---- TERRA. NOVA YORK. SESSÃO DE TERAPIA COMPULSÓRIA. VEÍCULO VERMELHO. ANO 8.853 DZ. 20H50 DA NOITE. ANOS DEPOIS DO CRIME. CASO ARQUIVADO ----
Batidas de sons de Hard Rock e música Country agitavam o bar naquela noite de sexta. Piso derramado de cerveja e empurrões incessantes atrapalhava o caminho de um dos funcionários que já estava partindo do estabelecimento, construído da mais pura madeira pesada, laminada nas suas estruturas que compõem as paredes, o teto, as portas, pisos e outros cômodos. A lareira queimava, e o público dançava, sem se preocuparem com o que quer que houvesse ao seu redor.
A cada passo que o encarregado de cuidar do estabelecimento desse, era como um trator esbarrando gradualmente em uma série de patinetes que eram facilmente deslocadas para os lados como se nada fossem. As pessoas estranhavam o jeito daquele homem ruivo de lidar com os passantes que atravessavam o seu caminho e o fitavam em tom de aborrecimento, surpresa ou intimidação, mas nada que atrapalhasse o andamento da festa. O homem já trabalhava incessantemente por 05 dias seguidos sem sono ou descanso, e não é para menos. Uma semana para ele, era como um dia inteiro pelo qual já estava acostumado em um momento não muito distante de sua vida. 24 horas eram, exclusivamente, para que o funcionário pudesse dormir de forma ininterrupta no seu dia de folga.
Se adaptar aos horários de um lugar cujo tempo passa tão rápido tem sido uma estranha sensação de desconforto e de inquietação na mente de Magal. Mal tinha passado dois anos desde o trágico incidente (que não é tão trágico assim, diga-se de passagem...), e o homem teve de rememorar o que já havia esquecido e enterrado junto com a sua dor e culpa. De frente a porta do bar onde trabalhava, um desconhecido de óculos de grau com um sobretudo verde escurecido da altura dos pés, o aguardava misteriosamente naquela noite limpa e gelada, logo do outro lado na rua asfáltica, em solo de baixa vegetação seca. Um veículo vermelho estava à espera do homem ruivo, que estranhava o fato de nunca ter combinado aquele estranho encontro com o profissional.
Como se não bastasse, o desconhecido estava munido de uma pasta metálica escura, junto a uma marma de fogo discretamente acoplada em sua cintura. Magal, sob olhar de poucos amigos, imediatamente percebe que estava sendo ameaçado de maneira singela somente pelo tipo do revólver que o terapeuta federal carregava consigo. Como estava sob vigilância, sabia que seria mais uma das variadas burocracias que teria que ser obrigado a suportar, mesmo não em silêncio. O homem de calça jeans vinho, camisa whiskey, jaqueta preta e coturnos marrons, se mostra já gradualmente aborrecido e suspirante com tal visita inesperada.
[Magal] - "..." - [pensa por alguns segundos] - "O que é isso? ..." - [ergue brevemente os braços] - "É algum mandado de prisão?"
[Terapeuta] - [coloca a pasta no solo e as mãos para trás] - "Você sabe muito bem porque eu vim aqui... precisamos ter essa conversa, amigo. Está há muito tempo fugindo dessa consulta, e eu receio que terei que convocá-lo pessoalmente para cumprir o Termo de Monitoramento e Ajustamento de Conduta que o Senhor assinou."
Magal expressa negação por alguns segundos, e, em silêncio, mas um pouco aborrecido, entra no veículo vermelho sem questionar o homem. Com um olhar de tédio e irritabilidade, o SH finalmente fecha a porta do carro ao adentrar, momento em que o terapeuta também o faz. Por alguns momentos, Magal e o profissional se entreolhar, e o ruivo se recosta ao banco com expressão de leve irritabilidade e desdém. O terapeuta, acende um dos finos cigarros em três cores diferentes, pego de uma caixa espelhada pela qual mantinha guardada embaixo do banco do motorista. Guarda o objeto novamente no lugar e oferece uma unidade para Magal, que o pega sem muita motivação para fumar. O terapeuta acende o cigarro de Magal e relaxa seu corpo no assento do veículo para tragar a bituca.
Magal, sem entender o motivo de tanta cerimônia, fita o homem com um ar de desconfiança e menosprezo.
[Magal] - [vira o rosto por poucos momentos, semblante de incredulidade] - "... Tá, qual é dessa intimação agora?"
[Terapeuta] - "Fuma..." - [traga mais um pouco].
[Magal] - [suspira] - "Quê que é, vai me mandar fazer um oral agora?" - [olhar desconfiado].
[Terapeuta] - [quase ri] - "Não seja idiota, eu sou seu Terapeuta, não um cliente seu..." - [fuma] - e além do mais eu sou casado." - [mantém postura relaxada ao banco, de olhar para o teto e Magal ao mesmo tempo].
[Magal] - "Ah, grande novidade..." - [olhar de tédio].
Alguns segundos se passam. Magal cruza os braços e não fuma. Já o terapeuta, assopra um longo jato de fumaça perfumada.
[Magal] - "Já disse que não preciso mais de suas consultas..." - [desvio de olhar, mirado para o retrovisor].
[Terapeuta] - "Seu Laudo Comportamental diz o contrário."
[Magal] - "E o que tem a ver?" - [olha para o homem].
[Terapeuta] - "A forma como você respondeu ao tratamento não tem sido satisfatória, e eu desconfio que ainda não existe uma relação de plena confiança da sua parte, Magal." - [fita o ruivo, deposita as cinzas do cigarro em um recipiente dourado].
