---TERRA. NOVA YORK. CENTRAL DILWORTH. BOATE UNDERGROUND. CAPTURA E ENCARCERAMENTO. FINAL DO ANO 8.852 D.Z EM DIANTE. 00H50 DA MADRUGADA. CONTRATO LEONINO. DÍVIDA ETERNA ---

    Um quarto extenso. Moldes de ouro e granito escuros como o abissal marítimo. A colossal estrutura abrigava os móveis mais luxuosos e caros da cidade. Mesas inundadas de porcelana das mais abusivas cores fortes e chamativas. Tudo muito requintado e ostensivo ao máximo. Luminárias laterais e um som de música de fundo aos choques de luzes azuladas próximas a uma enorme banheira, feita à base de mármore banhada a folículos prateados.

        Das músicas que Vega mais gostava dentro daquele inferno, eram as que vinham aos sons de metais e graves intensos. Os muros e tetos daquele local esbanjavam melodias que mais pareciam tanques de guerra. Era o ápice do prazer para os mais apreciados, e perturbador para os menos entusiastas do gênero industrial. Alguns com batidas em ritmos que se casavam com a dança. A moça mal sabia os gêneros as quais ouvia, pois não tinha como procurar. Fazia tempo que não sabia o que era ver a luz do sol pois não perpassava as barreiras daquele submundo. A única coisa que poderia apreciar, era extenso panorama logo atrás dos vidros blindados. Vez ou outra, os vinhos, os jantares luxuosos, os sais de banhos, os mimos e presentes. Era o que podia usufruir da desgraça "nossa" de cada dia. Os prédios eram lindos, e a lua estava bela. Tão Bela como era Vega aos olhos de todos que ali passavam.

        Tudo era muito alternativo, inclusive as moças que lá desfilavam e giravam em torno de barras fixas banhadas a ouro como se voassem aos céus. O ambiente de prostíbulo e festa dava aos mais pomposos de dinheiro, a chance de escolherem três garotas a cada noite. E Vega era, de longe, a mulher mais disputada de toda a boate Underground. Muitas mulheres, inclusive, lançavam notas de dinheiro ao ar para ter Vega como parceira da noite. De Jurema até Stacy, a Transmorfo foi colocada para se moldar a todas as formas e variedades possíveis de aparência feminina.

     Mas a predileta de Ashley Dilworth, sua carrasca e sequestradora, era a sua forma original: negra, com seus cabelos repartidos ao meio, caídos até o pescoço, repicados e brilhantes, escorridos e sedosos, mais escuros que o céu noturno. Com penteado ao estilo “bucky”, sua íris destilava um forte dourado que se confundia uma barra de ouro puro. Seu rosto levemente hexagonal e de queixo pequeno, casava com seu olhar gatuno amendoado e seu nariz perfeitamente desenhado. Sua testa, era levemente mais larga, o que dava ainda mais charme em sua face.

        Com lábios modestos, mas não apagados, a moça tinha o lábio superior bem pouco maior que o inferior, e a boca, formava uma discreta linha que simulava uma modesta colina. Seu corpo era altamente simétrico e bem delineado: nem demais, nem de menos. Cintura triangular harmônica. Seios modestos, mas firmes, elegantes e de aspecto suavemente triangulado. Glúteos e pernas perfeitamente arredondados e polidos, pareciam serem feitos de mármore, uma estátua greco-romana. Seus braços de musculatura simétrica e firme, combinava com seu abdômen levemente torneado e de pele aveludada. Mãos delicadas e desenhadas por mãos divinas, e seus pés, muito bem medidos para se enamorarem com todo e qualquer sapato. Todos os seus vestidos de seda de altíssima marca, valorizavam sua extrema beleza e semblante envolvente, aldaz.

        Vega era uma joia naquela Terra. Uma das raríssimas criaturas capazes de seduzir e dominar os seres humanos comuns apenas com seu olhar. Mas, terrivelmente arrancadas as forças seu labor até a última gota da alma para produzir dinheiro aos patrões. Nada seria daquele jeito se não fosse pelo seu pescoço. A sua nuca. A sua doce e miserável nuca. Depois de raptada, só conseguia lembrar das palavras de Magal.

        Só conseguia se olhar em frente ao espelho com um semblante de decepção e apatia, mas de quem pacientemente parecia suportar a própria condição. O vestido, assimétrico no abdômen, e de cor de esmeralda com ornamentos dourados e comprimento que deixava as laterais das pernas nuas, era o favorito de Vega. Os conjuntos de três finas argolas douradas de seus brincos e seus finos traços de maquiagem egípcia, feitos à base de sua pele, a deixavam ainda mais encantadora, apesar de melancólica. Deixava seus cílios um pouco mais longos, cheios e "deitados" nas laterais do olhar, como se fossem pequenos fios de penas. O "batom" de pêssego cintilante, também era feito de sua própria pele, que mudava de cor e textura quando quisesse, simulando até mesmo um aspecto vidrado. Centrada em sua imagem, mas sem deixar de notar a presença de sua chefa, Vega percebe o olhar de desaprovação da mulher, sentada em um enorme sofá estofado em um suporte metálico dourado. Vega percebe o motivo da insatisfação de Dilworth.

[Ashley] — [olha bem para as nádegas da moça] — "O que é isso abaixo da sua bunda?"

[Vega] — [silêncio e receio, olhar baixo e triste] — "Não é nada..."

[Ashley] — "Não, é? E essa pontinha vermelha que está aparecendo nessa nádega de porcelana?!"  [aponta a longa unha de vidro escura e rosada para os glúteos de Vega]  "Isso é uma espinha?!"  [desconfiada].

[Vega]  [olha levemente para trás]  "Sim... é uma espinha..."  [desânimo].

[Ashley]  "E eu posso saber o motivo do surgimento dessa praga?"  [cruza os braços aborrecida]  "Você tá doente por acaso?"

[Vega]  "Isso é estresse..." — [olhar baixo].

[Ashley]  "Quê?! Estresse...?!"  [feição contraída, incrédula, projeta o corpo para frente].

[Vega]  "Sim, é estresse..."  [leve olhar de aborrecimento, voz baixa]  "mas eu vou tirar...."  [olhar baixo].

        Vega coloca um dos dedos no local para esconder onde está vermelho e imediatamente superaquece a pequena espinha a ponto de esta desaparecer por completo. Ashley, com seus cabelos louros espetados, maquiagem preta e rosa ao redor dos olhos, cachecol rosa pink, vestido de manga larga, preto, com cordas rosas e botas "over knees" pretas, a mulher se aproxima para bem próximo à lateral de Vega, com braços cruzados e semblante de poucos amigos. Sem muita cerimônia, a carrasca destila um olhar de desaprovação para tentar intimidar a moça, que já não esperava outra reação.

 

 ....[Música de fundo do quarto: "Kátia Flávia, a Godiva do Irajá - Fernanda Abreu"].Música

 

[Ashley] - "..."  [aborrecida]  "Pois então TRATE de se desestressar...."  [diz em fala gradual, em tom baixo e de rosto amarrado]  "isso não é desculpa pra você achar que pode ter algum transtorno de ansiedade..."  [vira os ombros]  "você não tem estrutura biológica pra isso. É um SH Transmorfo, AJA como tal...!"  [vira-se e caminha a passos largos, deixando Vega sozinha no quarto].

        De olhar baixo, mas não surpresa, Vega retira de sua pequena bolsinha cristalizada uma pequena balinha de vitaminas, na qual só tinha direito de comer em algumas unidades por dia. A Transmorfo não se alimentava bem. E luz do sol, era raro naquele ambiente.

        O enorme e destacado bracelete, com uma pedra esverdeada brilhante em um de seus braços, vinha juntamente com seu par de sapatos: uma sandália dourada com amarrações cruzadas ao longo das pernas, e com pedras verdes ao meio dos pés que cegavam até as madames mais exigentes. O salto era bem alto. Mas Ashley, apesar de impiedosa, não era tão exigente quanto a isso. Podia autorizar sapatos rasteirinha ao estilo grego ou até coturnos, pois também gostava. O singelo colar gargantilha, era como uma linda fita metálica esverdeada com uma corrente dourada aliada um pingente, também de ouro. Ashley gostava enfeitar Vega com os melhores tecidos de Nova York, pois a moça era mais do que uma linda boneca letal: era um troféu para Ashley, sedenta e sanguinária por dinheiro.

      Caminhando pelo piso aveludado, a cafetina fazia preferências entre as meninas por um hanking de valor: a mais bela, a mais amada e de melhor raça, era a mais bajulada... E a mais torturada e esbofeteada por ela. A cada quantia produzida, 97% pertenciam à dona da boate. Quando não muito, procurava ceder 10% pelos serviços das mulheres. Toda a boate era administrada e liderada por ela. As outras garotas se ardiam em ódio pois não recebiam o mesmo reconhecimento de Ashley. Eram mais exclusas e barateadas, constantemente passadas para trás à medida em que chegava uma ou outra SH capturada. Quando sentiam que eram aporrinhadas pela patroa, tratavam logo de armarem uma fuga da boate. O problema era o maldito contrato. Ao assinar, não tem prazo para término. Ou cumpre, ou apanha, ou morre. Vega era uma das poucas ali que não deixavam marcas. Caso reagisse a base de força bruta, era neutralizada. Por onde passava, era rastreada em seu dispositivo.

 

+++++[Manhunt Game Soundtrack - Trained to Kill (green)]++++++++

 

        A Transmorfo, ainda se olhando no espelho e decidindo o próximo rumo de sua fuga, involuntariamente quase coloca uma das mãos no pequeno aparelho elétrico anexado em sua nuca. Por ser automático, o aparelho logo dá os primeiros sinais de alerta e começa a disparar leves descargas elétricas, o que faz a moça quase cair ao piso, se segurando pelas pernas bambas pelo leve choque elétrico acionado. Sem muitas opções, a Transmorfo tinha que descobrir um jeito de tirar o dispositivo atrás de si sem que este disparasse. Todo o local era configurado com comandos de Inteligência Artificial vinculados e sincronizados a todos os SH’s que ali estavam. Se alguém tentasse ajudar o outro, também teria o aparelho disparado. Se entrasse em lugares indevidos, também era disparado. Se tentasse fugir para longe, era acionado da mesma forma. Sabendo da astúcia de Vega, tudo foi pensado para manter as SH’s presas e vinculadas aos seus respectivos trabalhos forçados. Ashley não se enganava. Estava de olhos atentos.

        O cárcere foi bem montado para que nenhum tesouro pudesse sair dali. As humanas comuns eram dispensáveis. Já os SH’s, eram ad eterno, um contrato de adesão permanente. Quase perto de estar enfurecida, mas se controlando de forma metódica, Vega desce os corredores e vai até o elegante elevador prata com blindagem de vidro lilás para descer até o grande salão azul, lotado de círculos estufados de assentos com barras de ferro colocados ao centro. As barras se ligavam ao brilhante teto vidrado, de aspecto infinito, quase submerso em sua profundidade. 

        Todos os ricaços, como de costume, se reuniam aos arredores dos assentos azulados para assistir, gozar e escolher as mulheres. Alguns poucos homens que tinham, eram colocados para trabalharem como garçons e garotos de programa nas horas vagas. Trabalhavam com camisas que os deixavam transparentes de forma proposital, pois tinham que cumprir uma meta de clientes interessados nem que seja para apenas assistirem seus corpos. Dentre eles, havia dois SH’s tutelados pela casa que vigiavam os passos de Vega para que pudessem aproveitar o embalo para fugir. Todos ali só se comunicavam pelo olhar. E os olhos não enganam: todos os encarcerados estavam se conectando por ali, mesmo que em silêncio.

        Vega, ao chegar no último andar, linda e deslumbrante, atiça os olhares de todos que estavam ali presentes. O olhar gatuno da moça já havia conquistado todo o salão. As mulheres, cansadas de tanto dançarem, pararam para fitar a Transmorfo. Algumas ficaram impressionadas. Outras, cada vez mais insatisfeitas, pois viam seus trabalhos serem completamente serem reduzidos a pó. De rosto sério, Vega caminhava elegantemente pelo piso prata com detalhes em granito preto, até a plataforma prateada por onde estavam suas colegas apoiadas nas barras douradas. 

        Sem nem dar atenção ao ressentimento e leve indignação das mulheres à sua volta, ambas as meninas se posicionam horizontalmente para que fossem escolhidas como uma espécie de leilão de corpos. Os primeiros interessados votaram em Vega para ser a escolhida. Os outros 05 homens votaram lançando mãos mais gordas pela Transmorfo. Ashley, animadíssima, adorava ver o desempenho da escrava em faturar rios de dinheiro por cada noite laborada. Vega estava com fome, e não esboçava nenhuma expressão de sorriso. Virou até uma demonstração de “charme”, para disfarçar a fadiga e a dor. De feição séria, mas adorada pelos espectadores, valores mais altos eram lançados só para ela pelos seus potenciais clientes. Um deles até havia trazido sua esposa e um rapaz amante para aproveitar a festa. Estavam abraçados os três.

       Cada competidor fazia um lance. Este poderia ser verbal ou mediante proposta em cheque lacrado em um cartão, na qual o apostador teria de abrir para que os valores pudessem ser comparados. Indubitavelmente, o que oferecesse mais, ganharia a mulher disputada. O ganhador poderia obter a mulher por até um mês de prazo para si e, e o pagamento seria feito pela metade na data em que a mulher fosse escolhida, realizando o restante do depósito ao final do encontro. Após os lances feitos à primeira mulher, logo vinha a segunda mais disputada em diante.

     “Eu taco 800 mil nessa daí...!”  [um homem oriental de óculos escuros lança a proposta] — “Eu dou mais! Sem blefe...!”  [compete com o adversário, um rapaz pardo de olhos verdes e relógio feito todo a base de rubi e terno com listras “tigradas”]  “Pois eu lanço 02 milhões...” - [falou calmamente um louro de terno branco, com sapatos e gravatas vermelhas]  “Ah, dá licença, senhoras!”  [debocha]  “15 Mi, por essa Rainha de vestido verde aí da frente...!”  [diz um elegante homem egípcio, com roupas que mesclavam o vinho, o creme, ouro e cor pistache]  “Rsrs... hahaha."  [em risos, outro homem recosta-se sobre o sofá azul, de pernas cruzadas]  "Vocês estavam brincando esse tempo todo?”  [solta lentamente um lance sobre a mesa de vidro sem soltar uma única palavra, com um charmoso sorriso no rosto]. 

         Era um homem negro cujo terno era preto, com belos detalhes verticais de rosa pink, de tom de íris igualmente rosa, com um magnânimo chapéu trilby com as mesmas tonalidades do seu terno. Seu corte de cabelo era slick back, e parecia ser o mais bonito e interessante dos lançadores dali pela sua simetria facial. Vega o observava. Por alguns segundos, tinha a esperança de ser Jason que viesse para resgatá-la. Mas o seu amigo tinha a íris amarela, caindo por terra todas as suas expectativas. Os outros competidores começaram a ficar atentos com o rapaz, que exibia orgulho e simpatia em sua face. “Aí vocês estão apelando...”  [disse o homem oriental, acompanhado do belo amante e sua luxuosa esposa]. O comentário arranca risos dos outros homens. “Tsc... que coisa."  [leve semblante de decepção dissimulada]  "Ok... já que vocês querem apelar..."  [o homem russo, branco, de cabelos pretos, terno cinza azulado e brinco de ouro, deposita o valor à mesa]. “Quanto??”  [diz o homem de rosa, incrédulo]. O homem russo se encosta no sofá em silêncio, fumando um charuto.

[Vega]  "Tsc... Merda".  [murmura, em tom baixo].

         As apostas que ambos fizeram à mesa foram imorais. O belo rapaz negro propôs a singela quantia de míseros 500 milhões de dólares por Vega. Já o Russo, ousou queimar a largada de 01 bilhão de dólares pela mulher. Ashley estava embebecida de alegria e de ganância. As outras mulheres, completamente devastadas como se seus corpos já não estivessem mais ali. Percebendo que não podiam competir com Vega por ser algo maior do que poderiam humanamente alcançarem, as garotas olham para Ashley para que, desesperadamente, a patroa pudesse dispensá-las dali o mais rápido possível. Notando o desconforto das garotas, Ashley dá o discreto sinal para que saíssem do salão:

[Ashley]  "Obrigada, meninas vocês já podem ir para os seus quartos, já trabalharam bastante hoje."  [sinaliza gentilmente com as mãos esmaltadas enquanto demonstra um sorriso de canto em canto] — "Se precisarem, estarão servidas para o jantar..."  [sorri].

       Uma das garotas percebe o cinismo de Dilworth ao olhar para trás, demonstrando feição do mais puro desprezo para com a sua chefa, que mais parecia estar preocupada com a bolada que havia acabado de ganhar do leilão de Vega. O combinado era que a Transmorfo passasse uma semana acompanhada e satisfazendo todos os prazeres e caprichos do mafioso vencedor. A fortuna, era só um Jackpot a ser distribuído para toda a Central Dilworth, um Estado Paralelo independente autorizado pela Constituição Americana. O homem russo, de 01 metro e 90, cabelos brilhantes e pretos penteados para trás e olhos azuis, era fascinado pela ideia da existência de um Super-Humano. Queria mais do que só o corpo de Vega para seu proveito: almejava também o seu sangue para a sua jovialidade. 

        Os rumores de Vega se espalharam entre as elites mais podres de ricas do planeta, e todas entraram em forte disputa para ter acesso ao pouco divulgado Ser Humano mais poderoso e enigmático da Terra. Quando o último e maior lance foi feito, nenhum outro competidor tinha mais do que aquele insano valor. Todos ficaram profundamente sem graça depois de serem financeiramente atropelados por um dos magnatas da Casa Noturna. Sem chance com Vega, o rapaz de olhos cor-de-rosa deposita gentilmente um cartão de convite para próximo da moça, que ao ver o homem ir embora da festa, coleta o singelo objeto para si, colocando em sua bolsa. Tinha a impressão de que aquele rapaz pudesse estar tentando resgatá-la. Levemente enciumado, o russo vai de pronto até Vega estender o braço para a moça para que ela se apoiasse, o que a mulher aceita logo de imediato.

[Vega]  "Eu estou com muita sede, se importaria se eu comprasse uma água de 2 litros?"  [rosto simpático].

[Russo]  "Mas é claro, meu bem."  [simpático]  "Deixe que eu mesmo pego pra você..."  [se prontifica].

     O homem gentilmente compra uma garrafa cara de água potável gelada a 100 dólares de 3 litros para Vega, ganhando uma vantagem extra;

[Vendedor]  "Esse é promocional para o Senhor, Mister." - [simpático].

[Russo]  "Obrigado."  [exibe um sorriso].

     O homem, orgulhoso da mulher que tinha em mãos, a agarra gentilmente pela cintura e a beija como se estivesse chamegando uma linda gata doméstica. A beija em seus lábios e várias vezes em sua testa, bochecha, pescoço, ombros, braços e mãos, deixando Vega arrepiada dos pés à cabeça. A melhor parte da sua desgraça rotineira era o excesso de mimos e carinhos que recebia de alguns dos clientes que eram escolhidos a dedo pela chefa. Alguns deles se transformavam em contatos favoritos e até mantinha uma relação harmônica com eles. Era um compensador para cada 800 homens que a utilizavam como saco de pancadas por ser resistente a dor, a socos, a chutes ou pedradas.

       Alguns, sem sucesso, tentavam fazer com que Vega sangrasse, e atiçando seu ódio, a moça jorrava uma grande quantidade de sangue no rosto de seu algoz através de uma abertura que fazia em seu pulso. Vega só não matava seus clientes com suas próprias mãos pois arriscaria sua liberdade. Era impossível escapar dali sem ser eletrocutada. Mas morria de vontade de trucidar os homens que tinham como sadismo, o principal prato de seu cardápio. Os piores clientes eram deixados nas costas das Super-Humanas. E havia um plus: alguns andavam com armamento restrito para controlar as SH’s.

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F   L   A   S   H   B   A   C   K


---------QUARTO 06. 30 HOMENS E 400 GARRAFAS DE VIDRO-------

    “Aê, porra!!"  [empurra com força]  “Arrebenta ela!”  [arremessa uma garrafa vazia de Whiskey]  “Olha aqui, eu sou o Popeye! Come isso, biscate!"  [desfere dois socos e a joga contra o peito de outro homem]  “Mete a cara nisso aqui, ordinária!"  [saca Vega pela cabeça a puxa diversas vezes para baixo, simulando um sexo oral violento]”.

        Quebradeiras de garrafas de vidro vindo às dezenas. Empurrões e puxões de cabelos. Gritos de satisfação e zombaria vindos de vários jovens dentre 20 e 26 anos, todos de cabeças raspadas. Vega, usada como brinquedo de borracha, se mostrava cada vez mais irritada a cada golpe que recebia gratuitamente em sua cabeça. Outros homens, apreciavam a sessão de tortura aos sons de punk metal nas alturas, um verdadeiro inferno. Vega Tinha tanta raiva que só conseguia se imaginar municiada de uma caneta tinteiro em cima de uma escrivaninha próxima de si, no intuito de fincá-lo em cada uma das gargantas dos que estavam naquele recinto. Os homens a humilhavam apenas pelo mais puro esporte, adoravam ver como Vega suportava as pauladas como se estivessem lidando com uma figura cartunesca, que performava uma violência lúdica e infantilizada.

        Como não havia mulheres que suprissem os prazeres doentios dos compradores da casa, Vega era a única que tinha o fardo nas costas. Era a única que aguentaria todos os tipos de maus tratos sem gerar danos físicos, sequelas, ou causar prejuízos aos seus algozes, o sonho de todo carrasco. A cada garrafada, mais fixados os olhos da mulher se tornavam, direcionados friamente para a caneta tinteiro. Vega foi jogada na cama para levar vários socos que eram contidos pelos seus braços. Tinha de ter cuidado para que não machucasse os seus próprios agressores. Depois disso, a mulher era derrubada ao chão e vários chutes de coturnos eram desferidos por todo o seu corpo por pelo menos 15 minutos. Tudo para produzir dinheiro para Ashley. 

No final, depois de toda a sorte de torturas de guerra, Vega foi deixada para trás, caída no chão. Além da performance doentia que era obrigada encenar, tinha de simular que mal conseguia se levantar para dar satisfação aos canalhas. Litros e mais litros de bebida alcoólica eram derramados em cima dela para que ficasse toda enxarcada. Com seu vestido rasgado, seu cabelo desgrenhado e seu rosto grudado no tapete felpudo, a moça já expressava um nítido olhar de nojo e esgotamento pelos homens que atendia. Vega estava literalmente jogada como um gato morto no piso de concreto.

[Homem 01]  [cede um “beijinho” no rosto de Vega antes de partir]  "Valeu, puta. Te amo."  [sai do local e fecha a porta]

[Vega]  "....... Ashley..... você me PAGA ...."  [destila olhar de ódio e desprezo em sua face].


T    E   M   P   O      P    R    E    S    E    N    T    E


----[BOATE UNDERGROUND. SALA PRINCIPAL. 17H50 DA TARDE. DIVISÃO DOS LUCROS]----

Contente pelo serviço bem executado, a mulher, convicta de que poderia finalmente quitar a dívida deixada pela família substituta e “queimar” o contrato de adesão forçada, entrega para Ashley um minério do tamanho de um ovo de avestruz que acabara de produzir de seu próprio corpo. Alegremente descendo as escadas, a moça sorridente contava com um mínimo de bondade de sua algoz. A jovem corre até próximo à mulher, sentada de pernas cruzadas em uma das poltronas suspensas por energia mecânica, a fim de que pudesse surpreendê-la positivamente.

[Vega]  "Você não vai acreditar no que eu acabei de ganhar...!"  [empolgada]

[Ashley]  "Olha, está alegre hoje...!"  [surpresa]  "Conte-me, o que você tem de bom?"  [curiosa e contente, entrelaça os dedos de suas mãos embaixo de seu queixo].

[Vega]  "É a minha parte do trato da dívida..."  [retira o objeto de dentro de uma caixa de presente dourada]  "parece que o valor vai ser maior do que o esperado..."  [exibe semblante de orgulho] - "tadann...! Olha isso..."  [apresenta o minério].

        Ashley se surpreende com o tamanho da pedra que Vega havia produzido e o enorme brilho que emanava. A mulher se levanta da cadeira com os olhos fixos naquele objeto valioso que Vega tinha “parido” depois de alguns dias recolhida por conta do leve crescimento de seu ventre. Lentamente, a mulher pega o minério de sua serva e o analisa com um microscópio portátil que continha várias funcionalidades, dentre elas, a de certificar a falsidade ou a veracidade do objeto de valor. A líder da boate se encanta com a forma daquela pedra e o quão rara ela era em sua estrutura. A moça, cria que essa seria a sua chance de ser finalmente dispensada.

[Ashley]  "Fascinante...."  [admirada].

[Vega]  "O que significa...?"  [mãos para trás, olhar esperançoso, inclinar de membros superiores].

[Ashley]  [surpresa]  "Significa o quê?"  [confusa].

[Vega]  "Que eu vou poder ser liberada pra ir embora..."  [riso tímido, mãos unidas]  "Afinal de contas eu paguei a dívida, não paguei? Já posso ir pra casa, não posso?"  [semblante sorridente coberto por um olhar de tristeza] - "E a minha parte do dinheiro? Quando você vai poder pagar? Hein? Diz... [olhar de súplica, sorriso no rosto].

        Ashley, por alguns segundos, esboça um leve semblante de desprezo misturado à uma singela demonstração de raiva mascarada por um sorriso, o que é facilmente percebido por Vega. A chefa não aparentava mostrar vontade em cumprir honestamente com o "acordo" feito.

[Vega]  "Ashley..."  [a moça começa a ficar séria e larga os braços para baixo].

[Ashley]  "Já conversamos sobre isso, não já, sopro de voz?"  [rosto cínico].

Aquele olhar começa gradualmente a despertar desconfiança e ressentimento em Vega.

[Ashley] - "Hey...!"  [estala os dedos]  "Meu anjo! Esse dinheiro não é para a você e nem pra mim, é para a Central!"  [desvia o assunto e esboça orgulho]  "De onde você acha que veio a cobrança da dívida?"  [sai caminhando em direção circular pela sala]  "O SEU contrato só vai expirar mesmo daqui a cinco anos...!"

        Enquanto ludibria Vega, a chefa guarda o “ovo” em um belo lençol violeta aveludada, armazenando-o dentro de uma caixa dourada. A prisioneira se vê de mãos atadas, e é onde sua indignação começa a se aflorar.

[Vega]  "Não foi isso que você me disse no primeiro dia em que sequestrou..."  [desvio do olhar, rosto imóvel].

