----DESEMBARQUE. NEVADA. MADRUGADA DE 15 DE JULHO EM DIANTE. ANO DE 8850. CAMINHADA. PRIMEIROS DIAS EM NOVA YORK.PARTE #6-----
=============>>> 6H40 DA MANHÃ. 16 DE JULHO. 18ºC. VENTOS ÁRIDOS. CALMA E SILÊNCIO.
O veículo rodava. O dia estava próximo a raiar e nenhuma palavra fora manifestada por nenhum dos dois cúmplices. A queima de cigarro clareava a pouca luz que ali havia. As doces e ensanguentadas mãos continha a fumaça cítrica que era exalada pelos lábios do rapaz. De janela aberta, os fios de cabelo dançavam aos sopros da ventania. Entre os bancos frontais do caminhão, o roupão repleto de furos estava disposto de forma desmanchada na mochila de zíper aberto, já lotada de pertences que já não cabiam mais. Como só tinha uma única peça de roupas, tratou de vesti-las novamente enquanto o motorista permanece adormecido. O caminhão, foi colocado em seu modo automático como de costume.
Com as mãos nuas, o garoto as afunda em sua mochila rosa para caçar a revista rodoviária que havia pego como cortesia no veículo aeroespacial. Não havendo mais o que fumar, o rapaz come o restante do corpo do cigarro como se fosse um doce artificial. Ao abrir a revista, nota que ainda faltaria um longo caminho para Nova York, e que seu dinheiro, não seria suficiente por muito tempo. Precisaria coletar mais caronas grátis se quisesse fazer sobrar para o essencial. Estava solto da mochila, a ponta do braço do brinquedo de pelúcia que Vega havia guardado como valor sentimental, pertencente a princípio, à sua mãe, Läude. Vega puxa o brinquedo para si para observá-lo por um tempo enquanto mata a saudade de suas lembranças.
O brinquedo lilás escondia uma abertura destravada por um botão, que dava acesso a um recipiente cheio de flores comestíveis que Vega havia cultivado em estufas enquanto viajava para a Terra. Junto a este, um pote com uma vasta coleção de sementes na qual o rapaz poderia se fartar em solos de todos os tipos, até os mais ácidos e inférteis. Abrindo o recipiente, Vega come algumas dessas flores para se nutrir. Logo em seguida, o Transmorfo, munido de seu objeto, vai até a um armário suspenso na luxuosa cabine do caminhão para beber um enorme copo d'água e procurar um café para tomar. Por sorte, já havia uma garrafa cheia pronta, e a bebida estava bem quente e atrativa.
Russel, como havia passado por uma noite agitada, tirou um tempo para descanso enquanto manteve um jornal cobrindo o seu rosto. O relógio que estava em seu pulso, tocaria o alarme para despertar às 09 horas em ponto. Sentado em posição indiana e desfrutando de uma xícara de café, Vega pensa em um destino para o roupão furado que o livrasse de qualquer envolvimento na invasão ao Motel Bohemia.
..........................A luz denuncia o raiar do sol.....
Durante longos minutos, Vega aprecia o espetáculo solar se deslizando de seus olhos como uma cortina brilhante que cobre a superfície de sua pele. A luz, toca lentamente o retrovisor do veículo em movimento e ilumina as marcas de sangue nas roupas em cima da mochila rósea. O brinquedo lilás em cima de seu colo, ainda estava bem conservado. Puxando o espelho do retrovisor interno, o rapaz olha fundo para a cor de seus olhos. Resolveu mudar o tom para uma cor rosa salmão, a fim de que combinasse com a luz solar. Distraindo-se com a estrada, o menino passou um bom tempo de cabeça vazia, focado nos sons dos ventos e no caminhar dos raios. Quando menos esperava, já haviam se passado pouco mais de duas horas. Russel desperta pelo seu alarme.
[Russel] — "..." — [desliza a mão no rosto e desliga o alarme] — Não dormiu? — [olhar cansado].
[Vega] — "Ainda não.... meu sono vai demorar pra chegar.... se eu tiver sorte, vou ficar acordado por pelo menos 48 horas." — [olha para xícara vazia].
[Russel] - "Bom..." — [boceja] — "imagino que sua vinda até aqui tenha afetado seu relógio biológico..." — [ajeita-se à cadeira].
[Vega] — [suspira] — "Nem me fale... tudo aqui é muito acelerado e o tempo é muito curto... eu tô pra ficar louco..." — [leve semblante de espanto].
[Russel] — [estica os braços] — "Como é o fuso horário de seu planeta?"
[Vega] — "Lá um dia tem 60 horas de duração. Uma hora, 100 minutos. Um minuto, 100 segundos. Um mês tem 45 dias. Um ano, 30 meses, 1350 dias..." — [olha para o motorista].
[Russel] — "Puta merda, uma eternidade...." — [espanto].
[Vega] — "Éh... um ano lá passa devagar..." — [sorriso cansado].
[Russel] — "Eu não sei se eu daria conta... tempo demais..." — [cruzar de braços atrás do pescoço].
[Vega] — "... Você se acostuma..." — [sorri olhando para a estrada].
Russel vai até a cafeteira para se servir e abre do armário logo abaixo, uma caixa de bolachas de sal. Trazendo a embalagem, o homem, ao se sentar, oferece a Vega, que gentilmente nega. O Transmorfo guarda novamente o brinquedo de pelúcia e a revista rodoviária em sua bolsa.
[Russel] — [olha para o amigo] — "Agora que você me contou sobre o Cash, provavelmente você vai ter que sofisticar seu disfarce..." — [bebe o café e come a bolacha].
[Vega] — "Vão me caçar durante um bom tempo... e não sei até quando eu vou conseguir fugir de cada blitz que vier fazer uma fiscalização..." — [preocupado].
[Russel] — "Pegou o caminhão do Cash?" — [curioso].
[Vega] — "Tinha 05 SH's na minha frente prontos para me matarem. Não tive outra opção que não fosse voltar para o caminhão blindado e sair de lá. Tive que burlar a placa do caminhão do Cash, limpar o local e me esconder nos fundos. Mas hoje vejo que eu poderia ter enfrentado os cinco de uma vez...." — [cruza os braços de insatisfação].
[Russel] — "Tinha alguma câmera de vídeo dentro da cabine?"
[Vega] — "Eu não encontrei nenhuma, e nem deu tempo de pegar tudo. Os policiais saquearam o veículo e nem deu pra saber se tinha câmera escondida... sequer me livrei do lixo que catei e nem do boné do Cash".
[Russel] — "O Cash não seria tão burro de colocar uma câmera dentro da própria cabine, seria?" — [desconfiado].
[Vega] — "Sabe se lá... ele poderia ter algum fetiche... mas iria me inocentar da acusação de assassinato por dolo..." — [olha para Russel].
[Russel] — [entre risos] — "Caramba... assassinato acidental, descarte de corpo, roubo de veículo, adulteração de placa, ocultação de provas, falsidade ideológica e apropriação de bem monetário de pessoa morta..." — [olha para Vega] — "Você tá realmente encrencado se for pego..."
Vega expressa um misto de desânimo, vergonha e ansiedade colocando as mãos momentaneamente em seu rosto.
[Vega] — "Olha, eu não devia ter te envolvido nisso, eu acho melhor eu mesmo ir a pé..." — [olhar para baixo].
[Russel] — [olhar de espanto, balançar de ombros] — "Oh, o quê?? Tá querendo ser preso??"
[Vega] — "Eu posso acabar te prejudicando com meu histórico..." — [olhar preocupado].
[Russel] - "Prejudicando aonde, filho?" — [feição incrédula] — "Eu sou só um motorista que deu carona pra um desconhecido qualquer, mais nada... eu faço isso o tempo todo..." — [palmas das mãos para a vertical].
[Vega] — "E se eles souberem que você sabe da história?" — [desconfiado].
[Russel] — "E como eles vão saber? Você mandou alguma mensagem por telefone pra mim, por acaso? Fez alguma ligação? Mandou e-mail? Tinha alguma câmera naquela estrada desértica?" — [levantar de ombros] — "Nada... não tem NADA. Ok?" — [ressalta com gesto de "OK" e expressão de seriedade].
[Vega] — [olhar para baixo, pensativo] — "... Mas e se eles te interrogarem? ... O que vai responder?" — [olha para Russel].
[Russel] — "Vou responder o que eu acabei de te falar... que pra mim, você é só mais um desconhecido que dei carona até outra cidade e que eu não sei de nada. Simples..." — [olhar calmo].
[Vega] — [mãos debaixo do queixo, suspira fundo].
[Russel] — "Agora, se você for, você pode até mudar de fisionomia, mas vai estar usando a mesma roupa, com o mesmo tamanho e tendo que comparecer a uma loja com essa mesma roupa pra comprar peças que vão servir de disfarce, e essa MESMA roupa, você ainda vai ter que trocar em uma OUTRA loja cheia de câmeras de segurança. Prf...! Quatro pessoas diferentes debaixo de um mesmo conjunto de peças? E o descarte? Vai caber todas as roupas numa mochila igual a sua? E essa mochila? Teoricamente você não deveria trocá-la ou guardá-la em algum lugar? É óbvio que vai levantar suspeitas..." — [olhar sério].
[Vega] — "Eu sei..." — [balança a cabeça negativamente e suspira] — "nem sei porque você se preocupa comigo. Eu sou um estranho..." — [olha para o homem] — "me surpreende não ter dado voz de prisão pra mim..."
[Russel] — "Relaxa, tem um monte de estranhos na mesma situação que você". — [coloca a xícara em um suporte entre os dois bancos] — "A diferença é que eles estão fugindo da vergonha, você, de ser punido por se defender".
[Vega] — "..." — [olhar atento].
[Russel] — "Além do mais, ninguém gostava daquele homem, muito menos eu. Aquilo era um ordinário...!" — [expressão de nojo e raiva] — "O cretino vivia agredindo mulheres, assediando menores, dando golpes em toda a parte, azarando homens pela cidade... toda a região próxima da Área 51 criou ódio dele..." — [olha para Vega] — "Só houve investigação da morte dele porque é um cara influente e foi Policial Militar de Nevada. Do contrário, seria mais um adubo..." — [desprezo].
[Vega] — "..." — [olhar preocupado].
[Russel] — "E um dos funcionários dele, um ruivo, um tal de Magal, também não vale nada. Ele era amigo íntimo do Cash..." — [olha para Vega, gesticulando com roçar de dedos indicadores].
[Vega] — [breve olhar lateral e silêncio] - "Eu acho que eu sei de quem você tá falando..."
