-------BIOTH. VANDORA. DIÁRIO DE JOSEPH RICHARD PRIESLEY. 13º MÊS. 41º DIA. 57H50 DA NOITE. ASPECTOS FÍSICOS E BIOLÓGICOS DOS SUPER-HUMANOS--------

'CATALOGAÇÃO DE BIOTH, VANDORA - DAS SOCIEDADES - CAPÍTULO 10: APARÊNCIA, CULTO E FORÇA'
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        "Não sei muito bem o que dizer sobre vocês. É a primeira vez que me deparo com gentes tão peculiares e estranhas na minha vida. Pessoas com formas irregulares, de peso desbalanceado e suas carnes mal distribuídas, me causaram um enorme estranhamento na primeira vez que os vi. Perdoe-me dizer, mas vocês são extremamente feios...E não é porque tenho algo contra vocês, nada disso! Mas é que os senhores possuem muitas esquisitices pelas quais não estamos acostumados. Até os mais agraciados de vocês parecem terem tidos seus rostos construídos à base de massinha de modelar, dando um aspecto de um desenho "empastelado". Os olhinhos, o nariz e a boca parecem terem sido feitos por um bêbado. Talvez a forma de enxergarmos o belo esteja um pouco defasado, já que poderíamos iniciar aqui uma longa discussão sobre se nós, os nativos, de fato amamos incondicionalmente uns aos outros, ou se nós gostamos apenas daquilo que o outro pode nos oferecer."

        "Quando vocês chegaram, tenho que admitir que fiquei um pouco deprimido com isso. Vi vocês amando uns aos outros, mesmo sendo decadentes e disformes. Não é diferente daqui, somos muito felizes de fato e não vou aqui ser fingido para parecer rebelde ou inovador. Estaria sendo mentiroso. Jamais optaria por estar no lugar de vocês nunca! É muito sofrida a condição dos senhores. Nem preciso mencionar as suas fragilidades inerentes... Eu realmente não sei gostaria estar em suas peles. Eu amo minha vida e minha Terra, mas o que de fato me espeta o peito é, o que verdadeiramente amamos? Somente a estética? Nós realmente valorizamos nossos semelhantes pela raça? Ou pela mera beleza? Me incomoda um pouco porque acho que teremos que lidar com essa inquietude, mas é algo discutível. E que provavelmente ainda iremos aprender bem com os senhores..."

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        Essa é uma das raras entrevistas que um desses cidadãos metidos à besta permitiu ceder pra mim... E não é pra menos. São seres majestosos, bonitos, extremamente fortes e resistentes... É de se esperar que fossem tão nojentos. Os vandorianos são muito literais nas suas palavras e não costumam fazer rodeios. Esses seres são por essência, crus, sem muita vergonha ou travas para se expressarem. Cresceram em um ambiente onde podem, de fato, se sentirem à vontade para se expressarem como querem, pois sabem que não sofrerão retaliações que possam lesá-los o bastante para se sentirem oprimidos. 

        Por essa razão, tudo nesse brilhantíssimo planeta é basicamente resolvido na base do sexo e da pancadaria. Os senhores não verão muitas instituições policiais ou mesmo delegacias por aqui. No máximo um órgão público da Justiça que garante respaldo para casos muito específicos que não podem ser solucionados na base do soco. Em suma, existem, mas são poucas e não são utilizadas com frequência. Mas isso é um assunto mais aprofundado para os próximos capítulos. 

        Bom... Alguns dos senhores não devem estar entendendo bulhufas do que estou dizendo, até porque quando compreenderem, já estarei morto. Não demorei 13 meses à toa para deixar um trabalho medíocre da minha obra, mas até falar tudo o que gostaria, o meu livro já estará enorme o suficiente, e não poderei me delongar muito sobre o que eu vivi nestas maravilhas deste planeta.

          Estou falando de seres que não são apenas aparentemente sofisticados: eles são praticamente o espelho do que a ambição humana jamais cogitou em conquistar. São criaturas altamente resistentes a fogo, cortes, tiros, golpes, facadas, doenças, quedas, frio, atropelamento, marretadas, esmagamento... Qualquer coisa que os senhores possam imaginar que causem danos a nós, não provoca sequer um único arranhão neles. No máximo um espirro e alguns funguinhos, e olha lá. Com propriedade eu posso dizer, são seres praticamente PERFEITOS em substância, da cabeça aos pés.

        São cidadãos pelos quais eu mesmo os apelidei de SH's [Super-Humanos], não só pela sua extraordinária força, mas pelas qualidades que os tornam dificílimos de derrubar. É sórdido o quão são fortes! À primeira vista, são bastante educados e cordiais. Mas à medida que se vai convivendo com eles, se tornam adoravelmente soberbos. Gentilmente arrogantes. Insuportavelmente sedutores. Maravilhosamente presunçosos... Bom, não vou aqui dizer que não estou amando essa experiência de amar e odiar esses cidadãos tão fantásticos. Mas sim, eles são bem metidos...Puta merda...!

        Não consigo mensurar em palavras o quão assustadora é a força biológica dessas criaturas. Esses seres são tão aterradores que somente nessa civilização em que me encontro, são promovidos os esportes das mais variadas insanidades impensáveis para nós como saltos de prédios de 150 andares, colisão coletiva de veículos, simulação de guerra naval com armas de fogo, jogos com bolas de ferro quente, atropelamentos, lançamentos astronômicos de peso, luta corporal crua e nudez pública escancarada. Piscinas de ácido ou água a 300º de temperatura, são um dos passatempos mais relaxantes dos vandorianos. Esses desgraçados possuem um corpo tão complexo e impenetrável, que praticamente se acostumaram a passar a vida sem ver uma única gota de sangue... Não é à toa que as cores mais comuns daqui são mais puxadas para os tons de verde, marrom, azul, roxo, rosa, laranja e amarelo...O vermelho aqui, é considerado uma cor extravagante...Tal qual como o violeta por aí...

        Além de fortes e de pele extraordinariamente resistente, são inimaginavelmente belíssimos! Eu nunca vi em toda minha vida criaturas tão indescritivelmente lindas e metidas à besta como esses SH's, senhores! beleza dessas criaturas é tamanha que na primeira vez que fui recepcionado por um vandoriano enquanto eu estava na espaçonave, cheguei a imaginar que havia visto uma santidade na minha frente! Pensei ter visto um anjo! Meus joelhos, começaram a ficar fracos ao ponto de se ferirem no chão após perderem o pouco do equilíbrio que eu tinha. O ar desse planeta, apesar de puro, é pesado. A gravidade parece ser bem mais agressiva. Os raios solares e lunares daqui, podem ser letais para uma pessoa como eu. Mesmo assim, eu só conseguia focar no homem que estava na minha frente.