[Ashley]  "Mas você não leu as regras da Boate, meu amor? Todas as garotas que trabalham aqui precisam cumprir a quota de 05 anos antes de serem mandadas embora, e a DEPENDER do líder máximo, ele pode estender a validade de seu documento se entender que você é útil para a casa...!"  [faz sutis movimentos gestuais com os dedos, sentando-se em uma cadeira assimétrica vermelha rubi, de frente a uma mesa]  "Você mais do que nunca sabe disso, pois tem cidadania parcial..."  [lixa as unhas e cruza as pernas]  "E como sou sua tutelar, eu é quem decido sobre sua estadia aqui..." 

[Vega]  "E você fala isso de forma natural?"  [olhar indignado].

[Ashley]  [simula estar pasma]  "Meu bem...! Quando a Senhora resolveu entrar na área restrita da Central, você sabia muito bem que estava sendo visada pelos cafetões daqui...! Não foi o que sua antiga família falou? Hum?!"  [volta a lixar as unhas]  "Para NÃO andar sozinha a noite enquanto não for uma cidadã COMPLETA!"  [aponta para Vega, ainda com a lixa na mão].

        Vega exibe semblante de tristeza que vai emergindo juntamente com uma subliminar expressão de horror em sua face. A moça não acreditava no que estava lidando e no que acabara escutara de sua algoz.

[Ashley]  "E além do mais, sabe muito bem que quando uma família dá prejuízo em uma empresa, quem pagam são os herdeiros! A diferença é que os sucessores não podem pagar além da herança, já você..."  [inclina-se à frente da cadeira e exibe um sorriso]  "pode pagar infinitas vezes mais caro."  [namora as unhas]  "A sua família substituta me deu muito calote, e deu muito golpe em cima do líder máximo também..."  [fita Vega com a lixa na mão]  "e é por isso que o seu labor para nós é muito importante...!"  [sorri e guarda sua lixa enquanto se levanta da cadeira].

[Vega]  "Eles já não pagaram com a vida? E agora vocês querem me arrancar mais 05 anos de trabalho e ainda me tirar o MEU minério?"  [olhar de desespero e raiva].

[Ashley]  "NOSSO minério, meu amor, lembra do que eu disse?"  [saca da caixa dourada e a exibe com as mãos]  "Isso aqui tudo é da Central... e isso aqui vai nos beneficiar muito, porque todos os custos de saneamento, manutenção, limpeza, tecnologia, produção de comida, engenharia, design, armas, vestuário, vão TODOS serem pagos com essa LINDA pedra gigante que a Senhora produziu."  [sorriso expansivo, ressaltando o batom verde safira]  "E pode ter certeza que você será muito bem valorizada, E...!"  [ressalta]  "Recompensada pelo seu esforço e pela sua boa vontade..."  [movimentos opostos com a cabeça].

        Ashley sai caminhando para retirar café de uma máquina expressa, contente e satisfeita com o bolão que tinha tirado de Vega, já desolada com a falta de honestidade de sua chefa.

[Vega] - [olhar de decepção e desprezo] - "A minha vontade vale alguma coisa pra você, Ashley?"


+++++++[Manhunt Music - Born Again (Suspicious)]+++++++++++


[Ashley]  "Ownn...!"  [falsa compaixão]  "Minha gata egípcia...!"  [abraça Vega por trás, que já esboça fadiga e tristeza no olhar]  "Um pouco de sacrifício não vai tirar sua juventude..."  [passa o dedo indicador no nariz de Vega, com um sorriso no rosto]  "você ainda vai ter muito tempo pra viver, pode ter certeza. Sabe o que é melhor disso tudo? O contrato é indeterminado, mas não é perpétuo..."  [expressa suave negação com a cabeça enquanto fala próxima a seu rosto, com doce semblante de satisfação]  "quem sabe se você continuar cooperando com os nossos lucros, eu não faça uma bela surpresa pra você no futuro?" - [olhar fixo seguido de uma breve pausa].

Ashley cede um enorme beijo no rosto de Vega, seguido de um tapa em suas nádegas. A pobre moça estava completamente derrotada diante de sua condição castigante e cruel.

[Ashley]  "Adoro seu cheiro, sabia?!"  [empolgada]  "Tem cheiro de talquinho de neném..."  [se distancia de Vega e interrompe seus passos]  "Ah! E pode tirar uma semaninha de folga se quiser. Merece um mimo pelo bom trabalho..."  [manda um sinal de beijo com uma das mãos].

  Depois disso, Ashley sai caminhando pela sala sob pequenos saltos de alegria e movimentos circulares, exibindo seu exuberante cardigan com estampa tigrada e sapatos azuis claros de finos saltos de 15 centímetros. Vega, tonteada com a realidade que lhe foi imposta, sente pela primeira vez uma abissal ausência de esperança em seu peito. Próxima ao panorama, logo a frente da pujante janela de vidro, a mulher, já visivelmente exausta, avista um homem enchapelado coberto por um elegante casaco vinho, que mais parecia uma toga de duplo tecido de tamanhos diversos, com um belo laço floreado próximo ao tórax. O rapaz vigiava Vega por vários dias seguidos sem que fosse notado pela equipe de Dilworth. A moça, ao notar que o homem estava a assistindo, lembrou do apostador que tentou comprá-la por 500 milhões de dólares. Vega toca os dedos na janela com um ar de tristeza e súplica em sua face.

[Vega]  "Seja lá quem for que estiver olhando... me ajuda a sair daqui..."  [fita o homem, parado a alguns metros de Vega, longe o bastante para que fosse do tamanho de um “palito” na visão espacial humana]  "Jason..."  [negação com a cabeça e tristeza]  — "só espero que seja você..."  [a moça exibe um semblante de que parecia que iria chorar, mesmo não derramando uma única gota de lágrima em seu rosto].

Agoniada, mas resistente, Vega olha para cima seguido de um pequeno golpe de sua testa contra a parede da janela, deixando solta sua cabeça como uma forma de expressar o seu cansaço e a sua falta de perspectiva em sua fuga. Enquanto isso, o homem desconhecido assistia a bela moça de cabelos fartos, curtos e pretos, se lamentar pela sua prisão.

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|0 6    M  E  S  E  S    D  E    C  Á  R  C  E  R  E|

|P  L  A  N  O    D  E     F  U  G  A|

---------[00H40 DA MADRUGADA. POSTES ACESOS. CÂMERAS. VIZINHANÇA SILENCIOSA]-------

Vega, com sua mochila rosa em mãos e correndo pelos espaços por onde não eram captadas imagens, perpassava pela região circular próxima à Boate Underground como um labirinto sem prazo para término. Com sua cabeça e pescoço isolados com um capuz atrelado a um cropped cinza, na qual simulava uma Gaiola de Faraday, Vega tentava tirar alguma vantagem do bloqueio de sinal de seu dispositivo na nuca. Queria voltar quanto antes ao Hotel Bolha para retirar a tal praga de sua pele. Vestida com um biquini cinza luminescente com uma corrente prata na barriga, uma luva de metal renascentista, um short prateado de tecido lycra e botas meia cinzas que iam até acima das coxas, a moça havia acabado de sair de uma grande festa na Casa Noturna em que os visitantes estavam mais ocupados se entorpecendo do que atentos ao redor. 

Vega aproveitou o momento exato para distrair alguns seguranças antes de fugir, dopando-os a fim de tentar pegar a chave de acesso ao local por onde liga o servidor a todos os outros sistemas embarcados e fornece sinais de rede. Vega teve de comprar um cropped de sobrevivência com um capuz na qual impedia eletrochoques ou qualquer conexão com seu dispositivo para que pudesse cogitar a entrar pela porta. A roupa especial havia vindo de uma loja proscrita disfarçada de uma pizzaria por onde administravam os cinzeiros, os ditos traficantes de suplementos e materiais restritos pelo Estado.

        Como Ashley tinha posse da chave, Vega iria utilizar um de seus ossículos a fim de destrancar o local. No entanto, a moça percebe que o corredor estava sendo filmado, e as gravações geralmente permaneciam guardadas por pelo menos 10 meses ininterruptos. Não vendo resultado frutífero em sua empreitada, aposta simplesmente no bom e velho “hit and run”, saindo lentamente pelos corredores isolados da enorme construção e se esguiando pelos cantos das ruas escuras da Central para se desviar das filmagens.

Para sair da Boate, Vega foi até uma pequena sala isolada por onde eram descartado o lixo e abrigava o banheiro e vestuário dos auxiliares de limpeza, lugar por onde as filmagens não eram alcançadas. Desliga a luz e sobe pelo muro por onde se conecta ao mundo exterior por meio de uma pequena janela, descendo lentamente até ao piso marcado pelas sombras. Encostada à parede, a moça certifica quais câmeras haviam naquela região. Como eram pequenas e discretas, somente ela poderia vê-las por meio do foco natural vindo de seus olhos. Era uma habilidade natural da Transmorfo. Se desviando e serpenteando por todos as ruelas e becos daquele perímetro, Vega só queria escapar dali, não importa onde fosse parar. Sequer sabia por onde estava indo ou o que era aquele bairro, já que foi privada do mundo exterior por tanto tempo.

        À medida em que se desviava, permanecia coberta pelas sombras escuras por onde não batiam as luzes dos postes. Evitava destruí-los para não chamar atenção. Sempre encostada às paredes, a mulher silenciosamente checava por onde haviam câmeras e as suas rotações. Como os vigilantes estavam bebendo e transando, não iriam parar a diversão para caçar a fugitiva. Era  a grande comemoração pelos lucros da empresa e Vega foi dispensada para o seu quarto a fim de que dormisse sem precisar participar da festa. Como precisava se produzir para a esbórnia, a moça teve de improvisar entre a sensualidade e o plano de fuga com seu belo disfarce.

Rasteira, a moça percebe uma saída em um ambiente aberto lotado de câmeras e rastreadores. Com as armas que tinha, Vega diminui bruscamente a temperatura de seu corpo e muda as células de sua pele para uma variação que cega completamente as lentes dos aparelhos. Com isso, gradativamente, a moça percebe que pode caminhar entre os sistemas de vigilância sem nenhum obstáculo. O problema é que suas roupas não tinham as mesmas qualidades de sua pele, e as bizarras imagens de vestimentas "soltas" transitando pelas ruas puderam ser detectadas. Tudo, menos a identidade de quem as veste. Pouco antes de fugir, teve o cuidado de trocar suas vestes para um visual que até então nunca havia utilizado nos eventos promovidos pela Boate. Isso facilitaria a sua fuga de alguma forma. Avistando outra sombra e correndo aos poucos sem fazer barulho, a mulher se esconde por entre os cantos de um dos vários conjuntos enfileirados de casas de armazenamento de materiais de diversos gêneros. Todos destinados à Casa Noturna. 

O local não havia placas, identificação, fachadas, ou nem mesmo pinturas nos asfaltos com iluminações amareladas. Era infernal para quem quisesse uma direção de volta de onde veio. Nem mesmo os policiais conseguiam se deslocar por ali se não fosse por sinalizadores, memória visual, ou pelos próprios celulares geolocalizadores e mapas em revistas. Como Vega veio desmaiada até a Underground, só poderia fugir sem qualquer referência de saída, independente para qual lugar fosse. 

        A mulher tentava desesperadamente não correr para não alertar vizinhos das pequenas quitinetes e galerias comerciais, bem como não acionar detectores de movimentos espalhados aos montes pela região. Era um caos de casas de armazéns. Como queria sair da Central de alguma forma, apurou seus ouvidos e nariz a fim de identificar se haviam mais pessoas andando por aquele perímetro. Como não detectou qualquer movimentação, seguiu em frente, mas calmamente sem correr. Olhando para todos os lados para não pisar em nada barulhento, a moça foi caminhando cautelosamente por entre uma casa e outra, a fim de permanecer afastada das luzes.

Se distanciando finalmente daquela multidão de casas, Vega sai por uma via na qual era avistada uma calçada feita de estrada de terra isolada por uma barra de metal consistente, separando uma enorme rodovia onde não transitava um único passarinho sequer. O local era fantasmagórico. Nem pessoas caminhavam ali. Era tão isolado que até assustava Vega. Nem mendigos, ambulantes ou transeuntes passavam por ali. Somente os postes de luz amarela imperavam sobre aquela estrada de terra no meio da escuridão. Ainda lançando mão de temperatura corporal muito baixa e sua pele com proteção antidetectora, a mulher caminha receosa pela trilha terrosa, mantendo sua direção logo à sua direita para que pudesse encontrar uma saída para outro lugar. Sozinha e sem ninguém para guiá-la, só poderia contar com a sua própria sorte. Tomando a cautela de mascarar até mesmo o seu cheiro, Vega segue em frente pela vasta estrada de poeira sob as luzes dos postes. Até então, a moça consegue caminhar por alguns minutos sem transtornos.


---[LUZES BRANCAS DE LANTERNAS. MULTINDÃO DE PESSOAS]-----


Após longos minutos, algo muito longe de sua visão provocaum rompimento de sua paz. Uma multidão de pessoas com roupas e máscaras escuras aparecem de forma simultânea em um raio de 05 quilômetros. Vega consegue detectar o grupo e rapidamente se esconde debaixo de um porão por onde havia uma pequena abertura de vidro de entrada, em uma das casas que havia próximo dali. De janela aberta, foi relativamente fácil de se infiltrar. Com o local cheio de mofo e teias de aranha, Vega se refugia no canto próximo à janela por onde se encontrava algumas caixas. Como enxergava no escuro, não viu ninguém no mesmo recinto que ela. Queria aproveitar a oportunidade de se transformar e trocar as roupas, mas não podia dispensar o cropped por ainda estar com o dispositivo em sua nuca sob risco de rastreamento e disparo.


+++[Manhunt Game Soundtrack - Wrong Side of the Tracks (Green)]+++


Os estranhos se aproximavam do local por onde Vega estava, a deixando em estado de alerta. Podia ver através dos muros as movimentações no ambiente exterior por meio das temperaturas corporais dos passantes, quando não através de um mecanismo de visão similar a de um raio-X. Aos cochichos, aquelas pessoas pareciam estarem a procura de algo desaparecido, o que começa a assombrar a moça marcada como fugitiva. Sentada, Vega abraça-se em suas próprias pernas.

        Naquele estado de tensão, tudo em Vega poderia sumir a partir dali, menos a mochila em suas costas. Colocando as mãos atrás para verificar a sua corda de emergência, lembrou que a mochila poderia ser um identificador caso tivesse o rosto descoberto ou atraísse a atenção dos caçadores caso corresse dali. Dessa forma, a moça resolveu mudar apenas o rosto para uma feição desconhecida como forma de aprimorar o disfarce. Ainda que a considerassem como uma prostituta, provavelmente não iriam relacioná-la com a boate. Mas só provavelmente. Alterou também o timbre de sua voz para uma variação rouca e mais afinada. Como reforço, a mulher retirou uma máscara lisa cinza com leves traços luminescentes para tampar a boca e o nariz. 

        Já distantes do local de onde Vega se escondera, a moça sai novamente pela janela com cautela para fazer o mínimo de barulho possível. Ainda com o disfarce, mas sem garantia, a moça anda ansiosamente em passos largos para sair dali o mais depressa que pudesse. Olhando brevemente para trás, percebe que voltou novamente a ficar isolada na estrada de terra.

Querendo cortar caminho para outro lugar, Vega adentra uma das ruelas por onde novamente acessa a estrada asfáltica que separa as casas de armazéns enumeradas. Com um pouco de pressa, a mulher começa gradualmente a correr para que encontrasse uma saída daquele setor horrível e caótico. Vega não tinha noção, mas ela foi levada para muito distante de onde foi capturada, por no mínimo uns 50 minutos dali.

        Quando finalmente se distancia, as luzes desaparecem e o local fica cada vez mais escuro. Ansiosa, mas sem perder a camuflagem, muda o seu andar para um tom mais ameno quando avista um carro escuro se aproximar na sua direção. Os passageiros olham brevemente para Vega e seguem seu caminho em frente. A moça segue rumo a um singelo posto de gasolina, cuja luz branca era a única que poderia enxergar. Ansiosa para beber água, Vega não pensa duas vezes na hora de entrar na pequena loja de conveniências. Caminhando com suas mãos agarradas em seu capuz, a fugitiva checa a região a fim de detectar anormalidades e movimentações. Quando finalmente se tranquiliza, a Transmorfo começa a entrar no estabelecimento. Para a sua desgraça, um alarme barulhento é acionado sem que Vega percebesse. Por esbarrar acidentalmente em um cordão invisível com um de seus pés, este foi responsável pelo disparo. 


------[PISCAR DE LUZES. SONS ECOANDO TODO O SETOR. ESTADO DE ALERTA]----


        A mulher logo se assusta e abandona a loja de conveniências, voltando a suas feições normais e correndo em disparada como quem performa a velocidade de um leopardo em ritmo de caça. A moça desaparece em meio às sombras e pequenos raios de luz começam a se espalhar a quilômetros dali. Eram lanternas. Tendo despertado a atenção de toda a região, a moça começa a ser rapidamente procurada pelos aclives gramados laterais ao asfalto escuro. Sendo muito forte e veloz, os atiradores de elite escondidos em altos pontos de torres estratégicas detectam Vega e passam a desferir centenas de rajadas de tiros que esbarram próximos aos seus pés. Era a forma padrão de contenção de SH's. A ordem, era não matá-la, e sim, pará-la.

        Um dos franco-atiradores, consegue acertar Vega com 50 balas de uma submetralhadora de baixo para cima, seja pelas pernas, mochila, costas e cabeça da mulher. As pontadas dos tiros faz com que Vega projete o corpo para frente solte gritos similares a de um apito ensurdecedor. Sentindo os projéteis perfurarem suas roupas, a mulher, com medo de ter seu cropped destruído, adentra a área vegetativa por onde os vigilantes não poderiam encontrá-la e permanece correndo a fim de preservar suas roupas. Apesar dos tiros, a mochila estava milagrosamente intacta das balas.

A moça pula para dentro de um afundamento gramado similar a uma cova e observa a movimentação dos guardas. Atentos a possibilidade de terem suas armas tomadas, logo são alertados pelos rádios para que ativassem o modo “administrador root” dos armamentos, que são travados caso as armas parem em mãos que não a de seus usuários principais.

[Franco 01]  "Acionem a trava. Cuidado pra não facilitar ela tomar da mão de um."  [diz a voz nos rádios transceptores].

[Vega]  "Ssshhhh... Merda...!"  [fica aborrecida].

[Franco 02]  "Foquem no capuz. Câmbio".

Sem muitas opções, Vega olha para um de seus dedos e projeta um finíssimo e afiado ossículo duro da ponta de seu indicador. Ao sentir que um dos vigilantes se aproximava de Vega, percebe que era uma mulher de cabelo ruivo trançado, de uniforme em tons de verde e areia. A mulher usava óculos de visão noturna e mantinha a luz de sua arma apagada para evitar que seu alvo fugisse. Sem a menor piedade, Vega se aproveita da falha do campo de visão da soldado e dispara um de seus ossos diretamente no pescoço da mulher, fazendo com que ela pressione o gatilho, efetuando milhares de tiros de uma única vez.

        Os tiros não só despertam o alerta nos outros colegas como também acertam 20 atiradores de forma aleatória, causando uma enorme confusão entre os vigilantes. Sete deles até caem do alto de seus postos, se ferindo gravemente e apagando instantaneamente ao caírem ao solo. Vega tira proveito e foge do local em alta velocidade. Muito ferida, a soldado retira o ossículo de seu pescoço na marra e levanta-se com ódio na alma para caçar Vega. Sabendo que seu alvo tinha vantagem na corrida, aciona um controle na qual tranca todos os gigantescos portões e ativam eletricidade em suas paredes.

[Soldado Ruiva]  "Vê se corre disso agora, aberração...!"

Sofrendo vários disparos vindos de todos os cantos, um dos franco-atiradores escondido, uma mulher de cabelos pretos amarrados, acerta um tiro que descobre o capuz de Vega, e outro, que acerta seu tornozelo, fazendo a moça quase escorregar no asfalto. Aproveitando a oportunidade para neutralizar a Transmorfo, um homem alto e atlético de terno rapidamente se aproxima de Vega em alta velocidade para, inicialmente, tentar lhe agarrar pelas costas. Sem sucesso por ser uma fugitiva escorregadia, o vigilante propositalmente lhe dá um esbarrão com um de seus braços, fazendo com que a moça quase se desequilibrasse, mas não a impedisse de correr. 

        Sem conhecer a força de Vega, o homem subitamente toma um enorme sopapo no rosto pela mão de luva metálica da moça, o que o faz cair rodando para trás com o rosto todo ensanguentado. Percebendo que os portões haviam se fechado e a eletricidade de alta tensão havia sido acionada pela moça que feriu, Vega interrompe sua corrida e fica sem alternativas de por onde deveria escapar. Com muito ódio, a mulher ruiva de quem havia atingido no pescoço, acerta Vega com toda força em sua cabeça com a parte traseira de sua submetralhadora antes que a Transmorfo pudesse olhar para trás, deixando-a levemente tonta e de olhos revirados.

Sem piedade, a soldado saca Vega pelo capuz e a arremessa para longe como uma boneca de pano, colidindo fortemente com várias estruturas metálicas rígidas que a fazem ricochetear e cair em um precipício rumo ao piso. Sua mochila, também termina separada de seu corpo e caindo no abismo de estruturas metálicas. A soldado ruiva pula do alto de 300 metros até onde Vega estava e aterrissa ao chão, mostrando possuir resistência a quedas e impactos. Nem mesmo seu pescoço estava mais marcado pelo ferimento que sofreu. Vega logo se recupera de seu breve transe e pisoteia o joelho da soldado a fim de destroncá-lo.

        A ruiva por sua vez conserta seu joelho e acerta as partes íntimas de Vega, usando novamente de sua arma pesada como instrumento para que pudesse humilhá-la, o que a faz soltar um rápido grito de dor. Como forma de brutalizá-la, a soldado prensa suas mãos contra a garganta da Transmorfo a fim de que pudesse erguê-la. Sem sucesso ao agarrar Vega pelo pescoço e levantá-la para o alto, a vítima gruda rapidamente suas mãos contra os cabelos da mulher, fazendo com que a soldado solte a fugitiva e ambas caiam ao solo para que Vega pudesse tentar sair daquela situação. A ruiva, não conseguisse de forma alguma se desvencilhar do agarrão de Vega.

Tentando de múltiplas formas fazer com que a Transmorfo soltasse os cabelos da soldado, a ruiva acerta desesperadamente vários socos em Vega, disparando dezenas de rajadas de tiros em seu abdômen, e atpe mesmo tentando perfurá-la uma série de vezes em sua costela com um canivete, tentando inclusive, espremer seus olhos como um limão. Todas as investidas foram feitas sem sucesso para lesionar a Transmorfo. Como Vega tinha força extrema, a mulher percebeu que não seria párea para a fugitiva que lutava, pois esta já havia atingido sua potência máxima de viço. Este, era momento em que a mulher se torna altamente letal para qualquer coisa que ameace a sua integridade. A tragédia da soldado já estava anunciada.

        Como forma de mostrar sua crueldade, Vega, sob expressão de ódio, cruza suas duas pernas entre o pescoço da soldado e força brutalmente o pescoço da mulher contra si mesma através de seus cabelos, causando-lhe uma fatal lesão que rompe definitivamente sua espinha cervical. O estrago foi feito de maneira que até mesmo um estranho barulho é feito ao se romper os ligamentos da mulher. O feito, aparentemente mata a soldado ruiva de forma instantânea, sequer dando tempo para que vítima pudesse suplicar ou agonizar. Descruzando as penas e jogando o corpo para o lado, Vega se levanta e parte como se nada tivesse acontecido, pega sua mochila presa a uma das estruturas de ferro e sobe pelas rampas metálicas de onde fora arremessada.

Ao subir de volta de onde parou, outra vigilante tenta apostar em um forte chute no rosto de Vega que a faz cair ao chão com sua mochila nas costas. Pega de surpresa, a agressora tenta tirar proveito da breve vulnerabilidade da moça. Enganchada pelo pescoço pela mulher de cabelos castanhos e olhos verdes através de suas coxas, Vega separa as pernas da mulher com suas suas mãos com muita tranquilidade e as vira junto com seu corpo para que pudesse rapidamente puxá-la para junto e agarrar sua cabeça através de seus cabelos a fim de colidi-la contra o piso quatro vezes, fazendo a vigilante desmaiar e ter seu nariz e testa gravemente lesionados.

[Vega]  [golpeia o rosto da mulher ao chão]  "TÁ ACHANDO QUE TÁ LIDANDO COM QUEM?!"  [golpeia novamente o rosto da mulher contra o solo]  "VAGABUNDA!"  [grita no ouvido da mulher antes de ceder os últimos dois golpes que culminam com seu desmaio].

Saindo de cima da mulher e caminhando caminhando à frente, logo desfere um forte chute cruzado no peito de um dos homens que estavam correndo em direção a Vega para acertá-la com uma barra de ferro, neutralizando-o de imediato. Ao correr de volta em direção ao muro, uma mulher de terno surge de rompante agarrando bruscamente o cropped de Vega, fazendo com que as duas, perseguidora e fugitiva, girassem grudadas uma à outra por várias vezes seguidas.

[Vigilante Feminina]  "Tira esse cropped, vadia...!"  [segura a fugitiva].

        Na décima vez em que giravam uma em torno uma da outra, Vega ativa sua força para rodar a mulher e a lança fortemente contra a parede lateral, terminado por machucá-la de forma considerável. Objetos frágeis são rompidos com o impacto e a mulher agoniza de dor enquanto Vega ajeita seu capuz para voltar a seguir em frente. Sem a menor paciência, a mulher fecha ainda mais o seu capuz e caminha em direção aos portões metálicos de alta tensão. Aos tiros de rajada, a mulher retira sua luva metálica, joga para o alto e pula para subir a estrutura metálica na base da força bruta. Mesmo sendo constantemente eletrocutada e sofrendo vários “panes” que a fizessem apagar por milésimos de segundo, a Transmorfo continuava persistindo na subida usando toda a musculatura de seu corpo.

        Sob milhares de tiros de fuzis e submetralhadoras que faziam diversas perfurações em suas roupas, a mulher grudava suas mãos à parede elétrica e se agarrava como um felino se engancha sobre as pedras subir aos muros na base do puro ódio. Com tremeliques em um dos olhos e breves tremores no corpo devido às descargas elétricas, Vega exprime ainda mais ira a cada vez que tentava subir pelas paredes, e mais insistência demonstrava para à medida em que era entupida de balas. Estava disposta a cumprir sua missão mesmo sob um avalanche de projéteis. Quando estava prestes a concluir a subida e passar para o outro lado do muro, três dos vigilantes a surpreende disparando uma enorme rede de captura vinda de um lançador sobre a mulher, a fim de puxá-la novamente para o solo.