[Magal] - "E você não acha que isso é um problema exclusivamente meu?" - [olhar impaciente].
[Terapeuta] - "Sabe? Você é o primeiro Super Humano que eu atendo pela primeira vez em toda a minha carreira, e estudar você..." - [fuma] - tem sido uma das coisas mais fascinantes que já vi..."
[Magal] - "Tá saindo pela tangente..." - [olhar impaciente].
[Terapeuta] - "Lembre-se de que não é você quem dispensa o Terapeuta, é o Estado, então apenas ouça..." - [traga novamente o cigarro].
Magal se mantém irritado e em silêncio.
[Terapeuta] - "Desde o Caso Cash, você não apresentou nenhuma melhora no seu emocional, muito menos no seu comportamento. Ficou mais agressivo, mais fechado, mais impulsivo... sempre volta para os mesmos lugares, mesmos horários, com as mesmas vestimentas... escuta as mesmas músicas, guarda sempre as mesmas lembranças..." - [se levanta, posição erguida] - "Eu andei estudando seus hábitos e observei que você não ainda não se desvinculou desse caso por algum motivo."
[Magal] - [breve negação com o rosto] - "E se eu não tiver?" - [levantar de ombros] - "O que muda no caso Cash? Não foi encerrado por ausência de provas?" - [braços cruzados].
[Terapeuta] - "Foi arquivado, não encerrado. Mas pode ser reaberto a qualquer momento."
[Magal] - "E o que mais você quer que eu diga?" - [semblante de incredulidade].
[Terapeuta] - "Quero que você me ajude a descobrir..." - [encara Magal com semblante avaliativo] - "Porque se o tratamento que fizemos por quase 03 anos não está funcionando, alguma coisa que eu não saiba faltou na nossa conversa, e você não está cooperando..." - [mãos unidas].
[Magal] - "Já não tive que relembrar esse fato um milhão de vezes?" - [encara].
[Terapeuta] - "Devo lembrar a você o que nós combinamos?" - [encara Magal].
[Magal] - "..." - [contrariedade].
[Terapeuta] - "O tratamento só vai acabar se você me ajudar a entender o que gera essa sua resistência em falar sobre o seu ex-patrão e amigo de confiança." - [mãos em formato circular e união das pontas dos dedos].
O profissional dá uma longa e morosa tragada de cigarro.
[...]
[Magal] - "Eu nunca tive resistência de falar do Cash... ele está morto." - [olhar de repulsa].
[Terapeuta] - [olha para Magal] - "E tem dificuldade de esquecer que ele está morto?" - [fita o homem, exibe as palmas das mãos para demonstrar obviedade].
[Magal] - "Eu tenho dificuldade de esquecer que o cara que eu conheci há trinta anos era um raio de um estuprador... na verdade eu tenho nojo de lembrar dele..." - [vira o rosto de repulsa].
[Terapeuta] - "Mas então, se você quer esquecê-lo... por que revive ele em tudo que faz? As músicas que ele escutava... as coisas que ele guardava... as lembranças que ele mantinha. Por que não passa isso pra frente?" - [exibe os antebraços].
[Magal] - [encara o terapeuta] - "Você acha que minha memória é de azeitona? Eu já estava aceitando deixar isso pra trás até você me atazanar, sabia disso?" - [braços cruzados, olhar impaciente].
[Terapeuta] - "Mente de novo..." - [aponta para Magal].
[Magal] - "Com base em quê você diz isso?" - [encara o homem].
[Terapeuta] - "Já não conversamos antes?" - [se vira para Magal] - "Eu vigio você, eu assisto você, eu MONITORO os seus passos..." - [aponta para Magal] - "Tem algo, MUITO mal resolvido desse caso que ainda está entranhado dentro de você. E se você requisitou um acompanhamento profissional em troca de não ser mandado de novo para Gawooga, eu esperava pelo menos um voto de confiança da sua parte..."
Magal começa a se mostrar enojado com a insinuação ameaçadora do profissional.
[Magal] - "E o que você ganha tentando me chantagear? Acha que eu tenho participação nos crimes?" - [feição de nojo].
[Terapeuta] - "Eu não disse isso..." - [exibe dedo indicador].
[Magal] - "Não precisa dizer, eu já sei que eu tenho o nome de "comparsa" cravado na testa, não precisa me lembrar disso."
[Terapeuta] - "E quem aqui te acusou ser um comparsa?" - [mãos erguidas em sinal de dúvida] - "... De um abusador, ou de um assassino? Eu não vim aqui te aplicar uma sentença." - [olhar de receio].
[Magal] - "Você vem aqui na porta do meu trabalho insinuar que eu estou mentindo sobre o caso Cash, quando na verdade eu nunca nem soube o que ele fazia debaixo do meu nariz, e não quer que eu pense que está me acusando de um crime grave?" - [começa a exibir revolta em sua face].
O terapeuta finalmente conseguiu fazer com que Magal chegasse aonde ele queria.
[Terapeuta] - [feição de gradual animosidade] - "Se sente culpado..." - [aponta] - "Mas sabe que não foi sua culpa, não é mesmo?"
[Magal] - "Onde quer chegar com isso?" - [olhar de receio].
[Terapeuta] - "Qual é a razão da sua culpa?"
[Magal] - [suspira, fecha brevemente os olhos, nega com o rosto] - "Já te disse isso raios de milhões vezes..."
[Terapeuta] - "Não..." - [exibe o dedo indicador] - "Não são as vítimas, não é a perversão de Cash e nem é o suplemento ou a ex-esposa dele... na verdade, é você." - [observa] - "E é só com você mesmo..." - [breve sorriso simpático] - "Sua culpa está ainda mais fundo do que você pensa ser."