[Russel] — "Conhece ele??" — [curioso].
[Vega] — "Eu avistei um ruivo de cabelo comprido com uma foice quando tentei fugir do caminhão... e era um SH..." — [leve olhar de espanto].
[Russel] — "SH?" — [surpreso] — "Pra mim ele era só um suplementado..."
[Vega] — "Não, ele é um conterrâneo meu... só não o conhecia".
[Russel] — "E como sabe que ele era um dos seus?"
[Vega] — "A textura da pele, os olhos, o rosto, o corpo, são típicos de um SH... se você comparar um ser humano normal e um SH, as diferenças são gritantes".
[Russel] — "Deve ser por isso que ninguém sabe quem é a família dele, os endereços antigos ou onde ele passou o Ensino Médio".
[Vega] — "Deve ter pastado pra se adaptar aqui... na verdade, nem sei se eu devo me preocupar com ele..." — [confuso].
[Russel] — "Pois o cara é péssima gente, já vou logo avisando... sem querer me meter nos seus assuntos".
[Vega] — [suspiro] — "E pensar que eu poderia ter simplesmente caminhado a pé..." — [encosta-se ao banco, de braços cruzados e olhar de decepção] — "Eu nunca deveria ter pegado carona..."
[Russel] — "Nunca tem como prever quando vai dar errado, não é?" — [sorriso de canto].
[Vega] — [olhar sério] — "Não... Merda, vou ter que deixar do jeito que está mesmo." — [olha para o ambiente fora da janela] — "Até lá, eu preciso arrumar um documento e caçar algum trabalho o mais rápido possível..." — [desliza os cabelos em movimento agoniante].
[Russel] — "Dificilmente vão te deixar trabalhar se não tiver pelo menos um registro de nascimento, e o pior: você vai ter que inventar uma data..." — [controcer de canto dos lábios].
[Vega] — "Isso eu vejo depois..." — [passa a mão no rosto] — "só não quero ser pego antes de achar minha mãe..." — [desapontamento].
[Russel] — "Então você tá procurando é pela sua mãe? ..." — [confuso] — "Me conta isso direito." - [curioso].
Vega saca novamente o telefone celular, liga o aparelho e acessa a galeria de fotos por onde o mesmo mantém uma imagem de sua mãe compartilhada pelos familiares e amigos.
[Vega] — "Essa mulher, acho que você vai reconhecê-la..." — [entrega o aparelho].
[Russel] — "..." — [olha as imagens] — "Essa daqui... ué, é a Sonya Brian?"
[Vega] — "Sonya Brian?" — [confuso].
[Russel] — "Essa mulher que você me mostrou é idêntica a uma dona de uma empresa de cosméticos lá de Oklahoma..." — [olhar desconfiado].
[Vega] — "Tem no seu celular?"
Russel tira o aparelho de seu bolso e pesquisa pelo nome da mulher a quem Vega está à procura. Para a sua surpresa, a moça tinha exatamente a mesma feição da mulher que estava no celular do carona.
[Russel] — "Humf...! As duas são idênticas... até o jeito de sorrir... meu Deus..." — [espanto].
[Vega] — "Essa mulher foi a primeira a ser chutada pra fora do meu País e da órbita de BIOTH".
[Russel] — ... "A semelhança é bizarra..." — [contrair de lábios] — "bom, acho que já deu de perguntas." — [devolve o aparelho] — "... Vou começar a pirar se eu cavar mais fundo..." — [desliza a mão no rosto].
[Vega] - "Tente amortecer a cabeça... é muita informação pra processar".
[Russel] — "Nem vou pensar... tem coisas que não cabe me aprofundar demais, e nem terei todas as respostas se eu quisesse..." — [coça a cabeça].
Ambos pausam em silêncio para olharem a estrada por alguns momentos. Volta e meia, cada qual se mexiam em seus bancos como um feto se movimenta de dentro do ventre da mãe. Até então, nenhuma preocupação era concernente a uma eventual blitz de rotina ou invasões perpetradas por gângsters, mas sim, uma posição mais confortável para se deitarem nos assentos. Nenhum dos cúmplices tinha outra saída senão seguir estrada à frente. As janelas do veículo foram tampadas parcialmente com uma capa escura para evitar o sol nos rostos. A luz de um dos comandos próximos ao volante piscava de forma contínua à medida que o veículo era mantido em seu modo automático. Aparelhos fotovoltaicos são acionados para substituir o consumo de combustível, momento ideal para tirar proveito da forte luz solar. O aparelho celular de Vega já começava a dar sinais de que a bateria iria cessar após alguns dias. O receptor de cabos do aparelho possuía o formato de uma letra "T" invertida, o qual tornaria impossível seu recarregamento se não fosse pelo próprio carregador que guardava em sua resistente bolsa. A manhã voava e o sono com tédio começavam a bater à porta. Quando menos se esperava, já eram 13h30 da tarde.
[Vega] — [vira-se de lado, torce o pescoço e ajeita-se ao banco].
[Russel] — [deitado, de braços cruzados, vira-se de frente para o colega].
Abrindo-se lentamente os olhos, o motorista depara-se com o carona deitado de costas. Aos poucos, o homem começa a notar por detrás das pernas de Vega, uma pedra furta cor com um forte brilho que cegava os olhos quando exposta à luz. Levemente irritado com o incômodo reflexo em seu rosto, Russel esfrega os olhos com sua mão antes de ficar perplexo com o que havia visto e pegar o estranho minério para si. Segurando-a com seus dedos polegar e indicador, o motorista olha de perto para o objeto e fica impressionado com tamanha beleza da pedra. Suas particularidades pareciam bem raras em relação ao que o homem compreendia como minérios preciosos até então. Nunca tinha visto nada parecido com o que ele havia pego para si.
Vega, percebendo a movimentação do amigo, desperta-se com o reflexo da luz sobre a pedra preciosa que estava na mão de Russel. Ainda pasmo, o motorista olha para o carona com feição de desconfiança sobre o aparecimento do objeto estranho próximo às nádegas do carona. O garoto, como percebia de longe o intuito de seu cúmplice, começa a ficar preocupado com a forma que Russel o encarava. Sem querer parecer indiscreto, o motorista dobra os lábios olhando para a pedra e volta sua atenção para Vega, esperando que o mesmo se explicasse pelo flagrante:
[Vega] — "..." — [preocupado] — "O quê...? O... ah...!" — [suspira e expressa leve decepção em sua face, deslizando sua mão em seu rosto] — "Russel, isso..." — [apontando para a pedra preciosa] — "ah...!" — [suspira e deita a cabeça no banco, amolecendo os braços] — "Você não vai entender..."
[Russel] — "Isso". — [ressalta] — "Isso aqui... estava dentro da sua bunda?" — [olhar fixo para Vega].
[Vega] — [olhar com misto de vergonha e espanto] - "Bom... na verdade, isso saiu... da minha bunda". — [breve olhar lateral] — "Literalmente..." — [olha com um certo medo e receio para Russel].
O homem expressa um semblante de paisagem por alguns segundos enquanto permanece imóvel com o minério em sua mão. Até que então, o mesmo explode em risadas.
[Russel] — "PFRT..!!RRRRRRRRSRSRSRS...........!!" — [risos arrastados].
Vega começa a se levantar e exibir um sentimento de vexame e espanto em seus olhos.
[Vega] — "... Qual é a graça?" — [espantado e envergonhado].
[Russel] — "Aaaaaaarrrrssssss....... HÁÁRSSS.... Ha, ha, haaaaah.....!" — [risos intensos].
[Vega] — "Russel, isso não tem graça, vai se foder..." — [olhar constrangido].
[Russel] — "Aaaaarrrrsrsrsrsrs.....!!" — [mãos no peito].
O homem se contorcia como quem teria um infarto. Vega se mostrava cada vez mais constrangido à medida em que seu cúmplice explodia em intensas risadas. O carona parecia um gato de orelhas afundadas para trás.
[Russel] — "......NARHRRRRRRSSSSS.....!! Não é possí....! Vel....! ..... HARRRSSSSS.... HÁ, HÁ, HÁRSSS....." — [risos agoniantes].
[Vega] — "Qual é, cara, o que há de errado nisso???" — [braços estendidos horizontalmente] — "Mulheres não menstruam?? Então...!" — [braços esticados para frente] — "Eu também produzo pedras, cara"! — [feição de espanto e sorriso de canto].
[Russel] — ".....AAAAAAAARRRRSSSSSS.....Ha,ha,ha,ha,ha, ha,ha,ha....!!!Rrsrsrsrs......!" — [risos doloridos].
Vega permanece imóvel. Cada vez que tentava se justificar, mais o bastardo se contorcia de risadas da cara do infeliz. O garoto estava tão estático que se parecia como um fim da transmissão de uma gravação coreográfica que nunca acabava. Russel tenta recuperar seu fôlego antes que morresse do coração. Já Vega, queria recuperar a sua dignidade.
[Vega] — "Você quer parar de rir...?!" — [irritabilidade e vergonha].
[Russel] — "Ah....! Ah...." — [respiração cansada] — "É que.... Rsrs...!" — [entre risos e respiração ofegante] — "Você acabou de falar que choca uma pedra.... Rssssssss.....!" — [mão no rosto] — "Você tem certeza que não pegou isso de algum lugar e escondeu....?" — [mais risos, mão frente aos olhos].
[Vega] — "Ah, então vou ter provar abrindo meu rabo pra você agora??" — [irritabilidade].
[Russel] — "AAAARRRRRRRRSSSSSSSSS......." — [lágrimas nos olhos].
[Vega] — [cara de tacho].
[Russel] — "... Ah.... ai, cacete..." — [limpa as lágrimas] — "você por acaso veio do cruzamento de um primata com uma galinha? RRRRRSSSSSSSS......" — [antebraço frente à boca].
Vega começa a se irritar com a estupidez de Russel e toma a pedra das mãos de seu cúmplice.
[Vega] — "Me dá isso aqui, chega"! — [irritado, encosta-se bruscamente ao banco e cruza os braços] — "Não quero mais uma palavra sobre isso. Palhaço". — [emburrado].
Russel finalmente finda as risadas e retoma sua sanidade. Ao deslizar a mão em seu rosto, percebe um odor estranho vindo de suas mãos.
[Russel] — "... Nossa, pior que esse negócio tem um cheiro de rabo." — [sente novamente o odor] — "Até que não é ruim..." — [olhar lateral].
[Vega] — "Escuta, você quer calar essa boca e parar de gozar com a minha cara?!" — [semblante irritado].
