----TERRA. NOVA YORK. 23 DE DEZEMBRO DE 8.052 D.Z. 16H30 DA TARDE. MORTE E SEQUESTRO. BOATE UNDERGROUND. BUSCAS E DESAPARECIMENTO---
Salão arredondado, piso de granito azul escurecido e paredes que davam um aspecto metálico, em tons de verdes escuros. Carteiras direcionadas sob a forma de um grande anel, cada fila constituída de espaços adequados para saídas rápidas. Ao centro, logo sobre uma plataforma prateada, um homem magro de 01 metro e 90, munido de um fino bastão magnético na qual demonstrava seus ensinamentos por meio de telas projetoras invisíveis, composta da mais alta tecnologia de ponta. Com um microfone anexado ao elegante terno cor de pêssego, o homem parecia fascinado conforme expunha suas brilhantes explicações. Apesar de interessante para a maioria dos presentes, esta era a longa e maçante matéria pela qual Audrey já estava mais do que cansada de saber. As mesas, flexíveis e passíveis de inclinação, eram individualizadas e atreladas às cadeiras, podendo serem movimentadas de um lado para o outro, em 360º.
Ao longo da plataforma arredondada, estava embutido na forma de um anel, um bizarro mecanismo eletrônico que projetada as telas que mais pareciam cortinas invisíveis, pouco logo acima da cabeça do professor. Para os alunos do fundo, havia imagens dispostas em um longo e anelado televisor vinculado às enormes paredes daquele majestoso salão. Enrolando os cabelos, Audrey estava cada vez mais preocupada à medida em que olhava por várias vezes seu aparelho celular a fim de receber mais notícias.
Logo do lado de fora, Jason esperava agoniado enquanto mantinha a vigília sentado em uma plataforma de concreto próximo à janela de vidro da instituição, no último andar. Cada vez que abria o telefone, se mostrava mais ainda mais inquieto. O homem movimenta os cabelos feitos em mechas emaranhadas e toca a todo instante o seu colar de prata, quase arrancando-o de seu pescoço. Cada minuto era uma dose extra de aflição e ansiedade. Uma vítima havia sumido e não se sabia do paradeiro do rapaz. Jason perde as estribeiras e manda uma mensagem desaforada para SUII em caixa alta: "FILHA DA PUTA, NÃO VAI ME RESPONDER NÃO??". Por milagre, o homem devolve: "Calma aí, cara! Eu também não sei onde ele está! Estou tentando falar com ele faz três horas!". Jason desiste de olhar o telefone e manda um sinal para Audrey com os dedos polegar e indicador pela janela.
A moça percebe o sinal e coloca um dispositivo em sua carteira de mesa que a possibilita escutar os sons do ambiente em tempo real através de seus fones de ouvidos vermelhos que colocara em seus ouvidos, no intuito de continuar escutando o andamento da aula mesmo fora do salão. Simulando ir ao banheiro, leva o finíssimo celular e se tranca dentro de uma das cabines, abrindo comunicação com Jason pela caixa de mensagens instantâneas. Audrey respira fundo:
[Jason] — "Então? Aula muito chata?" — [nervoso].
[Audrey] — "Mais ou menos, só tô meio cansada do trabalho... o que houve??" — [ansiosa].
[Jason] — "Conseguiu algum sinal dele?" — [agoniado].
[Audrey] — "Nada, ele não visualiza as mensagens..."
[Jason] — "O baitola nunca leva a porra do celular quando precisamos dele...!" — [raiva].
[Audrey] — "Ele nunca foi de usar telefone ou redes sociais... ele é muito resistente."
[Jason] — "Você viu a mensagem que ele enviou pro SUII?? Eu tô "girando" aqui!" — [assustado].
[Audrey] — "Vi. Aquilo foi medonho. Eu também não sei muito o que fazer, sem um aparelho eletrônico não tenho como rastreá-lo."
[Jason] — "Não é por nada não, mas me parece que o nosso parceirinho de aventuras foi sequestrado!" — [receio].
[Audrey] — "Há quanto tempo ele tá sumido?"
[Jason] — "Faz três dias! Ele se comunica pelo menos uma única vez antes de dormir, depois disso, nada, ficou mudo! Nem um fax ele passa!"
[Audrey] — "Já falou com a Kat? Ela tem que ser a primeira a saber!"
[Jason] — "Não só sabe como já preparou as armas e guardou na van. Alguém tem que solicitar as câmeras de segurança do bairro onde ele morava com a família substituta."
[Audrey] — "Já pedi! Não acharam nada até agora..." — [tristeza].
[Jason] — "Devem tá colocando ele como mula ou garoto de programa... sei bem o que fazem com esses SH's."
[Audrey] — "E você aposta em qual das boates daqui? A do dono do Bar Touro Vermelho?"
[Jason] — "Eu tô pra arrombar aquela merda e enfiar a mão na cara de todo mundo ali dentro..." — [raiva].
[Audrey] — "Não conte com isso! O Thelonius te mata na mesma hora se você entrar...! Ele é um monstro sádico!"
[Jason] — "E como vamos descobrir quem raptou o Vega?!"
[Audrey] — "Por quem matou a família substituta. Provavelmente já tinham interesse no Vega muito antes do seu desaparecimento..."
[Jason] — [emoji de tristeza e ansiedade].
[Audrey] - "Fica calmo, vamos achá-lo nem que dure séculos...! E outra, ele é um Transmorfo, vai ser mais fácil pra ele suportar o cativeiro, até lá, nós já encontramos ele!"
[Jason] — "A desgraça da polícia NÃO FAZ NADA...NADA!" -[inconformado].
[Audrey] — "Ele tem cidadania??"
[Jason] - "Não! Ele é um tutelado! — [indignação] — "Pra tudo ele tinha que ter autorização! Não sei por que caralhos não concedem autonomia para um SH logo!" — [raiva].
[Audrey] — "Tem muitos interesses envolvidos. E o povo já está começando a desconfiar que Vega não é do Equador... a desculpa já ficou batida. Todo SH que surge, o governo tem a mania de colocar todos como se fossem equatorianos...!"
[Jason] — "Até eu soube da primeira vez que bati o olho nele! Pelo amor de São Roque, que povo burro!" — [irritabilidade].
[Audrey] — "Temos que levá-lo embora de Nova York e escondê-lo antes que a informação estoure a nível federal."
[Jason] — "Não é mais fácil falar logo a verdade??" - [intrigado].
[Audrey] — "E irmos presos por conspiração?? Não me parece a ideia mais inteligente no momento..."
[Jason] — "O cara muda a cor da própria pele...! Se transforma em qualquer pessoa, até numa réplica! Vamos conspirar contra o quê??" - [impaciente].
[Audrey] — "Revelar aos quatro ventos a origem do Vega vai gerar uma histeria coletiva e ainda vai prejudicá-lo!"
[Jason] — "É! Mas o Estado não vai conseguir esconder isso por muito tempo...! Se ninguém falar, a realidade vai!"
[Audrey] — "Meu Deus, tenho tanta coisa pra cuidar até 1º de janeiro... e agora vem mais essa..." - [exausta].
[Jason] — "Só vai piorar. Tem um lote de cinzeiros nas minhas costas querendo arrancar meu couro, eles não aguentam concorrência..." — [decepção irônica].
[Audrey] — "Vigie até a sombra e não tire o rastreador em nenhum momento! Entendeu??" — [adverte].
[Jason] — "Ok...! Entendi. Então qual o próximo passo?" — [curioso].
.......................................
Após uma longa conversa, Audrey desliga o telefone e retorna rapidamente para a sala. Jason fecha a capa de seu aparelho telefônico, mostrando preocupação em sua face. Após 30 minutos, uma van surge de frente a uma residência pacata enfileirada de casas clássicas lotadas de beleza e jardinagem. Com um micro binóculo retrátil em mãos, Titane observa de longe a possibilidade de que alguém ainda estivesse habitando a casa. Não havia sangue, bagunça ou sinal de arrombamento. Tudo estava em perfeito estado. Nenhum dos moradores estavam por lá. Jason entra em contato com Katley para saber de detalhes:
[Jason] — "Kat, está na casa??"
[Titane Katley] — "Tô bem do lado dela, mas parece que está toda vazia..." — [fala enquanto masca um chiclete].
[Jason] — "Não tem nenhum sinal de que tenha havido uma invasão?"
[Titane Katley] — "Nada, a casa tá toda arrumada... estou pensando em me enfiar lá dentro." — [curiosa].
[Jason] — "Cuidado! Se detectar qualquer movimentação, cai fora!"
[Titane Katley] — "Não se preocupe, vou sair dessa ilesa..." — [abaixa o binóculo].
.................10 MINUTOS DEPOIS.....
