------------PERÍODO PÓS-ARMAGGEDDON. PRISÃO PSIQUIÁTRICA GAWOOGA. LINCOLN COUNTY. SALA ISOLADA. INTERROGATÓRIO. ANO 8.805 D.Z. 24 DE NOVEMBRO.23H30 DA NOITE. TEMPO CHUVOSO-----------
Algemas com eletrodos presas aos punhos. Cabeça baixa sobre a mesa. Apatia. Dispositivo de eletrochoque anexado à nuca. Sala fria e escura. Duas lâmpadas brancas. Dois homens de terno logo à frente do interrogado. Outro, próximo à porta. Já haviam se passado longos 10 minutos de interrogatório e avaliação psicológica. O local parecia um estúdio de beleza para modelos como uma forma de disfarce para o ambiente carregado. Design que mescla o preto e luzes brancas. Formas geométricas bem modernas e elegantes. A aposta era nos mínimos detalhes dos tons de preto, iluminações dos balcões, mesas, tetos, paredes, escrivaninhas, espelhos... Nada daquilo lembrava uma prisão psiquiátrica a não ser pela fachada. Ninguém notaria se a mesma não existisse. Tudo era muito chique para uma prisão que abrigaria os assassinos mais sórdidos do Estado.
Mas apesar disso, as portas das celas eram feitas à base ferro reforçadas e com computação embarcada que alertava tentativa de fuga. Ninguém podia ouvir através desta. Cada corredor, havia pelo menos 20 celas muito bem fechadas, e um piso preto com aspecto aveludado e luzes brancas paralelas que percorriam o corredor como se fosse uma passarela. Até o pátio era bonito. Era bem estruturado. Tudo era construído para ser um chamariz para visitantes e advogados. Uma mulher uniformizada em roupas pretas de vinil, salto 15, cabelos em coque e batom preto, caminhava pelo acesso dando a impressão de um desfile. Enquanto isso, gritos de súplica e socos por detrás das portas mal podiam ser escutados. Na cela onde o preso estava sendo interrogado, as portas pareciam pertencer a de um enorme cofre de banco. O número 80 estampado e o aviso de "SOMENTE PARA ALTA PERICULOSIDADE" deixavam bem claro que não era um preso comum.
Os dois interrogadores olhavam o preso de forma seca, com dedos, cruzados enquanto os antebraços estavam apoiados à mesa. O homem mal falava. Seu nome já estava estampado nos jornais, pois já havia tentado diversas vezes fugir de outros hospitais as quais fora internado como conspirador contumaz, mais especificamente, como "mitomaníaco". Se não bastasse, o homem se envolveu em brigas das quais tinha clara vantagem de força, o que acabou em tragédia. Durante 10 anos, o detento passou por poucas e boas. Tudo o que dissesse ali, poderia ser usado contra ele.
Uniformizado com roupas em jeans pretas, sua numeração constava como 142957. Ele não tinha nome por ali. Só era gentilmente taxado de "ruivinho" pelos "doces" colegas. A beleza do rapaz causava muita euforia e bagunça no presídio. As dezenas de tentativas de estupros contra ele terminaram com pedaços de massa encefálica espalhados pelos elegantes pisos de passarela, o que não incomodava nem um pouco os carcereiros já que era lucro para eles...
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===>>[SALÃO DE VESTURÁRIO E BANHO COLETIVO. 27 DE MAIO DE 8.803. PERÍODO DA MANHÃ].
Duas enormes fileiras de chuveiros distribuídos pelo enorme salão preto brilhante, cada qual com seus respectivos sabonetes e espelhos frontais. Cada condenado, recebia um kit de com dois pequenos potes de cosméticos e uma pasta e escova de dente. Era frequente alguns presos tomassem os kits de outros detentos mais vulneráveis e furtassem os sabonetes como forma de implicar uns com os outros, especialmente com os novatos que chegavam. Cada chuveiro tinha uma parede lateral pela qual se abria uma entrada para guardar os pertences e era designado para um número específico. Ao redor deles, iluminações finas e elegantes. O silêncio imperava pelo local e cada qual cuidava apenas do que lhe dizia respeito. Cremes de barbear, lâminas afiadas, água fria, conversas paralelas.
Apenas um indivíduo chama a atenção de 90% dos hóspedes compulsórios. Ele caminhava até o seu local designado sem dizer uma palavra, apenas para cumprir sua rotina compulsória naquele lugar. Cochichos e sussurros logo começam a se intensificar pela presença do homem recém-chegado. Alto e extremamente bonito para os padrões normais, logo começariam a notar pela sua enorme diferença de aparência em relação aos demais. Homens passavam de um lado para o outro, e o detento pela qual havia chamado a atenção estava coberto por uma toalha bem vermelha em seu quadril. Discretamente, o homem ajeita seus pertences antes de se banhar sem olhar para os olhos de ninguém. De cabelos presos em forma de coque, ele os solta como enormes cortinas de seda brilhantes e sedosas percorrendo as suas costas. Os presentes ficavam tão bestificados que não sabiam se brochavam ou se excitavam.