[Russel] — "Ok, desculpa, foi mal, eu só nunca tinha ouvido falar desse..." — [aponta para a mão de Vega] — "Fenômeno..."
[Vega] — [revira os olhos] — "Eu produzo esses minérios eventualmente a cada 09 a 45 dias dependendo do meu estilo de vida..."
[Russel] — "E qual é o nome disso aí? Quantos milhões isso aí vale?"
[Vega] — [ainda com um olhar irritado e entediado, explica para Russel] — "Não tem nome, só chamam isso de "pedrinha branca". Isso vale de 2000 à 5000 vands... só que quase ninguém usa, a não ser alguns praianos." — [levantar de ombros] — "Então os que eu produzo, eu sempre descarto..."
Nesse momento, Russel engorda os olhos ao imaginar que tal minério raro a ser descartado por Vega, poderia ter um bom valor monetário. O homem, cobiçado, desliza os dedos em seu queixo por alguns segundos e começa a especular sobre o valor da pedra preciosa.
[Russel] — ... "Deixe eu ver... um vand vale quanto em dólar?" — [olhar distante].
Vega olha com uma certa desconfiança para Russel. Seus olhos ficam entreabertos e seu semblante é de censura.
[Vega] — "Tá querendo trocar a pedra por dinheiro?" — [rosto levemente inclinado para o oposto, o olhar, direcionado para Russel].
[Russel] — "Bom... se não for um problema pra você, podemos dividir a metade, por que não?" — [levantar de ombros].
[Vega] — "Dividir a metade??" — [leve semblante de deboche].
[Russel] — "É, ué, achado não é roubado. E se nos saquearem e a gente precisar de grana? Vai precisar pra pagar um hotel ou montar um negócio". — [sorriso de canto].
[Vega] — "..." — [olhar distante].
Vega pensa por alguns instantes e exibe um olhar lateral enquanto não percebe que a pedra, que deixou por entre as suas pernas cruzadas, estava na mira de Russel. Esfomeado por dinheiro, o motorista olha por debaixo da capa escura que cobria parcialmente as janelas do veículo para tentar localizar algum ponto de parada que eles possam estacionar para comer e fazer trocas cambiárias. Máquinas e pessoas trocando dinheiro e objetos de maneira informal, eram extremamente comuns naquele Estado. Muitos tinham que sobreviver realizando pontes para trocas de diversas peças valiosas entre clientes e bons negociadores. Alguns até o faziam em troca de comida, roupas, tratamento dentário, um bom banho ou por um quarto de dormir.
Negociavam de tudo, desde tapetes, queijos, mel e café, tabaco, talheres, heroína, carnes, cigarros, trocas cambiárias, pulseiras e brincos, cremes e sabonetes, materiais escolares, livros, cobertores, cortinas, sapatos, e até sexo. Um mesmo negociador de filhotes de cachorros poderia ser um vendedor ambulante de cocaínas e cachorros quentes bem como se prostituir ao mesmo tempo. Além disso, também era frequente serem chamados para catar lixo de bairros nobres. O lado positivo, era que recebiam muito bem por isso, então para eles, dava para viver. E por sorte, multifuncionalidade tem sido por muito tempo aceita com boa naturalidade, e a frequência era muito alta.
Logo além de sua vista, Russel avista uma pequena concentração de construções do lado direito da estrada. Rapidamente manuseando uma computação embarcada de seu veículo, o motorista demarca um local mais próximo dali como destino de parada. O comando é acionado e o caminhão é direcionado para uma galeria de lojas horizontalizada, na qual as negociações são todas feitas de forma remota e são monitoradas por câmeras de 360º de ângulo por 24h. Somente o posto de gasolina ao lado havia um único ser humano. No caso, um SH, por conveniência da empresa. O local estava à 10 minutos de distância de onde os cúmplices estavam. Se aproveitando da distração de Vega, o homem fisga rapidamente a pedra brilhante que tinha sido posta por entre as pernas do rapaz.
Vega expressa choque em sua face.
[Russel] — [semblante de ansiedade e avidez, breve olhar lateral, palmas das mãos expostas] — "... Calma, olha... isso pode valer uma fortuna aqui na Terra, pois é uma peça IMPOSSÍVEL de se encontrar por aqui. Se a gente trocar por dinheiro, eu pego a metade e você pega a sua...!" — [quase sussurra] — "Você pode pegar o primeiro avião e encontrar sua mãe em Oklahoma, que tal...?" — [expressão de interesse].
[Vega] — [olhar de ironia, cruzar de braços] — "Mas olha que filho da puta...! Até há minutos atrás você tava se borrando de rir da minha cara e agora você quer trocar a minha pedra por dinheiro??" — [dedo polegar mirado para si, indignação] — "Você tá querendo tirar proveito??"
Vega levanta-se do banco em direção à Russel para tirar-lhe a pedra de suas mãos e uma competição de braços começa a se instalar.
[Russel] — "Não, não...! Tá, ok, desculpa ter rido da sua cara, mas olha, é uma oportunidade, nós dois podemos sair ganhando com isso, hey, espera aí, peraí...!" — [tenta desviar suas mãos de Vega].
Vega, sendo mais rápido e tendo maior força, finalmente consegue tomar a pedra de Russel.
[Russel] — "Ah...! Cacete, eu esqueço que você é forte..." — [mão no punho].
[Vega] — "Primeiro: NÃO pegue nada de mim sem a minha permissão...!" — [dedo apontado, olhar sério].
Russel, conformado com a repreensão, exibe as palmas das mãos, balançando a cabeça.
[Vega] — "E segundo! Eu só troco essa pedra se eu tiver onde guardar o dinheiro, porque eu não posso sair andando por aí com uma maleta e nem ser rastreado...!" — [olhar sério].
[Russel] — [olhar de aborrecimento e balançar de cabeça] — "Sistemático, você..."
[Vega] - "Claro que eu sou, sou eu quem tô com uma morte nas costas..." — [semblante sério, dedo indicador apontado para si].
[Russel] — "Mas a morte do Cash não tem nada a ver com a SUA produção de pedras...!" — [expressão de irritabilidade, braço horizontalmente estendido].
[Vega] — "A minha cara no banco de dados tem...!" — [feição de espanto].
[Russel] — "E você não pode mudar o seu rosto??" — [aponta os dedos indicadores para o próprio rosto].
[Vega] — "E você acha que eles não vão desconfiar da onde vem o dinheiro?? Tem testemunha pra quê?? Residência, telefone...!" — [conta nos dedos] — "Qual a única criatura no planeta que produz pedras??" — [ergue os braços em movimento circular, com semblante irônico de raiva].
[Russel] — [suspira e desliza as mãos no rosto] — "... Tá, olha, façamos assim, nós vamos estacionar numa galeria logo à frente. Se acharmos um negociador, ao invés de trocar a pedra inteira, a gente pede pra ele tirar um pedaço pequeno dela, de forma que dê pra carregar o dinheiro SEM precisar de uma maleta..." — [voz firme, mas contida] — "Daí o restante da pedra, fica pra você..." — [gesticula com as duas mãos] — "O que acha?" — [olhar fixo].
Vega pensa por alguns instantes.
[Vega] — "Precisa tanto desse dinheiro?" — [preocupado].
[Russel] — "Não vou mentir, eu preciso sim..." — [braços amolecidos].
[Vega] — "Ué, mas..." — [feição confusa e balançar horizontal de cabeça] — "por quê?"
[Russel] — "Purf...! Eu preciso mudar de vida, cara, não tem um dia que eu não tenha trabalhado nesse caminhão... eu pego nesse volante desde quando tinha 16 anos de idade, eu, MAL, descanso...!" — [com mãos paralelas verticalmente e olhar de decepção, senta-se em um acento próximo na cabine].
[Vega] — "... Qual a sua idade hoje?" — [preocupação].
[Russel] — "48..."
[Vega] — "Tem algum outro lugar que eles dão folga?" — [preocupação].
[Russel] — "Ultimamente, ninguém está dando folga, todo mundo só trabalha 24/7 e não tem ninguém que contrate em qualquer outro emprego que não seja de motorista, eu realmente CANSEI de dirigir..." — [ressalta, com decepção].
[Vega] — "..." — [pensativo]
[Russel] — "Se eu tivesse dinheiro sobrando, eu ficaria só por conta de estudar e entrar num cargo público, aí minha vida seria bem mais fácil... porra, eu mal consigo parar nem pra ver meu filho, bicho..." — [cotovelos sobre os joelhos, cabeça baixa e em movimento de negação].
[Vega] — "Você é casado?"
[Russel] — "Divorciado..." — [torcer lateral de lábios].
[Vega] — "E tá há 30 anos trabalhando pra DRISCO?"
[Russel] — "32 anos pra ser exato." — [abre um saquinho de castanhas, comendo algumas unidades] — "Só pra você ter uma ideia, pegue o meu telefone que está em cima do balcão e abra o aplicativo da DRISCO. Sabe ler inglês, não é?" — [direciona o olhar para Vega].
[Vega] — "Perfeitamente". — [pega o telefone do motorista] — Inclusive já encontrei aqui.
[Russel] — "Abra o item 'lista de requisições', e depois, selecione o meu nome".
[Vega] — "Encontrei". — [observa a tela do aparelho] — "Você tem 40 requisições para cumprir em 07 dias exatos". — [confuso] — "Dá tempo de fazer isso tudo?" — [olha para Russel].
[Russel] — "Com prazo bem apertado, sim. Mas eu fico sem tempo pra fazer quase nada da minha vida que não seja comer, treinar e dormir". — [come as castanhas] — "Eu até ganho bem, mas quase não usufruo do dinheiro que eu tenho".
[Vega] — "Tem moradia fixa?" — [encosta-se em uma bancada].
[Russel] — "Não. Eu pulo de hotel em hotel. O único bem que eu tenho são minhas economias para a aposentadoria e o usufruto desse caminhão, que também não é meu..." — [olha para Vega].
[Vega] — "Muito estranho não ter um horário fixo pra trabalhar..." — [semblante de suspeição].
[Russel] — "Aqui nunca teve muitos direitos trabalhistas que não seja receber o pagamento em dia. O resto você tem que se virar. Não é à toa que eu passei a me suplementar quando fiz 40". — [apoia as costas na parede].
[Vega] — "Esse suplemento tem a ver com a Sonya?" — [curioso].
[Russel] — "Eu só uso a marca dela. A mulher é boa no que faz. É referência global em cosméticos". — [semblante de confiança].
[Vega] — "Deve estar podre de rica. É o jeito..." — [leve sorriso, balançar de cabeça].