Katley, munida de algumas armas, pula os muros de madeira azul da pacata residência e atravessa o jardim de forma sorrateira, escondendo-se por entre as flores das pequenas plantas. Apesar do cuidado, Titane não enxerga ninguém ao espionar pelo vidro da janela, e tão pouco escuta barulhos vindos de dentro da residência. Percebendo que a entrada estava trancada, Katley a rompe discretamente e entra pela janela de forma silenciosa, certificando de que não haveria alguma visita indesejada. Com um pequeno trabuco de cano longo junto a si, a moça vasculha todo andar de baixo da casa, desde a sala de estar, cozinha, banheiros, e até a garagem por onde Vega trabalhava fazendo pinturas, mercearias e outros serviços mecânicos sob as ordens da matriarca. Titane encontra pedaços de metais, madeiras, sprays, canetas, objetos cortantes, instrumentos musicais, medidores e um monte de lembretes colados em quadros adesivos. Até alguns desenhos ali deixados pelo Transmorfo existiam, que já havia produzido um compilado de animações, todas em punho.
Algumas plantas floridas e um espaço reservado para o solo também foi encontrado na garagem da casa, além de uma pequena fonte de água corrente e uma benfeitoria de madeira rosa, na qual servia como mero enfeite da casa. Katley admira o ornamento por alguns segundos. O breve momento de distração é cortado quando a moça escuta sons agitados de pássaros e cigarras vindos do andar de cima da casa. Caminhando pela sala, a mulher vai cuidadosamente subindo as escadas com a "junfa" em suas mãos, checando todos os lados da casa.
A mulher, de blusa amarela zipada, sem manga, botas pretas de cano 3/4 banhado a ponta d'ouro e short-saia amarelo, se depara com o andar de cima totalmente vazio e em total silêncio. Vasculhou todos os quartos a fim de encontrar os aposentos de Vega, encontrando assim, um espaço com tonalidades roxas cinzentas com um armário preto atrelado a uma cama multifuncional, uma mesa e um computador, todos montados no vermelho junto ao mouse. Curiosamente, estavam intocáveis. Junto ao quarto de dormir, havia um banheiro detrás de uma porta violeta com um cômodo todo feito de granito prateado. Um belo chuveiro luxuoso atrelado a um armário vinculado à parede, rodado a 360 graus, foi descoberto por Katley. As toalhas estavam postas em uma cesta verde, e as roupas para lavar, penduradas em um suporte de igual cor. Por trás das cortinas do chuveiro, Titane somente encontra um sabonete preto em cima de um pequeno espaço de entrada na parede de granito cinza, junto a isso, um colar dourado formado por cinco peças de pingentes de rubi. Tal peça cara, não poderia ter sido comprada por outro morador da casa que não fosse seu amigo.
Kat saca do extravagante colar e percebe que ele era bem maior do que o esperado: era um sofisticado enfeite de estilo "peitoral" que ligava ao pescoço e costas. Tudo com muito luxo e sofisticação. Era um dos produtos mais cobiçados pelas madames da cidade.
[Titane Katley] — "Só pode ser do Vega..." — [observa a joia] — "eu não teria esse dinheiro nem se eu produzisse com minha própria bunda..." — [olha para trás].
A mulher escuta sons de objetos sendo derrubados ao chão. Eram pássaros adentrando pela pequena abertura da janela do quarto arroxeado, em busca de alguma coisa para beliscar. Guardando o colar consigo, Katley abre a janela para deixar o local fresco e menos abafado. Verifica com o minibinóculo se existe qualquer movimentação suspeita pela rua. Entrando de volta, a mulher vasculha as gavetas, igualmente vermelhas como o computador, a fim de encontrar qualquer aparelho utilizado para subjugar SH's. Vega não conseguiria se distanciar da casa, pois o aparelho em sua nuca já havia sido programado para disparar caso o Transmorfo tentasse fugir por um raio maior que 20km.
Cada apagão eram 03 horas de desmaio e vários prejuízos que variavam desde furto dos objetos pessoais, até a retirada de suas roupas por estranhos, eram frequentes na vida do Transmorfo. Titane começa a desconfiar de que os mesmos assassinos da família hospedeira de Vega são os mesmos que o sequestraram. Não achando nada de relevante no quarto, Katley parte para os outros cômodos. Abre tudo que encontra pelo caminho, mas nada descobre, nada se revela. A casa estava vazia, e nenhuma pista de Vega. Nem dos corpos dos "pais", nem dos "irmãos" hospedeiros. Tudo estava perturbadoramente limpo. Titane começa a suspirar e olhar para os cantos da casa quando o telefone toca em seu bolso. Era Jason.
[Jason] — "E aí? Como está indo?" — [ansioso].
[Titane Katley] — "Nada. Nenhum sinal de vida ou de morte aqui na casa. Sequer entrou nenhum invasor pra cá durante esses três dias que sondei a residência."
[Jason] — "A Audrey vai sair da aula às 17h50 e vai caçar as câmeras de vigilância do setor até ver onde Vega está. Até lá, preciso que fique escondida na casa e veja se alguém vai aparecer aí dentro. Tire foto do sujeito se puder." — [orienta a namorada].
[Titane Katley] — "Ok, mas você vai ficar aqui próximo pelo menos? Vou precisar de cobertura." — [anda em círculos].
[Jason] — "Eu vou ficar bem próximo de onde você está, vou ficar disfarçado de vendedor de chicletes e invado a casa se for preciso."
[Titane Katley] — "Vem cá, você acha que eles podem matá-lo?" — [preocupada].
[Jason] — "Do modo tradicional não, mas com uma AR, muito provavelmente. Mas sabe o que eu realmente acho?" — [breve pausa].
Titane escuta atentamente a fala de Jason.
[Jason] — "...Que eles vão tentar superexplorar o Vega até o último segundo da vida dele." — [olhar sério] — "Sabe o que fazem com esses SH's. Eles são muito mais vantajosos e lucrativos para as corporações safadas do que pessoas como eu e você, entende?" — [move uma mão para frente e para trás, repetidas vezes]. "Eles apagam todos os dados da pessoa e a retiram de todos os meios tecnológicos pra fazê-la ser dada como inexistente."
[Titane Katley] — "Entendi... isso é horrível o bastante..."
[Jason] — "Eu tô perdendo o sono por causa disso aí, e eu tô desconfiado que o próximo a rodar vai ser o Magal..." — [preocupado].
[Titane Katley] — "Magal já é safo nisso. Ele tá a par dessas gangues... mas e o SUII? O que ele vai fazer?" — [preocupada].
[Jason] — "Ele não pode fazer nada a não ser esperar o aviso da Audrey. Os tiras tão na cola dele por causa do caso Cash."
[Titane Katley] — "É sério que eles ainda tão investigando o caso do Cash?? Já era pra terem arquivado, não acharam nada!" — [impaciente].
[Jason] — "Éh, mas tá cheio de informante cretino metido à boca de sousafone por aí que querem tomar o território pra eles."
[Titante Katley] — "Que falta de mais o que fazer..." — [suspira] — "ok, chega de falar e venha aqui logo. Não vou poder me virar só com uma junfa de cano fino..."
[Jason] — "Já estou aí logo! Beijos!" — [desliga].
Jason parte em retirada e Audrey se organiza para acessar o sistema de monitoramento do setor aonde o amigo raptado esteve hospedado, através de seu laptop adaptável. A casa permaneceu quieta e vazia à medida em que Katley esperava tediosamente de dentro da residência, andando em círculos. SUII, impaciente e desapontado, desiste de manter contato com Vega e abandona o Hotel-Bolha para ir atrás do amigo desaparecido sem que os hóspedes entendessem o que estava acontecendo. Ficaram atônitos. Jason, vai em direção à residência e aguarda logo em frente à casa da família tutelar de Vega, observando Katley à distância para garantir a segurança da namorada.
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Ainda próximo à residência e com o volante em mãos, Jason mantém os olhos fixos na construção enquanto desliza os dedos em seu queixo e vigia as entradas da casa com os espelhos flexíveis do veículo. Poucas pessoas passavam pela pacata rua do setor e muitas árvores e jardins enfeitavam aquela região com sua beleza e majestade. Pareciam mais vivas e resistentes à ação do tempo. Uma mulher com um sobretudo de cirrê escuro e botas assimétricas marrom, passava pela calçada munida de um guarda-chuva sob a forma de coroa reta cujas "pétalas" se abriam por desdobramento horizontal, de forma automática. Já estava perto de chover.
[18H30. ANOITECER. QUEDA DE CHUVA...]
[Titane Katley] — "Caramba, que tédio..." — [aguarda de costas às paredes do quarto, girando uma chave em mãos] — "Nenhum som pelo menos?" — [fala consigo mesma].
Um barulho de ranger de portas pôde ser ouvido do quarto por onde Katley esperava. A mulher estranha o fato de as portas terem sido abertas mesmo estando trancadas. Katley saca o discreto trabuco, guarda as chaves e caminha cuidadosamente para fora do quarto, vistoriando de um lado para o outro. Sem escutar mais nenhum som, mas não convincente, Titane diminui os passos e se direciona em sentido lateral para se precaver. Nada havia em cima, em baixo ou nos lados, a não ser um leve chiado que parecia vir do piso do andar de baixo. Tirando uma pequena lente avermelhada de sua pequena bolsa anexada ao quadril, Katley a vincula em um dos lados seu falso óculos para que pudesse detectar objetos por detrás das paredes da casa. A mulher enxerga um corpo feminino sentado em cima do balcão da cozinha, imóvel, logo abaixo de seus pés.