Mesmo agarrada pela rede e sendo frequentemente eletrocutada e atingida com as munições, Vega continuava progredindo em sua passagem para o outro lado do Portão. Os atiradores minavam Vega como se estivessem lidando com um estande de tiro vivo, e os projéteis, a acertavam em cheio por todas as partes de seu corpo. Mesmo coberta pela rede de pesca, continuou apelando para sair dali. Quando metade de seu corpo já estava para além dos muros, foi brutalmente puxada para o sentido contrário, fazendo-a cair novamente para trás das paredes elétricas. 

        Sendo puxada vários metros pela rede e cercada de vários vigilantes, franco-atiradores se amontoam para próximo de Vega e acionam os aparelhos eletrochoques de seus armamentos para dispararem contra a Transmorfo. Dez armas foram descarregadas contra a mulher ao mesmo tempo, que só podia se defender com seus braços enquanto tentava manter seu cropped protegido, já bastante perfurado pelas balas. Seu short, estava quase rasgando por completo, restando apenas o biquíni por debaixo. Mesmo levando vários disparos de choques, Vega chuta a canela de um dos homens e puxa o tornozelo de outro para desequilibrá-lo, aproveitando a deixa para romper a rede à força e empurrar violentamente três homens que estavam em sua frente.

Correndo em disparada para próximo ao muro enquanto era perseguida pelos outros vigilantes, um dos carrascos chega a puxar o short prateado de Vega, rasgando-o por completo e escorregando ao chão na tentativa de pará-la. Depois de tropeçar, o homem mira o armamento pesado para a nuca de Vega para que fizesse um buraco bom o suficiente para ativar o eletrochoque. Com alto reflexo, a mulher consegue se desviar do tiro e continua persistentemente a correr. Vega aposta em saltar para o outro lado das paredes de metal sem precisar tocá-las. 

        Quando majestosamente salta para bem alto, a moça finalmente sente estar próxima de ser livrada de seus carrascos. De braços horizontalmente estendidos e impressionantes 10 metros acima do muro metálico, a luz branca dos postes ressaltava o seu reflexo sobre o solo e a beleza do mar, pouco logo à sua frente. A claridade lunar também destacava as curvas de seu corpo, que por fim, parecia ter se libertado de sua prisão. No entanto, ainda no ponto mais alto de seu pulo, o capuz de Vega se projeta para trás, o que faz com que os detectores invisíveis conectados ao dispositivo no seu pescoço disparem o aparelho em sua nuca, fazendo a moça desmaiar mais uma vez com o eletrochoque, caindo e colidindo em círculos no piso do outro lado das paredes do muro de metal, já completamente desacordada.

Tristemente, Vega tentara mais uma em vão, fugir do Inferno que a aprisionava todos os dias. Somente de biquíni e com menos da metade de suas botas, seu cropped terminou sendo destruído, e a mulher voltou à estaca zero. Fez pelo menos doze feridos e uma morte, mas sem nenhum sucesso. Mais uma vez, foi novamente capturada. Tudo seria diferente se não fosse pelo seu maldito pescoço...



                    .....E a mochila ainda estava intacta...

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--[RESULTADO DOS ESTRAGOS. RELATÓRIO DE CAPTURA.SOLITÁRIA]--


Uma pequena luz laranja ilumina o piso de concreto escuro, cheio de sujeira, cabelos, pedaços de papel e cigarro. Em cima de colchão velho, Vega estava deitada como se tivesse dado por vencida, de braços, pernas e mãos encolhidos. Usava um vestido de  tecido fino e bege, de manga curta e busto quadrado que deixava com pernas nuas. Com uma corrente dourada em um dos pés e um pequeno bracelete de ouro em uma das mãos, a mulher foi deixada para ficar dias sem acesso a água ou comida, logo após a sua captura. O local abafado e insalubre fez Vega sentir falta do salão por onde era obrigada realizar movimentos de pole dance a fim de impressionar os convidados. Lembrava de seu telefonema com Magal todos os dias. 

[Ashley]  "Que vergonhoso... a melhor soldado foi morta dessa forma? E nenhum de vocês acertaram a nuca daquela vadia??"  [refere-se a Vega, presa em um recinto por trás de uma porta de metal massiva].

[Vigilante]  "A mulher está internada em estado grave, mas não morta. Ela tem chances de se recuperar por ser suplementada."

[Ashley]  "Foram quantos abatidos?"  [aborrecida].

[Vigilante]  "Foram 11 feridos e um entre a vida e a morte, todos em UTI para recuperação..."

[Ashley]  "Que lástima...."  [agitada e aborrecida, andando de um lado para o outro].

[Vigilante]  "O que quer que eu faça em relação a Vega?"

[Ashley]  [olhar fixo de raiva] - "Reforce os dispositivos e atualize o software! Quero eles ainda mais sensíveis!"  [impaciente]  "E chame um técnico de T.I que preste..." - [estala os dedos].

[Vigilante]  "Sim, Senhora..."  [parte em retirada].

[Ashley]  [olha para a cela onde estava Vega em silêncio]  "Sua dívida agora vai pra 1000 anos, sua cadela...! Quando eu não estiver aqui na Terra, VOCÊ vai continuar trabalhando pras minhas futuras gerações!"  [sai caminhando pelo corredor de saída enquanto aponta o dedo em direção à Vega, que mostra-se apática].

.

.

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Tempos sombrios. Tempos sórdidos. Só havia naquela cela uma única privada, uma lâmpada e um monte de rabiscos e pinturas improvisadas nas paredes. Como não havia lápis, Vega usada a ponta de seus dedos para deslisar o sangue pelos muros de sua cela. Na parede, havia uma pequena abertura com pequenas grades as quais pareciam ligar indiretamente ao esgoto. Para atrair algum bicho, Vega estimulava um de seus dentes para “estourar” e ser jogado para fora sem que precisasse tocar na sua boca. O dente se rompia de forma bizarra para liberar sangue e era eliminado para o mundo exterior, nascendo imediatamente um dente novo em folha no lugar.

Com sede e cada vez mais abatida, Vega teve como penalidade, 10 dias da mais profunda solitária. Sem banho, sem higiene, sem água, sem comida, sem distrações, sem ver a luz do sol, e sem passar um único minuto sem que a lâmpada estivesse bem acesa em seu rosto. Só não a deixaram por mais tempo porque precisavam de sua força e trabalho e sua beleza. Não tinha espaço para reciclar seu material orgânico e não havia produto de limpeza. Por sorte, a descarga ainda funcionava por milagre. A água da privada era absorvida pela pele das mãos de Vega para que a Transmorfo não ficasse completamente privada de se hidratar. E para comer, tinha de atrair algum animal roedor para que pudesse matá-lo com seu ossículo e assá-lo com o calor produzido se seu corpo. 

        Por vezes, usava de seus ossos extraídos de seu ombro para raspá-lo a fim de extrair o valioso tutano, que lhe servia como alimento. Usava do calor da lâmpada para “ascender” um fogo da ponta de seus dedos para queimar os ossos e montar uma fogueira improvisada. Vega descobriu em pouco tempo de sua estadia, que poderia produzir uma saliva com capacidades inflamáveis e curativas. Produzia uma substância aderente de suas mãos para subir pelas paredes. Para não pisar no chão imundo, produzia uma grande quantidade de pele para simular “sapatos meia” que mantivesse seus pés totalmente cobertos. Quando alguns passarinhos chocavam alguns ovos próximo a uma pequenina janela, Vega utilizava seus olhos para identificar seu conteúdo interno, e pegava algumas unidades a fim de aquecê-las, descascá-las e comê-las. Tomava até uns sopapos voadores dos passarinhos por ter invadido alguns de seus ninhos. Achava aquilo adorável apesar das represálias. Aquela prisão era um calabouço por onde os traidores e fugitivos eram punidos e descartados. Tempos Sombrios. Tempos sórdidos.

[Vega]  "Jason.... eu sei que você está me vigiando de algum lugar.... eu sinto o seu perfume. Eu sinto a frequência magnética do seu telefone... seja onde estiver, faça alguma coisa...."  [suplica a mulher, seguido de longa pausa de silêncio].


               ".... Me ajude a sair daqui..."  [tristeza].

                 


T   E   M   P   O      P   R   E   S   E   N   T   E

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[QUARTO COLETIVO PARA MODELOS. PÓS LEILÃO. DEMISSÃO COLETIVA]


[Mulher 01] — "Do jeito que tá, a gente vai ser despachada rapidinho...."  [troca de roupa].

[Mulher 02]  "Não dá nem mais vontade de se arrumar, sabia?"  [decepção desilusão, jogando as roupas dentro de um enorme balde]  "Eu tô tão cansada do cinismo da Ashley, cara.... como é que ela boicota a gente desse jeito??"  [insatisfeita].

[Mulher 03]  "Eu já tô caçando de ir embora daqui."  [diz a moça negra sentada na cama]  "Sério, gente, e essa Vega? A mulher pegou TODOS os nossos clientes....! Tá impossível trabalhar aqui...!"  [sussurra alto].

Todas concordam em silêncio.

[Mulher 04]  "Não...!"  [pausa]  "Sem querer puxar sardinha pra ela, mas... cara...! O mais foda é que a menina é realmente um escândalo de linda, eu nunca vi nada IGUAL na minha vida...!"  [gesticula com sinal de “OK” na horizontal]  "Só que a Ashley SABE que os caras vão preferir escolher ela do que nós...!"  [solta as mãos contra os quadris].

[Mulher 05]  "O nome dela não era Jurema?"  [confusa].

[Mulher 02]  "Sei lá qual o nome daquela aberração..."  [gesticula com a mão de baixo para cima] — "um dia é Jurema, outro dia é Stacy, é Vega, é Anastásia, é o caralho que a PARTA...!"  [irritação e indignação enquanto tira os sapatos sentada na cama].

[Mulher 03]  "Tu detesta ela, né "fia"? "  [sorriso de graça].

[Mulher 05]  "Sei lá, gente, eu sei que é párea falar isso, mas se a mulher tem a fama que tem, é porque ela está lá por merecer, né...."  [levanta os ombros e exibe conformismo].

[Mulher 01]  "É, mas a Ashley também não precisa humilhar a gente, né? Se estamos aqui é porque nós todas ralamos pra chegar onde chegamos..."  [nega com a cabeça e gesticula girando um dos indicadores em torno de si].

[Mulher 02]  "Merecimento sou eu, que me mato de fazer dieta pra manter o corpo em dia e passei a vida inteira à base de maçã e água pra perder peso....! Só me fodi pra tirar estria, celulite, gordura localizada, treinar, passar fome... sofri assédio na escola, depressão, fiquei na merda, tive que me mudar..."  [indignada]  "Essa daí nunca precisou fazer PORRA nenhuma pra ficar bonita!"  [contesta].

[Mulher 03]  "Ai, amiga... não precisa ficar assim também... sai desse baixo astral, vai..."  [abraça a mulher e mostra compaixão pela amiga].

[Mulher 02]  "Te adoro, amiga..."  [alegria genuína].

[Mulher 04]  "Eu só acho o seguinte: se é pra colocar Vega pra ser leiloada junto com as meninas, então porque não colocam ela pra disputar com as SH’s?"  [aponta o polegar para trás].

[Mulher 01]  "Por que a mulher produz minério e tem sangue Multiuniversal ...!"  [exibe lateralmente ambos os braços]  " “Cês” não viram que a menina é um Transmorfo? Quanto mais ela produz, mais ela dá dinheiro pra vagabunda da Ashley...!" 

        Todas concordam simultaneamente com a colega.

[Mulher 05]  "Gente, desculpa minha ignorância, mas o quê que é Transmorfo...?"  [cara de lerda sorridente]  "E esse negócio de sangue... "Multiuniversal"..."  [feição de tola confusa e cerveja na mão].

[Mulher 04]  "Transmorfo é..."  [pausa, estala os dedos para o raciocínio]  "é gente que se transforma em homem e mulher de forma instantânea, tipo, uma coisa bizarra, saca?"  [expressão de surpresa]  "E falam também que o sangue dela é da onde tira o suplemento que o povo usa pra ficar jovem e com saúde..."  [balança positivamente a cabeça de forma gradual].

[Mulher 03]  "Cacete, aquele trem ali vira homem?? “Cê” tá louco..."  [estranheza].

[Mulher 05]  "Sério isso, mano?"  [feição de repulsa]  "E onde é que viram ela virar um homem gente?"  [confusa].

[Três ao mesmo tempo]  "NO SALÃO...!"

[Mulher 01]  "Lá no salão, menina! Todo sábado botam ela pra virar homem pra fazer a função de garçom lá no balcão, tu não viu não??"  [sorri].

[Mulher 05]  "Nossa, gente..."  [pausa]  "NOOOOSSA, agora lembreeeii....! Que coisa bizarra, cara...! MANO, QUE HORROR...!"  [feição sorridente de surpresa].

       Todas começam a rir.

[Mulher 04]  "Menina, queria falar não, mas ele na forma masculina é gato demais, "véi"... eu fico observando os looks deles, ow...!Um espetáculo..." — [une os dedos das mãos e faz sinal de beijo próximo à boca].

[Mulher 03]  "Tu teria coragem?"  [estranheza].

[Mulher 04]  "Hein? De quê?"

[Mulher 03]  "De ir pra cama com ele?"

[Mulher 04]  "Eu iria, na moral...! Ia até descolar uma graninha e uns "contatinho" dele...!"  [sorriso devasso].

        Todas as outras mulheres reagem com repulsa e estranheza em tom de brincadeiras.

[Mulher 03]  "Fia do céu, eu não sei seu ia conseguir trepar com um homem que até ontem era mulher não, “cê” tá é doido...!" — [mostra-se espantada].

[Mulher 02]  "Eu tenho é NOJO dela e daquelas SH’s que anda junto com ela. Eu acho ela muito invasiva, uma intrusa, sabe?"  [feição de repulsa]  "A menina parece que não tem uma identidade, cara...! Rouba todo o protagonismo das pessoas sem precisar fazer nenhum esforço..."  [sob indignação, guarda seus pertences pessoais]  "ela e a Ashley é assim, óh...!"  [desliza dois dedos indicadores unidos].

[Mulher 03]  "Mas tadinha também, né gente... ela tá sendo mantida aqui na obrigação, porque todo dia eu escuto ela reclamar que a Ashley não libera ela do contrato..."  [ponderada].

[Mulher 01]  "Pois é... agora nos resta saber se o NOSSO contrato vai ter fim..."  [pontua com o dedo esmaltado e cruza os braços]  "Meu maior medo é esse..."

[Mulher 03]  "O meu também menina..."  [leve temor]  "Tô louquinha pra sair daqui, pegar meu dinheiro e fazer um concurso fora daqui, porque eu vou te falar.... não dá não..."  [nega com a cabeça].

        Uma leve tensão se alastra entre os corações das meninas.

[Mulher 04]  "Também não tô a fim de ser feita de escrava mais aqui não... tá foda... a gente trabalha, trabalha, trabalha e é só pisoteada, é impossível viver assim..." — [gesticula].

[Mulher 05]  "Ow, galera, me chama, também quero sair daqui porque até agora eu não pude ver nem meus pais, nem meus irmãos, ou mesmo meus primos..."  [melancolia e desânimo]  "fiquei três natais sem visitar ninguém, cara, ow, isso é muita sacanagem, na moral..."

[Mulher 01]  "Eu vou é pegar meu dinheiro, comprar um trailer e montar uma empresa só minha. Não quero depender mais de chefe não, Deus me livre..."  [olhar de negação].

[Mulher 02]  "Só sei que enquanto essas SH’s continuarem tomando nosso espaço, eu não vou fazer N A D A..."  [gesticula com os dedos de uma das mãos]  "não vou mais trabalhar...! Vou ficar SÓ por conta de: fazer unha, cabelo e maquiagem... Pronto!"  [guarda mais objetos]  "Eu tô CANSADA de ser desvalorizada, porque eu não sou nenhuma baranga pra ser humilhada dessa forma..."  [aponta para si].

[Mulher 03]  "Nem baranga merece isso, né "fia"...?"  [sorriso com leve compaixão e desânimo].

[Mulher 05]  "Éh..."  [desânimo e reflexão].

A garrafa de cerveja nas mãos de uma das modelos já havia até mesmo perdido seu frescor e sua espuma. Estava quente e sem graça, morta e sem sabor, tal qual como o cenário de desânimo e temor pelo futuro na qual se encontravam aquelas moças. Prostituídas, tristes e vulneráveis, mal sabiam que estavam sendo escutadas secretamente por um dos seguranças da Boate. A informação seria repassada para a chefe do estabelecimento. O Inferno estava muito longe de terminar.

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  +++++++++[ S Y Z Y G Y X - Dangerous Creature]++++++++++


         Enquanto a lua se deslizava pelos céus, Vega já tinha desfrutado toda uma noite com o homem russo que a escolheu para ser sua Rainha naquela prisão. O homem atlético, alto, branco, e de cabelos pretos, a lambia, a roçava, a deixavam arrepiada até o último fio de sua existência. Não hesitava em colocar os seus dedos para dançar pelos pontos erógenos de Vega, vandalizando inclusive sua vagina com constantes movimentações que fazia a moça estremecer antes mesmo que pudesse colocá-la por entre os cobertores. O homem a abraçava, a prendia suas pernas, beijando-a e a penetrando com toda a intensidade a ponto de fazê-la chegar ao clímax por dez vezes seguidas. O amante não desperdiçava as chances de amassar os seios de Vega e explorar seu clitóris ao máximo, a colocava para cavalgar fortemente sobre seu espesso falo enquanto inundava a mulher com enormes quantias de seu líquido quente.

        Já quase sem voz, Vega tinha constantes tremores e espasmos que deixavam o homem ainda mais encantado por ela. Mesmo diante do ápice do prazer, o homem não se via plenamente satisfeito. Seu desejo era indomável como um búfalo, e Vega acompanhava perfeitamente o ritmo de sua paixão. Com os dedos lameados de seu fluido dentro de seus belos lábios de Vega, este a puxa para um longo beijo pela qual as bocas se adereçavam como fortes velcros. O homem perpassava as suas mãos nas doces nádegas da mulher, que mais pareciam terem sidas esculpidas em porcelana de tão lisas e brilhantes.

        Como ato final de seu ritual lascivo daquela noite incandescente, o homem, já fadigado de amor, permanece posicionado debaixo de Vega para que pudesse assistir a Transmorfo reverenciá-lo com sua última demonstração de agradecimento. Um dos insumos mais valiosos e procurados por ele estavam nos pulsos da moça. Abrindo uma singela abertura de sua pele de forma instantânea, Vega destila uma grande quantidade imoral de sangue sobre o rosto, peito e abdômen de seu affair, fazendo com que o homem entrasse no mais profundo transe e se mostrasse imensamente fascinado com o que via. Para ele, era como receber um batismo. Com a cama e o quarto afundados em quantidades grosseiras do fluido corporal de Vega, o homem, já entorpecido pela moça, saca de seu pulso para que pudesse beber mais do sangue que estava a jorrar sobre si. Satisfeita e extasiada, a mulher observa seu amante ingerindo seu líquido vital como um bebê implora pelo seio da mãe.

        Encharcado de sangue e agradado com a quantidade de líquido que havia consumido, o apostador carinhosamente posiciona Vega novamente para a posição deitada e a consome por completo, em movimentos de sucção que a percorria levianamente de seus lábios até os seus pés. No final, a única cena que restou naquela noite eram os quadris de Vega sendo firmemente abraçados pelo homem para que o mesmo a lambuzasse seu rosto por inteiro por entre suas pernas. O ato estava sendo compulsoriamente gravado e reproduzido a fim de ser comercializado por outros clientes da Casa Noturna.



.....................D I A   S E G U I N T E >>>>



        Abraçados em posição lateral e com a cama inundada de sangue suor e fluidos, o cliente da casa colocava a mulher para junto de si como se fosse um bicho de pelúcia. Ouvindo um estranho barulho que lembra pequeninos "roncos" produzidos por Vega, o homem abre os olhos como quem tivesse sido um súbito despertar e fita Vega, já assustado com o que presenciava.

[Homem] — "Você ronrona...?" — [surpreso].

        A Dama desperta lentamente de seu sono e deixa escapar um leve ronronado mesclado a um bocejo e esticar de braços e pernas:

[Vega] — "Hum ...Quê...?" — [feição manhosa].

[Homem] — "Eu ouvi um ronronado..." — [leve sorriso] — "você ronrona?" - [curioso].

[Vega] — "Sim, eu produzo esse ronronado..." — [a moça cede um leve sorriso, se ajeita em posição lateral, de cabeça apoiada sobre a mão e o braço sobre o travesseiro] — "Eu também sei amassar pão..." — [chamega].

        O homem cede deliciosos risos de quase cair de cabeça no travesseiro diante da comparação da moça, ficando ainda mais admirado com seus dotes.

[Homem] - "..." — [sorriso genuíno] — "Casa comigo, minha gata egípcia..." — [beija a mão ensanguentada de Vega].

[Vega] — "Se me mimar assim todas as noites, quem sabe você não me convence..." — [sorriso cativante].

        Os dois se encaram apaixonadamente por alguns segundos, a ponto dos olhares mútuos provocarem uma gradual simpatia e admiração um pelo outro. Floresce uma linda atração entre os dois. A troca era justa, e o preço não era caro de se pagar. O plano de Vega era esse: fugir de Dilworth através de venda ou de um casamento planejado com algum dos membros das poderosas elites que frequentava o estabelecimento. Era um felizes para sempre enquanto durar. Era amor enquanto perdurar a paixão. Mas apesar do plano perfeito, Ashley jamais facilitaria a venda, transferência de tutela ou casamento com Vega. A moça infelizmente era o seu ninho de ovos de ouro sem prazo para findar. A Transmorfo, produzida para ser uma altíssima fonte de força, riqueza e resistência, era quase uma arma bélica e um escudo de defesa incrivelmente indestrutível. Dilworth era uma mulher perversa, mas não tola. Ela jamais cederia Vega a não ser que conseguisse uma criatura ainda mais sofisticada do que ela.


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[20h25 DA NOITE. CONVERSA PRIVADA. NEGOCIAÇÃO. TENTATIVA DE ALFORRIA E CASAMENTO PLANEJADO].


[Ashley] — "Sabemos o quanto o Senhor se encantou profundamente por Vega... de fato, a moça desperta até os corações mais gélidos, mas infelizmente Vega não está à venda e nem pode ser transferida, tão pouco constituir casamento." — [feição resistente, mas simpática] — "Ela tem pacto de total exclusividade com a Casa Noturna, além disso, ela não é Cidadã completa, então não pode ter autonomia..." - [feição meiga e debochada].

[Homem] — "Não há outra forma de negociar a saída da moça? Ela pode continuar produzindo minérios para a empresa. Olha, façamos o seguinte: pelo contrato, eu tomo posse dela, mas os minérios ficam de propriedade da Boate..." — [tenta barganhar] — "afinal de contas, eu já tenho todo o dinheiro que preciso. Eu levo ela comigo e você fica com a pedra. Dessa forma, ninguém sai perdendo..." — [suave gesticular de mãos enquanto Ashley finge entender].

[Ashley] — [respira fundo e expressa dúvida] — "Eu entendo, mas... eu não tenho garantia de que esses minérios realmente virão para empresa ou se a moça não irá tentar fugir depois de casar..." — [feição sagaz, seguido de preocupação] — "veja, Vega é extremamente valiosa para a nossa empresa, mas a moça... digamos..." — [suspira] — "não tem demonstrado ser muito confiável em relação ao trato que fizemos, então tivemos que restringi-la um pouquinho mais..." — [une dedos indicador e polegar, franzindo sutilmente o rosto].

[Homem] - "Eu serei bastante criterioso com Vega, Senhora Dilworth. Tenho todo o aparato para mantê-la sempre por perto, e tenho certeza que ela não vai querer saber de outra vida, pois o que não falta são atratividades, fartura, luxo, e muitas festas de onde eu vim. Da mesma forma que a Boate sempre recebeu produtos de nossas empresas, nós sempre tivemos controle de nossos SH’s com dispositivos contentores... o que haveria de dar errado?" - [expressa dúvida e leve desapontamento].

        Ashley tece um olhar que começa gradualmente a se converter em um mascarado ressentimento e desconfiança para com o cliente. Apesar de ser um homem de alta confiança da empresa, a mulher suspeitava profundamente de sua proposta e suspeitava que Vega pudesse estar propositalmente promovendo uma tentativa de discórdia com seus fornecedores. Depois de longas três horas de conversa, a mulher não foi convencida de vender Vega, nem mesmo de deixá-la se casar com o magnata. Apesar de deixá-lo decepcionado, suas relações comerciais não foram abaladas.

        Ashley, extremamente irritada com a situação pela qual Vega a submeteu, vai até o quarto onde esta se arrumaria para descer ao salão para dançar, e de forma súbita, defere-lhe um rompante tapa em seu rosto, fazendo a mulher escorregar e cair ao piso brilhante de granito. Já entendido o motivo daquela agressão, a mulher de vestido violeta em crochê se levanta naturalmente e olha para sua carrasca com feição de desprezo.

[Ashley] — "Perdeu o juízo, vadia?! Você faz o meu cliente de DOZE ANOS ter atrito COMIGO?! Pra quê?? Pra fugir da Boate de novo?!" — [gesticula com os braços e pega Vega pelo rosto, balançando-o violentamente] — "É isso?? Você acha o quê?? Que pode entrar na MEU território, tacar fogo nas nossas leis e ditar as regras daqui?!" — [irritada].

[Vega] — [retira a mão de Ashley de seu rosto] — "Você mesma não cumpre com sua parte no contrato, por que você acha que eu quis me casar ?!" — [feição de raiva e deboche].

        Antes que recebesse outro forte tapa no rosto, Vega se defende com um de seus braços e segura os de sua chefe quando esta investe em uma nova agressão na tentativa de agarrar o pescoço na moça. Em ato contínuo, Vega espreme os pulsos da mulher e a prensa brutalmente contra a parede de vidro, rendendo-a com um de seus próprios antebraços junto à sua garganta a fim de imobilizá-la, prensando firmemente sua tutelar para que esta não pudesse fugir. Finalmente caindo em si, a mulher percebe com o que estava lidando. Não era uma mera prostituta. Era uma arma viva letal.


+++[Manhunt Game Soundtrack - Wrong Side of the Tracks (Green)]+++


[Vega] — [intenso sorriso misturado à ódio] — "Antes que você pudesse pegar o controle remoto no bolso de seu casaco, eu achei que pudesse te dar pequena amostra da distância..." - [pausa firme, balançar de cabeça] — "entre mim e a sua existência patética."

        Ashley começa a se tremer e piscar os olhos em alguns momentos.

