satisfação].

        Tallus sente a declaração parti-lo como uma furadeira que lhe atinge seu coração e dizima a sua alma. Mostrando repulsa com um misto de tristeza e culpa em sua face, o rapaz apenas cerra seus olhos e lábios e abaixa gradualmente a sua cabeça. O comentário do Diretor direcionado para Tallus acabou por aniquilá-lo de forma definitiva.


[CÂMERA PERMANECE FILMANDO O ROSTO DO ALVO. MINUTOS SÃO EXIBIDOS NA TELA].


[Diretor] — "Hey... por que ficou assim de repente? ... Ninguém disse que você está errado, disse?"

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O silêncio de Tallus permanece por longos segundos enquanto o Diretor de deleita com a desesperança e o abatimento do rapaz.

[Diretor] — "Não foi o que você disse? Então... por que não quer falar?"

[Silêncio].

[Diretor] — "Diga qualquer coisa, filho..." — [exibe menosprezo em sua face].

[Pausa].

[Diretor] — "Hum? Qual é, você não teve culpa, nem conhecia as mulheres daqui. Por que esconde o rosto? Conta pra mim..." — [mantém a câmera fixada rente ao rosto abaixado de Tallus].

        Sussurros quase imperceptíveis são emitidos pela vítima em linguagem nativa de sua Terra, como forma de emitir pequenas expressões de lamento pelo pobre infeliz.

[Tallus] — "Eu mereço isso... eu mereço... já não importa mais..." — [com a cabeça abaixada, a movimenta negativamente].

[Diretor] — "O quê? ... Não entendi. Pode falar em Alemão?"

[Tallus] — "Não quero falar..." — [sussurra de cabeça baixa].

[Diretor] — "O quê?" — [franze o seu rosto].

[Tallus] — "Não quero falar sobre isso..." — [faz-se ser entendido pelos presentes].

[Diretor] — "Bom... é uma pena. Você é tão especial pra nós, Tallus. Esperava interagir um pouco mais com você..."

        O pato de borracha que havia sido posto nas mãos de Tallus,é deixado navegando ao relento pelas águas da banheira de luxo. Uma gigantesca quantidade de brinquedos do quarto aquático são vistos espalhados como uma pilha sufocante de descarregamento de lixo.

[Diretor] — "Agora você sabe porque está aqui, não sabe?" — [aproxima lentamente as câmeras para o rosto abaixado de Tallus] — "Seu nome agora se chamará "Celestial", certo? Não teremos Tallus nos nossos registros e nem esse nome fará parte da nossa conversa daqui em diante. Ok?" — [Tallus permanece abatido] — "Ah... parece que ele vai ficar apagado assim por um bom tempo... quanto falta de live?"

[Segurança] — "Falta uma hora de transmissão." — [checa o computador].

[Diretor] — "Ok, pode desligar, ele não tá feliz mesmo... quem sabe não damos uma injeção de ânimo nele depois?" — [feição sugestiva]. 

        Tallus repentinamente levanta a cabeça, exibindo um semblante de discreta aflição e medo.


[CÂMERA DESLIGA].


🎬... FIM DE TRANSMISSÃO.


.............RETORNO AO PASSADO...............43H40 DA TARDE...


        O belo soprar das lindas areias furta cor se esbarram sobre as curvas de uma deslumbrante jovem negra, de intermináveis cabelos encaracolados mais cobreados e brilhantes que o metal e olhos de cor mista entre o laranja e o dourado. Banheiros junto a cabines, que foram projetados para atender a alta demanda de frequentadores, eram dispostos a cada dois metros de distância. Alguns banhistas voavam em gigantes paraquedas de nítidas cores fortes e chamativas, com formas semicirculares que suportavam altos voos até nas regiões mais distantes da costa praiana. Ainda assim, os usuários pousavam onde quer que fossem com muita tranquilidade. Entre os voadores, os maravilhosos edifícios que nunca deixavam de apostar nos revestimentos das mais variadas tonalidades espelhadas, desde o lilás, o verde-oliva, azul-royal, até a cor de terra. Curiosamente, o vermelho era bem menos usado do que o violeta. Alguns praianos subiam nas robustas árvores com folhas bem compridas e cabeludas para comer frutinhas e castanhas, que davam aos montes como pragas. 

        Os aparelhos eletrônicos eram tão sofisticados que suportavam todo tipo de castigo: pisões, água do mar, superaquecimento, quedas... eram quase indestrutíveis. O mar era tão cristalino que até mesmo as nuances dos corpos de seus frequentadores poderiam ser minuciosamente notadas. Os cílios daquelas pessoas se distribuíam ao longo dos olhos em ordem crescente como finíssimas penas que podiam serem pintados até com tinhas para materiais de construção. Os esmaltes assumiam cores ambíguas, os visitantes que saíam das águas, eram banhados em duchas seguidos com maquiagens em pó que os mantinham desodorizados, quando não os óleos perfumados. Nas regiões mais distantes da costa, locais de maior vegetação eram destinados à manufaturação de minérios preciosos e a tratamentos de pele à base de hidratantes de manteiga e luzes artificiais para secagem rápida. Até os utensílios que eram vendidos pelos praianos tinham seus desenhos projetados à base de cristais e madeira. As joias e os batons tinham aspectos de espelhamento que remetiam a uma vista ao abissal marítimo, com variadas cores intensas para todos os gostos. As flores nevavam suas finas pétalas e uma grande variedade delas eram vistas sobrevoando as praias como cortinas desprendidas de uma janela. Pássaros e borboletas circulavam livre e calmamente entre as pessoas, e mantinham a exuberância equivalente a valiosos cristais. 

        O PONTO-NORTE era um dos cinco locais mais disputados por quem trabalhava em horário noturno ou tinha longas pausas de seus labores. As roupas de praia eram feitas das mais pura elegância e sofisticação. A qualidade era tamanha que até mesmo os seus tecidos poderiam mudar de cor pela vontade de seus usuários. Sequer podia ser visto um único fio solto de suas vestes. Pequenas fogueiras eram feitas para esquentar pequenos bloquinhos de pedras translúcidas para serem aplicadas nos rostos dos clientes, bem como também para abrigar churrasqueiras com enormes lagostas suculentas e temperadas. A comida e a beleza eram fartas, assim como a arrogância e segurança de seu povo. Eram tolos e felizes, mas eram muito solidários. Da mesma forma, a sua disciplina não fica longe de sua confiança voraz. Deus os abençoou, na verdade. 

        Läude assume um novo traje de banho após os longos 15 minutos de visita ao mar, longe dos holofotes públicos. A mulher possuía em mãos uma água de coco do tamanho de uma bola de basquete, já totalmente consumida. Munida de batom nos lábios e de uma singela pintura para os olhos, a mulher ajeita seu pequeno microfone enquanto é captada novamente pela robusta e pequena câmera de Magal, de quem recebeu todo o suporte moral, afetivo e sexual para suportar a estupidez e a futilidade de seus nobres entrevistados, os quais já mal suportava confrontá-los sem que lhe causasse náuseas. Vega, o garoto delicado com quem Läude havia conversado, é visto tendo seus cabelos sugestivamente acariciados pelo homem mais velho, a quem mantinha uma Aliança para manter a proteção do menino contra ataques e atentados à sua vida. A entrevistadora se segura para que não corra o risco de ejetar toda a bebida que havia sido paga com tamanho bom grado pelo homem ruivo. Magal chama a atenção de Läude para que esta se abstraia:

[Estalar de dedos].

[Magal] — "Läude, olha pra cá, se tranquilize. Esqueça o que for externo a você..." — [fita a amiga].

[Läude] — "Ok, vou me concentrar" — [corrige a postura e arruma o seu belo colar].

[Magal] — "Muito bem... vamos começar em três, dois, um..." — [começa as gravações].

        Apesar do desgosto de continuar trabalhando, Läude manteve forças para se mostrar simpática para o primeiro grupo de praianos, já que teve o desprazer de testemunhar uma confissão de uma brutal violência sexual por parte de um de seus entrevistados contra uma Americana. Assolada pela sensação de estar em um ambiente contaminado, a moça loura começa a sentir-se levemente tonta, o que prontamente é notado por Magal e a pega pelos seus braços. Antes de cair na areia, a câmera registra o olhar distante de Läude junto à sua respiração ofegante, o que futuramente entraria para a lista de cenas deletadas para o público.

[Magal] — "Läude, tudo bem? Respire... respire. Sente-se um pouco." — [mostra-se preocupado enquanto segura a mulher].

[Läude] — "Ah..." — [ofegante] — "Não é nada, eu vou ficar bem." — [fecha os olhos] — "Ah... se alguém perguntar, tente disfarçar, não quero que ninguém note..." — [retira uma garrafa de água de sua bolsa para beber e logo em seguida respira profundamente].

[Magal] — "Se não estiver disposta, pode suspender a entrevista, não precisa se desgastar dessa forma..." — [olhar de melancolia].

        Läude imediatamente se levanta e retoma a sua postura.

[Läude] — "Não...!" — [mescla seu sorriso com a sua exaustão] — "De forma alguma, Magal, eu estou bem..." — [pausa] — "vamos começar..." — [mostra confiança].

                Mesmo preocupado com sua fiel amiga, Magal suporta a boa vontade de Läude e ambos voltam a conduzir a entrevista.

[Magal] — "Tudo bem, vamos continuar. E tente não tontear de novo, ok?" — [olha nos olhos da mulher].

[Läude] — "Pode deixar..." — [sorriso cansado].


🎬\\\\\\\\\\\\\\\\\3ª ETAPA DA ENTREVISTA COLETIVA///////////////

-----CÉU LÍMPIDO. VENTOS AGITADOS. PÁSSAROS E BORBOLETAS MIGRANDO PELOS ARES. PÉTALAS SE SOLTAM DAS VEGETAÇÕES E FOLHAS SE ABREM. FINÍSSIMAS AREIAS. BANHISTAS EM REPOUSO FRENTE À LUZ DO SOL. QUIETUDE. LENTES NO ROSTO DA ENTREVISTADORA------

        "Muito bem, meus queridos, estamos de volta para o nosso último Bloco da nossa importante Entrevista Estatal para averiguar a tensa relação entre os Seres Humanos de nossa Terra estrelada e os novos estrangeiros junto a seus descendentes. Também muito conhecidos como "Americanos" pela sua interessante história de conquistas de guerra e vulgarmente nomeados como "Subs" de forma pejorativa pelos grupos mais nacionais, fortes tensões foram sentidas no nosso Bloco anterior por conta da polêmica pauta abordada junto aos nossos entrevistados..." — [pausa] — "Uns concordam que essas pessoas merecem o respeito, a igualdade de tratamento e a dignidade na mesma medida em que os Vandorianos, outros, acreditam que a hierarquia, o privilégio à superioridade de raça e o separatismo, devem imperar nas relações entre esses dois grupos." — [cresce um sorriso de suspense e mãos vai ao peito] — "Eu particularmente estou ansiosa para ver o desfecho dessa fabulosa entrevista tão nua e crua. Venham comigo?" — [sorri, chamando com uma das mãos].


//////////////////////////////////===========>>> TRANSIÇÃO

🎬BARRACAS ASSIMÉTRICAS. TOALHAS DE PRAIA ANEXADAS ÀS AREIAS. BRILHOS DE VIDRAÇAS DE EDIFÍCIOS. FOCO NOS OLHOS DA MULHER. UMA AMISTOSA GAIVOTA POUSA EM SEUS BRAÇOS.

[Läude] — "Olá, rapazes" — [amistosa].

[Ambos] — "Olá...!"

[Läude] — "Como vão vocês? Estão prontos? Tranquilos?" — [animada].

        Todos os praianos respondem ao mesmo tempo.

[Homem 01] — "Claro... estamos ótimos."

[Homem 02] — "Sim, prontíssimos."

[Homem 03] — "Estamos prontos, podemos começar" — [braços cruzados].

        A loura segura um mini microfone vermelho para se aproximar dos entrevistados.

      "Muito bem, Senhoras e Senhores, a nossa Décima Primeira pergunta irá começar com o seguinte tema:"

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 - PERGUNTA Nº 11: VOCÊ CONCORDA COM A SUPLEMENTAÇÃO DOS "SUB-HUMANOS"?

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=====================PERGUNTA 11: RESPOSTAS======================


.............................📹GRUPO 01

[Homem 01] — "Depende. Para o que seria a Suplementação?" — [indaga, de cotovelo apoiado sobre uma das mãos].

[Läude] — "Seria basicamente um cosmético reforçado para rejuvenescer, fortalecer a imunidade, promover a beleza, força bruta e longevidade. Pelo menos neles o efeito do uso da Suplementação Transmórfica se provou fantástica." — [sorri].

[Homem 02] — "Não. Liberar não. Acho temerário. Pode ser viciante e provocar efeitos colaterais... eles não foram projetados para suportarem os remédios da mesma forma que nós, então pra mim, eles só deviam ter acesso sob prescrição médica."

[Homem 03] — "Por mim só sob autorização judicial. Eles podem usar isso como arma, e nós estamos vendo alguns núcleos de Subs montando guerrilha armada com ajuda dessa substância." — [expressão de desconfiança].

[Homem 01] — "Não vejo dessa forma".

        Os outros dois praianos fitam o amigo.

[Homem 01] — "O Suplemento nada mais é do que uma forma de melhorar a qualidade de vida e prolongar a existência de pessoas doentes e em fase terminal. Se os Subs não usarem esses Suplementos eles podem morrer de insolação, fungos, bactérias, viroses, aceleração de decomposição de suas carnes, essas criaturas sofrem muito se não tiverem um remédio à disposição..." — [argumenta].

[Homem 03] — "Mas os cremes protetores, pomadas e uma alimentação adequada já os mantém livres dessas moléstias..."

[Homem 01] — "Não todas. Se comerem algo errado, eles morrem de intoxicação em poucas horas, se pisarem em solo fértil, tem seus pés comidos vivos mesmo com o uso do tópico, se expostos muito ao sol, desidratam até virar pó. Eu sei disso pois já avistei um morrer assim, mesmo sob proteção solar..." — [semblante de preocupação] — "são pessoas que se não tiverem nenhuma assistência, não conseguem sobreviver..."

[Homem 02] — "Ainda acho muito temerário liberar a Suplementação sem nenhuma restrição... esses estrangeiros se matam sob efeito de bebida alcoólica, imagina o que fariam suplementados? Não podemos correr esse risco." — [mostra receio].

[Homem 03] — "Pensa bem, um Sub sob Suplementação Transmórfica praticamente se equivale a um SH." — [ressalta] — "Dar uma arma dessas nas mãos de desconhecidos é receita certa para a nossa ruína." — [fita o praiano discordante].

[Homem 01] — "Não se não fizermos inimizade com eles. Ao invés de convencê-los a nos destruir, podemos fazê-los se juntarem a nós." — [propõe].

[Homem 02] — "O que eu acho impossível tendo em vista que o histórico que tivemos com eles não foi lá dos melhores. Já basta o que aconteceu com os Esmeraldinos." — [cruza os braços e encara desconfiado para o amigo].

[Homem 03] — "Fora que a cabeça deles é fraca. Um Suplemento desses pode desviar o caráter de um usuário Sub. Isso já devia nos servir de alerta para proibir a venda desse remédio pra eles..." — [encara um dos praianos com uma leve contrariedade].

[Homem 01] — "Em doses moderadas não provoca essa alteração. O Controle Sanitário para a venda de Suplementos cuida disso bem. Só acho que não há motivo pra impedir o acesso deles à substância, mesmo que seja sob a forma de comprimidos ou cosméticos. No final das contas, os conflitos armados são muito concentrados e eles vão continuar sendo irrelevantes perto de nós." — [mostra-se sereno].

[Läude] — "Interessante, parece que o posicionamento de vocês se opõe, mas se mostraram bastante consistentes." — [exibe satisfação enquanto realiza anotações em sua prancheta].

[Homem 03] — "O seu grau de confiança para com esses Americanos é admirável, mas sinceramente, acho que você deveria pensar melhor..." — [fita o amigo com preocupação].

[Homem 01] — "Alguns gatos pingados contra 30 Bilhões de Super-Humanos, não. Não há com que se preocupar." — [o homem cruza os braços e exibe demonstração de segurança enquanto olha para o praiano mais conservador].

        Antes que a discussão começasse a se escalar entre os praianos, que repentinamente pareciam se tornarem grandes debatedores, Läude intervém para que pudesse dar continuidade ao seu trabalho.

[Läude] — "Muito bem, acho que todas as cartas já foram jogadas na mesa, podemos encerrar a questão..." — [exibe a palma das mãos]. 

.............................📹GRUPO 02

        A quantidade imensa de chicletes descartados em um balde de lixo já estava começando a cheirar morangos e a derreter pelo efeito do calor solar. Apesar de mascá-los um atrás do outro, o menino bem-vestido nunca se cansava. Saca de sua pequena mochila, um pó desodorante pela qual faria uso em um toalete próximo, pois o tempo quente o fazia transpirar. Läude limpa seu rosto com lenço umedecido até que o menino chicleteiro estivesse de volta. O pequeno microfone também passa por uma breve inspeção pela entrevistadora. O homem ranzinza, por outro lado, se mantém imóvel e de olhar fixo como o de uma estátua. Pelo menos, até começar a se manifestar.

[Mal-Encarado] — "Não. Já tenho calafrios só de imaginar..." — [balança as mãos, feição fechada].

[Rapaz Delicado] — "Eu já concordo. Inclusive vou poder conseguir minha Cidadania Total e andar livremente pelas ruas sem ser atacado. É uma manumissão pra mim..." — [exibe feição simpática para o homem mais velho].

[Mal-Encarado] — "Mas você não é igual a eles, Vega. Se todos eles se suplementarem, vão começar a nos roubar e nos assaltar, tomar nossos recursos... o objetivo deles é CONQUISTAR, sempre foi assim desde que pisaram aqui." — [irredutível].

[Rapaz Delicado] — "O objetivo deles agora é outro. A requisição deles é pela Equidade e um tratamento digno. E pra isso, a Suplementação Transmórfica seria válida..." — [é bruscamente interrompido].

[Mal-Encarado] — "Nivelaria as partes, sim, eu sei disso. Mas continua sendo um erro porque eles são ESTRANHOS." — [reforça] — "E portanto, de culturas e valores diferentes dos nossos. Não podemos entregar nossas riquezas de bandeja pra eles."

        Vega se mostra visivelmente contrariado com o autoritarismo de seu pai, já que, sendo ele um híbrido, sentia muito mais os efeitos da discriminação e da exclusão do que o seu tutelar jamais saberia. Mostrando-se um pouco chateado com a interrupção e exibindo um olhar de desdém para o nacionalista, volta a mexer nas mechas de seus cabelos e a fazer o que faz de melhor: mascar chicletes. Läude, visando tornar o clima menos amargo, coloca uma das mãos para trás e projeta seus membros superiores para frente a fim de dar um ar de simpatia aos entrevistados:

[Läude] — "Acho que ele quis dizer que o acesso à Suplementação para os Sub-Humanos poderia apaziguar a Guerra..." — [sorri simpaticamente].

        O garoto olha curiosamente para os dois.

[Mal-Encarado] — "Sim, mas isso é uma ilusão...!" — [se exalta] — "A Suplementação não iria apaziguar nenhuma guerra, só iria fazer valer a tática Imperialista deles..."  — [exibe negação com a cabeça e mostra-se corporalmente pouco receptivo]. 

[Vega] — "Não dá pra dizer isso de todos eles..." — [olha para o pai].

[Mal-Encarado] — "Mas quando pisaram aqui, eles sabiam muito bem sobre o que faziam parte e o que fariam aqui em BIOTH. Então são todos do mesmo pacote..." — [movimento cruzado de antebraços expressando negação]. 

[Läude] — "E se eu te disser que 80% dos Especiais são contra esse conflito de raças? Isso iria mudar sua concepção?" — [sorriso debochado].

[Mal-Encarado] — "Falar todo mundo fala, que é muito diferente de provar o que diz. Eu não acredito neles." — [cruza os braços] — "Não cedo livremente meus recursos para ninguém quem eu não conheço." — [o homem mostra-se irredutível].

[Vega] — "Tá, mas e eu?" — [desapontado] — "Vou viver assim para sempre?"

[Mal-Encarado] — "Você sabe que comigo você está seguro, não precisa de Suplementação." — [responde ao garoto].

[Vega] — "Isso é o que você acha. Pra mim, isso faz falta." — [rebate] — "Eu tenho 72 anos e sinto como se nem tivesse nascido." — [mostra-se insatisfeito].

[Mal-Encarado] — "Tenha paciência, Vega." — [retruca] — "O mundo não funciona do jeito que nós queremos. E olha pra sua pele! Ela é tão rígida que é dificílima de cortar, vai suplementar como?" — [exibe semblante de irritabilidade].

[Vega] — "Consumindo, ora. Tem Suplementos em pó." — [parte da mecha tampa metade de seu rosto insatisfeito].

[Mal-Encarado] — "Aquilo não funciona, seu tonto. E vamos acabar com essa divagação porque isso não nos vai levar a lugar algum." — [termina a discussão].

        Restando infrutífera a discussão entre pai e filho híbrido, Läude tenta acalmar os ânimos para que seu trabalho não se transformasse em caos.

[Läude] — "Tudo bem, gente, sem brigas, é compreensível o ponto de cada um, mas é importante esclarecer que os Especiais têm muitas dificuldades para viver em BIOTH devido às diferenças biológicas e infelizmente eles foram aprisionados aqui. Portanto, se um dia eles se suplementarem, será apenas para fins de fazê-los se adaptarem melhor à suas estadias nessa Órbita, e não para transformá-los em SH's de fato. Essa é a premissa." — [sorri].

        Ambos olham para a entrevistadora em total silêncio, seguido de um mútuo olhar entre os dois entrevistados. Nada mais comentam.

............................📹GRUPO 03

[Mulher de óculos] — "Eu sinceramente não ligo." — [exibe levantar de ombros] — "Não me interessa o que eles colocam no corpo deles contanto que não venham me incomodar..."

[Homem] — "Êh, êêh... isso não é perigoso? Não tem medo de dar esse poder pra eles?" — [olha desconfiado para sua consorte].

[Mulher de óculos] — "Eu não..." — [cruza os braços e exibe leve desdém] — "Eu não tenho medo deles. Por mim, que se suplementem como quiserem, nunca vão me impedir de nada."

[Homem] — "Eu acho péssimo. É privilégio demais pra quem entrou em País alheio para fins de invasão ardilosa. E isso não é segredo pra ninguém..."

[Mulher de óculos] — "Ah, não vou recuar só porque eles podem se nivelar em níveis de força física, eu nunca gostei de brigar com frangotes e nem me igualo como um... se é pra brigar, que seja com alguém à altura." — [transborda petulância em seu rosto].

[Homem] — "Estou vendo que tem alguém aqui que gosta de brigar..." — [exibe um sorriso simpático enquanto cruza os braços].

[Mulher de óculos] — "Ah, eu sou bastante encrenqueira, até mais que a Bäuma..." — [mostra animosidade].

        O homem contorce suas feições em sinal de receio e tenta abafar o nome da Bióloga com o seu dedo indicador.

[Homem] — "Amor..." — [gesticula com um suave pedido de silêncio].

[Mulher de óculos] — "Que é? Eu tô mentindo?" — [ergue os braços].

        Läude observa pelo gesto do entrevistado a má fama de Bäuma. Sua rusga com sua ex-namorada não era apenas uma exclusividade da mulher e nem seria a única a ter dessabores com a Bióloga. Yosan, mesmo sob as constantes ameaças de sua Tutelar, tentava manter alguns olhares para Läude, que de forma muito discreta, devolvia alguns escapes de sorrisos para a prisioneira. A face de Bäuma se mostrava cada vez vigilante para o rosto de Läude, a quem lançava um ferrão escorpiônico com seu olhar. Sua íris amarelo-mostarda evidenciava a sua incontrolável raiva.