        A minha comoção foi tanta, que levantei as mãos pensando que o rapaz estivesse me recebendo no Reino dos Céus. Nos meus olhos só tinham lágrimas. As pernas tremiam. Os lábios velhos tiritavam. O nativo apenas ria e se ofereceu para pegar uma das minhas mãos para me levantar e começou a estranhamente passar uma espécie de creme corporal no meu rosto e braços, como se fosse uma espécie de protetor solar. Achava que eu estivesse doente e queria me levar com ele para me tratar, sei lá do quê. O nativo em questão, usava uma espécie de canga chique! Cheia de ornamentos e detalhes! As suas sandálias, dariam perfeitamente para serem usadas em uma festa de gala! Seus anéis, tatuagens, bracelete e acessórios, que passavam de suas orelhas até uma das narinas, tinham cores fortes e chamativas nos detalhes de suas pedras e traços! O metal em si, era de cor similar a um ônix. Cabeça raspada por uma das laterais, mas com cabelos enormes e sedosos que iam até a lombar! Mal falava a sua língua e sequer compreendia seus gestos, mas já sabia que me receberia muito bem por conta de seu sorriso hospitaleiro.

        Depois desse fatídico dia, descobri que o SH em questão queria tratar da minha velhice. Como esses seres não envelhecem e sua brutal jovialidade e vigor se mantêm até o final de suas vidas, eles enxergam o envelhecimento como uma praga que deve ser combatida. Uma doença! Uma forma de desleixo. Nesse dia, o rapaz ficou tão impressionado comigo, que me carregou como se eu fosse algum tipo de bebê em direção à praia e me alimentou com tudo que podia até lotar meu rabo! E como se não bastasse, o nativo me deu uma bebida que mais parecia uma espécie de remédio, tirou quase toda a minha roupa, me pintou e me enfeitou com suas tintas e joias até me deixar como um palhaço! Me colocaram em uma roda humana em que os membros tinham que se apoiar nos ombros uns dos outros, e balançarem de um lado para o outro, cantando músicas nativas daquela região... 

       Agora vocês imaginem o constrangimento...Um velho pelancudo e de pau mole, todo pintado e cheio de joias, saltitando dentro de uma roda de ciranda de nativos SH's cuja língua mal entendia...E os desgraçados dos meus colegas?? Só riram da minha cara! Nem pra me acudirem foram! Fiquei tonto depois da cerimônia! Mas me senti revigorado, logo depois irei explicar o porquê. Depois de vários meses em Vandora, eu percebi que tudo é muito livre e fácil para um Super-Humano, até a juventude e a saúde. Basicamente, o que eles têm aqui, nós não temos aí.

        O segredo da beleza desses seres, senhores, se resume em um dos principais fatores que os tornam tão fascinantes e odiáveis: a PORRA da simetria. É uma coisa absurda! Nem um milímetro a mais, ou menos, fica fora do eixo em qualquer parte do corpo desses desgraçados! São bem altos e atléticos, com formas proporcionais e equilibradas! Têm "olhões" vivos e bonitos. Narizes esculpidos. Dentes espessos, brancos e fortíssimos. Unhas de cor ambígua, quase espelhadas! Cabelões cheios, que parecem ter uns três andares em suas cabeças, extremamente sedosos, brilhantes e versáteis. E difíceis de cortar também! Pele irretocável e SEM UMA ÚNICA MARCA! Qualquer marca que vocês possam imaginar...! Poros, cravos, sinais, estrias, celulites, bolinhas...NADA! Mais lisos que bunda de neném! Não há SEQUER registro de qualquer pessoa aqui que esteja acima do peso! Isso simplesmente NÃO EXISTE por aqui!

        De forma bem geral, os cuidados com a aparência dos Super-Humanos funciona à base em maçaricos de fogo, cremes corporais, óleos desodorantes, sais de banho, hidratação capilar, bastante água, atividade física e uma alimentação rica e balanceada. Eles não precisam de muita coisa para se manterem bonitos e saudáveis...Foram agraciados pela vida e privilegiados pelas mãos de Deus...[Perdoem-me a blasfêmia, mas acho que fomos deixados para sermos feitos no final de expediente em hora extra, por isso saímos tão estragados...Brincadeira].

        Além da beleza estonteante, esses seres são pessoas que cultuam o prazer e o esporte sob formas de contato físico intenso. Muito mais do que a televisão, o telefone celular ou qualquer outra distração em forma de telas. No que concerne à atividade física, paixão dos SH's, não é incomum que os mesmos saiam de seus serviços e parem para praticar 30 minutos de exercícios pouco antes de fazerem suas refeições no almoço. Como o dia aqui é longo [e bota longo pra caralho...!], há tempo de sobra para fazer tudo! Tanto para trabalhar, para se divertir, como para descansar. Quando querem ver um filme, os vandorianos preferem um bom cinema. Quando querem jogar, gostam de frequentar seus próprios fliperamas coletivos. Quando querem se exercitar, jamais buscam lugares fechados. Quando querem se estimular, procuram parceiros aleatórios para isso. Não negam um bom 'exame de toque', 'ordenha', 'DJ', 'cavalinho', '24', 'papai noel', 'beijo grego', 'braço forte, mão amiga' ou um 'abraço solidário', por exemplo. São seres muito quentes e não se envergonham disso nem um pouco!

         Quando não possuem alguém para compartilhar o prazer, preferem segurar suas pulsões a gastá-los consigo mesmos. Só o fazem quando não tem jeito, ninguém é de ferro.
[Bom...Eles são, mas enfim...]. Fato curioso: já avistei em altas madrugadas alguns fujões saindo de suas casas ou escalando de prédios, já eretos, em busca por alguém disponível para 'brincar'. São seres que não suportam a quietude, a prisão, a rotina parada. Estão sempre envolvidos com quaisquer atividades ou movimento. É por isso que os televisores fizeram tão pouco sucesso por aqui. Para convencê-los a aderirem às telas, precisou de muita propaganda e choradeira das empresas. Já falei a vocês, mas não custa repetir: um dia por aqui, têm impressionantes 60 horas...Cada hora, sendo 100 minutos de duração...Um minuto, tem 100 segundos aqui. Um mês, 45 dias...Um ano, 30 meses...Eu não preciso dizer mais nada, não é mesmo? Eu quase enlouqueci nos primeiros dias em que estive aqui.