[Vega] — "Sabe qual é o problema de vocês, Ashley?" — [sorriso e ódio genuínos] — "Vocês só conseguem mostrar que são úteis para si mesmos se for SAQUEANDO os outros... não conseguem produzir NADA se não for pela escravidão ou exploração de corpos... são sujos e MISERÁVEIS por definição..." — [feição de ódio e desprezo] — "e como uma raça de parasitas pestilentos que vocês são, não me surpreende do porque seus povos são considerados os mais desprezíveis." — [feição intensa de sorriso e ódio] — "Você acha MESMO que seu imperialismo paraestatal vai se estender ao infinito, Ashley?" — [sorriso e ódio genuínos].

[Ashley] — "Como assim..." — [imóvel] — "Do que está falando?" — [pisca os olhos e trava os lábios].

[Vega] — "Ah, você sabe do que eu estou falando..." — [sorriso ameaçador] — "agora escute aqui Ashley..." — [leve proximidade] — "lembre-se que você está lidando com alguém que pode partir sua cabeça só com as próprias mãos como se fosse um pedaço de gelatina. Além disso..."  [força o antebraço]  "eu não pretendo ficar aqui na sua Boate imunda por muito tempo até que a minha parte nesse contrato amaldiçoado seja reconhecido pelo seu Líder Máximo... portanto, é melhor você me tratar como uma Rainha até eu ser liberada pra fora daqui, porque caso você continue a testar minha paciência, ASHLEY..."  [fala gradual e intensa]  "toda a Central vai saber que você coloca garotas de 12 anos de idade para trabalhar escondido na sua boate enquanto as outras veteranas daqui são descartadas como LIXO."  [ressalta e sua feição migra para o desprezo]  "Daí, Ashley... você vai IMPLORAR pra ser morta por mim, isso eu te garanto..." — [desfere um sorriso com ódio e balança a cabeça positivamente].

        A dona da Boate, totalmente coagida, escuta atentamente Vega sem ter para onde correr. Depois do aviso aterrador, Vega liberta a mulher, empurrando-a para a lateral de forma que caísse sentada na cama. Com sua mão no pescoço pela prensada que havia recebido de sua escrava, a dona da Underground se sente profundamente humilhada e com vontade de chorar. Vega, volta a encará-la com menosprezo:

[Vega] — "É assim que as suas garotas se sentem todos os dias..." — [pega o adereço de seu cabelo que estava caído no chão] — "agora vê se não atrapalhe meu clima, estou tentando fazer o dinheiro que a minha família substituta deixou de pagar... passar bem..." — [sai de cena].

        Vega vira-se e sai do quarto a fim de se arrumar em outro lugar. Ao bater a porta, a mulher esboça uma feição de lágrimas e tremer de suas mãos. Ultrajada, a dona da boate saca de sua bolsa e levanta-se direto para o banheiro chorar e molhar o rosto. Sentia que era muito provável que Vega brevemente romperia o contrato leonino de qualquer forma, pois esta estava perto de abalar as relações da empresa, especialmente, com a revelação obscura de envolvimento com aliciamento de menores. Por dentro, a mulher promete infernizar a existência da moça e começa a tramar uma forma de mantê-la presa pela eternidade. Ashley se lembra da primeira vez em que acabou caindo na arte da sedução de sua escrava e começa a ligar os pontos. Vega esteve planejando sua fuga desde o primeiro dia em que foi capturada....

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| P R I M E I R O   D I A |

| C A P T U R A |


        Eco. Delírios. Sons em delay. Visão embaralhada e embaçada. Cores deslizantes em feixes. Luzes em movimento. Agitação caótica. Paredes azuladas e velhas. Piso vermelho empobrecido. Beliches de três andares. Bebidas e cigarros de odores insuportáveis. Recuperação gradual da consciência. O rapaz não sabia se seus breves momentos em flashes piscantes eram um sonho ou realidade. Homens e mulheres, de todos os tipos, cores, cheiros e cabelos, dançavam ao ritmo de uma forte música ensurdecedora pela qual o moço tinha de reduzir sua capacidade de audição para suportar. Com muita dificuldade de abrir os olhos plenamente, só descobre que existe algo de estranho naquele cenário macabro quando percebe que estava completamente nu em cima de uma cama compartilhada com três pessoas bebendo e desfrutando daquele momento, aos risos e deboches. Uma delas, com uma de suas pernas apoiada sobre suas nádegas. Vega, ainda meio zonzo e descabelado, apoia seus cotovelos sobre o travesseiro e procura atordoado pelas suas roupas para que pudesse se vestir, caçar os pertences e esvanecer dali.

[Vegas] — "Minhas roupas... preciso vestir minhas roupas... onde estão minhas peças...?" — [olha de um lado e de outro, atordoado].

        Um dos homens que se deleitava com a condição de Vega, saca de uma roupa íntima aleatória usada para colocar sobre os cabelos do Transmorfo, que se irrita e joga a peça para longe, com semblante de raiva.

[Visitante 01] — "Aqui, óh, tem uma cueca pra você usar...! Não quer não??" — [risos].

[Vega] — "Seu maldito..." — [semblante de raiva e tontura].

        Vega afasta bruscamente a perna do rapaz que estava em cima de seu corpo, despertando um leve clima de agressividade entre os dois à medida em que se encaravam. O homem, para evitar atritos, levanta-se da cama e sai de cena irritado, deixando Vega junto com mais dois gozadores que bebiam e cantavam aos sons de violão de quatro cordas. Sem entender muito como foi parar ali, Vega começa a movimentar o rosto a procura pela sua mochila rosa. Já constrangido e esboçando leve tristeza com aquela situação, um dos rapazes com olhos contornados, levemente entorpecido e com um corte de cabelo “Emotion”, ofereceu ajuda a Vega demonstrando gentileza:

[Visitante 02] — "Ei, moço... você tá bem? ...." — [pausa, entorpecido] — "Quer ajuda?" — [coloca solicitamente a mão para próximo de Vega].

[Vega] — "Eu gostaria de encontrar uma roupa pra vestir e encontrar minhas coisas, me deixaram sem nada..." — [olhar se genuína tristeza].

        Mesmo com muita lentidão pelo efeito de drogas, o rapaz ainda consegue prestar solidariedade com a mínima dose de sanidade que ainda lhe restava.

[Visitante 02] — "Moço..." - [aponta para o lado] - "tem uns armários ali, que é onde o pessoal guarda roupa limpa." — [pausa] — "Vê se lá você acha uma cueca e uma calça, tá ligado...?" — [cambaleante].

[Vega] — [Reponde positivamente] — "Sim, entendi..." — [mantém o homem atento para si e coloca uma mão em seu ombro, no intuito de aproximar de seu ouvido] — "Você por acaso viu uma mochila rosa brilhante?"

        O homem de cabelo “emo” pensa processa as informações por alguns segundos:

[Visitante 02] — "...É a sua mochila, moço?" — [expressa um semblante tolo, estúpido].

[Vega] — "É sim...!" — [confirma de forma clara e olha brevemente para trás] — "Preciso muito saber onde ela está, e se ninguém roubou nada dela!" — [feição de preocupação].

[Visitante 02] — "Ah...! Mas ninguém roubou nada dela não...!" — [faz sinal de negação com o dedo indicador].

[Vega] - "Não?" - [olhar de alívio e tristeza].

[Visitante 02] — "Não, ela tá bem ali, óh...!" — [aponta para uma mesa escura rodeada de festeiros que se drogavam, jogavam e bebiam].

[Vega] — [olha para o bêbado] — "Ah, sim, agora vi. Obrigado." — [mostra alívio].

[Visitante 02] — "Não há de quê, irmão...!" — [faz sinal gestual de “joinha”] — "Se precisar de alguma coisa... só chamar, viu...?" — [balança a cabeça positivamente].

[Vega] — "Sim... chamarei. Obrigado." — [breve sorriso].

        O homem segue caminho até a escadaria, já tonteando de quase cair ao chão. Vega fica levemente perturbado de vê-lo naquele estado. O rapaz desce as escadas até desaparecer por completo e Vega aproveita que todos ali estão distraídos para se retirar da cama compartilhada, já com o travesseiro tampando suas partes íntimas. Em direção ao corredor por onde liga o quarto de armários e dispensa, trinta pessoas passam pelo rapaz apalpando-o, cheirando-o e destilando dizeres lascivos próximo a seus ouvidos. Um dos festeiros até beija Vega em suas bochechas, agarrando-o em seu queixo.

        “Coisa linda, hein? Tira o travesseiro”... — [apalpadas]  "Uau...”  [cheira o rapaz e roça seus cabelos]  "cheiroso...”  [alisa o pescoço do rapaz]  "..."  [olhar devasso]  "... Lindo..."  [aproxima o rosto]  ”..."  [pega o rapaz pelo quadril e simula um coito, fazendo Vega afastá-lo com uma das mãos por deixa-lo incomodado, seguindo o seu caminho]  ”...Delícia, hein?"  [tenta puxar o travesseiro de Vega sem sucesso]  “..."  [puxões de braço, carinhos indevidos].

        A mistura caótica de músicas vindas de rádios portáteis, violões, e sons de fundos vindos de caixas acústicas vinculadas ao teto, deixavam o ambiente ainda mais enlouquecedor. Flashes dos momentos em que estava sendo violentado enquanto dormia começam a surgir em sua memória, deixando-o ainda mais atordoado e profundamente incomodado. O Transmorfo finalmente chega até a dispensa e encontra várias roupas limpas no baú, dentre eles, roupas íntimas, camisa regata e calças do seu tamanho. Sem pensar duas vezes, troca-se para que pudesse retornar até o local de onde estava a sua mochila. Estranhamente, reparou que seu cabelo já havia voltado ao seu estado normal, assumindo  cor castanha e de olhos verdes safira, algo que não tinha planejado para si mesmo.

        Sua transformação pretérita havia sido desfeita enquanto esteve desmaiado. Sem se distrair muito, o rapaz retorna ao quarto de onde despertou e se aproxima da mesa rodeada de pessoas. Por ato contínuo e sem nenhuma cerimônia, Vega aproxima uma de suas mãos à sua mochila rosa, que por incrível que pareça, estava completamente intacta apesar das falidas tentativas de vandalização do objeto. Quando iria trazer a bolsa para si, um dos homens da mesa o interrompem, segurando o seu pulso:

[Visitante 03] — "Aí, quê que cê vai fazer?" — [encara Vega].

[Vega] — "Pegar minha mochila..."

[Visitante 03] — "E essa bolsa é sua?" — [feição de menosprezo].

[Vega] — "Ela É minha...! Eu preciso ir pra casa, por favor, me dá a minha bolsa..." — [tenta negociar, se mostrando constrangido].

[Visitante 03] — "Só sai daqui com a ordem da patroa, cara..."

[Vega] — "Cara, eu realmente preciso ir embora, me dê a minha mochila, eu não posso mais ficar...." — [fecha temporariamente os olhos].

[Visitante 04] — "Ow!" — [estala os dedos] — "Você ouviu?? Não vai sair daqui com a mochila! Tem que pedir permissão!"  [olhar de desdém desafiador].

        Em um rompante de ódio pela indignação que sentia com a constrição de sua liberdade, a feição de Vega se converge de um semblante de uma pessoa coagida, para um súbito rompante de raiva.

[Vega] — "Permissão O CACETE..." — [com ódio, arranca a mochila da mesa na base da força, quase levando junto, a mão do homem].

        Com o movimento brusco, o forte homem de meia idade, dotado de cabelos pretos e longos, levanta-se pronto para atritar com Vega. Um terceiro se levanta da mesa e tenta afastar os dois pelo peitoral, quase em muito sucesso.

[Visitante 05] — "Cambada, vamos nos acalmar, ok? Relaxem, peguem uma bebida e esperem a Dona chegar, vamos combinar assim?" — [tenta negociar].

[Vega] — "Que Dona?" — [confuso].

[Visitante 05] — "Ela é a chefe da Casa, e é ela que comanda os negócios daqui." — [gesticula gentilmente e exibe semblante negociador] — "... Relaxem os dois e sentem até ela chegar, tá legal? Sem pancadarias por aqui..."

        Ambos Vega e o homem velho, continuam a se entreolharem com expressão de raiva apesar de não pronunciarem uma única palavra. Quando a situação parecia se contornar, outro valentão aleatório caminha em direção para próximo de Vega e o agarra lançando para trás a fim de tentar valer sua tentativa de intimidação e controle dentro do recinto. Sem saber que estaria lidando com uma algo maior do que a própria noção de força bruta, em ato contínuo, Vega brutalmente empurra o homem contra a parede na velocidade de um pisco, assustando e alertado a todos que estavam presentes no local. Prensado o agressor pelo pescoço com seu antebraço, o homem mostra-se surpreendido com a monstruosa força do rapaz, saltando os olhos de temor com a evidente brutalidade do Transmorfo. A música se silencia, as pessoas começam a ficar amedrontadas e o homem velho de choca com o que tinha acabado de presenciar.

[Vega] — [ódio extremo] — "ENCOSTE o dedo em mim mais uma única vez e eu QUEBRO seu pescoço com as minhas mãos, seu PALHAÇO...!"

        “LARGA ELE, VEGA!”

        Como ato súbito, o chamamento da mulher interrompe o momento de tensão, fazendo Vega soltar o rapaz, ainda assustado com a força do Transmorfo. Vitimado e constrangido, o visitante retorna à sua mesa em um caminhar lento e tímido, sentando-se à cadeira com uma das mãos sobre o seu pescoço, sendo logo em seguida, abraçado por uma mulher de cabelos “channel” que demonstrava estar apavorada pelo seu marido. Vega vira-se para ver quem tinha gritado seu nome. Era Ashley. Vestida com um extravagante cardigan e botas de vinil em salto fino, acima do joelho. Luvas de dedos cortados. Branca. Cabelos louros espetados e maquiagem marcante nos olhos. Batom roxo e cores vivas e variadas em sua vestimenta. Um gigante colar exibindo as pedras mais belas e caras. Brincos “pompom”. Anéis variados. Tudo muito forte e muito colorido, muito exuberante. A mulher mantinha em mãos, um dispositivo remoto que usaria para manter o controle sobre o Transmorfo.

[Ashley] — "Baixe a guarda e solte a mochila. Já."

[Vega] — "Ah, é?? ... E você é quem??" — [desafia Ashley].

[[Ashley] — "Ashley Dilworth. Sou a dona deste estabelecimento e você está no meu território." — [aponta para baixo].

[Vega] — "É mesmo, hein?? Pois éh! E eu já estava de saída!" — [sorri e coloca a mochila no ombro] — "Se me der licença, eu tô caindo fora do seu território..." — [caminha].

        Vega é subitamente parado por uma das mãos da mulher quando tenta sair do recinto para ir embora do local.

[Ashley] — "Ãhn, ãhm... onde você pensa que vai?" — [semblante de intimação] — "Ninguém autorizou a você sair..." — [semblante cínico].

[Vega] — "Ninguém aqui autoriza nada..." — [leve sorriso dissimulado].

[Ashley] — "Eu autorizo, porque quem dita as regras aqui sou eu! E você não vai sair até que eu te libere." — [desafia Vega].

[Vega] — "E você acha que vai me encarcerar aqui por quanto tempo?" — [olhar de incredulidade].

[Ashley] — "O tempo que for preciso, eu não ligo!" — [faz gesto horizontal com os braços] — "Agora JOGUE a mochila no chão e VOLTE para dentro do quarto!" — [aponta para o recinto].

        Os visitantes assistem aquela cena bastante incomodados e sem muito o que fazer diante daquela situação constrangedora. Mesmo porque a mulher estava fortemente armada junto a outros carrascos. Passados alguns segundos, Vega decide dar um ponto final naquele barramento.

[Vega] — "Ashley... eu estou indo embora, e você não vai me impedir..." — [semblante gradativamente ameaçador, disfarçado de cortês].

[Ashley] — "Pois eu sou sua TUTORA, caso você não saiba. Não tem autonomia, vai ter que cooperar comigo...!" — [atrevimento].

[Vega] — "Não, você não é, e eu acho melhor você sair da minha frente..." — [tom de ameaça].

[Ashley]  "Não vou, porque você me DEVE...!"  [olhar desafiador].

[Vega]  [sob feição de indignação e negação, o moço levanta um dos braços]  "...Meu Deus, isso aqui é quê, um sequestro?!"  [fita Ashley, que não mostra se intimidar].

[Ashley]  "Não é um sequestro, querido, é uma DÍVIDA! Você se esqueceu o que seus tutelares fizeram??"  [encara].

[Vega]  "Que DÍVIDA, minha filha, e eu lá vou saber o que eles FAZIAM com o dinheiro?! O que eu tenho a ver com isso??"  [gesticula].

[Ashley]  "Tem TUDO a ver, porque a dívida é passada por HERANÇA...!"  [coloca o dedo indicador no peito de Vega]  "E pela Lei, VOCÊ é o sucessor direto da família do mecânico."  [aponta o polegar para trás]  "E você me deve, tem que pagar!"  [cruza os braços e mostra desdém].

        A mulher consegue arrancar belos risos de Vega, que não acreditava no que estava sendo cobrado para ele. Ashley começa a se aborrecer.

[Ashley] — "Qual é a graça?? Você deve mesmo, isso tá na Lei!" — [projeta seus membros superiores para frente, desafiadora] — "Você não devia achar engraçado..." — [aborrecida].

[Vega] — "Pra isso agora eu tenho cidadania, dona? ..." — [breve sorriso intenso, com tom de deboche] — "Ok, Ashley..." — [feição irônica] — "Faz o seguinte: quando quiser sair comigo, é só me ligar. Capiche?" — [simboliza um telefone] — "Eu pago a conta." — [o semblante muda subitamente para uma feição de aborrecimento desprezo] - "Me dá licença..."

        Novamente, a mulher tenta impedir Vega de prosseguir, mas tem sua mão bruscamente afastada pelo rapaz. Por conseguinte, a mulher aciona o dispositivo elétrico que dispara em sua nuca e faz Vega cair se segurando pelo corrimão das escadas.

[Ashley]  "Não percebeu que anexamos um dispositivo na sua nuca?"  [sorriso de satisfação].

        Lentamente, Vega vai se declinando aos degraus até não conseguir mais se levantar, apesar de consciente. Sua visão passava por rompantes de nitidez e escuridão. Ashley então se aproxima, agachando-se para próximo do rapaz.

[Ashley]  "Agora..."  [ajeita os cabelos]  "eu quero educadamente te advertir que daqui em diante, o Senhor trabalha pra mim..."  [sorriso malicioso]  "e VOCÊ vai me pagar cada centavo desse dinheirinho que me deve, de um jeito ou de outro..."  [aponta para Vega com um leque em mãos].

        A mulher saca de um canudo brilhante e exibe um contrato de consentimento fraudulento.

[Ashley] — "Veja! Você tem até um contrato assinado comigo...!" — [empolgada].

        No documento, havia os registros da pupila de Vega, coletados enquanto o rapaz ainda estava desmaiado. Essas eram as únicas informações que o individualizavam perante outros SH's e que não podia modificar por vontade própria. O moço, mesmo eletrocutado, conseguiu movimentar a cabeça com muito esforço para olhar diretamente para o rosto de satisfação de Ashley.

[Vega] — "....Por quê...?....Eu não....." — [fala com dificuldade].

[Ashley] — [feição de pena] — "Você entrou aqui porque você quis, meu docinho..." — [sorri] — "a sua família suja não pensou muito em você quando te coloraram pra roubar meus clientes da Central e me deveram mais de 300 milhões de dólares, não é mesmo?" — [feição de desdém] — "É a vida..." — [desprezo].

        Vega declina lentamente a sua cabeça, já sem forças para que pudesse responder por si. Com isso, a mulher levanta-se dos degraus e interrompe a descarga elétrica momentaneamente. 

[Ashley] — "Ranks, pegue a mochila dele, por favor..." — [aponta para um homem alto, forte e de porte atlético, calvo].

[Ranks] — "Sim, Senhora."

No momento em que o capataz se aproxima e tira a mochila do rapaz abatido, um súbito movimento rápido pegam os raptores de surpresa, momento em que Vega tira a mochila das mãos de Ranks e o controle dispositivo das mãos de Ashley. Mesmo tentando resistir, a mulher não conseguiu manter o pequeno aparelho para si. Vega estava, na verdade, simulando estar desmaiado. Astutamente se levantando e distanciando-se das escadas enquanto Ashley tentava tomar o controle de Vega, os dois malfeitores subitamente interrompem seus passos quando o vitimado exibe o aparelho em uma de suas mãos e o esmaga em milhões de pedaços, tornando-o completamente inútil. Ashley esboça raiva em sua face e exibe profunda respiração. Ranks se choca com a facilidade com que o Transmorfo destruíra o aparelho. A arma de fogo que estava em sua cintura, era ineficiente contra Vega. Convicto sobre a sua vitória, o rapaz logo parte em retirada em direção à porta que estava logo atrás dele.

[Vega] — "Touché!" — [feição desafiadora].

Antes que pudesse escapar, inesperadamente, o mesmo homem de penteado caído sobre o rosto que havia ajudado Vega a encontrar roupas para ele, era o mesmo que aparece rente à saída de onde o rapaz tentaria se evadir. Ato contínuo, o gótico estende seus braços acionando um dispositivo elétrico que dispara na nuca de Vega, neutralizando-o por completo. O aparelho que o festeiro manejava, era ainda mais potente que o que estava nas mãos de Ashley, paralisando toda a musculatura do Transmorfo de forma temporária, tempo suficiente para ser recolhido junto a seus pertences. Caído no chão devido ao choque, Vega olha bem fundo nos olhos do rapaz bêbado enquanto é interceptado pelos dois carrascos pelos seus braços. Com muito esforço, o Transmorfo destila todo seu ressentimento para o homem:

[Vega] — "Seu Filho da PUTA...! Achei que pudesse confiar em você..." — [raiva e sentimento de traição].

Ashley e Ranks carregam Vega até os andares de cima para que pudessem mantê-lo sob custódia. Mesmo consciente, o rapaz mal podia se mover. Ao desaparecerem de cena, só restava no recinto de escadas o rapaz “emo”, que não havia encontrado outra alternativa além de permanecer parado, nutrindo um amargo sentimento de facada em forma de culpa em seu peito.


++++++[Manhunt | Music- Fuelled by Hate (Idle)] ++++++++


[Visitante 01] — "..." — [tristeza e arrependimento] — "Desculpa, cara... eu não podia..." — [abaixa lentamente a cabeça] — "não posso dizer não..." — [permanece com um semblante abatido].

Estático por alguns segundos, o rapaz com quem Vega tinha havido uma breve relação de amizade e confiança, acaba se sentando em um pequeno amontoado de caixas, quase se desequilibrando de tamanha tristeza que sentia. Como forma de compensá-la, o homem bebe uma quantidade ainda maior de Vodka na sua forma mais pura em uma garrafa metálica. Sai andando para fora do local da festa para o mundo exterior, dirigindo-se para uma trilha de escadas laterais metálicas. Cambaleante e condenado àquela amargura, o gótico caminha aos tropeços, pendendo cair a qualquer momento de uma altura de alguns metros dali. Quando se deu por vencido, o rapaz “emo” finalmente encosta seu abdômen na barra de metal do patamar e projeta seu corpo para frente a fim de cair direto em um pequeno lago cultivado como uma benfeitoria pela Dilworth. Lamentavelmente, o fim do homem termina ali. Debaixo de uma das casas, estavam jogadas pelo gramado as pretéritas vestimentas usadas por Vega antes de ser abatido e capturado.

  ...Eram 06h25 minutos daquela fatídica e triste manhã. O céu estava adquirindo cores mais puxadas para o azul pastel. A morte cheirava à álcool e o clima de alegria regada a drogas, já havia se transformado em vidros de tarja preta e torpor.

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.   .   . T  E  M  P  O  S       A  T  U  A  I  S


......DIAS DEPOIS.....


[Música: Heartless - Rulio].


        Um corredor de uma famosa casa de banhos com instalações de estética oriental estava lotada de mulheres. Todas caminhando, se maquiando, algumas dançando, outras tristes e descabeladas. Vega se dirige pelo corredor para descer até a recepção a fim de sair daquela agitação noturna quando se depara com uma de suas amigas. Ela estava com um olho roxo e aparentava estar abatida. Era uma mulher negra, de enormes e belos cabelos achocolatados e encaracolados. Vega tenta chamá-la pelo nome, mas esta se esquiva de forma arisca. Estranha fortemente o fato de que a moça sequer parou para falar com ela. Preocupada e em estado de alerta, a mulher começa a perceber os efeitos de sua ameaça contra Ashley. Avistando pela abertura panorâmica na lateral, a mulher enxerga uma moça sendo atendida por uma ambulância, cheia de queimaduras por bitucas de cigarro, aos prantos e trêmula. Uma loura de vestido branco. Vega começa a ficar assustada com a possibilidade de retaliação de sua Raptora. Achou melhor não se aproximar das garotas a fim de mantê-las a salvo de perseguições. Teria que se manter isolada de interações sociais para que não provocasse efeitos colaterais. 

        Descendo apressadamente pelas escadas para tentar se afastar daquele cenário, a mulher vai até a máquina de café para conseguir uma boa bebida quente e ir até o jardim fora do local para tentar se tranquilizar. Por 15 minutos, a moça consegue relaxar momentaneamente. Quando vira-se para descartar o copo biodegradável, começa a sentir um estranho cheiro de carne putrefata. Achando aquilo suspeito, Vega deixa o copo no pequeno muro de concreto e começa a gradualmente perpassar pelos cantos das paredes luxuosas a fim de rastrear o cheiro. Já preparada para o que poderia presenciar, sobe o topo das paredes floridas e passa para o outro lado, indo rumo direto para uma região rodeada de aparelhos detectores para impedir a fuga das mulheres. 

        Vega queria saber a origem daquele cheiro, e se isso tem alguma coisa a ver com seu atrito com Ashley. Alterada a sua visão para que conseguisse enxergar as linhas invisíveis, a mulher toma cautela para deslocar pelo perímetro. Seguindo aquele longínquo odor horrível, a moça começa a desconfiar que ali pudesse estar havendo desovas de corpos como queima de arquivo. Caminhando pelas calçadas com belas luminárias e por entre elegantes jardins multicoloridos, Vega se contorce, levanta seu vestido e de deita no chão para que conseguisse desviar dos detectores. À medida em que caminhava, a mulher de cabelos ondulados até acima do pescoço e um pouco mais curtos na parte lateral da cabeça, se perdia em um labirinto de muros vegetativos cheios de flores e estruturas feitas em pedras em locais com luminárias metálicas construídas à francesa.

        Sem saber para onde iria chegar, a moça foi desvanecendo-se por entre as variedades obliterantes de caminhos e entradas as quais não haviam nenhuma saída. O local parecia ser feito para confundir e desesperar quem fugisse. Sem deixar de vigiar qualquer tipo de câmera ou máquina que pudesse rastreá-la, a mulher, dotada de magnânimas joias roxas, continuou destemidamente a procurar a fonte daquele cheiro perturbador. Por um determinado momento, a mulher para de devanear por entre caminhos confusos e consegue finalmente localizar o ponto onde o odor estava mais forte do que antes. Sua pupila dilatava e seus sensores aumentavam de capacidade.