O rapaz, percebendo a ânsia do motorista pela oportunidade de obter vantagem financeira sobre o produto de suas funções biológicas, pensa por alguns instantes. Como não iria precisar tanto daquele minério e poderia produzir por toda a vida, começa a avaliar a possibilidade de ceder a Russel o objeto brilhante, tendo se compadecido pela sua condição, apesar de receoso pela avidez do homem. Vega olha com certa desconfiança para seu cúmplice.
[Vega] — "...." — [breve pausa] — "... Só peço que espere até chegarmos em Nova York, depois disso, vamos procurar algum lugar que faça trocas cambiárias. Você aguenta até lá?"
[Russel] — "Aguento o tempo que for, mas só se você realmente garantir que vai me dar a quota parte..." — [mostra um misto de desconfianaça e serenidade em seu rosto].
[Vega] — "Eu vou dar sim, mas não agora. Eu nem sei onde vou guardar esse tanto de grana..."
[Russel] — "Tem criptobancos irrastreáveis... só que você precisaria de um celular compatível com o Sistema Operacional daqui..."
Vega avista a galeria se aproximando cada vez mais diante do retrovisor. Ao veículo parar em frente a um dos estabelecimentos, uma enorme placa contendo os dizeres "FAZEMOS TROCAS CAMBIÁRIAS" pode ser lida logo à frente. Russel se empolga com a oportunidade e Vega se espanta com o que acabara de ver.
[Russel] — "Tá aí, era tudo o que eu precisava...!" — [levanta-se empolgado] — "Vamos! Vamos ver se ele faz a troca e vamos comprar algumas coisas pra viagem...!" — [prepara seus pertences].
Antes que Vega fosse atrás de Russel para sair do veículo em direção à loja, Russel o para com uma mão em seu peito.
[Russel] — "Hey, calma..." — [olhar sério] — "livre-se do roupão primeiro e se disfarça antes de sair..."
[Vega] — [olha para o lado] — "Onde eu descarto o roupão?" — [confuso].
[Russel] — "No triturador lá no andar de baixo, quando chegar lá, vai vê-lo bem na frente".
Vega pega o roupão cheio de furos feitos a balas para levá-lo à máquina trituradora, e antes que se distanciasse de Russel, o mesmo pega em seu braço para alertá-lo:
[Russel] — "Ah!" — [dedo indicador para cima] — "Disfarça o cabelo, mude o rosto e não leve a mochila. Tem câmeras lá fora..." — [aponta para o lado].
[Vega] — "Pode deixar, eu vou mudar o visual, e vou deixar a bolsa. Tem álcool em spray?"
[Russel] — "Tem logo ali em cima do armário..." — [olha para o armário].
[Vega] — "Ótimo, limpe as mãos e eu limpo a pedra... vai precisar..." — [com um leve sorriso sarcástico, tem seu braço soltado e vai até o porão].
Russel aproveita o tempo para se higienizar e trocar de roupa. Vega, idem.
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Mãos nos bolsos e boné a postos. Óculos de sol de lentes vermelhas para disfarce. Camisa 3/4 branca com detalhes vinho e estampa alaranjada. Calça jeans verde escura e botas marrons. Cinto com detalhes dourados. Camiseta preta assimétrica e luvas cinzas sem dedos combinado com uma calça vermelha escura e coturnos cor café. Relógio de pulso e óculos de lentes, ambos prateados. Um dos relógios do outdoor local apontava como 09h15 da manhã. A tonalidade azulada na parte lateral do boné branco chamava a atenção pelo seu brilho. O motorista checa Vega de cima embaixo e sinaliza positivamente com a cabeça para prosseguir. Com o novo visual emprestado, o rapaz fugitivo segue seu cúmplice em linha reta até a loja de bugigangas à frente. O Transmorfo havia ligeiramente aumentado sua altura, encurtado e mudando a cor de seus cabelos, bem como alterado a forma de seu rosto para parecer o máximo possível diverso das fotos dos anúncios de "Procurado".
Ao contrário do que era esperado, o local estava mais cheio do que aparentava. Vários transeuntes estavam aos arredores da galeria para comprar comida, bebida, ferramentas e outros itens necessários para longas viagens. Por onde passavam, ambos os cúmplices chamavam a atenção dos presentes pela elegância.
......................."Bay Street Billionaires - Squadda B"
Levantar de óculos. Passos diminuem. Pescoços se viram gradativamente. Espelhos de retrovisores se movimentam. Os olhares são voltados para os forasteiros. A discrição teria que ser redobrada. Ao abrir a porta, o sino toca para sinalizar a entrada de visitantes. Só havia um atendente atrás de um balcão à espera de algo menos tedioso ao longo do dia. Cumprimentando-o com aperto de mãos, Vega percebe que Russel conhece o homem. Indo para a porta lateral, o homem vai à procura de roupas.
[Russel] — "Fale com o Brunetta, vou procurar algumas roupas e já volto".
[Vega] — "Russel..." — [sussurra, pegando nos braços do homem] — "aqui tem roupas femininas?"
[Russel] — "Não, só masculinas... me espere aqui..." — [vai até a parte de vestuários].
Vega olha atentamente para o atendente a vai até o mesmo com um gradativo sorriso hospitaleiro em seu rosto.
[Vega] — "Oi, como vai?"
[Brunetta] — "Olá, seja bem-vindo. Em que posso ajudar?"
[Vega] — "Você troca objetos valiosos por dinheiro?" — [mão no bolso, olhar fixo].
[Brunetta] — "Depende do que você tem aí..." — [inclina-se para frente, de olhar curioso] — "é barra de ouro?" — [alisa um dos antebraços].
[Vega] — "É uma pedra ainda não identificada..." — [exibe o minério para Brunetta].
Vega então retira o objeto de seu bolso e o exibe para Brunetta. O homem estranha aquele objeto e o pega com um semblante de desconfiança e curiosidade. O mesmo silencia por alguns segundos por não saber do que se tratava o minério brilhante que estava em suas mãos.
[Brunetta] — "Isso aqui brilha mais que um diamante..." — [fita a pedra] — "eu vou ter que verificar melhor o que isso é. Me espere aqui, vou pegar meus aparelhos..." — [deixa a pedra com Vega e vai até os fundos da loja].
O homem traz consigo um detector de joias e uma lupa profissional para investigar o objeto de transação. Vega o cede para Brunetta e o mesmo examina minuciosamente a pedra para verificar a possibilidade de sua identificação. Após testar a pedra e analisá-la, o homem fecha a sua face em estranhamento com o que estava em mãos.
[Brunetta] — "Que coisa estranha... eu nunca tinha visto uma liga mineral desse naipe antes... não enquanto eu estive aqui". — [estranhamento] — "Onde você encontrou isso?" — [fita Vega].
[Vega] — "Eu encontrei do nada no chão e levei comigo... eu não sei muito bem o que é esse minério..." — [olhar de canto e envergonhado].
Brunetta olha com leve desconfiança para Vega, deixando seu rosto gradativamente virado para o lado. O homem fita novamente o minério brilhante e começa a indagar o cliente.
[Brunetta] — "Não sei por que, mas algo me diz que você tem algo a mais...." — [olhar desconfiado].
[Vega] — "Você também me é familiar..." — [desconfiado] — "Seu nome é realmente Brunetta?"
O atendente, surpreso com a pergunta, inclina-se ao balcão, olhando de um lado para o outro afim de checar possíveis ouvintes:
[Brunetta] — "Você tá sabendo de mais alguma coisa?" — [preocupado].
[Vega] — "Eu sou um SH, isso você já deve ter descoberto..." — [olhar fixo e penetrante, como uma dica para o conterrâneo].
O atendente por alguns segundos se silencia e avalia Vega antes que pudesse respondê-lo.
[Brunetta] — "Esse é meu novo nome que me batizaram quando cheguei aqui..." — [leve feição de desânimo].
[Vega] — "Como foi isso?" — [estranhamento].
[Brunetta] — "Basicamente fui levado pra uma sala com uns..." — [torcer de lábios] — "06 homens armados..." — [escora os cotovelos, olhar para baixo] — "Meteram um dispositivo na minha nuca e me disseram que dali em diante, eu adotaria a identidade que eles quisessem que eu tivesse". — [olha para Vega] — "Eu, por outro lado," — [feição de irônica indiferença e levantar de ombros] - "Não tive o que questionar..."
...........F L A S H B A C K......................
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...........A fraca luz azul vinda das janelas refletia o saco de tecido velho e mofado na cabeça da vítima, que em silêncio, sequer sabia o que estava acontecendo. Seus punhos, estavam presos a uma pulseira elétrica, logo atrás da cintura. O sujeito foi colocado de joelhos para o nada no meio da escuridão, em cima de uma poça de piso molhado, sabe de lá do que era. O cheiro era sufocante. Não se sabia se era de fedor, ou qualquer outra coisa que mais parecia um produto de limpeza vencido misturado a peixe morto. Quanto mais tentava arrancar a pulseira, mas ela disparava choques elétricos. O homem tenta falar em sua língua nativa, "Onde eu estou?? O que está acontecendo?? Tirem isso da minha cabeça!", mas só conseguia arrancar risadas de seus algozes.
O pobre homem rendido tem finalmente a sacola maltrapilha retirada de sua cabeça, quando é surpreendido com um tapa em seu rosto, deixando-o incrédulo:
[Homem 01] — "Sabe falar inglês?? Fala inglês, Lola!" — [diz em voz alta, lançando outro tapa na vítima].
O agressor mascarado e de óculos escuros, continua interrogar o rapaz aos gritos, afim de forçá-lo a falar em uma língua na qual nunca havia aprendido. O infeliz, sendo de origem muito distante do País de onde foi expulso, nunca soube o que eram aquelas palavras que estavam sendo proferidas de forma bruta, rude e cruel. Tudo que podia dizer, era "Do que está falando?? Eu não entendo a sua língua! Eu não entendo a sua língua! PARA de me bater, porra!!", gerando ainda mais raiva nos carrascos de preto.
Outro covarde aproveitou a vulnerabilidade do rapaz rendido para agarrar seu rosto com uma de suas mãos e desdenhar de sua origem. Outro, dava-lhe várias cintadas nas pernas e cintura.
[Vítima] — "Ah! Para!!" — [suplica].
O torturador desfere outro tapa no rosto da vítima antes de agarrá-lo novamente com bastante dificuldade, devido a sua força descomunal.
[Homem] — "Tá achando que alguém aqui é idiota?! Olha pra mim, sua puta! Tu vai aprender a falar igual gente, seu Brunetta!" — [grita furioso].