[Läude] — [suspira] — "Bom, acho que vocês já disseram tudo o que tinha para responder..." — [aposta anotações em sua prancheta] — "vou entrevistar o próximo grupo." — [breve sorriso].

        A título de provocação gratuita, Läude caminha próximo de Bäuma e Yosan a fim de desfilar mostrando um sorriso simpático para as duas mulheres, o que atraiu a feição de desdém da Bióloga, que estava de braços cruzados e posição relapsa para demonstrar o mais profundo menosprezo pela figura da entrevistadora. Yosan por outro lado, tenta conter a admiração e o encanto pela loura, que terminou por arrancar leves lapsos de sorrisos da secretária e tutelada de Bäuma. A Bióloga percebe as investidas da entrevistadora e contém o seu imenso desgosto pela atenção que sua ex-namorada estava roubando da híbrida.

............................📹GRUPO 04

[Estudante 02] — "Honestamente, eu não perderia meu tempo controlando o que um Sub-Humano iria usar... sou indiferente quanto a isso"...

[Estudante 03] — "Eu preferiria que sim..." — [apoia um dos cotovelos sobre uma de suas mãos] — "se não me engano, eles ficariam mais próximos de nós se fossem suplementados, correto? Haveria alguma paridade de forças."

[Estudante 01] — "Olha, eu queria dizer que sim, mas não consigo me sentir favorável à suplementação deles... a cabeça deles é muito bagunçada e a tolerância a substâncias é baixa. Se liberar o Suplemento, eles vão abusar da quantidade."

[Estudante 03] — "Eu penso que não. O Líder é muito rígido com o fornecimento desses Suplementos... se fosse assim, todo mundo iria usar de forma indiscriminada."

[Estudante 05-OCULTO] — "Eu mesma falo por mim. Se tivesse a chance, iria tomar esse Suplemento sem dó, ainda que tivesse que comprar de um vendedor clandestino..."

[Läude] — "Até pela sua história de vida, não é mesmo?" — [fita a entrevistada].

[Estudante 05 - OCULTO] — "Ah, sim, com certeza... a diferença entre SH's e Híbridos é gritante! Eu passei mal várias vezes pois todos os alunos das minhas turmas de escola sempre tinham um desempenho mais rápido e eficiente do que eu... e eu não tinha nenhum acolhimento psicológico, só era deixada pra trás." — [a moça joga uma de suas mãos de baixo para cima, gesticulando].

[Estudante 04 - OCULTO] — "Nem me fale. Eu era completamente abandonada à própria sorte também." — [desliza a mão em seu rosto].

                Läude fita a quarta estudante:

[Läude] — "E você? Concorda com ela?" — [aproxima o microfone para a estudante anônima].

[Estudante 04 - OCULTO] — "Olha, seria uma vitória... não só pra mim, mas para as pessoas mais vulneráveis e esquecidas pela sociedade. Até mesmo porque o Suplemento pra nós é uma necessidade e não um capricho, entende?"

[Läude] — "Sim, perfeitamente..." — [Läude faz uma breve pausa travando a sua feição quando nota uma timidez coletiva dos entrevistados] — "vocês por acaso se sentem bem com as respostas uns dos outros, gente? Sinto você tão intimidados...."

[Estudante 01] — "Não...." — [estranheza].

[Estudante 02] — "De forma alguma..." — [negação].

[Estudante 03] — "Aqui todo mundo se conhece, se respeita e protege uns aos outros, apesar das diferenças." — [exibe um breve semblante de indiferença].

        As duas últimas estudantes fitam uma a outra perante o olhar desconfiado de Läude.

[Estudante 04 - OCULTO] — "Nós duas estamos muito bem, na verdade." — [exibe as palmas das mãos] — "Nunca tivemos nenhum desentendimento pelos nossos pensamentos."

[Estudante 05 - OCULTO] — "Eu estou tranquila também..." — [feição neutra].

[Läude] — "Ah, ótimo, que bom que vocês sabem manter uma relação amistosa e respeitável..." — [singelo olhar de canto] — "diferente do próximo grupo que vou entrevistar..." — [Läude acaba deixando escapar um riso para amenizar a situação desconfortante para a mulher].
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        Ambos os estudantes universitários riem junto com Läude apesar de notarem o evidente desgaste da mulher perante a entrevista estatal. O fim se aproximava de uma tensão pela qual os integrantes não mais poderiam evitar. O Nacionalista do grupo fita um dos praianos com desdém, facilmente percebido por Vega, também já aborrecido e de braços cruzados diante do tratamento autoritário de seu genitor. Como forma de se acalmar, o garoto abre um bloco quadrado de chiclete do tamanho de um cubo mágico e o come como quem devora um animal abatido. Bäuma encara sua parceira sob uma discreta ira que estaria prestes a explodir, já que eu ciúme afetivo era duplamente multiplicado: Yosan e Läude. A Bióloga e Militar se sentia insultada com a demonstração de carinho vindo da mulher a quem supostamente "acolheu", sendo direcionado à Biogeneticista. 

        A menina mimada e calculista a quem havia se desentendido com Läude, a encara com desejo de vingança enquanto os três praianos não se mostram muito amigáveis para com o homem mais velho dos grupos, já que os consideravam cínico e hipócrita. Já o mal-encarado dos entrevistados, enxergava os praianos como degenerados. Os estudantes tentavam se manterem neutros diante da tensão que estava se instalando nos grupos. Ainda assim, as participantes anônimas do quarto grupo criaram uma situação que mais parecia uma disputa de forças entre si. Uma crescente raiva e preconceito começa a emergir de alguns dos participantes. Yosan pedia socorro com o agitar dos dedos de suas mãos. A mulher pedante de óculos escuros começa a estranhar os olhares dos outros entrevistados e encara seu marido, que também a fita sob feição de idêntica desconfiança. O clima de animosidade já estaria aos poucos se desmanchando.

        Os Híbridos que participavam da entrevista começaram a reparar uns nos outros. Por mais que não se intrometessem em assuntos pessoais e familiares de outrem, seus olhares se comunicavam entre si. Todos ali sabiam que no fundo não estavam entre amigos.

[Läude] — "Ah... preciso de uma água. Deus, que tensão..." — [dedos em sua testa].

        Magal leva uma garrafa de água gelada para a amiga para que os dois fizessem uma breve pausa para se hidratarem. Enquanto se encostam em algo para conversarem e relaxar, Magal nota que Läude já não mais suportavam encarar Bäuma. Era como uma punição que não findava pelas lentas horas daquele Planeta.

[Magal] — "Quer que eu finalize essa entrevista? Você tá encasquetada com essa mulher".

[Läude] — "Não , eu não quero." — [fita Magal] — "Eu preciso bater de frente com essa cretina, senão ela vai achar que manda em tudo."

[Magal] — "Mas isso ela já pensa, vou me desgastar com isso? Eu acho que você não precisa passar por esse estresse."

[Läude] — "Magal, essa mulher me provoca desde a primeira vez que pisei nessa praia, e eu não saio daqui enquanto não acertar minhas contas com ela... essa vadia me deve." — [mostra raiva e desprezo].

[Magal] — "Bom, então você sabe onde isso vai terminar, não sabe? A pancadaria vai comer aqui." — [fita a mulher].

[Läude] — "Por que você acha que tô dando atenção para a Yosan? Eu quero tirar ela das mãos de Bäuma pra ela não fazer com a moça o que ela fez comigo."

[Magal] — "Isso é uma péssima hora para planejar vingança."

[Läude] — "Não é vingança, é utilidade pública." — [cutuca Magal] — "Ninguém mais aguenta essa mulher...!"

[Magal] — "Se depender de vocês, essa disputa nunca vai acabar..." — [vira discretamente seu rosto].

[Läude] — "Olha, eu fui bem paciente com essa criatura por muito tempo. Mas dessa vez quem vai dar uma lição nela, sou eu..." — [parte em retirada].

        Läude abandona o local de onde estava para dar início à entrevista com o quinto grupo. Magal, com olhar melancólico, apenas se conforma com a raiva de sua amiga e termina de beber a água.

..........................📹 GRUPO 05


        O Trio Parada Dura já estaria formado. Bäuma, Läude e Yosan. Das três, a Dama disputada estava no Fogo Cruzado entre as duas antigas namoradas. Läude, que já estava acostumada a sorrir, já não conseguia mais disfarçar sua insatisfação perante a constante intimidação da Bióloga contra a Secretária. Enquanto voltava, Yosan estava sendo agarrada em seu braço pela sua Tutelar, o que atiçou ainda mais a sua raiva o atrevimento da mulher. No momento e que a militar sussurrava com o rosto próximo a Yosan, Läude joga todo o seu desgosto contra a ex-parceira de faculdade:

[Läude] — "Você tá BÊBADA, por acaso?" — [olhar com raiva].

        A mulher de penteado Chanel gradativamente começa a desafiar a loura pelo desaforo recebido, momento em que as duas encaram uma à outra:

[Bäuma] — "...Você disse o quê pra mim mesmo?" — [aproxima-se da entrevistadora, mostrando gradativamente um semblante de raiva].

        Apesar da tentativa de intimidação, Läude destila um adorável sorriso e tenta alertar a mulher de que estava sendo gravada:

[Läude] — "Está no meio entrevista estatal, não deveria moderar seu tratamento com ela?" — [referindo-se a Yosan].

[Bäuma] — "Saiba seu lugar, Läude. A mulher é minha, não sua." — [aponta sutilmente o dedo para a ex].

[Läude] — "Pode até ser, mas o programa quem está conduzindo sou eu, e você está machucando quem deveria proteger..." — [aponta para Bäuma enquanto mostra insatisfação em sua face].

[Bäuma] — "E você lá é conselheira amorosa, por acaso? Não vim aqui pra receber sermão seu, isso é uma entrevista, não uma terapia de relacionamento, minha filha..." — [piora o tom].

[Läude] — [cede a algumas risadas] — "Não se cansa de fazer vítimas na sua vida amorosa, Bäuma" — [exibe tom de deboche enquanto cruza seus braços].

[Bäuma] — "Vítima?! Uma palhaça como você nem se esforçava pra ser uma..." — [rosto contorcido] — "Acha que eu não sei que você tá de olho nela, sua cadela?" — [aproxima o rosto para Läude].

        Läude fecha gradativamente suas pálpebras até que seus olhos fiquem entreabertos e seu rosto levemente contorcido pela tamanha audácia da Bióloga. Para fazer valer a sua autoridade, a entrevistadora pede para que Magal cessasse as gravações por um breve lapso de tempo, o que é atendido prontamente. Läude, ergue sutilmente um de seus braços para Bäuma, com o seu dedo indicador apontado para seu rosto:

[Läude] — "Preste bem atenção no que vou dizer. Enquanto EU estiver conduzindo essa entrevista, EU tenho autoridade para POLICIAR o comportamento de vocês, inclusive ter a liberdade de PUNI-LOS de forma disciplinar durante TODO o meu trabalho..." — [aponta para si] — "e eu não quero saber de manifestação de seu ciúme DOENTIO em NENHUM momento enquanto eu estiver aqui nesta praia, Comandante Bäuma..."

[Bäuma] — "Ou o quê? Sua VACA. Vai bater em mim?" — [desdém e desprezo].

[Läude] — "Não, Bäuma..." — [olhar fundo] — "vou mandar você para a CADEIA..." — [reforça] — "dezesseis anos de isolamento fará um Belo estrago na sua imagem na Ilha..." — [olhar fixo].

        Bäuma solta poucos risos junto ao afastamento de temporário de seu rosto. Como forma de desdenhar da entrevistadora, a mulher cruza os braços e volta a sorrir encarando a loura como quem se depara com uma criança.

[Läude] — "Você pode me perseguir, agredir ou me assediar quando bem quiser, eu não me importo com a sua existência. Mas é bom que você tenha em mente uma coisa, Bäuma: agressão violenta aqui é CRIME HEDIONDO, e você não será poupada só pela sua Patente, ouviu bem, sua Bastarda?" — [tom de ameaça].

[Bäuma] — "AGRESSÃO... é você tentar seduzir a minha Secretária vulnerável, sua vadia nojenta..." — [aponta o dedo para Läude enquanto projeta seu corpo para frente] — "ela é MINHA propriedade, Läude, não sua." — [aponta para a mulher] — "Se acha que vai ser a Estrela do Céu aproveitadora, você tá redondamente..." — [brusca interrupção].

[Läude] — "INDEPENDENTE do que você ache, Bäuma querida," — [sorri ironicamente enquanto se aproxima ainda mais da mulher] — "ela é uma PESSOA antes de ser sua propriedade... FAÇA uma única marca no corpo dessa moça, e você vai ser ver comigo e com a LEI..." — [fixa bem os olhos no rosto de sua rival] — "Não se esqueça disso, Comandante." — [exibe tom de ameaça].

        Antes que a entrevista coletiva fosse arruinada, a moça híbrida tenta impedir que algo pior aconteça em decorrência de sua suposta culpa.

[Yosan] — "Gente!" — [apressa os passos em direção às mulheres, e logo em seguida, junta as palmas das mãos] — "Olha, eu agradeço a sua preocupação, mas eu estou bem, não precisam brigar aqui por minha causa..." — [suspira] — "Por favor..." — [feição de súplica].

        Läude respira fundo e tenta manter a compostura em nome do bem-estar de Yosan, que temia pela sua punição quando findasse a entrevista. Já Bäuma, se afasta das duas mulheres para alguns metros de distância a fim de tomar um ar fresco e desfazer sua forte ira contra as duas. Yosan fita com preocupação a sua Tutelar.

[Läude] — "Yosan, me escute." — [toca o ombro da moça vitimada] — "Essa cretina uma hora vai agredir você. Saia enquanto é tempo. Encontre outro Tutelar pra cuidar de você, eu te inscrevo no Órgão Governamental que cuida disso..." — [demonstra preocupação].

[Yosan] — "Läud..." — [olha para trás para certificar de que não estaria sendo avistada] — "Eu não posso migrar para um outro Tutelar por conta do meu curso... preciso muito da minha formação, e não tem outro jeito a não ser terminar a Academia ao lado dela. Se eu me separar, ela me tira o meu acesso à Cidadania... e por favor, não brigue mais com ela, ela vai me castigar se você continuar fazendo raiva nela..." — [encara Läude].

[Läude] — "Mas Yosan, você pode fazer o curso tudo de novo, isso não te impede de nada... é muito tempo que você tem que aguentar ao lado dessa mulher." — [feição de preocupação].

[Yosan] — "E manchar a minha imagem na praça? Não, não estou disposta a largar tudo, eu preciso disso..." — [semblante de tristeza] — "Só... só faça o que eu estou pedindo, e tudo vai ficar bem..." — [olha rapidamente para trás] — "vamos parar de nos olhar um pouco também, senão isso vai virar uma confusão..." — [sussurra].

[Läude] — "Eu juro que não tive essa intensão, Yosan, mas..." — [semblante de tristeza e decepção misturada a um profundo suspiro] — "farei o que está pedindo da melhor forma possível..."

[Yosan] — "Obrigada". — [sorriso tímido].

        Läude apenas acena com a cabeça e sai andando para longe de Yosan, momento em que a loura ergue um dos braços para Magal como sinal de retorno de volta ao programa de entrevista. A mulher se distancia até a costa da praia e senta-se no banco de areia. De cabeça baixa, a loura é observada por Magal, que apenas acompanha todo o desfecho daquele desentendimento. Fitando novamente Yosan, o homem ruivo é evitado pela Secretária, que sai logo de cena para tentar confortar a sua esnobe Tutelar. Magal vai até o banco de areia se sentar junto com Läude, que parece soluçar enquanto seu amigo a acaricia em suas costas. Mais do que nunca, todos ali precisavam de uma pausa de cinco minutos.
 
.......................................

        Läude, já destituída de parcela de seu ânimo, somente queria finalizar aquele trabalho sem maiores problemas com qualquer um dos entrevistados. Läude muito pensou em tão pouco tempo sobre como sua vida poderia não ser da mesma forma caso estivesse na pele dos Híbridos que ali estavam presentes. Talvez não teria a mesma sorte ou a mesma bênção, provável que o amor nem seria o mesmo para ela. A coragem, muito menos. Viver sabendo que nada poderá causar grandes danos à sua incolumidade, era como ganhar na Loteria naquele Universo. Os Super-Humanos são os maiores ganhadores de todas as Galáxias. Nenhuma vida seria tão prestigiada quanto a deles, já que eram os únicos encontrados com tantas qualidades formidáveis. Läude muito pensou se realmente seria valorizada da mesma forma se fosse diferente de como havia nascido naquele Planeta.

        De punhos cerrados, a Biogeneticista estaria disposta a democratizar o acesso ao Suplemento Transmórfico, bem como dar continuidade ao Projeto Transmorfo, empreitada de tamanha audácia e risco que estaria disposta a enfrentar. Manipulação genética era uma via de mão dupla: vem com o ônus e o bônus. Poderia fazer seus criadores subirem aos Céus bem como descer ao Inferno. Em silêncio, ajeita novamente seu microfone e volta a manter o seu profissionalismo a fim de evitar a ruína de seu próprio trabalho devido ao seu envolvimento emocional. A contagem para as gravações se iniciaria bem diante de seus olhos cor de mar.

//////////////////////////////////===========>>> TRANSIÇÃO


[Bäuma] — "Bem..." — [suspira ajeitando os cabelos] — "pode parecer estranho pra você, até pelas últimas respostas que dei anteriormente, mas... não sou contra a Suplementação dos Subs contanto que esta seja aplicada somente por médicos, e em doses que não os faça nivelar a nós. Que sejam, no máximo..." — [virar de rosto, olhar de canto] — "parecidos com os Híbridos, talvez... eu detesto eles, mas já que o Estado quer se responsabilizar por eles, então que seja de forma decente."

        Bäuma cruza os braços quando finaliza a sua resposta, cedendo então o espaço para Yosan. A tímida e vitimada moça, demorou alguns segundos para se manifestar.

[Yosan] — "Eu sou a favor do uso livre pelos Especiais porque quero a emancipação dessas pessoas... especialmente para os Híbridos como eu e meu filho, que precisamos muito nos nivelar aos cidadãos daqui."

        A moça junta elegantemente as suas mãos à frente de suas pernas. Läude mostra-se aliviada com a rapidez e praticidade das respostas.

[Läude] — "Obrigada as duas pelas respostas, são pontos bem interessantes..." — [sorriso discreto].

.........................📹GRUPO 06

        Partido em direção a pai e filha, Läude arruma seus curtos e cheios cabelos, desferindo um belo sorriso simpático para os dois entrevistados.

[Läude] — "Vamos lá, pai e filha? Como vocês estão?" — [aponta o microfone].

[Pai] — [palmas das mãos à mostra] — "Eu pelo menos estou ótimo, melhor agora com você." — [mostra-se simpático].

        O cortejo do ousado aventureiro provoca risos em Läude, que aos poucos sentia-se mais atraída pela demonstração da afeição do homem para com a entrevistadora. A menina, que acompanhava toda a cena, revira os olhos envolta de ciúmes pelo desprezo que sentia pela mulher. Läude, por sua vez, faz o que sabia fazer de melhor: ignorar a garota. Tal falta de interação da Biogeneticista deixou a criança profundamente mortificada. Läude prossegue com a coleta das respostas.

[Pai] — "Olha... é uma pergunta complicada..." — [dedos no queixo] — "ao mesmo tempo que acho viável dar a eles um mínimo de dignidade, acho temerário liberar essa substância sem qualquer controle, então eu tenho as minhas dúvidas...".

[Läude] — "Você é a favor então uma Regulamentação do uso, correto?"

[Pai] — [pensa por alguns instantes] — "Penso que sim..." — [afirma com a cabeça].

        Antes que deixasse a mulher partir em retirada, o homem procura estimular a sua filha antipática a participar da entrevista:

[Pai] — "E o que você acha, Mina?" — [cutuca sutilmente a menina, olhando para ela].

[Mina] — "Eu não acho nada, ela nem fala comigo direito, então nem vou mais responder... eu vou é sair daqui e nadar no mar..." — [feição de tristeza e raiva].

        Läude suspira e revira os olhos enquanto move seu rosto para cima.

[Läude] — "Argh, ótimo. Pra quem me discriminou até a pouco tempo, isso é bem coerente..." — [fita a garota com decepção].

        Surpreso com o distanciamento da filha, o pai tenta manter um último contato com a garota:

[Pai] — "Hey... você tem ao menos um biquini?!" — [feição melancólica].

[Mina] — "Eu já ando com roupas de banho por baixo...!" — [retruca] — "E vê se vai pra um lugar mais reservado quando paquerar da próxima vez...!" — [vira as costas].

        Pai e mulher permanecem estáticos em uma atmosfera de choque e constrangimento ao receberem um sermão da garota na frente de outros participantes da Entrevista Coletiva.

ALGUNS MINUTOS DEPOIS...............

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- PERGUNTA Nº 12: QUAL SEU POSICIONAMENTO EM RELAÇÃO AOS HUMANOS MISCIGENADOS? ELES DEVEM SER INSERIDOS NA SOCIEDADE?

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=========================PERGUNTA 12: RESPOSTAS====================

.............................📹GRUPO 01

[Homem 01] — "Meu posicionamento? Pode. Deve, aliás..." — [braços cruzados, feição de seriedade] — "São cidadãos porque são Vandorianos, então pouco importa quem sejam seus pais. Não só acho importante a inserção deles como acho que eles deveriam ser livres de Tutela e interagir com todos os SH's. A concepção de inserção pra mim é ampla." 

        O homem contrai os dedos da mão virada para cima, em gesticulações que indicam sinal de animosidade do entrevistado. Quem imaginaria que tal indivíduo de tamanha inovação e de viés tão inclusivo seria responsável por violentar brutalmente uma Americana recém-chegada naquela órbita? Pois é, nem eu... desculpe, saí da história sem querer. — [tosse] — Aceita um café? Bom, continuando...

[Homem 03] — "Bom, apesar de não querê-los, evitá-los não tem como. Nasceram aqui, então devem ser tratados como Vandorianos, com suas diferenças, é claro."

[Homem 01] — "Concordo. Tenho ressalvas com eles, mas acho que eles devem ser inseridos sim... são parte de nós também. Até porque eles não pediram para existir, correto? Penso que ao invés de excluí-los, inseri-los irá fazê-los evoluir melhor..."

[Homem 02] — "O ideal seria que eles nem existissem, mas já que estão aqui, que sejam inseridos, mas em seu devido lugar..." — [feição desconfiada].

[Läude] — "Desculpe, mas poderiam me detalhar melhor sobre até onde seria essa limitação à inserção plena dos Híbridos?" — [dedos no queixo].

[Homem 03] — "Bom, a inserção no caso não é equivalente a um tratamento igualitário. Os Híbridos podem fazer parte da sociedade, mas não devem ser tratados da mesma forma que um SH porque seria inclusive até um risco à integridade eles." — [esclarece].

[Homem 02] — "Eu já sou a favor de limitar a interação deles conosco. Eles podem ser inseridos de fato para fins de garantia de seu mínimo existencial, mas cada um no seu canto. Eu pelo menos não sinto vontade de conhecê-los ou de ser amigo deles..." — [leve expressão de indiferença].

[Läude] — "Ótimo. Suas respostas foram suficientemente satisfatórias." — [parte em retirada após anotar em sua prancheta].

        Läude caminha junto a Magal para iniciar a coleta das opiniões do segundo grupo. Saturada, a mulher ainda estava na 12ª pergunta, mas aparentava querer finalizar o trabalho o mais rápido possível.

[Läude] — "Vamos acabar logo com isso, já estou ficando sobrecarregada..."