        No que toca em questão das relações interpessoais dos SH's, de forma geral, quando não há intimidade, eles possuem uma personalidade fria e são sérios socialmente. Mas extremamente solidários com seus conterrâneos e patriotas por definição. Amam a vida, a natureza e o seu País. Possuem um fascínio pela atividade física, celebrações, extravagâncias, e são loucos por preservação ambiental. Tanto é verdade que existem regras culturais rígidas quanto a limpeza das ruas, a destinação do lixo, tratamento de animais e a depredação das matas. Se alguns dos senhores forem vistos jogando algum cigarro no chão ou maltratando uma mariposa [veja bem...MARIPOSA!], podem até levar uma surra... Acreditem, essas criaturas são doentes quando o assunto é a fauna e flora do País, então, por favor, não brinquem com a paciência deles... Queria falar mais sobre o assunto, mas não posso me desviar do foco no momento. Mais tarde, darei mais detalhes sobre a natureza e a cultura do País no próximo capítulo.

          Por outro lado, no que concerne à sexualidade, esses cidadãos são seres quentes e intensos nas suas relações íntimas e privadas. São criaturas que transam mais que coelhos, e atividade sexual pra eles é tão normal como beber água. É fácil detectar isso pelas suas conversas de bar: eles falam de suas vidas sexuais de forma muito natural. Para quem está de fora, vai achar bizarro, constrangedor, e até engraçado. Não há quaisquer tabus por aqui. Pelo contrário, a sexualidade aqui é praticamente estimulada como forma de exaltação do "vigor da raça". É sinônimo de poder, virilidade, e em alguns casos, até de status. Quanto mais promíscuo [ou promíscua], mais admiração e respeitabilidade é demonstrado para com quem transa, pois tem-se no imaginário coletivo de que uma pessoa que consegue mais parceiros, tem muito mais chances de deixar um legado genético para perpetuação da raça e para estabelecer uma família. Há aqueles que pensam que se uma pessoa é muito bem quista sexualmente, é porque ela tem mais talento na cama. E isso vale para homens e mulheres.

         Ademais, o sexo por aqui é muitas vezes uma forma de demonstrar vínculo e respeito entre os parceiros. Nas relações de amizade, é sinal de extrema confiança de um para com o outro. Pessoas comportadas demais por aqui são vistas como sem graça, fracas, impotentes. Pessoas temerosas com o sexo são muitas vezes vistas como covardes. Pelo menos aqui em Vandora. Na Estrela do Norte, a coisa ainda é um pouco diferente [e um pouco mais sinistro]. Como são seres que praticamente não adoecem, seja pela altíssima imunidade ou por serem assintomáticos, eles não precisam restringir suas vidas sexuais, tão pouco, se estigmatizarem por isso.

        E já que o assunto aqui fora pautada em sexo, um detalhe que gostaria de reforçar com os senhores: aqui em BIOTH, não existe nenhuma distinção para atração sexual. O Super-Humanos possuem uma sexualidade ampla e fluida, e podem se apaixonar por absolutamente QUALQUER PESSOA, independente de gênero ou sexo. Sabem aquela história de "cada macaco no seu galho"? Gays, héteros, bissexuais e afins? Bom...Isso não existe por aqui... Tão pouco qualquer coisa que diferenciem seus comportamentos por isso, já que possuem uma personalidade comumente marcante e ambígua. Apesar de cada um desses seres terem sua própria personalidade, suas manias e jeitos, não existe o estereótipo de "valentão" ou de "afeminado" como conhecemos. Pelo menos não nos países que já tive o privilégio de visitar. Se por acaso alguns dos senhores estranharem dois homens se beijando e questionarem o ato, eles vão rir da sua cara... Mulheres, idem. 

        Quando querem se casar, os matrimônios tem como principal exigência, a fidelidade pelo parceiro ou parceira no que diz respeito ao seu gênero. Isso significa que, se houver relação extraconjugal, o homem ou a mulher só podem se relacionar com pessoas do gênero diverso da qual seu esposo ou esposa possuem. É uma regra cultural básica [o motivo eu não sei, não me perguntem...]. A segunda regra para o matrimônio, [pelo menos aqui em Vandora] é a fidelidade afetiva. Acreditem: eles valorizam mais o vínculo afetivo nas relações duradouras do que a exclusividade sexual. Isso porque sexo para eles é corriqueiro, dessa forma, o sentimento é bastante valorizado: para que a relação faça sentido, o amor deve vir junto com a paixão. Quando uma das partes começa a ficar afetivamente distante uma da outra em detrimento de um terceiro, é sinal de que o vínculo de afeto foi quebrado. É daí que vem as separações: quando amor esfria e o casamento passa a virar uma relação de coleguismo.

            Mas não pensem vocês, senhores, que o casamento é algo comum: é mais raro e seletivo do que pensamos...É muito mais comum os cidadãos terem filhos do que se casarem. Somente se casam aqueles que de fato, estão muito apaixonados...Ou pelo menos, amadureceram o sentimento de amor um pelo outro. Por isso que as festas de casamento aqui em Vandora são tão badaladas e disponíveis para um público aberto: qualquer um que quiser se divertir e homenagear o casal, poderá entrar. Raríssimo um ou outro estraga prazer que tenta arruinar o casório, e, na maioria esmagadora das vezes, a união é celebrada de forma muito amistosa pela população da Ilha-País, a ponto de até mesmo saírem nos grandes jornais. São festões dignos de eventos de ano novo! Presentes, purpurinas, pétalas de flores, passarinhos e borboletas para enfeitar o ambiente, apitos, balões, invejáveis banquetes e chicletes [sim, você não leu errado], músicas, danças, jogos de gramado, tudo é realizado de forma muito glamourizada e exagerada, mas bem feita. 

        O próprio governo muitas vezes financia a festa de casamento para que a cerimônia seja realizada, pobres e ricos se unem nesses matrimônios para se divertirem e consumir tudo o que puderem. Quando duas pessoas se casam, geralmente eles se autointitulam como "aliados". Sim, o casamento aqui em Vandora é chamado de "aliança" pelos cidadãos. Quando um vandoriano anuncia que está em um relacionamento sério, ou um namoro, eles geralmente dizem que estão "afetuosos" a alguém. Quando há interesse, se dizem "enrolados" pela pessoa amada [ou pelo futuro parceiro sexual]. 