O pobre infeliz tentava de tudo se comunicar com os criminosos, mas nada adiantava. Um dos homens sádicos que estava presente, se muniu de um alicate industrial para tentar prensar um dos dedos das mãos da vítima, que eram fortes demais para provocar qualquer dano. Ainda assim, causava dor ao rapaz. Sem dizer uma palavra, o vitimado suporta com bastante esforço, o brutal esmagamento de seu dedo pelo enorme alicate. Enquanto o torturava, o carrasco gritava próximo a seu ouvido:
[Homem 03] — "Se continuar se fazendo de doido, eu vou arrancar seu pau fora!! FALA A NOSSA LÍNGUA, SEU FILHA DA PUTA!" — [berra].
Revoltado e quase aos prantos, o homem arranca de vez a pulseira elétrica que prendia suas mãos e torce o braço de um dos seus carrascos até destroçar seus ossos. Outro, por trás, acertou a vítima várias vezes com um extintor de incêndio pela qual não fez nenhum efeito sobre ela. Vendo o quão inútil foi sua tentativa, o carrasco tenta sair de perto do rapaz e antes que pudesse ser trucidado, o rapaz tem seu dispositivo acionado por um dos guardas, fazendo-o apagar no chão com a cara em cima da poça molhada.
O homem com o cinto na mão treme as bases. O que carregava o extintor de incêndio, fica grato por ainda estar vivo. O que teve a mão esmagada, agoniza no piso imundo.
.........R E T O R N O A O S D I A S A T U A I S.....
[Vega] — "Deve ter sido difícil se adaptar..."
[Brunetta] — "É, quando se tem uma AR gentilmente mirada na sua cabeça, você até que se acostuma rápido..." — [breve olhar lúdico, seguido de um sorriso] — "Brunetta... não é um nome feio, sabe..." — [sorriso sarcástico].
[Vega] — "Rs...!" — [baixar de cabeça em movimentos negativos] — "Tá, mas por que 'Brunetta'?" — [sorri para o atendente].
[Brunetta] — [pausa, terminando por ceder um breve riso] — "Rsr...! Eles escolheram esse nome porque eu possuo uma condição rara chamada 'mutabilis pigmento'. Durante o dia, a minha pele fica clara e a cor do meu cabelo assume o tom violeta..."
[Vega] — "Hum..." — [balançar de cabeça, sorriso amistoso]
[Brunetta] — "... E de noite, minha pele escurece de forma instantânea e meu cabelo se torna um vermelho escurecido. Já até me apelidaram de 'fogueira'..." — [sorriso] — "pode ver pelo meu braço". — [exibe o antebraço] — "Aqui dentro eu tô um pouco mais pardo, mas se eu te levar lá fora, eu fico mais claro que o seu motorista ali..." — [aponta para o lado].
[Vega] — "É um dos raros SH's que eu conheço..." — [surpreso].
[Brunetta] — "Pode crer". — [joga a cabeça de baixo para cima] — "Por qual motivo te expulsaram?" — [olhar desconfiado].
[Vega] — "Eu não fui expulso, eu vim escondido..." — [ajeita os óculos].
Brunetta salta os olhos com que escuta.
[Brunetta] — "Como???" — [espantado].
[Vega] — "Vim como se fosse um dos expulsos, só que trocando os documentos pelo os do visto de 'Turismo'".
O atendente mostra admiração e espanto pelo feito de seu conterrâneo.
[Brunetta] — "Oh, ooiii??? Como??" — [impactado].
[Vega] — "Não é piada, cara, eu vim aqui na baixa sem ninguém notar..." — [saca de seu bolso, o visto de turismo] — "inclusive o meu visto está bem aqui..." — [exibe o documento, o guardando em seguida].
[Brunetta] — "Você é louco, cara, pra quê...??" — [espantado].
[Vega] — "Eu vim procurar uma pessoa que eu não vejo desde que eu nasci... é importante pra mim..." — [sussurra].
[Brunetta] — "E como é que você vai voltar??" — [surpresa].
[Vega] — "Da mesma forma que eu vim. Me disfarçando". — [levantar de ombros].
[Brunetta] — [aproxima o rosto para Vega] — "Sabe que os agentes federais podem te raptar, não sabe?" — [olhar sério].
[Vega] — "Como assim?" — [nega com a cabeça].
[Brunetta] — "Se eles veem um SH circulando, eles fazem um aprisionamento compulsório e tentam fazer um apagamento de memória nas vítimas..."
Vega movimenta os olhos para a diagonal em direção à bancada, demonstrando receio e estranhamento em sua face.
[Brunetta] — "Mas como isso não funciona com quem não é um híbrido, eles obrigam os sequestrados a fazerem um pacto de silêncio e viverem como um Americano, com plena cidadania. Caso contrário, ou eles te prendem, ou eles te matam, ou você vira escravo. O nome desse tipo de registro é chamado pelo FBI de 'Batismo'".
[Vega] — " 'Uá', mas pra quê isso??" — [levanta os antebraços, de mãos abertas].
[Brunetta] — "O governo quer que ninguém saiba da nossa origem...! Os expulsos que eles abrigam aqui é por mero interesse bélico e financeiro..."
[Vega] — "E o quê que muda falar a verdade para as pessoas?? Que tanta frescura pra dizer o óbvio??" — [sussurra de forma mais intensa].
[Brunetta] — [exibe horizontalmente as palmas das mãos] — "Muda muita coisa, cara". — [lento balançar de cabeça] — "Quem você acha que vai sair perdendo no final dessa história? O mercado vai priorizar o custo benefício de um SH em detrimento das pessoas comuns... e é por isso que na maioria dos Estados um SH tem cidadania reduzida, e pode inclusive ser comercializado nas relações privadas..."
Vega olha atentamente para o rapaz.
[Vega] — "Humpf...! E eu achando que já tinha visto de tudo..." — [olha para o lado].
[Brunetta] — [olha para a pedra] — "Isso aqui, por exemplo..." — [exibe o objeto] — "Isso aqui lembra muito os minérios do Extremo Ponto Central de Vandora, cara. Um local pedroso, escorregadio, lotado de minerais lilás fundidos com as pedras. Aquilo brilhava como a Aurora Boreal. Se descobrirem que isso não é uma pedra comum, o Estado te toma ela e você fica sem nenhum tostão..."
[Vega] — "A pedra é minha, não tem como eles tirarem de mim. Propriedade privada...!" — [contesta].
[Brunetta] — "É, mas eles fazem as leis em benefício deles, não do povo. É por isso que as empresas querem ter controle sobre os SH's e o Poder Público não quer perder a fatia do bolo, entendeu?" — [coloca um dos cotovelos sobre o banco].
[Vega] — "Não posso confiar em ninguém pra trocar?" — [preocupado].
[Brunetta] — "Se tiver sorte, alguns traficantes podem fazer isso pra você, mas é preciso saber quanto ela vale..." — [se apoia com o antebraço].
[Vega] — "Esse aí mais parece aqueles que a gente encontra na praia, junto com um monte pérolas, conchas e outras pedras coloridas. Ele é branco furta cor, não deve ser muito caro".
[Brunetta] — "Não é muito caro em Vandora, que é lotada de minérios! Aqui é uma raridade, e de difícil produção. Se isso aqui for o que eu tô imaginando, penso que vai custar uma fortuna, e eu não vou ter como trocá-lo". — [desapontamento].
[Vega] — "Mas não pode nem trocar por um carro, uma bicicleta, um meio eletrônico, celular, guitarra...nada???" — [gesticula, indagando].
[Brunetta] — "Para eu trocar, eu precisaria fazer um parâmetro com outra pedra. Isso aqui tem um nível de pureza muito alto..."
[Vega] — "Ok, digamos que o nosso ouro verde valha 3500⭕ na cotação atual, a dala azul, 7.800⭕, o murkini, 15.000⭕, e o RUTH, 40.000⭕. Nenhum desses quatro serve como parâmetro?" — [aponta para o minério].
[Brunetta] — "É, mas um dólar americano vale quantos vands? Essa é a questão. Nossa moeda não é reconhecida".
[Vega] — "Se não existe um valor de mercado definido, então as partes devem acordar livremente o preço". — [tenta barganhar].
[Brunetta] — "Não é assim que funciona, cara, o fator peso, estrutura, raridade, duração e nível de brilho também contam. Não existe calculistas independentes aqui na região, o preço deles é fixo e o acesso ao conhecimento é fechado".
[Vega] — "Bom, lá contaria, aqui eu já não sei". — [gesticula com uma das mãos] — "Sei lá, estipula aí, 35 mil dólares, algum valor próximo de algum minério que você conheça...!" — [insiste sob expressão de súplica].
[Brunetta] — "Tá louco?? Isso aqui vale pelo menos 1 milhão de dólares brincando...!" — [questiona].
[Vega] — "Então faça por 1 milhão...!" - [sussurra] - "Você tem 1 milhão de dólares pra trocar, ou alguma coisa que valha tudo isso?" — [negocia].
[Brunetta] — "Cara, o máximo de dinheiro que eu tenho aqui é 350 mil e seu eu não tiver nenhum parâmetro pra medir o preço dessa pedra, eu corro risco de não conseguir trocá-la com outros negociadores". — [preocupado].
[Vega] — "E quem vai estabelecer o preço dela?" — [exibe a palma das mãos para baixo].
[Brunetta] — "Os bancos!" — [exibe gentilmente a mão direita sobre a bancada].
[Vega] — "Os bancos?" — [olhar curioso].
[Brunetta] — "Claro...! É lá que são feitas transações envolvendo minerais. Feiras de leilão, joalheria, uma corretora, pelo menos um deles vai poder cravar um valor pra você. A única coisa que eu posso fazer pra te ajudar é fazer toda a qualificação desse objeto e entregar em forma de um Laudo Técnico. Bem pequeno, sem muita embromação..." — [negocia, de olhar fixo e mãos horizontalmente posicionadas].
Vega pensa por alguns segundos.
[Brunetta] — "Com isso fica mais fácil estipular um preço para a pedra, você não vai precisar ficar caçando um geólogo pela cidade..."
[Vega] — [inclina-se firmemente à bancada, mostrando confiança] — "Ok! Fechado! Por quanto você faz esse Laudo?" — [olhar fixo].
[Brunetta] — "Faço por 300. Pode pagar?" — [negocia].
[Vega] — "Claro". - [saca a carteira e pega o dinheiro] — "Vai demorar quanto tempo?" — [olhar fixo].