[Magal] — "Já te disse, se quiser, eu te substituo para que você possa descansar..." — [fita a mulher].

[Läude] — "Se puder me substituir nos últimos dois grupos, eu agradeço. Já não basta a Bäuma e agora tenho que lidar com a pequena genocida e o Pai relapso e negligente dela..." — [arruma o seu microfone].

[Magal] — "Acho que a culpa é mais dela do que dele... sério, essas crianças sabem bem o que estão fazendo."

[Läude] — [suspiro] — "Ele acha engraçado as coisas que ela fala... DETESTO quem relativiza o culto à morte... nossa cultura apodreceu." — [expressa rejeição].

[Magal] — "Acredite, apesar disso, você ainda vai querer sair com ele..." — [sorriso de canto].

[Läude] — "Ah, me joga da ponte, Magal...!" — [aborrecimento].

        Os dois membros se aproximam da dupla de entrevistadores e ambos, Läude e Magal, voltam a manter a compostura de profissionais, que apesar de sugados, se mantinham intactos.

.............................📹GRUPO 02

[Vega] — "Claro que devem... eu estaria louco em negar a minha própria existência." — [lança um olhar ambíguo enquanto masca mais um chiclete].

[Mal-Encarado] — "Eu já posso falar por mim. Híbridos não devem ser inseridos na mesma sociedade que nós. Eu só os relevo porque não foi uma escolha deles existir, eles existem por culpa deles..." — [estende o braço] — "e por nossa culpa também... mas eu penso que essas pessoas não podem ser totalmente livres."

[Vega] — "Tá, mas e eu?" — [aborrecido].

        A câmera muda subitamente o foco para o rosto insatisfeito do garoto chicleteiro para com seu Tutelar

[Mal-Encarado] — "Como assim, "e eu" ?" — [aborrecido].

[Vega] — "Eu não devo ser um cidadão?"

[Mal-Encarado] — [exibe a palma da mão] — "Olha aqui, VOCÊ, é outra história. Você é meu filho, mas eu te devo proteção, não Cidadania. Híbridos podem até serem inseridos, mas cada qual no seu lugar. Cidadãos sim, livres, não."

[Vega] — "E no que um separa do outro?" — [encara o homem].

[Mal-Encarado] — "Separa porque o tratamento que dado a mim, jamais será igual pra você, Vega."

        Läude observa a discussão se desenrolar sob um olhar bastante melancólico, mas inexpressiva.

[Vega] — "Nem entre vocês o tratamento é igual, por que tenho que ficar preso? Da forma como fala, parece que eu não faço parte desse País."

[Mal-Encarado] — "Olha quando você fizer uma Universidade, você poderá requerer seu livre arbítrio. Mas agora não." — [tenta limitar o protesto do mascador de chicletes].

[Vega] — "Acha mesmo que alguma universidade vai abrigar Híbridos? Isso é uma questão política, não burocrática." — [cruza os braços].

[Mal-Encarado] — "Burocrática é o que você está tornando essa conversa, dá pra parar com isso?"

        Desapontada e receosa de emitir algum parecer, Läude apenas suspira enquanto espreme seus lábios e vira as costas para os dois entrevistados, evitando fazer contato visual com os dois participantes, que rapidamente se silenciam de forma constrangedora perante a retirada de Läude. De olhos saltados, Vega fica sem entender a atitude da mulher.

.............................📹GRUPO 03

        O casal exótico da praia recebe Läude abraçados como dois pombos vermelhos e pomposos. Como se costume, a mulher nunca tira seus óculos de lentes puxadas para uma forma ovalada. O homem, acaricia sua esposa pelos cabelos.

[Mulher de óculos] — "Pra mim os Híbridos nem cheiram e nem fedem... por mim, podem inseri-los a vontade. Não vejo necessidade de ter que virar babá de um mestiço só porque ele é mais frágil."

[Homem] — "Penso o mesmo que ela. Só não os culpo porque no fundo eles são vítimas dos próprios pais irresponsáveis..."

[Läude] — [de feição melancólica e aparente indiferença, a mulher olha para baixo] — "Hum..."

        A moça, de roupagem arrogante, começa a mostrar preocupação com o desânimo de Läude.

[Mulher de Óculos] — "Você está bem, moça?" — [feição de estranhamento].

[Läude] — [semblante de indiferença] — "Estou ótima." — [balança positivamente a cabeça].

.............................📹GRUPO 04

[Estudante 02] — "Por mim, tudo bem. Nenhum problema".

[Estudante 01] — "Pra mim também não. Não me obrigando a interagir com quem é diferente de mim, eu não me importo."

[Estudante 04 - OCULTO] — "Já deveríamos ter sido inseridos, na verdade... eu não sinto nenhum esforço por parte do Estado para nos tratar de forma equânime..."

[Estudante 05 - OCULTO] — "Também não vejo essa mudança. Fico insatisfeita porque nós não pedimos pra nascer, e ainda assim nos tratam dessa forma." — [cruza os braços].

[Estudante 03] — "Eu entendo inserir na sociedade como construir um modelo social e urbano que atenda às necessidades dos Híbridos, e até então nós nunca pensamos muito nisso..."

[Estudante 01] — "Acho que por serem uma minoria, ninguém nunca nem ligou pra eles..." — [mãos em sinalização de indiferença].

[Estudante 04 - OCULTO] — "Eu já reprovei 05 vezes na escola onde eu estava porque o desempenho exigido dos alunos era muito alto, e eu nunca dava conta de acompanhar... foi assim que eu me evadi do colégio e só voltei 06 anos depois." — [semblante de decepção e melancolia].

[Estante 05 — OCULTO] — "Eu fiquei 08 anos morando na rua... conheci ela quando eu estava fazendo uma fogueira. Nós dormíamos dentro de barracas que eram doadas pra gente. Migrávamos entre porões de mansões, espaços entre as pedras, casinhas de bonecas tamanho gigante... era triste. Eu achei que nunca fosse fazer uma faculdade."

[Läude] — "Isso realmente é muito cruel, entendo a angústia de vocês..." — [sinaliza positivamente com a cabeça].

[Estudante 03] — "Sem falar nos direitos reprodutivos... em alguns lugares, se souberem que uma mulher híbrida está em estágio inicial de gravidez, ela é dopada e o aborto é feito contra a vontade dela."

[Läude] — "Meu Deus, de onde vem uma mente tão horrível dessa?" — [mostra-se abismada].

[Estudante 02] — "Dos nacionalistas..." — [olhar de canto].

        O participante aponta seu dedo polegar rumo em direção ao membro do Grupo 02, que já estava sendo visto com certo dessabor pelos integrantes do Grupo 04. Läude percebeu que o sujeito autoritário iria ver o sol nascer quadrado a qualquer momento.

.............................📹GRUPO 05

        Após finalizar a desestimulante entrevista dos estudantes, Läude cede, a passos largos, a prancheta, a caneta e posto de entrevistadora para Magal. Surpreso, o homem não sabia o que dizer perante a conduta brusca da mulher:

[Läude] — "Toca essa maldição, pelo amor de Deus..." — [estresse evidente] — "Eu cuido da câmera".

        Confuso com a situação desgostosa criada entre Läude e os grupos entrevistados, Magal fita Bäuma como quem está prestes a lidar com uma fera impiedosa e vil. A mulher de cabelos chanel levanta uma das sobrancelhas como forma de intimar o homem ruivo a proceder com os trabalhos. Sem  muitas opções, Magal se aproxima da Militar e de Yosan, já esperando pelo pior.

[Bäuma] — "Cadê aquela estúpida?" — [semblante de desdém e braços cruzados] — "Ela não vem?"

[Magal] — [olhar de indiferença] — "Cala a boca e responda à pergunta".

[Bäuma] — [lança discretos risos] — "Aprendeu bem com ela". — [sorri].

        O homem, em silêncio, aponta o microfone para próximo do rosto de Bäuma na esperança de que a mulher viesse adquirir alguma normalidade em seu comportamento durante a entrevista. A resposta que veio a receber, foi lançado como um raio em sua cabeça:

[Bäuma] — "NÃO, eu não sou a favor de excluir Híbridos da sociedade, satisfeito agora, praiano?" — [feição irônica].

[Magal] — "Não tinha falado que era a favor do extermínio dos Especiais?" — [estranhamento].

[Bäuma] — "Dos Especiais sim... dos Híbridos, não." — [seriedade].

        Magal anota em sua prancheta algumas de suas impressões para essa súbita declaração, pela qual acabara de receber como uma bomba em sua cabeça. Não esperava o ruivo que a mulher tivesse algum tipo de compaixão ou qualquer tipo misericórdia para com os "misturados". Sentindo como se tivesse ganhado na loteria, Magal fita novamente Bäuma para confirmar se aquilo que havia escutado da mulher, era de fato real.

[Bäuma] — "Por que está me estranhando? Eu tenho uma Híbrida do meu lado, sabia disso?"

[Magal] — "Que bom que você poupou a vida dela..." — [ironiza]. 

[Bäuma] — "Acha mesmo que eu iria mantê-la comigo se quisesse matá-la? Me economiza!" — [de voz autoritária e braços cruzados, a Militar exibe raiva genuína em sua face].

        A mulher afasta-se de Magal, momento em que a voz é dada para Yosan. A Secretária, por sua vez, fita a sua Tutelar com estranhamento e receio.

[Bäuma] — "Vai que é tua..." — [murmura para a mulher].

      Depois de fitar Bäuma se distanciar do local, a mulher lentamente vira seu rosto para a direção de onde estava Magal e a câmera de Läude. O homem começa a mostrar preocupação para com a moça.

[Magal] — "Hey... tudo bem?" — [olha para a moça].

        A mulher responde positivamente com a cabeça.

[Magal] — "Já pode responder..." — [aponta o microfone para próximo de Yosan].

[Yosan] — "Ah... bem... acho que nem preciso dizer muito, né?" — [timidez] — "Eu sou uma híbrida, então naturalmente eu quero que sejamos incluídos na sociedade e..." — [a mulher vira seu rosto para certificar que sua Tutelar não esteja esfaqueando algo ou alguém] — "me livrar...dessa mulher." — [doce e discreto sorriso].

        Magal cede uma micro risada.

[Magal] — "Hum. Entendo você." — [sorriso suave].

[Yosan] — [suspiro] — "...Corte essa parte... é sério. Senão ela me mata." — [nervoso disfarçado de um discreto sorriso]. 

[Magal] — "Vamos tirar, não se preocupe." — [tranquiliza a moça].

        Ao finalizar a entrevista, Läude passa novamente a câmera para Magal e dá continuidade à função anteriormente exercida por ela. O homem resgata o eletrônico, entregando a prancheta e a caneta para a sua amiga.

[Läude] — "Obrigada pela força. Deixe que eu cuido do Grupo 06".

[Magal] — "Tudo bem. Cuidado com a garota".

[Läude] — [faz sinal de positivo].

.............................📹GRUPO 06

        Läude caminha até o entrevistado enquanto o mesmo se preocupa com o fato da sua menina não estar por perto. O pequeno frasco humano composto por uma dose de veneno com pitadas de sociopatia, nadava lindamente nos belos mares vívidos e cristalinos daquela praia. Läude entretanto, estava menos preocupada do que nunca.

[Läude] — "Está procurando sua menina?" — [caminha até o homem].

[Pai] — "Éh. A Mina não quer voltar pra costa..." — [semblante de decepção].

[Läude] — "Ah, não se preocupe, ela logo vai voltar..." — [sorri] — "Então, qual a sua opinião sobre esse questionamento?" — [mostra-se simpática].

[Pai] — "Aproveitando o fato de que minha filha não está aqui para ver isso, honestamente, eu até gostaria que aquele Híbrido ali do outro grupo fizesse virasse amigo dela..." — [aponta para Vega com um sorriso maledicente] — "quem sabe ela não vira uma boa tutelar..." — [feição debochada].

        Läude cede algumas risadas.

[Läude] — "Espero que ele sobreviva nesse processo..." — [exibe um sorriso triste].

        Ambos começam a gargalhar no mesmo instante em que e garota os escuta e mantém os olhos e ouvidos bem atentos aos pombinhos. Vega começa a ficar sem graça ao ser referido pelo homem, bem como seu pai começa a demonstrar ciúmes do garoto, o afastando da vista de Läude e do entrevistado.

[Pai] — "Bom, brincadeiras à parte, se os Híbridos fossem inseridos, eu preferiria que eles é quem fossem suplementados..."

[Läude] — "Olha, interessante sua resposta. Parece que os grupos toleram bem os Híbridos, isso é um respiro." — [realiza anotações].

[Pai] — "Penso que os Híbridos na verdade são vítimas. Não pediram para nascerem com uma genética diferente da nossa, então eles acabam sofrendo as consequências pela conduta irresponsável dos pais que não pensam no futuro deles... sofrem muito." — [exibe feição melancólica]. 

[Läude] — "Uma coisa, eu concordo com você. Os pais foram bem irresponsáveis. Não por os terem tido, mas por os deixarem à própria sorte." — [olhar sereno].

[Pai] — "Realmente."

        Ainda temerosa para se aproximar de Mina, Läude pensa em caminhar até a garota para fins de colher alguma informação dela. Mas o seu olhar, era o alvo da visão do elegante homem que estava em sua frente.

[Pai] — "Läude..." — [olhar penetrante].

[Läude] — [leve susto] — "Sim?"

[Pai] — "Será que não podemos ir pra outro lugar? Ficar bem longe daqui?" 

        O homem exibe uma feição devassa enquanto se aproxima lentamente da mulher. Parecia ter adivinhado os sentimentos de Läude, que mal consegue se desvencilhar dos beijos lascivos que recebe devagar em seu pescoço. 

[Pai] — "Pensou melhor naquilo que eu te falei? ... Eu fui sincero... eu adorei você..." — [sussurra no ouvido da mulher].

[Läude] — "Eu acho melhor a gente parar um pouco por aqui..." — [timidez].

[Pai] — "Por quê? Tá todo mundo gostando..." — [abraça a mulher] — "inclusive você..." — [espreme o corpo da mulher e a envolve em um beijo].

        O galanteador não fazia a menor questão de disfarçar, já que rapidamente atraiu os olhares dos praianos do primeiro grupo, bem como de outros banhistas.

[Homem 01] — "Sortudo." — [curiosidade].

[Bäuma] — "Humpf. Amador..." — [desdém].

[Mulher de Óculos] — "Nossa, olha lá, hein?" — [sorriso de surpresa].

        O cônjuge da mulher de cabelos curtos não perde a piada:

[Homem] — "Éh. Parece que o Paizão finalmente vai arrumar uma mãe pra filha dele..."

[Mal-Encarado] — "Ou um problema pra vida dele..."

        Magal observa a cena como quem se depara com um programa entediante.

[Magal] — [expira] — "Essa mulher só arruma gente problemática..."

        Em um súbito rompante de seu transe, a mulher toma a atitude de empurrar gentilmente o homem antes que seu trabalho entrasse em descrédito pelos entrevistados presentes.

[Läude] — "Olha... se você me permitir, preciso voltar ao trabalho, senão nunca vou terminá-lo..." — [mostra avermelhada e suspira profundamente] — "falamos sobre isso depois, tudo bem?" — [distancia-se do homem].

        Tendo sua investida negada, mas bastante otimista para conquistar a mulher, o paquerador acompanha os passos de seu interesse amoroso ao longo das areias furta cor com a certeza de que teria muito em breve, a entrevistadora em seus braços. Foi tesão à primeira vista. De Läude, só lhe restava resistir à tentação ou se emaranhar com um dos residentes mais fúteis que já se deparou. Sentindo-se levemente culpada por não ter freado os avanços do seu potencial affair, Läude avista a pequena endemoniada sob a forma de boneca, aproveitando o mar calmo daquela região. Aproximando-se da costa à medida em que a menina saía das águas, a entrevistadora se viu um pouco envergonhada de coletar uma resposta da criança. O problema, era o que a Bióloga começou, ela assumiu o dever se finalizar. Todos devem ser questionados, impreterivelmente.

        Criando coragem, a loura tenta amistosamente se aproximar da menina para, ao menos, tentar interagir de maneira profissional para com ela. Como quem inocentemente não esperaria um coice de uma mula, Läude é surpreendida com a pior reação possível da garota, que já não suportava sequer ouvir falar do nome da mulher:

[Läude] — "Er...oi! Eu posso tirar sua...." — [acena].

[Mina] — "Não fala comigo, sua suja!" — [aponta para Läude].

        Ultrajada, Läude salta os olhos e mostra-se boquiaberta com tamanho ódio e grosseria que havia acabado de receber de uma criatura com tão pouco tempo de vida. Aquele momento, foi onde decidiu que iria conduzir o trabalho de seu próprio jeito. O seu olhar, que era de espanto, gradativamente se converte em raiva.

.........................10 MINUTOS DEPOIS...

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- PERGUNTA Nº13: VOCÊ POSSUI ALGUM ESPECIAL OU UM HÍBRIDO DE DENTRO DA SUA FAMÍLIA?

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========================PERGUNTA 13: RESPOSTAS======================

.............................📹GRUPO 01

[Homem 01] — "Não... que eu saiba, não."

[Homem 02] — "Não."

[Homem 03] — "Também não..."

.............................📹GRUPO 02

[Läude] — "Mais alguém além de Vega?" — [olhar de indiferença].

[Mal-Encarado] — [aponta para Vega] — "Só tenho ele..." — [contorce suas feições].

[Vega] — "Só tenho a mim..." — [semblante de tédio e braços cruzados].

        No intuito de animar Vega, Läude tenta tirar o estigma que girava em torno do garoto lhe oferecendo um chiclete quadrado. O menino, que até então mantinha o semblante melancólico, passou a se mostrar um pouco mais feliz.

[Läude] — "Será que eu posso animar você um pouco?" — [presta a gentileza] — "Sei que não tem sido nada fácil pra você... mas farei o que posso para tornar sua vida aqui em Vandora um pouco melhor..." — [sorriso tímido] — "peço desculpas por perder meu equilíbrio e parecer fria algumas vezes." — [inclina seu ombro para baixo e agarra o doce com sua mão].

[Vega] — "Fria?" — [sorri entre leves risos enquanto olha para o chiclete] — "... Que é isso, você é uma Dama."

[Läude] — "Eu fiquei sabendo que o de pêssego vermelho é o seu sabor favorito..." — [aponta gentilmente para o doce].

[Vega] — "É muita gentileza a sua... obrigado pela parte que me toca... moça bonita." — [exibe uma feição adorável com um sorriso sutil].

[Läude] — "Não há de quê..." — [sorri].

        Mesmo não deixando transparecer o seu leve contentamento com o modo com que Läude trata seu filho devido a sua expressão fria e emburrada, o homem percebe que naquele mundo cruel ainda existiam pessoas dotadas de amor e compaixão até pelas criaturas que este mais desprezava. O sujeito mal-encarado pôde flagrar Vega em um dos poucos momentos que este daria um sorriso pequeno, simples e cortês, mas genuinamente feliz. Como quem apreciava um belo panorama, o homem aparentemente sombrio e detestável finalmente deixa escapar uma leve inclinação do lado esquerdo de seus lábios, algo que não ocorria há muitos anos em sua vida.

.............................📹GRUPO 03

[Mulher de Óculos] — "Graças aos Céus não. Eu não aguentaria dois minutos tutelando uma criatura que mal pode andar na rua..." — [exibe rejeição em sua face].

[Homem] — "Até o momento nunca tive ninguém próximo que fosse um Híbrido... aliás... eles estão crescendo muito, não estão?" — [pergunta à esposa].

[Mulher de Óculos] — "Até demais pro meu gosto! Enquanto as mulheres normais demoram décadas para engravidar, essas Híbridas parecem que fazem filhos só de tocar nas mãos delas..." — [cruza os braços].

[Homem] — "Ah, não se preocupe, porque enquanto uma mulher Híbrida tem que engravidar várias vezes, nós podemos ter uma penca de meninos com uma única gravidez..." — [o homem ergue os braços da mulher a fim de conduzi-la contra si mesmo e pegá-la gentilmente em sua cintura].

[Mulher de Óculos] — "Pois então eu quero três filhos..." — [sorri para ele].

[Homem] — "Teremos mais que isso, te garanto." — [encara a mulher apaixonado].

[Mulher de óculos] — "Acho bom... não quero perder pra eles..." — [satisfação].

        Os pombinhos de sensibilidade reduzida unem seus narizes como quem performava um belo romance de um filme. Pela primeira vez, a mulher de cabelos curtos retira seus óculos ovalado para beijar intensamente seu esposo, já que a brecha já estava dada pelo próprio galanteador que saboreou os doces lábios de Läude, despertando o desejo de outros 50 enamorados que perambulavam pelas areias daquele paraíso distópico. O marido da encrenqueira sugou a boca de sua esposa até consumir todo o seu batom. Um pouco constrangida pela cena, Läude prossegue rumo ao grupo de estudantes que já estavam cansados de esperar.

.............................📹GRUPO 04

        Dois estudantes encontram-se sentados em um pedaço de uma árvore inclinada próxima às areias, cujo sentido de seu crescimento anormal era similar à de uma trompa de elefante, com extensivo conjunto de pequenas e milhares de folhas rodeadas de frutos e castanhas. Outras duas preferiram se apoiar na sombra de uma das enormes folhas de uma palmeira. O último, sentou-se na areia, próximo aos estudantes que estavam sentados no caule.

[Läude] — "Bom, sei que é meio óbvio que temos duas moças Híbridas aqui, mas além delas, alguns de vocês possuem mais alguém próximo que seja um Híbrido ou que seja descendente de um?" — [aponta o microfone].

[Estudante 01] — "Não, nunca tive nenhum Híbrido na família..."

[Estudante 02] — "Nem eu. Não que eu saiba..."

[Estudante 03] — "Também nunca tive. Na verdade, faz tanto tempo que não vejo minha família que talvez eu nem saiba que tenha algum Híbrido nela..."

        Respondida a pergunta pelos estudantes nativos da Ilha-País, Läude cedeu a oportunidade para as garotas excedentes do grupo, que pareciam estar incomodadas com a indiferença de seus outros colegas.

[Läude] — "Desejam fazer algumas considerações? Ou preferem não responder?"

[Estudante 04 - OCULTO] — "Não, acho que as evidências já dizem tudo..." — [suspira].

        A entrevistadora passa a voz para a outra estudante.

[Estudante 05 - OCULTO] — "Também não, obrigada..." — [olhar baixo].

        Os três entrevistados nativos de Vandora olham pausadamente para as duas moças que haviam acabado de responder à pergunta de Läude. Um estranho ar de receio e distanciamento foi tomando conta dos estudantes e ambos pareciam já terem tacitamente determinado o seu nicho de pertencimento. As Híbridas pareciam não estarem contentes com tudo o que ouviram de seus colegas, bem como os SH's não se sentiam totalmente confortáveis em ficarem próximos das moças. Indiretamente, era como se estes estivessem manchando suas reputações ao se entrosarem com alunos de descendência Híbrida. Na verdade, o silencioso conflito vinha de muito além disso.

[Läude] — "Bem, acho que causei um pouco de desconforto em vocês... mas não se preocupem, a entrevista irá acabar logo, logo." — [sorriso de constrangimento].

[Estudante 03] — "Tudo bem, não tenha pressa, faça no seu tempo..." — [feição simpática].

        Läude caminha em direção a Magal, claramente demonstrando desinteresse em entrevistar o quinto grupo.

[Läude] — "Magal, me ajude." — [cede a prancheta e coleta a câmera das mãos de seu amigo].

.............................📹GRUPO 05

        Suspirando fundo, o homem que transitava entre um entrevistador e um cameraman caminha em direção à Militar de olhos dourados, já enraivecida pelo distanciamento de sua ex-noiva, bem como evidenciando sua insatisfação pelos seus braços cruzados.