Katley sente como se estivesse lidando com um bicho amedrontado, de tão quieto e imóvel era o corpo dobrado sobre o revestimento de granito. Com receio de ser uma SH, Titane carrega a junfa com balas de uso restrito para ter a possibilidade de ferir a criatura. Descendo devagar pelas escadas e em posição quase abaixada, a moça percebe de longe o corpo encolhido no balcão por detrás das paredes da cozinha. Guardando a lente, Katley dispensa o taco de baseball, guardando-o muito bem escondido atrás das cortinas. Sem muita alternativa que não fosse encarar aquele corpo estranho, Katley se concentra e respira fundo antes de dar os passos finais para a cozinha a fim de surpreender a invasora. Era no exato momento em que Titane preparava seu primeiro disparo quando o maldito telefone toca em sua bolsa. Katley se assusta. O estrago estava feito.
[SÚBITO SALTAR. BARULHOS DE OBJETOS SE QUEBRANDO. FORTE COLISÃO DE CORPOS].
Katley é atingida em cheio por uma mulher antes que pudesse perceber que esta saltaria para fora do local como se fosse um animal foragido. Após a colisão de corpos, as duas são fortemente derrubadas ao chão, momento em que Katley logo se levanta para correr atrás da estranha que saiu correndo em disparada sem pensar duas vezes. Jason logo se assusta com os barulhos e sai imediatamente da van.
[Titane Katley] — "Hey, volta aqui!!" — [se levanta com raiva].
Branca, de cabelos curtos cinzentos e vestida de top e short de vinil em tons violeta, a desconhecida sai disparadamente quebrando a janela da residência, não querendo permanecer no local para enfrentar Katley, que desfere vários tiros contra a mulher fugitiva. Com sapatos que lembravam a forma de uma meia preta, a moça se mostrava muito rápida e atlética, apesar de simples. Impaciente e com raiva, Titane pula a janela seguido da cerca azul e corre atrás da moça como quem disputa uma olimpíada de 200 metros para caçar a rival. Jason vai logo atrás da namorada para ajudá-la na empreitada. Sendo perseguida, e logo vendo que não podia escapar de Katley, a mulher joga várias pedras contra Titane, que revida com mais 05 tiros da junfa.
[Titane Katley] — "Desgraçada!!" — [dispara vários tiros].
[Desconhecida] — "Ah!... Sua cretina!" — [exibe medo e raiva].
A mulher, já se mostrando temerosa e acuada, encontra rapidamente uma área verde para se esconder e esquivar dos tiros de Titane, partindo em retirada em direção a um declive composto por gramíneas e plantas, altas o bastante para ocultar a mulher. Katley, permanece parada de frente a ribanceira e efetua vários disparos no intuito de acertar a mulher, que no final, acaba sendo ferida por uma bala em seu ombro. Nesse momento, os gritos agudos da fugitiva puderam ser ouvidos, mas por sorte, a moça termina desaparecendo de dentro da mata. Jason alcança Katley e fica confuso quanto a origem da mulher que perseguiam.
[Jason] — "Quem era essa maluca?" — [curioso].
[Titane Katley] — "Eu sei lá, era o que eu queria saber..." — [desapontada, a mulher suspira, abaixando a sua arma].
Assustados com a confusão, vizinhos começam a reclamar dos fortes barulhos e ameaçam chamar as autoridades contra o casal. Jason e Katley presenciam clamores e desagravos para que pudessem parar a perseguição. Os ânimos começam a se exaltar.
[Jason] — "Vamos embora daqui." — [chama a mulher com as mãos].
[Titane Katley] — [coloca uma das mãos no peito e expressa sinal de dor] — "Desgraçada... queria tanto pegar ela." — [demonstra raiva].
Ambos entram na van e saem cantando pneus para fora do pacífico e majestoso bairro para evitar que tivessem mais problemas. Ao logo do caminho, várias famílias foram vistas para fora de suas casas, muitas delas acompanhadas de um SH, marcados em seus braços para sinalizar que são "propriedade" de seus tutelares. Muitos, usados para fins sexuais. Outros, para serviços domésticos. Todos com dispositivos elétricos remotos em suas nucas. Vega, era muito conhecido no bairro e fazia amizade por onde ali passava.
Katley e Jason se mostram desapontados e aborrecidos com o fracasso da vigilância da residência. Porém, percebendo que nem Vega e nem qualquer morador iria voltar à casa, Jason tranquiliza a namorada.
[Jason] — [exibe balançar de cabeça] — "Relaxa, amada." — [acaricia os ombros da mulher] — "Aquela casa só ia dar morador de rua, nada que tenha realmente a ver com Vega..." — [olha para ela].
[Titane Katley] — "Eu nem devia ter corrido atrás dela..." — [recostada à janela do veículo, com uma mão apoiando o rosto].
[Jason] — "E se ela tivesse alguma informação?" — [levantar de ombros] — "A gente não sabe." — [em um momento de pausa, olha para a namorada decepcionada, de braços cruzados] — "Tá bom, vai, nós dois pecamos nessa, ok? Eu não devia ter te ligado naquela hora e nem você ter atirado nela..." — [continua dirigindo].
[Titane Katley] — [suspira e revira os olhos de decepção] — "Eu tava quase rendendo ela quando você me ligou... mas agora já foi..." — [saca de seu celular] - "cadê o SUII, hein?" — [preocupada].
[Jason] — "Ele não tá no Hotel... e a Audrey tá tentando rastrear Vega..." — [balança a cabeça de decepção] — "até lá, não temos muito o que fazer a não ser esperar para saber por onde vamos procurar."
Katley se encosta ao banco da van e cruza os braços, pensando que toda a sua missão terminou mal-sucedida. No final, o veículo continua seu caminho pela estrada longe daquele setor, que pela primeira vez, experimenta uma turbulência na sua vizinhança.
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20H36 DA NOITE. LOCAL VAZIO E LIMPO. SILÊNCIO ABSOLUTO.
Por entre as plantas, sai de lá a mulher de cabelos curtos e cinzas e olhos esverdeados que antes fugira de Katley para não ser pega pela vigilante. Com um sorriso de satisfação, a moça se sente orgulhosa por ter saído ilesa da fuga e com a residência vazia disponível para a hospedagem.
[Desconhecida] — "Hah...! Otários..." — [expressão de orgulho] — "a casa agora é nossa... usucapião, galera!" - [fala virando a cabeça para trás com a mão lateral à boca enquanto sai correndo da vegetação].
Com o chamado da líder, vários ambulantes saíram de dentro da mata para correr atrás da moça a fim abrigarem a casa, já agora abandonada como status. Dentre eles, um ruivo pardo, um rapaz de tom de pele bege acinzentado e de cabelos curtos rosé, e uma criança com sardas tranças laterais, branca, de cabelos em tom de cor que mesclava o marrom e o berinjela. Todos descamisados, inclusive a criança, cada qual com apenas um short jeans meia coxa de cintura baixa e sapatos meia. Todos adentraram junto à mulher para a elegante residência, já assombrada pelo completo vazio e escuridão.
================= 18 DIAS ANTES =================
Cidade intensa. Vivaz. Movimentada. Ruas molhadas, cheias de luzes e de carros passando e buzinando como quem cantam canções sinfônicas. O sol brilhava forte ao mesmo tempo que a qualquer momento, poderia chover e molhar aquela cidade. A noite era uma capa de seda lisa, indistinguível. Do seu escuro infinito, somente as gotas de algodão caíam ilesas, brancas e geladas. Era um frescor, um cheiro de alívio e liberdade, algo momentâneo que há muito tempo não se respirava. Os cafés, todos escancarados para serem penetrados e usufruídos pelos afobados trabalhadores enchapelados que saíam de seus expedientes. Com um moderno "vintage", as construções eram coloridas, suntuosas e metálicas, ousavam nas formas e nas vidraças. Todas perfeitamente assimétricas na medida certa. Telas pulsantes e atraentes em todos os cantos da metrópole. Tudo fácil e disponível, do bom e barato para comprar. Isso era Nova York. Os cinemas, belíssimos e abertos para toda a comunidade. As boates badaladas, os bares, mais sinalizados do que nunca. O Jazz, o cappuccino, o cheiro de pipoca que se misturavam aos deliciosos perfumes que ventavam escandalosamente pelas ruas esfumaçadas e os becos escuros da metrópole. Os majestosos enfeites de natal pareciam dar lugar as árvores cinzentas, e as luzes piscantes, enfeitavam as cabeças das elegantes prostitutas. O lugar era gótico, picante. Gélido e cheio de cor. Como era doce, como era vivo. Como era subversivo. Era pujante a energia da Cidade Grande, turbulenta, que ao mesmo tempo era alegre, diversa, expansiva e perigosa.