Sem dizer nada, o rapaz liga o chuveiro e passa a mão em seu rosto com um pouco de água antes de entrar de corpo inteiro. De rompante, sua paz é interrompida por um súbito puxão de sua toalha com o intuito de tomá-la para si, deixando o rapaz completamente nu. Olhando para trás, a vítima se depara com seu algoz lançando um olhar provocador e ameaçando sua integridade física. O ruivo, sem muita paciência, tenta tomar o objeto de volta do homem sem sucesso. O seu carrasco parecia brincar com a situação do preso e aplicava truques para que ele não se tomasse a toalha de volta. Os outros presos, sem conhecimento sobre o novato, começavam a se divertir com a aparente vulnerabilidade. Percebendo que não adiantaria, o detento resolve jogar o braço para frente de baixo para cima, como forma de sinalizar que estaria ignorando o valentão: "Argh...!" - [vira de costas].
De forma grosseira e invasiva, o provocador belisca as nádegas do preso por diversas vezes ao mesmo tempo que este empurrava bruscamente sua mão para que o deixasse em paz. Sem mais paciência, o rapaz dá seu último aviso: "Tira a mão... eu não quero!" - [voz imperativa]; "E se eu não quiser tirar? Hãn?? Vai fazer o quê??"; "Eu já falei pra parar!" - [constrangido e irritado]. O algoz continua tentando beliscar o ruivo com a certeza de que seu porte físico o intimidaria, porém, o rapaz subitamente espreme o pulso do homem, que se surpreende com a sua hiper força e o solta de forma brusca enquanto agoniza em dor: "Me deixe em paz...." — [avisa e vira-se]. Furioso, o carrasco dá um soco nas costas da vítima e a agarra pelo pescoço, que, ajoelhada, acerta de imediato a costela de seu agressor e aproveita a oportunidade para agarrar os seus ombros e lhe ajoelhar as bolas quando o homem o soltasse de dor.
Deitado ao chão, o homem se contorce em uma agonia inacreditavelmente excruciante que percorria ao longo de sua virilha, até as suas costas e pernas. O ruivo então, pega de volta a toalha pela qual lhe havia sido tomado, quando por conseguinte, aparece mais 03 comparsas. Agressivamente, um deles tenta atacar o rapaz quando recebe uma bela chicotada de toalha no meio de um dos seus olhos. O som musical era de um grito de dor. O segundo, da qual se desvia de um soco cruzado, tem seu queixo socado, fazendo-o escorregar no piso molhado e cair como um pedaço de argila no chão, sem ver mais nada que tinha pela frente. Já com um olho detonado, um dos injuriados tenta atacar o preso pelas costas quando leva uma pesada na barriga, fazendo-o cair para trás. Ao mesmo tempo que isso acontecia, o terceiro tentava acertar o detento com uma barra de ferro, que é logo contida pelo ruivo e tomada para si, devolvendo 05 cacetadas no rosto, peito, costela e ombros do sujeito.
Quando acabou, o preso encara todos os outros colegas ao longo do salão e percebe que nenhum deles se dispôs a assumir o risco. Sem dizer mais nada, o ruivo, com a toalha em mãos, sacode uma única vez com toda força, a fim de que a umidade e as gotas de sangue em sua ponta pudessem se esvair, e logo em seguida, voltar ao seu banho. Essa era uma das poucas vezes que o homem não precisou partir o crânio de um dos detentos arremessando a sua cabeça no concreto de uma pia, por onde batia a luz do sol pela manhã.
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=====================>>>[DIAS ATUAIS].
Era inevitável que um estrago era feito na vida de quem parasse naquele local. Os que ali passavam tinham sua persona completamente apagada e muitos tinham a memória anulada pelos constantes tratamentos invasivos no sistema nervoso, através de aparelhos específicos para tal. Não restava nome, número de identidade, e-mails, cadastros, registros, ou mesmo histórico. Tudo era milimetricamente pulverizado para que o preso começasse completamente do mais absoluto ZERO, e de preferência, "adestrado". Abatido e sem qualquer perspectiva, o preso permanecia de cabeça baixa sobre a mesa e com olhar de esgotamento.
[Magal] — "..."
[Médico Penal 01] — "Então, "Magal"..." — [semblante altivo e antebraços cruzados à mesa] — "ainda continua tendo fantasias ou delírios sobre a sua realidade?" — [gestos de descrédito e movimentar de mão].
[Magal] — "... Não..." — [abatimento].
[Médico Penal 02] — "E o que fez você repensar sobre isso?" - [feição de seriedade].
[Magal] — "..." — [fecha os olhos] — "Nada..."
Os olhares ficam tortos e desconfiados. Um dos médicos começa a fitar Magal de forma como se fosse censurá-lo. Em silêncio, Magal queria chorar.
[Médico Penal 02] — "..." — [levantar de antebraços] — "Nada fez você refletir sobre seu conspiracionismo? É isso, você não tem nada a dizer?" — [olhar bravo].
[Magal] — "...Vai adiantar eu falar alguma coisa?" — [desânimo].
[Médico Penal 01] — "Complicado, hein, rapaz... o quê que a gente faz com isso?" — [braços cruzados] — "É tão difícil te convencer de que o mundo real é esse aqui?" — [gesto semicircular com uma das mãos] — "Que NÃO existe, ou nunca existiu nenhum outro planeta com supostos seres 'superiores'? "
Nesse momento, Magal perde o estado de apatia e direciona seu olhar rente aos rostos dos médicos penais. Os dois homens imediatamente travam por alguns segundos.