        Como havia encontrado a cabeça de seu falecido “irmão” tutelar, Vega suspeita de que o odor tenha vindo  do local de descarte de lixo a 100 metros de distância, também por entre os jardins. Mais se parecendo como um cemitério, Vega lentamente se aproxima pela escuridão para próximo do enorme conglomerado de recipientes metálicos e depósitos internos de lixo, iluminado por um pequeno poste. Em uma entrada à sua esquerda, a mulher sente o odor ficar cada vez mais forte. O problema não era da mistura orgânica dentro dos grossos sacos de lixo. Este, era apenas para mascarar outro ainda pior.

        A mulher se agoniava à medida em que se aproximava daquele amontoado de ajuntamentos metálicos lotados de rejeitos. Tinha quase certeza de que iria encontrar um corpo. Só não sabia de quem. Tristemente, poderia ser de uma das meninas da Boate com quem trabalha. Poderia ser de uma de suas rivais. Poderia ser de um dos rebeldes fugitivos. Poderia ser do homem com quem Vega planejava se casar para escapar. Poderia ser até de mesmo um bode expiatório. Um inocente que em nada fez para morrer. Não sabia quem seria o próximo. 

        As luzes amareladas dos postes deixavam pequenas pistas no meio de uma vasta gama de sombras escuras. Mais à frente, Vega nota um enorme espaço afastado das luzes, composto por um largo piso de concreto de formas quadriculadas anexadas umas às outras, como se fossem aberturas. E de fato eram. Haviam finos espaços por entre as formas quadradas do piso de concreto. Ao chegar mais perto e ajoelhar para verificar melhor o que havia dentro, percebe que no meio de um massivo e pesado saco preto lotado de entulhos e objetos, transparecia uma pequena parte de um rosto humano pálido. Parecia ser de uma mulher branca, cabelos castanhos claros e olhos igualmente claros.


+++++[Manhunt 2 Game Soundtrack - Assassination (Yellow)]++++++++


        Vega começa a se atentar melhor nas características da morta com através de um pequeno feixe de luz lunar. A partir daí, que usou da ponta de seu dedo bioluminescente para ter certeza do que havia visto. Até então não conhecia a garota de nenhum lugar, tão pouco do local onde trabalhava de maneira forçada. Gradativamente exibindo feição de medo e choque, a mulher começa a ligar os pontos quando se levanta assustada e finalmente identifica a moça vitimada: uma adolescente de 12 para 13 anos idade. Sem marcas de perfurações, cortes ou hematomas em seu rosto. Parecia limpa, quase confundida com uma boneca pálida. Mas Vega sabia que era uma menina morta. Tal morte ter acontecido depois de prensar Ashley pela parede, o que fez Vega raiar um misto de medo e arrependimento pela abordagem brutal contra sua raptora. Cada vez que provocasse as lideranças da Central, um inocente era descartado. A mulher põe as mãos em sua cabeça em uma clara expressão de agonia e desespero. 

        Antes que pudesse abandonar o local, de longe avista um homem mascarado e munido de uma Arma Restrita nas cores branca e violeta, características que todo SH conhece bem e teme por definição. O vigilante se utilizada de roupas justas, cheias de simbologias e manuscritos, ressaltava o  tamanho de sua musculatura, e usava coturnos escuros com calça vermelha e uma camisa verde escura sobreposta por uma camiseta marrom, com mensagens em branco. Vagava por entre os jardins e os contêineres de lixo na qual escondiam um depósito humano. Sua máscara era preta com mensagens amarelas. Vega rapidamente fica em  posição de quatro para engatinhar até um local por entre as paredes vegetativas e retira seus sapatos prateados para não fazer barulho.

    Abandonando discretamente os sapatos por entre as plantas, Vega forma uma película amortecedora pelas solas, dedos e entornos de seus pés para que pudesse correr com maior velocidade. Engatinhando pelos cantos por onde não podia ser vista, o homem calmamente caminha reto pelo grande espaço de concreto de forma que, caso virasse à sua direita, poderia acabar avistando Vega. A mesma porém, escapa de sua visão bem antes que o mesmo pudesse ter o risco de notá-la. Percorrendo um caminho intrincado, Vega acompanha os passos do homem pelos sons e seu cheiro. O vigilante continuava seu caminho pela direção reta e em frente. Vega, chega lentamente por trás dele, pronta para golpeá-lo com um objeto pontiagudo tirado a partir dos ossos de seu joelho. 

        As luzes começam a piscar de forma desordenada até que momentaneamente tudo ficasse completamente escuro por ali. O carrasco estranha aquele fenômeno e olha para trás para certificar de que não havia nada de errado com a eletricidade. Por 03 segundos, ao voltar a luz, Vega desaparece como vento nos ares. O vigilante começa a desconfiar de que alguém estivesse próximo a ele e mantém seu estado de alerta e prontidão para atacar. Vega, por detrás de um pequeno muro azul próximo à parede florida e cheia de plantações, certifica de que o homem esteja distraído tentando procurá-la. Preocupado em revistar todo o entorno por onde estaria sendo seguido, Vega aproveita a sua displicência para adentrar em uma das sombras pela qual se liga até a estrutura mais alta de concreto com um recipiente de fios elétricos vinculada à parede, e sobe para evitar que seja rastreada pelo chão. Tendo pelo menos uns 20 metros de altura, o homem nem suspeitava de que estaria sendo silenciosamente acompanhado.

[Homem] — "Olááá?!" — [grita] — "Tem alguém aí?! Jerald?! Wester?! CADÊ eles?!" — [em alerta].

        Vega presta atenção.

[Homem] — [aciona a rádio transmissora] — "Alô, preciso de mais reforços... AAHH..!" — [brusca interrupção].

[Vega] — "Iah...!!" — [pula cima do homem e o acerta antes que ele apontasse a arma].

        Tendo suportado o peso de Vega, mas não o suficiente para não derrubá-lo, o carrasco tenta atirar na moça sem sucesso, que segura a arma com a sua mão e a desvia para o lado oposto. Inutilmente levando vários socos do vigilante, o homem dispara a perigosa arma por reflexo, acertando uma das pareces de concreto e deteriorando instantaneamente um emaranhado de plantas e flores feitos com tanto esmero (sim, Senhores, eu sou um bom apreciador de plantas. Cof! Bem... continuando). 

        Após o primeiro disparo, Vega espreme o pescoço do malfeitor com suas coxas e toma a arma de suas mãos, fazendo com que o mesmo rapidamente se enfraqueça e caia ao chão como quem foi estrangulado por uma serpente. A moça, cai junto com o homem em efeito dominó. Com a arma ainda em suas mãos, Vega retira suas munições e a destrói em milhões de pedaços. Guarda as munições para si, volta até o jardim para pegar os seus sapatos e parte em retirada já calçada com os mesmos até o ponto de onde estava, tomando as devidas cautelas com os detectores invisíveis. Por sorte, o vigilante não viu o rosto da mulher.

        Vega pensa em uma maneira de alertar as outras moças sobre a garota morta sem que isso levante suspeitas da Líder escravocrata. O problema, é que toda vez que Vega irrita Ashley, uma garota inocente paga. E esse era o fardo que a Transmorfo tinha de carregar: não usar a força em prol de preservar a vida de terceiros.

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..................[DESFILE DE MODA. IMAGENS. RIVALIZAÇÃO].

            Grande dia de mostra de moda e beleza tão esperado pelos fãs curiosos. Era um enorme espaço aberto jardinado pelos arredores e com uma exuberante construção de vidros espelhados, localizado na posição centralizada. Lotado de pessoas, com televisores que podiam se estender na forma de um círculo completo. O desenho daquelas estruturas apostava em formas geométricas diagonais e gostava de mesclar o branco e o azul-marinho em tonalidade escura. Tudo era exageradamente luxuoso e evidenciado. Uma das mulheres mais destacadas daquela interminável sessão de fotos e filmagens das mais infernais, era Jurema, o nome de guerra de Vega. Nome que substituiria o original enquanto a mulher estivesse fora da Boate.

        A moça aderiu a uma cor de pele parda com cabelos achocolatados escuros e olhos verde oliva. Seu penteado estava repartido na forma “30 por 70”, e seus fios eram maravilhosamente repicados e impecavelmente perfeitos em sua estrutura. De longo e sofisticado vestido branco cintilante, na forma “V” na parte frontal e descoberto em uma das pernas da moça, a mulher ostentava um enorme bracelete prata com uma pujante pedra branca, colar espesso e prateado, igualmente bem afeiçoado por joias brancas. Os sapatos também eram extravagantes: Sua forma lembrava o corpo de uma serpente em movimentos circundantes, igualmente brancos e brilhantes. Brincos compridos, compostos por pedras brancas e ornamentos retangulares prata.

         O dia estava quente, o salão abafado e as garotas deslumbrantemente desestimuladas. Algumas de mau humor e sem a menor vontade de estarem ali. Jurema parecia nem sentir os efeitos do calor, quanto não parecia se incomodar com o tempo. As garotas que estavam bem ao lado de Jurema, eram as damas com quem mantinha uma relação de afinidade. Uma Super-Humana de gigantes cabelos em tom “rosé”, divididos por enormes mechas cheias de vida e hiperidratadas, e uma negra de belíssimos cabelos encaracolados e sedosos até abaixo da cintura e olhos penetrantes em cor de fogo. Eram as mais captadas pelas câmeras e as mais queridas pelos fãs. Disputadíssimas pelas jornalistas, as garotas tinham o foco em seus rostos por vários minutos enquanto as outras mulheres estavam espalhadas pela área jardinada, conversando, bebendo e sendo atendidas com pouca ou quase nenhuma notoriedade. 

        As cinco meninas veteranas que já “eram da casa”, não pareciam muito felizes com a situação. Estavam calorentas, com enormes leques em mãos e copos de suco e água geladíssimos para compensar o calor. Os olhares de reprovação dos presentes denunciavam que as moças não eram suplementadas. Era pecado ser imperfeita, ou mesmo sentir incômodo pelo calor. Dentro das bolsas de variados tamanhos, vários lenços, toalhas, óleos para as axilas, desodorantes íntimos, e outros itens higiênicos e cosméticos, eram improvisados para que não passassem aperto. Por mais belas que fossem, não parecia serem suficientes para alcançar o “Top 03” da lista. As garotas estavam infelizes e trabalhando sem qualquer prestígio ou reconhecimento. 

    Ashley contudo, estava encantada e radiante com o evento promovido por ela e seu Chefe com quem era próxima: Winston. Ela e Winston eram bastante unidos em prol dos interesses da Central, e à essa altura, Ashley não se importava com a exposição da identidade de Vega em momentos muito especiais. Mantinha o nome “Jurema” como identificador de Vega para todos os efeitos. Sua Carteira de Identidade, também era forjada. Na verdade, haviam pelo menos 03 pela qual Ashley colecionava para cada face que Vega performava, tomando o devido cuidado para não replicar um rosto de uma pessoa real. Vega sorria encantadoramente para os holofotes junto às suas amigas. Seria a primeira vez em que a moça seria vista por todo o País. Como Vega tinha o raro costume de se transformar para a forma feminina enquanto esteve livre, seu rosto gerou confusão generalizada por toda Nova York. A moça saiu pela primeira vez nos jornais.


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>>>>> CAFETERIA PRÓXIMA DO HOTEL-BOLHA.15H30 DA TARDE


“MODELO APONTADA COMO MAIS BELA DO PLANETA SE APRESENTA PELA PRIMEIRA VEZ NO ESTÁDIO PARAESTATAL PARABELLUM”


        [Revirar de páginas. Fotografia da moça. Pausa para reconhecimento imediato. raiva gradual. Jornal amassado. Indignação].

[SUII] — "Filhos da puta..." — [raiva e desprezo].

        Vega estava sendo exposta sem a menor cerimônia pelos líderes da Central, o que causou indignação em seu conterrâneo. Sem muito o que fazer, o homem liga para Audrey por um pequeno telefone celular protegido contra grampos para relatar o que tinha acabado de certificar.

[SUII] — "... Audrey. Vega acabou de aparecer nos jornais... está com o nome de Jurema. O Jason vai entrar na Parabellum?"

           SUII mantém uma conversa de poucos minutos com a Agente da CIA e logo após, a informação é passada diretamente para Titane Katley, que alerta Jason sobre o sistema de vigilância da Parabellum.

[Minutos depois...]

[Katley] — [rádio transmissor] — "Jay, Vega tá no Parabellum. Disfarça o rosto."

        O homem, com os dois dedos perto do ouvido, capta a mensagem da moça. Sem dar uma palavra, verifica a notícia em tempo real pelo relógio de pulso.

[Jason] - "... Hummf." — [respira fundo] — "Eles nem disfarçam... é muita vontade de se foderem..." — [decepção e aborrecimento].

[.............Sala fechada. Isolamento. Computadores. Parcialmente escura. Monitoramento de câmeras. Tela grande. Comandos de descriptografia.]

           Linha telefônica entre SUII e Audrey

[Audrey] — "Não adianta, SUII. Eles são bem preparados... é entrar e invadir na baixa mesmo..." — [pausa, sons de vozes na escuta telefônica] — "Já estou há 07 meses tentando rastrear as câmeras da Central e não consigo. Se brincar, isso aqui demoraria 100 anos no mínimo. É um complexo paraestatal dos mais horríveis que eu já lidei..."

[SUII] — "Já tentou a contaminação por “submissão”? É uma Inteligência Artificial Viral recente que chegou no mercado. Ela inverte a permissão de administrador e toma posse dos computadores a ponto de se replicarem no sistema e ninguém mais conseguir usá-los."

[Audrey] — "Já tentei, não funcionou." — [digita no teclado] — "Quando eu desbloqueio a chave de uma entrada, ela faz o reverso... fica um efeito iôiô. Vai e vem. Se duvidar, eles já possuem a versão mais recente da programa....tsc! Maldição." — [expressa olhar de desapontamento].

[............Sorveteria. Jardim. Uniforme azul ciano e amarelo. Cabelos em vermelho ambar, em posição lateral, longo e franjado. Escuta telefônica. Xícara de café em mãos. Expediente de trabalho. Pátio.]

        Magal participa do círculo de contatos organizado imediatamente após a notícia de que o rosto de sua amiga foi finalmente apresentado pelos seus sequestradores por meio da Parabellum.

[Magal] — "Fui eu quem paguei o cinzeiro. Eu e o SUII, na verdade." — [breve olhar para trás] — "Jason encontrou com ele na Igreja. Agora ele é “padrão”. Pode mudar o semblante do rosto e adentrar a Central como um Playboy da elite."

[Outro Lado da Linha] — "Ficou sabendo que a Transmorfo está no Parabellum? O rosto dela está em todos os jornais."

[Magal] — "Acabei de ficar sabendo..." — [olha no tablet apoiado na mesa] — "Só não sei onde fica essa Parabellum, o Jason sabe?" - [confuso].

[Outro Lado da Linha] — "Ele já tá perto de lá, inclusive... ele tá sondando a área."

[Magal] — "Tem mais alguém na linha?" — [bebe o café].

[Outro Lado da Linha] — "Tem alguém na espera, vou colocar aqui..."

[Som de inclusão. Titane é colocada na linha compartilhada].

[Katley] — "E aí?" — [exibe óculos escuros e um copo de suco de morango].

[Magal] — "Como tá a vigia, Titane?"

[Katley] — "Está indo bem, mas eu ainda tô tensa..." — [bebe o suco] — "Não achei que seria tão difícil resgatar o nosso amiguinho de aventuras..." — [responde com uma escuta do ouvido].

[Magal]  "Avisei a Audrey pra tentar focar em destruir os rastreadores e as câmeras da Parabellum..."

[Katley]  "Sem querer desanimar vocês, mas eu acho que ela não vai conseguir queimar as máquinas de vigilância... agora eles meterem a cara de Vega pra esfregar pra todo mundo que somos um bando de toupeiras é demais..."  [expressa contrariedade].

[Magal]  "Isso é pura provocação. Eles sequer deixam as mulheres serem filmadas, e agora expõem uma sabendo que o endereço deles é privado."

[Outro Lado da Linha]  "E por que o Governo não pode fornecer o endereço? É de interesse de todos os envolvidos..."

[Magal]  "Não oferecem porque a Central é uma Organização Paraestatal. Os dados de tudo sobre essa Região ficam de posse somente dos Líderes desse lugar."

[Outro Lado da Linha]  "Que coisa absurda... um amigo ou um parente é sequestrado e fica por isso mesmo?"

[Magal]  "As autoridades da Central são quem decidem se vão devolver um funcionário ou não... enfim, uma piada."

[Katley]  "Deus sabe o tanto que eu cobrei eles, e nunca me deram uma resposta... como está o último drone, Bruh?"

[Outro Lado da Linha]  "Destruído. Já é o terceiro drone nosso que é derrubado. Estou tentando enviar mais um sem muita esperança..."

[Katley]  "Brunetta, o SUII quer entrar..."  [olha o aparelho telefônico].

[Brunetta]  "Vou colocá-lo..."

        A mulher de vestimentas top em forma “V”, pulseiras de acrílico, short do meio da cintura até a metade das pernas e sapatos de plataforma, monitora Jason pelas câmeras de seu relógio de pulso.

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        Enquanto o homem tentava se aproximar do Estádio Parabellum, centenas de franco-atiradores estavam escondidos em pontos invisíveis à espreita de Jason, a quem já vinham mantendo vigilância há um bom tempo. Como não era sonso, o vigilante se disfarça mediante um cumprimento gestual de suas mãos sobre a aba de seu chapéu, caminhando manso e devagar pelo belo gramado daquela imensidão. Antes que pudesse notá-lo, Jason já havia localizado cada um dos atiradores. 

        Como agora o homem enchapelado era um Transmorfo padrão, nível inferior ao do tipo “puro” ou “puríssimo”, não tinha certeza se poderia receber balas vindas de armas de longa distância, quanto mais do tipo “AR”. Os objetos nas mãos dos atiradores compunham as características de cores branca e violeta. Como não tinha nenhum dispositivo na nuca, Jason saiu ileso dos detectores. Como o tempo estava muito quente, foi com roupas mais leves e um pouco mais discretas. Com uma luneta disfarçada de óculos vintage, Jason localiza Vega sendo captada por múltiplos flashes.

[Jason]  [regula a lente da luneta]  "Me espera aí, amiga. Logo, logo você sai daí..."

        Vega muda seu semblante quando começa a notar a voz distante vinda de vários quilômetros de sua distância. Winston por sua vez, começa a se irritar com a alta repercussão que o rosto de Vega estava alcançando em vários noticiários. Mal sabia ele que as imagens de Vega estavam sendo compartilhadas com fontes alheias ao evento. A informação estava se espalhando muito rápido e Vega começou a suspeitar de que a voz vinda de longe do estádio, era do homem de terno rosa que havia encontrado na Casa Noturna.

[Vega]  "... Jay?"  [semblante de leve confusão].

....

[Jason]  "NÃÃOO...! Garota! Não fala meu nome...!" - [murmura e exibe semblante de frustração].

        A leitura labial de Vega exibida nos grandes telões acionou o estado de alerta dos seguranças e franco-atiradores. Jason começa a sair do status de mero visitante para se transformar em alvo dos integrantes da Central. A passos largos, o homem tenta se afastar discretamente do local de onde estava sendo monitorado. Vega percebe que o rapaz poderia estar em apuros e começa a ficar assustada, pois nada podia fazer para resgatá-lo. Ansiosa e já aparentando estar prestes a fugir do estádio por conta da iminente caçada de Jason, antes que seu amigo pudesse ser alvejado, Winston interrompe a sessão de fotos aos gritos:

[Winston]  [mãos para cima]  "Vocês todos, DESATIVEM os celulares agora mesmo!! Não é permitido divulgar as imagens das garotas para além da Central, fui claro?!"  [exibe autoridade]  "E vocês, BLOQUEIEM os compartilhamentos, rápido!!"  [olha para trás, apontando para outros funcionários que controlam os sistemas tecnológicos].

        Ashley se aproxima, surpresa com a reação de seu Chefe. Este por sua vez, a leva para um canto mais afastado, a fim de lhe aplicar um sermão:

[Ashley]  "O que está fazendo, estava tudo indo bem..."  [sinaliza firmemente com um dos braços, verticalmente].

[Winston]  "Você está ficando MALUCA, minha filha??"  [fala gradual e indignada]  "Essas fotos eram para serem divulgadas aqui dentro do estádio, não sendo bombardeadas para o País inteiro...!"  [aponta o braço para a lateral].

[Ashley]  "E daí?? O quê que tem??"  [rebate]  "Você quer evoluir os negócios fingindo que isso aqui não existe??"  [gesticula em movimentos circundantes].

[Winston]  "E você quer que o mundo inteiro descubra que existe TRÁFICO DE MULHERES na nossa empresa? Com ADOLESCENTES envolvidas?"  [gesticula, mostrando gradual alteração de voz].

[Ashley]  "Adolescente até dar a primeira foda escondido, usar droga, fugir de casa, roubar uma loja e meter BALA nos coleguinhas da escola, ACORDA, Winston!"  [feição de raiva]  "Nós somos uma região Paraestatal legalizada, não devemos satisfação a ninguém!"  [exibe desdém].

[Winton]  "Mas DEVE para o FBI e para as Leis americanas, pois nem a Central está acima delas!"

[Ashley]  "E desde quando o FBI mexe com prostituição em uma Paraestatal?!"  [gesticula e cruza os braços].

[Winston]  "Desde a última vez que a Constituição foi modificada, minha Senhora, você vive em Nárnia!?"  [exibe as duas palmas das mãos paralelas uma à outra].

[pausa silenciosa].

[Winston]  "Se quer ajudar a promover as garotas, você podia ao menos ajudar a não FERRAR com tudo! Será que dá pra ser mais claro??"  [irritabilidade e feição de súplica].

        Ashley mostra-se aborrecida. Dois funcionários observam a discussão dos dois líderes, mas sem entender o que estava se passando devido ao isolamento acústico promovido pelos sons das músicas eletrônicas.

[Ashley]  [decepcionada, soltar os braços, olhar fundo]  "... Não se esqueça que onde nós viemos e para quê criamos a Central, Winston...."

        O homem gradualmente se afasta de Ashley para evitar uma discussão logo no dia do importante evento promovido pelos dois.

         Os sistemas de sincronização que ligam a conexão de rede aos aparelhos dos visitantes foi acionado para bloquear qualquer tipo de compartilhamento. Os visitantes, aparentemente assustados com a agressividade de Winston, aos poucos começam a retornar às suas atividades depois de um formal pedido de desculpas pelo Líder para todos os presentes, abaixando sutilmente a cabeça para os mesmos como sinal de respeito. Os franco-atiradores são avisados do problema e deixam de ter Jason como foco, passando a tratá-lo como um cidadão comum. 

        O homem infiltrado respira aliviado. Apesar da trégua dada ao seu pescoço, não queria mais despertar a atenção dos guardas e atiradores. As veteranas sentadas à mesa, se assustam com o aumento da agitação da multidão que compunha aquela festa privativa, mas à medida que as coisas se acalmam, elas voltam a se aquietarem em silêncio. Vega percebe que qualquer coisa que dissesse poderia trazer problemas para Jason. Dessa forma, procura disfarçar seu semblante, e novamente, fazer jus aos flashes e mimos das pessoas. As duas mulheres que estavam ao lado da Transmorfo, perceberam a instabilidade de Vega.

[Simone]  "Tá tudo bem?"  [toca no ombro de Vega].

[Vega]  "Estou, estou bem, obrigada."  [semblante sereno].

[Palwari]  "..." - [toca discretamente no ombro de Vega e fala em tom sorridente, na linguagem Vandoriana]  "Não demonstre que está ansiosa, querida, senão eles podem retaliar contra as meninas..."

[Vega]  [pausa]  "... Vou tentar..."  [responde em linguagem Vandoriana, sob sinalização positiva com a cabeça].

[Palwari]  "Respira fundo..."  [consola Vega].

[Vega]  [breve respirada]  "Tá bem..."  [sorri timidamente].

        Vega olha para Simone com um leve semblante de graça e animosidade, o que faz tranquilizar a amiga. Apesar do momento de paz e harmonia, as cinco moças que estavam sendo desprezadas pelos convidados se sentiram claramente ressentidas com aquela situação. Em alguns momentos, as mulheres eram vítimas de risadas maldosas, mesmo que bem discretas. A humilhação era tamanha que uma das veteranas chegou a desenvolver anorexia nervosa e mal conseguia ter apetite para comer, tão quanto forças para se olhar no espelho. Era uma crueldade velada a céu aberto. Depois do vazamento incidente das fotografias, Tabloides começaram a espalhar as notícias mais sensacionalistas possíveis para ganharem máxima visibilidade. Com os celulares em mãos, as garotas tiveram acesso às matérias de último segundo.


“MULHERES MAIS LINDAS DA TERRA DEIXA MODELOS NO CHINELO: SERÁ O FIM DAS SUPERMODELS ATUAIS? OU O COMEÇO DE UMA NOVA ERA?”


........... “A MULHER QUE COM CERTEZA IRÁ ARRUINAR

 O SEU CASAMENTO: 

CONHEÇA A BELDADE JUREMA, 

A TENTAÇÃO DO MOMENTO!”


“A MULHER RARA QUE DRIBLA A PASSAGEM DO TEMPO: PALWARI, A INSPIRAÇÃO DE UMA DAS BELEZAS MAIS RARAS DO MUNDO.”.............


“ESSAS TRÊS MULHERES IRÃO FAZER VOCÊ MUDAR

 DE IDEIA SOBRE ACEITAÇÃO DO CORPO.

”..........


......“SH’S PROVAM QUE AS MULHERES COMO CONHEÇEMOS ESTÃO EM FASE DE EXTINÇÃO.”..............


“TRAÇOS RARÍSSIMOS DE MULHER LEVANTA DEBATE SOBRE BONS GENES E SEUS BENEFÍCIOS PARA OS ESTUDOS DA CIÊNCIA.”


“PESSOAS NORMAIS ESTÃO PRESTES A PERDEREM SEUS EMPREGOS:

 O FENÔMENO DOS SH’S E SUA IMPORTÂNCIA PARA O MERCADO.”


“A BELEZA MATADORA DE SIMONE: A EXTERMINADORA DE LARES!”


“ESQUEÇA O NATURAL: A NOVA GERAÇÃO DE SERES HUMANOS QUE IRÃO SE SOBREPOR AOS DEMAIS.”


“COM ESSA MULHER VOCÊ NÃO VAI PRECISAR DE VIAGRA!! PRAZER GARANTIDO COM DADOS SIGILOSOS! MANDE SUA MENSAGEM AQUI!”

............