        Uma curiosidade: os típicos bolos elaborados em festas e celebrações de vários gêneros são, na sua maioria, feitos à base de chiclete. Isso mesmo, chiclete, goma de mascar! Os tais bolos possuem uma textura um tanto bizarra: eles vêm inflados como se fossem balões, nos mais variados formatos, e são preenchidos de um recheio doce em seu interior que irá servir de complemento para a borda espessa. Geralmente estes vêm com sabores de frutas, principalmente as chamadas "frutas róseas", que são as favoritas dos vandorianos. No momento clímax da festa, um dos convidados colocam uma fina agulha no bolo de mascar, o que o faz estourar e liberar o seu caldo doce pela superfície. Com palitos coloridos em mãos, os SH's misturam o conteúdo da borda com o caldo, formando uma espécie de goma de mascar gourmetizada, enrolada como se estivessem manipulando um algodão doce! Os bolos tradicionais como conhecemos são consumidos em miniaturas e muito antes da comemoração propriamente dita. Peculiar, não?

    As vestimentas das cerimônias dos casórios são interessantíssimas: são roupas de gala usadas pelos festeiros que vêm sempre com o arquétipo do estilo praia. É como se as típicas roupas de banho fossem adaptadas para momentos considerados formais. Sempre muito coloridas e extravagantes, algumas até com um toque de neon! E adivinhem, os anéis de casamento são todos azuis. Uma coisa linda! Alguns tipos de metais daqui possuem variações de cores que transitam desde o verde até os tons de azul. Alguns deles até vermelhos em tom de púrpura ou laranja cor de fogo! O casamento aqui, é equivalente a um Réveillon, uma Copa do Mundo, um Carnaval ou um Dia do São Patrício aí!

        Por outro lado, boa parte dos casais se juntam e tem filhos como um mero pacto para perpetuarem a própria raça e unirem forças. Outros, simplesmente acordam em um belo dia e combinam de gerar filhos de forma completamente descompromissada e casual. E acreditem: existem anúncios em postes de várias metrópoles de homens dispostos a serem reprodutores por um valor pecuniário, seja para as mulheres que estão solteiras ou para casais que selecionam um amante favorito para se entreterem e terminam criando um vínculo duradouro com o mesmo. Bizarramente, para alguns desses casais, é até um fetiche terem um filho com o amante pelo qual contrataram. Seja por se interessarem na sua beleza, seja pela relação de afeto que ambos criaram para com o mesmo. Em Vandora, para que a relação tenha validade como matrimônio, culturalmente, o afeto e o sentimento genuíno deve vir primeiro. Na maioria das vezes, o relacionamento em si é formado como se monta uma sociedade. E tenho que admitir: a maioria dos casais vivem muito bem assim...[Não estou incentivando ninguém daí, pelo amor de Deus, não se matem].

       Mas agora, dando continuidade para as mulheres... As vandorianas...Ah, meu Deus. As vandorianas... São de fogo! Se existem mulheres pela qual me tiram do sério são elas. Olha...Eu já vi mulher bonita nessa vida. Mas nunca soube o que era uma mulher realmente MUITO bonita de verdade até chegar aqui. Parece um clichê idiota de um velhote explorador imperialista pelancudo que fica de olho gordo em cima das nativas bonitonas, mas é verdade, senhores! As mulheres daqui são ESCANDALOSAMENTE perfeitas! E permanecem dessa forma até o final de vida delas! [Com todo respeito às terráqueas...E à minha falecida esposa, é claro, sem querer parecer sexista]. 

         De vários biotipos, cores, cabelos, bocas e alturas, o homem que pisa nas areias da Ilha-País, ficará perdido e atordoado com as moças daqui! É impossível escolher à dedo qual seria a mulher perfeita, porque além de infartarem com a primeira nativa que vissem, seriam MUITAS com que iriam se deparar! Mas antes que os senhores se empolguem demais, fiquem sabendo que qualquer pereba que vocês pegarem dessas nativas vai durar pelos menos uns 80 dias de tortura. As mulheres daqui são brutas. E eu não estou brincando! Um dos meus colegas fez a BURRICE de beijar uma vandoriana e ficou com a boca deformada e cheia de BOLHAS! E foi um INFERNO pra sarar! Só depois de darem um remédio oral para ele beber, é que o infeliz finalmente se curou com muito custo! Mas vamos falar a verdade: que essas mulheres são lindíssimas, isso é inegável, não tem como contra-argumentar. [E para que nenhuma leitora fique com raiva de mim, farei aqui para os homens as mesmas palavras que fiz para as mulheres...Estamos quites agora? Espero que sim, pois não quero levar outra bolsada na cara, estou velho demais pra isso. 77 anos, madames, me poupem um pouco dos sermões...].

          E claro! Como não sou burro nem nada, eu particularmente só apreciei as damas de longe...Afinal de contas, nós já vimos esse filme antes... Um pouco de estudo de história os farão refrescar a memória. Não é à toa que a Morte muitas vezes veio representada na forma de uma mulher. E em se tratando de um SH, é bastante temerário para um amador como eu manter relações com uma criatura que pode me matar com uma moléstia grave...Melhor então nem arriscar...[E sim: vai ter um imbecil pra fazer isso, não é preciso viver muito pra prever. Eu tenho certeza! Vocês VÃO acabar transando com as Super-Humanas...Bom...Mas isso não é problema meu...].
          
        Ainda divagando sobre as dezenas de variações no que concerne a diversidade da beleza dos vandorianos, em especial das moças, esta é tão riquíssima e intensa quanto seus temperamentos... Aqui não faltam nenhuma das etnias. Podemos ver aqui homens e mulheres de todos as peles e corpos, das mais variadas características. Os cabelos, tem de todos os tipos! Todos muito hidratados e cheios de vida! O que mais tem aqui são homens e mulheres pretos de cabelos brancos e ondulados quando não acobreados, ruivos de olhos puxados e cabelos encaracolados e crespos, com suas cores de íris tendentes para o amarelo e o verde-safira, pessoas de cabeleiras e olhos rosados ou puxados para o vinho e o vermelho-âmbar, pessoas claras de longos cabelos escorridos como cortinas, que variam do branco ao azul-cinzento, e, algumas vezes, variando também para a cor preta e olhos vermelhos, mestiços conhecidos como "dourados" mais loiros que o sol da manhã e com os olhos mais azuis-esverdeados que a cor de mar. 