[Magal] — [olhar intimidador] — "Eu nunca afirmei "superioridade" de seu ninguém..." — [voz suavemente ameaçadora].
Ao verem a reação de Magal, os médicos se entreolham brevemente e preferiram passar a adotar uma abordagem mais pedagógica do que de tratamento de choque para evitar conflitos. O vigilante que estava na porta, começou a segurar a arma com maior firmeza em suas mãos.
[Médico Penal 02] — [leve pausa] — "Bom, você não falou com essas palavras, mas as pessoas que escutaram essas teorias começaram a entrar em pânico em todo o Estado. Isso causou desordem generalizada." — [tenta ser assertivo] — "Você consegue entender isso?" — [gesticula com as mãos paralelamente].
[Magal] — [se ajeita à cadeira] — "... Esconder a verdade da população resolve?..." — [pausa e olhar fixo].
[Médico Penal 01] — "Magal..." — [contrariado] — "Você sabe que isso não é verdade..."
[Magal] — "Não...!" — [interrompe] — "Tem razão, talvez não seja mesmo." — [olha de lado e cruza os braços].
O médico penal coça a cabeça e torce a cara sob um leve constrangimento em sua face. O profissional passa a fitar Magal como se estivesse lidando com um mero rebelde.
[Médico Penal 02] — "Olha, Magal, você tem que entender que nem tudo sai do jeito que você quer..." — [balança a orelha] — "Nós vivemos em uma sociedade." — [olhar fixo e inclinação à mesa] — "E nesses anos que você ficou internado preventivamente, você provocou uma série de acidentes com suas tentativas de fugas e alimentou um monte de extremistas fanáticos que agora querem provocar desordem no País..." — [dedo indicador para baixo].
Magal suspira e olha para cima. O médico penal começa a adotar um olhar firme e tom de voz assertivo para com o homem ruivo, que fica mais desanimado e aborrecido.
[Médico Penal 02] — "Portanto NÃO conspirar contra o governo não é só uma questão legal, mas de respeito ao próximo."
[Magal] — "Isso muda a realidade?" — [olhar frio].
[Médico Penal 02] — "Co... como??" — [olhar confuso].
[Magal] — "A minha origem, de onde eu vim, do que eu me chamo..." — [olhar fixo] — "Então quem eu sou, de onde veio a minha força??" — [semblante de súplica].
[Médico Penal 02] — "Mas ESSA é a questão, Magal...!" — [antebraços levantados e encostar na cadeira] — "Nós não sabemos nem quem você é, seus dados sensíveis não existem no sistema governamental, sua residência é desconhecida, VOCÊ mesmo não sabe nos dizer que data é seu aniversário, você não possui nenhum documento de identidade com você," — [conta nos dedos] — "NADA prova a sua existência, como fica isso??" — [semblante questionador antebraços à mesa].
Magal coloca as mãos no rosto de forma a demonstrar o quão inacreditável era a situação em que se encontrava.
[Magal] — "Grandes Céus, é lógico que eu tenho dados! O documento da minha expulsão não prova NADA pra vocês??" — [irritado].
[Médico Penal 01] — "Meu Deus...." — [mãos no rosto].
[Médico Penal 02] — "É claro que não!" — [palmas das mãos viradas] — "Quando que um documento daquele vai provar alguma coisa?? Nem o número de telefone que eles deixaram tem validade, ora...!" — [semblante irritado] — "Senão, porque o documento não está na sua língua ao invés de estar no inglês americano?? Hein??" — [olhar fixo].
[Magal] — "Porque as pessoas daqui NÃO entendem a minha língua! Esqueceu que foram vocês mesmos que fizeram a expedição??" — [olhar irritado].
Os dois médicos começam a se recostarem em suas cadeiras e estampam um ar de esgotamento e frustração com o desacordo sobre a origem de Magal. Após uma longa respirada, um dos médicos tenta novamente tirar informação enviesada de Magal, sem sucesso.
[Médico Penal 01] — "Ok..." — [tira e põe os óculos] — "E que prova você tem de que "nós fomos lá"?? Cadê os registros??" — [encara o homem ruivo].
[Magal] — "Eu ESTIVE lá, cara... eu vi os descendentes dos americanos lá. Tanto é que EU aprendi o inglês lá." — [aponta com as mãos algemadas].
[Médico Penal 02] — "Se esteve lá, então por que não trouxe sua identidade de lá?" — [imperativo].
[Magal] — "Eu já falei, eles me tiraram TODA a documentação...!" — [tenta argumentar].
[Médico Penal 01] — "Certo. E você lembra do número de sua identidade?" — [olhar imperativo].
[Magal] — "Ela não tinha número, só minha digital."
[Médico Penal 02] — "Mas o seu nome de batismo tinha, não é?" — [olhar provocador].
[Magal] — [pausa] — "... Aonde quer chegar com isso, cara?" — [desconfiado].
[Médico Penal 02] — "Qual é o seu nome completo?" — [testa Magal].
[Magal] — "Somente Magal..." — [olhar confuso e desconfiado].
[Médico Penal 01] — "Ah, bom, então..." — [leve balançar de antebraços na forma circular] — "você não tem um sobrenome para o seu nome?" — [encara de forma irônica].