        Com o bombardeio de notícias provocativas, a vergonha, o ódio e a insatisfação das veteranas foram se tornando gradativamente mais evidentes.

[Mulher 01]  "Ave! Você viu isso?"  [exibe o celular].

[Mulher 03]  "Eu vi... esse povo não tem mais o que fazer não..."  [exibe feição de reprovação].

[Mulher 05]  "Quero ir embora daqui, cara..."  [desânimo, tristeza].

[Mulher 04]  "Isso é uma humilhação... por que simplesmente não nos deixam ficar na Boate, se é pra ter que passar por isso?"  [insatisfação e vergonha].

[Mulher 02]  "RAIVA desse povo mesquinho... cambada de urubus..."  [feição de nojo e raiva]  "Ficam lambendo o rabo dessa dondoca aí em cima enquanto as outras mulheres daqui são tratadas como lixo. Ridículo esse teatrinho..."

[Mulher 03]  "Nem sei pra quê estamos aqui..."  [braços cruzados]  "era muito mais humano ela rescindir o contrato e deixar a gente ir embora."

[Mulher 02]  "Eu não vou embora não, ela que me obrigou a ficar, então agora ela tem que me engolir... aí é fácil, te colocam num Contrato Leonino pra depois te jogarem no lixo?" — [acena com o dedo indicador em sentido negativo] — "Nananina não...!" 

[Mulher 04]  "Já é a terceira vez que Ashley bota a gente pra servir de enfeite e virar alvo de tomates... enquanto tiver essas três aí, nós estamos ferradas..."  [semblante de conformismo e decepção].

[Mulher 02]  "Gente, na moral, eu acho essa tal de Vega uma FRAUDE. Nunca precisou fazer nada pra ficar bonita e ainda forja a própria identidade do jeito que quiser."  [postura firme e arrogante, seguido por pico de raiva]  "Ah, fala sério, as mulheres de verdade têm que começar a serem valorizadas do jeito que elas são, com todos os seus defeitos e virtudes, não serem descartadas por causa de uma boneca fake...!"  [arruma os cabelos com raiva]  "Daqui a pouco vão fazer o quê? Tacar fogo na gente porque não somos perfeitinhas? Tenho NOJO desse tipinho aí, sabe... nunca precisou se esforçar pra nada na vida e ainda acha que pode substituir os outros montando a própria cara do jeito que quiser...!Que absurdo, cara, isso é uma deturpação...!"  [ódio e indignação].

[Mulher 03]  "Amiga, vai com calma, ela é tão escrava quanto nós todas aqui, mulher..."

[Mulher 02]  "Não, não dá, eu tenho ranço dessa mulher... nem sei se essa desgraça é homem, se é mulher, se é um alien ou o Satanás, sei lá...!"  [gesticula em movimentos circulares]  "E esse bando de energúmeno querendo uma boneca inflável ao invés de ACEITAR a mulher como ela realmente é..."  [enfatiza colocando o dedo sobre a mesa]  "isso me quebra!"

[Mulher 05]  "Ai, “mano”, isso aí nunca vai mudar... todo mundo está querendo ser igual a essas meninas, e quer saber? sempre vai ser assim, então... desencana disso, saca?"  [suave levantar de ombros]  "Eu tô de bem com a minha inferioridade..."  [brinda com uma garrafa de cerveja sem álcool em meio a risadas].

[Mulher 01]  "Meninas, só sei que eu não tô aguentando a cara de merda dos convidados daqui... sério..."  [sorri fechando os olhos]  "Que gente mais mesquinha..."

[Mulher 03]  "Eu também tô abismada com a petulância dessa cambada..."  [leve riso]  "o quê que nós fizemos de errado? Eu vim aqui obrigada, se eu pudesse, ficaria na Boate “mocozando” e assistindo filme..."

[Mulher 02]  "Um dia ainda vou enfiar o soco na cara da Ashley... ela que fica incentivando essa deturpação. Um monte de meninas vão ficar desempregadas porque não é uma SH..."  [raiva e desprezo, recosta-se sobre a cadeira].

[Mulher 04]  "Filha, te dou todo apoio nesse soco, porque ela tá merecendo... vocês viram que ela colocou menor de idade pra se prostituir?"  [feição de desaprovação].

[Mulher 01]  "Eu vi, menina...! É a maior nojeira, viu... aquilo me embrulhou o estômago..."  [bebe água].

[Mulher 03]  "É nessas horas eu queria que comessem o rabo dessa mulher atrás das grades... mas ninguém faz nada com as denúncias, cara, impressionante."

[Mulher 05]  "Só sei que eu quero ficar livre disso aqui, eu já não tô aguentando mais... quero estudar, quero me formar, quero ver minha família..."  [sorriso melancólico].

        Lenços de papel, copos de plástico e embalagens de balinhas vão sendo despedaçados aos montes em cima da mesa pelas mãos esmaltadas de cada uma das mulheres. Os lenços sequer tinham utilidade. As balinhas eram consumidas para preencher do estresse. Os copos, eram meros alvos de suas mais intensas frustrações e manifestações de ansiedade. Com os dedos feridos de tanto descascarem objetos de plástico, pequenos rastros de sangue terminam por serem deixados em alguns pedaços mais rígidos e pontiagudos dos objetos lentamente destruídos. Cada pedaço jogado à mesa era como partes de si mesmas sendo despedaçadas aos milhares, todas sendo levadas pelos ventos na qual lhes conduziriam a um destino pela qual jamais teriam qualquer controle ou ciência de para onde seriam transportadas.

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[ALGUNS MOMENTOS DEPOIS]...

        As moças, alvo de todos os holofotes da festa, são liberadas para descansar antes do evento principal. Simone e Palwari acompanham Vega pelas escadas e ambas circulam lado a lado pelo gramado do estádio. Toda a Parabellum pararia para vê-las desfilarem enquanto conversavam entre si. Ao transitarem pelo lado das mesas, Vega sente o rancor de sua rival não declarada à distância, a qual a retribui devolvendo um olhar de desconfiança para ela. A moça não estava sendo apenas rivalizada: era um bode expiatório quisto pela Ashley para fazer com que as mulheres que mantinham como escravas disputassem preferência com a moça, para assim fazer com que aumentasse a circulação de dinheiro para a empresa. Investimentos em maquiagens, suplementos, propaganda, sessões de beleza, tratamentos extravagantes, vendas de filmes pornográficos, recrutamento de garotas, “pesca” de clientes. Vega era uma peça chave para fazer com a a inveja e o rancor mova os negócios e os interesses do mercado.

        Sentando-se à mesa junto a suas duas companheiras, Vega começa a apresentar no olhar um longo transe coberto de cansaço e melancolia. Simone acaricia os cabelos da amiga, que continua mantendo o olhar distante e imerso nos próprios pensamentos. Fecha os olhos. Pensa. Respiração funda e gradual. Olha para o céu e se lembra de sua família. Vega, por várias vezes, tentou contactar a sua mãe biológica enquanto esteve aprisionada, sem sucesso. Começa a se questionar do porque se dispôs a estar em um País de uma Órbita distante pela qual nunca a aceitou. Desde o início, a mulher nunca teve um minuto de paz. Começou a se questionar sobre a sua força, seu nascimento, sua criação. Indagou à si mesma sobre o porquê de ter estado lá.

        Se por um lado era muito amada no Planeta em que nasceu, era profundamente desrespeitada na Terra. A mulher nunca sentiu tanto desprezo e avidez por exploração por parte das pessoas que atravessaram seu caminho. Alguns meses pareciam terem sido 20 anos para ela, e o sol, os ventos e o cheiro de jardinagem, eram as únicas coisas que lhe traziam paz por alguns breves momentos. Era esse o fardo de ser o conjunto de tudo o que é buscado por toda a humanidade com tanto esforço e sofrimento vãos. E não era para menos. A mulher reunia o que havia de mais desejado e raro de ser conquistado pelos Terráqueos. Não havia outro resultado senão a cobiça, a ganância, o interesse, o proveito, a fome de poder. Vega simbolizava tudo aquilo que a maioria dos seres vivos jamais cogitaria ter. 

        Vega observa uma folha solta de uma das plantas balançada pelos ventos em movimentos contínuos e circulares, como se fosse uma suave dança pelos ares. A sombra se movia gradativamente pelo enorme gramado e a temperatura começa a se amenizar no local. Um casal de borboletas brancas com pintas rosadas desperta a curiosidade da moça. Vega já tinha visto cores idênticas em outros animais. Um gato com as mesmas cores já tinha aparecido uma vez próximo a uma edificação enquanto tentava fugir novamente da Boate. O felino tinha olhos profundamente rosados e aparentava ser mais musculoso e de pelagem mais sedosa que o de costume para um gato de rua.

        Eram 15h20 da tarde quando o avistou. O majestoso bichano parecia até se mostrar entender os gestos e as feições de Vega. Também já havia se deparado com um passarinho de forma arredondada e penas muito bem repicadas. Igualmente, de tonalidades branca e rosa. Após a breve lembrança, a moça começa a estranhar o motivo dessas cores estarem se repetindo em algumas espécies. Suspeitosamente, a mulher divaga sobre o que poderia conectar aqueles bichos um ao outro. Movimentando os olhos para a lateral inferior, nota que na bolsa de Simone havia um tubo que parecia estar atrelado a uma seringa para armazenamento de suplemento. Pela primeira vez Vega se pergunta se a origem dessa substância é meramente sintética.

        Rompendo com seu momento de transe, as garotas são chamadas de longe por uma das funcionárias munidas de um megafone para comparecerem ao desfile.

“Atenção, Meninas. O desfile já vai começar. Preparem suas posições.”

        As mulheres se levantam e se dirigem até a plataforma de onde iriam se apresentar para uma grande marca de roupas, bastante conhecida pela prática reiterada de lavagem de dinheiro e financiamento de prostíbulos. Algumas pedras eram até feitas do minério produzido pela Transmorfo. Até recebeu em agradecimento as próprias joias de que estava ostentando, fruto de sua produção natural. Enquanto as garotas retocavam suas maquiagens e escolhiam seus esmaltes nas unhas com canetas coloração instantânea, Vega só precisava alterar as cores de suas unhas e lábios por vontade própria e dar origem a sua própria maquiagem em torno dos olhos, testa e bochecha esquerda, criando um estilo peculiar de pintura que remete ao egípcio e tribal. Uma das mulheres que vinha nutrindo raiva por Vega, a fitou com desprezo pela suas qualidades excepcionais, o que a fez desaforadamente jogar seu ressentimento contra a rival:

[Mulher 02] — "..." - [desprezo] — "Você não passa maquiagem?" - [lança].

        Vega olha para a mulher com um ar de surpresa pela abordagem, mas sem esperar muita cordialidade por parte da moça. Um pouco constrangida, procura responder de forma gentil.

[Vega] — "Sim... passo. Já estou usando inclusive..." — [um pouco coagida e sem graça].

[Mulher] — "Não quer usar um brilhinho nos lábios? Eu tenho um..." — [finge simpatia].

        Apesar do rumo belicista que estava tomando a relação entre as duas, Vega aceita a falsa gentileza da colega.

[Vega] — "... Ok, eu quero sim..." — [estende a mão].

        A moça joga o batom de forma seca para Vega, que o usa como forma de não fazer desfeita com a ajuda da rival, mesmo que fosse de má vontade. A Transmorfo estava começando a se sentir discriminada e oprimida naquele ambiente. Até cogitou em reprimir suas capacidades transformativas para não desagradar ou ofender as outras modelos. Simone observa atentamente a mulher que abordou Vega, já com desconfiança e ressentimento em sua face. Palwari suspira e arruma os cabelos em tom rosê para tentar se distanciar emocionalmente da situação subliminarmente desagradável. Todos os presentes na festa se reúnem em seus respectivos assentos para desfrutar do desfile de moda com as moças. Uma das mulheres que vivia com uma garrafa de cerveja na mão, aproveitou para guardar outra dentro de um recipiente térmico e o armazena descaradamente em sua bolsa antes de entrar na fila junto com as outras modelos. Uma breve cerimônia é iniciada antes do desfile propriamente dito e os dois Líderes Máximos da Central iniciam o seu singelo discurso de abertura do grande evento.

        “Senhoras e Senhores. É uma grande honra recebê-los mais uma vez no nosso grande desfile de moda anual promovia pela nossa empresa CETRA e nossos maravilhosas parceiras de equipe, cujos amicíssimos e respeitáveis representantes estão presentes nesse momento tão especial para assistir e desfrutar dessa linda festa que já perdura 30 anos de sua existência. Eu gostaria de lembrá-los que este estádio..." - [aponta para baixo] - "que foi batizado de Parabellum... ele não foi nominado dessa forma por acaso. A Central, desde o início de sua existência, teve como objetivo maior, um dos princípios mais fundamentais que há muito tempo já tinha sido abandonado pelo Estado Americano: a LIBERDADE. Mas não uma liberdade pronunciada em vão. Com barreiras ao desenvolvimento do indivíduo como sujeito. Desprovida de substância ou condicionada à uma lealdade cega e à compulsória obediência a um Estado Maior que não o faz por merecer!" - [ressalta] - "Mas sim, a Liberdade que nos torna donos de nosso próprio destino, senhores dos resultados de nossos próprios frutos, e receptores das consequências de nossos próprios ATOS! NÃO MAIS precisamos nos justificar para ter acesso a TODAS as ferramentas que nos fazem evoluir como cidadãos e nem seremos restringidos de nossos próprios passos e anseios! É graças aos sons ecoados pelos bravos criadores dessa Comunidade que HOJE, ela se tornou a primeira região Paraestatal independente de toda a história dos Estados Unidos da América! E é graças ao povo da Central que, há 300 anos de nossa história, pela primeira vez, a Constituição Americana considerou como LEGÍTIMA, a criação de Organizações Paraestatais e Militares para fins de atender as NECESSIDADES de comunidades CARENTES e brutalmente esquecidas pelo Governo Americano! Foi à partir da criação da Grande Central que nós demos origem a esse GIGANTESCO estádio de nome PARABELLUM! É com muito ORGULHO que afirmo aqui às Senhoras e Senhores, que se nós quisermos PAZ em nossas vidas, então devemos nos preparar para a GUERRA! Muito obrigado, meus queridos! E começo agora, o 30º Grande Desfile Parabellum, apresentando ao Respeitável público, as modelos da turma UNDERGROUND!”

        Animosos aplausos da extensa plateia são ouvidos por todo o estádio, ao mesmo tempo, as mulheres que ouviam o discurso ficavam cada vez mais entediadas com a tamanha demonstração da hipocrisia de seus Líderes. Vega revirava os olhos enquanto escutava o parlatório. Após alguns minutos de recíproca receptividade dos espectadores, uma grande música dá início ao desfile e as garotas finalmente são liberadas para exibirem suas vestimentas. A plataforma de piso iluminado dava retorno de volta ao grande salão enquanto as moças eram captadas pelas câmeras profissionais. Todas as imagens ficariam restritas ao território da Central a contragosto de Ashley. Um pouco apática, a mulher permanece encostada à parede enquanto encara Winston com evidente decepção. Winston no entanto, não liga muito para a lamentação de Ashley e volta a apreciar o desfile.

        Ressentida e vingativa, Ashley discretamente saca de seu telefone celular para entrar em contato com alguém de sua confiança. A mulher teclava diversas vezes na tela “touch screen” enquanto Winston fitava o seu braço direito a fim de certificar de que Ashley agiria conforme planejado para o evento. A mulher no entanto, queria causar uma polêmica na festa para fazer com que as pessoas ficassem ainda mais curiosas para adentrar as barreiras do grupo fechado de elite. Ela iria provocar os Tabloides para gerar engajamento para a sua empresa sem o consentimento de Winston. Enquanto o desfile ocorria, Jason sorrateiramente perpassa pelo público para se sentar no meio da plateia, silenciosamente. 

        Ashley repara do pico do altar do estádio que uma das mulheres demonstra ódio genuíno à existência de Vega. Percebendo já a algum tempo que a moça vinha nutrindo rejeição à Transmorfo, Ashley mostra um sorriso de satisfação em seu rosto, percebendo que já tinha um alvo perfeito em suas mãos para arruinar o plano de manter Parabellum privativa do mundo. Sem nada mais a fazer, a carrasca só precisaria esperar o término do desfile para iniciar a discórdia. Já desconfiada, uma das funcionárias de Ashley, uma mulher parda, gótica, maquiada e de terno preto, fita a líder com suspeita. A funcionária em questão era uma SH. Conterrânea de Vega. Olhos bem verdes, lábios carnudos e cabelos bem ondulados e cheios. Uma das mulheres mais visadas pelos sequestradores da Central. Por pouco não foi capturada para a prostituição. Nunca revelou sua verdadeira natureza, fazendo se passar por uma mulher comum suplementada.

        Flashes. Luzes. Câmeras. Projetores voltados para os rostos deslumbrantes das moças. Todas muito elegantes, bonitas e organizadas. Tudo estava caminhando em perfeita harmonia e nada parecia desfazer a ordem das coisas. Quando o evento terminasse, Vega, apesar da feição serena e cheia de si, só pensava em ir embora dali sem olhar para trás. Já Simone e Palwari aproveitaram cada segundo daquele momento. Estavam radiantes e seguras. As outras moças, apesar de belas, pareciam apagadas perto das três mulheres mais visualizadas da festa. Esmeralda, uma das funcionárias do evento e segurança nas horas vagas, fica com pena das garotas que desfilam nas passarelas. Esmeralda teve a sorte de ser livre e ter poder sobre seus próprios bens e dinheiro, ao contrário das modelos. 

        Ashley contava os minutinhos para explodir uma potencial briga entre as meninas. Abre novamente seu celular com semblante de deleite, recebendo do primeiro Tabloide a notícia-bomba de que precisava após pouco tempo de conversa com um dos seus jornalistas particulares. Satisfeita, a mulher começa a reparar lobo abaixo de si, nos celulares nas mãos das pessoas que visualizavam as notícias do dia. Os resquícios dos vazamentos da Parabellum gerou repercussões que não mais podiam ser freadas. Após um bom tempo, o desfile finalmente se encerra e todos os convidados se reúnem dentro do enorme salão para fazerem uma grande refeição.

        Uma equipe de garçons e garçonetes se preparam para servir os pratos e bebidas. Era uma variedade absurda de alimentos de dar inveja até no maior dos Reis. Após o evento, haveria uma seleção de mulheres que ganhariam um troféu e uma medalha por conquistar a preferência da maioria dos profissionais avaliadores presentes no local. Como era esperado, Vega, Simone e Palwari eram as favoritas pelo público. Vega, sentada em uma das poltronas luxuosas do segundo andar do salão, nunca desejou tanto perder uma competição em sua vida. Já Simone, estava ansiosa para vencer a disputa que poderia lhe render flexibilização de seu contrato e uma promoção. Palwari, já não tinha muitas expectativas sobre eu futuro. Vivia bem, apesar de estar presa a uma cláusula leonina. 

        As outras moças sequer davam muita atenção para a seleção. Queriam mesmo era comer e darem o pé daquele lugar, pois estavam cansadas e famintas. Algumas até calorentas pela insolação que receberam. Por sorte, o salão estava fresco. Frio o bastante para refrescar a todos. De apetites abertos, os convidados se mantém ocupados aproveitando a refeição tardia enquanto as três mulheres permaneciam isoladas no andar acima das escadas laterais. Preocupada com a possibilidade de macular o evento devido a rivalidade de uma das modelos, Vega procura se manter distante dos presentes. Simone começa a ficar preocupada.

[Simone] — "Não vai nem comer alguma coisa?"

[Vega] — [nega sutilmente com a cabeça, com feição de agonia e tristeza].

[Simone] — [preocupada] — "Coma pelo menos um pouco, meu amor... isso aí é o de menos. Sempre existem essas figuras afetadas." — [acaricia os cabelos da amiga] — "Não se deixe abater por isso..."

        Vega cede um sorriso, apesar da tristeza. Estende seus braços para tocar nas mãos de Simone.

[Vega] — "... Eu queria muito acreditar nisso... mas aquela mulher me odeia e eu tenho muito medo de ganhar esse concurso porque eu não sei o que a Ashley vai fazer com essas meninas se elas começarem a interferir nos negócios, minha presença só vai causar mais problemas..." — [tristeza e aflição].

[Simone] — "Ssshh...! Não, sshh..." — [suave, acena sutilmente o dedo indicador] — "Não diga isso. Independentemente do que a Ashley quer, elas vão ter que lidar com isso. Estão sob contrato leonino e não podem interferir. Ashley é uma sociopata, não existe negociação com ela que não seja dançar conforme a música..." — [olha e cede um sorriso para Vega] — "E além do mais, você pode ser promovida se ganhar. Irá ter um cargo mais alto e uma liberdade maior." — [feição otimista].

[Vega] — "Ah...!" — [rompante de suspiro] — "A Ashley nunca vai me deixar ser promovida..." — [desilusão].

        Palwari fica em silêncio, acompanhando as falas das amigas.

[Simone] — "É claro que vai, menina, você venceu todos concursos internos, tem chance até de ir pra fora do País...! Pensa como vai ser importante você ganhar..." — [motiva].

[Vega] — "Não..." — [nega com a cabeça] — "Eu não quero ganhar... eu não quero mais vencer..."

        Simone exibe desapontamento e preocupação.

[Vega] — "Se eu perder, eu pelo menos vou ter paz... vou poupar vocês de serem punidas e poupar a mim também..."

[Simone] — "Do que está falando, Vega?" — [confusa].

[Vega] — [nega com a cabeça, de cima para baixo] — "Você não tá entendendo... eu sei qual é da Ashley comigo, ela não quer que eu “cresça” na empresa. Ela me quer como escrava vitalícia..."

[Simone] — "..." — [confusa] - "Como assim?" — [assustada].

[Palwari] — "Sequestro e falseamento do consentimento de SH’s." — [olhar lateral enquanto aprecia as unhas].

[Vega] — "Exatamente." — [rosto imóvel, breve olhar lateral].

[Simone] — "...Espera aí, me conta isso melhor, como assim, sequestro...?" — [confusa].

[Vega] — "Er..." — [pausa, piscar de olhos] — "Eu te conto isso melhor quando voltarmos pra Boate, agora a única coisa que eu quero é me preservar por enquanto..."

        Simone projeta suavemente suas costas para trás, demonstrando uma aparente desconfiança com a revelação das duas mulheres. Simone começa a ficar tensa com o que havia acabado de ouvir.

[Simone] — "Você vai me contar direitinho essa história, garota..." — [desconfiada e assustada] — "eu tô achando isso muito estranho."

[Vega] — "Eu vou contar. Tudo. Eu prometo." — [transmite confiança e transparência].

        Simone sinaliza positivamente para Vega, mas transmitindo leve tensão em sua face.

[Palwari] — "Bom..."  [levanta-se]  "Acho que vou ter que ir pegar as nossas refeições lá embaixo... aproveitando que eu passo despercebida mesmo, vou quebrar essa lixa pra vocês."  [semblante amistoso]  "Já volto."  [manda beijos para as mulheres].

[Vega]  "Vai precisar usar uma tigela pra pegar nossa comida...!"  [brinca, enquanto observa a amiga descer a escada].

[Palwari]  "Ah, há...! Jura que meteu essa, irmã?"  [sorriso expansivo].

        Palwari e Vega, sendo duas conterrâneas, ambas sabiam muito melhor sobre o que era comer bem. A mulher de fato trouxe uma enorme tigela de porcelana branca para comerem os mais diversos crustáceos e uma boa dose de finas folhas verdes. Os copos de sucos de frutas eram do tamanho de uma garrafa de 1,5 Litro. Enquanto o banquete era servido, Jason tenta disfarçadamente ter acesso às escadarias para se aproximar de Vega “na baixa”. Ashley no entanto, percebe a investida do homem e tenta barrá-lo de ter acesso às mulheres do segundo andar. Surgindo de rompante frente a Jason, a mulher exibe uma tentativa de intimidação disfarçada de simpatia, o que de início surpreende o “penetra”.

[Ashley]  "Oláá...!"  [sorriso expansivo].

[Jason] — [se espanta com a aparição da mulher]  "Uh...!"  [pausa]  "Olá, Senhora Dilworth."  [retoma o disfarce].

[Ashley] — [risos] — "Vamos, não precisa me chamar de senhora...!" — [risos] — "Te assustei?" — [feição subliminarmente maligna].

[Jason] — "Ah, não, imagine, eu só estava distraído..." — [demonstra simpatia e timidez e aponta para o salão] — "linda estrutura." 

[Ashley] — "O lugar é lindo, né?" — [olhar penetrante] — "O que está achando da festa? Está gostando?" — [olhar fixo e sorriso convincente].

[Jason] — "Estou adorando sim. A comida também está maravilhosa." — [sorriso disfarçado].

[Ashley] — "Que bom que gosta..." — [sorriso expansivo].

        Para garantir algum controle da situação, a mulher se mantém mais próxima de Jason se apoiando a uma barra na lateral das elegantérrimas escadarias douradas. Jason fica atento à mulher e disfarça uma doce serenidade em seu rosto.

[Ashley] — "Então... como eu sou um pouquinho curiosa, eu não pude deixar de notar suas visitas pelos arredores dos nossos logradouros de uns meses pra cá..." — [pontua a fim de intimidar Jason].

        O homem cede uma mistura de surpresa e admiração, na qual eram mascaradas com um simpático sorriso de confirmação.

[Ashley] — "E eu sei que você é um homem muito prestigiado nas Elites e que está procurando um grande amor... não está?" — [sob um olhar penetrante, ajeita a gravata de Jason].

[Jason] — "Ora..." — [mostra-se sem graça, coça a nuca, passa a língua nos lábios] — "Devo dizer, não quero parecer invasivo de forma alguma, não pense que sou algum tipo de espião, mas..."

[Ashley] — [deixa escapar risos espontâneos e feição genuína].

[Jason] — "Tenho que admitir que não pude deixar de admirar as mulheres mais encantadoras dessa Comunidade."

[Ashley] — "Hum." — [atenta].

[Jason] — "Eu estou procurando um Casamento, sabe? Eu desejo ter filhos, constituir uma família, deixar um legado para a minha vida, entende? Não vejo sentido em ter tanto dinheiro sem ninguém para poder compartilhar essa fortuna."

[Ashley] — [doce sorriso malicioso] — "Entendo bem. Acho isso muito honrado da sua parte." — [sorri].

[Jason] — "Ah, é muita gentileza sua." — [retribui].

[Ashley] — "Eu também tenho uma filha..." — [breve hesitação e mudança de semblante] — "Mas então, quem seria a sua Rainha de honra?" — [declinar de cabeça, sorriso charmoso].

[Jason] — "Ah, Senhora Dilworth, são tantas que fica até difícil escolher." — [sorriso].

[Ashley] — "Ah, eu sei que você é tímido e não quer contar..." — [sorriso maligno] — "Tem algum interesse pelas meninas do segundo andar?" — [feição intimidadora].