        Até mesmo mulheres brancas e loiras tendem, na sua maioria, ter cabelos bem enrolados. Já vi por aqui mesmo, pessoas de tonalidades capilares e da íris voltadas para o roxo, verde e o lilás. Todas de cores mestiças! É uma coisa fantástica! Enfim, a gama de variabilidade genética desde país é tão astronômica que caberia em um livro inteiro! Não dá para relatar tudo aqui, senhores. À propósito: em termos de agressividade, as mulheres vandorianas são 50x mais violentas que os próprios homens. E olhem que os homens daqui são loucos por pancadaria, mas em matéria de fato, as mulheres são brutalmente insanas. Homem quando briga, é por esporte. Mulher, é na base do puro ódio. [Não queiram ver cenas desse tipo, já aviso...Não são nada glamurosas...].

        Lembram da simetria e da alta resistência a danos na qual mencionei? Quando o assunto é ter crianças, as nativas têm de sobra! A gravidez para essas mulheres é tão tranquila e suave como uma sessão de SPA. Essas cretinas são capazes de parir até 1000 crianças ao longo da vida, sem terem QUALQUER alteração em seus corpos! Continuam intactas, com tudo em cima! Nem estritas, nem aumento de peso, nem marcas, nem sinais, nem manchas...NADA! Iam fazer muita raiva nas terráqueas! Falo com propriedade! Essas pestes podem estar num belo dia tomando um café da tarde com as amigas que elas podem tranquilamente darem uma pausa [eu repito: PAUSA] para irem a um matinho próximo, afastarem as pernas, e RETIRAREM o bebê ainda do ventre estando em pé! SEM UMA GOTA DE DOR. Muitas vezes, com o acompanhamento das próprias amigas próximas! 

        Em algumas cerimônias de nascimento, um ritual tribal grotesco é realizado entre as mulheres aonde a mãe, literalmente, come da sua própria placenta! E as outras mulheres, fazem uma sessão de quebradeira de taças, bandejas ou potes de vidros, e chegam a se cumprimentarem com cabeçadas para comemorar o nascimento do bebê. Tudo vira uma festa! E quem disse que o moleque chora depois de sair?? O pestinha já nasce de olhos bem abertos e com a carinha das mais sem vergonha! Os demoniozinhos já sabem de tudo o que está acontecendo, quiçá até já tinham consciência desde o vente da mãe! Os desgraçadozinhos já vêm com dentinhos, senhores, DENTINHOS! Quando deixados no chão, os catarrentinhos rapidamente aprendem a andar e correr como filhotes de cervos! Mal nasciam e o bichinhos atentados já pegavam os doces da mesa da cerimônia e os colocavam na boca! Eu nunca vi criaturinhas tão evoluídas e ardilosas como esses bebês SH's! Cada detalhe de seus olhinhos, narizes e boca, os jeitos de balbuciar palavras, os jeitos de se movimentarem, são muito independentes, e muito rápido! Eles nascem já com todos os sentidos formados e apurados!

        Um detalhe sórdido que gostaria de compartilhar com vocês sobre a gravidez precoce. Aqui em Vandora, mesmo em outros países, o nascimento de um bebê, mesmo em uma jovem precoce, é considerado uma bênção! Os pais podem até terem um ressentimento com relação à ausência do pai fujão e irresponsável, mas a garota é literalmente tratada como uma RAINHA! A alegria da família é tanta, que até homenagens e festas com bolos de aniversário são realizadas para agradecer a existência do pequeno e como forma de glorificar a perpetuação da raça! A mocinha recebe beijos do pai, da mãe, congratulações dos irmãos, tudo com muita adoração e felicidades! Ter filhos aqui é sinal de virilidade, de vitória, de poder, de prestígio! Pensem bem, senhores! Se fosse aí na Terra, viraria um escândalo, uma tragédia, a garota poderia ficar marcada, e até tomar um tapa na cara e ser expulsa de casa! A situação que presenciei por aqui, é totalmente o inverso do que estamos acostumados!

        [P.S: são raros, mas casos de estupros existem por aqui. No geral, a família costuma caçar e deitar o agressor na porrada quando não uma multidão de mulheres enfurecidas, e, infelizmente, é praticamente impossível abortar o feto, já que a condição extraordinária dos SH's não facilita a interrupção da gravidez. Dessa forma, os bebês não desejados são colocados para a adoção, o que na sua maioria, são realizados por um grupo denominado como praianos. Calma... Já chego lá...]. Quando um homem é sexualmente violentado, geralmente a vítima chama outros amigos para acertar as contas com o engraçadinho. É tudo tão bizarro, que muitas vezes quando uma vítima, homem ou mulher, descobrem que foram violados enquanto dormiam, eles "resolvem" a situação dando uns belos tapas na cara do agressor. "Ficam de mal" por uns três dias, e depois voltam a conversar com o cretino como se nada tivesse acontecido... Como eu disse antes, é raríssimo os vandorianos envolverem a polícia ou a justiça na maioria dos conflitos que eles se envolvem. Situações desse tipo que não envolvem morte ou casos mais relevantes, são, na sua maioria esmagadora, resolvidas na base da pancadaria. É muito soco envolvido, senhores!

        Tocando no assunto sobre os praianos acima mencionados, de forma resumida, os praianos são uma adaptação cultural recente aqui em Vandora. Inicialmente, os praianos eram apenas um reduto de vagabundos, que admitindo que não queriam fazer absolutamente nada da vida além de viver da natureza, já que não viam qualquer sentido nos trabalhos formais, passaram a se amontoar em regiões litorâneas e viverem de forma tribal: seminus [quando não totalmente pelados e cheios de desenhos pelo corpo], e com poucos recursos. Eles vivem basicamente de caça, pesca, artesanato, colheita, fogueira, das águas, e dos sais do mar que são depositados nos litorais.

        Esses praianos são tão sacanas, que tudo o que querem para se arrumar, vestir, limpar ou comer, é muitas vezes fornecido em troca de servicinhos feitos para os Playboys e Patricinhas dos principais Pontos da Ilha-País, que se aproveitam sempre que podem dos praianos para colocá-los como acompanhantes, auxiliares ou mordomos temporários, quando não terminam inevitavelmente fazendo amizade com eles. Às vezes só querem uma companhia barata para irem em uma boate ou alguém para fazer o trabalho mais complexo. Ao terminarem o serviço, um kit bonitinho de pertences guardados em uma bolsa são dados como forma de pagamento, havendo de tudo um pouco. Os praianos gostam! Eles se sentem muito melhor com esse estilo de vida alternativa do que os trabalhos tradicionais, as faculdades, ou a vida agitada das cidades...