Magal balança a cabeça negativamente, demonstrando estar confuso sobre a má investida do médico penal.
[Magal] — "...Como assim?" — [confuso].
[Médico Penal 01] — [conta nos dedos] — "Uma identidade sem número, um País fictício que não comunica outra civilização de sua existência, documentos que não provam sua nacionalidade... aterrissagem sem a menor fiscalização, desconhecimento sobre o próprio endereço, pais ausentes..." — [cruza os braços, semblante de desdém e gesto com uma das mãos] — "me diz uma coisa, seu nome também é inventado?" — [feição de descrédito].
[Magal] — "Sou eu quem pergunto já que dizem que eu estou mentindo, devem saber melhor do que eu." — [levantar de ombros] — "Inventem qualquer coisa aí e botem no meu relatório..." — [olhar de aborrecimento].
[Médico Penal 01] — "Ah, claro, pra quem tinha tanta certeza que veio de outro planeta, porque não nos explica melhor essa sua fábula?" — [gesto e olhar de desdém].
Nessa hora, o homem ruivo estoura seus últimos miolos de tolerância e adota outro tom para com os médicos. Seu olhar muda para um semblante de ódio puro e tensão se estabelece no interior da sala.
[Magal] — [olhar de raiva] — "Vocês sabem muito bem a resposta." — [olhar desafiador] — "Só querem empurrar tudo pra debaixo do tapete porque sabem que a missão foi um FRACASSO..." — [provocação].
Um dos médicos penais bate na mesa de punho fechado e levanta-se bruscamente da cadeira, passando a andar de um lado para o outro com as mãos no nariz e boca, para evitar partir para cima de Magal. O homem ruivo observa com raiva a reação do homem e começa lentamente a forçar as algemas para rompê-las. Um dos médicos penais que ainda estava sentado, se levanta para tentar acalmar o colega, mas a rivalidade já estaria estabelecida. Magal não era um detento qualquer e não seria fácil intimidá-lo. Já o médico penal, confiava em sua autoridade para dobrar o ruivo. Em ato contínuo, o médico penal aproxima-se da mesa colocando bruscamente suas mãos sobre esta e mantendo seu rosto próximo de Magal. O ruivo não gosta nem um pouco do tom autoritário do profissional:
[Médico Penal 01] — "OK, ENTÃO... agora você vai me dizer qual o nome do laboratório de onde você saiu e ONDE estão seus familiares, porque eu quero que eles me falem TUDO sobre você...!" — [aponta para Magal].
[Magal] — "Não tem Porra de laboratório, você tá ficando louco??" — [ódio].
[Médico Penal] — "MENTIRA! Playboys como você conhece muito bem os geneticistas daqui, me fale o nome deles e me entregue o contato dos seus pais AGORA...!"
[Magal] — "MEUS, PAIS, NÃO, ESTÃO, AQUI...!" — [pausado e gradualmente aproximando seu rosto] — "Não, tem, NENHUM, laboratório...!!" — [feição de ódio].
O rosto de Magal fica colado com do Médico Penal. O profissional de segurança tenta interferir, mas é interrompido pelo outro colega.
[Médico Penal 02] — "Calma, deixe que eu resolvo isso..." - [mão no ombro do segurança].
[Médico Penal 01] — "ESTÁ SIM! Por qual hospital você fez cirurgia de modificação genética?? DAONDE explica você levar várias facadas e não ser ferido?? Quanto teu pai e tua mãe tiraram do bolso??" — [olhar desafiador].
Magal fica ainda com mais ódio. O outro médico penal tentava acalmar os ânimos.
[Médico Penal 02] — "...Fritzel..." — [palma da mão levantada].
[Magal] — "NÃO FUI EM HOSPITAL NENHUM..." — [contendo seu som] — "Você sabe MUITO BEM que nunca teve hospital NENHUM..." — [olhar de ódio].
O homem ruivo e o médico pareciam que iriam se beijar, de tão colados estavam seus rostos.
[Médico Penal 01] — "FOI SIM..." — [sorriso raivoso].
[Magal] — NÃO FUI! — [imperativo].
[Médico Penal 01] — "FOI, FOI SIM, CONFESSA..." — [dedo indicador no peito de Magal].
[Magal] — "CONFESSA VOCÊ!" — [raiva].
[Médico Penal 01] — "ADMITA...!"
[Magal] — "Confessa VOCÊ, seu mentiroso!" — [olhar de raiva].
[Médico Penal 01] — [risos] — "PROVA QUE EU TÔ MENTINDO!" — [provoca].
[Magal] — "É VOCÊ QUEM TEM QUE PROVAR O QUE TÁ ACUSANDO, SEU PALHAÇO!" — [perde as estribeiras].
[Médico Penal 01] — "O ZÉ-NINGUÉM AQUI É VOCÊ, SEU IDIOTA!" — [contorce o rosto e joga o dedo indicador para frente como um rompante contra Magal] — "EU TENHO IDENTIDADE, EU TENHO UMA ORIGEM, EU NÃO ESCONDO A MINHA VIDA, E NÃO SOU INVISÍVEL IGUAL A VOCÊ!" — [sorriso provocador].