Vega sentia falta disso. Sentia falta dessa agitação. Dessa junção de pessoas, coisas e prazeres, cheiros e gostos, tudo do bom e do pior concentrados em uma única metrópole. O frescor da boa e decadente fumaça das fábricas e caminhões. Dos sons de aviões e espaços abertos que davam quadras inteiras de parques, e campos de esporte que ninguém visitava mais. Vega gostava. Se animava. De tudo o que era mais podre até o que era mais belo. Dos passantes que alisavam seu corpo sugerindo por sexo enquanto carregavam garrafas de whiskey na mão. Dos depósitos de lixo que eram transformados em material reciclável e adubo para serem bem aproveitados naquela cidade sombria e maravilhosa. Dos parques de diversões cheios de porcarias para comer, brinquedos para se divertir, homens e mulheres para desfrutar, bebidas e drogas para usufruir. Vega gostava disso. Sempre se adaptou muito bem ao distópico. Podia se modificar sempre que lhe conviesse, pois mudar a identidade não era problema para ele.
Durante 10 dias, Vega aproveitou cada canto, cada beco e cada estabelecimento possível daquele oceano de prédios colossais. Estando muito longe de casa, o moço sequer mais fazia ideia de onde morava. Com muito dinheiro no bolso, sua única preocupação era sair para gastar, correr, brigar, pular de edifícios como quem faz um profissional, paquerar, comer, tomar os melhores banhos, ousar dos melhores perfumes, provar dos melhores vinhos, testemunhar os piores entorpecentes, saborear os alimentos mais expensivos, dirigir carros sem escrúpulos, e testar as melhores as ferramentas disponíveis daquela cidade até que se esgotasse seu tédio como se gasta uma bituca de cigarro. Aonde quer que fosse, Vega aproveitou e tirou proveito, bem como ganhou dinheiro seduzindo desconhecidos. Seja como um homem ou mulher, os seus admiradores estavam sempre em suas mãos. Estava feliz e satisfeito por ser parte da mais obscura e prazerosa Nova York. Eram dias belos, eram dias lentos. Eram dias marginais. Era o Espírito de Natal. O Glamour está no ar, e o odor de pólvora, está nas mãos.
Eram 17h30 da tarde, tempo em que Vega finalmente vivencia um pouco do que é a autonomia sem a presença de um dispositivo atrelado à sua nuca. Tranquilo e contente, desfruta de uma bebida quente feita em um suporte dourado de metal atrelado a um pequeno e prático fogareiro enquanto se encontra dentro de uma chamativa barraca azul. Em cima de uma pilha de almofadas, logo acima, um suporte metálico na forma de um losango que abriga uma pedra cobre arredondada de formas irregulares, feita de material cristalino quase espelhado, que de forma automática, brilhava no escuro ao anoitecer e propiciava calor o suficiente para aconchegar seu refúgio. O bastante para iluminar aquele pequeno ambiente imerso logo abaixo de um declive gramado cheio de flores.
O rapaz se abrigava em um parque pouco movimentado, mas relativamente confortável para as suas condições. Quando queria tomar banho, pagava para entrar nos estabelecimentos e utilizar os chuveiros e cosméticos. A água que faltava em sua casa, era improvisada com neve para fazer o café ou chás. Quando não estava frio, a extraía de uma torneira do parque pela qual era disponibilizada água potável. Sua mochila sempre andava em mãos e nunca se perdia ou se deteriorava. Ela se mantinha intacta como se ainda estivesse nova em folha. Por vezes, o moço andava pelas madrugadas somente com suas tradicionais roupas que sempre carregou com seus pertences. Não precisava de muita coisa que não fosse se alimentar bem, se hidratar e se exercitar. Como sua barraca não era muito grande, um pequeno baú era utilizado para guardar os presentes que recebia. Com uma de suas habilidades naturais, Vega o aquecia a ponta de seu dedo até ficar no ponto certo de produzir fogo com um pouco de álcool disponível. Acendia o fogareiro e colocava um copo térmico para fazer um macarrão instantâneo recheado de carnes e legumes. Logo que jantava, o menino descartava o lixo em baldes anexados ao piso do parque.
Com dezenas de anúncios com as fotos de sua mãe estampados em diversos postes da cidade, o rapaz estava decido a encontrar Läude depois daqueles dias de alforria. Já havia perdido muito tempo sendo aprisionado por dispositivos elétricos e "famílias substitutas". Não parecia mais se preocupar com o caso Cash ou com a exposição de sua identidade. Voltou a expor o seu rosto e os mesmos tons de olhos e cabelos que havia utilizado quando desembarcou na Área 51. Íris violeta, cabelos cor canela.
Sem muito o que fazer naquela noite fria e esfumaçada, o rapaz pegou um casaco vermelho que recebeu de um de seus clientes e saiu andando pela rua com suas botas meia e calça magenta com toque de cirrê. Comia alguns morangos caramelizados espetados em um palito enquanto caminhava tranquilamente pela calçada. Passava pelas lojas falidas e pichadas e por alguns carros abandonados. Uns até bonitos e charmosos para serem considerados objetos descartáveis. Estavam até mesmo bem conservados. Como uma ponta fora da curva, Vega nota uma mulher com um casaco bege felpudo nas golas, vestido marrom escuro e uma bolsa azul-marinho em seus braços. Esta parecia angustiada e não parava de fazer perguntas para o seu "atendente", que a explicava como se estivesse tentando seduzi-la para uma negociação pela qual não tem volta, ou futuro. Suas mãos, delicadas e finas, envoltas de luvas roxas discretas, se mexiam de forma agoniante e interminável. Cada vez que o homem de chapéu escuro e macacão itinerário preto falava, a mulher se hipnotizava.
O homem gesticulava para ela e sorria como se estivesse oferecendo o melhor dos mundos para quem tinha tudo a perder. O homem se utilizava de apenas um dos brincos prateados em uma de suas orelhas, enquanto a mulher, ostentava ornamentos feitos de rubi em suas orelhas, e um grande anel de ouro quadrado em uma de suas mãos. Vega cessa seus passos por alguns instantes para escutar o que estaria sendo conversado por detrás dos vidros velhos e quebrados. Algumas poucas placas digitais exibiam propagandas e divulgação de lojas e estabelecimentos destinados a prostíbulos. Vega escutava curiosamente o discurso do atendente de balcão abandonado, imerso em um estabelecimento com placas velhas e coloridas expostas à parede, com alguns pequenos monitores amontoados um sobre o outro, fora da loja. O homem dizia: "Sabia que você pode nunca mais adoecer ou envelhecer na sua vida?" — [animado] — "Claro que você vai morrer, mas veja, a vida pode ser muito mais doce apesar de finita, você não acha?" — [olhar convincente]". A mulher permanece parada, atônita, pensativa.
Vega, gradativamente se afasta dos vidros quebrados para dar continuidade a sua caminhada noturna e descarta o palito no primeiro balde lixo que avisa. Se depara então, com uma garota branca de cabelos curtos e pretos, com roupas escuras e rasgadas, correndo em direção oposta ao seu caminho, logo em sua lateral. Ela corria apressadamente como se estivesse fugindo de algo. Ao olhar para trás, Vega nota que a mulher já havia desaparecido como o vento leva o pó. Pelo seu aspecto e aparência, parecia ser uma SH.
[Vega] — "Rápida, hein?" — [levemente impressionado] — "Gostei dela." — [volta a olhar para frente].
Quando volta a prosseguir, mais ruídos e estardalhaços puderam ser ouvidos logo a alguns metros à frente em um local com poucas luzes disponíveis e vários objetos empilhados adentro de becos, desde eletrodomésticos, até móveis e grandes veículos. Os faxineiros que até então mantinham uma rotina de limpeza, pareciam terem abandonado seus postos, deixando boa parte do setor para os ratos e baratas. Somente alguns pedintes engajados faziam o serviço pesado. Muitas máquinas de limpeza asfáltica eram roubadas ou vendidas clandestinamente a preço de banana para quem quisesse ter acesso. Até os serviços de higiene poderiam ser comprados de forma casual. Um amontoado de pessoas saía repentinamente daquela pilha de madeiras e metais correndo rapidamente para a mesma direção que a mulher fizera próximo de Vega. Pareciam que por algum motivo, estavam indo atrás dela, alguns, até com tochas nas mãos. Preocupado, mas não querendo se meter, o Transmorfo permanece seguindo seu caminho apesar da chocante cena que havia acabado de presenciar.