[Bäuma] — "A Läude." — [olhar de raiva].

[Magal] — "Não está vendo que ela não quer olhar na sua cara?" — [exibe indignação].

[Bäuma] — "Problema dela, ela que tenha ovários de assumir o trabalho que pegou. Não é você o entrevistador." — [olhar fixo].

[Magal] — "Pois agora eu sou o entrevistador, e você não tem autoridade aqui. Agora aquieta seu rabo e responda o que eu perguntar..." — [tom ríspido].

        De semblante feral em sua face, Bäuma se segura para não partir para cima de Magal no intuito de rasgá-lo em dois. Yosan, preocupada com que sua Tutelar faria, se aproximou da Bióloga a fim de tentar acalmá-la, momento em que Bäuma afasta bruscamente o braço de sua Secretária, deixando-a assustada com a reação de sua agressora. Nesse momento, Läude sente algo quase se romper de dentro de sua cabeça. Um de seus olhos apresenta reações de tique nervoso e a pequena câmera sofisticada subitamente cai de suas mãos. As imagens que estavam sendo gravadas mostravam a cena em que a loura caminha em direção às duas mulheres próximas de Magal. Seu punho cerrado denunciava o que poderia fazer a qualquer momento. Já Bäuma, não se mostrava nem um pouco intimidada pela antiga colega de faculdade, já que conhecia cada detalhe do comportamento de Läude, assim como costumava a espancá-la durante os 50 anos em que ficaram juntas. As cores marinhas dos olhos da mulher quase cegavam Bäuma com seu ódio. Yosan, triste e humilhada, se distancia do local para que pudesse ficar sozinha. Quando ambas estavam prestes a se colidirem, Magal afasta bruscamente sua amiga da Militar, ficando à frente da Biogeneticista. A câmera captava o panorama na perspectiva quem assistia tudo caído nas areias da praia. Pela primeira vez, Läude soube o que de fato era sentir ódio na sua forma mais pura.

[Magal] — "Já chega. As duas. Isso é uma ordem." — [mostra-se imperativo] — "Se quiserem se pegar, façam isso FORA do expediente, vocês ouviram? Não esqueçam que isso é um trabalho, e vocês estão sendo muito bem pagas pra isso..."

        Alguns segundos se passam no mais absoluto silêncio entre os protagonistas daquele clima de tensão extrema. Quando estavam prestes a pularem uma à outra como dois felinos lutam pela sua vida, ambas as mulheres furiosas finalmente se acalmam por uma questão de ética que o momento exigia. Percebendo o quão insustentável a situação estava se tornando para Läude, Magal assume de uma vez por todas a entrevista no lugar de sua amiga. Läude se afasta sob fortes respirações e mãos sobre a sua cabeça, caminhando até seu posto de parada enquanto olha para cima e estabelece uma lenta contagem de um até cem. Já Bäuma, espragueja mentalmente a sua então rival, exibindo em seu olhar fixo, a denúncia de sua pretensa vingança contra a mulher com que conviveu a maior parte de sua vida. Uma coisa era certa: Läude não estaria disposta a suportar nem um triz a mais da arrogância e a grosseria de sua algoz contra quem quer mais que fosse.

[Magal] — "Pausa de 15 minutos..." — [afasta-se do local].

        Läude chuta as areias com os pés para tampar a visão da câmera que estava caída. A ventania que levantava as micropartículas da superfície as fazia cobrir o eletrônico até que Magal o pegasse. O homem limpa as lentes e verifica o seu funcionamento. Läude, estava bem atrás dele, exausta, estressada. A mulher andava de um lado para o outro sem um rumo definido em sua própria cabeça. O que era para ser um simples trabalho, se tornou um verdadeiro fardo. O ruivo se aproxima para dar um suporte à sua amiga.

[Läude] — "... O meu peito vai estourar de raiva..."

[Magal] — "Respira, se acalma." — [a abraça] — "Eu resolvo isso, ok? Pode descansar..."

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        15 minutos se passam. Yosan se afasta de Bäuma, que fica ainda mais desconfiada do possível abandono afetivo de sua vítima. Läude permanece dentro de uma cabana próxima, isolada em um pequeno quarto reservado para ela própria. Percebeu que seu emocional viria a calhar depois de uma longa semana de trabalho nas mais variadas áreas em que fora convocada, desde serviços de limpeza, manutenção das praias, até pinturas de edifícios e reforma asfáltica. O serviço era bruto e exigia bastante de seus habitantes. A mulher penteia os cabelos próximo a uma janela enquanto de longe estabelece uma vigilância sobre o estado de Yosan, por meio de um pequeno espelho aproximador de imagem em suas mãos. Magal improvisa um suporte para a câmera e desde então começa a fazer as honras da entrevista.

         Os outros grupos percebem os atrasos provocados pela evidente rivalidade entre Läude e a Bióloga Militar e começam a reclamar sob sussurros. Mina, permanece sentada nas areias próxima a um guarda-sol enquanto aproveita uma água de coco, atraindo para si, o olhar de Vega. O menino pela primeira vez repara na beleza da moça, o que o impressiona à medida em que sopra uma grande bola de chiclete em sua boca. De tanto enchê-la, termina a estourando sob um forte som de um balão de aniversário. Todos param para verificar de onde vinha o barulho. Assustada, a garota retira os óculos e direciona seu olhar de raiva para o menino, já mostrando o seu mau humor devido ao barulho da explosão. Vega no entanto, parecia se encantar com os traços da garota.

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[Magal] — [exibe seriedade] — "Além da Yosan, tem mais alguém próximo de você que seja um Híbrido como ela?"

        Saturada, mas não menos calma, Bäuma disfarçadamente responde de forma minimamente urbana ao seu entrevistador.

[Bäuma] — "Eu trabalho com Híbridos, pessoas descendentes de Híbridos, e até Semi SH's. Honestamente, eu os considero como próximos apesar das diferenças... não os expurgo totalmente da minha convivência." — [cruza os braços].

[Magal] — "Boa resposta." — [olhar de desprezo].

        O homem passa a voz para Yosan.

[Magal] — "Você é uma Híbrida, mas preciso perguntar... seu filho descende de um Híbrido ou um SH?"

[Yosan] — "Ele é um Semi Híbrido. O pai do meu filho era um Especial suplementado... só que ele suplementava escondido..." — [olha para o lado e toca nos cabelos] — "ele morreu... e foi nesse momento que eu conheci a Bäuma."

[Magal] — [acena positivamente com a cabeça] — "Por que deixou que ela a tutelasse? Não tinha mais ninguém que a acolhesse?"

[Yosan] — "Não tinha mais ninguém, só tinha meu esposo... e ninguém queria ser meu tutelar porque eu já era velha. Sem um Tutelar, eu perco o direito de fazer tudo e fico isolada." — [feição de indignação] — "Meu pai largou a mim e minha mãe e nós fomos viver na parte abandonada da Ilha-País. Ela... foi o que me restou." — [olha brevemente para Bäuma].

        A uma certa distância, Bäuma escutava as conversas de seu entrevistador para com Yosan, momento em que esta não desperdiça a oportunidade de afastar Magal de lá. A mulher, desfere um afiado olhar de superioridade e desdém para o homem que a despreza.

[Bäuma] — "Desculpe, mas seu questionamento não consta na entrevista e está ultrapassando a sua competência." — [cruza os braços].

[Magal] — "Eu já acabei." — [diz impaciente] — "Não palpite no meu trabalho." — [retruca].

        O homem se afasta das duas mulheres sob o torcer de seu pescoço enquanto é visto com menosprezo pela Bióloga. Contorcendo levemente suas costas, Bäuma parte em retirada do local de onde sua Tutelada estava, e Yosan, encara a mulher com ressentimento. Läude acompanha tudo de seu pequeno espelho.

.............................📹GRUPO 06

[Magal] — "Poderiam se aproximar, por gentileza?" — [chama o pai e filha para a entrevista].

        Mina sai de seu canto sombreado rumo para as águas, ignorando completamente o pedido de Magal. Já o homem, se aproxima do entrevistador para que seja lhe dada a palavra. Percebendo a esquiva da menina, Magal nada diz para evitar conflitos desnecessários. Por enquanto, estaria satisfeito com o depoimento do potencial affair de Läude.

[Magal] — "Conhece alguém próximo de você que seja como Vega? Algum amigo ou parente?"

[Pai] — "Por afinidade, sim. É um primo meu, mas nos falamos muito pouco. Ele quase não olha no rosto de ninguém." — [contorce suas feições] — "Mas cada um com seus motivos... ele deve ter os dele..."

[Magal] — "No contexto em que vivemos, é até compreensível... tempos difíceis para os diferentes..."

[Pai] — "Não acho isso. Esses Híbridos têm uma vida fácil... não são obrigados a trabalhar, podem ser tutelados, comem do bom e do melhor... sei não, acho que isso deveria mudar." — [desconfiado].

[Magal] — "A começar por igualá-los a nós em direitos e deveres, já é um bom começo. Assim nenhum deles vão precisar de tutela."

[Pai] — "Éh... é uma alternativa." — [exibe singela concordância].

        Magal olha em direção para a imensidão de onde Mina submergia em meio às ondas agitadas. Engolida pelos mares, a garota não tinha nenhum medo de lidar com a fúria das águas cristalinas. Numa tentativa de apaziguar as relações com os entrevistados, o homem ruivo pensa em uma alternativa de trazer Mina para a costa.

[Magal] — "Se importaria se eu tentar trazer a sua filha de volta? Quero levar um papo com ela..." — [mostra-se um pouco receoso].

[Pai] — "Fique à vontade. Ela só é um pouco temperamental como você bem viu hoje, então você terá que falar com jeito com ela..." — [cerra os lábios e levanta as sobrancelhas] — "Ela puxou a mãe, sabe?"

[Magal] — "Só espero que a mãe dela não seja a Bäuma." — [feição irônica].

[Pai] — [risos] — "Não, não é a Bäuma, felizmente." — [sorri].

[Magal] — "Ok, então eu já posso ficar tranquilo. Vou falar com ela."

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................QUEBRA DAS ÁGUAS. SOPRAR DOS VENTOS. PÁSSAROS NOS ARES....


        O homem se aproxima. Sem pressa ou receio, aguarda a espontaneidade da menina que se aproximava pela costa. Como quem não quer nada, guarda em sua mão uma proposta de paz. Percebendo a paciência do homem ruivo, Mina lhe concede uma chance de interagir com ela. Intuitiva e silenciosa, a menina sente em Magal, o espírito desarmado e a confiança que não sentia em Läude. Finalmente próxima do rapaz, a moça nota que o ruivo guarda um pequeno mimo em suas mãos. O homem se agacha para se nivelar à menina e olha no fundo de seus olhos.

[Magal] — "Toma. Sei que não começamos muito bem, então aceite isso como um pedido de desculpas. Será que podemos conversar?"

[Mina] — "Isso é um chiclete quadrado?" — [pega sutilmente o objeto de Magal].

[Magal] — "Sim. É um mimo meu e da minha amiga, Läude. Vi que vocês duas se estranharam. Pode me contar o que aconteceu?"

[Mina] — "Bom... na verdade quem tem que se explicar é ela." — [olhar de canto] — "Ela é que me tratou mal, virou as costas pra mim logo no início da entrevista, e eu não fiz nada com ela..." — [indignação].

[Magal] — "Bom, talvez ela tenha sido um pouco ríspida, mas tem uma coisa que talvez você não saiba: Vega, é um Híbrido."  — [aponta o dedo para o outro lado, direcionando o olhar da garota] — "E é um menino gentil, cordial e sábio. A mãe dele, que era uma Especial, era uma pessoa amável e gostava muito de ajudar os seus semelhantes. Nunca teve problemas com os nativos. A diferença é que ela era um pouco mais frágil, lenta, sofrida, de vida curta, era mais propensa a doenças... mas era uma pessoa, assim como eu e você. Então por mais que não queiramos o fardo deles, acho que podemos aprender a conviver respeitosamente uns com os outros, não acha?" — [feição serena].

        A menina abaixa seus olhos e não consegue pronunciar uma única palavra que viria a sair de sua boca. Sua cabeça vira lentamente para o lado e se põe a pensar no que o homem ruivo disse a ela. Compreensivo diante do silêncio da menina, não pôde deixar de exibir em seu semblante uma leve pitada de confiança e simpatia para com a garota.

[Magal] — "Você e Läude tem pensamentos antagônicos. Mas não deixe isso cegá-la a ponto de estragar a sua relação que você tem com seu pai."

[Mina] — [breve receio e contorcer de lábios] — "... Pelo menos você não é ignorante igual a ela... na verdade, acho que ela até me detesta." — [expressão de receio e surpresa].

[Magal] — "Läude é uma pessoa boa. Ela sente a dor do outro mais do que ela gostaria de sentir... mas não, ela não te detesta. Só ficou revoltada com seu comentário." — [pequeno sorriso].

[Mina] — "Tá falando dos Especiais? Eu odeio eles pelo que fizeram conosco, e eu que estou errada?" — [feição de aborrecimento].

[Magal] — "O que eles fizeram não foi nada comparado ao que nós fizemos com eles. Tinham milhares de inocentes no meio dessa guerra. Não só vilões. O ódio deforma as pessoas, e nossa vida é boa e longa demais pra ser vivida dessa forma."

        Mina não sabe muito o que dizer para Magal depois do breve momento de reflexão em que foi obrigada a se recolher. O homem finalmente se levanta.

[Mina] — "Olha... não é por nada não, mas temo que a parte do "ela não te detesta" seja mentira..." — [feição contorcida de constrangimento] — "mas ainda assim, agradeço a sua gentileza."

[Magal] — "Éh." — [olhar de canto] — "A única forma de lidar com o ódio é confrontando-o." — [olha para Mina] — "Somente depois disso vocês irão se entender. E isso é a vantagem do nosso povo. Podemos confrontar nossas raivas sem medo ou mágoas. Bom... espero que o seu dia seja proveitoso, Mina." — [parte em retirada].

        Mina se mantém pensativa sobre a fala de Magal enquanto segura o chiclete quadrado que está em suas mãos. Junto à embalagem, vinha a mensagem de Vega fazendo seus nobres cumprimentos à moça, com o devido carinho e cordialidade necessários. Mina, ficou incrédula em saber que estava sendo cortejada pelo chicleteiro. O menino timidamente acena para garota que estava muito longe de sua visão. Discretamente encantada, mas receosa com a atitude de Vega, a moça exibe uma feição de estranheza e timidez sob os acelerados piscares de seus olhos. Preferiu naquele momento não procurar cativar Vega, mantendo ainda assim, de bom grado, o presente planejado para a linda moça. Sem graça e temerosa, a menina contorce os lábios como se estivesse sentindo uma pontada em sua cabeça.

[Mina] — "Sss...! Ah... o que eu tô fazendo...Tsc! Argh." — [olha para o canto em sentido de negação e parte em retirada].

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.........LENTO CAMINHAR DA LUZ SOLAR PELAS AREIAS. O BELO ENTARDECER DENUNCIA O INÍCIO DO PÔR DO SOL. A GRANDE VARIEDADE DE CORES DOS PARAQUEDAS ENFEITA OS CÉUS.

[Läude] — "Conseguiu lidar com eles? Eu estou a ponto de ter um surto com a Bäuma e aquela menina babaca..." — [aborrecida e cansada].

[Magal] — "Eu tive uma conversa franca com ela, me parece que ela entendeu o erro que cometeu." — [discreto sorriso].

[Läude] — "Que ótimo. Mas ainda assim continuo detestando ela..." — [ajeita o microfone enquanto troca suas roupas] — "como é que pode a menina me chamar de "suja" e sair impune? Eu tô com muito mais raiva dela do que da Bäuma..." — [feição de raiva e tristeza].

[Magal] — "Hey, calma mulher. Releva um pouco essa histeria coletiva. São pessoas que vieram de uma longa história em nunca estiveram acostumadas com o diferente delas... logo elas se adaptam."

[Läude] — "Esse é o problema, Magal. Já era para elas terem se tocado 100 anos atrás." — [tensiona os dedos várias vezes em sua própria cabeça].

[Magal] — "Não se muda uma cultura assim de uma hora pra outra, "Läu". Isso é um trabalho de formigas. Vamos, ânimo. Termine sua entrevista porque você precisa de um descanso."

[Läude] — "Farei isso o mais rápido possível..." — [suspira] — "Deus, que fardo..." — [mostra-se aborrecida].

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PERGUNTA Nº 14: QUAIS ASPECTOS DOS COSTUMES DOS ESPECIAIS MAIS INCOMODAM VOCÊ?

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========================PERGUNTA 14: RESPOSTAS======================

.............................📹GRUPO 01

[Homem 01] — "Dos costumes? A começar pelo fato deles serem frescos quando o assunto é sexo? São franzinos e não sabem ter intimidade..." — [contrariado].

[Homem 03] — "Claro que pra eles é mais difícil ter intimidade. Já viu o quão deformados eles são? O quão terrível é o parto de uma fêmea Sub? Não julgo, mas eu até sinto pena..." — [feição de temor].

[Homem 02] — "Eles são horríveis mesmo... demorei muito pra me acostumar com a aparência deles, mas na primeira vez eu assustei."

[Läude] — "E o que mais os deixam aborrecidos além das restrições morais deles?"

[Homem 02] — "Eles são desesperados e mandões. Morrem de medo de serem inferiorizados então precisam se reafirmarem o tempo todo..."

[Homem 01] — "Pode ser um mecanismo de defesa deles." — [mão no queixo].

[Homem 02] — "Correto. É uma compensação deles. O que me irrita muito às vezes."

[Homem 03] — "Será que pra eles nós não somos arrogantes?" — [indaga].

[Homem 02] — "Pra eles, nós somos tudo que eles almejam."

[Homem 03] — "E que jamais terão, pelo visto."

[Homem 01] — "A metidez nunca é uma coisa boa no outro. Só em quem aponta."

[Läude] — "Algumas considerações a mais?"

[Ambos] — "Não."

.............................📹GRUPO 02

[Mal-Encarado] — "Eu vou te listar uns cinquenta aqui..." — [conta nos dedos] — "Mentirosos... avarentos... egoístas... salafrários... mal-amados... energúmenos... COVARDES...!"

[Vega] — "Pai..." — [coça a cabeça].

[Mal-Encarado] — "Escorregadios, arruaceiros, hipócritas, fingidos, moralistas..." — [dedo indicador para cima].

[Läude] — "Ok, já entendi." — [palma da mão para cima].

[Vega] — "Pai..." — [encara o homem].

[Mal-Encarado] — "Que éh?!" — [aborrecido].

[Vega] — "É dos costumes, não do caráter..." — [olhar irônico].

[Mal-Encarado] — "Eu sei...! E eu odeio tudo isso e mais um pouco. Pode anotar aí." — [aponta para a prancheta de Läude].

        Com um semblante irônico em sua face, Läude registra os devidos dizeres em sua folha de anotações: "Sujeito imbecil deixa claramente expresso o seu ódio generalizado ao grupo de Especiais, bem como o auge do topo de sua estupidez. Defino."

[Läude] — "Mas e você, Vega? Acabei que nem fiz a pergunta pra você. O que me diz?"

[Vega] — "Bom, acho que uma das coisas que mais me irritam neles é a falta de tempo para fazerem qualquer coisa... sei que isso não é do controle deles, mas... eles simplesmente não vivem. Precisam trabalhar o dia todo e o único tempo que sobra é para comer e dormir." — [cruza os braços] — "Não gosto dessa cultura da aceleração que é incentivada por aquele povo, isso é bastante adoecedor..."

[Läude] — "Eles só possuem vinte e quatro horas durante o dia e sessenta minutos para cada hora. Cada minuto leva sessenta segundos de duração... é um impacto e tanto. Nem eu aguentaria..." — [exprime leve surpresa].

.............................📹GRUPO 03

[Mulher de Óculos] — "Dos costumes? Da vida, eu diria! Já viu como o tempo deles é extremamente curto? O tanto de afazeres em um único dia?!" — [exibe o dedo indicador] — "Você não faz nada lá além de comer, dormir e trabalhar." 

[Homem] — "Eu nem menciono a pobreza do solo e das vegetações nativas deles... lá eles demoram muito, mas MUITO mais tempo para produzir alimentos e outros recursos. As árvores de lá mal sequer dão UM único fruto. As flores, as frutas, os legumes. Tudo demora mais tempo para nascer e são muito rápidos para morrerem... que sofrimento é a vida desse povo, Deus nos livre."

[Mulher de Óculos] — "Por isso eles têm tanta pressa em conquistar territórios... precisam de mão de obra para produzirem ao máximo porque sozinhos eles não dão conta." — [feição de desdém].

[Homem] — "Eu li sobre isso. Eles têm uma cultura da escravidão. Usam da força para obter trabalhadores, bem diferente das civilizações daqui."

[Läude] — "Eu tenho a impressão de que por muito pouco nós não fizemos a mesma coisa..." — [faz anotações em sua prancheta].

[Homem] — "Por que diz isso?" — [exibe estranhamento].

[Läude] — "Porque temos muito mais chances de nos defender. Por isso vários povos de outros países nunca conseguiram dominar outros, mas também nunca se deixaram dominar. Ficamos empatados historicamente..." — [olhar simpático].

[Mulher de Óculos] — "Eu tenho muito medo de ficarmos fracos e doentes iguais a eles..."

[Läude] — "Mas isso nós já somos. Só que por dentro. Não por fora."

        O casal em nada contrapõe o argumento de Läude, que já se sentia anestesiada com o festival de absurdos que tivera de escutar de cada integrante daquela Entrevista Pública. O homem, no entanto, continua a indagar a mulher.

[Homem] — "Você teria um filho Híbrido? Formaria uma família com um Especial?" — [curioso].

        Läude pensa por um tempo. Por mais que estivesse engajada na redignificação humana dos Terráqueos e seus descendentes, não havia parado para avaliar sobre suas próprias preferências. A mulher, apesar de visionária, não queria passar a imagem de uma eugenista no auge de caminhada para construir uma Vandora mais pacífica e solidária com as diferenças. Percebe então que no fundo, não se diferenciava nem um pouco de todos os entrevistados que abordou naquele dia, já que como mãe, faria exatamente as mesmas coisas. Não existe uma sociedade plena que se afunde em preconceitos e exclusões, mas ao mesmo tempo, nenhum pai quer ter um filho doente, vulnerável e incapaz. Todos querem descendentes fortes, hábeis, competentes, valentes. Perigosamente, a parte humana sempre fica para trás. A dessensibilização toma conta dos corações, e a vida, se torna muito mais binária, maniqueísta, bipolar, quando não cinzenta e mecânica. Vozes e sons passam pela sua cabeça quando rememora os momentos em que participou de algumas rebeliões bairristas. Läude pensa por um tempo. Pensa tanto que, olhando para cima, quase deixa sua prancheta cair no chão, o que a faz despertar de seu transe.

        Encarando o homem mais uma vez, percebe que não estava apta para responder a dura questão que ele lhe havia lançado. Läude se sentia desprezível, apesar de seu semblante sereno e simpático. Sem um único fio de sua voz saindo pela sua boca, a mulher loura apenas sorri e se despede com a sua cabeça.  

.............................📹GRUPO 04

[Estudante 01] — "Na verdade, eu detesto tudo nos hábitos e costumes deles, digo... eu acho que eles não têm qualidade de vida, de sono, de alimentação... é tudo muito ruim, muito difícil. Não sei se eu aguentaria."

[Estudante 02] — "Nunca parei para avaliar direito sobre os costumes deles até porque isso nunca me interessou... mas pelo pouco que eu vi, eles têm o hábito de conquistar territórios e saquear pessoas. Não que nunca tenhamos tentado fazer isso, mas ao contrário de nós, a maior parte da imensa riqueza que eles têm não vieram dos frutos deles, mas pela força... e nesse ponto, nos diferenciamos uns dos outros." — [virar de rosto].