[Jason] — [pausa, leve medo] — "Ah, bom eu... ok. Você me pegou." — [sorri] — "Eu estou muito vidrado naquela moça de vestido branco..." — [olhar fixo para Ashley] — "Qual o nome dela?" — [olhar fixo, desfruta de um vinho tinto em uma bela taça].

[Ashley] — "Oh..." — [olha para trás] — "Você fala da Jurema?" — [sorriso].

[Jason] — "O nome dela é Jurema?" — [sorriso] — "Tão lindo quanto a dona..."

[Ashley] — "Ahrs..." — [risos e sorriso expansivo] — "Sabia que você queria a Jurema... os homens do planeta inteiro cobiçam por ela..." — [farto sorriso].

[Jason] — "Mas também... quem não vai se apaixonar por essa Deusa? Parece uma gata egípcia..." — [feição simpática].

        Ashley rompe em risadas e quase se derruba em cima de Jason.

[Ashley] — "Isso é verdade, ela realmente parece uma gata..." — [suspira] — "e tem uma VOZ...Linda...!" — [reforça gradualmente com os dedos de cima para baixo].

[Jason] — "Ah, eu nem posso imaginar como seria ouvir a voz dela todas as manhãs..." — [bebe a taça].

[Ashley] — [o semblante da mulher muda para uma gradual “decepção”] — "Entretanto..."

[Jason] — "O quê?... O que poderia dar errado, Senhora Dilworth?" — [feição de receio].

[Ashley] — [acaricia o ombro de Jason para consolá-lo] — "Sabe, Senhor..." — [olha diretamente para ele].

[Jason] — "Jason... me chame só de Jason."

[Ashley] — [confirma] — "Uhum..." — [pausa] — "a Jurema, apesar de tamanha popularidade, ela é de propriedade exclusiva da nossa empresa..." — [sorriso de pesar] — "sei que vem gostando muito dela, mas... ela não está à venda e nem pode ser casada até que cumpra o contrato que ela assinou conosco..." — [sorriso de satisfação].

[Jason] — [decepção] — "Ah, sim... eu entendo." — [inclinar de cabeça, contrair de lábios] — "É a vida." — [sorri].

[Ashley] — [riso tímido] — "Eu realmente sinto muito por deixar você triste..." — [sorriso melancólico].

[Jason] — "Ah...!" — [nega com a cabeça, contrai a face mostrando segurança] — "Quê isso, de forma alguma... eu sei lidar com perdas." — [confiante].

[Ashley] — "Tem muitas mulheres veteranas disponíveis para a venda, Senhor Jason." — [sorriso sereno e com maldade subliminar] — "Se estiver interessado... por favor, compareça..." — [olhar fixo].

[Jason] — "É claro, Senhora Dilworth..." — [gentilmente abaixa a cabeça, exibindo um cumprimento com seu chapéu] — "Com sua licença, minha Rainha, eu irei aproveitar a refeição." - [sorriso].

[Ashley] — "Fica à vontade, meu bem..." — [sorriso].

        Jason desce os poucos degraus que restavam próximos de si, deixando Ashley com a sensação de que havia vencido um embate com um potencial rival. Entretanto, apesar de aborrecido, Jason lança uma provocação que estilhaça o orgulho da mulher:

[Jason] — [vira-se] — "Mande um abraço para a sua filha Dotty, Senhora Dilworth...! Ela é tão adorável quanto a mãe." — [sorriso no rosto e mãos no chapéu, em um movimento estiloso e cortês].

        Ashley imediatamente muda o sorriso para um semblante de desconfiança e aborrecimento, somente observando Jason caminhar contentemente pelo salão até que desaparecesse no meio da multidão de convidados famintos. Ashley não tinha uma filha de nome “Dotty”, e a única garota que conhecia com essa designação, era a menina de 12 anos que Vega havia encontrado apodrecendo debaixo dos concretos de amontoados de lixo e destroços. Com medo de Jason usar disso como forma de chantagem para forçar Ashley a entregar Vega, a Líder sobe as escadas discretamente e contacta todos os seguranças do setor.

[Ashley] — [saca um pequeno rádio transmissor] — "Fiquem de olho no homem de chapéu rosa, o nome dele é Jason, e ele está atrás de VEGA..." — [pronuncia com ódio].

[Palwari] — "... O que foi, Vega?" — [estranha a amiga olhar tanto para o panorama do salão, procurando por algo].

[Vega] — "Aquela pessoa..." — [olha para Palwari].

[Palwari] — "..." — [aproxima de Vega] — "É aquele cara?" — [quase sussurra].

[Vega] — "É ele...! Preciso falar com ele..." — [sussurra].

[Palwari] — "Vá discretamente... e avise a Simone." — [sussura para Vega].

[Vega] — "Aviso sim..."

         Sem que Ashley notasse, Vega estava observado do topo do segundo andar, o homem com quem Dilworth havia acabado de conversar. Vega vai até atrás das cortinas do corredor do segundo piso para dar o aviso à Simone. Após alguns segundos, a moça sai novamente dos véus. Espia, de um lado para o outro, a procura de Jason. Querendo descer pelas escadarias para se comunicar com o rapaz sem passar pela vista de Ashley, seu plano falha quando é rapidamente impedida por Dilworth sob represálias, do outro lado das escadas:

[Ashley] — "Psiu!! Hey! VEGA...!" — [exibe rosto bravo].

        A mulher interrompe sua descida quando é apontada por Ashley.

[Ashley] — "Volte pra cima, agora...!" — [aponta seu braço direito apontado para onde a moça estava].

        Vega termina recuando para o seu posto anterior com as duas mãos erguidas para sinalizar “rendição”. Simone e Palwari ficam assustadas com o autoritarismo de Ashley sobre Vega. Jason começa a ser discretamente seguido por alguns seguranças da festa. Sem pensar duas vezes, o homem astutamente desvia o caminho direto ao banheiro, entrando em uma das cabines para disfarçar seu rosto. Com um espelho em sua frente, ele modifica sutilmente o formato de seus olhos, boca e nariz para que não não fosse reconhecido pelos seguranças. O homem também saca de seu chapéu e fricciona com uma de suas mãos. Como o objeto era feito de um material sensível ao toque que podia mudar de cor através do contato, o chapéu adotou uma coloração prata. Suas abas foram dobradas para que o objeto adotasse um formato diverso do que utilizava para a festa. Os detalhes em rosa de sua roupa também foram modificadas por meio de fricção até que ficassem irreconhecíveis de suas formas anteriores. Com uma caneta que, ao contato com um material, o faz modificar as suas cores por contato, Jason muda igualmente os seus elegantes sapatos para que não fosse reconhecido de imediato. O homem acaba recebendo uma chamada inesperada.

[Titane Katley] — "Jay, tá tudo bem aí?" — [som na escuta].

[Jason] — "Não, preciso de uma cobertura aqui, estou sendo seguido..." — [dedo indicador na escuta].

[Titane Katley] — "Está com a pulseira digital??"

[Jason] — "Estou." — [olha o pulso].

[Titane Katley] — "Acione o alarme de incêndio! Faça o povo dispersar..."

        Quando se menos espera, três homens adentram o banheiro masculino à procura de Jason. Sem dizer uma palavra para responder a namorada, o homem saca de uma gravata borboleta para colocar no pescoço como forma de disfarce, finge acionar a descarga e sai discretamente da cabine para lavar as mãos. Sem que fosse notado, os guardas procuram pelos cantos do banheiro o homem que na verdade estava bem na frente deles. Cumprimentando-o ao irem embora, os seguranças partem para outro local a procura do fugitivo. Jason, aliviado, sai aos poucos do local para certificar de que estava liberto. Esperando por alguns minutos para ter certeza de que não seria seguido novamente, o homem age de forma natural e presta atenção nas câmeras de segurança do salão. Titane já entendeu o problema.

[Titane Katley] — "Foi mal, Jay, não podemos ter acesso às câmeras, só você pode hackear o sistema daí, mas vai ter que achar um lugar discreto pra usar o relógio."

        Jason mantém o devido silêncio para não levantar suspeitas, apenas seguindo as orientações de Katley. Após 10 minutos entre uma “boquinha” e outra, o homem localiza Vega, que sabe exatamente que o rapaz que estava disfarçado era seu amigo. Vega quase pede socorro com seu olhar, e Jason, acena para ela com seu chapéu. Ashley estava a todo instante beirando as escadarias vigiando as três modelos, e infelizmente, o homem teve que esperar e recuar por enquanto até que encontrasse o momento ideal para resgatar Vega. Já cansada de ser vigiada por Ashley e percebendo que sua paciência estava indo buraco abaixo, a mulher começa a encarar Dilworth apenas com o olhar de singelo desprezo, mantendo seu rosto para de frente ao panorama do salão, de pé, frente ao pilar da altura de seu quadril, com revestimento reforçado de material que combina aço, acrílico e mármore.

        Como sinal de provocação pelo maus tratos que sofria, Vega retira um pequeno lenço de seu sutiã e o solta rumo ao piso do primeiro andar a fim de atrair Jason. Sem perder tempo, o homem consegue pegar o lenço antes que este encostasse no chão, fazendo um sinal de agradecimento para Vega. Com esse ato, Ashley nota a nítida provocação de Vega e sobe até o segundo andar para tirar satisfação com ela. Palwari fica em alerta quando nota a tensão. Simone pensa em se levantar, mas é sutilmente impedida por Vega, que exibe uma das palmas de suas mãos:

[Ashley] — [aproxima lentamente de Vega] — "Você quer mesmo sair da Boate o mais rápido possível, não é?" — [olhar de desconfiança e seriedade].

[Vega] — [sutil sorriso devasso] — "Só estou apaixonada..." — [encara Ashley].

[Ashley] — "É mesmo?" — [sorriso dissimulado].

[Vega] — [virar de cabeça] — "Não tinha notado? ... Eu gosto dele... ele faz o meu tipo." — [feição de desentendida e maligna].

[Ashley] — "Tá certo, Jurema..." — [a mulher aproxima-se para próximo ao ouvido de Vega] — "Quem sabe se você se comportar, você não tem o seu amigo são e salvo pra você..."

        Vega começa a congelar a alma e sentir como se uma faca estivesse entrando lentamente em suas costas. O comprimento da luz solar diminui à medida em que o tempo esfria e o rosto assombrado de Vega é colocado em evidência pelos feixes dos raios solares.

[Ashley] — "... Hum?" — [expressão contente] — "Talvez nós possamos negociar o seu lindo encontro romântico com ele..." — [mão nos ombros de Vega] — "ou então quem sabe, providenciar algumas partes do corpo dele de presente pra você..." — [sorriso de desdém].

        Satisfeita, Ashley afasta seu corpo da Transmorfo. Abismada com o que tinha acabado de ouvir, Vega dispara um olhar que misturava um semblante de indignação e vingança.

[Vega] — "Se atacar Jason, eu te rasgo viva."

[Ashley] — "Uh, tô morrendo de medo..." — [debocha].

[Vega] — "Vai sentir, porque eu vou eu matar todos aqui desse salão, incluindo seu Chefe, seu esposo, seus amigos, pais e sua filha que você despreza...!"

[Ashley] — "O QUÊ, SUA..." — [com raiva, aproxima-se de Vega no intuito de intimidá-la].

[Vega] — "Vou fazer da sua vida um inferno porque sua família inteira vai saber que você promove pedofilia na sua Boate! É aí que eu vou te deixar sequelada e vou fazer que com todos da Central saibam o que você fez com a Dotty...! Sabe quem é Dotty, Ashley?? — [exibe feição irônica] - "Foi você quem mandou envenená-la." — [raiva e indignação].

        Com raiva, mas contendo sua fúria pelo medo de ser punida pela própria organização que a acolheu, Ashley respira fundo, ajeita seu chapéu, melhora gradualmente seu semblante para Vega e encarna sua persona, sutilmente se evadindo de cena como se nada tivesse acontecido. Percebendo que a ameaça surtiu efeito, a mulher começa a tentar rastrear por Jason em vista de sua preocupação pelo rompante atrito que teve com sua raptora. Apesar de ter procurado por vários cantos do salão, corredores, banheiros, quartos e outros andares, não conseguiu mais encontrar o homem. Subindo para uma das salas de Circuito Fechado de Televisão, Vega checa os sons para saber se havia presença humana do outro lado da porta. A mulher aciona a destranca com seu próprio dedo por meio de uma cópia improvisada e perfeita da digital de Dilworth para ter acesso a locais restritos. 

        Apesar do acesso fácil ao local, Vega tem seu dispositivo acionado, levando uma leve descarga elétrica como forma de advertência para que a mulher saísse dali. Quase escorregando ao solo, a moça se levanta com certa dificuldade e consegue erguer a cabeça para conseguir dar uma breve olhada em uma das telas que exibia as imagens da área gramada. Um homem de “terno de verão” em detalhes prata, preto e cinza e um chapéu prateado, passou correndo para longe. A mulher nota que Jason havia conseguido sair da Parabellum em segurança. Aliviada com a escapatória de seu amigo, Vega deixa a sala, fecha a porta automática e retorna novamente para o espaço aberto do segundo andar por onde estavam suas fiéis companheiras.

10__________________________________________________________

.   .   .


[Alguns minutos depois]


        O homem estava fora do estádio, escondido em uma área isolada por portões metálicos e construções de concreto. O sol, apesar de baixo, batia forte em seu rosto. Era um local tranquilo e bonito para espairecer e tomar um bom café, pelo menos em tempos de paz. Ao abrir o lenço que Vega jogou para Jason, o rapaz saca de um spray revelador e pressiona por cima do pano macio, logo exibindo uma mensagem escrita por tinta invisibilizadora, na qual detalhava a senha, ID e código de usuário usado por Ashley para impedir o acesso remoto das câmeras e dispositivos da Central. Contente, o homem fotografa a mensagem através de seu relógio e envia direto para o contato de Audrey.

[Jason] — "Esse baitola é esperto... ou melhor: essa vaca, é DEMAIS..." — [exibe sorriso de satisfação].

        Enquanto Jason comemorava sua vitória, Simone procurava por Vega, preocupada pelo da moça ter sumido do salão da Parabellum. Quando menos esperava, a mulher finalmente encontra sua amiga.

        

.    .    .


[Simone] — "Onde você estava, fiquei preocupada! A seleção já vai começar...! O que Ashley te disse?" — [preocupada].

[Vega] — "Tive que verificar umas coisas... depois eu te falo, eu ainda tô meio tensa..." — [olhar para baixo].

[Palwari] — "Você tá bem?" — [mãos nos ombros da amiga].

[Vega] — "Vou ficar, nem sei como é que eu aguentei esse pesadelo..."

[Palwari] — "Rsm...! Você aguenta mais do que qualquer criatura dessa galáxia..." — [leve sorriso].

[Vega] - "Ah... eu não mereço todo esse crédito..." — [sorri].

        Palwari sorri para a amiga.

[Palwari] — "Vamos, temos de nos reunir na plataforma para a premiação. Como de costume. Com a diferença que agora nós temos uma adversária que supera todas as expectativas dos humanos..." — [sorriso expansivo].

[Vega] — "Acredite, nem sempre é muito bom estar acima do topo..." — [semblante cansado].

[Simone] — "Não se preocupe, você vai tirar uma semaninha de folga com a gente e vai tirar essa inhaca rapidinho..." — [massageia os ombros de Vega].

        As garotas descem as escadarias e todas se reúnem em um conjunto de camarins para se higienizarem, maquiarem, arrumarem detalhes de seus penteados e de suas unhas. Os esmaltes mais pareciam micro televisores de outdoors que mudavam constantemente de cores e até exibiam uma sucessão de quadros em dinâmica. Todas as roupas eram da mais alta costura feita com uma qualidade ímpar, cuja textura preservava a nitidez, homogeneidade, resistência e praticidade. Todos os tecidos lançavam mão da mais avançada nanotecnologia, inacessível para 90% dos cidadãos americanos. Vega ficava sempre com as mais belas e raras joias consigo.

        Para a seleção premiada, apostou em cores violeta para o seu belo vestido de frontal “blusa” sem manga, sobreposto a um macacão de pele no formato de redinhas em gola alta e manga longa na cor rosa chiclete, sapatos assimétricos combinando com os tons rosa e violeta e brincos e colares escancaradamente gigantes e encorpados de pedras lindíssimas e pesadas. As pontas dos cabelos de Vega foram pintadas sob o estilo “universo”, desenhados nas cores rosa e violeta. Suas unhas eram de formato arredondado, com cores espelhadas que facilmente confundiam os olhos dos espectadores. Como de costume de Vega, as barras do vestido eram divididos de frente e detrás, deixando aparecer as suas belas pernas e um pequeno pedaço de suas nádegas. Dispunha de uma cor de íris bem rosada para chamar atenção. Apesar de todas as mulheres estarem visualmente deslumbrantes, a Transmorfo era a que mais atraía as câmeras mais apaixonadas.

        Umas das partes do corpo mais admirados de Vega pelos convidados, eram seus exuberantes cabelos. Cheios, massivos e sedosos, versáteis e lindamente espetados nas pontas, fazendo belas mechas ao logo das proximidades de sua testa. Muitas pessoas inclusive, queriam tocar em seus fios. Palwari e Simone também foram muito enamoradas e paparicadas. Ambas extraordinariamente belas e surreais. Estranhando o fato de Ashley não estar impressionada com a exibição, algumas das garotas começam a cochichar umas com as outras a fim de especularem o que teria acontecido com a Patrona. A mulher permanecia de braços cruzados, com pé e costas encostadas a uma parede e mantendo uma feição de tédio e indiferença.

        Uma das mulheres que tinha Vega como inimiga, lançou um olhar de desprezo para a colega quando soube que a mesma havia mudado a cor da íris. Até aquela altura, os Tabloides já haviam escolhido um alvo ideal para destilar seu veneno. A adversária mal tinha percebido que foi notada lançando olhares de profundo desprezo contra Vega ao longo do desfile e se tornou notícia no topo de relevância. Como no salão havia telas coadjuvantes que exibiam os títulos dos noticiários, a moça deu de cara com o primeiro título que a fez quase perder a alma do corpo. A mulher começou a ficar nervosa e a querer fugir do local.

“RIVALIDADE? MODELO E EX-GORDA SE ESTRANHAM DURANTE O 30º EVENTO PARABELLUM - Sandra Bella parece não gostar da presença da novata que encantou corações no mundo todo.”

        Tonteada com a forma como foi retratada pelos jornais, a moça quase desmaiou quando viu sua foto sendo divulgada de maneira pejorativa e em ângulos profundamente constrangedores. Tentando disfarçar a tristeza e humilhação que sentia, a mulher tenta intercalar entre um sorriso e outro, sem muito sucesso. Teve vontade de chorar. Por milésimos de segundo, de morrer. Fechou os olhos e parou para respirar profundamente antes que seu emocional a destruísse. Comentários surgiam de várias partes do evento e Sandra começava a ser alvo de fofocas e semblantes escandalizados. Muitos não gostaram da abordagem jornalística suja feito contra Sandra. Como se não bastasse o soco que no estômago que havia acabado de levar, outro noticiário tendencioso estourou nas recomendações do submundo das redes sociais. O peso recaiu novamente sobre as costas de Sandra como quem havia acabado de sofrer um esmagamento por um rolo compressor:

“A MULHER, QUE DE BELA NÃO TEM NADA: O QUE QUER A CENTRAL AO MANTER SANDRA BELLA JUNTO AO TOPO DA CADEIA DA MODELAGEM?”

        Já destruída por dentro, a mulher, já quase a beira de ter náuseas, se retira da plataforma já com as mãos sobre a boca e nariz, e sai rumo a um corredor mais próximo que ligasse direto a um toalete, visto que já não aguentava mais tamanha humilhação. Ashley deixa escapar um discreto sorriso em sua face. Era sinal de que seu plano estava perto de ser bem concretizado. Queria deixar a Parabellum em evidência contra a vontade de Wisnton por meio da rivalidade entra Vega e Sandra Bella. As moças eram somente mais um bode expiatório. Abrindo seu aparelho celular, Ashley nota que as ações da bolsa sofreu uma considerável queda. Aproveitou a deixa para comprar de empresas espalhadas pelas quais estava interessada. O tom provocativo das matérias que citavam Sandra Bella, a classificavam por meio de vários adjetivos pejorativos que iam desde “invejosa”, “velha”, “ultrapassada”, até “ex-gorda”, “depressiva” e “amargurada”. Aos prantos e com a maquiagem borrada em seu rosto, a vítima é abordada por Ashley, que de forma dissimulada, tenta consolar a mulher devastada.

[Sandra Bella] — [exibe soluços e lamentos] — "...Quê que você quer aqui, Ashley...?" — [antebraços sobre o rosto] — "Me deixa em paz..." — [afasta as mãos de Ashley] — "Se veio aqui pra me repreender, quero que você saiba que eu odeio esse trabalho..." — [soluça] — "Eu ODEIO você e toda essa Boate, e tudo que eu quero na minha vida é que você me demita, porque eu não aguento mais isso aqui...!"

        Ashley exibe uma feição de compaixão por Sandra e acaricia o seu rosto.

[Ashley] — "Oh, meu amor... não vim aqui pra te julgar. Nem para te punir... sei que está com raiva e que está dizendo tudo isso da boca pra fora, e está tudo bem..." — [sorriso de pena] — "sei que se sente diminuída por causa das cobranças que são feitas contra você, mas NÃO sou eu a pessoa quem você deve culpar...!" — [mão contra o peito] — "Nunca fui e nem sou a favor disso que você está vendo, Sandra... nem eu e nem o Winston queremos te prejudicar, muito pelo contrário. Nossa política sempre foi engrandecer nossas garotas, não inferiorizá-las. Isso que apareceu nos noticiários é nojento...!" — [aponta o braço para a lateral] — "Como você acha que eu fiquei depois de ver tamanhas atrocidades que fizeram contra você nos portais? Eu tô horrorizada...!" — [feição de tristeza] — "E também estaria arrasada assim como você... quero que você saiba que você é muito valorosa para nós, minha querida. Você representa muitas garotas nesse mundo..." — [coloca a mão no ombro de Sandra].

[Sandra Bella] — [limpa o rosto com lenços entregados por Ashley] — "Que diferença isso faz agora, Ashley? Você viu o que eles falaram de mim? ... Eles ACABARAM com a minha vida...! Agora nem na faculdade eles vão me aceitar porque eu tô com a imagem SUJA...!" — [choro incontinente] — "TODOS agora vão fazer chacota de mim, vão me seguir na rua, vão rir da minha cara, minha vida vai virar um inferno...!" — [entre soluços].

[Ashley] — "Minha querida, a culpa não é sua... nunca foi... você não merece ser perseguida dessa forma, não, nós não vamos deixar eles te atacarem, jamais...!" — [sorriso de pena] — "E pode ter certeza que aquele sujeitinho, o Jason vai ser duramente responsabilizado por isso, eu te garanto." — [acaricia o queixo da vítima].

        Sandra interrompe o choro por um momento a fim de limpar suas lágrimas e secreção nasal com um de seus lenços que havia em sua bolsa. Estranha por um momento pelo nome do rapaz.

[Sandra Bella] — "E quem é esse tal de Jason?..." — [soluça] — "Se eu achar ele, quero arrancar todo o dinheiro que ele tem...! Eu tô tão cansada desse trabalho..." — [abaixa a cabeça e soluça].

[Ashley] — [mão sobre a parede e outra apoiada à cintura] — "Ora, menina, você não sabe quem é Jason? Ele é o amante de Vega...!" - [olhar surpreso].

        Nesse momento, um imediato rompante de surpresa e desconfiança surgiu no rosto da mulher vitimada. Seu choro é imediatamente cessado quando começa a ligar os pontos sob a falsa indução que lhe é feita pela Dilworth. A raiva e desprezo que já existia contra Vega, agora se tornou ódio.

[Sandra Bella] — "Amigo de quem...?" — [olhar de ira gradual].

[Ashley] — "Ué, menina, Vega tem um amante ciumento e imaturo, você não viu nos jornais?" — [dissimula surpresa] — "Foi ele que vazou as suas fotos para Deus e o mundo ver...!" — [gesticula] — "Estou te falando, eu li a notícia inteira...!" — [exibe o aparelho telefônico para Sandra].

        Ao se deparar com a reportagem na tela do aparelho, Sandra, em um misto de raiva e ansiedade, toma imediatamente o celular das mãos de Ashley para verificar a informação com seus próprios olhos. À medida em que deslizava a tela do telefone, mais tremia de raiva e indignação por pensar ter sido Vega quem tinha feito a armação contra ela. Sentindo que não tinha mais nada a perder, a mulher, com os braços amolecidos e sob um semblante que mesclava desprezo e um sorriso de satisfação em sua face, entrega o aparelho nas mãos de Ashley, que finge estranhar o comportamento da modelo e a fita com dúvida sobre suas ações.

[Ashley] — "Por que está sorrindo?" — [estranha] — "Não vai fazer nenhuma burrice, vai...?" — [mostra leve receio pela condita de Sandra].

[Sandra Bella] — "Burrice é eu nunca ter dado um belo chute no rabo da sua amante VEGA!" — [sai do toalete].

        Em surto de ódio, a mulher revoltada sai correndo para fora do toalete a fim se afastar de Ashley, que vai atrás da moça para tentar pará-la antes que provocasse efeitos colaterais.

[Ashley] — "Menina...! Sandra!" — [tenta impedir] — "Olha o respeito, garota, aonde pensa que vai?? Pare com isso, Sandra, você vai se machucar, não sabe com o que está lidando! Sandra!" — [segue apressadamente a mulher alterada] — "Volta aqui! ... Olha AQUI! Você não vai atrapalhar a solenidade deste even..." — [brusca interrupção].

        Quando menos esperava, Sandra saca de uma arma de fogo irrastreável de sua bolsa contra o rosto de Dilworth para ameaçá-la. Surpreendida com a ousadia da mulher, a Líder não vê outra alternativa além de recuar.

[Sandra Bella] — "Se afaste de mim, ou eu atiro...! Essa MERDA de festa acaba aqui." — [exibe feição de ódio e revolta em meio a maquiagem borrada].

        Ashley hesita em perseguir Sandra. Já esta, se evade do local à passos largos para longe dali.

[Ashley] — [mostra-se abismada] — "Gente...! Que mulher louca..."

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.

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        Já haviam se passado alguns minutos desde que Sandra se afastou da plataforma. Aproveitando o fato de que todos estavam distraídos com a apresentação das moças, Vega estava bem à sua frente, momento ideal para causar um estrago na festa. Com muita raiva e indignação, Sandra caminha vigorosamente e cede um esbarrão proposital contra Vega, que se assusta com a abordagem grosseira da mulher. Sentindo de longe a raiva de Sandra, a moça a fita com surpresa e receio.