Ao longo da estrada, já totalmente vazia, o rapaz adentra um dos locais mais inóspitos e mal frequentados de Nova York. Sequer as corujas do setor se manifestavam ou apareciam em público para serem admiradas. A região parecia estar quase abandonada e já não se via mais o glamour vindo da cidade grande. O lugar era velho, arruinado, esquecido. Vega já estava começando a ficar cansado e suas andanças já estavam se tornando cada vez mais defasadas. Havia propagandas deterioradas espalhadas para todos os cantos exibindo ofertas de serviços de prostituição e drogas diversas. Uma das placas digitais simulava "fiapos" de cocaína sendo sugados enquanto os preços eram exibidos logo abaixo por 05 dólares a grama. Cogumelos e ecstasy apareciam em primeiro lugar nos alvos dos outdoors. Vega para por um instante, e só depois de alguns segundos é que finalmente percebe que estava perdido. O local era truncado e confuso. Em uma dos anúncios metálicos e esverdeados que estava escondido pelas sombras acima de sua cabeça, vinha à luz o nome daquele famigerado setor: Central Dilworth. Era um lugar imenso, demasiadamente afastado de tudo que se já conhece como cidade. Parecia uma região industrial velha, mas mantinha a imponência de um tanque de guerra.
Logo à sua diagonal, um homem com uma garrafa esverdeada e um longo casaco cinza parecia urinar próximo às paredes de um edifício, e em grande quantidade. A urina estava com um aspecto enegrecido. Parecia que o homem estava eliminando toda a impurezas acumulada ao longo de 10 anos da sua vida. Apesar de parecer doente, o moribundo tinha próximo de si uma geladeira industrial improvisada pela qual eram exibidas uma bela variedade de frutas, todas muito charmosas. O refrigerador, era ligado a uma tomada anexada ao poste pela qual poderia ser compartilhada com várias pessoas daquelas bandas. Necessitado de se alimentar de algo que não fosse pipocas e doces, se aproximou do bastardo para comprar-lhe algumas daquelas belezas suculências.
Com o dinheiro em mãos, Vega silenciosamente seleciona algumas frutas que iria comer naquela noite e aguarda o homem a limpar as suas mãos com álcool e lenços de bebê improvisados pelas quais recebia como doação. O moribundo nota Vega:
[Moribundo] — "... Fala, garoto. Quer comprar uma delas?" — [aponta para a geladeira] — "São todas de hoje, estão bonitas". — [bebe da garrafa].
[Vega] — "Aquelas granadilhas, quanto estão?" — [aponta para o produto].
[Moribundo] — "Estão 20 dólares as seis. Quer comprar quantas caixas?"
[Vega] — "Duas, por favor." — [entrega a pecúnia].
Ao receber o dinheiro e lhe ser dadas as duas embalagens de frutas pelo homem, Vega se depara com vozes longínquas vindas de um megafone alertando todo a Central para o consumo gratuito de água.
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"ÁGUA NÃO É PARA SER VENDIDA! ÁGUA É DE CONSUMO GRATUITO PARA TODA A COMUNIDADE, ENTENDERAM CAMBADA?? SE ALGUÉM AQUI PEDIR ÁGUA, NÃO É PRA SER NEGADO, EU FUI CLARO?? VIVA A CENTRAL!" — [diz o homem em posição entreposta a baldes metálicos de lixos com fogo, com uma parede pichada logo atrás de si].
....... [olhares voltados para homem segurando o megafone]....
[Vega] — "O que houve ali?" — [curioso].
[Moribundo] — "Ah...! É o alerta geral que a Central recebe pra "nego" ficar sabendo que água não pode ser vendida a 93 dólares aqui." — [feição de desdém] — "Se ele quiser vender a esse preço, que vá pra bairro nobre, longíssimo daqui." — [posição altiva com a cabeça].
[Vega] — [quase ri] — "93 dólares por uma água potável? Isso é loucura..." — [balança a cabeça].
[Moribundo] - "E tem gente que ainda fala que o ultraliberalismo deu certo..." — [sorri, balançando a cabeça].
[Vega] — [risos] — "As pessoas não fazem a menor ideia do que de fato e ser livre..." — [olha para o homem].
[Moribundo] — "Não fazem mesmo..." — [balança a cabeça].
Quando a relação comercial finaliza, o homem trata logo de despachar Vega caso ele não quisesse comprar mais nenhum produto.
[Moribundo] — "Vai querer mais alguma coisa?" — [questiona].
[Vega] — [olha para o homem] — "Conhece algum lugar que vende chocolate quente?"
O ambulante aponta para longe de sua vista: "Logo ali! No fundo, perto daquela luz rosada você vai ver uma cafeteria e lanchonete no mesmo lugar! Segue por lá" — [gesticula com uma das mãos viradas horizontalmente, de trás pra frente].
[Vega] — "Certo. Obrigado." — [cede um breve sorriso].
[Moribundo] — "E vista um blazer! Tá um frio lascado e você aí descamisado, rapaz...!" — [feição debochada].
[Vega] — "Har...! Pode deixar, eu visto sim." — [sorriso de canto].
O homem silenciosamente cruza os braços enquanto simpatiza com Vega e o observa se distanciar cada vez mais do local. Munido das duas embalagens, o moço logo vai de encontro a um estabelecimento mais próximo para se sentar e comer as frutas. Atravessa ao lado de um beco de luz rosa, agitado aos sons de músicas do gênero industrial punk. Próximo à danceteria, as portas de uma lanchonete vazia se abrem e um sino de entrada se toca. O local era aquecido, e as tortas pareciam bastante cheirosas.
. . . . . . MEIA HORA DEPOIS.
Vega sai da lanchonete ajeitando seu casado e parte em vista de voltar novamente para a barraca improvisada a qual havia montado. Quando topa com o mesmo beco de luz rosada anteriormente avistado, havia uma propaganda ofertando um chuveiro elétrico para quem pagasse 10 dólares por meia hora, com direito a passadas de mãos inapropriadas e investidas dos frequentadores. Vega se sentia faltoso de água quente em sua pele e não pensou muito para pagar pelo acesso a uma boa ducha. Com acréscimo de taxa para obter um armário, também pôde trancar todos os seus pertences.
Ao adentrar o ambiente, virou alvo de todos os olhares possíveis, dos homens e mulheres presentes na famosa casa de festa multifuncional. O lugar era discoteca, era sauna, era restaurante, assim como era uma suntuosa casa de banhos com vendas de quinquilharias diversas. Todas contrabandeadas. Dentro dos extravagantes toaletes feitos a vidro furta cor, todos propositalmente semitransparentes, havia cabines assimétricas na qual podiam serem parcialmente vistos os corpos de quem usufruía dos chuveiros. Com um bom sabonete artesanal, o Transmorfo desfruta de uma das duchas aquecidas mais luxuosas enquanto alguns passantes o fitavam como quem cobiça um caríssimo filé de carne. O mangote era acompanhado de luzes pulsantes que se chocavam por minuto e emitia jatos de três áreas diferentes. Tudo muito sofisticado para uma casa noturna barata. Os tons verde, vermelho e violeta faziam forte presença naquele ambiente, os emissores de sons, muito bem espalhados pelos cantos e tetos da casa para que a música cobrisse todo a boate. Enquanto o moço se lavava, as fortes melodias pesadas eram ostentadas em todos os graves possíveis. Apesar da imagem embaçada, toda a silhueta de Vega pôde ser observada até pelos seguranças.
Sem muita cerimônia, o moço começou a receber algumas beliscadas de um dos vigilantes da boate, que logo tratou de agarrá-lo pela cintura e fitá-lo em seus olhos. Percebendo a ousada investida, o rapaz devolve o flerte e se deixa encher seu pescoço de beijos e mordidas pelo segurança, que não se importava com os olhares espantados para o seu ato. Como não tinha nada a perder, aquela agradável surpresa fez Vega consentir com o desejo do affair e devolver o ardente beijo para o homem. Vega é carregado pelas pernas, e de forma inevitável, o homem termina se molhando no mesmo chuveiro em que o rapaz estava. Uma das mulheres, abraçada com o marido em uma distância de alguns metros em uma das mesas da casa, fixa o olhar para Vega como uma promessa de volúpia pela qual não poderia cumprir. O rapaz, enquanto era beijado pela nuca, devolve uma piscada para a moça, que sorri.
. . . . . DUAS HORAS DEPOIS.
[MADRUGADA. 01H25 DA MANHÃ].
Após o longo banho, Vega retorna para a estrada com vistas a voltar para a sua casa no parque. Rodando uma chave pelos dedos, o mesmo anda pela mesma calçada na qual havia utilizado para atravessar caminho rumo à Central Dilworth. Vega era alvo de muitos olhares, muitos deles com intuitos não muito amistosos. Algumas cabines de telefones foram especialmente construídos em locais mais distantes para atender a comunidade, e muitos moradores de rua sondavam esses telefones para fins de receberem uma recompensa caso denunciasse um alvo em específico encomendado.
Os cochichos aumentavam enquanto o rapaz caminhava, o que o deixava ainda mais desconfiado pelo fato de que podia escutar tudo o que diziam a seu respeito, a quilômetros de distância. Apurando seus ouvidos, o moço acompanhou visualmente os passos de uma moradora que estava prestes a acionar a tela do telefone para efetuar uma ligação. Como quem nada sabia, o rapaz continuou caminhando até que alguns dos pedintes o fitaram apontando os dedos para o rumo de Vega. Percebendo o que acontecia, o rapaz mira o dedo indicador rumo à cabine vermelha e lança um afiado espeto feito de seus próprios ossos direto para a tela do aparelho telefônico. Este é estilhaçado por completo. Assustada, a mulher olha para Vega e deixa cair o alto-falante sem fio que se conectava com a ferramenta. Vega, de braço estendido, certifica que o número pela qual a moça estava ligando, eram das autoridades.