[Magal] — "VAI SE FODER, EU NÃO RESPONDO MAIS NADA PRA VOCÊ, SOME DA MINHA FRENTE, SEU VIGARISTA!!" — [ódio descontrolado].
É nesse momento em que as algemas são brutalmente rompidas e o eletrochoque nos pulsos torna-se ineficaz. O homem ruivo perde a paciência e mostra toda a sua raiva e descontentamento com o médico que lhe provocou, encurralando-o para próximo à parede. Em resposta imediata, o segurança tenta bruscamente empurrar Magal, o que não funciona, sendo jogado para o lado como uma boneca de pano. Sem alternativa, o outro médico penal logo aciona o dispositivo de eletrochoque da nuca de Magal com um token em suas mãos, o que faz o homem apagar e cair desmaiado no chão.
Ambos ofegantes, os três homens saem imediatamente da cela e vão até a recepção para passar o susto que levaram. Os três tacitamente decidem sentar nas poltronas disponíveis da sala e se um deles se dispõe a pegar uma garrafa térmica, servindo-se café para si e oferecendo aos demais. Foi feita uma longa e atordoante pausa de 01 minuto, sem dizerem absolutamente nada. Uma mulher, funcionária do local, passa pela recepção cumprimentando os colegas com a cabeça, que respondem discretamente para ela. Um dos médicos penais respira fundo antes de beber o café.
[Médico Penal 01] — "Eu espero que você tenha um bom calmante..." — [mão no peito, olhar para o lado].
[Médico Penal 02] — "E eu espero que você esteja usando fraldas..." — [exibe a xícara de café com um sorriso debochado].
[Médico Penal 01] — [cara de tacho] — "Muito engraçado... é a mesma marca da sua?"
[Médico Penal 02] — "No seu lugar, talvez eu usaria..." — [bebe o café].
[Médico Penal 01] — "Não, eu não sou bundão a esse ponto..." — [mão no peito].
[Segurança] — "Cara, eu tô tão perto de infartar quanto vocês..." — [expressão de alívio].
[Médico Penal 02] — "Pois é, eu vi o jeito que ele te jogou.... você tá é louco..." — [espantado, finaliza o café].
[Segurança] — "Eu nunca vi ninguém tão forte antes..." — [surpreso].
[Médico Penal 02] — "Nem eu. Ainda não se sabe se a origem do cara é conspiratória ou se há realmente algo que ainda não sabemos..." — [olha para o colega].
[Médico Penal 01] — "Claro que é conspiratória, cara..." — [torce o rosto e o balança para os lados] — "Esse rapaz tem compulsão por mentir, ele ACREDITA na própria mentira, não percebe?" — [reforça].
[Médico Penal 02] — "Sei não..." — [dedo polegar nos lábios] — "Tem algo muito estranho nisso... o cara nunca foi sequer registrado em nenhum sistema, mesmo de compras online..." — [desconfiado].
[Médico Penal 01] — "Eu tenho certeza que se descobrirmos o nome dele, a gente acha...!" — [dedo indicador para baixo e leve palmada na poltrona].
[Segurança] — "Procuraram o nome dele pela foto e não acharam nada... de nenhuma parte do planeta..." — [dedos no queixo].
[Médico Penal 01] — [braços levemente levantados] — "Tem que haver alguma coisa." — [espantado] — "Não é possível que o mundo não saberia da existência de um "suposto planeta BIOTH" sendo que existem vários meios de comunicação pra deixar algum registro... senão, como é que escondem da gente?" — [levantar de ombros] — "Isso não tem a menor lógica, eu ainda acho que ele não está cooperando..." — [olha para baixo].
Telefone toca.
[Segurança] — "Vamos ter que voltar pra cela de novo?" — [aspecto tranquilo].
[Médico Penal 01] — "Mais tarde, daqui umas 03 horas... alô?" — [atende o celular].
[Médico Penal 02] — [olha para o colega, apreensivo].
[Médico Penal 01] — "Diga..." — [olhar para a diagonal] — "o número do detento é 142957, se servir de conselho, eu não indico o Senhor entrar lá dentro sem token, o cara é perigoso além da conta..." — [olhar de desconfiança, pausa] — "... tem certeza?" — [preocupado] — "... bom, o Senhor quem sabe, vamos esperá-lo aqui". — [olha o finíssimo relógio de pulso cinza] — "Quando vier, me avise... ok, até mais tarde." — [desliga o telefone e olha para os dois colegas].
Pausa de alguns segundos...
[Médico Penal 02] — "Devo presumir que a C.I.A vai comparecer?" — [observa].
[Médico Penal 01] — "Com direito ao apagamento de memória e tudo..." — [torce os lábios].
[Segurança] — "Vão apagar a cabeça do rapaz?" — [semblante de dúvida].
[Médico Penal 01] — "Provável que sim. Mas sinceramente, preferiria eu esquecer essa noite..."
[Médico Penal 02] — "Eu também..." — [consulta um micro telefone brilhante] - "tô doido pra dar logo 6h da manhã... preciso tomar um banho." - [recosta-se à poltrona].
================ 03 HORAS DEPOIS =====================
Os quatro homens entram na cela onde estava o preso. O homem ruivo, ainda apagado, foi colocado em cima de sua cama e monitorado por alguns minutos. O agente toma frente à conversa e dispensa os três profissionais.