        Como o acúmulo de vagabundos já estava se tornando insustentável e o Estado não iria admitir que pessoas ficassem sem produzir nada para o país, o Governo resolveu fazer um acordo com os praianos: o Ente se comprometeu construir complexos espaços para banheiros e chuveiros. Os praianos tinham apenas que utilizá-los regularmente para produzir energia elétrica para aquela região. Ademais, o Estado designou aos praianos que fizessem o que eles sabiam fazer de melhor: cuidar das praias. Deixá-las limpas e bonitas para os visitantes. Em troca, receberiam mimos diversos. Resumindo, os vagabundos só tinham uma única missão em suas vidas, a qual seja, cuidar das praias, e cagar e mijar nos banheiros públicos movidos à biomassa. O plano deu certo. O povo ficou em paz, e ninguém precisou ser preso ou pior, executado.

        Até porque, senhores, vamos analisar o contexto dessa adoração dos Super-Humanos com o nascimento: em todas as civilizações que visitei, a quantidade de recursos é IMENSA. Tamanha é a quantidade e a velocidade de sua produção na natureza, que, em especial os vandorianos, sofrem de um fenômeno bizarro chamado de "praga de insumos". Somente a Ilha-País de Vandora, é capaz de alimentar até 5 Terras com a extraordinária capacidade de produção de recursos que eles possuem. Para não desperdiçar, 2/3 disso tudo é usado para fornecimento de adubo, combustível, ração e energia elétrica.

        Vandora, é conhecida como a maior produtora mundial de tomates e cerejas rosados, e é o epicentro econômico e cultural de referência global, por toda BIOTH. Nem a Estrela do Norte, que é GIGANTESCA em território, bate Vandora em níveis de produtividade de insumos, sendo mais talentosa com a produção bélica. Não é à toa que Vandora, por sua flora natural ter como uma das cores primárias, os tons de rosa choque, tem como cor de sua bandeira nacional, o próprio rosa choque. É o único país dentre várias civilizações que se utiliza desse espectro de cor como um dos seus valores patrióticos. O cor-de-rosa para eles, é símbolo de solidariedade, união e riqueza do país.

         Ademais, a maior parte da prioridade no direcionamento das riquezas é voltada exclusivamente para o próprio povo de Vandora: de todos os lugares, os cidadãos tem fácil acesso a comida, roupas, água encanada, lazer, bibliotecas, ferramentas, cosméticos, moradas, escolas, empregos com salários satisfatórios, internet, saúde, bem estar, doações, vários outros. É um país que praticamente não se vê desigualdade social. Até mesmos os conhecidos como "pobres" daqui, vivem muito melhor que um médico daí! Como a quantidade de riqueza é gigantesca e a qualidade de vida é altíssima, os vandorianos nunca precisaram temer o nascimento de um bebê, mesmo vindo de uma garota muito jovem. A margem de segurança é muito grande.

        Soma-se o amor ao nascimento ao fato de que, sendo seres altamente sofisticados e belos, o que eles mais querem, é perpetuar a própria espécie. Eles acreditam que, pelo fato de serem geneticamente privilegiados, é uma desfeita um cidadão vandoriano optar por não ter filhos. Fora que engravidar uma Super-Humana é mais difícil do que se parece: as mulheres de BIOTH podem demorar de 03 a 10 anos para terem uma gravidez. Mesmo que estando férteis, seus úteros são extremamente ácidos! E é preciso um esforço muito maior por parte do casal para conseguirem de fato conceberem a gravidez [e haja trepada, viu?]. Apesar desse fator, BIOTH hoje possui cerca de impressionantes 30 bilhões de pessoas em todo o planeta. Sinistro, não?
            
        Ah! E não dá para falar dos SH's de Vandora sem citar as famosas Casas de Banho das cidades. Em cada Ponto, há centenas delas. É de praxe os vandorianos saírem de seus trabalhos direto para as saunas para relaxarem. É o Happy Hour deles! Os sais de banho e os perfumes em óleos corporais são parte de uma tradição cultural enraizada pelos cidadãos da Ilha-País. Bichos e pessoas se reúnem em um momento especial de pós expediente nos luxuosos ofurôs e câmaras de vapor nos locais mais badalados das regiões litorâneas. Quando eu fui visitar um desses estabelecimentos, isso estava uma baderna! Nunca vi uma mistura tão grande de pessoas e animais juntas num mesmo lugar antes! Borboletas nos prendedores capilares das mulheres, mariposas nos ombros dos visitantes, damasquinhos [uma espécie de furão com orelhas de raposa e boca de gato], guaxinins, algumas espécies pequenas e bonitinhas de primatas, pássaros atazanando a vida das pessoas, e outros bichos procurando por água e comida...Enfim, é uma verdadeira feira! Mas tudo muito bonito, colorido, limpo e bem acabado.

        Passei vergonha da primeira vez que relatei minha primeira estadia em uma das Casas de Banho. Estava usando um roupão rosa fandango, com um tecido até bem sofisticado! As minhas sandálias eram todas feitas de um material brilhante, muito chamativas, mas elegantes. Apesar disso, eu estava me sentindo um pateta nessas vestes. Eu só tinha em minhas mãos o meu Tablet e uma caneta magnética para fazer as anotações necessárias. Minha cara estava acabada...Tinha passado o dia inteiro catalogando os vários aspectos da Ilha, e tenho que dizer, é muita coisa, senhores. Tudo isso para um dia de 60 horas. Eu mal abria o olho de tamanho cansaço nos meus ossos. Eu realmente estava um caco. Eram 45h60 da tarde quando os hóspedes começaram a vir aos montes. Nessa hora, os olhos que eu mal abria, estavam saltados pelo susto e o infarto que quase levei.

        A casa tem três entradas: uma delas, a propriamente dita, que é por onde ficam as recepções para que os usuários peguem suas respectivas "fichas de estadia", pendurado por um cordão a ser colocado no pescoço. A segunda, é por onde ficam as fileiras de cabines de vestuários e cofres por onde os hóspedes guardam seus pertences e ficam literalmente PELADOS. A terceira e última, é a entrada direta para o amplo espaço de ofurôs, saunas, Spas, banheiras e piscinas. Meu coração já havia quase saltado do meu peito quando me deparei com uma manada de gente pelada entrando pelas portas como quem liberta o gado de uma fazenda. Eram 800 peitos e perus de todos os tamanhos passando por minuto diante dos olhos. Meus olhos estavam mais esbugalhados que a de um gato espantado.