[Vega] — "Melhor você interromper de onde parou...." — [olhar frio e sério].
Sem alternativa, a mulher pega os seus pertences e foge dali. Os outros moradores, ficam espantados com que tinham acabado de ver. Nenhum deles tocaram no assunto enquanto Vega não desaparecesse dali.
Depois de andar por duas horas, Vega finalmente volta para a sua barraca e aproveita para tentar tirar três dias inteiros para dormir profundamente. Dia e noite se passavam como o vento, e não havia qualquer ruído ou movimentação naquele período que tirasse o rapaz de seu leito. O longo e sereno adormecer de Vega não foi atravancado sequer por um único passarinho que ali pousasse. Estava hiberne, imóvel como uma pedra, suave como um bebê. Distenso e sossegado. Antes que pudesse se afundar por alguns metros de seu mais absoluto sono, o seu telefone toca por alguns segundos enquanto o rapaz, em meio a ecos, cogita se iria optar atendê-lo ou não. Cansado e com mãos leves e fracas, este atende a ligação com um tapa-olhos em meio ao seu rosto.
[Vega] — "Hum..." - [cansaço] - "Quê... fala..." — [retira o tapa olhos].
[LOJA E FESTA DE MOTOCICLETAS NIGHT RAW - JAQUETA, COTURNO E CALÇA VINIL AZUL ESCURA, COPO DE SHOP NA MÃO - LUZES NEON NA PARTE DAS COSTAS - 03H25 DA MANHÃ].
[Magal] — "Vega, você ainda tá vivo?" — [olhar sério].
[Vega] — "Hum... bom, parece que sim, né... você acabou de me acordar..." — [cansado e pouco paciente].
[Magal] — "Isso não seria um problema se você não tivesse evaporado durante 13 dias, não acha?" — [tom irônico e semblante sério].
Vega tampa seus olhos com o braço e mostra-se indisposto.
[Magal] — "Quanto tempo passou enfiado dentro desse parque? Eu tô te procurando um tempão, cara, ainda não ficou sabendo da sua família tutelar?" — [olhar impaciente].
[Vega] - "Não..." — [voz fraca] — "Por quê?"
[Magal] — "Eles não voltaram pra residência até agora e eram pra terem aparecido há cinco dias. Não reparou nenhuma movimentação atrás de você?"
[Vega] — "Magal.... eu tô tão cansado que se alguém comer minha bunda, eu nem vou notar..." — [mantém os olhos fechados].
[Magal] — "Pois então comece a notar porque tem uma gangue de arruaceiros assassinos circulando pela Nova York a procura de seus pais postiços e seu irmão mecânico... e é provável que eles tenham te deixado na mão, porque a única dívida que sobrou pra ser paga foi você!" — [sério].
Enquanto Magal fala, Vega subitamente abre os olhos e os mantém fixos à medida em que escuta o alerta de seu conterrâneo. Todo o seu sono vai embora e o rapaz se levanta de seu leito, já em estado de alerta com a notícia relatada.
[Vega] — "Espera... Quem são esses caras, e que dívida é essa?" — [apreensivo].
[Magal] — "Eu lá sei quem são esses caras..." — [bebe um pouco] — "A Audrey foi quem me passou essa notícia, se eu fosse você eu cobriria a nuca e cairia fora daí enquanto é tempo".
[Vega] — "Eu já cubro a nuca, não preciso fugir pra lugar nenhum..." — [cético].
[Magal] — "Tecido à prova de choque não protege porra nenhuma, eu tô te avisando...! Se não ficar de olho atento, eles capturam você e te aprisionam por mais 500 anos".
Vega começa a gradativamente a exibir um olhar tenso. O rapaz olha para o lado e começa a pensar no que fazer, sem nada a exprimir.
[Magal] — "Não se esqueça que tem uma legião de fãs atrás de você por recompensa monetária e eles farão de tudo pra te capturar, até policiais estão envolvidos". — [semblante sério].
[Vega] — "Tá, mas e os outros? SUII, Kat, Jason, o que eles vão fazer?" — [estende um dos braços].
[Magal] — "Os outros estão bem, nós estamos preocupados é contigo. Não dá pra você ficar circulando pelos bairros desprotegido e com a nuca exposta. A sua pupila não dá pra mascarar por completo..." — [olha para o lado, acena e volta-se à ligação].
[Vega] — "Sim, eu sei, eu tô sabendo..." — [desliza os dedos nos olhos] — [suspira].
[Magal] — "Disfarce seu rosto e pegue o primeiro avião pra Miami. Procure pela sua mãe e só volte depois de 06 meses".
[Vega] — "Olha..." — [com dedos sobre a testa e olhar impaciente, levanta-se e cruza as pernas] — "olha só, Magal, isso tudo é muito estranho, tá legal?" — [impaciente] — "Primeiro eu sou mandado pra uma família tutelar que me mantém detido por quase dois anos, e depois eu recebo uma notícia de que tem um leva de bastardos querendo minha cabeça?!" — [feição de raiva e preocupação] — "Quê que tá acontecendo, Magal?!" — [dedos travados para cima].
[Magal] — "O que já vem acontecendo há 100 anos quando os SH's foram mandados pra cá, cara..." — [leve decepção] — "É o jeito que levamos a vida por aqui..."
[Vega] — [fecha os olhos, leve travar de lábios, breve revolta] - "E é essa a vida que merecemos levar? ... Qual é o motivo do SUII não ter me deixado lá por tanto tempo?" — [breve pausa, semblante de tristeza].
[Magal] — [breve fechar de olhos] — "Qual é, cara, não culpe o SUII... a polícia estava no pé dele por causa do caso Cash". - [desapontado].
[Vega] — "Sempre isso..." — [frustração] — "Caso Cash, caso Cash! MALDITO! CASO... CASH!!!" — [gesticula e soca bruscamente o solo, seguido de deslizamento de sua mão em rosto] — "MALDITO dia em que fui pegar CARONA com esse cara!" — [raiva].
[Magal] — [exibe semblante de decepção por trás do telefone].
[Vega] — [gesticula intensamente] — "Eu nem devia ter entrado naquele caminhão! OU MELHOR! Devia mesmo era ter deixado ele me comer e chupar de cima em baixo pra acabar logo com essa MERDA!" — [levanta e desce subitamente um dos braços].
[Magal] — "Moço, relaxa, vai adiantar alguma coisa você espernear? O que era pra ser, já foi, não tem jeito mais!" — [acalma o amigo].
Vega respira fundo e olha para cima.
[Magal] — "O que você tem que fazer agora é achar a sua mãe e dar o pé daqui, esquecer esse planeta. Eles vão te perseguir até o final da sua vida, e não tem nada que nós possamos fazer a não ser ficar nesse looping eterno..." — [semblante de tristeza].
[Vega] — "Só por cima do meu cadáver..." — [voz contida olhar de ódio] — "Não saio daqui sem levar vocês... e eu vou ter o tempo que for necessário com minha mãe. Isso se ela parar de se esconder e começar a dar as caras, é claro".
[Magal] — [encosta-se na cabine telefônica] — "Olha, esfria a cabeça primeiro, relaxa e encontre um lugar seguro provisório fora daqui, você entendeu?" - [mesclar de confiança e tensão].
[Vega] — [olhar triste] — "Será que vou poder ao menos contactar vocês? Não quero viver separado da minha família." — [mão sobre a cintura].
[Magal] — "Hey..." — [olhar se compaixão] — "Você não vai ficar incomunicável e nem vai precisar ficar num cativeiro... você só precisa se manter camuflado, ok?"
"A gente vai se ver de novo, isso eu posso garantir...." — [diz a voz no telefone enquanto Vega balança a cabeça e renova o sentimento de esperança].
[Vega] — "Ok... vou fazer o que está dizendo... só me mantenha atualizado com as coordenadas..." — [pausa] — "Ok?" — [semblante sério].
[Magal] — "E vê se não some outra vez, ok? Eu quero saber por onde você anda, conterrâneo..." — [leve sorriso].
[Vega] — "Eu também quero saber por onde você anda... pai número dois." — [sorriso sereno].
Magal deixa escapar um leve riso e satisfação em seu rosto.
[Magal] — "Falando assim, você até me deixa sem jeito..." — [esfrega o dedo no nariz].
[Vega] — "Manda um soco na "Kat" pra mim? E um tapão com os cinco dedos no pescoço do Jay..." — [sorriso debochado, exibe a mão aberta].
[Magal] — "Rs...! Pode deixar, eu mando sim..."
[Vega] — "Eu tenho o contato do SUII... amanhã eu vou falar com ele pra verificar como estão as coisas no Hotel. Poderia agradecer a Audrey pra mim?"