[Agente] — "Eu já entendi o que está havendo." — [olha para o detento] — Deixem que eu fique com ele..." — [se dirige aos homens] — "Sei bem como funciona esse perfil..." — [retira o próprio casaco e o pendura em um suporte próximo à parede da cela.
[Médico Penal 02] — [desconfiado] — "Tem certeza disso?"
[Agente] — "Vou ficar bem, não se preocupe..." — [sorri, dando leves batidas no ombro do médico].
[Médico Penal 01] — "Se precisar, grite." — [olha para o agente].
[Agente] — "Pode deixar... boa noite, chefe." — [cumprimenta o segurança com mão nas costas].
[Segurança] — "Boa noite... e boa sorte." — [olhar atento ao agente].
Os três profissionais finalmente deixam o agente e o preso sozinhos. O homem, sem pressa para acordar o ruivo, senta-se em um pequeno banco próximo de uma mesinha no canto ao fundo da cela, dispondo-se de uma bebida quente que estava em uma garrafa térmica. Com uma xícara limpa em mãos, o mesmo saboreia o drink e percebe que o rapaz começa a despertar de seu apagão.
[Agente] — "Finalmente..." — [sorri] — "Já estava pensando que você não iria acordar mais." — [bebe o chá, olha para a xícara] — "Isso aqui tá muito bom. Um creme quente caramelizado..." — [aponta para o recipiente].
[Magal] — "Isso é bebida alcoólica..." — [olhar cansado].
O homem pausa por alguns segundos.
[Agente] — "Sério isso?" — [olha para a xícara] — "Bom, isso eu não esperava... mas vou beber mesmo assim." — [olhar de "tanto faz"].
[Magal] — "Se quiser água, está do seu lado. Vai precisar."
[Agente] — "Obrigado pelo aviso." — [bebe a bebida inteira] — "Posso me sentar aí com você?"
[Magal] — [feição de apatia] — "Pode..."
O agente se levanta e vai até a cama de Magal, que afasta suas pernas para permitir que o homem se sente ao seu lado.
[Agente] — [olha para os lados] — "Onde é que está a Doutora que atendia os presos? ... poxa, ela era uma médica fantástica. Era a única que sabia lidar com os degenerados daqui."
[Magal] — "Ela teve que se mudar..." — [olhar entediado].
[Agente] — "... É uma pena. Qual era o nome dela?..." — [pensativo] - "Ah!" — [estalo] — "Sofia!" — [sorri, apontando os indicadores] — "Quem contratá-la será muito feliz na decisão."
[Magal] — "...." — [desânimo] — "Você acha?"
[Agente] — [mãos paralelas para cima] — "Deus que me perdoe, mas os médicos daqui não são tão profissionais... eles precisam de um novo treinamento." — [olha para Magal].
[Magal] — [respira fundo] — "... Será que podemos ir direito ao ponto?" — [ansiedade].
[Agente] — "Claro." — [mantém a postura, olha para ao redor] — "... Isso aqui parece uma agência de modelos, não parece?"
Magal fecha os olhos e começa a ficar angustiado.
[Magal] — "O quê que tá acontecendo, cara?" — [lento balançar de cabeça, pausa, levantar de ombros] — ".... Por que isso tá acontecendo?" — [semblante de tristeza e desânimo].
O agente finalmente adota uma postura mais séria para falar com Magal de forma que o acalmasse.
[Agente] — "Calma. Eu já entendi TUDO..." — [reforça, com um semblante simpático em seu rosto].
[Magal] — [estranha] — "Tudo o quê?"
[Agente] — "Os médicos daqui não fazem a menor ideia de toda a história envolvendo os SH's, e eles são treinados para não saber..." — [fita Magal e sorri balançando a cabeça] — "já no meu caso, eu tenho tudo armazenado no meu banco de dados." — [coloca uma das mãos no ombro de Magal e levanta-se e se dirige à mesa para se sentar] — "Ninguém mais aqui sabe a não ser os membros da C.I.A, e NINGUÉM aqui mais pode saber que não seja eu ou você..." — [gesticula com o dedo indicador].
[Magal] — "O que você propõe?" — [curioso].
[Agente] — "O seu silêncio, pela sua liberdade... vamos, sente-se aqui." — [aponta para a mesa].
Magal caminha até a mesa para se sentar. Logo, ele fica frente a frente com o agente. À mesa, o homem coloca uma pasta prateada
[Magal] — "Minha chegada aqui provocou tanto caos assim?" — [olha para o homem].
[Agente] — "Você não faz ideia."— [balança a cabeça gradualmente] - "Uma histeria coletiva se instaurou nesse País que ninguém consegue conter mais..."
[Magal] — "Hum..." — [breve balançar de cabeça].
[Agente] — "Isso está atrapalhando o desempenho das atividades econômicas, o fanatismo aumentou de forma exponencial, movimentos extremistas estão cada vez mais neuróticos, as pessoas estão inseguras quanto a seus empregos, os civis estão armando um pânico moral generalizado por causa da sua vinda pra cá..."
[Magal] — [surpreso e entediado] — "... Não sabia que era tão especial..."
[Agente] — "Pois é, nem eu...." — [sorri].
[Magal] — "O que vai acontecer quanto aos meus dados? Vou ter que começar do Zero?" — [olhar preocupado].