[Brunetta] — "Me dê meia hora, vai ser rápido". — [acena com o dedo indicador enquanto pega o objeto junto às ferramentas e guarda a pecúnia em seu bolso].
O homem vai até à sala ao fundo para realizar o serviço para Vega. Russel aparece com três sacolas de plástico e duas embalagens azuis de isopor. O homem estranha a espera de Vega e o Transmorfo sinaliza para Russel ir até o caminhão esperar por ele, sussurrando algumas palavras para o colega. Acenando positivamente, o motorista vai até o veículo guardar as compras e vigiar o amigo pela janela do automóvel. De fora, um frentista que observava Russel, olha de longe Vega pelo vidro transparente.
Curioso, o desconhecido finge que não está interessado em acompanhar os passos do Transmorfo e coloca dois fones amplificadores de som ambiente nos dois ouvidos. Vega até o momento, não diz nada. Russel, aproveita para fazer uma refeição.
================= 30 MINUTOS DEPOIS ===================
Brunetta entrega o documento envelopado para Vega junto ao objeto brilhante e o mesmo o verifica para certificar de que estava completo. Junto ao Laudo, Brunetta anexa cópias de seus documentos e seu número de registro profissional, acoplado ao status de "tutelado".
[Brunetta] — "Aqui está". — [entrega o documento] — "Tá tudo aí como nos conformes, fiz o mais completo possível. Se precisar de ajuda, meu e-mail está aí, eu respondo de imediato".
[Vega] — [recebe os papéis e a pedra] — "Ótimo, obrigado". — [se depara com o cartão pessoal de Brunetta] — "Vou me lembrar de te contactar". — [guarda a pedra] — "Tem alguma ideia de um banco confiável pra trocar a pedra? Vou mesmo ter que recorrer a traficantes?"
[Brunetta] — "Depende do seu destino de viagem. Pra onde você tá indo?"
[Vega] — "Nova York, capital".
[Brunetta] — "Então você está com sorte. Lá existe um banco chamado 'Solaris'. É um banco físico de criptomoedas sueca que abriga contas de altos magnatas".
[Vega] — "E isso fica aonde?" — [curioso].
[Brunetta] — "Ele fica escondido entre duas lojas, uma lanchonete e um café. Lá pelo que eu vi, tem uma bandeirinha americana na caixa metálica marrom de correios e sempre vem com algumas flores. O endereço é esse aqui..." — [exibe tela de telefone celular].
[Vega] — [observa fixamente] — "Ok. Vou achar esse banco". — [olha para o lado] — "Me diz uma coisa, como é feito esse 'batismo' em Nova York?" — [desconfiado].
[Brunetta] — "Ouvi dizer que a violência deles é bem velada. Eles te fazem um carretada de perguntas bem constrangedoras e lá mesmo eles fazem sua identidade. Mas eles precisam da autorização de um tutelar seu para que você possa se registrar, então vai ter que morar com alguém que seja tranquilo quanto isso".
[Vega] — "Tem alguma sugestão de quem seria esse tutelar?"
[Brunetta] — [pensa um pouco] — "Olha, um dos nossos que é dono de um Hotel Bolha, que também é de Nova York. Mas é aquela coisa, se você der sorte, o cara vira seu amigo e você não precisa fazer muito esforço. Se não, você vai ter que impressionar a pessoa que você quer ter como tutelar para consegui-la como guardiã. E isso pode incluir favores sexuais". — [olhar de constrangimento].
[Vega] — "Isso não vai ser problema pra mim, eu tô em casa quanto a isso". — [olha brevemente para trás] — "O motorista ali atrás, por exemplo, tá completamente maluco por mim..." — [leve sorriso] — "Eu tô só esperando ele me levar até a cidade pra retribuir a gentileza". — [feição de atrevimento].
[Brunetta] — "Você não presta..." — [sorri, balançando negativamente a cabeça].
[Vega] — "..." — [leve pausa] — "Bom, até mais, Brunetta". — [cumprimenta com a aba do boné].
[Brunetta] — "Até mais". — [acena com a mão] — "Juízo e boa sorte. — [amistoso].
[Vega] — "Deixa comigo". — [acena com os dois dedos das mãos e segue até fora da loja].
..................................11H56 DA MANHÃ.......
Vega entra no veículo em silêncio. Ambos os silentes se deparam de forma sincrônica com o homem há poucos metros fora da loja, que estaria a espionar Vega e Brunetta durante a conversa.
[Vega] — "O cara ali tá nos vigiando". — [tom baixo].
[Russel] — "Eu percebi". — [tom baixo].
Russel sai com o veículo do local e se distancia alguns metros para longe afim de evitar que houvesse alguma tentativa de espionagem. Após 10 minutos de estrada, Russel se depara com o envelope rosê nas mãos de Vega e fica curioso a respeito.
[Russel] — "E então? Conseguiu alguma coisa?"
[Vega] — "Por enquanto não consegui trocar o minério, mas consegui informações de onde posso fazer a transação". — [fita o cúmplice].
[Russel] — "Onde??"
[Vega] — "É um banco chamado Solaris... é em Nova York também".
[Russel] — "Mas ele sabe quanto vale? Ele mediu peso, usou lupa, fez cálculo, que conclusão que ele chegou?" — [curioso].
[Vega] — "Ele não sabe quanto vale, só qualificou as características da pedra". — [exibe o envelope] — "O valor, só com bancos ou traficantes. Se não tiver um preço oficial, ele não troca".
[Russel] — "Que coisa complicada, hein..." — [analisa o conteúdo do envelope] — "Ok, se é o que temos, então vamos achar logo esse banco".
Vega saca o minério de seu bolso e verifica se está inteiro. Russel limpa o rosto com lenços higiênicos e aciona novamente o caminhão para o modo automático, programando o percurso da máquina até o destino pretendido. O homem pega o espelho frontal e se certifica de que estava limpo. Olha seus dentes e joga uma bala de menta boca adentro. Vega observa atentamente o esforço de seu cúmplice para se manter organizado. Já com o automóvel em movimento, o motorista se levanta e vai até ao banheiro na parte lateral do fundo da cabine e se tranca lá por 40 minutos. O barulho de chuveiro se inicia, o que atiça os sentidos do rapaz. No seu íntimo, a vontade de Vega era invadir o banho do homem pelas cortinas e roubar um beijo ardente do motorista, pendurando-se pelo seu quadril através de suas pernas. Entretanto, o mesmo volta para a realidade e decide deixar a fantasia para um momento posterior.
Vega permanece em silêncio e aproveita para pegar a embalagem e um copo azul que estava na sua frente para fazer o seu almoço. Após sair do toalete, o homem havia trocado de roupa e estava secando os cabelos. O rapaz por sua vez, já havia deixado tudo ajeitado e voltado a sua aparência normal, tendo desta vez adotado tom de pele um pouco menos claro e cabelos na cor chocolate, assim como a íris de seus olhos. O menos chamativo possível. Várias horas se passam enquanto o caminhão permanece em movimento. Para se poupar da preocupação de se deparar com algum carro da polícia, o mesmo passou a maior parte do tempo se tampando com um cobertor marrom que havia encontrado dentro do armário da cabine. Em momentos intermitentes, Russel tomava o controle do caminhão para que o sistema embarcado do veículo pudesse se recarregar ou atualizar.
Estradas se passavam, horas voavam, luz se movimentava em câmera rápida e o clima, aos poucos, transitava do quente e seco para um nublado e chuvoso. Já com o veículo no modo automático, a luz da cabine permaneceu acesa enquanto o caminhão rodava estrada a fora. O ambiente externo estava completamente escuro e chuvoso. Alguns poucos raios trovejavam pelos céus enquanto os dois amigos aproveitavam copos de capeline instantâneo para o jantar. Por infelicidade, ou um sinal macabro, um pobre passarinho colidiu fortemente com a janela frontal do caminhão, tendo caído para fora do veículo em questão de milésimos de segundo. Vega e Russel se assustam com o imprevisto. Devido à força, uma pequena parte do vidro se rachou com o "golpe". O pobre pequenino morreu na mesma hora em que se chocou com o veículo. O carona se entristece com o que acabara de ver.
[Vega] — "Céus... era um passarinho". — [chocado, seguido de tristeza].
[Russel] — "Primeira vez que isso acontece". — [surpreso].
[Vega] — "Seu vidro é blindado?" — [olhar fixo para a janela].
[Russel] — "Sim, por incrível que pareça..." — [movimenta negativamente a cabeça e logo esboça aborrecimento] — "Merda..." — [volta a comer].
[Vega] — "Morreu na hora..." — [esboça tristeza].
O motorista olha para o amigo e pensa por alguns minutos sobre o que aconteceu. Apesar do dano no vidro do veículo, a sensação que vinha para ambos os cúmplices era de algo tenebroso que poderia estar por vir. Em estado de alerta, mas calmos o suficiente para finalizarem a refeição, Vega e Russel começam a prestar atenção no desenrolar da tempestade naquela noite obscura. Por sorte, a computação embarcada sabia exatamente por qual rota o automóvel deveria seguir adiante. Meia hora depois, o tempo estaria mais calmo. Até aquele momento, o relógio já marcava 22h00 em ponto. Os dois cúmplices passaram a maior parte do tempo sem dizer uma única palavra para o outro, curtindo o silêncio. Não o calar como quem está envolvido de qualquer ressentimento, medo ou insegurança. Mas um silêncio tácito, complacente. Um silêncio simbólico de paz, de contemplação, uma quietude prazerosa para prestar atenção nos sons dos motores, da chuva, das estradas, da cafeteira, da rádio. Os dois, mesmo que quietos, se permitiam olhar um para o outro sinalizando com sorrisos e feições amistosas. Eram gracinhas e brincadeiras de um lado, caretas e gestos do outro. Mas tudo sem dizerem uma única palavra. Era um silêncio combinado silenciosamente entre os dois. Era um silêncio sem culpa.
----MADRUGADA DE 17 DE JULHO DE 8.850 D.Z. 01H30 DA MANHÃ-----
Russel já havia adormecido como pedra no banco do motorista. A lua estava cheia e a única luz que iluminava a janela do veículo, era daquela. O céu estava estrelado, a estrada límpida e com um leve tom azulado no ambiente externo. Da janela aberta, um frio de 15º podia ser sentido pelos ventos. Até então, só havia um enorme gramado vazio e distante nos dois lados das estradas. Com poucas árvores e arbustos. As únicas obras humanas que podiam ser avistadas, eram as placas de aviso amarelas e de sinalização esverdeadas. Volta e meia, algumas placas avermelhadas surgiam para alertar sobre quaisquer impedimentos ou perigos pela estrada. Vega curte a noite colocando seu rosto para fora da janela a fim de deixar os cabelos ao vento enquanto aproveita um cigarro de palha saborizado, preso por entre seus dedos. O fogo violeta que saia do produto deu origem a uma bela fumaça rósea. O rapaz já estava começando a se acostumar com a rapidez pela qual o tempo se passava naquela órbita pela qual estava inserido. Aproveitando a deixa, Vega começa a procurar nas sacolas de compras alguma roupa pela qual pudesse se diferenciar como disfarce.