[Sandra Bella] — "Ah, desculpa, a ex-gorda depressiva esbarrou em você, foi? Lamento, mas eu acho que compensa mais uma mulher “invejosa” de verdade do que uma falsificada que fabrica uma vagina de plástico..." — [provoca].

[Vega] — "Por que está fazendo isso...?" — [assustada, olhar fixo].

[Sandra Bella] — "Ué, não foi isso que você mandou o seu amante falar de mim?? O nome dele é... Jason? Não é isso?" — [feição irônica].

[Vega] — "Do que está falando, qual é seu problema...?" —  [indignada e ultrajada]. 

[Sandra Bella] — "Ah, é, então porque que seu NOME está junto do seu amante que me difamou pela Internet inteira, hein?? Só porque eu não sou uma boneca inflável igual a você??" — [gesticula].

[Simone] — "CALMA, AÍ, GATA...! Quê que tá pegando??" — [intervém ficando à frente de Vega sob gesto de valentia].

[Sandra Bella] — "Por acaso você não viu o que essa COBRA geneticamente modificada espalhou na imprensa??" — [feição de raiva e deboche, gesticulação e apontamento].

[Simone] — "Você é doente, garota! Tá se achando especial demais pra achar que alguém vai expor VOCÊ...! Qual é a sua??" — [irritabilidade].

[Sandra Bella] — "LEIA o que está em TODOS os jornais, minha filha! São VOCÊS que ficam lambendo o rabo dessa VÍBORA de plástico! Especial é ela, não é mesmo?!" — [feição irônica]

[Vega] — [pasma e indignada] — "Você é louca...." 

        Palwari entra na frente para interferir na discussão com intuito de  defender Vega das agressões gratuitas de Sandra.

[Palwari] — "Desculpe, mas de onde você saiu, senhorita??" — [estranha].

[Sandra Bella] — "Eu é que pergunto de onde VOCÊ e sua amiga alienígena saíram...!" — [insulta].

[Palwari] — "Olha o respeito, minha filha, dê um fora daqui! Se não quer cooperar, pelo menos não atrapalhe!" — [olhar de raiva].

        As outras amigas de Sandra se reúnem para próximo da modelo com intuito de apartar a briga.

[Mulher 03] — "Galera, vamos parar de brigar aqui, beleza? Tá todo mundo nos olhando fazendo barraco aqui, então vamos parar de discutir, tá legal??"

        Todas as câmeras começam a se voltar para Sandra e Vega. Todos estavam curiosos para ver no que resultaria aquela rivalidade em ebulição. Como em um Reality Show onde a plateia torce pelo sangue, os olhos ficavam atentos aos surtos da rival da Transmorfo, que aparentava cada vez mais irritada com as provocações de Sandra. Enquanto as brigas ocorriam, Ashley procura desesperadamente por Winston, que se ausentou durante o período crucial do evento da Parabellum.

[Ashley] — "CADÊ o Winston quando preciso dele?? Vagabundo...!"

        Ao final de 03 minutos, momento em que Dilworth estava tentando localizar seu Chefe, Ashley escuta rompantes de gritos entre Simone e Sandra. Assustada e curiosa, a arquiteta da discórdia resolve parar de procurar por Winston para ver de longe até onde aquela briga iria chegar.

....

[Vega] — "Isso é mentira, eu não mandei NADA...!" — [indignada].

[Sandra Bella] — "Ah, não mandou mesmo não, querida?? POR QUE o SEU namorado FEZ em seu nome, então??"

[Simone] — "Deixe de ser IDIOTA, menina, Vega é vigiada 24 horas por dia, COMO que ela vai pedir pra difamar alguém??" — [espantada e aborrecida].

[Sandra Bella] — "Porque JASON é o melhor amigo DELA, e o nome deles estão em TODOS os tabloides!" — [aponta para Vega].

[Vega] — "Mentirosa! E com que prova você afirma isso? Você acha que alguém aqui liga pra você?" — [encara a mulher com feição de estranhamento].

        Sandra tenta bruscamente avançar em Vega, mas é impedida por sua amiga Palwari, que atravessa na sua frente no intuito de contê-la com um de seus braços, empurrando-a para longe de seu alvo.

[Palwari] — "Segura a sua onda, senhorita...! Não dê mais um passo...!" — [ameaça].

        Todas as outras modelos começaram a conferir a discussão entre as mulheres e se concentram em roda para ver qual desfecho traria o escândalo perpetrado por Sandra Bella. Comentários e rostos curiosos se espalham como vírus entre os convidados do Evento Parabellum.

[Sandra Bella] — [risos] — "Você acha que me bota MEDO em mim, “Palwari”??" — [encara a mulher] — "Já que eu fui chamada de “Ex-Gorda”, “Ultrapassada” e “Depressiva” por essa Senhora atrás de você, quero EU falar algumas verdades aqui nesse estádio!" — [alterada] — "QUÊ QUE ÉH??" — [levanta os braços] — "O QUE TODOS VOCÊS VÊEM DE TÃO ESPECIAL NESSA MULHER?? ACHAM QUE ELA É PERFEITA SÓ PORQUE NÃO TEM RUGAS? ESPINHAS? ESTRIAS E CELULITE??" — [grita para todos os espectadores] — "VOCÊS TEM TANTA RAIVA DE MULHER PRA TENTAR SUBSTITUÍ-LAS POR UMA BONECA INFLÁVEL??" — [gesticula os braços em revolta].

[Vega] — [feição de nojo e indignação] — "Mentirosa..."

[Simone] — "E DAÍÍÍ se ela não tem estria, minha filha?!" — [gesticula e estende os dois braços] — "Se ela está onde ela chegou, é porque ela fez por MERECER estar aqui! Então SAI com SUA inveja PRA LÁ, sua Palhaça!!" — [joga uma das mãos para cima].

[Sandra Bella] — "INVEJA NADA, PAU MANDADA! NÃO PRECISO TER INVEJA DE NINGUÉM PORQUE QUEM FEZ POR MERECER ESTAR AQUI SOU EU!" — [bate no peito três vezes] — "QUE FEZ DIETA, ATIVIDADE FÍSICA, PASSOU FOME, AGUENTOU ASSÉDIO, PUXOU FERRO, CUIDOU DE PELE, CABELO, UNHA, LUTOU PRA MANTER O PESO EM DIA, SOU EU QUEM MERECIA ESTAR AQUI, NÃO UMA BONECA DE PLÁSTICO DE NUNCA PRECISOU SE ESFORÇAR NA VIDA PRA FICAR PERFEITINHA!" — [aponta bruscamente para Vega].

        Vega se mostra cada vez mais indignada e revoltada com os insultos da rival. Quanto mais constrangida parecia, mais raiva sentia de Sandra Bella.

[Simone] — "QUERIIIDAAA....QUERIIIDAAA...!!" — [gesticula e bate palmas] — "Existem mulheres MUITO mais bonitas do que VOCÊ!! E MUITAS dessas mulheres NUNCA PRECISARAM FAZER O MESMO ESFORÇO QUE VOCÊ, PORQUE NASCERAM PRIVILEGIADAS!" — [fala pausadamente e com sorriso de ironia] — "SUPERA ISSO, MEU AMOOORR...!" — [gestos e expressão irônica].

[Sandra Bella] — "Mas ESSAS mulheres tiveram que RALAR pra ficarem bonitas, Beldade!! NADA vem de graça, meu amor! Ninguém que seja mulher de verdade chegou aqui com tudo de mão beijada!" — [movimentar de cabeça para sinalizar ousadia].

[Simone] — "E O QUÊ QUE NÓS TEMOS COM ISSO, MINHA SANTA..??!" — [sorri, unindo as pontas dos dedos das duas mãos] — "EU NASCI BUNDUDA E PEITUDA, E DAÍ?? AGORA EU VOU TER QUE GUARDAR MINHA BUNDA EM CASA PORQUE A MADAME FICOU OFENDIDA?!?" — [ironiza com um balançar de cabeça].

        A plateia se rompe em risadas coletivas e coros de deboche com a situação patética na qual as modelos estavam expostas. Vega respira fundo de raiva e fecha os olhos para não ter que lidar com o processo de desumanização que estava sofrendo.

[Sandra] — "NÃO EXISTE mulher que fique bonita nesse mundo só de pernas pra cima, minha flor! Até a mulher mais TOP do planeta tem que se CUIDAR e se arrumar! Isso é uma questão MERITOCRACIA, não de privilégio! Agora você vem me defender uma DETURPAÇÃO dessa??" — [mira para Vega] — "Isso NEM é uma mulher de verdade! Ela Só SIMULA uma figura feminina pra enganar os outros!" — [revoltada, aponta para a face de Simone].

        Vega, escutando todos os insultos calada, deixa gradativamente transparecer ódio e desprezo em sua face. Palwari perde a paciência com a mulher e desfere de forma enérgica sua agressividade contra Sandra no intuito de intimidá-la:

[Palwari] — "OLHA AQUI, VOCÊ CALA ESSA SUA BOCA, VADIA!" — [furiosa] — "Você tá falando de uma irmã minha, entendeu??!" 

[Sandra Bella] — "CALA A BOCA VOCÊ, SUA GAROTA MADE IN CHINA! Você é  IGUAL a ela! Uma FALSA! Uma usurpadora!" — [furiosa].

[Palwari] — "E quem é você pra falar de figura feminina, oh, sua RESSENTIDA BUNDA MOLE?!" — [encara Sandra] — "Você nem peitos tem! A sua BUNDA é lipoaspirada, sua BOCA é TODA feita na agulha e você tem DOIS SILICONES nas suas duas mamas!" — [sinaliza dois dedos].

[Sandra Bella] — "TENHO! Tenho mesmo, e daí?! Melhor do que ser SUPLEMENTADA!"

[Simone] — "OLHA AQUI, menina, agora CHEGA! Se VOCÊ tem RAIVA de Jurema porque ela mais amada do que você, é problema única e exclusivamente SEU! Agora NÃO acuse a minha amiga de algo que ela não FEZ!"

[Sandra Bella] — "Se quer continuar perdendo TODOS os concursos e seus empregos pra ela, ÓTIMO, DESTRUA SUA VIDA!"

        Simone e Palwari caem em risadas irônicas e a plateia dança conforme a briga. O clima de circo e piada na qual havia sido reduzida a discussão finalmente se encerra quando Vega percebe uma contradição na mulher.

[Vega] — "Tá alterada desse jeito por é uma suplementada, não éh?" — [encara Sandra].

[Sandra Bella] — "O quê??" — [encara Vega].

        Nesse momento, o público se cala quando Vega, sob tiques nervosos em um de seus olhos, semblante de melancolia e desprezo em seu rosto, caminha lentamente para próxima de Sandra, já tendo perdido quase toda a gota de paciência que havia tido com a sua colega até o momento.

[Vega] — "Você acha que ninguém aqui sabe que você é suplementada?" — [olhar fixo de desprezo].

[Sandra Bella] — "Ah, é? Tem meu exame de sangue? Tá tristinha porque nunca precisou superar seus limites pra merecer ficar bonita?" — [sorriso irônico].

[Vega] — "Dá pra ver no seu sangue que você é suplementada, você não me engana... altas doses de células transmórficas no seu sangue..." — [desprezo].

[Sandra Bella] — [rompante de risos] — "Ah, me poupe, né minha filha? Você agora tem poderes sobrenaturais?? NÃO, EU NÃO SOU SUPLEMENTADA, NUNCA PRECISEI DE NADA DISSO..." — [feição de raiva e cruzar de braços].

[Vega] — "Então porque quer rivalizar com uma SH?" — [feição de desprezo].

        Palwari e Simone começa a ficar com medo de Vega avançar em Sandra. Palwari até tenta puxar o braço de Vega para evitar uma tragédia, mas à essa altura, Vega já tinha enrijecido seu corpo de tal forma que nenhum ser vivo do planeta conseguisse tirar a mulher do lugar. Simone olha para a amiga de cabelos Rosê e começa a temer pelo pior.

[Sandra Bella] — "Porque você é uma FRAUDE! Passou a vida toda sem NUNCA precisar fazer um único esforço pra se manter minimamente bonita. Você ROUBA os nossos trabalhos! Você PASSA por cima de todas as garotas! Você NUNCA se preocupou com isso porque SABE que vai vencer! Você não passa de uma trapaceira!" - [aponta para Vega]. 

[Vega] — "Eu me esforço SIM. Só que não da mesma forma que você... e eu nunca roubei nada de ninguém, não sou nenhuma cabaça." — [olhar desafiador].

[Sandra Bella] — "MENTIRA. NUNCA precisou de maquiagem, de tratamento estético, de hidratação, de exercício físico, e agora acha que pode vir aqui competir com as garotas porque no fundo tem CERTEZA de que sempre vai ser a preferida desse BANDO de punheteiros desse estádio de MERDA...!" — [aponta para os jurados, que se sentem ultrajados com a falta de respeito da mulher] — "VOCÊ, VEGA...! Não é esse seu verdadeiro nome?? Ou até isso é mentira também??" — [estende os braços] — "VOCÊ! NÃO merece estar aqui...!" — [toca o peito de Vega com o dedo indicador].

[Vega] — "Pois pra mim não faz diferença o que você acha. Não vou ficar aqui gastando meu tempo com sua patifaria. Tenho 5000 anos pra viver, ao contrário de você."

[Sandra Bella] — "Oooohh....! A dondoca agora tem vida longa??" — [feição irônica, mãos unidas, dedos cruzados] — "Pois, bem, Senhorita Vega, pois eu quero mais é que você e sua raça ladrona de empregos geneticamente modificada se FODA por mais 5000 anos!" — [vomita].

[Vega] — "POIS ESTÃO VÁ DESCONTAR NOS SEUS PAIS, EU NÃO TENHO CULPA SE VOCÊ NASCEU ESTRAGADA!!!" — [em um rompante de raiva, explode em alto em bom tom para cima de Sandra].

[Sandra Bella] — [exibe feição espanto, seguido de impulsividade].


++++++++++[Joan Jett - Bad Reputation]++++++++++


        Sandra parte pra cima de Vega com um ligeiro soco no meio do nariz da Transmorfo, que revida com uma estrondosa mesa de acrílico pesado sobre o corpo da mulher. Esta, era a única mesa por onde estavam os avaliadores do evento. O objeto parte em dois como uma taça parte em milhões. A mulher parou no chão como quem tinha acabado de sofrer um atropelamento por um caminhão de 20 toneladas. Nunca havia sido tão arrebentada antes como foi nesse dia. Feita a desgraça, todas as mulheres começam a se amontoarem em coros e gritos de raiva, transformando o evento de modelagem em um verdadeiro Coliseu. Vega e Simone disputam socos, chutes, tapas e dezenas de golpes baixos com as veteranas do lado de Sandra. Palwari desvia de socos e agarra duas mulheres por trás, as lançando simultaneamente direto com suas cabeças no piso, de frente para trás. 

        Simone soca o queixo e chuta uma das mulheres no meio das pernas, sendo logo em seguida derrubada por outra pelo tornozelo, tomando três pancadas com uma bola de vidro na cabeça até que quebrasse em milhares de pedaços. Vega puxa a agressora pelos cabelos e enfia o rosto da mulher contra um pilar próximo de si por três vezes seguidas, a fazendo a moça sangrar pelas duas narinas. Descabelada, Vega cede o último golpe de misericórdia jogando a mulher contra o piso. À medida em que caminhava pelo corredor polonês humano, pessoas, mesas e jarros de água eram jogados ao vento. Vega se abaixava para desviar até de bolsas e cachorros que eram lançados pelos seus próprios donos estúpidos. A confusão era tão generalizada que as portas por onde conectavam o salão e o mundo externo foi arrebentado pelos convidados e as modelos. Extintores de Incêndio. Tacos de Baseball. Garrafas. Câmeras profissionais. Canetas BIC. Dedos nos olhos. Mordidas. Tudo era usado como arma para as integrantes do evento se golpearem entre si. Mulheres lançadas às mesas. Cadeiras espatifando nas costas de outras. Muitas se penduraram nas cortinas a fim de lançarem golpes de pesadas sobre outras modelos. Algumas até usaram o peso do corpo em queda livre para se jogarem em cima de uma multidão de garotas furiosas. Duas mulheres se seguravam pelo vestido para medir a quantidade de socos que cada uma podia aguentar até caírem. Simone cai no piso com uma das meninas e a golpeia com cinco socos nos dois lados das faces, quando é repentinamente nocauteada por uma massiva garrafa de Whiskey pela moça. Uma mulher é vista caindo do 3º andar, ao ser jogada por outra. Outras saem rolando das escadas em meio a tapas e socos.

        Todas as modelos que participavam das vias de fato, já estavam com seus rostos e vestidos imersos de puro sangue. Apesar dos danos, nenhuma delas parecia fácil de neutralizar. Eram resistentes como bigornas. Todas elas escondiam um segredo muito bem guardado consigo mesmas: eram assíduas usuárias do melhor suplemento fornecido pela empresa. De difícil acesso, somente uma parcela minoritária da população poderia adquiri-la.

        Palwari bloqueia três mulheres que tentavam prensá-la pela parede simultaneamente, com seus antebraços. Duas modelos são agarradas em seus pescoços pelos braços de Esmeralda, e outras três, são golpeadas na cabeça por uma das veteranas com um pedaço de barra de ferro. Até mesmo os garçons e outros funcionários já estavam fazendo suas apostas. Ferida na cabeça, Sandra saca de sua arma de fogo de uso restrito e tem seus punhos segurados por Vega. Como a Transmorfo era fortíssima, a mulher não conseguia se desvencilhar de Vega. Dispara dois tiros para cima com intuito de afastar Vega, sem muito sucesso. Os disparos no entanto, não foram o bastante para cortar a euforia dos espectadores. Na verdade, estavam se divertindo mais do que nunca. Depois de levar três cusparadas de Sandra, a Transmorfo retira a arma de fogo da mulher, seguido de um contido soco no estômago de Sandra que a faz cair ao piso de dor e asfixia. Ato contínuo, a moça joga violentamente a mulher para o meio da plateia, que ao invés de pegá-la, deixa-a cair direto no gramado. A mulher esbarra em mesas, cadeiras e guarda-sóis espalhados pela área verde, quebrando vários objetos que via pela frente. O público se assusta, mas se entretém com a desgraça coletiva. Vega consegue tomar a arma da mulher, e ao travá-la, o guardá-la em seu sutiã.

        Muito assustados com a escalada da violência no estádio, os avaliadores do desfile e alguns jornalistas, acionaram rapidamente as autoridades pedindo por socorro. Muitos estavam escondidos por debaixo das mesas as quais ainda não tinha sido destruídas.

        Mesmo ferida e injuriada, Sandra novamente se levanta para correr até a plataforma para dar cabo de Vega. Ao tentar subir, a mulher tenta pegar o tornozelo da moça e é empurrada para baixo com o salto da Transmorfo. Determinada a espancar Vega, Sandra acaba recebendo um tiro próximo à sua lateral como forma de advertência, o que a faz cair sentada ao piso devido ao estrondo da bala. De mãos à mostra por pensar que estivesse sendo ameaçada de morte, Vega se afasta da mulher e a deixa por lá. Ao virar as costas para a sua rival, Vega recebe dois pés sujos de uma mulher aleatória no meio de seu peito, o que a faz ser lançada para forma do estádio. Palwari aparece de relance, e aproveitando a brecha, lança seus quatro dedos bem rumo a garganta da mulher descalça, que asfixiada, termina se lançando para trás a ponto de cair da plataforma. 

        De maneira covarde, Sandra aproveita a deixa para subir em cima de Vega enquanto esta estava no gramado, e lança violentamente um pedaço do guarda-sol em seu rosto. O sangue da moça que subjugava Vega, pingava como torneira no rosto da mulher. No entanto, só conseguiu golpeá-la por duas vezes por ter tido suas duas mãos contidas pela Transmorfo. Vega cede uma joelhada em suas partes íntimas, fazendo a mulher cair lateralmente de dor. Nesse momento, Vega aproveita a chance de tomar a barra do guarda-sol de sua rival e a golpeia uma única vez. A mulher apaga devido à paulada que levara em seu rosto.

        Quando dá por si, Vega enxerga oportunidade de correr para longe da Parabellum e abandonar os Líderes da Central devido ao vazio do enorme gramado, há quilômetros de distância, no entanto, não queria deixar Simone e Palwari para trás. Antes que cogitasse um plano, a Vega avista uma "linha escura" lotada de seguranças munidos de equipamentos especiais, armados até os dentes. De todos os lugares, homens e mulheres, saíam aos montes para conter todo a parte central do Estádio sem que ninguém pudesse escapar. Sem muita alternativa, Vega volta correndo para procurar Simone e Palwari. Subindo na plataforma, já foi arbitrariamente levantada pelos dois braços, em meio a vários socos. Empurrando as duas agressoras, Vega corre para dentro do salão, enfrentando um oceano caótico de chutes, tapas, socos, pontapés, sapatos voando e chaves de pescoço improvisados. Mesmo tomando porrada atrás de porrada, a mulher permanecia intacta. Vega atravessou a multidão cedendo vários tapas em todas as mulheres que atravessavam seu caminho. Todos os convidados começaram a se dispersarem com os tiros desferidos pelos guardas que chegaram para dentro do edifício, e logo a área esverdeada começou a se esvaziar.

        Enquanto o caos reinava na Parabellum, os televisores exibiam todas as cenas de confronto entre as modelos. Várias moças eram vistas quebrando vidros de janelas com seus corpos, resultado de terem sido lançadas solo abaixo. Jason assiste de longe a magia acontecer diante de seus olhos pelas telas da Parabellum. Tudo a mando de Ashley Dilworth.

[Jason] — "Caramba. Briga boa, hein?" — [sorri] — "Fazia tempo que eu não via um bom programa de TV..." — [olha para trás] — "...Quê...?" — [começa a mudar o semblante].

        Ao olhar para trás, o infiltrado avista uma fileira de homens e mulheres mascarados com ternos em tons escuros caminhando rumo em direção a Jason. Todos armados com fuzis, lança-chamas, tacos de baseball, lanças, facas e pés de cabra. O homem então percebe não havia sido esquecido. Estava sendo perseguido a mando de Ashley Dilworth, que armou para que Jason se tornasse o Bode Expiatório do vazamento de notícias difamando Sandra Bella a fim de que não atrapalhasse seus planos, o que poderia facilmente lhe custar sua vida.

[Jason] — "Não é possível, cara..." — [quase sorri, incrédulo].

        O homem vira-se e caminha às pressas enquanto rapidamente comunica sua grave situação para Titane:

[Jason] — [apressado e nervoso] — "Katley...! Acabaram de me achar aqui próximo da Parabellum e estão me seguindo, preciso de reforços rápido...!" — [olha para trás, temeroso].

...

        Após todo o desastre que se transformou o evento de modelagem, Patrona já estava satisfeita com o resultado desastroso que desencadeou a rivalidade entre Vega e Sandra, inflamada propositalmente por ela. Contente, a mulher, que estava a vários quilômetros longe do estádio, próxima a uma árvore florida, faz uma ligação pelo seu aparelho telefônico.

[Ashley] — [leve sorriso] — "Ren... deu certo. O evento virou um ES-TOURO...!" — [sorri] — "Agora é só fazer a oferta que ele vai pegá-la rapidinho..." — [feição de satisfação].

        O cenário, que antes era de quietude e beleza, passou a dar lugar a um evento de luta livre coletiva, com o aval e animação de todos os espectadores. Sandra estava com várias escoriações, e no seu corpo, havia várias marcas de ferimentos devido ao impacto ao solo e a sobrecarga do peso de uma maciça mesa pesada de acrílico em suas costas. Seguranças armados começaram a entrar aos montes para dar fim à tragédia de altíssimos pontos de audiência clandestina nacional. Tudo foi coberto de fumaça pelas bombas de efeito moral e várias balas de borracha aquecida foram disparadas no salão. Pedaços de folhas, cacos de vidro e objetos caoticamente espalhados pelo local, davam um cenário oposto ao luxo e glamour na qual foram sempre exaltados pela Parabellum. Alarmes de emergência são quebrados por uma das vândalas e cortinas são queimadas pelas mulheres revoltadas, fazendo com que dispositivos de água pressurizada sejam acionadas para esguicharem em todo o salão. O ambiente de lutas intensas deu brecha para várias mulheres se camuflarem e fugirem do estádio a fim de escaparem do vínculo leonino cruel estabelecido pelos Líderes da Central. A tragédia foi se escalando e coquetéis molotov foram vistos sendo lançados por 15 modelos espalhadas pelo enorme salão de jantar e pelos outros andares acima da edificação. 

        Várias mulheres passaram a correr descalças, e os saltos de seus sapatos eram usados como armas contra os guardas para saírem do estádio à força. Pequenos grupos de rebelião foram formados sem ao menos que fossem notados pelos donos da Boate Underground. Esmeralda, responsável pela segurança do evento, disparou dezenas de balas elétricas para conter as rebeldes. Outras moças, confusas e assustadas, preferiram se juntar para se esconderem em um local mais seguro, longe do confronto. Como toda a guarda estava focada em Jason e no confronto da Parabellum, muitas mulheres fugiram do estádio sem olhar para trás. Algumas delas, até com maços de dinheiro escondidos em seus espartilhos, sutiãs e roupas íntimas.

        Vega saiu ilesa das dos golpes. No entanto, devido aos detectores de fumaça terem sido acionados pelas rebeldes, o dispositivo na nuca de Vega é acidentalmente disparado, fazendo com que a mulher tivesse um súbito desmaio. Palwari e Simone avistam a amiga e a resgatam para tentar tirá-la dali e fugir do estádio para o mais longe possível, mas terminam sendo contidas pelos guardas munidos de armas letais, especialmente projetados para SH’s e Humanos Suplementados. Um dos seguranças apontam o enorme fuzil para baixo para sinalizar que Vega deveria ser largada ao chão. Colocando-a com cuidado, as moças já rendidas são levadas para seus quartos privativos. 

        Vega foi carregada por Esmeralda até o último andar. Toda a elegância do local havia desaparecido. Uma das modelos, terminou caída desmaiada no chão de tanto ser nocauteada. A mulher vitimada é retirada do local pelo tornozelo para ser transferida para tratamento ambulatório, já que era uma das pouquíssimas que até então nunca havia se suplementado. Um rastro de sangue foi deixado como trilha em meio ao luxuoso e brilhante piso branco furta cor.

        Ao sair da porta de sua sala como se tivesse sido bruscamente transitado de um lindo sonho para um verdadeiro pesadelo infernal, Winston retira seus fones de ouvido de isolamento acústico e ecoa toda a sua indignação e incredulidade perante a tragédia instalada que havia acabado de presenciar:

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[Winston] — "... Mas que MERDA É EEEEEEEEEEEESSAAAAAAAAAAA...!!!" — [grito histérico, feição de espanto misturado a raiva e horror].


Carl Kassey - The Final Chapter











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