[Agente] — "Se você prometer e assinar esse compromisso de que você vai manter o acordo de silêncio entre a C.I.A e o Senhor, nós iremos preparar sem qual-quer cus-to." — [ressalta, com dedo indicador para cima, abrindo a pasta prateada] — "Todos os documentos relacionados à sua identidade..." — [conta nos dedos] — "uma conta digital bancária gratuita... um passaporte de viagens... um histórico escolar fake com certificado do governo, com direito a cursos técnicos e uma faculdade, claro, caso possa pagar..."
[Magal] — "Mas... e quanto ao..." — [interrupção].
[Agente] — "Uma carteira de MOTORISTA autorizando o senhor a dirigir motocicleta..." — [sorriso confiante] — "isso é bom, não éh? Ou você preferia dirigir um carro?" — [antebraços levemente levantados, palmas das mãos viradas].
[Magal] — "Erh... de fato é, mas... o que eu vou dizer sobre a minha vida pregressa?" — [confuso].
[Agente] — "Para todos os efeitos, você é um estrangeiro, e vai ser mandado aqui para os E.U.A com o intuito de se nacionalizar." — [gesticula com o dedo indicador para baixo].
[Magal] — "Uhum..." — [olhar atento].
[Agente] — "Por sorte, a sua origem vai poder ser inventada com base em um artigo científico de 40 anos atrás..." — [exibe uma papelada, dedo apontado nos papéis] - "... isso aqui, é um laboratório pioneiro em aprimoramento genético humano, bem antigo, por sinal, e ele está na ativa até hoje. Inclusive, com um espaço dedicado a orfanato e adoção..."
[Magal] — "Hum..." — [olhar fixo].
[Agente] — "Este artigo mostra as consequências de se criar seres humanos geneticamente aprimorados em tubos de ensaio, sem a presença ou contato direto com o mundo externo..." — [fita Magal].
[Magal] — "Sei..." — [curioso].
[Agente] — "Então, tudo o que precisamos fazer é o seguinte: você foi gerado por um casal que, mediante pagamento em dinheiro," — [gesto com dedos] — "prometeu que iria resgatar você de volta do laboratório, mas..." — [antebraços erguidos, feição se suspense] — "como eles não puderam pagar por todo o montante, eles preferiram fugir sem levar o bebê modificado para criá-lo. Portanto, você não teve nem pais, e nem parentes para cuidar de você." — [conta nos dedos] — "Só os médicos."
[Magal] — "Que pais horríveis, hein...?" — [semblante irônico].
[Agente] — "Eu sou criativo, não sou?" — [sorridente] — "Mas não, isso é mais frequente do que você imagina..." — [feição de decepção].
[Magal] — [olhar para a câmera, semblante de descrença].
[Agente] — "Dessa forma, você será o típico rapaz imaturo e confuso que, fora do seu ambiente de criação, que é o laboratório," — [mira uma das mãos para Magal] — "irá ter problemas para se inserir em sociedade." — [fecha a pasta] — "Mas como nós somos "bonzinhos", colocamos o Senhor para passar por um processo de tratamento psicológico, reeducação e reinserção caridosamente promovido pelo Estado..." — [feição confiante] — "Gostou da história?"
[Magal] — [assobio e leve feição de admiração].
[Agente] — "Não vai precisar nem se explicar e muito menos precisará passar por 'n' processos burocráticos para estar em regularidade com a lei..." — [girar de uma das mãos].
[Magal] — "Certo... e como vou saber se vai cumprir o que está dizendo?" — [desconfiado].
[Agente] — "Nós vamos apagar a memória dos três médicos lá fora," — [aponta os dedos indicadores para o lado] — "e vamos preparar toda a sua documentação em 30 dias no máximo. Quando acabar, irei trazê-los aqui na minha pasta para você e te mostrar pessoalmente. Até lá, mantenha o disfarce, finja que perdeu a memória..." — [dedo indicador próximo ao olho e uma piscadela].
[Magal] — [olha para baixo, aceno positivo com a cabeça].
[Agente] — "Ah...! O relatório completo de sua estadia no laboratório também ficará pronta logo, logo..." — [satisfeito].
[Magal] — "E como você vai obter permissão de laboratório estrangeiro?"
[Agente] — "Eles estão de acordo com as nossas políticas internas, não se preocupe com isso, eu vou conseguir a permissão deles."
[Magal] — "De qual País fictício vou me originar?"
[Agente] — "Equador... IDH muito bom, diga-se de passagem..." — [sorri e fita Magal].
[Magal] — "Não sei se o senhor está a par, mas têm vários SH's espalhados pelo País, inclusive um deles carrega nota de dinheiro vandoriano..."
[Agente] — "Eu estou a par sim, já alertei a minha equipe sobre esse fato."
[Magal] — "E o que vai fazer quanto à moeda vandoriana?"
[Agente] — "Vai ter o mesmo tratamento em relação às criptomoedas ou como objetos de arte para colecionadores, na dúvida..." — [pensativo] — "não é rastreável e nem sofre regulamentação estatal, então...." — [leve levantar de ombros].
[Magal] — "Hum..." — [pausa] — "Aonde posso ter permissão de trabalho?" — [confuso].