[Magal] - "Minha culpa foi de ter aceitado entrar numa guerra que não era minha, senão eu não estaria nesse planeta de merda tendo que repetir várias vezes para um cara aleatório de que eu NÃO, TENHO, NADA, MAIS, a ver com Cash...!" - [braços cruzados, olhar de raiva].
[Terapeuta] - "Nada mais? ... O que é esse "nada mais"?" - [sorriso de descoberta, olhar de animosidade].
[Magal] - "..." - [vira o rosto e permanece em silêncio].
[Terapeuta] - "O que vocês tinham então? Algo que eu não saiba?"
[Magal] - "Você come pelas beiradas, fala logo o que está sugerindo..." - [impaciente].
[Terapeuta] - "Eu não estou sugerindo..." - [aponta para si] - "É a realidade que está na sua frente de você...! Realidade essa que você não pode abandonar, mas quer fugir..." - [expressão de dúvida e seriedade].
O ruivo se sente ultrajado pela mensagem implícita e o encara em um tom de seriedade e desprezo em sua face. O Terapeuta percebe o desconforto do SH.
[Terapeuta] - "Ah, qual é, Magal...!" - [virar de cabeça] - "Vai desviar a rota outra vez?? Acha que já não compreendi seus sentimentos?" - [cigarro entre os dedos] - "TODA a sua angústia gira em torno de sua insegurança com seu ex-chefe. E isso te afeta, não te afeta?!" - [aponta para Magal].
[Magal] - "Me afeta porque reviver esse caso como um fetiche não vai me ajudar, e nem vai te dar a satisfação profissional que você procura... por que não abandona esse caso de uma vez?" - [olhar impaciente].
[Terapeuta] - "Porque você não está preparado para encarar uma vida normal, Magal, você está de luto há quase três anos, já parou pra pensar nisso?" - [pontua].
[Magal] - "Olha, eu não quero cortar seu barato, mas um ano na minha terra é pelo menos 25 anos aqui, então não venha me dizer qual o tempo ideal de luto e de vergonha pra alguém que conviveu com um crápula durante 30 anos." - [se impõe].
[Terapeuta] - "Você viveu..." - [aponta para Magal] - "UM ANO e algumas semanas de sua vida da sua Terra... com o Cash." - [olhar fixo].
Magal observa atentamente o homem.
[Terapeuta] - "Quanto tempo vocês levam para suportar a perda de um amigo, um parente, ou um amor?" - [punho sobre o volante].
[Magal] - "...Em média, 02 a 04 semanas..." - [observa].
[Terapeuta] - "Você," - [destaca] - "está há mais tempo sofrendo aqui do que você sofreria por lá. Já percebeu isso?" - [olha para Magal] - "Faça os cálculos..." - [traga o cigarro].
[Magal] - "..." - [pausa].
Magal passa alguns segundos refletindo sobre a fala do seu profissional. O Terapeuta vira-se para se encostar no banco e aproveita para jogar uma provocação enquanto fuma:
[Terapeuta] - "Isso só não é mais tempo do que o período que você passou ao lado de Maria Helena Cash..." - [insinua].
O homem ruivo lança um olhar de desconfiança para o Terapeuta.
[Magal] - "... O quê?" - [receoso].
[Terapeuta] - "Éh, ora, você conheceu Maria muito antes entrar pra DRISCO...." - [fita Magal].
[Magal] - "Quem me contratou foi o Cash, eu não previ que ele seria marido dela..." - [levantar de ombros].
[Terapeuta] - "Será por isso que ela te detestava?" - [feição de curiosidade].
[Magal] - "Ela sempre me detestou desde o primeiro dia em que entrei naquele posto de gasolina... como eu ia saber antes disso?" - [negação].
[Terapeuta] - "Não até ela descobrir sua proximidade com Cash..."
Magal começa a se sentir atingido pelo discurso do Terapeuta.
[Magal] - "E o que Cash tem a ver com isso? Nossa relação era profissional, não fui pivô de separação de ninguém..." - [constrangido, mas com postura firme].
[Terapeuta] - "Eu não disse que a relação era de trabalho..." - [deixa escapar um breve sorriso de canto enquanto fita Magal].
Magal começa a perceber a insinuação do homem e começa a se sentir atingido com a provocação.
[Magal] - "... Olha, se é isso o que está imaginando, sai fora! Eu nunca encostei um dedo no Cash!" - [irritado].
[Terapeuta] - "Ah, conta outra Magal, você quer enganar QUEM??" - [gesticula e exibe um misto de decepção e aborrecimento] - "Você salva um cara ALEATÓRIO na rua de uma tentativa de assalto à mão armada com um fuzil israelense...!" - [enumera] - "DO NADA, esse mesmo estranho resolve te colocar para passar dentro do carro conversível dele e ainda oferece os melhores vinhos da cidade...!" - [dedos entre o queixo].
Magal exibe negação e constrangimento em sua face.
[Terapeuta] - "No DIA SEGUINTE, esse mesmo felizardo te oferece emprego com um ÓTIMO salário, te mantém LONGE da própria esposa dele, anda com você para TODOS os cantos, pra cima e pra baixo, te dá TODAS as regalias, roupas, as marcas MAIS CARAS do país...! Te exibe como TROFÉU nas festinhas dele, te MIMA mais do que a própria mulher que ele tinha dentro de casa e ainda escreve CAR-TINHAS te HOMENAGEANDO...!" - [falando pausadamente, junta os dedos das duas mãos] - "Você acha que isso nunca foi nada??" - [gesticula].