        A cena era crua. Passavam todos ali, de braços erguidos exibindo suas respectivas notas de 100 vands para oferecerem como gorjeta ao primeiro garçom que aparecesse! Os funcionários lucram horrores com essa montanha de hóspedes. Achei que já tivesse visto de tudo, mas eu me ferrei! Nunca havia visto tanta gente nua em toda minha vida nem na minha época mais quente! Não é uma regra, mas em muitas casas, os vandorianos frequentam esses lugares totalmente pelados! Homens, mulheres, bichos, e muitas vezes até crianças, todos juntos e amontoados. Um inferno! Depois dessa, o meu cansaço deu lugar a um semi-infarto. Um dos Super-Humanos que estava do meu lado até sorriu e colocou a mão no meu ombro perguntando se precisava de uma água pra passar o impacto. Eu singelamente respondi que sim...

        As Casas de Banho também já vêm equipadas com espaços para refeições, uma variedade absurda de comida, e só do bom e do melhor, senhores! Quem quiser jantar, tem que pegar uma canga para se cobrir e servir seu prato. Como eu já estava muito bem armado com meu roupão rosa, eu decidi parar para comer porque estava sentindo o cheiro da tentação. E tenho que dizer a vocês, tudo estava maravilhoso! Os frutos marinhos, as variedades de carnes, legumes e frutas...Tudo perfeito, crocante e saboroso! Vandora é um país que aposta muito bem em suas especiarias e acerta todas as suas receitas! 

        Depois da sobremesa, que também estava o máximo, eu fiz questão de tomar um belo banho com sais minerais em uma das banheiras privativas e acabei dormindo por lá mesmo, já que o estabelecimento também tem um local reservado só para o sono e descanso. As camas e os travesseiros dessa casa em particular, são uma delícia de dormir! O luxo que desfrutei pelo menos compensou o susto que tomei. Já até havia me acostumado com os bilaus saltitantes, as bundas redondas e os peitos enormes passando pelo meu caminho. Quando acordei [e ainda era madrugada], havia um monte de passarinhos piando pelo meu corpo e uma abelha enorme e peluda dormindo na minha cara... Ótimas companhias, por sinal. Que aventura! 

             É impressionante como as formas de vida de Vandora interagem de forma tão intensa com as pessoas. Pombos gordos, vermelhos e enxeridos, as mariposas peludas, rosadas e irritantes, as dezenas de borboletinhas e plantas floridas das mais diversas cores e tipos, árvores imensas e ultra ramificadas, com folhas charmosas que mais parecem cabeleiras... Felinos folgados e manhosos que volta e meia pegam nas mordidas imprevisíveis, animais de grande porte que substituem o transporte motorizado para quem não tem um "disco automóvel" para voar pelos ares... Os animais daqui parecem ter uma sintonia muito forte com os seres humanos. Não é como no mundo aí, onde cidade e floresta não se misturam. 

        Prédios, tecnologia e natureza parecem que namoram entre si. Aqui, os bichos parecem até conversar com as pessoas. Vejo crianças coletando mel das abelhas, pomposas e gordas, na maior serenidade que existe! Admito que achava estranho essa mistura tão promíscua entre vida natural e tecnologia de altíssima ponta, mas isso passou a não me incomodar tanto desde o primeiro dia em que pisei neste fantástico planeta. Bom, sobre a tecnologia e as metrópoles, isso é assunto para um momento posterior. Tenho ainda muito o que conversar com os senhores leitores. Não vou nem mencionar aqui sobre a questão do armamento, vai demorar séculos...

        Ah! E sabe a bebidinha com gosto de remédio que me deram na primeira vez que pisei na ilha?? Isso me rejuvenesceu e me deu uma disposição que eu não tinha há 30 anos, senhores! O resultado é maravilhoso, nunca me senti tão bem! Minha cara ganhou firmeza, meus pés de galinha sumiram, meu fôlego melhorou, as pelancas diminuíram, minha imunidade aumentou.........E meu pau voltou a subir. Desculpem, mas é a verdade, tenho que ser honesto...

        Nesses fascinantes 13 meses, eu nunca tinha visto tamanha riqueza e beleza em toda a história humana. É dificílimo descrever cada detalhe dos quatro únicos países que pude visitar, não caberia no meu diário, e este já está enorme! Lamento todos os dias pela minha esposa não ter tido a chance de ver isso. Ela é quem descobriu tudo isso aqui! Minha amada Elizabeth, como você me faz falta...Mas enfim, não vou ficar aqui me lamentando, não é mesmo? Só me resta cumprir o que minha amada começou e voltar com todos registros de uma das civilizações mais lindas e filhas da puta que já tive a benção de presenciar!

        Com vossas licenças, meus senhores, tenho que dormir para descansar os ossos pois amanhã é uma nova eternidade, e o dia por aqui passa muito devagar. Minha noção de tempo tá toda fodida! Muito em breve, irei ceder mais relatos das minhas humildes e bizarras experiências por aqui para que os senhores possam ler e guardar com muito carinho. Não sei quanto tempo terá passado depois dos meus 30 meses aqui em BIOTH, mas espero que isso valha cada segundo, e cada escrito meu. Uma boa noite, seus porras!

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[QUARTO ESCURO. TV LIGADA. VOLUME ZERO. LIVRO EM MÃOS. CORES CINZENTAS. CAMA DE CASAL BAGUNÇADA. SETEMBRO. 15H23 DA TARDE. ANO 8.846 D.Z]

...........[abrindo a porta]..........

[Magal] - [leve surpresa] - Olha...! Parece que alguém aqui finalmente decidiu largar a televisão... - [caminha até o sofá, de calça moletom e com a foice em sua mão].

[Earl Cash] - [olha para trás] - Você é quem devia aprender a procurar programas de TV melhores... Está cheio de ótimas opções.

[Magal] - Eu sei... - [senta-se no sofá, deixando a foice apoiada no braço do móvel e mantendo o rosto virado para o lado] - Já me contentei com o fato de que a vida de vocês terráqueos é triste e entediante... - [cara de tédio].

[Earl Cash] - Ãhnhamham...! - [faz uma careta, contrariado] - Até parece que você não fica o dia inteiro parado em casa...! - [olhar de metidez].

[Magal] - Em casa eu posso até ficar, mas parado não... - [olhar de deboche] - Eu leio, faço um pouco de exercícios, jogos de gramado, limpeza da casa, uma caminhada, ah! ... Fora de casa... - [ressalta] - Qualquer coisa que não tenha que me fazer assistir TV por várias horas... - [estica os braços].

[Earl Cash] - Ah, éh? E qual que é a diferença? - [cara de desdém].