[Estudante 04 - OCULTO] — "Acha que não somos parecidos com eles?" — [confronta a colega].

        A estudante encara surpresa o questionamento de sua colega.

[Estudante 02] — "O que eu acabei de falar?? Parecidos, até pode ser. Iguais, não." — [encara a estudante com feição séria].

[Estudante 05 - OCULTO] — "E você acredita mesmo que se fôssemos um pouco mais franzinos, nós optaríamos por negociar com outros povos?" — [encara a colega orgulhosa].

[Estudante 02] — "Acredito que sim. É o mais inteligente." — [feição de melancolia irônica] — "Se você é frágil, então não pode disputar forças. O problema é que Sub - Humanos não pensam." — [direciona à aluna].

        Em choque, as duas estudantes Híbridas se sentem indiretamente atacadas pelo julgamento da colega SH. Ao brevemente se entreolharem, as duas mulheres começam a apresentar um comportamento desafiador diante dos outros estudantes. Percebendo o conflito, um dos estudantes que estavam ao lado da SH, também toma partido de seu posicionamento:

[Estudante 04 - OCULTO] — "Não pensam? Vocês só não foram escravizados porque não compensa. Têm a mesma força e as suas peles não rasgam... do contrário, vocês mesmos fariam a mesma coisa, ou até pior." — [aponta para os alunos].

[Estudante 02] — "Não somos como vocês porque nossos valores são outros. Se tivessem nascido em um lugar onde os recursos os beneficiem, não precisariam tomar dos outros..." — [insatisfação].

        Uma das estudantes híbridas revira os olhos.

[Estudante 05 - OCULTO] — "Pois isso mais do que prova que temos os mesmos impulsos que eles. A diferença é o azar que eles deram e a sorte que vocês têm. Essa tal superioridade que vocês pregam é ilusória."

[Estudante 03] — "Ilusória pra vocês duas. A realidade já fala por si só. Pergunte quem aqui passa fome ou fica doente, quem aqui envelhece ou fica abandonado? Quem de nós aqui vive com medo ou já deixou de enfrentar um conflito? Pergunte se existe pobreza ou opressão em algum canto dessa Ilha-País? TRÊS guerras interplanetárias. UM atentado à bomba." — [pontua] — "E ainda assim nós nunca deixamos nosso povo na mão. Nosso maior berço não é a origem, mas a cultura! Aliás, eu esqueci de dizer o que eu mais detes..." — [interrupção].

[Estudante 04 — OCULTO] — "O que nos separa é a genética, não o caráter...!" — [retruca].

[Estudante 03] — "Pois uma boa genética molda um bom caráter". — [altivez].

[Estudante 05 — OCULTO] — "Ou molda uma criatura monstruosa! As mazelas humanas são as mesmas, Razh. Só muda os privilégios que vocês tiveram..." — [indignação].

[Estudante 03] — "Privilégios para aqueles que não são como nós. Pra nós é natural como a água, Írrida. Heranças quebradas não moldam a história, só as repetem." — [semblante bravo e desafiador].

        Ascendendo um conflito que poderia estremecer as relações estudantis, Läude acena com as palmas das mãos para cima no intuito de acalmar os presentes.

[Läude] — "Tudo bem, gente, chega, o intuito aqui não é acirrar os ânimos, mas respeitar as posições de cada um aqui. Entenderam?"

[Estudante 05 - OCULTO] — [insatisfação] — "Justo. Só não apoio esse discurso de superioridade que desumaniza os outros povos e anulam suas particularidades... esse tipo de comparação eugenista não deveria existir."

[Estudante 03] — "Por mais que vocês neguem a verdade, ela vai continuar estampada nas suas caras e nas suas notas." — [aponta para as duas alunas enquanto franze o rosto].

[Estudante 04 - OCULTO] — "Como se número fosse definidor de competência." — [cruza os braços] — "Pra mim, chega. Não temos mais nada para responder..." — [parte em retirada].

        Como forma de insatisfação e protesto, as duas alunas Híbridas saem de cena e se afastam dos outros três estudantes. Em sinal de desprezo, uma delas inclusive agarra um copo de vidro que estava próximo de si e o quebra em milhares de pedaços com um de suas mãos, lançando os resquícios de cacos para bem longe dali. Um recado bem evidente do seu desapreço pelos seus colegas. Quebrar um vidro em frente ao rosto de alguém poderia sinalizar uma tremenda falta de respeito naquela Ilha. As expressões de indignação dos três alunos confrontados era a prova disso. Sem muito o que falar do resultado desastroso do teste social, Läude apenas anota em sua prancheta o relatório de suas impressões sobre as relações interpessoais que pudera captar naquele momento.

[Estudante 01] — "Sabem? A pior coisa que aconteceu naquela faculdade foi o aparecimento dessas duas... elas me dão nos nervos." — [mostra um ar de desdém, mantendo os braços cruzados].

[Estudante 03] — "Rebeldes sem causa é que chamam. Acham que podem mudar a realidade dos fatos..." — [olhar de julgamento e negação com a cabeça].

[Estudante 02] — "A menina nos chamou de "criaturas monstruosas", dá pra acreditar nisso?" — [fita os colegas].

[Läude] — "Bom, acho que não há mais nada a acrescentar..." — [dedos rente aos cabelos e olhar de canto] — "sinto muito pelo transtorno". — parte em retirada].

.............................📹GRUPO 05

        Silenciosamente raivosas uma com a outra, Läude apenas encosta seu microfone para próximo do rosto de Bäuma como quem tinha vontade de apontar uma arma de fogo contra seu rosto. O ódio da Militar para com Läude só não era maior que seu ressentimento por Yosan, a quem via mais como posse do que como companheira. Já a Secretária, exaurida de sentir-se apavorada pela sua carrasca, já estava farta de tamanha humilhação recebida pela Bióloga. Decidida a não mais suportar o comportamento doentio de Bäuma, a moça passa a se manter distante da ex-noiva de Läude. A raiva de Bäuma tem um motivo, o que é dos mais estranhos que já tive conhecimento desde que me deparei pela primeira vez com o pesado oxigênio daquela Ilha paradisíaca.

        As pessoas daquela Ilha, assim como em várias outras civilizações, tinham uma peculiaridade no que concerne aos relacionamentos afetivos: eles mais valorizavam a lealdade no afeto do que a fidelidade sexual. Mas havia hora e lugar para aventuras. Os casais até escolhiam os respectivos amantes de seus cônjuges e controlava seus encontros e horários. O parceiro ou parceira até poderiam ter relações extraconjugais contanto que não desenvolvessem "sentimentalismos" para com outros amantes. Quando um dos consortes sentem qualquer distanciamento por parte de seu companheiro ou companheira, já era sinal de que aquela ligação amorosa já poderia se desmoronar, e os "sentimentalismos", já estariam em plena atividade. O que para meros terráqueos invasores é ridículo de incongruente, para eles isso tem fundamento. O sexo era natural como água e estimulado como prova de afirmação de virilidade para aqueles povos. Gravidez era uma coisa rara, e era muito difícil uma mulher fértil que não mantivesse a parede uterina mais corrosiva do que um ácido. Por conta disso, o afeto passa a ser muito mais valorizado e disputado pelos Super-Humanos para fins de obterem os Casamentos. Casar-se, não era comum. Era um privilégio. Era algo para poucos. Enquanto para muitos de nós o Matrimônio pode ser de fachada, para eles, isso seria um pecado grave, já que para gerarem filhos fortes e saudáveis, eles precisariam que a relação de seus pais também tivesse uma base sólida de afeto. "Com meu aliado eu tenho uma história, as outras, são só amortecedores nas horas vagas." Os aliados em questão, são o que conhecemos como esposo ou esposa no nosso terreno. 

        O sentimentalismo era o princípio da derrocada de um relacionamento. Não cultivar o afeto de alguém, era sinônimo de fracasso. Isso que era o mais temido pela Bäuma. Tendo vindo de vários namoros, a mulher psicótica nunca conseguia permanecer com nenhum de seus companheiros. A única pela qual teve uma longa história, foi com Läude, a mulher que até aqueles dias lhe causava gatilhos. Läude era volúvel, e não era afeita a relacionamentos muito duradouros, especialmente se estes forem marcados pela violência, uma marca d'água que acompanha os corações das atuais rivais desde o seu trágico término. Yosan, seria a bola da vez, visto que a mulher de penteado chanel é de fato uma criatura bastante intragável.


        Destilando um olhar desdenhoso para Läude, Bäuma vigia os olhos de sua atual inimiga enquanto a Biogeneticista fixa seu olhar à espreita de quaisquer movimentos em falso dados pela Militar. Seu alvo era Yosan. Uma mulher híbrida, mas frágil diante da imensa força de sua Tutelar. Dissimulada e vingativa, Läude estaria disposta a tomar Yosan de Bäuma no intuito de humilhá-la. Já Bäuma, mal sabia qual das duas queria aniquilar primeiro com suas próprias mãos. Yosan estava cansada, com medo, assustada... E com raiva. Raiva e medo são dois combustíveis bastante perigosos de se misturar. Juntos, se transformam em ódio. Quando se mescla com a sensação de impotência, só pode resultar em tragédia. Para uma das partes, pelo menos. Läude e Bäuma, nunca sentiram tanta raiva uma da outra como estavam sentindo naquele momento. De forma discreta, mas evidente. Em meio a uma iminente luta corporal, o trabalho tinha de continuar.

[Bäuma] — ..."Eu odeio tudo neles. Os corpos disformes, as roupas, os dentes, as falas, suas histórias de vida patéticas, seus feitos nada impressionantes, suas incompetências, suas inseguranças idiotas, seus povos pobres e infelizes, seus rostos feios, seus braços fracos, suas pernas franzinas, suas barrigas nojentas. Os dias para aquele povo são horríveis e escravizantes do início ao fim. E a única coisa que eles sabem fazer de melhor, é tomar dos outros. Nunca criaram nada  que não fosse por exploração. São podres por definição. Já não possuem beleza, quanto mais dignidade." — [sob serenidade e desdém, fita Läude de cima e embaixo] — "E quem se mistura com eles não é muito diferente..." — [feição de desprezo].

        Após expirar fundo com a declaração de Bäuma, Läude finalmente abaixa o microfone como quem havia se livrado de um enorme peso sobre seus ombros. Desgostosa, mas determinada, a mulher vira as costas para sua contraparte rumo em direção a Yosan, que esperava em um local mais próximo do mar, munida de uma garrafa de bebida em suas mãos. Como forma de devolver a provocação, a mulher lentamente se aproxima até a moça a passos desfilantes. Com um sorriso penetrante, Läude tira proveito da mulher indefesa tentando conquistá-la somente com um único olhar. Um pouco temerosa pela conduta de Läude, mas não menos encantada com seu charme, Yosan observa a mulher se inclinar para baixo com as suas mãos voltadas para trás, tendo à vista de seu rosto apenas as feições deslumbrantes de Läude. Com seu belo semblante mirado sob perspectiva de Yosan, a jovem observa a loura fitar bem no fundo de seus olhos, que sem o menor pudor, lança uma frase que iria amaldiçoar o resto daqueles lentos minutos.

[Läude] — "Você é minha..." — [destila um sorriso em meio a sua voz aveludada].

        Yosan salta os olhos enquanto deixa cair o seu recipiente de água nas areias. Bäuma se espanta com o barulho do objeto colidindo, e quando se depara com a proximidade de sua ex-noiva para com sua Tutelada, entra em cólera a ponto de quase romper suas veias de tamanha raiva que estaria a destilar contra as duas mulheres. Um dos olhos amarelados da raivosa entrevistada apresentava constantes tiques nervosos. Aquela seria a última frase que toleraria escutar naquela tarde quente de pôr do sol. Bäuma saca de uma espessa garrafa de bebida alcoólica posta em uma mochila aleatória de um dos banhistas da praia. Antes que a Bióloga caminhasse em direção à Läude munida da garrafa de vidro para golpeá-la em sua cabeça, o genitor de Mina aparece em frente a Bäuma e agarra o punho da Militar, fazendo com que a pesada garrafa caísse rumo às finas cortinas arenosas daquela região. No intuito de interromper sua empreitada, o homem mantém o punho de Bäuma momentaneamente imobilizado até que a mulher desnudasse o véu do ódio de seu olhar. Yosan, amedrontada com que sua Tutelar estaria prestes a fazer, avista um dos braços de Bäuma ser subitamente parado por um dos entrevistados entrevistado. Läude apenas continua a sorrir para Yosan, sentindo-se plenamente satisfeita com pelo efeito surtido de sua conduta.

[Pai] — "Já chega, Bäuma." — [sério] — "Se quiser acertar contas, faça isso fora daqui..." — [pronuncia de forma respeitosa e paciente].

        Furiosa, mas sem dizer uma única palavra, Bäuma retira bruscamente seu punho que estava preso à mão do entrevistado. Após encarar o homem por alguns segundos como quem lhe promete cortar a cabeça, saca a garrafa de bebida das areias e se dirige até uma cabana mais próxima, já com o pico de sua rivalidade alimentada propositalmente por Läude. Sem muita preocupação com dissabor que estava causando, a loura ainda provoca:

[Läude] — "Por que está assustada? Ela não fará nada com você... eu não vou deixar." — [olhar penetrante].

[Yosan] — "Não está na minha pele pra saber..." — [medo e receio].

[Läude] — "Acredite, eu já estive. Mesmo não tendo o mesmo peso, sei o que está passando."

[Yosan] — "Não, não sabe..." — [com medo].

        Momentâneo silêncio.

[Läude] — "Agora responda, o que você diria sobre a 14ª pergunta?" — [sorri].

[Yosan] — "Não sei se você percebeu o que acabou de acontecer, mas não tenho nada para responder..." — [afastamento do corpo e feição de estranhamento].

        Sem insistir em coletar a informação da moça, Läude a deixa quieta, sem, contudo, deixar de lhe lançar um novo cortejo.

[Läude] — [guarda a prancheta em sua bolsa] — "Não precisa ficar nervosa, isso logo vai acabar. Você terá um lugar melhor para viver. Eu acionei as autoridades contra a Bäuma" — [transmite serenidade e confiança] — "Ela te perdeu, mas ainda não sabe disso."

[Yosan] — [assustada] — "E com quem que eu vou morar??"

[Läude] — "Ora... comigo. Pelo menos até você se formar..."

[Yosan] — "Não sei se isso que você está fazendo é uma ajuda ou um desserviço..." — [olha ansiosamente para os dois lados].

[Läude] — "Você saberá quando sua Tutelar for presa." — [emite um pequeno som de "tsc" com sua boca e parte em retirada].

        Läude passa pelo homem que a impediu de levar uma garrafada em sua cabeça e o toca em seu ombro em sinal de amizade e agradecimento.

[Läude] — "Obrigada pelo cuidado." — [discreta simpatia].

        O homem retribui o agradecimento com um singelo balanço de cabeça.

        Aflita e temerosa pela sua vida, Yosan respira fundo enquanto exibe um olhar de súplica na qual quase chora pela condição miserável em que se encontra. Seus lábios irrigam de sangue, os tornando mais cheios e tristes. Seus poucos soluços são ecoados como um pedido de socorro e de ausência de certeza pela sua confiança em uma mulher que agora a salva, mas que depois, pode tornar sua vida um verdadeiro inferno. A Secretária começa a se questionar se sua busca por reconhecimento valeria todo o sacrifício pelo sofrimento que passava. Tudo isso, para que obtivesse uma condição que não fosse a de uma criatura de segunda classe. Com um semblante de quem parecia estar desesperançosa, Yosan pronuncia ao nada, tudo o que se sente:

[Yosan] — "Como pode ter tanta certeza de que vai me ajudar?" — [uma lágrima cai de seus olhos].

++++++++++++++++I MONSTER - Who Is She?++++++++++++++++++

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.............................📹GRUPO 06

[Pai] — "Além do fato de que no planeta que eles descendem tudo é extremamente rápido e é um povo cheio de frescura pra transar..." — [contorce o rosto] — "acho que a vida deles em si deve ser insuportável de viver, e isso já me agoniza um pouco. Quando não vivem com medo, vivem sempre sobrecarregados..."

        Enquanto anota em sua prancheta, Läude se aproxima de Mina a de forma fria a fim de que tivesse alguma esperança de coletar alguma informação que não fosse uma brusca resposta grosseira para a mesma.

[Läude] — "Quer responder pelo menos esse aqui?" — [semblante de tédio].

[Mina] — "Não preciso responder, você já sabe a resposta..." — [vira o rosto e cruza os braços].

        Läude suspira profundamente para que tentasse não nutrir ainda mais raiva da menina que a desprezava. O olhar de ressentimento amenizado pelo singelo sorriso da mulher, cede quase a um tom de súplica pela exaustão emocional que sentia diante de pessoas dessensibilizadas daquela Ilha. De qualquer maneira, a mulher tentou. E não conseguiu.

[Läude] — "Ah...! Menina, será que ao menos você poderia fingir que temos um relacionamento harmônico até o final do meu trabalho?" — [olhar em oposição ao discreto sorriso nos lábios].

[Mina] — "Tá, e você quer que eu diga o quê? As 300 coisas que eu detesto neles? Você já sabe que eu não gosto deles, então vai perder seu tempo com alguma coisa..." — [braços cruzados].

[Läude] — "Na verdade VOCÊ está me fazendo perder o meu tempo, sabia disso?" — [feição irônica].

[Mina] — "Então porque não prossegue a entrevista com os praianos?" — [aponta a mão rumo aos três homens] — "Tem mesmo que perder tempo comigo?"

[Läude] — "Garota, esse trabalho é importante pra mim, e se eu não tiver pelo menos uma informação sua que seja, eu não vou cumprir a requisição do Estado."

[Mina] — "Escreva qualquer coisa na prancheta, ora! O que isso te impede??" — [olhar sério].

[Läude] — "Não DÁ para escrever qualquer coisa na prancheta, menina! Isso aqui é uma entrevista séria..." — [brusca interrupção].

[Mina] — "Meu nome é Mina, sua vaca!"

[Läude] — "OLHA AQUI, SE ME INSULTAR MAIS UMA ÚNICA VEZ...!!" — [reação de ira seguida de uma súbita pausa].

[som de atrito entre a voz e a garganta. Olhar de aborrecimento. Rosto fechado]

        Antes que Läude pudesse despejar sua fúria contra Mina, o pai da moça desfere um olhar de reprovação para com a entrevistadora, que já estava com seu dedo indicador apontado para o rosto da menina, bem como seus membros superiores projetados em direção à sua entrevistada. O chamamento sonoro que o homem emitiu pelo atrito de sua voz à sua garganta, sinalizava como uma advertência dirigida para a Biogeneticista. Por mais que o homem aparentasse tolerância às rusgas nas relações de Mina, a moça ainda era sua filha. Estúpida e autoritária. Mas sua filha. E Läude, definitivamente não detinha autorização para agir de forma corretiva para com a menina. A loura levanta seu corpo em posição ereta, respira profundamente enquanto fecha momentaneamente os olhos e se desculpa para com o homem a fim de que evitasse maiores dissabores.

[Läude] — "Mil perdões. Vou me esforçar para que isso não volte a acontecer de novo." — [semblante de constrangimento].

        Nesse momento, o rosto do pai finalmente começa a melhorar e a assumir um semblante de serenidade e simpatia. Läude volta a olhar para a garota que estava logo atrás de si. Já a menina, exibia satisfação em sua face por ter deixado Läude em uma saia justa, já que a mulher se via de mãos atadas para que não ultrapassasse qualquer limite que fosse imposto pela menina. O que Läude não sabia é que, assim como o pai, a menina era má. A diferença, era que o homem somente mascarava sua perversidade com sua convincente simpatia e charme únicos. Mina era claramente maldosa com os diferentes de sua raça, somente tolerando quando muito não se podia manter à distância, os próprios Híbridos. A hibridez de alguma forma salvou a pele dessas pessoas de um buraco ainda mais fundo do que elas poderiam suportar.

        A partir daí, Läude tinha certeza de que estava lidando com criaturas monstruosas. Seu nojo e desprezo passariam a serem revelados em seu rosto no momento em que fita Mina se aproveitar de seu profissionalismo compulsório, para que não colocasse seu trabalho em descrédito. Mina não ajudava. Mina nada informava. Queria dificultar a vida da mulher de todo jeito. Läude até mesmo se sentia triste e culpada por não ter cativado a garota antes que a situação de conflito se escalasse. Mas àquela altura do campeonato, nada mais importava. Mina era um pequeno monstro alimentada por um pai igualmente doente. Belos por fora, amaldiçoados por dentro. Em tom de desprezo, Läude se afasta e se esquiva do homem que havia lhe lançado uma repreensão pelo seu olhar. Com raiva de tudo e de todos, a mulher caminha à passos bruscos à medida em que a forte luz alaranjada do sol exalta a cor de seus olhos raivosos e da pele dourada de seu rosto ressentido. O batom já não mais seria claro e discreto. Mas sim, escuro, ausente de luz. Um verde, em tom de morte.
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[Minutos depois]

        Passos curtos e lentos. Medo e sobressalto. Olhar premonitório. Mãos que se fazem erguer-se como se fossem tocar a qualquer momento os seus ombros. Os lábios de Yosan se forçavam para dentro à medida em que sabia do resultado desastroso que aquela entrevista poderia gerar para o seu bem-estar. De cabeça baixa e braços apoiados à tábua de madeira da cabana, a Militar rejeita o toque de sua companheira, renegando a existência de qualquer micro admiração pela qual, por algum milagre divino, havia sido cultivado por ela para com sua Tutelada.

[Bäuma] — [voz exaurida] — "Saia daqui...! Coisa imunda..." — [abaixa a cabeça].

[Yosan] — [olhar triste e amedrontado].

        Magal observa o tratamento brusco de Bäuma para com Yosan enquanto também fita Läude mudando o seu visual com bastante ódio em seu rosto. Sentia que a partir dali tudo começaria a dar errado naquela Entrevista Coletiva. O ruivo mostra um singelo olhar de reprovação em silêncio.

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PERGUNTA Nº 15: OS CIDADÃOS VANDORIANOS PODEM VIVER PACIFICAMENTE ENTRE OS SERES ESPECIAIS? E OS HÍBRIDOS?

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========================PERGUNTA 15: RESPOSTAS======================

.............................📹GRUPO 01

[Homem 01] — "Pacificamente?" — [vira o rosto, contorce os lábios] — "Aí depende deles. Por mim, eu vivo sim, tranquilamente... com os dois, se puder."

[Homem 02] — "Pacificamente sim. Entre nós, não".

[Homem 03] — "Concordo com ele."

[Läude] — "Muito bem..." — [realiza anotações em sua prancheta].

[Homem 01] — "Bonito o seu batom, moça." — [elogia].

        Läude se sobressalta com surpresa pelo inesperado comentário:

[Läude] — "Ah... obrigada. É a primeira vez que eu aposto em um verde." — [sorri].

[Homem 02] — "Caiu bem em você."

[Läude] — "Obrigada" — [sorriso simpático].

.............................📹GRUPO 02

[Mal-Encarado] — "Em relação aos Híbridos, sim. Aos Subs, nem pensar." — [semblante fechado].

[Vega] — "Não só podem viver como podem conviver também... pelo menos eu ainda acredito nisso." — [coloca a mão em seu peito].

[Läude] — "Ótimo".

        Vega não pôde deixar de reparar o batom chamativo que Läude estava usando em seus lábios. O tom de verde escurecido quase totalmente tomado pelas sombras fez com que o menino optasse inconscientemente por uma goma de mascar da mesma cor que a da boca levemente carnuda de Läude.
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.............................📹GRUPO 03

[Mulher de Óculos] — "Não... não. Impossível." — [diz entre risos e desdém] — "Olha, admiro quem gosta, mas eu não tenho paciência com gentes tão fracas e inúteis como são essas criaturas, isso me dá nos nervos..."