[Magal] — "Claro! Se duvidar, ela deve estar escutando essa conversa no momento..." — [vira de costas e se recosta nas paredes da complexa semi cabine] — "Sabe? Eles sentem sua falta." - [sorriso sereno].
[Vega] — "E eu a deles..." — [sorriso com uma leve tristeza].
[Magal] — [leve pausa e um modesto sorriso] - "Até mais, frasquinho..." — [misto de felicidade e melancolia].
[Vega] — "Até mais, sem camisa..." — [sorri].
Magal exibe um sorriso genuíno pela primeira vez em vários anos. Para assegurar de que não seriam rastreados, Magal destrói o aparelho telefônico de suas mãos.
........................
[HORAS DEPOIS.17H00 DA TARDE. PÔR DO SOL. PREPARATIVOS PARA O NATAL. MENSAGEM DE ÁUDIO].
[Vega] — "Hey, tá ocupado? Eu não devia fazer isso, mas não podemos ao menos nos reunir nesse Natal antes de sair de Nova York? ... Eu estou no disfarce, ninguém vai notar que sou eu... eu não devo ser o único Transmorfo desse planeta, não é possível...!" — [guarda o celular no bolso].
Vega caminha em uma avenida turbinada de pessoas e carros circulando para todos os lados. Comércios estavam superlotados e mal dava para ver além da frente dos olhos. O moço estava com um capuz que escondia seu rosto e estava munido de um óculos espelhado. Suas roupas eram cinzas com finos traços marcantes de verde marinho luminescente e botas de cano longo cinzas. Era um macacão itinerário de manga larga e luvas longas sem dedos. Seus cabelos eram curtos e brancos e sua pele, mais escura. De um lado e de outro, Vega notava algumas movimentações anormais no meio daquela multidão, indo e voltando em direções opostas de forma sintônica, como se algo houvesse sido planejado naquela manobra. A maioria esmagadora da avenida utilizava casacos, ternos e máscaras, e ficava cada vez mais difícil fazer a identificação dos rostos, pois também usavam óculos. Com isso, presumindo que poderia estar sendo sondado, o rapaz decide então adentrar um edifício mais próximo.
O extenso local começou a rapidamente se esvaziar ao longo de 30 minutos. Vega permaneceu camuflado em uma sombra próxima a um banco iluminado na estação de metrô da cidade. Estranhamente, o setor estava começando a ficar vazio. Os sons, cada vez mais silenciosos. Ainda parado rente à sombra, o menino aguarda mais um tempo para sair dali, aos poucos. O panorama celestial estava adotando uma tonalidade ainda mais crepuscular, e os metrôs, já não havia mais pessoas.
. . . . .
Vega caminha a longos passos para encontrar um local por onde poderia passar a noite. Sem muito o que gastar, se aloja em um ambiente escuro entre contêineres se sentando em um dos baldes de metal que estava de cabeça para baixo. Aproveitando uma churrasqueira velha cheia de carvões, Vega joga um pouco de álcool que encontra próximo de si e acende o fogo com um isqueiro que estava em seu bolso. No meio de uma pilha de quinquilharias sendo debruçadas pelos pedintes, Vega encontra no meio deles uma cadeira inflável improvisada, na qual se infla quando tem seu dispositivo acionado.
Relaxado, o rapaz se senta e começa a olhar atrás de si alguns vestidos pendurados por cabides suspensos por anzóis. Pensativo, o fugitivo começa a sentir falta de sua forma original. Apesar de eventuais transformações que desfrutava de uma semana para outra, passava a maior parte do tempo na pele de um homem, ou de mulheres que não a sua configuração primária. Desta feita, Vega planeja voltar a sua primeira aparência antes de partir de Nova York. O viajante avista uma moça com uma elegante e uniforme de saia rodada e sorri ao voltar a imaginar as suas extravagantes roupas que gostava de usar antes de sair. As gigantes joias e saltos classudos que gostava de exibir nas suas danças nas praias de Vandora. Os enormes braceletes presenteados com as pedras mais belas e os colares mais pujantes. De repente, o mesmo volta a realidade, e repentinamente, começa a desmanchar o seu rosto em uma visível melancolia.
Sentindo-se "aziado", o menino se levanta e balança o oceano de cabelos brancos antes de partir. Com duas grandes mechas repartidas ao meio, cujos fios tinham cortes gradativos não lineares, e um recorte "short bob" no restante da cabeça, seu visual imediatamente atraiu pessoas nos arredores dos contêineres ao retirar o capuz de sua cabeça e o óculos de seu rosto para limpar as lentes. Sacando sua mochila antes que pudesse colocar nas costas, o Transmorfo começa a sentir uma onda sonora de dois "páfis" a quilômetros de distância, acompanhado de um estranho cheiro de algo que parecia ter se dissipado em sua essência. Vega, familiarizado com a temperatura das pessoas presentes, estranhou o que sentiu. Era como se de longe, uma grande massa de energia tivesse perdido toda a potência, e sua temperatura, diminuindo por completo. Vega começa a aumentar a sensibilidade de seus sentidos e escuta alguns pequenos gritos que somente ele poderia escutar:
[Vega] — "Você ouviu isso?" — [vira-se para um homem com um cobertor atrás de si].
[Homem] — "Ouviu o quê" — [confuso] — "Não ouvi nada..." — [nega].
Vega então vai até em direção às vibrações sonoras e por onde a massa corporal estava sem detecção de temperatura. Era como se algo estivesse sinalizando um objeto opaco e sem vida. De longe, Vega detectava energias vitais dos seres vivos por onde passassem, podendo inclusive senti-las quando morressem. Caminhando por 15 minutos em um labirinto de contêineres, o sol das 05 da tarde estava ainda mais ofuscante. Em um mar de entulhos e caixas, contêineres se misturavam à anarquia das luzes cegantes que pareciam obstruir o caminho linear da estrada. Vega cuidadosamente para e olha para todos os lados a procura de algo não vital. Copos, passos e talheres se batiam em um motim que substituía o canto das cigarras. Mais a fundo de um dos becos, Vega anda devagar até um dos locais próximo a uma grade de metal com placas velhas e roupas rasgadas penduradas nos espetos. O cheiro agora, começa a ficar mais forte.
Ao se aproximar de um recipiente de metal cheio de sacos de lixo, Vega, já levemente enojado, notou que alguns deles estavam com um aspecto pesado, e alguns, já projetado para fora do recipiente metálico. Com medo do que veria, Vega queria identificar de quem seria o corpo. Moscas aos montes rondando os sacos pretos, o cheiro se tornando cada vez mais insuportável, e Vega, ainda mais agoniado. Reduzindo seu olfato para que não pudesse sentir o fedor, Vega corta com um fino canivete, a parte da sacola plástica que entendia estar localizada uma cabeça humana, quando finalmente, a mesma cai no chão, lotada de vermes e larvas. Até mesmo uma parte de uma medula espinhal humana pode ser vista saindo para fora da abertura do corte.
De olhos saltados com o que via, Vega larga o canivete ao chão e sai correndo para bem longe dali, sem olhar para trás. Era um dos membros de sua família substituta, a qual havia sido morto e esquartejado. O Transmorfo sequer quis abrir o restante dos sacos pretos para descobrir o que era. Tombando em vários contêineres, mas sem perder a pressa, Vega logo tenta ligar para SUII para relatar o que havia visto e recebe uma caixa de recados. É só o momento da secretária eletrônica terminar o seu solene discurso para Vega soltar a notícia flagrante:
[Vega] — "SUII! Tá aí?? Preciso que me atenda logo! Acabei de encontrar a minha família tutelar inteira morta!" — [olha brevemente para trás] — "Aqueles caras que você falou...! Eles podem estar bem perto daqui!" — [afasta pilhas de papéis com os braços] — "O Magal avisou sobre eles! Dá pra alertar aos outros??" — [bate em vários pedaços de madeira, metais e objetos descartáveis, sem cair para trás] — "Se puder retornar, faça isso logo porque eu não tenho tempo!" — [esbarra em mais objetos aleatórios, que voam sem impactar o rapaz] — "CADÊ VOCÊ?! POR QUE NÃO ME ATENDE LOGO?!" — [desliga o telefone, colocando o no bolso zipado].
Enquanto corria, passantes tentavam cercar Vega para assaltá-lo com armas brancas, o que restou sem sucesso. O rapaz imediatamente empurra as cinco pessoas como se fossem pinos de boliche, espalhando-os para todos os lados.
[Vega] — "SAI DA FRENTE!" — [empurrão brusco, corpos colidindo contra os contêineres].
O jovem corre muito rápido para longe dali.
Acreditando que iria se despistar de qualquer sondagem, Vega tenta voltar à área urbana, tampando-se novamente com o capuz para que pudesse se ocultar. Ocorre que o rapaz opta pelo caminho errado e termina sendo direcionado para outro bairro por onde já não se viam mais câmeras. Com o local quase escuro, Vega interrompe seus passos para verificar onde seria aquele lugar por onde se encontrava um enorme asfalto vazio e inóspito, com algumas poucas galerias e caixas.