[Magal] - A diferença é que não tem uma maldição de uma tela que fique tentando me distrair o dia todo. Isso me deixa improdutivo... Além disso, eu quero gastar meu tempo viajando do que mudando de canal... - [manipula um canivete, rodando em suas mãos].

[Earl Cash] - Ah, tá bom senhor "vida incrível"...! "Exemplo de juventude", "fodão inalienado", "ruivão sexy do pedaço", "bom vivant" do caralho...! - [expressão de deboche e desdém] - E como é que você faz pra assistir seus filminhos de ação e salvar suas partidas de videogame?? - [mão no queixo]. 

[Magal] - [semblante de espanto e leve sorriso] - Eu vou ao cinema...! - [movimentar de mãos].

[Earl Cash] - Ah...! - [semblante irônico].

[Magal] - Eu frequento fliperamas também quando quero jogar, mas quando jogo em casa, não é o dia inteiro, é final da noite... - [tentando ser convincente].

[Earl Cash] -...Hum... - [semblante irônico seguido de um sorriso] - Beleza, imaculado, saca só... - [exibe um livro de capa branca metálica] - Já leu esse livro aqui?? - [desliza a mão sobre a capa e balança a cabeça negativamente] - Ele fala muita coisa sobre essa implicância de vocês com televisão! Como é que alguém ainda fala que esse livro é mentira? Como é que o governo esconde isso do povo?? - [indignado, gesticulando].

[Magal] - [suspira] - Olha, é inútil, tudo o que foi relatado nesse livro foi varrido pra debaixo do tapete... - [decepção e conformismo].

[Earl Cash] - Mas você é a prova viva disso aqui! - [aponta para o enorme livro grosso em suas mãos].

[Magal] - [mãos viradas para cima] - Foi o que eu tentei dizer quando me internaram no manicômio... - [abre uma barrinha de cereais].

[Earl Cash] - E eles não fizeram nada pra investigar se isso é mentira? - [estranhamento].

[Magal] - Fizeram... - [semblante de indiferença e balançar de cabeça] - Me silenciaram... - [decepção] - Meteram uma arma restrita na minha cara e me ameaçaram de morte caso eu continuasse com a minha versão, que é a verdadeira.... - [se encosta na cabeceira do sofá e coloca uma de suas pernas sobre o joelho].

[Earl Cash] - Porra, o governo sempre esconde essas merdas da gente, cara... - [indignado] - É por isso que eu sempre desconfiei daquela mulher que vende suplementos lá de Oklahoma. - [aponta o dedo indicador] - Eu tenho certeza que ela é uma vandoriana disfarçada!

[Magal] - Se está falando da "Sonya Brian", sim, ela é uma conterrânea minha e foi a primeira a ser expulsa... - [come a barrinha] - Aliás...Você é usuário daquela ampola que ela vende, não é? - [curioso].

            Cash, ignorando a pergunta e guardando o diário de Joseph R. Priesley embaixo de sua gaveta, saca da mesma, uma versão mal feita de algo que parecia um chapéu metálico pontudo, colocando-o de forma cerimoniosa na sua cabeça. Magal, observa a cena com um semblante de quem estava avaliando um mentecapto.

[Magal] - [Levantar de ombros e olhar confuso] - E isso é o quê, na sua cabeça?

[Earl Cash] - [empolgado] - Isso aqui, meu amigo, chama-se chapéu de alumínio! - [sorri].

[Magal] - [cara de desconfiança] - Chapéu..... De alumínio?

[Earl Cash] - Éh, ué! Nunca ouviu falar disso na sua Terra?? Esse negócio já foi uma febre muitos, mas MUITOS anos atrás! - [estala os dedos] - Virou moda, e até hoje é aderida! - [sorriso de orgulho].

[Magal] - Ah... - [cara de "tanto faz"] - Já vi chapéus metálicos extravagantes no meu País antes, mas... - [cara de tacho] - Esse aí, é uma novidade... - [leve semblante de deboche].

[Earl Cash] - Não gostou, porra? - [cara de decepção].

[Magal] - Bom... Pode melhorar... - [coça a cabeça].

[Earl Cash] - Argh! Tsc! - [resmunga, retirando subitamente seu chapéu de estimação de sua cabeça, voltando assim a abrir o livro].

[Magal] - [balança a cabeça sutilmente de forma negativa] - Vou fazer um lanche na cozinha, vai querer um café? - [polegar para trás].

[Earl Cash] - Quero sim, e traga ovos com bacon e um misto quente pra mim...! - [concentrado nas páginas do livro].

        Magal finaliza o cereal e se levanta do sofá. Antes que se se dirigisse à cozinha, o mesmo hesita e tenta mais uma vez interrogar Cash:

[Magal] - Aliás... - [mão na nuca] - Você ainda não me respondeu sobre a ampola que tal mulher "vale ouro" vende... Você usa? - [curioso].

[Earl Cash] - [olha para trás] - Eu uso sim, por quê?? - desconfiado].

[Magal] - [semblante de leve surpresa] - Nada, só queria saber mesmo... - [breve olhar para baixo e mão no nariz, boca e queixo] - Já que você mesmo disse que a sua energia sexual aumentou, não foi isso? - [preocupado e olhar de alerta].

[Earl Cash] - Irh! Eu tô no pico, meu chapa! - [sorri] - Tô trepando igual a um cavalo! E tô mais jovem também... - [alisa seu rosto] - Nunca me senti tão bem comigo mesmo em toda minha vida! Não me troco por nada desse mundo! - [movimenta o dedo indicador e apoia o braço na cabeceira do sofá].

[Magal] - Ok, bom pra você. - [esconde a preocupação com um sorriso].

        Após Cash se vangloriar, Magal se afasta e Earl volta a ler. O SH começa a temer pela quantidade de suplemento que Cash estaria injetando em seu corpo ou até ingerindo-o, já que o motorista começaria a manifestar os efeitos colaterais da substância mediante seu comportamento de origem duvidosa. Ao sair pela porta do cômodo, o homem ruivo olha um tempo para trás e percebe que no canto do quarto, logo ao chão, estaria um brinquedo de pelúcia que Cash havia comprado de uma loja, o que desperta uma preocupação interna de Magal, mas não o suficiente para suspeitar de seu empregador e amigo próximo. O SH respira fundo, fecha os olhos por alguns segundos e muda seu foco para o lanche da tarde que iria preparar. O sorriso perverso de Cash mostra seu fascínio pelo diário que mantém como relíquia para seus delírios e desejos mais internos.

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