[Homem] — "Também acho que não... não se convive com quem é muito diferente de você. Pessoas têm que serem pelo menos um pouco mais parecidas entre si." — [nega com cabeça].

[Mulher de Óculos] — "... Senão fica impossível a convivência." — [termina a fala de seu esposo] — "Caramba, é só imaginar como seria morar na mesma casa que uma pessoa que se desgasta, cansa, adoece, e se machuca por qualquer motivo. Não tem produtividade...!" — [movimenta horizontalmente as mãos].

        Sem expressar uma gota de emoção em seu rosto, mas com um olhar de desgaste em sua face, Läude apenas descreve o que entender de importante em sua prancheta de anotações e cumprimenta os banhistas com um leve abaixamento de seu tronco como sinal de respeito antes de partir em retirada. De tão bombardeada com palavras odiosas que não escutava há muitos anos, a mulher já havia se acostumado com a falta de empatia e sensibilidade de seus conterrâneos para com seres mais fracos. Sem muito o que dizer perante seus entrevistados, a Biogeneticista se silencia e declina suavemente a sua cabeça enquanto vira as costas para o casal de Super-Humanos.

.............................📹GRUPO 04

[Läude] — "Éh... parece que só restaram vocês..." — [exibe um semblante de constrangimento em sua face] — "Posso deduzir que o convívio entre pessoas diferentes não parece ser uma experiência muito positiva para vocês..."

        Os estudantes fitam Läude como se estivesse lidando com uma pessoa destituída de sanidade.

[Estudante 02] — "Mas o problema não somos nós, elas é que sempre nos detestaram..." — [mira o braço para o seu lado] — "só criam problemas e não sabem conviver com ninguém."

[Estudante 03] — "O problema é que elas não aceitam a verdade... não gostam de lidar com os fatos." — "Elas deveriam saber o lugar delas, ora..." — [fala aborrecido].

[Estudante 01] — "Isso é tão chato. Fica parecendo que elas querem tomar o nosso lugar à força..." — [exibe desconforto].

[Läude] — "Se querem minha opinião, eu acho uma perda de tempo discutir o que um tem ou não do outro porque nenhum de nós escolhemos nascer da forma como somos. Independente das diferenças, elas devem simplesmente ser aceitas como parte do amadurecimento social."

[Estudante 01] — "É um discurso conveniente e bonito, mas que pode atrasar o desenvolvimento de um país..."

[Läude] — "E a solução pra você seria o quê? Escorraçar essas pessoas?" — [diz impaciente] — "Joga-lás em algum canto do País e deixá-las abandonadas?"

[Estudante 03] — "Se eles se esforçaram para virem até aqui no nosso planeta, eles podem muito bem se virarem sozinhos aqui, melhor até do que a Terra Natal deles, que mal comida tem..."

        No último estágio de sua paciência, esta subitamente se rompe como quem havia estourado com uma agulha, uma fragilizada película de uma bolha de sabão. A mulher perde toda a sua formalidade:

[Läude] — "Será que nenhum de vocês conseguem se imaginar POR UM MINUTO no lugar deles? A nave deles foi destruída! Muitos deles morreram sem terem feito nada contra nós, e agora precisam se adaptar a um mundo que não é deles porque eles estão PRESOS aqui!" — [aponta para os estudantes enquanto mostra um semblante sério] — "Vocês acham que estão em vantagem agora, mas um dia podem acabar estando no mesmo lugar que eles!" — [aponta] — "Ou vocês acham que não existem outras civilizações melhores do que a nossa que podem nos invadir?" — [exibe rosto sério] — "Ou que alguma doença não pode nos acometer e ficarmos tão fragilizados quanto eles? ... Pelos Céus, sejam pelo menos um pouco menos arrogantes na vida de vocês...!" — [vira as costas aos alunos em acesso de raiva]. 

        Surpresos com a súbita explosão de raiva de Läude, os estudantes permanecem imóveis por alguns segundos enquanto se entreolham pensativos sobre o que acabaram de presenciar. Sem receber qualquer simpatia por parte da entrevistadora, os alunos universitários apenas sacam de seus pertences com certo aborrecimento e desdém e saem da praia, para bem longe dali. Nem mesmo algum rastro das estudantes Híbridas pudera ser encontrado naquelas longas cortinas brilhantes de areia. A extensa faixa da forte luz exalta as mudanças de cores ambíguas das finíssimas partículas de areia. De tão pequenas, estas facilmente se dispersavam pelos ventos. Läude, estava no ápice de sua fúria.

[MINUTOS DEPOIS....]

        Passos largos. Caminhar pesado. Olhar de raiva.

[Läude] — "Pra mim, chega, essa entrevista aqui acabou." — [recolhe seus pertences].

[Magal] — "... Aonde você vai?" — [surpreso].

[Läude] — "Pra longe daqui!" — [raiva].

[Magal] — "Hey, espera, você nem terminou o trabalho, relaxa um pouco..." — [estende suavemente os braços].

[Läude] — "Pois eu estou abandonando, se encarregue por favor de terminar essa entrevista, sim?" — [pega a sua bolsa] — "Pode ficar com a maior parte da quota." — [sai do local].

        O homem fica sem saber o que fazer diante da fúria de sua amiga e colega de trabalho. Sua tolerância estava fora do limite, assim como não mais aguentaria ouvir aquele show de horrores disfarçados de palavras vindas das pessoas presentes naquela praia. No meio do caminho, a mulher se depara com o genitor de sua pequena rival mirim. Sem entender por que a Biogeneticista estava fugindo, seu olhar se direciona para Läude com certo espanto e incredulidade. Mina, de forma intromissiva e curiosa, vai atrás de Läude para verificar o que estava havendo.

[Mina] — "Hey!" — [corre] — "Hey!" — [alcança Läude] — "Por que está fugindo?"

[Läude] — "Não é óbvio? Estou fugindo de vocês!" — [responde de forma abrupta].

[Mina] — "As regras dizem que o entrevistador não pode sair do parâmetro até acabar o trabalho..." — [caminha].

        Läude, de forma sincronizada com a garota, subitamente interrompe seus passos para se projetar para responder à garota, especialmente com o que ela não gostaria de ouvir:

[Läude] — "Você nem seu deu o trabalho de responder as minhas perguntas, menina, como você vem aqui me dizer o que fazer com o meu trabalho?!" — [altera a voz].

[Mina] — "Você me IGNOROU e tratou mal a entrevista inteira! Como você acha que eu iria reagir?!" — [aponta o dedo para Läude].

[Läude] — "COM UM MÍNIMO DE DECÊNCIA E EDUCAÇÃO! COISA QUE VOCÊ NÃO TEM!... CHATA...!" — [fúria].

        Mina, com olhar de aborrecimento, lentamente abaixa sua mão cujo dedo apontava para Läude. Escutando os gritos que vinha da loura, o genitor se aproxima com passos apressados a fim de certificar que a situação não teria se escalado. Insatisfeito  e de braços horizontalmente estendidos, o moço tenta tirar esclarecimentos sobre a repentina explosão de mulher:

[Pai] — "Moça, o que está havendo? Não precisava se alterar dessa forma..." — [estranhamento].

[Läude] — "Desculpe, mas quem tem explicações a dever é o Senhor!" — [aponta para o homem] — "Essa menina está se transformando numa criatura MONSTRUOSA sem uma gota de sensibilidade porque o PAI a ensina ser assim!" — [gesticula, enquanto inclina-se suavemente para baixo].

[Pai] — "Pare com esse drama, você é que advoga pra quem nem se importa com a Senhora!" — [aponta para Läude] — "Se quer se martirizar por quem não é da sua raça, faça! Mas não culpe minha filha pela sua rebeldia sem causa!" — [pega na mão de sua filha].

[Läude] — "Pois vá à MERDA vocês dois, SAIAM da minha frente! Vocês se merecem pois são dois psicopatas desprezíveis! Seus MONSTROS!" — [destila toda a sua raiva contra pai e filha enquanto inclina seu tronco abruptamente para frente].

     Aborrecidos e espantados com a reação de Läude, ambos permanecem imóveis enquanto lançam olhares de reprovação para a mulher. A Biogeneticista então retoma seu caminho de onde deveria ter continuado. Antes que pudesse se distanciar do perímetro da praia, da cabana mais próxima puderam ser escutados alguns gritos vindos daquela região. Aos poucos, a entrevistadora desacelera seus passos quando se depara com Yosan tentando consolar a sua Tutelar, que a repelia com bastante rispidez. Para Läude, seria um alerta de que algo pior estaria por vir. Seu emocional transita para um semblante de aflição e angústia por perceber que estaria deixando a Secretária à mercê da Militar. Por precaução, a moça se abaixa próximo a algumas pedras altas de uma pequena mata e acompanha o desenrolar daquela situação.

[Bäuma] — [volta a levantar a cabeça de forma lenta] — "Eu vou devolver você para o asilo... você ouviu bem? É lá que você vai ficar." — [volta a baixar a cabeça].

        Yosan fica horrorizada com o a fala da Militar.

[Yosan] — "Como assim, asilo? ..." — [pausa para raciocinar] — Está me dizendo que eu te traí? É isso?"

[Bäuma] — "...Não. É o que vai acontecer se eu continuar te mantendo comigo..." — [exibe raiva em sua face].

[Yosan] — [semblante de tristeza] — "Bäuma, não pode fazer isso comigo, eu sempre fiquei do seu lado..." — [tenta se justificar].

[Bäuma] — "NÃO VENHA com desculpas!" — [explode em raiva] — "Agora eu sei o que você quer de mim, Yosan..." — [desprezo e raiva] — "o problema nunca foi a Läude. O problema aqui é você...! Você nunca gostou de mim!"

[Yosan] — "Iss... isso não é verdade..." — [soluça].

[Bäuma] — "Você não para em nenhum lar porque a cada pessoa que você deseja, você se afeiçoa! Não consegue construir nada duradouro na sua vida. Você é FRACA!" — [aponta para a mulher].

        A mulher quase chora quando escuta os sermões de Bäuma.

[Yosan] — "Isso é mentira, Bäuma, eu nunca traí meu sentimento por você nem de brincadeira...!" — [suplica].

[Bäuma] — "Mentira! Basta alguém piscar que você descamba para uma paixão cega! Não sabe diferenciar uma UNIÃO de diversão!" — [aponta para Yosan].

[Yosan] — "..." — [feição de mágoa e espanto].

[Bäuma] — "Como é que eu perdi TEMPO com uma moléstia viva como você? Eu achei que você fosse diferente dos Sub-Humanos que eu encontrei... mas vejo que você é igual a todos eles! A maior prova disso você já deu!" — [brava] — "De agora em diante, você vai pro mesmo lugar que os doentes e proscritos da sua raça!" — [aponta para a moça].

[Yosan] — [se afasta progressivamente e repele Bäuma com seus braços] — "Não... sai!"

        Um dos estudantes, uma garota que foi entrevistada junto a outros alunos, surge no local após escutar as vozes alteradas de Bäuma e Yosan.

[Estudante 01] — "O que está havendo aqui?" — [olhar de desconfiança]

[Yosan] — [voz de súplica] — "... Ela está tentando me encarcerar no asilo por conta de ciúmes dela...! Sem eu ter feito nada!" — [feição de choro].

[Estudante 01] — "Isso não poderia ser mais fácil de se resolver? Gente, por que vocês simplesmente não abandonam uma à outra?!" — [questiona].

        Em um acesso de raiva, a carrasca agarra um copo de vidro e o lança diretamente rumo à estudante, que se quebra em milhares de pedaços contra seus antebraços, no intuito de afastá-la. Yosan se assusta com a forma violenta em que a Militar reage à indagação da universitária. Espantada e ultrajada com a resposta de Bäuma, a estudante afasta rigorosamente os cacos de vidro de seus braços e desafia a mulher.

[Estudante 01] — "Qual é, sua cretina, está querendo brigar, éh?!" — [grita para com Bäuma] — "Vem pra cá que eu te mostrar como se...!" — [interrupção].

        A universitária tem a mão de Bäuma fortemente grudada em seu pescoço, na qual a fez perder a capacidade de respirar. Com alta habilidade de resposta agressiva, a Militar lança a estudante para longe, fazendo-a capotar sobre as areias da praia.

[Bäuma] — "Isso não é assunto seu, SUMA da minha vista!" — [lança um progressivo olhar de ódio para Yosan, junto a um travar de lábios] — "E você...!"

        Raivosa, a mulher agarra um dos braços de Yosan antes que a moça tentasse correr para longe. Sem misericórdia, Bäuma retém Yosan para si como quem arrasta um prisioneiro de guerra para o eterno banimento de seu lar. A moça se desespera quando percebe que será novamente encarcerada em uma clínica de contenção projetada para pessoas que, como ela, são miscigenadas. Tentando se libertar das fortíssimas mãos de Bäuma, nada surte efeito. 

[Yosan] — "Para, Bäuma, me solta! Me ajudem!!" — [grita, aos prantos].

    Outros três banhistas correm para ver o que estava acontecendo, preocupados com o distúrbio causado pela situação que havia se escalado. Läude assiste toda a cena com o coração na boca, mas se contendo para não se dirigir até o local. O vendedor da Cabana de onde estavam as duas mulheres, se choca ao se deparar com o tratamento violento da Militar para com a frágil moça. Ao abordar a Bióloga, o homem é apontado furiosamente para o seu rosto pela mulher.

[Vendedor] — "Hey, você não está machucando ela?" — [receoso].

[Bäuma] — "Não se meta! Ela é minha propriedade!" — [acena para si mesma].

[Mulher de Óculos] — "Que escândalo é esse que está havendo aqui? Todos na praia estão ouvindo...!" — [assustada e incomodada].

[Bäuma] — "Não é da conta de vocês! Vou levá-la pra onde ela nunca deveria ter saído! Ela vai APODRECER no asilo!" — [responde furiosa].

[Homem Praiano 01] — "Perdeu a noção, mulher? Essa sua Tutelada tem direitos, sabia?"

[Bäuma] — "Ela não tem direito algum, seu tonto! Agora saiam da minha frente!" — [adverte].

        Irresignada, a mulher permanece puxando Yosan pelo seu braço, a arrastando pelas areias como uma caminhoneta leva uma fina lata de metal vazia pelo asfalto. Läude segue as mulheres se longe, evitando o contato visual de Bäuma. Tendo o distúrbio alertado outros banhistas do Ponto-Norte, alguns seguem as duas mulheres para acompanhar o desenrolar daquele escândalo.

[Mulher de Óculos] — "Vem logo, amor! Vai ter briga daqui a pouco!" — [mostra-se animada].

        O homem mostra-se brevemente confuso perante a súbita mudança de humor de sua problemática esposa. O sorriso sem graça e o franzir de suas sobrancelhas resumiria aquele fatídico dia. Vega, começa a ficar preocupado com o princípio de uma espetacularização daquela tragédia.

[Vega] — "Não é melhor fazermos alguma coisa?" — [fita o pai].

[Mal-Encarado] — "Eu não... a relação delas não é da minha conta." — [levantar de ombros] — "Ninguém manda ela se engraçar com uma Híbrida, agora que pague a conta."

        Vega exibe uma gradativa e iluminada cara de tacho enquanto observa seu pai.

[Vega] — "...Pai?"

[Mal-Encarado] — "Que que é, menino?" — [impaciente].

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        À medida em que a mulher vai sendo arrastada pela imensidão das finíssimas partículas de areia levantadas pelos ventos como as sedas de um véu, os gritos de súplica da mulher ecoam pelos ouvidos dos banhistas que se espalhavam em torno da praia exuberante. Homens, mulheres, adultos, crianças, pretos, brancos, dourados, pálidos, pardos, obreiros, turistas, praianos, acompanhados, sozinhos, cobertos e pelados. De quilômetros de distância, todos ali ficaram curiosos pela cena incomum que estavam a se deparar em pelo menos 100 anos de existência. Os feixes de sol desnudavam as ondas sonoras de desespero que emergiam das cordas vocais de Yosan, e uma considerável quantidade da população praiana seguia atrás das duas mulheres, que mal percebiam que estavam atraindo uma legião de pessoas para um trágico espetáculo.

[Yosan] — "Bäuma, e o meu filho? Você não pensa no meu filho?!..." — [cede vários tapas nos braços de sua carrasca] — "Quem vai cuidar dele?... Hein?! Quem vai cuidar dele?!" — [raiva e desespero].

[Bäuma] — "ELE MESMO! Ele vai cuidar de si mesmo sozinho! Não precisa mais de você!" — [responde à Secretária].

        Enquanto o número de espectadores se acumulava em uma multidão, Läude se serpenteia por entre aquelas pessoas para que pudesse alcançar Bäuma e Yosan. Jornalistas já estavam começando a rodear aquele local e as lentes das filmagens estava se proliferando como pragas brilhantes, tal qual os olhos de mosquitos. Como estava longe de Magal, não tinha acesso à sua câmera. A loura aproveita para enviar uma breve mensagem de texto para o amigo com sua localização.

[Yosan] — "Aaaahh!! Me solta!" — [grita].

        Läude finalmente se aproxima das duas mulheres. A fim de parar Bäuma, a mulher invoca sua autoridade contra ela.

[Läude] — "Solta ela, Bäuma!" — [ordena].

        A Militar, já no último grau de sua fragilíssima paciência, destila um olhar de fúria e incredulidade para a sua entrevistadora.

[Läude] — "Larga ela agora, Bäuma! Isso é uma ordem."

[Bäuma] — "Läude... essa é a última vez que você se intromete na minha vida."

[Läude] — "E essa é a sua última agressão contra alguém. Vamos, agora é sério. Solta essa menina e deixa ela ir embora! Agora!" — [impõe seu comando].

[Bäuma] — "O seu trabalho já acabou..." — [raiva e desprezo].

[Läude] — "Eu ainda sou investida de autoridade caso você não saiba, portanto eu ordeno que você solte essa menina!" — [mantém-se irredutível].

        Com bastante raiva em sua face, Bäuma imediatamente se aproxima de Läude com Yosan ainda nos seus braços a fim de agarrá-la pelas alças de seu biquini.

[Bäuma] — "Você acha que ninguém sabe que você passou a entrevista inteira conspirando contra o meu relacionamento com Yosan? O que vai fazer quando encontrar outra novidade no lugar dela? Vai descartá-la como fez comigo?" — [encara a mulher com raiva].

[Läude] — "Qualquer um abandona VOCÊ!" — [arranca bruscamente a mão de Bäuma de suas alças].

[Bäuma] — "Pois então não venha mandar em mim! Se vier interferir na minha vida privada mais uma vez, EU é quem vou prender você!" — [aponta o dedo para Läude].

[Läude] — "pois então somos DUAS! Prenda a mim que eu prendo você também!" — [esbraveja].

[Bäuma] — "Não pode fazer nada porque você mesma FUGIU sem terminar a entrevista! Nada disso teria acontecido se você tivesse mantido a sua PORCARIA de seu profissionalismo durante o seu trabalho! E essa mal-amada aqui do lado não estaria sendo internada em um asilo por conta de sua falta de responsabilidade!" — [condena Yosan].

        Como última gota de tolerância que lhe restava, o medo e o desespero da mulher se converte em bestialidade em sua face. Yosan sabia que poderia morrer nas mãos da Militar, mas aquilo seria o último gesto de humilhação que teria que se submeter. O rajante feixe solar alaranjado cobria o rosto homicida que emergia em seu rosto. Nada mais importava para Yosan. Ela agora, odiava Bäuma, Läude, e todos que ali viviam. Odiava, porque era um peão sendo jogado pelas duas mulheres. Odiava, porque era um brinquedo nas mãos de qualquer Super-Humano que se aproximasse dela. Odiava, porque sua existência resumia em viver às sombras da servidão dos homens e mulheres daquele País. Odiava, porque toda a preocupação de Läude para com seu bem-estar, era exclusivamente por mera vaidade, conforme sua percepção. Odiava, porque toda a carga de responsabilidade era depositada sobre suas costas. Odiava, pois não era vista como igual pelos habitantes dali. Odiava, pois não era amparada pelas instituições que a deviam proteger. Odiava, pois se via sem personalidade, sem vida, sem alma, sem propósito, sem rumo, sem esperança, sem autonomia, sem nada. Finalmente, Yosan percebeu que se nem as leis e o povo a acolhem, ela mesma nada devia para nenhum deles. O último semblante de medo esboçado por Yosan, deixaria lugar ao mais puro ódio de quem não mais teria algo a perder. Seu filho, seus estudos, sua carreira, nada mais importava. Só queria a morte de todos ali em sua frente. O sol se punha cada vez mais devagar.

[Yosan] — "Ninguém seria tão mal-amada se você não fosse uma bosta de uma MEGERA!!" — [berra a plenos pulmões, assustando Bäuma] — "NINGUÉM nesse universo gosta você porque você é um CÂNCER na Terra! Qualquer criatura que se aproxima de você ADOECE nas suas mãos! Você é NOJENTA!!" — [despeja todo o ódio para cima de Bäuma].

[Bäuma] — "Cala essa bosta de boca, Yosan..." — [nervosa].

        Bäuma viu todo o ódio e revolta partindo do mais fundo da alma de Yosan. Pela primeira vez em sua vida, nem Läude havia sido tão transparente para com seu sentimento de rancor contra a Militar, na qual colecionava uma vasta gama de inimizades em sua longa relação turbulenta. A população se calava para ouvir as três mulheres. As lentes focavam no semblante bestial de Yosan. O despejo de catarse da Secretária, no entanto, não havia parado por ali.

[Yosan] — "Tudo que você toca com suas mãos IMUNDAS, você AMALDIÇOA!! Vocês duas! Todos vocês!! " — [aponta para os vandorianos na Ilha] — "Vocês são um bando de VERMES!! São uns MONSTROS!!" — [esbraveja] — "Merecem ser exterminados! Os Esmeraldinos fizeram POUCO perto do que vocês merecem!" — [berra].

        A plateia se espanta. Läude quase chora:

[Läude] — "Yosan, pare, eu tô tentando te ajudar. Por favor, não diga isso...." — [suplica].

[Yosan] — "FALO! EU FALO O QUE QUISER! Eu falo tudo o que vocês merecem escutar! VOCÊ É IGUAL A ELA!" — [aponta para Läude] — "NUNCA se preocupou com a MINHA segurança, só com a sua IMAGEM!".

[Bäuma] — "CALA o seu RAIO de boca, Yosan!" — [sacode seu braço].

[Läude] — "Larga ela!!" — [parte para cima de Bäuma, que acaba lhe dando um ligeiro sopapo em seu rosto].

        Destemida, Yosan faz questão de aproximar o seu rosto para próximo da Militar para desafiá-la ainda mais.

[Yosan] — "VAI PRO INFERNO! ME mande pro asilo já que é isso que você quer! Porque eu sou aliada convicta do James Wesley, e ele vai estuprá-la e colocar sua cabeça numa estaca se souber que você encostou a mão em mim!"

        O ódio de Bäuma cresce em seus olhos.

[Yosan] — "Você se acha tão superior por ser uma SH, não é Bäuma?! Deve ser por isso que Deus condenou uma cadela amargurada como você a permanecer ESTÉRIL!" — [grita a plenos pulmões].

[FORTE GOLPE. ESPIRROS DE SANGUE. QUEBRAR DE OSSOS. COMOÇÃO DO PÚBLICO].....

        Um barulhento golpe fez com que alguns ossos sendo quebrados pudessem ser escutados. Um véu tampou os olhos de Bäuma por alguns segundos. Yosan estava caída nas areias, inconsciente. O sangue era absorvido pelas finas partículas furta-cor daquela bela praia. Os espectadores, que até então assistiam a cena com bastante interesse, se mostraram amedrontados com o estrago feito no rosto de Yosan. O golpe certeiro em sua face parecia ter lhe quebrado a sua vértebra. Assustados, os jornalistas param as filmagens e começam a chamar a Equipe de Emergência enquanto alguns dos banhistas tentavam estancar o sangue da mulher e a levavam para um local mais seguro. 