Encontrou dentro das sacolas, calças clássicas, camisas sem manga, correntes e três caixas de sapatos, sendo dois deles, pregados com um papel escrito "Vega". Dentro de duas sacolas plásticas com velcro, também vinha o mesmo papel para identificar o destinatário. Vega carrega os produtos consigo até o banco lateral detrás do passageiro e começa a analisar as roupas que foram destinadas para ele. Se deparou com uma elegante calça bege quase rósea e uma camisa sem manga sintética da cor branca, de alta qualidade por sinal. Também se atraiu pela corrente dourada discreta que estava no meio das compras. Dentre os sapatos, sorteou uma bota marrom cujo tamanho era exato ao dos seus pés. O rapaz começou a se perguntar internamente como seu cúmplice sabia desse detalhe e começou a fitar o amigo ainda adormecido.
Descartando o cigarro no cinzeiro e aproveitando o tempo para se livrar das impurezas de seu corpo, o rapaz vai até o chuveiro e elimina de sua pele todas as toxinas eventualmente acumuladas em seu organismo, liberando um líquido escuro e de forte cheiro à medida em que deixa a água corrente percorrer seu corpo. Logo em seguida, com a ponta de seus dedos, retira uma longa película de sua pele morta para renovar a que estava por debaixo desta, formando uma espécie de capa que se estendia milimetricamente do rosto até seus pés. De seu couro cabeludo, também foram extraídos restos de pele morta, que desciam aos milhares pela água corrente enquanto o Transmorfo esfregava sua cabeça. As suas próprias unhas, saíam como cascas secas e velhas na qual rapidamente iam sendo substituídas por unhas novas extremamente belas e de tom levemente espelhado. Até mesmo os cílios, gengivas e pontas dos cabelos, caíam como restos de lixo e eram renovados por outros. Algumas gotas de sangue também foram sendo levadas pelo ralo.
Sentindo-se renovado, foi só nesse momento que Vega passou a pegar o sabonete em pasta que estava na sua frente e utilizá-la em seu corpo. Após sair do banho e se secar sem ajuda de toalhas, o rapaz se utiliza de um óleo desodorante para cabelos e corpo, a qual rapidamente é absorvida pela sua pele. Com um pote de pó para higiene bucal, o rapaz retira com um dos dedos e o coloca em uma escova para o esfregar nos dentes e na língua. Por dentro da cavidade nasal, o Transmorfo elimina todo o muco, sangue, impurezas ou eventuais infecções mal sucedidas que ficaram presas em seu corpo sem fazer muito esforço. Cada vez que se purifica, a temperatura de seu corpo aumenta e um pouco de fumaça é exalado de sua pele. Com a pia completamente imunda, e o ralo do chuveiro repleto de restos biológicos, Vega limpa o nariz com água corrente da torneira, destampa o ralo do chuveiro e escorre toda a sujeira para dentro do buraco por onde se encontrava um triturador, fechando-o e ligando a máquina logo em seguida. Com a pia, ligou a água quente que saía pelos cantos do fundo do recipiente para afastar a sujeira.
Os restos triturados pela máquina anexada ao fundo do ralo, são imediatamente depositados em um robusto armazenador que iria transformar aquele material em combustão para o veículo. Os da pia, idem. Saindo seminu do local, se mune de um desodorante de silicone líquido para as axilas enquanto veste as roupas novas. Passados 30 minutos neste processo, o mesmo abre um armário com um espelho lateral e checa rapidamente a sua aparência. Nada estava em falta. Senta-se em posição indiana ao banco passageiro e coloca suas mãos por detrás de sua cabeça para descansar enquanto espera Russel acordar. Da faixa esquerda da estrada, duas luzes de faróis puderam ser vistos por Vega mesmo que de longe. Passando pelo caminhão, o rapaz percebe que se tratava de uma viatura similar com a que tinha avistado antes, em alta velocidade e com sirenes ligadas. Vega vira-se para trás de joelhos e corpo dobrados ao banco e começa a ficar em estado de alerta. Olhando de um lado para o outro, Vega pega a sua mochila e esconde seu aparelho telefônico junto com sua carteira de documentos debaixo do banco, trancando-os logo em seguida, permanecendo apenas com o montante financeiro. O rapaz poderia ser parado a qualquer momento, e após o que foi visto, não conseguiu se manter relaxado por um único segundo por pelo menos 07 horas.
----17 DE JULHO. 09H00 DA MANHÃ. BLITZ. VISTORIA DE ROTINA----
[Russel] — [começa a despertar, mãos no rosto, estica o corpo] — "Ah... escuta... por que raios você queria roupas femininas mesmo?" — [se estica no banco] — "Eu não entendi..." — [interrompe abruptamente a sua fala e ergue seus membros superiores para frente, olhando de um lado para o outro].
[Oficial feminina] — "Bom dia, chefe". — [olhar sério].
[Russel] — "Bom dia..." — [desconfiado, olho meio aberto].
[Oficial Feminina] — "Desculpe tirar o sono do senhor, mas estamos fazendo um exame de rotina nas estradas, se o senhor não se importar em responder algumas perguntas enquanto revistamos o seu caminhão, nós agradecemos".
[Russel] — [ainda meio cansado] — "...Claro, tudo bem..." — [não questionou].
[Oficial Feminina] — "Seus documentos, por gentileza".
O homem fornece pacificamente toda a documentação padrão para ser analisado pela policial. A mulher de batom vermelho, brincos verdes e cabelos loiros encaracolados analisa os documentos de Russel enquanto Vega, logo atrás da mulher, é revistado da cabeça aos pés por outros policiais. Até mesmo um cão farejador estava no meio da atividade. Russel olha para Vega como quem pergunta "o que está acontecendo?", sinalizando com rosto e braços enquanto Vega responde com levantar de ombros e mãos abertas como quem quisesse sinalizar "eu realmente não sei". Ao olhar para Russel, Vega exibe uma feição como quem havia acabado de derrubar um jarro de vidro e já estava esperando a reprovação do pai. Por sorte, Vega havia afinado seus lábios, mudado o formato de seus olhos e queixo e mudado a cor de seu cabelo para uma espécie de rosa bebê, muito utilizado pelos jovens da época. Do lado da policial feminina, outro homem aparece com um distintivo para fazer algumas perguntas a Russel.
[Oficial] — "Bom dia, Russel. Agente Philips". — [cumprimentos formais].
[Russel] — "Olá..." — [desconfiado].
[Agente Philips] — "Esse caminhão é propriedade do senhor?" — [olhar sério].
[Russel] — "Não, senhor. Ele é da DRISCO, eu só usufruo dele".
[Oficial Feminina] — "Trabalha pra DRISCO há quantos anos?"
[Russel] — "32 anos. Estou na ativa desde os 16".
[Oficial Feminina] — "32 anos?" — [surpresa] — "Uma vida, hein? Já pode até se aposentar".
[Russel] — "Éh, bem que eu queria..." — [leve sorriso].
[Oficial Feminina] — "Tem sofrido algum tipo de assalto ou tentativa de roubo nas últimas 48 horas?"
[Russel] — "Não, nada desse tipo".
[Oficial Feminina] — "Ótimo, me espere aqui que eu vou dar uma olhada na sua carga, Philips," — [sinaliza com o rosto] — "chama o menino ali atrás e toca o bonde aí pra nós..." — [mão no ombro do colega].
[Agente Philips] — "Pode deixar". — [sinaliza para a colega e olha para trás] — "deixem ele subir". — [ordena].
Vega sobe na cabine do caminhão com a mais pura expressão de ingenuidade e timidez nos seus olhos. Russel esfrega a mão em seu rosto pensando qual seria a desculpa que seu colega iria inventar caso fossem feitas perguntas simples como nome, idade, nacionalidade, etc. Mas Vega pensa muito mais rápido do que o normal. Já havia planejado em sua cabeça todas as respostas possíveis para as mais complexas perguntas. Enquanto isso, 06 policiais vasculhavam de ponta a ponta todo o caminhão de cima embaixo, até os mínimos detalhes, o que deixava Russel cada vez mais tenso. Vega entra no disfarce de "menino inocente" e tenta "acolher" Russel alisando seus ombros e o abraçando de forma lateral enquanto deita a cabeça próximo ao rosto do motorista: "fica calmo, vai ficar tudo bem" — [feição manhosa], o que termina por deixar Russel mais vermelho que um pimentão.
[Russel] — "...O que tá fazendo...?" — [assustado, sussurra bem baixo].
[Vega] — "Não..." — [semblante sedutor e sereno, suave balançar de cabeça] — "Não vai mais acontecer, fica tranquilo". — [voz bem baixa, suave].
[Russel] — "Para... Com isso, cacete...!" — [sussurra com semblante de constrangimento e aborrecimento].
[Vega] — "Ssshhh...." — [tenta silenciar o colega].
[Russel] — "Cê tá ficando maluco...?" — [travar de lábios] - "Para de me..." - [interrupção].
A mulher nota a conduta de Vega e indaga Russel.
[Oficial Feminina] — "Esse rapaz é seu filho?" — [suspeita].
[Russel] — [retira gentilmente os braços de Vega, visivelmente constrangido] — "Ah... Éh... Não. Ele não é meu filho".
[Oficial Feminina] — "Que estranho. Achei que ele fosse seu filho, são parecidos..." — [cruza os braços].
[Agente Philips] — "Então ele é o quê seu?" — [olhar suspeito].
[Russel] — "Ele é meu tutelado..." [esboça breve seriedade].
[Oficial Feminina] — "Seu tutelado?" — [estranha].
[Agente Philips] — "Qual tipo de tutela?" — [desconfiado].
[Russel] — "Tutela Provisória". — [guarda de volta os documentos em seu bolso].
[Agente Philips] — "E você tem alguma Certidão de Tutela?" — [sério].
[Russel] — "Não, só tenho amparo legal".
[Agente Philips] — "E como você comprova que tem a tutela dele?" — [aponta para Vega].
[Russel] — "A tutela é presumida". — [olhar de desdém].