[Agente] — "Não tendo curso superior como exigência, onde você quiser." — [ajeita-se à mesa com os antebraços e dedos das mãos cruzados] — "Então? Aceita manter o pacto de silêncio comigo? ..." — [olhar fixo] — "Só depende de você."
Magal pensa por alguns segundos antes de responder. O homem ruivo analisa a cela onde se encontra e os 10 anos que perdeu sendo transferido de um manicômio para outro na tentativa de apagarem sua memória e sua origem. Cansado de ser chacoalhado como um boneco de pano, não hesita em aceitar a dança.
[Magal] — "Ok. Você me ganhou. Eu topo o silêncio." — [encosta-se à cadeira] — "Mas você me deve essa. Vai me tirar daqui." — [aponta para o agente, o encarando com um olhar sério].
[Agente] — "Eu cumpro a minha palavra. Assim que trouxer os documentos, você sairá dessa porta daqui pra fora" — [aponta para a porta de ferro] - "e arranjará um trabalho próximo daqui, com direito à liberdade e à propriedade."
[Magal] — "Como estrangeiro eu terei cidadania total?"
[Agente] — "Só não vai poder votar ou ser eleito... precisa cumprir alguns requisitos para nacionalização definitiva. De resto, vida normal."
[Magal] — "Por quanto tempo pretende manter o segredo?"
[Agente] — "Até a humanidade se acostumar com a ideia de que existem criaturas um POUQUINHO melhores do que elas..." — [dedo indicador e polegar próximos] — "até esse frenesi passar, preciso de máximo silêncio sobre isso porque esse fato pode desestruturar o País por completo..." — [dedo indicador rente à boca].
[Magal] — "E o que acontece com quem descumpre um acordo com você?"
[Agente] — "Prisão imediata." — [movimento de mãos na forma de "X"] — "E por tempo indeterminado."
Tempo de silêncio...
Magal encara o homem que estava lhe propondo a liberdade em troca de silêncio. No fundo, o rapaz sabia que não adiantaria medir forças com seus carrascos. O preso, porém, só queria que fosse realizado um único desejo:
[Magal] — "Posso só te pedir uma coisa?" — [olhar de dúvida].
[Agente] — "Diga..." — [aproxima-se à mesa].
[Magal] — "Posso manter pelo menos o meu nome de batismo?"
[Agente] — [alguns segundos de silêncio] — "... Claro. Não vejo nenhum problema." — [postura ereta].
[Magal] — "Bom... então fechado." — [ergue um dos braços para um aperto de mão, que é retribuído pelo agente].
[Agente] — "É bom negociar com você. Não vou demorar encomendar sua documentação." — [prepara-se para partir] — "Ah! E por via das dúvidas, sua data de nascimento será o dia e o mês em que o senhor aterrissou neste planeta, certo?" — [aponta para Magal] — "O ano é você quem escolhe..."
[Magal] — "02 de maio de 8.774..." — [balança gradualmente a cabeça].
[Agente] — "Exatamente...!" — [acena com o indicador] — "Bom, até breve, senhor Magal." — [despede-se, logo pegando sua pasta para partir].
[Magal] — "À propósito..." — [chama-o].
O agente olha para trás.
[Magal] — "Qual a sua idade?" — [curioso].
[Agente] — "Eu? 66..."
[Magal] — [semblante de suspeita irônica] — "Não parece..."
[Agente] — [sorri] — "Nem vem, eu sei o que você está pensando..." - [aponta para Magal].
[Magal] — [sorriso leve, balançar de cabeça, olhar lateral].
O homem sai pela porta de ferro e deixa Magal sozinho. O homem ruivo vê como única esperança para a sua liberdade, ceder às chantagens do Governo Americano para que consiga se adaptar ao ambiente pela qual foi expulso. O ruivo volta para a cama se deitar e pega de sua pequena gaveta, uma bola flutuante com dedeiras conectoras para passar o tempo manipulando o brinquedo enquanto matava o tempo. Enquanto olhava pela bola flutuando, a dor que vinha em seu peito o fazia lembrar de onde veio. A saudade e a tristeza lhe cediam apatia em seu rosto. Apesar do tempo que passou, Magal ainda sente os prolongados efeitos do luto. O homem perdeu a sua língua, sua cultura, sua identidade e sua história em uma breve passagem de tempo.
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.........45 DIAS DEPOIS...MEIA NOITE E QUINZE...
Portas se abrindo, noite escuta, apenas dois postes iluminados. Uma sombra de um sujeito é vista saindo da prisão manicomial, bem-vestido e com algumas malas nas mãos e ombros. O homem caminha em silêncio sem olhar para trás. Mal sabia para onde iria, mas sabia o que fazer dali em diante. Com a única chance de permanecer liberto, o sujeito finalmente tem a oportunidade de respirar o ar puro daquela noite. Noites pelas quais ele não via há muito tempo. Para trás, o homem deixa sem querer cair um pedaço de papel pela qual costumava escrever seus devaneios...
"Aos que aqui passaram ou irão passar um dia, não pense que terá alguma vantagem pelos privilégios naturais, pois se você ganha pela força, eles vencem pelo cansaço. A mesma pena que seu povo impõe a eles, é a mesma pena que se voltará contra ti".
"Dust In The Wind - Boyce Avenue"
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