Tendo o fio crepuscular como única iluminação daquela estranha tarde, o local em breve iria escurecer por completo. Vega volta para trás a fim de optar por outro caminho para desviar. O sol estava começando a ficar cada vez mais fraco, a luz do ambiente, cada mais nítida e vermelha, aliada aos tons rosados e a mistura das sombras. O emaranhado de pessoas e coisas era tão grande que Vega começou a pular os contêineres para desburocratizar sua saída, o que terminou por chamar ainda mais atenção dos habitantes. O rapaz tinha desenvoltura para pular prédios e muros, e todos os seus movimentos pareciam bastante profissionais por serem muito rápidos. Não demorou muito para Vega encontrar uma fuga daqueles metais, encontrando finalmente a rua por onde de fato havia se dirigido para o local abandonado.
Descendo os contentores, Vega olha para rua com um ar de estranheza quando se depara com toda a avenida completamente inóspita e vazia. Os objetos eletrônicos que podia detectar com seus sentidos, pareciam não estarem ativados, e as lojas, estavam com quase todas as luzes apagadas. Até há pouco tempo, Vega estava rodeado de uma multidão de pessoas circulando pelos asfaltos, o que o deixou bastante confuso por alguns segundos. Nem mesmo os postes estavam acesos naquele momento.
[Vega] — [pausa] — "O que houve com as câmeras?" — [desconfiado].
Cismado e tampando a cabeça com o capuz para tentar proteger a nuca, o rapaz começa a ceder passos mais lentos a fim de não sinalizar sua existência no local. Quanto menos barulho, melhor. Com um crepúsculo muito forte, Vega aposta na escuridão para se camuflar e enganar a visão de quem quer que ali estivesse. Se ofusca pelos lados mais escuros e procura continuar em linha reta. Quando o local estivesse limpo, saía das sombras para o mundo exterior. Já se distanciando dos contentores e a caminho da estrada asfáltica, o jovem percebe um vulto vindo logo atrás de si, quando rapidamente vira a cabeça para identificar de onde veio o som. O Transmorfo sentiu que estava sendo enganado para que fosse encurralado e começa a exibir um semblante de tensão, já tirando de dentro de seu macacão uma arma de uso restrito para SH's.
Até o momento, o local já havia adotado um tom lilás acinzentado, e o ambiente estava se tornando ainda mais gélido. Quanto mais tentava se afastar, mais Vega sentia que estava sendo vigiado e remotamente seguido. Ele olhou para uma das câmeras ao lado de um portão de um prédio, mas não conseguia detectar seu funcionamento, mesmo estando ligada. Se aproximando, percebe que a máquina não se movimentava, o que não era comum para o rapaz. Sem saber muito o que fazer, Vega se vira calmamente e segue rumo estrada à frente. Quando caminha por alguns segundos, escuta um barulho de uma movimentação de carrinhos de supermercado em sua direita. Vega se arma e percebe que os sons serviam para distraí-lo e tirá-lo de sua trilha. Continua seguindo em frente, já exibindo impaciência em sua face.
Antes que caminasse para alguns metros distante do seu ponto de partida, Vega escuta logo à frente, alguns ruídos e movimentações desconhecidas vinhas das laterais como se algo tivesse prestes a sair dali. Vega dá um passo atrás e vira seu rosto discretamente para a câmera que tinha antes se deparado. Supreendentemente, a mesma havia mudado de rotação de onde ela estava anteriormente. Assustado, mas não surpreso, Vega cede alguns passos para trás e acerta a câmera com três de seus ossículos de duas mãos, o que acaba por destruir a máquina. Satisfeito com o resultado, Vega certifica se existem mais câmeras de vigilância espiãs à sua espreita. Vistoria todos os prédios e nada encontra que pudesse destruir. Começa então a analisar os postes apagados. Apesar de muito pequeno, Vega enxerga um grampo anexado a uma microcâmera dentro dentro do vidro, na lâmpada do poste. O fugitivo assim o destrói por completo, fazendo o objeto cair no chão.
Com discrição, Vega pisa e esmaga o aparelho por completo. Sem saber de onde vêm, começa a sentir como se tivessem finos fios imperceptíveis mirados para a sua pele, aos montes. Invisíveis a olho nu, o jovem muda sua visão para detectar as luzes infravermelhas e passa a enxergar milhares de fios espalhados por todo o setor a espreita dele. Assustado e ofegante, o mesmo começa a se virar para todos os lados em busca por onde fugir daquele lugar. Com medo de ser alvejado, começa a deixar sua pele ainda mais rígida como forma de proteção e parte às pressas do ponto de onde estava para se despistar das miras em seu corpo. Já bem distante daquele local, nota que os fios que o envolviam se dissiparam e Vega começa a ficar um pouco mais tranquilo, deslizando sua mão em seu rosto.
Quando finalmente parecia respirar aliviado, o moço estranha um incômodo em seus olhos que o faz querer coçá-los, quando finalmente percebe o que havia logo na sua palma da mão: um fio infravermelho. O rapaz salta gradativamente os olhos e seu alerta é imediatamente disparado:
[SOM DE TIROS].
Por reflexo, Vega vira-se rapidamente para trás quando algo de raspão acerta seu capuz, revidando um tiro de volta contra o agressor antes dque pudesse fugir para se esconder. O atirador termina com o ombro ferido. De rosto descoberto, o rapaz parte em retirada como quem toma o lugar de um guepardo. Correndo para uma rua à esquerda, Vega escuta vários sons e fios se misturando à procura dele como alvo. Um dos agressores tenta surpreender Vega saindo dos baldes metálicos para eletrocutá-lo, o que é contido pelo Transmorfo segurando-o pelo braço e devolvendo uma cacetada no rosto com a tampa metálica do recipiente, afundando a testa do homem. Sem olhar para trás, o rapaz continua correndo para se despistar de seus perseguidores quando nota que alguns deles estavam por cima alguns pequenos edifícios. Segurando a mochila próxima à sua face para se proteger, o Transmorfo recebe um tiro que acerta sua bolsa, mas não o afeta. Este tira de sua mochila alguns dispositivos de efeito moral que estoura uma grande quantidade de fumaça quando jogado contra algo sólido. As bombinhas explodem nas caras dos perseguidores à perder Vega de vista.
Sem avistar nada pelos lados, o jovem passa rente a uma moça, despercebida, próxima a um carro preto. Sem que Vega notasse sua existência, a mulher cede o golpe final disparando um dispositivo de eletrochoque na nuca do Transmorfo, que cai apagado no asfalto. A escuridão lugar de assalto.
[CHOQUE SÚBITO. DESMAIO INSTANTÂNEO].
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Em meio a clarões de faróis das lanternas perpassando os cantos e pisos do local, passos e vozes se misturam em meio a vários indivíduos de roupas escuras e veículos cercados proximos do corpo desmaiado de Vega. O rapaz era apenas uma caça, e o Prêmio, eram os seus dotes.
............[Vozes Desconhecidas].
— "Olha só isso aqui... é um filão...! Espera só até a Dil vê-lo." — [analisa o corpo com um dos pés].
— "Viu isso, Joe?" — [Sons de passos]. "Éh, eu vi. O filho da puta afundou a cabeça de um dos nossos..." — [contrariado].
— "Eu falei pra ele não chegar perto, mas ele é burro demais pra entender a mansagem. — [pausa] — Bem... era burro... agora ele está morto — [olha para trás]".
— "Ele não era suplementado?". "Não, ele nunca se suplementou. Vai entender...". — [passos].
— "Lamento pela tragédia, mas esse cara morreu de burrice... arrumemos outro mais competente. — [analisa o corpo de Vega] — É esse é que é o espécime?".
— "Parece que sim... a pupila dele é muito transparente, meio preta, furta cor... não sei descrever bem".
— "Mas ele é F A N T Á S T I C O. Nunca vi nada igual antes..." — [fascínio].
— "Por isso que eu falei que ele era um filão. Se for quem estamos pensando, esse carinha vai nos dar muita grana..." — [satisfação].
— "Muito bem... — [confiante] — ponham ele no carro, rápido. E garantam que as câmeras estejam desviadas...".
— "Quanto a isso, não se preocupe, a Central continua sendo nossa alçada. Negócios são negócios...".
— "Seu presentinho de natal, dona...!" — [exibe satisfação enquanto carrega o corpo do rapaz pelos pés].
A mulher sorri.
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Jogado ao solo, e com todos os seus pertences espalhados no asfalto devido a sua mochila parcialmente aberta, Vega tem seus objetos confiscados e seu corpo arrastado até o carro preto, sendo carregado para dentro do veículo enquanto permanecia totalmente apagado. O carro escuro sai em disparada, e nenhuma das câmeras parecia registrar qualquer imagem do local. Estavam paradas e inativas. Restavam apenas as almas das testemunhas que ali um dia estiveram.
"Manhunt OST - Press Coverage(idle)".
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