        Läude se levanta e depara com a horrível cena da mulher desfigurada em sua frente. A última ponta da veia em sua cabeça é rompida quando percebe que o golpe desferido por Bäuma, parecia ter matado definitivamente Yosan. De espanto, seu olhar pálido e gélido acompanha o amolecer de seus braços. Läude não acreditava no que havia visto. Uma vaga cena de toda a história de sua vida passou diante de seus olhos. Pela primeira vez, Läude se viu completamente cega de ódio. Não apenas pelo que deixou de fazer pela vítima, mas pela impetuosidade de uma mulher, que há muito tempo lhe repetiu similar agressão. Se estivesse no lugar de Yosan, possivelmente seria mais um cadáver a ser espatifado e jogado no chão. Sem nada enxergar em sua frente, a Biogeneticista parte com toda a sua cólera para cima de Bäuma.

[Läude] — "SUA DESGRAÇADA!!" — [desfere um golpe].

[FORTE SOCO NO NARIZ. DESEQUILÍBRIO].

        Bäuma quase cai para trás quando leva o golpe de sua ex-companheira. Tamanha foi a força que o rosto da mulher imediatamente se avermelhou, deixando-a momentaneamente desorientada. Não era Läude que estava na sua frente, mas sua potencial assassina.

++++++++++Manhunt 02 - Red Light [Yellow]++++++++++++

[FEIÇÃO DE ÓDIO. REVIDE].

        Em resposta, a Militar parte para cima da loura quando tem a sua mão contida pela Biogeneticista, que por conseguinte, tenta espancar a mulher de penteado chanel, momento em seu golpe é bloqueado e tem sua a sua mão utilizada para lhe desferir mais três socos em seu queixo. Não obstante, Bäuma a agarra em suas alças e cede uma forte cabeçada contra a testa da mulher, que não se deixa abater e derruba Bäuma ao solo por meio de seu cropped e um ligeiro chute rente à sua perna. Disputando forças entre os braços uma da outra, Läude por um momento torce as mãos da Militar e rapidamente afasta seus braços para que lhe efetuasse diversos golpes que deformariam facilmente o rosto uma pessoa comum. Para fugir das agressões, Bäuma agarra a garganta da Biogeneticista torcendo o seu colar com toda a sua força a fim de enforcá-la. Presa às mãos da rival, a mulher arranca seu próprio colar com suas mãos e saca de uma pedra próxima de si para jogar na cabeça de Bäuma, que é contida pelas mãos da Militar caída no chão.

        Jogando a pedra para longe, Bäuma desfere uma joelhada contra as partes íntimas da mulher e a empurra para longe de si, agarrando-a pela cintura enquanto ainda estava caída e a lançando seu corpo contra uma espessa parede rochosa, que a faz colidir a cabeça, costas e pernas. Ainda com sede de vingança, Läude se levanta e avança para cima de Bäuma quando têm as suas mãos seguradas e é brutalmente empurrada contra a parede rochosa. Encurralada, a loura repele Bäuma com seus dois pés e a afasta temporariamente de si, momento em que um ligeiro chute aéreo desferido pela Militar contra seu rosto é rapidamente desviado pela mulher. Tal brecha faz com que a Militar receba um certeiro golpe na boca de seu estômago pela Biogeneticista. Isso deu chance para Läude agarrar Bäuma pelos cabelos enquanto recebia diversos golpes da Militar em seu rosto e abdômen. Ambas disputam forças com seus braços por longos segundos. Os raios solares estavam se crepusculando, e os tons de vermelho já se misturavam com o azul. Läude consegue desferir uma forte joelhada na testa da Bióloga enquanto a mantinha aprisionada pelos cabelos. Em revide, Bäuma se levanta com toda a sua força e dá-lhe uma pesada próxima de sua virilha, recebendo em troca, uma pisoteada no seu joelho que a faz ser colocada em posição de submissão perante Läude.

        Aproveitando a deixa, a Biogeneticista acerta fortes joelhadas no rosto de Bäuma, que já na quarta tentativa de golpe contra sua face, contém o joelho de Läude com suas mãos. Com a oportunidade lançada, a Militar desfere um pesado soco em sua barriga, o que faz Läude se afastar momentaneamente de dor, mas sem se desgarrar dos cabelos de Bäuma. A Militar finalmente se levanta para violentamente golpear o queixo de Läude com seu joelho, e assim, ambas se deslocam juntas para a direção oposta, sem cair. Bäuma tenta a todo custo arrancar as mãos de Läude de seus cabelos. Läude cede uma cabeçada no nariz da mulher. Bäuma lança cinco socos nas costelas da mulher loura.

[Bäuma] — "Joga limpo, filha da puta!" — [desfere mais um soco].

[Läude] — "Com você eu jogo baixo..." — [feição de ódio].

        Cansada de levar pancadas atrás de outras, Läude finalmente solta uma das mãos dos cabelos de Bäuma para então acertá-la com um certeiro golpe em seu nariz, tonteando a mulher. Bäuma se agarra em um dos braços livres da Biogeneticista para tentar torcê-lo e quebrá-lo, o que lhe rende uma tarefa difícil. Ambas realizam movimentos circulares agarradas uma à outra. Bäuma decide virar-se para o sentido contrário e se derrubar ao chão junto à rival, posicionando-se de barriga para cima nas areias para se libertar da mulher.

        Mesmo deitadas em direções opostas, uma das mãos de Läude ainda permanecia presa aos cabelos da Militar. Enfurecida, Bäuma agarra os pulsos da Biogeneticista e levanta todo o peso de seu corpo junto ao de sua rival, mantendo-se de pé e erguendo Läude em suas costas para logo após, lançar a entrevistadora com toda a força contra uma chapada rochosa, podendo ser ouvido o imenso barulho de sua colisão. Mesmo diante do estrondo, Läude não soltava os cabelos de Bäuma. Como tentativa de inutilizar seus braços, Bäuma soca o cotovelo de Läude para que este seja projetado em sentido contrário, causando-lhe enorme desconforto e fazendo-a rodopiar pelas areias. Tal golpe contra seu cotovelo fez Läude finalmente soltar os cabelos chanel da Militar.

        A Biogeneticista se levanta, balança seu braço e se posiciona para o enfrentamento contra Bäuma. Ambas já estavam com impressões vermelhas em seus corpos marcados pelos golpes trocados entre si, que apesar da extrema violência, se mantinha intactos. Com agressões como essas, pelo menos uma das duas já estariam mortas se não fosse pelas suas condições biológicas. A população assistia em silêncio toda aquela luta sem dizer uma única palavra. Os olhares, já não eram de amistosa curiosidade, mas de espanto, ansiedade e tensão. Yosan, já havia sido levada para um Hospital de Urgências mais próximo dali. O seu sangue, estava aos respingos pelas areias.

        Läude chama Bäuma com suas mãos e esta prontamente avança para lhe acertar um forte chute aéreo que era para ser atingido em seu rosto. Läude habilidosamente desvia do golpe e acerta outro no diafragma na Militar, que após breve hesitação, salta para desferir uma cotovelada em sua cabeça, o que faz Läude se desequilibrar e cair no chão. Bäuma levanta a ex-companheira como quem lida com uma boneca de pano, agarra um de seus braços em posição horizontal e golpeia seu rosto com seu cotovelo por cinco vezes. Läude bloqueia os ataques e rodopia a mulher em 360 graus para jogá-la contra a plateia, que a empurra de volta contra a loura, propiciando uma nova chance de Läude lançar um novo golpe com um de seus pés contra o rosto de Bäuma. A dor, faz a Militar hesitar por um tempo.

        Furiosa com a estripulia de sua ex-companheira, Bäuma avança contra Läude com um soco, mas é contida através de um de seus braços depois de ter seu golpe desviado pela Biogeneticista. Por conseguinte, Läude consegue aplicar uma chave de fenda no pescoço de Bäuma depois de muito esforço para contê-la, que tenta se desvencilhar da força braçal da mulher. Sendo a Militar de maior estatura e envergadura que sua rival, seus joelhos estavam mais tensionados que os de sua ex. Igualmente impiedosa, a Militar finca seus dois polegares com toda a sua força no meio dos dois olhos de Läude, que sente as dores das afiadíssimas unhas de sua algoz tentando espremê-los como quem estoura tomates. Seus gritos se alastram pela população, que cada vez mais mostram euforia pela violência que era aplicada no combate.

        Läude termina soltando Bäuma, que não perde a chance de chutá-la violentamente em suas costas, fazendo-a cambalear pelas areias e atraindo os gritos dos espectadores. Com a loura mantida de joelhos, um novo chute com a ponta dos pés é lançado contra o rosto de Läude. Como nova tentativa de agredi-la, Bäuma lança novamente um golpe circular contra Läude, o que falha miseravelmente quando a entrevistadora desvia do ataque ao mesmo tempo que acerta a região íntima da mulher com um de seus pés, o que a faz perder o equilíbrio de seus golpes, sendo jogada contra a areia úmida.

        Em réplica, Bäuma se ergue e golpeia a mulher com toda a força em sua face, impulsionando-a contra o solo. Caída nas cortinas de areia, Läude tenta aplicar uma pesada em Bäuma sem sucesso. A militar segura seus pés e vira a mulher de bruços a fim de agarrá-la pelos seus cabelos e bater em sua cabeça repetidas vezes. Läude tenta sair daquela situação, mas a mulher é forte e pesada. Tenta segurar seu punho, mas Bäuma não parava de batê-la. Protege sua cabeça com seus braços para tentar amortizar os golpes. Läude então empurra a mulher para trás por meio da sua bruta força, impulsionando todo o seu corpo para o sentido contrário.

        Magal corre até o local aonde Läude e Bäuma lutavam entre si. Dos espectadores que assistiam o combate, a maioria ainda estava assolada pelo atordoado silêncio provocado pelo atentado à integridade de Yosan. Outros, se mostravam ansiosos por um desenrolar daquela sucessão de espancamentos. Os mais ousados, se muniam de objetos dos mais variados para uma oportunidade de jogar combustível na disputada briga entre as duas mulheres. Para algumas dezenas que nunca haviam tido contato próximo com sangue, o medo e o horror davam lentamente lugar a uma estranha curiosidade que acendia o deleite daquelas pessoas. Não só os desconhecidos tinham lugar naquele espetáculo como também os rostos familiares:

[Mau-Encarado] — "Briga boa, hein? Tava demorando..." — [altivo e braços cruzados].

[Vega] — "Sinceramente, não sei até onde isso vai..." — [preocupado].

[Mau-Encarado] — "Se deixar, vão ficar horas nisso." — [olhar sério].

        Aproveitando a vulnerabilidade da Militar, a mulher, que se arrastava por entre as areias úmidas para se levantar, corre até uma das mãos de um espectador que lhe disponibilizava um comprido taco de titânio pesado. Ao lançar o objeto contra Bäuma, a forte colisão da arma contra a sua cabeça fez a mulher tontear por alguns instantes, o que na segunda paulada, foi contida pela mão da militar, que toma o taco de titânio de posse da loura e lança sucessivos ataques contra a mesma. Desviando-se de todos os golpes de Bäuma, Läude bloqueia o objeto e o toma à força da militar, finalizando com uma certeira paulada em sua cabeça enquanto estava em posição abaixada. Um acerto em cheio na consciência da mulher, que termina declinando sobre a areia fofa como pinos de boliche. Caída, mas não neutralizada, Bäuma surpreende Läude quando lança uma pesada em seu estômago a fim de afastar a mulher, que se desequilibra e cai sobre as finíssimas areias.

        Uma espectadora chama por Bäuma, entregando-a de antemão uma enorme janela já equipada com robustas vidraças pesadas como chumbo. Sem pensar duas vezes, a Militar se levanta para pegar o objeto e lança a extremidade de madeira da contra o pescoço de Läude, que sufoca por alguns segundos. Aproveitando o momento para agarrar a mulher pelos cabelos assim como fez com os seus, Bäuma apoia a ponta do objeto vidrado em uma das pedras antes de trazer Läude para bem próximo da janela, momento em que jogou sua face com tudo contra a parede de vidro, o que terminou por destruir a sua arma por completo. Não só uma, mas foram duas, três, quatro vezes para romper de vez com a superfície de vidraça que se partira em finíssimos pedaços afiados. Bäuma joga a mulher desorientada para longe dali, momento em que se prepara para dar o golpe final em sua entrevistadora enquanto ela estava sentada de costas.

        Antes que pudesse executar o Gran Finale, o homem ruivo chega até o campo de luta sob um forte chute contra as costas de Bäuma, que é empurrada pela força do golpe. A mulher quase se desequilibra e destila um olhar enfurecido contra o homem. Ao tentar recepcionar Bäuma com um certeiro soco, Magal é contido pelas mãos de Bäuma e é revidado com uma certeira cotovelada em seu rosto junto a um sucessivo golpe contra o nariz do rapaz. Ato contínuo, a mulher desfere uma rasteira pelas suas pernas, seguido de um golpe contra seu peito. Subjugado, a Militar agarra o pescoço de Magal com toda a sua força.

[Magal] — [voz abafada] — "Resolveu aparecer agora que eu cheguei...?" — [provoca].

[Bäuma] — "Vai se foder..." — [o estrangula].

     Na tentativa de estrangular Magal, Bäuma empreende ainda mais força contra o homem, momento em que o ruivo espreme os olhos da mulher na tentativa de repeli-la, que apesar do distanciamento de sua cabeça pelo incômodo que sentia, a mulher não desiste de empreender força contra o pescoço do homem. Este torce os pulsos da militar para afastá-los de seu pescoço, que uiva de raiva e de dor ao tentar disputar forças com o rapaz. Com os olhos lacrimejantes, Läude observa a luta entre sua rival e seu amigo enquanto se recupera na tontura provocada pelos golpes. A loura já havia quase perdido o rumo de casa.

        Para tirar a militar de cima de seu corpo, o homem habilidosamente dobra seus joelhos por debaixo das pernas de sua combatente e a empurra com seus dois pés para longe. No momento em que se levanta para se dirigir a Magal, Läude avança com o certeiro soco na lateral do rosto de Bäuma, momento em que o homem também aproveita a deixa para esmurrar a mulher do outro lado da face. Com raiva, Bäuma tenta lançar uma de suas pernas contra o rosto de Magal, que a segura e a lança contra as areias. Quando novamente tenta se erguer, Bäuma vislumbra Läude correndo para golpeá-la, momento em que a Militar impulsiona uma de suas pernas para acertar os pés da Biogeneticista e desequilibrá-la contra o solo. Cambaleando pelas areias, mas sem perder o fôlego, a loura mais uma vez avança contra Bäuma, que lhe lança uma pesada contra a boca de seu estômago, sendo outra vez jogada para longe dali. Magal desaparece da vista de Bäuma quando esta se mantém de pé e procura pelo homem ruivo pelos arredores do espaço arenoso.

[Bäuma] — "Cadê esse pulha?" — [diz enraivecida].

        De um lado e de outro, a Militar procura pelo seu rival, instante em que este surge lançando camadas de areias contra os olhos da Comandante, que é cegada por alguns segundos devido às finíssimas partículas que cobriam a sua visão. Läude surge mais uma vez por detrás de se ex-companheira, acertando-a com um pedaço da vidraça da mesma janela que foi utilizada contra a entrevistadora. Bäuma, momentaneamente deixada de cotovelos no solo, rapidamente golpeia o rosto de Läude com a parte oposta de uma de suas mãos e se depara com um movimento giratório feito por Magal no intuito de acertar em cheio o seu rosto. Muito rápida, Bäuma dribla o ritmo de velocidade do rapaz para sacar uma de suas pernas e jogá-lo contra o chão, causando um grande impacto nas areias. Sem hesitar, o homem ruivo pisa no joelho de Bäuma para evitar sua aproximação, o que e a faz momentaneamente perder o equilíbrio de seus movimentos e render-lhe brecha para chutar o rosto de sua inimiga ainda em posição sentado, impulsionando-a contra a direção oposta de onde estava Läude. Antes de passar a vez para a loura, Magal agarra a mulher pelo seu cropped e desfere um lindo soco que tonteia a militar por alguns segundos. O segundo golpe é lançado pela Läude com um de seus pés, acertando o ouvido de sua ex-companheira. O terceiro golpe, foi uma cabeçada lançada em cheio por Magal contra o rosto da militar, que termina parando nos braços de Läude. O quarto e último soco foi aproveitado pela Biogeneticista, que vira e empurra a mulher desnorteada para acertá-la de braço firme contra seu estômago.

        Cansada de apanhar de dois combatentes ao mesmo tempo, Bäuma queria se livrar de Magal para terminar a sua luta com Läude. O homem sorrateiramente lhe chuta por entre suas partes íntimas enquanto a Militar se mantinha de tronco abaixado devido ao golpe em seu abdômen. De joelhos sobre as areias, Magal preparava-se para estrangular a mulher rendida. Não contando com o fato de que a Militar era demasiadamente esperta, Bäuma saca de um aparelho de dispositivo elétrico de longa distância e o acerta no pescoço de Magal, já que estava munida de um discreto eletrochoque na lateral de seu short-saia amarelo. Como os Super-Humanos são fracos sob descargas elétricas, o homem ruivo teve seu corpo paralisado, e logo em seguida, caiu ao solo desmaiado. De semblante vingativo, a Militar guarda seu aparelho de choque dentro de suas roupas para que não fosse tomado à força pela sua ex-noiva e desembaraça seus cabelos enquanto limpa os resquícios de areia que estavam em seus olhos. Läude se atenta ao aparelho elétrico junto a Bäuma.

        Mesmo surpresa pela armadilha de sua rival contra seu amigo, Läude não pensa duas vezes e tenta golpear a Militar com um chute rodopiado. Bäuma desvia, e logo em seguida acerta um soco contra o meio do rosto da Biogeneticista. A força do golpe da militar faz Läude começar a sangrar pela primeira vez. A cicatrização, porém, é extremamente rápida. Com uma das suas mãos em seu nariz, a mulher percebe que foi lhe arrancado sangue, o que atiçou ainda mais a sua fúria. Apostando no "vence quem derruba primeiro", Läude agarra o cropped da militar e a acerta com um soco ainda mais forte contra seu queixo. O impacto do golpe faz Bäuma ter seu rosto lançado para trás junto com pequenas gotas de saliva de sua boca. Com o dente trincado pelo golpe, a Comandante revida com um novo murro contra a face de Läude, que novamente repete o mesmo movimento, e assim, sucessivamente.

        Em um determinado momento, os socos finalmente pararam. Foi quando Läude cedeu um forte tapa contra o rosto de Bäuma, que apela e acidentalmente lhe arranca por completo as roupas de seu biquíni ao tentar puxar a sua ex-noiva contra si. Com os seios à mostra, o público vai à loucura com a conduta inesperada de Bäuma e deixa os espectadores ainda mais animados. Percebendo o acidente ocorrido, Bäuma fita o biquini em suas mãos e raivosamente o lança contra as areias. Läude, ao contrário do que era esperado, ergueu os braços e destilou um sorriso sanguinário para a sua rival, mostrando que estava a se divertir com aquela situação. Em posição de luta, ambas realizam movimentos circundantes antes de partirem novamente para a trocação de golpes:

[Bäuma] — "Então, a traidora conhecia o James Weslley..." — [sorri] — "Me conta, você é amante dele também?" — [provoca] — "Que tal ir junto para a terra natal dele já que é tão revolucionária? Se eu te fizer ser expulsa por traição, você toparia?" — [ameaça].

[Läude] — "...Pelo menos eu ficaria bem longe de você..." — [debocha].

        Não apreciando a resposta da mulher, as duas avançam uma contra a outra e colidem com seus rostos entre si junto às suas mãos. Läude joga as mãos de Bäuma para trás e ambas começam a trocar movimentos que eram constantemente bloqueados de forma equânime pelas duas. Entre uns socos e outros, nenhum dos golpes conseguiam acertar as duas combatentes. Disputando forças com seus braços, todas as tentativas de atingir uma à outra são bruscamente interrompidas, dando início a uma sucessão de rápidos movimentos que envolviam mãos, cotovelos, antebraços e braços. A cada golpe desferido, dois eram neutralizados. A luta estava sendo feita de forma equilibrada, sem nenhuma das duas mulheres sendo passadas para trás.

        Ambas forçam seus braços um ao outro para que tentassem repelir uma à outra. Por desvantagem de Läude, Bäuma tinha mais força do que a Biogeneticista. Tendo seus dois braços afastados, a Militar aproveita a brecha para pisotear o seu joelho e rapidamente agarrar sua rival pelo pescoço. A loura é prendida pelos braços da mulher de tal forma que a mesma mal conseguisse respirar. A Militar queria asfixiá-la até quanto tempo durasse, e os entrevistados assistiam aquelas cenas atônicos com o tamanho esforço das mulheres para massacrarem uma à outra. Por um breve momento, os banhistas começaram a perceber que Bäuma queria matar a ex-noiva. Braços começam a se levantar e vaias começam a se emergir à medida que a loura se debatia contra a chave mortal aplicada contra seu pescoço. A graça do combate se desfaz e os presentes começam a reclamar da cruel tática de Bäuma, partindo para um protesto coletivo contra a ex-Comandante para que deixasse a mulher livre. Coros, gritos e ameaças de agressões começam a se mostrarem cada vez mais acalorados aos arredores das duas combatentes.

        Läude estava consciente, mas sabia que poderia ter sua vida ceifada mesmo que aquele ritual perdurasse por dez horas. Furiosa com os protestos populares, Bäuma força ainda mais seus poderosos braços contra o pescoço de sua vítima.

        "Hey! Solta ela! Você vai matá-la!" — [grita o primeiro] — "Pare de apertar ela, PORRA!!" — [clama o segundo] — "Alguém pare essa mulher, isso não é luta, é um assassinato!".

[Bäuma] — "CALEM A BOCA!! SENÃO EU MATO ELA MAIS RÁPIDO!" — [desafia].

        Mesmo que que Bäuma espremesse o pescoço da mulher como se estivesse apertando uma boneca, a moça era em demasia resistente para suportar por pelo menos mais quatro horas de asfixia. Não era fácil matar um SH. Tinha de haver um esforço infinito para que conseguisse fazê-lo ao menos desacordar. A loura, apesar de tentar se comunicar, mal conseguia emitir um único som de sua voz. Seus olhos marítimos fitavam o rosto de Bäuma com um fino semblante discreto de súplica. Todo o seu experimento social seria arruinado por conta de seus problemas pessoais. Bäuma queria ver a sua ex-noiva morrer diante de seus olhos.

[Bäuma] — "Fale... Läude. Fale, agora." — [semblante de ódio e desprezo] — "Eu não estou ouvindo você."

[Läude] — "..." — [olhar fixo].

[Bäuma] — "Tudo isso teria sido evitado se você não fosse uma aventureira..." — [força] — "desleal..." — [força] — " e negligente..." — [emprega ainda mais força].

        À essa altura, Bäuma já estava com os braços completamente arranhados pela vítima. Mesmo não exibindo escoriações, as regiões já tinham sido fincadas pelas unhas de Läude até que saíssem fumaça. Era como se a qualquer momento uma chama se acenderia sob fricções entre dois pedaços de madeira. Bäuma era extremamente forte. Dura. Resistente. Läude não tinha metade do treinamento militar de sua ex-noiva, e por várias vezes aprendeu a lutar por conta de seus ensinamentos. Agora a loura se vê miseravelmente prendida pelo pescoço pela mulher que a fez lutar debaixo de pancadas. Läude desfere todos os golpes possíveis contra a sua algoz. Mas o seu corpo já estava bastante enrijecido e nada poderia fazê-la interromper sua lenta sessão de tortura. Mesmo tendo um pescoço duríssimo de espremer, aos poucos, a mulher iria começar a fadigar.