[Magal] - "Pronto, agora eu virei amante do amante do cara só porque ele se aproximou de mim? Você acha que eu sou o quê? Garoto de Programa?? O mundo inteiro vai se apaixonar por mim agora?" - [feição de aborrecimento e repetidas movimentações de rosto].
[Terapeuta] - "O mundo inteiro não, mas você sim era apaixonado por alguém..." - [aponta para Magal, sorrindo com a bituca de cigarro entre os dentes].
[Magal] - "Pra merda, cara, eu tenho critério pra me apaixonar por alguém...!" - [exibe rejeição].
[Terapeuta] - "Prrrff...!Harss, ha,haa....!! Critério..." - [sorriso genuíno].
O terapeuta rompe em risadas deitando-se ao banco após escutar a resposta de Magal, que se irrita com a graça feita.
[Magal] - "....O que há de tão engraçado?" - [fita o homem com aborrecimento].
[Terapeuta] - [risos] - ".... Não existe critério pra atração física, cara....!" - [sorriso genuíno] - "Não se escolhe por quem se apaixona, devia saber disso..." - [ressalta aproximando-se de Magal]
[Magal] - "Não se escolhe por quem se apaixona, mas isso não te obriga a se aproximar de alguém..."
[Terapeuta] - [exibe as palmas das mãos e contorce sua face como sinal de "rendição"] - "Tá bom...! Nisso você tem razão..." [termina de fumar] - "foi por isso que você nunca aceitou as investidas de Cash?" - [fita Magal].
[Magal] - "Se quer me fazer vomitar, então está conseguindo..." - [repulsa e braços cruzados].
[Terapeuta] - "E eu tô mentindo?" - [dedos contra si mesmo].
[Magal] - "Já ouviu falar de "Gratidão", meu chapa?" - [feição irônica de raiva].
[Terapeuta] - "Agradecer é uma coisa, adotar um desconhecido como membro da família é outra..." - [dedos apoiados ao queixo].
[Magal] - "E você dita a forma como os outros se mostram agradecidos?" - [encara com aborrecimento].
[Terapeuta] - "Um cara que pretere a esposa pra passar quase 24h horas ao lado de um amigo NÃO é normal Magal..." - [negativa, feição de melancolia].
[Magal] - "O casamento deles JÁ estava em crise..." - [gesticula pausadamente com os dedos indicador e polegar cerrados].
[Terapeuta] - "Crise não, altos e baixos..." - [ressalta] - A CRISE na verdade foi você..." - [aponta para Magal] - "VOCÊ era a tensão dos dois..."
[Magal] - "Acabou de falar que a Riponga me detestava, qual o seu problema?" - [irritado].
[Terapeuta] - "Exatamente...!" - [aponta para o ruivo] - "Você foi o pivô da separação dos dois porque ambos queriam o mesmo homem...! Por isso que ela te odiava...!"
[Magal] - "E como isso te leva concluir que eu tive um caso com aquela praga do marido dela?" - [irritação].
[Terapeuta] - "Ela te detestava porque no fundo ela sabia que você queria tirá-la do Cash para se vingar dela, e para ela, VOCÊ era a interferência entre os dois..."
[Magal] - "..." - [espantado e com feição de estranhamento].
[Terapeuta] - "Como é que eu sei?" - [sorriso empolgado] - "Suas ligações para ela..." - [exibe um celular antigo e o guarda em seu bolso] - "são bem antigas, mas mostram que desde o início você a amava." - [encara o ruivo].
[Magal] - "Eu lá tenho cara de quem fica perseguindo uma mulher que não tem nem metade da minha vida?"
[Terapeuta] - "Mas ela era a SUA vida... tanto é verdade que você COMPROU uma aliança porque queria se casar com ela..." - [aponta para Magal].
O SH começa a se sentir desconfortável e sofre de lembranças amargas de sua mente. Surpreso, Magal levanta a cabeça para cima, cerrando os olhos para tentar fugir daquelas memórias e se projeta para frente, lançando um olhar aflito e ultrajado com a descoberta do profissional.
[Magal] - "Ah, para..." - [balança gradualmente a cabeça].
[Terapeuta] - "Mas ela ENGANOU você, mentiu sobre o Estado Civil dela e se fez passar como aquela que seria a mulher da sua vida..."
[Magal] - "Por que tá macetando isso na minha cabeça...?" - [incomodado, nega com a cabeça].
[Terapeuta] - "Porque isso te quebrou. Te acertou em cheio por dentro... o amor que você tinha por ela e seu plano de sair daquela vida de prostituição para ganhar Cidadania Total ao lado de uma mulher cheia de privilégios iria te dar um pouco mais de felicidade e status..."
[Magal] - "Eu NUNCA quis ela por status, eu GOSTAVA dela..." - [semblante de tristeza].
[Terapeuta] - "Bingo! Isso foi proposital..." - [descarta o cigarro em um recipiente entre os bancos enquanto o rapaz se mostra triste e desapontado].
[Magal] - "Acha que eu não sei que está fingindo que nunca soube da minha Cidadania?" - [semblante de desânimo] - "Sabe que o Prostíbulo que eu frequentei fazia tráfico humano, e que eu era forçado a trabalhar lá mesmo sendo cidadão..." - [feição de estranhamento].
[Terapeuta] - "Você ia se vingar de Maria, mas percebeu que seus sentimentos por ela se cessaram quando conheceu Cash..."
[Magal] - "Eu nunca usei Cash pra me vingar dela, foi ela quem omitiu seu estado civil. Está tentando desesperadamente me vincular com Cash pra conseguir algum prestígio que não tem na sua carreira porque o caso envolve um SH..." - [feição de desprezo].