[Agente Philips] — "Presumida?" — [vira o rosto de lado, mas o olhar permanece para Russel] — "Da onde você tirou isso?" — [desconfiado].
[Russel] — "Do próprio Código de Adoção e Tutela. É uma Lei Estadual".
[Agente Philips] — "Não é o que a Lei Federal prevê... e o que te levou a ter esse rapaz como seu tutelar?" — [aponta para Vega].
[Russel] — "Nada. Eu só dei carona pra ele e desde então ele vive junto comigo".
[Agente Philips] — "Aham, sei". - [olha para Vega] — "Você, qual a sua idade e data de nascimento?" — [indaga].
[Vega] — "22. 17 de novembro de 8.828".
[Agente Philips] — "Onde estão seus documentos?"
[Vega] — "Eu os perdi, eu fui roubado. Meu celular também foi tomado". — [olhar para baixo].
[Agente Philips] — "Esse tutor é seu companheiro?" — [sério].
[Vega] — "..." — [pausa, olhar estático] — "Ele é meu amante..." — [responde na maior naturalidade].
[Agente Philips] — "Hein?? Seu Amante??" — [volta a olhar para Russel] — "O senhor é casado?" — [tom autoritário].
[Russel] — "Não! Divorciado". — [olhar surpreso, começa a ficar impaciente].
A oficial feminina começa a notar um clima de tensão entre os dois homens.
[Oficial Feminina] — "Calma, Philips". — [tranquiliza o colega e volta a olhar para Vega e Russel] — "Vocês dois se conhecem há quanto tempo?" — [indaga].
[Russel] — "Há cinco semanas". — [mente com tranquilidade].
[Oficial Feminina] — [olha para Vega] — "Você, rapazinho, seu nome é Stanley Ipkiss, não é?"
[Vega] — "Sim".
[Oficial Feminina] — "Você fez algum registro de ocorrência em alguma delegacia? Se lembra do número de sua identidade?"
[Vega] — "Não, Senhora. Eu não lembro do meu número. Eu tô de carona com ele até achar uma estação policial".
[Oficial Feminina] — "E vocês estão há cinco semanas juntos? Foi de livre e espontânea vontade?" — [desconfiada]
[Vega] — "Sim, estamos. Foi estritamente porque quisemos". — [olhar sereno, mas tímido].
[Oficial Feminina] — "E qual é a sua profissão?" — [indaga].
[Vega] — "Tô desempregado..." — [olhar de timidez].
O agente, desconfiado de Russel, sussurra no ouvido da policial sobre suas impressões. O homem acena com o dedo indicador e se aproxima do ouvido da mulher:
[Agente Philips] — "... Eu acho que ele é menor de idade e é garoto de programa". — [desconfiado].
[Oficial Feminina] — [sinaliza com a palma da mão para indicar que captou a mensagem].
Vega começa ficar levemente tenso.
[Oficial Feminina] — "Olha, eu não encontrei seu rosto aqui no sistema e eu tenho a impressão de que está havendo algum obstáculo para você se identificar, então eu terei que conduzir os dois até a Delegacia para esclarecer melhor sobre seus dados" — [olhar sério].
[Vega] — "Meus dados sumiram, moça". — [olhar triste].
[Russel] — "Ele perdeu os documentos foi há dois dias". — [tenta interromper].
[Oficial Feminina] — "Dois dias? Você confirma isso?" — [olha para Vega].
[Vega] — "Sim, foi há dois dias".
[Oficial 02] — "Sarah!" — [chama a oficial feminina] — "O banco passageiro tem uma tranca".
Dois policiais certificam de que o banco passageiro poderia estar escondendo alguma coisa.
[Sarah] — "Um dos dois, destranque o banco". — [ordena].
[Russel] — "Ah... não". — [voz extremamente baixa, olhos fechados e balançar de cabeça].
Vega vai até o banco para destrancá-lo enquanto Russel praticamente reza para não ser autuado por um possível tráfico de menores. O rapaz destranca o banco passageiro, e para a surpresa de Russel, dentro dele não havia absolutamente nenhum objeto a ser alvo de investigação. De resto, tudo já havia sido verificado, inclusive a mochila do Transmorfo. A tranquilidade de Vega pode ser vista em sua face.
[Sarah] — "É, parece que não temos nada..." — [cruza os braços] — "bom Stanley, já que a sua tutela não pode ser comprovada, o que podemos fazer em relação à sua identidade é..." — [interrupção].
[Agente 02] — "Com licença, Senhora. Chamada urgente, temos que ir".
[Agente Philips] — "Ah..." — [decepção].
[Sarah] — "Ah..." — [amolece os braços e mostra desapontamento] — "não vai dar tempo". — [faz um rápido planejamento e ajeita a postura e rosto de Vega] — "Fique parado, por favor..."
A oficial saca de uma mini câmera que expele fotografias de tamanhos 3x4 e tira uma foto do rosto do rapaz, anexando-a como um adesivo em um pequeno documento retangular, feito de papel digital rígido e carimbado com uma declaração de perda de documentos e selo furta cor da instituição policial. Com isso, a policial escreve o nome, idade e data de nascimento de Vega, postando a sua assinatura e colhendo rapidamente a digital e a firma do Transmorfo logo em seguida. Por fim, coloca o documento em uma capa de plástico para manter o objeto protegido.
[Sarah] — "Toma. Essa é a sua nova carteira provisória até você encomendar outra. Ela tem validade de 03 meses, então se apresse".
[Vega] — "Pode deixar". — [pega o documento].
[Sarah] — "Se precisar de alguma coisa, me chame pelo número na capa". — [olha para Russel] — "E quanto ao senhor, juízo". — [olhar fixo].
Russel apenas confirma com a cabeça e permanece em silêncio. Philips cede uma última olhada para os dois e logo após sai do veículo. Os outros 06 policiais saem do caminhão, alguns aos risos e olhares debochados para ambos os cúmplices. Após escutarem os barulhos de aceleração dos veículos estrada à fora, Russel fecha a porta da cabine de forma lenta e gradual e ambos se sentam em silêncio nos seus respectivos bancos. O homem perpassa as duas mãos em seu rosto seguido de lento virar de cabeça para Vega como se estivesse prestes a enforcá-lo.
[Vega] — [olha para os lados] — "Que foi?" — [confuso].
[Russel] — "Eu vou... MATAR você, Vega..." — [irritado].
[Vega] — "Por que, ué?" — [sorriso desconcertado e antebraços para cima].
[Russel] — "Você tinha que falar que era meu amante?" — [olhar de aborrecimento e dedos unidos de cada mão].
[Vega] — "Ué, qual o problema?" — [confuso].
[Russel] — "Você sabe qual o significado desse nome aqui na Terra?" — [gesticula suavemente].
[Vega] — "Significa que duas pessoas gostam uma da outra". — [sereno e pamonha].
[Russel] — "Não...!" — [olhar de aborrecimento] — "Significa "infidelidade", "promiscuidade", e no nosso caso..." — [coloca a mão na testa e a esfrega no rosto erguido, exibindo feição de irritabilidade] — "Significa "Prostituição de menores", cacete...!" — [irritado].
[Vega] — "Ué, mas eu não sou menor de idade, eu tenho pelo menos 208 anos a mais do que você..." — [contesta].
[Russel] — "É, mas todo mundo pensou que você era um adolescente, porra...!" — [joga o cobertor contra Vega] — "Você poderia ter me ferrado, sabia? E que o quê que foi aquela "alisação" na frente dos policiais?? Você é algum exibicionista por acaso?? O mundo inteiro precisa ver isso??" — [bravo, gesticula com um dos braços].
Contente com o novo documento, exibe-o para Russel.
[Vega] — "Hey, calma, que agressividade cara, relaxa... veja pelo lado bom, eu consegui uma carteira provisória, agora eu posso me disfarçar". — [sorriso amistoso] — "Não vão sequer me associar ao caso Cash... hein?" — [aproxima-se do colega com um sorriso alegre] — "Vou ter uma trégua agora, e se eu puder permanecer assim, o caso logo vai ser arquivado". — [joga o documento dentro do bolso] — "Eu tô na nice...!" — [sorri].
Russel exibe cara de tacho.
[Vega] — "Ãhn?? Fala, isso não é legal??" — [cutuca o homem, animado].
[Russel] — "E onde é que tá o seu celular e restante dos seus documentos?"
Vega levanta a camisa com suas mãos, e de seu abdômen, é formada uma abertura vertical na qual dois objetos saem de forma instantânea de dentro de sua pele. Os elementos pelos quais os policiais procuravam estavam bem guardados entre os órgãos internos de Vega. Ao retirá-los por completo, Russel observa paralisado o bizarro fenômeno demonstrado por Vega, que entrega os documentos para Russel com um belo sorriso no rosto.
[Russel] — "Não". — [nega] — "Pelo amor de Deus, mantenha isso pra você..." — [enojado, exibe palma da mão].
[Vega] — "Não tem nenhuma sujeira..." — [olhar confuso].
[Russel] — "Não, só tava guardado bem no meio das suas tripas, cara, imagina..." — [liga o veículo].
[Vega] — "Pra quem disse que o cheiro da pedra não era tão ruim..." — [sorriso sarcástico].
[Russel] — "Aliás..." — [olha para Vega] — "por que não me avisou que teria bliz?" — [indaga a Vega].
Vega pausa por alguns segundos e não sabe responder à pergunta, terminando por olhar para o lado, e, lentamente, sentir o cheiro dos documentos que havia escondido entre seus órgãos. Em seguida, volta silenciosamente os olhos para o colega.
................"Lambada Complicada - Aldo Sena"
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[Sarah] — "..." — [pausa] — "Rapazinho displicente de tudo, você não acha?" — [fita o colega, desconfiada].
[Agente Philips] — "Não sei. Você acreditou mesmo na versão daquele cara? Aquilo não me cheirava bem..." — [desconfiado, cotovelos na divisória do carro].
[Sarah] — [acende um cigarro] — "Honestamente, achei bem estranho a relação daqueles dois, mas até o momento," — [levantar de ombros, torcer de lábios] — "me parecem serem dois namorados envergonhados de serem descobertos". — [fuma] — "E não temos nenhuma prova contra eles". — [olhar de indiferença].
[Agente Philips] — "É o típico 'não assumo, mas não nego'".
[Sarah] — "Exato. Mas ainda assim, eu vou ficar de olho nesse menino. Tem alguma coisa nele que não está batendo nem um pouco". — [observa a foto de Vega disfarçado e a salva na própria câmera da policial].
[Agente Philips] — "Eu pressinto a mesma coisa..." — [olha para a câmera].
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