        Os espectadores começaram a se mostrar insatisfeitos. Passaram a jogar pedras, pedaços de madeira, cocos, garrafas, recipientes de vidro, até mesmo extintores de incêndio foram usados como protesto. Alguns até mesmo tentaram avançar para cima da Militar com chutes e socos, mas nenhum deles tirou a mulher do seu devido lugar. Em uma das investidas, Bäuma lança uma mulher quilômetros de distância para fora da área de combate só um único chute dorsal. A insatisfação e ataques contra Bäuma se intensificaram ainda mais. Como não havia fácil acesso ao armamento de uso restrito, muitos lançaram mão até mesmo de fuzis com balas de ferro para tentar causar algum incômodo em Bäuma. Nada adiantou. Os sons criam eco, os gritos se abafam e Läude estende uma de suas mãos rumo em direção ao brilho do sol.
    
        A mulher começa a se lembrar da primeira vez de quando conheceu a sua ex-companheira, que agora estaria se tornando oficialmente a sua assassina. Era um belo dia, tão radiante como a sua agitada juventude...

------------------------[F L A S H B A C K ]-----------------------

        Semana de férias. Ponto alto do verão. Ponto-Sul. No auge de sua adolescência, aos 40 anos, tinha como um dos hobbies prediletos jogar bola. Um objeto redondo, cor de rosa chiclete, flexível e resistente a pancadas. Nunca perdia a chance de treinar as suas habilidades com o brinquedo. Enquanto treinava com seus outros colegas de escola, uma gangue de adolescentes mais velhos se aproximava daquela região arenosa para afastar as outras crianças. Por ironia do destino, a bola rosada é lançada para longe de Läude, momento em que esta vai buscá-la justamente para bem próximo dos adolescentes. Quando menos esperava, a jovem agachada se depara com os alunos mal-encarados, já com o objeto rosado em suas mãos. Todos os seus colegas ao redor da praia já haviam se distanciado do local devido a presença dos moleques. Pensando em se tratar de ladrões, Läude agarrou o seu brinquedo e não estaria disposta a entregá-lo.

        Quando um dos membros do grupo ameaçava pegá-la pelo braço, uma garota interrompeu a ação do colega somente erguendo um de seus antebraços. Sem dizer uma palavra, o rapaz cessou sua tentativa de intimidar a menina. Sob o estalar de dedos da moça, os garotos então se espalham para organizarem o seu treino esportivo. Läude se levanta no intuito de ir embora quando rapidamente a bola rosada é tirada de suas mãos. A garota se espanta, e a moça mais velha passa a tomar gosto por desafiar a menina logo no seu primeiro olhar para ela. Persistindo em resgatar o seu objeto de pertence, a dona da bola tenta tomá-la várias vezes das mãos da adolescente mais velha, que habilidosamente se desvia para desafiar a mais nova.

[Läude] — "Me dá, isso é meu..!" — [exige].

        Mesmo diante da súplica de Läude, a jovem continuava a provocá-la lhe privando de ter a sua bola cor de chiclete de volta. Perdendo a paciência, a loura começa a demonstrar revolta contra a moça:

[Läude] — "Você tem algum problema, sua retardada?" — [rasgou o verbo].

        Como reprimenda, a jovem mais velha lhe desfere um tapa em seu rosto, fazendo com que a menina loura fosse derrubada no chão. Um rompante súbito de raiva parte o peito de Läude.

[Läude] — "Sua cretina!" — [ergue-se].

         Bastante furiosa com a resposta da adolescente, Läude imediatamente se levanta para acertar diversos socos contra a sua agressora, que eram todos desviados por ela somente com a dança de seus pés. Os ombros e rosto da jovem agressora acompanhava o ritmo oposto dos rápidos braços da menina. Para dar um fim nas investidas de Läude, a moça lança uma ligeira rasteira com um de seus pés que acaba por derrubar mais uma vez a garota mais nova. Com raiva das provocações da jovem mais velha, a menina se mantém empenhada a resgatar a sua bola. Nesse momento, Läude bruscamente se levanta para agarrar o punho da mulher à força quando um doce toque delicado em seu queixo a deixa paralisada pela primeira vez. Com o seu corpo estático e sua mão sobre o pulso empunhando a bola cor chiclete, a direção do rosto fez com que Läude mantivesse contato olho no olho para com a jovem audaz. Foi sob o forte brilho solar do meio-dia que Läude pode ver pela primeira vez o rosto de Bäuma. O semblante de uma mulher bruta, abusiva, impiedosa..., Mas profundamente sedutora, maternal. Esta, lhe fitava como quem já tivesse laçado o seu coração. Seus dedos esmaltados aproximavam ainda mais o queixo da menina para bem próximo de seu rosto, o que a deixava ainda mais vulnerável em suas mãos.

[Bäuma] — "Você é minha..." — [sussurra].

        Foi amor à primeira vista. Läude se espanta diante das palavras galanteadoras de Bäuma e entrega seus olhos como quem tivesse sido pedida em casamento. 

[Bäuma] — "Achou que eu não iria devolver a sua bola? Logo de uma coisa linda como você?" — [olha fixamente a garota].

           A jovem mais velha lentamente entrega a bola rosada para uma das mãos da menina apaixonada e migra seus dedos delicados de seu queixo para sua nuca, pescoço, costas e cintura. Apesar de bem jovem, já tinha o corpo bastante desenvolvido para a sua idade. Intimidava os outros colegas com a sua imponência junto à sua extrema beleza. Seu olhar mordaz lança um ultimato junto ao belo rosto de Laude. Os feixes de luz ligavam os fios de seda de seus cabelos chanel ao canto de sua face, próximos de seus olhos dourados. A menina mais nova nada emitia a não ser o mais profundo silêncio de sua voz:

[Bäuma] — "Eu quero encontrá-la aqui. Nessa mesma hora. Nua." — [ordena sob voz aveludada].

             A menina loura deixa cair a bola rosada no chão...

[Bäuma] — "Eu estarei aqui para vê-la de corpo e alma." — [fita].

        Assim foi Bäuma... Bäuma. Uma mulher complicada e um verdadeiro Tanque de Guerra. A mulher com quem Läude conviveu por 50 anos de sua vida. Aquela foi a primeira vez que a menina loura desabrochou.


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++++++++++++[Tony's Theme]++++++++++++++++
         
            À Läude já não lhe restaria mais forças para retirar os braços de sua ex-companheira de seu pescoço. Suas dezenas de socos, arranhões, cotoveladas, tentativas de se levantar, todos eram inúteis. Tentou enfiar suas mãos entre seu pescoço e os braços de Bäuma, mas não havia mais um milímetro de espaço ou brecha para uma tentativa. Um homem parte para cima da Militar para derrubá-la, mas é atingido por uma enorme tábua maciça, que à princípio, era para ter acertado Bäuma. Olhando para o lado, mas com semblante firme, estava certa de que iria concluir sua execução contra a sua vítima. Alguns objetos que eram atingidos em Bäuma, terminavam acertando por infelicidade Läude, que agora tinha de escapar dos braços da mulher e da fúria da população. Magal começa a despertar em meio a um nevoeiro de objetos voando para todos os lados. Um dos espectadores que não o viu pelo caminho, acabou tropeçando pela costela do homem ruivo e caindo sobre as areias. O sujeito imediatamente sai de cima de Magal, que lança um olhar de atordoamento. Quando dá por si, o homem olha para trás e se depara com o estrangulamento.

            Em um momento em que seus sentidos começavam a se confundir, Läude imaginou quão tola poderia ter sido em provocar a ira da Militar. Mas não teve jeito. Läude era teimosa, e uma mulher havia sido desfigurada em frente a vários populares por ciúmes. Teria sido por vingança pessoal? Läude era provocadora, mas tinha nobres intenções. Queria livrar a pobre vítima em que um dia já esteve em seu lugar. Fora 50 longos anos de tapas, socos, rateiras, beijos, sussurros e lampejos de prazer misturados a maus tratos, gritos, berros, controle, vidros jogados às paredes. Tudo acompanhado de noites tórridas de amor cuja chama se alimenta com lenha. É o fogo do inferno. O amor que arde, também pode queimar vivo. Lembra-se de quando foi jogada de seu apartamento, do 22 andarº do prédio onde vivia com sua ex-noiva. Estava em luta corporal no momento em foi lançada. A mulher subjugada, humilhada, de pijamas. Quantas mortes possíveis teria sofrido de não fosse uma SH? Quantas vezes poderia ter sido assassinada se resistente não fosse? A violência era desmedida, mas o amor falava mais alto até o dia em que a mulher se viu com a sua boca diante do asfalto. Foi nesse fatídico dia em que ela deu um basta. Foi nesse momento em que a mulher saiu de seu transe e lançou uma de suas mãos por debaixo das roupas de sua algoz, arrancando à força o seu aparelho de choque.

        Sem perder mais um segundo de seu tempo, a vítima dispara o aparelho de choque em um dos joelhos de Läude, que finalmente se desequilibra e cai sobre as areias junto à Biogeneticista. Em meio a uma chuva de pedras, balas, vidros e pedaços de madeira, Bäuma encontra certa dificuldade para se levantar devido ao ataque massivo da população contra a mulher. Läude recupera seus sentidos e se rasteja para escapar do linchamento. A quantidade de objetos que estavam sendo acertados contra Bäuma pareciam se estender ao infinito, o que dificultou ainda mais para que pudesse sair dali. Um disparo massivo de balas de fuzil também estava sendo empreendidos por alguns adolescentes contra a mulher. Agora que Läude se evadiu, o massacre estava feito.

       Por longos cinco minutos, o infinito linchamento passou a se transformar em um verdadeiro inferno momento em que, repentinamente, os ataques cessaram de forma súbita. Erguendo-se sobre as areias, Bäuma olha para todos os lados em cada um dos cantos de onde estavam as pessoas, todas paradas e imóveis. Ninguém mais acertava uma folha sequer contra a mulher. Bestas, fuzis, cones, bastões, pedras, minérios, madeiras, lanças... Tudo foi usado para acertar a Bióloga em cheio. Confusa, Bäuma percebe a atmosfera estranha que havia se formado em torno da inércia da multidão. Circulando em volta de si e deslocando seu rosto de um lado para o outro, percebe que perdeu Läude de vista.

[Bäuma] — "Onde ela está?! Por que pararam, seus idiotas!? Continuem se tiverem coragem! Vão pegar prisão perpétua!" — [provoca].

           Um fino assobio é lindamente sinalizado pelas suas costas, momento em que Bäuma, quando menos percebe, leva de presente um Grande Upercut lançado de baixo para cima sobre seu queixo, que a faz voar por 10 metros de altura em um raio de dois quilômetros para longe dali. Como quem quebra um pino de boliche, Bäuma tem sua cabeça lançada em cheio contra o chão, torcendo junto com ela o seu pescoço e as suas memórias. Era Magal quem lhe havia aplicado o belo golpe. Tal força bruta vinda do rapaz não era esperado pela algoz. Em meio à areia molhada, a mulher nocauteada tem metade de seu corpo invadido pelas lentas águas do mar. De rosto fincado nas areias e com seu sangue e dentes expelidos de sua boca, a mulher se vê desnorteada e sem rumo de casa. 

[Magal] — "Pulha aqui é você." — [encara Bäuma].

        Antes que pudesse pensar em tentar se reerguer novamente, Läude se aproxima novamente de Bäuma com o dispositivo elétrico em sua mão. Limpando o seu sangue de seus lábios com seu antebraço, Bäuma é surpreendida com um forte disparo elétrico ao lado de sua cabeça, que finalmente a faz desmaiar de vez sobre as finas areias. Com três de seus dentes jogados ao solo, a mulher loura pega um deles com seus dedos para colecioná-lo como troféu.

         Sem que nada pudesse fazer para voltar atrás, a mulher com os seios à mostra e um semblante de profunda tristeza, se senta às areias para se despir de suas forças e desfrutar de um momento de quietude por algum tempo. A população, aos aplausos por conta do feito heroico de Magal, aos poucos se espalhava pelos arredores da praia, e ninguém mais naquela região se contactava entre si. Alguns poucos banhistas permaneceram presentes no local de combate para que acompanhassem o estado de Läude e executassem a limpeza da praia. Por azar do destino, alguns entrevistados terminaram arranjando novas brigas entre si.


[Mal-Encarado] — "Você cala essa sua boca, seu degenerado! Eu nunca encostei em um único fio de cabelo no meu filho, ouviu bem?!"

[Vega] — "Pai, calma!" — [tenta apartar a briga].

[Homem 01] - "Você acha que alguém aqui é trouxa, seu comedor de carne fresca?! Você se aliou com ele só pra tirar vantagem, seu cínico pervertido!" — [aponta o dedo para o homem].

[Vega] — "Gente, chega!" — [ergue as mãos].

[Mal-Encarado] — "Se fosse pelo menos seria consentido, seu estuprador desgraçado!" — [mira o dedo contra o praiano] — "Você pega um monte dessa maldita raça de mulheres Sub-Humanas só pra violentá-las e jogá-las fora!"

[Homem 01] — "Eu não estuprei ninguém, seu verme!" — [parte para cima do homem de sobretudo escuro enquanto é segurado por outro praiano].

[Vega] — "Parem de brigar, caralho!!" — [ergue os braços furioso].

       Emocionalmente desolada pelo fim que levou seu atordoado relacionamento, Läude, de antebraços apoiados sobre seus joelhos, recebe a presença de uma das mulheres que entrevistou.

[Mulher de Óculos] — "Oi... você tá legal? Tomou muita pancada." — [mostra preocupação] — Precisa de um sutiã novo? Eu tenho um aqui, se quiser." — [exibe um novo biquíni].

        A moça timidamente  se aproxima da loura e entrega lentamente a peça de roupa para Läude, que sem muito o que saber o que dizer à mulher, aceita de bom grado a sua gentileza.

[Läude] — "...Obrigada..." — [semblante triste].

[Mulher de Óculos] — "Você vai ficar bem?... Você até sangrou, eu nunca vi aquilo...".

         Läude deixa escapar uma leve risada de sua boca, transbordando um misto de semblante irônico com uma singela serenidade em seu rosto sorridente.

[Läude] — "Aquilo não foi nada... nem se ela quisesse, ela conseguiria me derrubar..." — [olha para a moça] — "já estou bem melhor. Obrigada".

[Mulher de Óculos] — "Me esqueci de seu nome... é Läude, não é?"

[Läude] — "Isso mesmo. Qual é o seu?" 

[Mulher de Óculos] — "Zaida." — [cede uma leve inclinação de seus óculos para baixo].

[Läude] — "Zaida." — [afirma com a cabeça] — "Prazer".

[Zaida] — "O prazer é meu... eu sinto muito pela..." — [aponta o polegar em sentido oposto].

[Läude] — "Tudo bem... eu fiz o que pude. Não deu certo." — [sorri tristemente] — "A vida segue seu curso."

[Zaida] — "Verdade." — [mudança de semblante] — "Bom, deixe eu ir, meu marido está me esperando," — [olha para o lado] — "vamos fazer três refeições hoje." — [sorri].

[Läude] — "Vá lá..." — [sorri].

        Zaida se distancia de Läude até sumir aos poucos pelas finas areias da praia. Entre os ventos da tarde surge Magal, que se senta próximo de sua amiga e a observa enquanto a consola tocando em seus ombros e rosto para lembrá-la de que sempre estaria ao seu lado se por acaso precisasse. Feliz, mas profundamente angustiada, a loura fita o homem ruivo com a sensação de que conseguiu libertar a raiva que estava estagnada em seu peito, mas que também arruinou o seu trabalho.

[Läude] — "Eu fiz mal?" — [olhar triste].

[Magal] — [semblante de dúvida] — "Um pouco... mas fez bem." — [discreto sorriso].

[Läude] — [sorri] — "Então valeu a pena...".

[Momento de silêncio].

[Läude] — "Mas eu nem fui capaz de ajudar a Yosan..." — [tristeza] — "Não vou nem mesmo poder olhar mais ela. Pedir desculpas..." — [melancolia] — "e agora?" — [fita Magal].

[Magal] — "Já está feito. Se não fosse dessa forma, é provável que aconteceria algo até pior com essa moça." — [melancolia e serenidade] — "Se não fosse a Bäuma, outro iria fazer o mesmo com ela." — [levantar de ombros] — "Afinal, ela entrou na guerra. Colou com o Weslley. Estava desde o início disposta a morrer." — [fita Läude].

        Läude compreende a fala de Magal e direciona seu olhar para o lento pôr do sol daquela forte tarde alaranjada. A loura fita o sutiã em suas mãos e observa Magal acenar sua cabeça para que a mulher experimentasse a nova peça que recebeu em solidariedade por Zaida. Läude veste a peça em si mesma e percebe que esta ficou muito mais bonita do que a anterior.

[Magal] — "Te valorizou..." — [sorriso simpático].

[Läude] — "É linda..." — [feliz].

        Os dois amigos contemplam aquele pequeno longo momento de paz e harmonia que sondava a amizade entre os dois. O brilho do sol se mostrava ainda mais bonito e resplandecente desde então. As discussões se cessaram e as autoridades vandorianas chegaram ao local para levar Bäuma para a detenção. Ao erguer os braços da mulher ofegante, a mesma só consegue se apoiar em um dos seus  joelhos:

[Bäuma] — [repele os policiais] — "Me larga...! Eu não quis matá-la, eu só queria apagá-la! Isso é assunto pessoal!" — [limpa o sangue de sua boca].

[Autoridade 01] — "Desfigurou uma Híbrida e espremeu o pescoço de uma mulher que já foi sua ex-companheira por vários minutos. Não, isso não é assunto pessoal! Venha!" — [levanta bruscamente Bäuma e a prende pelos braços e pescoço por meio de braceletes e coleira elétricos] — "Me convence muito falando que não queria matá-la."

        De cabeça mirada para baixo, Bäuma foi levada para longe dali, acompanhada por cinco policiais da praia.

.......

        Após longos minutos quando o céu estava caindo para adotar uma cor mais forte e rosada, uma última filmagem foi realizada naquela tarde. Alguém tinha que prestar esclarecimentos ao público pelo tórrido caso de amor entre os entrevistados. A mulher limpa o nariz, arruma os cabelos, retira o batom escuro e o substitui por um hidratante brilhante para os lábios antes de dar a sua palavra final.

🎬\\\\\\\\\\\\CONCLUSÃO FINAL DA ENTREVISTA COLETIVA/////////////

[Läude] — [pausa, sorri] — "Bem, Senhoras e Senhores, como vocês podem ter percebido, tivemos diversos problemas técnicos ao longo da Entrevista Coletiva. Para a nossa felicidade, a cooperação de nossos entrevistados e a graça de toda nossa Equipe de Entrevistadores do Estado finalmente nos fez concluir o nosso objetivo final, que é mensurar o quão tolerante é o nosso povo para com os diferentes. O resultado foi bastante revelador como também muito preocupante, mas... vamos deixar as estatísticas para o próximo programa que acompanhará vocês," — [aponta] — "logo após a pausa de nossa transmissão. Vamos continuar investindo nossos esforços para aumentar a coleta de informações em cada Ponto da Ilha-País, mantendo todos os nossos espectadores informados da rotina e cultura de nosso povo. Muito obrigada por me acompanhar até aqui, vida longa a todos e até loguinho". — [acena docemente com os dedos].

.............[Fim de Transmissão].....................


        O Crepúsculo se mostrava cada vez mais aceso. O sol encandecia como a chama de um fósforo que demoraria a se apagar. Após findadas as disputas, um logo momento de calmaria e quietude passou a tomar o lugar naquela nobre praia, inundada pela forte luz rosada. Poucos ali permaneceram depois que a Entrevista Coletiva terminou. O menino chicleteiro não podia tirar seus de pensamentos a garota em que ele presenteou com um de seus doces. Tornaria a ver chegar o dia em que iria se sentar ao lado da moça, talvez até tocar as suas mãos.

        "Então? Você é um chicleteiro mesmo
            ou só gosta de mastigar chicletes?" 
                                       — [rosto marrento].

        ... Era o que passava pelos pensamentos de Vega, apaixonado pela primeira vez por Mina: a garota inacessível pelas "Castas" mais baixas de sua raça. Enquanto ainda não podia realizar o sonho de poder levantar os tecidos de seu vestido para se afundar naquele mar proibido, o garoto queria aproveitar as pequenas coisas da vida. Aquela vida que para ele, seria ainda mais longa que a de sua falecida mãe. Avista uma caixa de papelão alaranjado em excelente estado, provavelmente esquecido por alguns banhistas, suficientemente largo, espesso e comprido para caber o seu corpo. Junto a esta, uma corda escura estava vinculada a uma abertura do recipiente. A caixa era bonita, resistente. O menino sentia que poderia ativar seus instintos gatunos a qualquer momento. O seu pai, estava lidando com a limpeza da praia como de costume:

[Mal-Encarado] — [finca uma espátula com uma pinça nos objetos estranhos à praia] — "Oh, Vega! Vem me ajudar a levar isso aqui porque nós temos que pegar o metrô ainda!"

[Vega] — "Não tenho pressa" — [sorriso amistoso].

        O menino literalmente entrou na caixa laranja e se apoiou na corda escura com uma das mãos. O homem de sobretudo, exibe um singelo semblante de tacho.

[Mal-Encarado] — "Não é possível..."

        O menino expande um sorriso encantador para se mostrar ainda mais convincente. Sabendo que não teria chances de vencer esse jogo, o homem mal-humorado não via outra alternativa que não fosse aceitar a doçura de seu filho e puxar a cordinha para ir arrastando-o pela caixa:

[Mal-Encarado] — "Ai... meu Pai Amado..." — [cara de tacho] — "tá, vai, eu brinco de carrinho com você." — [puxa a corda com uma das mãos enquanto carrega uma sacola de objetos descartáveis, do outro] — "Mas, olhe! Já vou avisando que nós vamos chegar atrasados em casa...!"

        Ao pôr do sol, Vega vai sendo arrastado pelo homem de poucos amigos como quem é tratado como um gato doméstico. Com a marca do trajeto da caixa pelas areias, tudo que ali se passava foi sendo deixado para trás: minérios, pedrinhas, um relógio, um dente arrancado, cacos de vidro, balas de chumbo, gotas de sangue, pedaços de madeira jogados ao chão... tudo vai embora, inclusive a alegria e a tristeza. O que restava para aquela praia era a amargura e a saudade...

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       "Aaaaahhh!...Aaaah!"AAAAAAAHHHH!" — [Gritos de dor e incômodo, respiração ofegante].

        A câmera que estava à frente com o homem com trajes infantis, havia terminado de transmitir na íntegra a as antiquíssimas filmagens capturadas daquele planeta, raptadas por alguns poucos sobreviventes.

        "AAAAAAAAAAAAAAHH!!" — [gritos intensos] — "...Pare... Pare...! Já chega!" — [acena com uma de suas mãos] — "Eu tô sendo afligido por dezoito horas, já deu!" — [olhar de espanto].

[Diretor] — "Desde quando você ficou tão falante, Tallus? Vaaamos, eu quero ver mais de você, filho! MAIS ALTO."

[Tallus] — "Aaaaaaaaaaaaaaahhhhh!!" — [grita].

        Uma furadeira à laser volta a ser injetado sobre as costas de Tallus. A energia empregada era tamanha que sairia fumaça do local da violência. Gravadores estavam a postos para registrar cada momento daquele cenário. A dor de Tallus só iria se findar quando alguma ferida partisse dali. Era tudo que ele jamais desejava para ninguém.


.........Gritos agonizantes. Apagar das luzes......
            
 



 
        




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