[Terapeuta] - "Talvez tenha razão... eu não sou lá o profissional mais prestigiado e você não é lá o homem mais bem resolvido com a própria sexualidade..." - [calmo e sereno].
[Magal] - "Isso não prova sua teoria conspiratória..."
[Terapeuta] - "E o que deixou você tão arisco com sua a própria intimidade, cara?" - [olha para frente] - "Olha pra você... nunca teve isso com as mulheres com quem você se deitou quando era dançarino, por que seria diferente com Cash?"
[Magal] - "Eu não tinha vínculo empregatício com elas..." - [silêncio].
[Terapeuta] - "Eram clientes..."
[Magal] - "Mas não eram o Cash." - [olhar de incômodo].
[Terapeuta] - "O Cash era um beócio e você o suportava. A esposa dele vivia te infernizando pra tentar forçá-lo a pedir demissão. Não passou mais tempo na DRISCO do que no Prostíbulo?"
[Magal] - "O meu trabalho nada tem a ver com as brigas que eu tinha com o casal. Separe as coisas..."
[Terapeuta] - "Mas no primeiro desaforo que levou quando era garoto de programa, você fugiu..." - [olhar fixo] - "Disse que jamais iria aturar trabalhos humilhantes de novo. E por coincidência, você aguentou 30 anos em um." - [exibe as Credenciais da vida de Magal] - "Por que era mais fácil suportar a perseguição de Cash do que o insulto de um cafetão?" - [feição de estranhamento].
[Magal] - [olhar fixo de irritação e semblante de desdém] - "Pessoas mudam de ideia. Ou você tem o mesmo pensamento de quando tinha 10 anos?"
[Terapeuta] - "E o que fez você mudar de ideia?" - [encara Magal, cruzando os braços].
[Maga] - [raiva] - "NADA..." - [tom ameaçador].
[Terapeutas] - "O que Cash tinha de diferente das garotas? ... Hum?" - [pausa, olha para Magal].
[Magal] - "A começar pela aparência? Talvez porque Cash seja repulsivo... ou tenha um comportamento desprezível..." - [feição irônica, dedos indicador e polegar no queixo, fita o homem].
[Terapeuta] - "A começar pelo afeto entre vocês?" - [mãos atrás da cabeça, olha para Magal].
[Magal] - "Pela última vez, nós não éramos amantes, Cash era casado, você se faz de burro por acaso??" - [feição de irritabilidade].
[Terapeuta] - "Você nunca teve impedimentos de transar com um Patrão ou com pessoas casadas antes de vir pra cá." - [levantar de ombros] - Por que essa mudança agora?
[Magal] - "Bom, nós estamos falando da sua Terra e não da minha... e eu não estou em casa agora."
[Terapeuta] - "Ah tá, essa é boa..." - [aos risos] - "Não pensou duas vezes em correr atrás de Maria e fez toda essa cerimônia com Earl, mas nunca abandonou um trabalho que você mesmo dizia que era pior do que o Prostíbulo..." - [sorriso de canto].
[Magal] - [cansado e aborrecido] - "Ah, dá um tempo, cara..."
[Terapeuta] - "Ué, até agora você nunca disse que não gostava do Cash..." - [semblante confiante].
[Magal] - "E nunca admiti também, grande coisa. Boa sorte em tentar provar seu ponto." - [desprezo].
[Terapeuta] - "Caramba, você falou sobre todas as mulheres do prostíbulo com que você dormiu, dos SH´s com quem você manteve um caso, dos homens que você levou para a sua residência, da sua relação com um funcionário de um Bar Nazista acusado de matar pessoas por esporte...." - [provoca] - "Cash é o único com quem você tem problemas em revelar sobre sua relação com ele..." - [olha para Magal].
[Magal] - [suspira, movimentando a cabeça de um lado e de outro] - "... Ah, ótimo, quê que é, você quer que eu invente uma história pra você se aliviar?" - [irritado] - "Desiste dessa sua empreitada, cara, eu NUNCA GOSTEI DO MEU CHEFE..." - [irritado].
[Terapeuta] - "Eu quero que você seja HONESTO comigo cara!" - [rompante de raiva] - "TODA essa embromação aconteceu porque você não admite que sempre foi profundamente apaixonado pelo Cash, mas que você JAMAIS espelhou em ter um relacionamento porque no fundo se ENVERGONHA!" - [aponta para o SH].
[Magal] - "Pare de fantasiar!" - [devolve a explosão de raiva, apontando o dedo para o terapeuta] - "Eu não tive NADA com aquele salafrário, e NUNCA QUIS TER...!"
[Terapeuta] - "Se não gostava dele, então por que continuou se vinculando a ele?!Passou 30 anos no mesmo trabalho insalubre ainda que tendo a chance de se empregar em lugares MUITO melhores! Se o desprezasse tanto, jamais teria ficaria no mesmo lugar! O que ele tinha de tão especial??" - [tom desafiador].
[Magal] - "A sua fixação por ele, é o que ele tinha de especial! Você é um zero à esquerda, cara!" - [raiva e rejeição] - "Nunca teve sucesso na sua vida e vive molestando pacientes para fazerem eles falarem o que eles não querem pelos seus centavos de consulta!" - [aponta para um Terapeuta].
[Terapeuta] - "Exatamente! O que eles não querem, mas que PRECISAM!" - [gesticula] - "Essa é MINHA função! E a SUA rejeição a esse sentimento é o que faz com que você NEGUE a verdade! Então, como um dos MEUS pacientes, VOCÊ precisa cuspir o está PRESO dentro de você, não o que você gosta!" - [raiva genuína] - "Ou você não consegue discernir isso de suas fantasias sexuais reprimidas?!" - [encara Magal com raiva].
[Magal] - "Cash era um IDIOTA mas era meu AMIGO, não meu CARRASCO!" - [semblante de raiva e súplica, com dedos contorcidos para cima].
[Terapeuta] - "Ah, AGORA ele era seu amigo?? E qual amigo que vai largar a esposa pra ir atrás de um funcionário?!"
[Maga] - "Pelo mesmo motivo que você largou a sua pra passar a noite com os amigos no bar!" - [acusa] - "Você acha que Cash não traçava as mulheres da cidade enquanto Maria era feita de otária?!" - [aponta para o lado].
[Terapeuta] - "Ele só procurava outras mulheres porque não tinha VOCÊ pra dormir com ele!" - [aponta para Magal].
[Magal] - "COM BASE EM QUÊ?!? SEU FILHO DA PUTA!" - [perde as estribeiras].
[Terapeuta] - "Como você explica o fato de um cara que DESPREZAVA a própria esposa começar a se entupir de suplementos depois da primeira vez que te viu!?!" - [aponta para o ruivo].
[Magal] - "PORQUE ELE QUERIA ME IMPRESSIONAR!!" - [explode o para-choque do veículo com uma pequena estátua disponível no porta-luvas aberto].
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-----[VIDRO QUEBRADO. LATIDOS DE CACHORRO. ALARME DE VEÍCULO]----
O Terapeuta se assusta diante do soco que Magal cede no vidro do para-choque do veículo.
Um momento perturbador e desconfortável de pausa foi estabelecido entre profissional e paciente compulsório por alguns segundos. Tendo rompido toda a sua raiva e revolta, Magal se mostra exaurido, e com um semblante triste e cansado de quem estava prestes a chorar em meio a tamanha culpa e constrangimento. Percebendo o que havia feito, ao terapeuta só restou permanecer calado de frente para o SH, que estava quebrado e embaraçado pelo sentimento puro e profano na qual mantinha pelo seu amigo Cash.
..... "A verdade é: você sempre foi apaixonado pelo Cash!" - [rememora em sua mente]....
.........."Seu tipo sempre foi esse. Por que tá enojado? Seu tesão mesmo é em Porcos, e dos grandes." - [lembra-se da fala de Thelonius].
.......... "Você tá sambando em cima da minha crise com o Cash, não éh? Por que não deixa nosso Casamento em paz?!" - [voz feminina ecoando de forma agoniante em suas memórias].
........"Por que esse cara anda o tempo todo com você? Nem parece que tem mulher..." - [flashbacks].
..............."Isso ainda vai MATAR você, Cash! Pare de usar essa MERDA, você tá se transformando num degenerado!" - [gritos].
.........."Qual é, você sempre foi libertino e desgarrado, por que resolveu ficar de cu doce agora? Hein??" - [voz inquisitória].
[CESSAR DE VOZES. RETORNO DO TRANSE. SILÊNCIO. SONS AMBIENTES. NOITE ESCURA. LUZ FRACA DE UMA LAMPARINA. RESPIRAÇÃO LEVEMENTE OFEGANTE E SILENCIOSA. IMAGEM DO BURACO NA JANELA DO PARA-CHOQUE. SEMBLANTE TRISTE].
[Magal] - "Ele queria me impressionar..." - [olhar baixo, voz contida e um pouco trêmula] - "E sim... eu o amava..." - [olha para o terapeuta].
Antes que profissional pudesse tentar se explicar, o mesmo é bruscamente interrompido por Magal.
[Terapeuta] - [palma da mão para cima, em sinal de rendição] - "Magal... olhe..." - [interrupção].
[Magal] - "CALE ESSA SUA BOCA E ME ESCUTE AGORA, PORRA!" - [estoura, exibindo um olhar mesclado a ódio e tristeza].
O Terapeuta presta bastante atenção no que o SH está prestes a lhe dizer.
[Magal] - "Éh, eu gostava dele...!" - [voz trêmula e dedo indicador para si] - "Sempre gostei desde o dia em que eu o vi pela primeira vez quando fui atrás de Maria antes dele...! Eu queria Maria como MINHA mulher!" - [aponta para si] - "Fui atrás dela achando que iria me casar...!" - [raiva e olhos lacrimejantes] - "E fui enganado...!" - [voz trêmula, lábios cerrados, tristeza genuína] - "Toda essa MERDA só aconteceu porque o homem que GOSTAVA...!" - [iniciam-se os pequenos soluços, lágrimas nos olhos] - "Foi compensar a sua FRUSTRAÇÃO violentando 340 garotos na cidade INTEIRA porque eu neguei sexo COM ELE!" - [aponta para o terapeuta, já aos prantos e revolta] - "E ele só fez isso porque FUI EU que mostrei a suplementação pela primeira vez pra ELE!!" - [aponta para o profissional com ódio e tristeza] - "Como você acha que eu me sinto com isso?! Sabendo que eu vou conviver com essa culpa pelo RESTO da minha vida?!" - [raiva, revolta e tristeza genuína] - "..." - [alguns soluços] - "Primeiro a Maria..." - [lágrimas] - "e agora o Cash..." - [semblante de vergonha e tristeza] - "eu me sinto um LIXO!" - [revolta e tristeza].
Mostrando-se sentido com o rompante de mágoa de Magal, o homem apenas concorda com a cabeça.
[Magal] - Eu sinto NOJO toda vez que lembro que senti alguma coisa por aquele cara... porque o que eu sinto por ele É PROFANO! E foi a PIOR coisa que já me aconteceu...! - [raiva seguido de olhar abatido, lágrimas no rosto e feição de tristeza genuína].
[Terapeuta] - .... E foi a melhor coisa também... - [olhar de compaixão].
[Magal] - Se era essa merda que você queria ouvir... então conseguiu...! - [tristeza e raiva genuína] - Pegue a sua promoção, SUMA junto com ela e ENCERRE esse caso....! - [rejeição e raiva].
O homem ruivo vira e rosto de lado e se apoia à janela lateral do veículo, cobrindo parte de sua boca com uma de suas mãos e deixando escapar alguns soluços e resultantes de sua tristeza, que há muito tempo não se via entrar em ebulição. O homem chorava em silêncio, remoendo todos os arrependimentos que aquela revelação lhe acarretaria. O terapeuta, fez uma última pergunta antes livrar o rapaz daquela tamanha aflição:
[Terapeuta] - "..." - [vira o rosto, perpassando sua mão em sua face, pensando no que iria dizer] - "Você disse que Cash estava tentando te impressionar..." - [olha para o SH].
[Magal] - "... Estava..." - [voz contida].
[Terapeuta] - "E ele conseguiu?" - [semblante melancólico].
[Magal] - [pausa] - "..." - [limpa o rosto] - "Ele conseguiu o que queria..." - [levantar de ombros com um dos braços apoiado à janela] - "e o que eu queria..." - [negação coma cabeça] - "ele..." - [levantar de uma das mãos] - "o vício dele piorou depois que eu deixei claro que eu não o queria mais." - [punho cerrado frente ao nariz] - "Daí ele passou a me perseguir.... me espezinhar..." - [semblante de indiferença] - "eu comecei a me distanciar..." - [movimento de negação].
[Terapeuta] - "Como se sente?" - [fita Magal].
[Magal] - [cabeça baixa] - "...Isso não me faz me sentir melhor..."
[Terapeuta] - "Não te faz se sentir melhor.. mas era o peso que você precisava tirar das suas costas..." - [acende outro cigarro].
Após alguns segundos, um grande sentimento de luto guardado por 03 anos vem à tona do peito de Magal. O homem olha para o panorama celestial na qual lhe é tomado por uma imensa culpa e saudade que o atormentava nas suas mais íntimas lembranças. Lotado de angústia, seus olhos se umedecem momento em que começa a esconder o rosto e, silenciosamente, desabar em lágrimas. O terapeuta se sente realizado com o feito de seu tratamento. Confiante, sentia que finalmente havia concluído o trabalho com um paciente tão desafiador.
[Terapeuta] - "Isso, isso...! Chore...! Libere essa angústia. É isso que eu quero de você...!" - [motivação] - "Toda essa carga emocional que estava presa no fundo da sua alma, você fez jorrar...! Você foi muito bem, Magal..." - [sorri, tentando confortar Magal com sua mão em suas costas].
[Magal] - "Vai se foder...! Tira a mão de mim. essa consulta acabou." - [repele a mão do terapeuta].
Apesar da reação agressiva de seu paciente, o Terapeuta se sente aliviado e contente por ter chegado ao fim de seu tratamento com sucesso.
[Terapeuta] - "O que acabou de se encerrar aqui Magal, é uma tragédia..." - [convicto, de dedo indicador para baixo].
[Magal] - "O quê?" - [olha para o profissional] - Como assim?
[Terapeuta] - "..." - [levanta as duas mãos, com dedos indicadores e polegar unidos] - "De agora em diante... esqueça o casamento, esqueça as convenções morais, esqueça traição, esqueça tudo o que você aprendeu sobre este planeta aqui..."
[Magal] - [silêncio].
[Terapeuta] - "De forma muito inconsciente, Magal, você passou boa parte da sua vida perseguindo TRAGÉDIAS. Tragédias essas para a sua vida política, tragédias para a sua vida amorosa, tragédias para a sua vida profissional, para o seu convívio em sociedade. Você é um homem essencialmente trágico, Magal!" - [semblante de estranhamento e surpresa] - "Você corre atrás de coisas que você já sabe que subitamente dará errado, mas que na sua ótica, lhe fará se sentir amado, desejado, querido... um sentimento de pertencimento que falta ser preenchido dentro de você. Só que a sua possessão e noção de potência e controle sobre a vida te impede de reconhecer que existem coisas pelas quais nós não podemos competir..."
[Magal] - [silêncio].
[Terapeuta] - "Você é sem sobra de dúvidas muito mais forte do que metade dessa Galáxia, muito mais desejado do que os 800 atores mais cobiçados do país e tem qualidades invejáveis que te dão uma vantagem infinitamente maior sobre as outras pessoas... mas é um Ser Humano..." - [fita o paciente] - "Você também falha, erra, ama, chora, se engana... disputar com Maria pelo amor e a atenção de um homem pela qual, ao mesmo tempo, você o evita para compensar a sua vergonha, insegurança e o abandono afetivo de uma mulher que você amou, é a receita certa para a sua vida... resultar... em uma tragédia." - [conclui pausadamente, em olhar fixo] - "Você queria ter os dois... e acabou sem nenhum. Você jogou com o desejo do casal... e acabou sendo odiado pelos dois. Percebe a enrascada que você se meteu?"
Magal olha atentamente para o homem. Mantendo o olhar com um aspecto "caído" e um semblante já aparentemente sério, mas compreensivo, reconheceu a verdade de cada palavra dita pelo seu médico da qual nunca havia contratado por vontade própria.
[Terapeuta] - "Quando você entender que persistir em achar que tem indiretamente o controle sobre as outras pessoas vai te resultar nas piores experiências da sua vida, você nunca mais irá precisar sofrer como está sofrendo agora. Não pense de forma alguma que você é responsável pelas atrocidades que aquele animal fez... mas você é eternamente responsável por aquilo que você cativa..." - [olhar fixo] - "você cativou um homem quebrado, sedento e viciado por domínio e autoconfiança pra depois rejeitá-lo friamente... e você no fundo sabia que isso poderia dar errado... mas não fazia ideia da magnitude da consequência desse relacionamento insalubre que você cultivou com Cash nos últimos 15 anos..." - [chama a atenção apontando para Magal] - "25 anos pra você não é nada, Magal... mas para um homem como Cash, é quase 1/3 de uma vida..." - [olha para o paciente] - "pra um homem que passou de um sujeito respeitado para um completo degenerado, cada segundo da vida dele era precioso, assim como foi para Maria." - [aponta o braço para a lateral rumo ao para-choque] - "E tudo que ela queria era reestabelecer o equilíbrio no Casamento dela com o Cash, e o que você fez foi criar uma enorme tensão na vida dos dois..." - [olhar de melancolia e seriedade].
[Magal] - [vira o rosto e permanece em silêncio, concordando de forma tácita, mas discreta].
O Terapeuta encosta-se novamente ao banco e volta a fumar o cigarro com sabor de frutas cítricas. De forma descompromissada, o terapeuta oferece do próprio cigarro para Magal, que não resiste a uma tragada no momento em que pega o maço das mãos de seu confidente profissional. Com expressão séria e apática, o homem aprecia o sabor e o cheiro do cigarro. O maço que estava na sua mão e não foi usado, foi guardado dentro de uma das caixas semi vazias do produto por Magal.
[Terapeuta] - "Você é muito vaidoso e afetivamente limitado por ter convivido apenas com pessoas iguais a você. Só que aqui é bastante diferente de tudo o que você já viu... por isso, se algum um dia você vier a amar alguém de novo, assuma. Isso existe. Não finja negar algo que você não pode controlar, mesmo que não seja por quem você espera." - [ressalta] - "Nunca cative alguém se não for agir de forma honesta. Mas se você não for capaz disso, se manda. Suma. Não corra de novo atrás de uma tragédia." - [olhar fixo].
[Magal] - "..." - [rosto para cima, olhos cerrados, respiração profunda, mãos friccionando o rosto].
Satisfeito, o terapeuta deixa transparecer serenidade e orgulho em sua face quando finalmente consegue traçar uma linha do tempo sobre o caso Cash, ainda sem solução pelo assassino ainda estar foragido da polícia. Para relaxar, traga mais um pouco do corpo do seu cigarro predileto.
[Terapeuta] - "E aí, não faz sentido o que eu disse?" - [sorriso confiante].
De aspecto exausto e apático, Magal permanece em silêncio por alguns segundos.
[Magal] - "Como eu disse: a consulta acabou." - [olhar fixo e cansado] - "Eu quero ir pra casa..." - [sai do veículo].
O semblante do profissional muda para uma expressão de dúvida e decepção em sua face. Com o cigarro na mão, o homem observa a silhueta de Magal pelo espelho frontal do veículo e pensa em lhe dizer algumas últimas palavras. Antes que o SH pudesse partir para longe dali, o Terapeuta faz um último questionamento a Magal.
[Terapeuta] - [passa para o banco passageiro e olha pela janela do carro] - "Hey! Queria me dizer mais alguma coisa?" - [olhar de dúvida e um pouco de melancolia].
[Magal] - "Sim, eu quero... não volte mais..." - [rosto para trás, olhar de desprezo, mãos nos bolsos].
Ao retomar o seu caminho em silêncio, o terapeuta tenta fazer uma graça para o SH, que não foi nem um pouco amistoso em resposta:
[Terapeuta] - "Relaxa. Se eu voltar, vai ser para trazer o seu presente de aniversário. Feliz dia 02 de Maio, amigo." - [sorri].
Em resposta ao terapeuta enquanto caminha de costas viradas para ele, Magal levanta o seu braço direito e exibe gentilmente seu dedo do meio para o profissional como forma de se despedir definitivamente do mesmo. Surpreso, mas não chocado, o terapeuta aceita o desaforo do SH.
[Terapeuta] - "Ssss...! Ai...!" - [sensação de golpe, contração da face] - "Bela maneira de dizer obrigado..." - [olha para Magal por alguns segundos antes de retornar para o banco motorista].
Uma rádio do veículo na qual era utilizado como disfarce, começa a emitir uma voz humana se comunicando com o terapeuta.
[Rádio] - "Câmbio, tá na escuta? E aí, foi tudo bem?" - [indaga].
[Terapeuta] - "Caramba, eu dei sorte de não ter tomado um soco dele, cara..." - [alívio] - "ainda bem que ele não descobriu que a arma de uso restrito era falsa." - [checa por debaixo do colete].
[Rádio] - "Óh, cuidado aí e fica de olho, ok?" - [desliga].
O homem retira do bolso um pequeno retrato digital de sua família e fica admirando as imagens em movimento nas suas mãos.
[Terapeuta] - "Éh... parece que as coisas vão melhorar pra nós quatro... minhas grandes mulheres da minha vida." - [sorriso melancólico e semblante pensativo].
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Alguns minutos depois daquele encontro, Magal murmura para si mesmo enquanto caminha para casa:
[Magal] - "Se eu vir esse cara de novo na minha frente, eu tomo um tiro, mas eu mato ele. - [sério].
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. . . . Sons de passos. Rua turva e escura.
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