----DESEMBARQUE. NEVADA. MADRUGADA DE 15 DE JULHO EM DIANTE. ANO DE 8850. CAMINHADA. PRIMEIROS DIAS EM NOVA YORK.PARTE #5-----

=============>>> 10h26 DA MANHÃ. SOL QUENTE. NOVO PLANO DE FUGA. 90 KM POR HORA.


        Desarrumação e móveis revirados e destruídos. O cenário se assemelhava a de um Supermercado em uma desesperadora época de Black Friday. Alguns botões do monitor do veículo mal funcionavam. A lâmpada do teto da cabine piscava mortamente. A única coisa que poderia ser usado para cobrir as janelas frontal e lateral vandalizadas, era um lençol florido barato. Ainda com o token e um papel com anotações em mãos, o fugitivo pressiona apressadamente seus botões enquanto permanece sentado de pernas cruzadas no piso aveludado. A placa digital do caminhão já foi modificada por 30 vezes sem sucesso, até que finalmente chegou a uma identificação alfanumérica na qual poderia utilizá-la provisoriamente como disfarce, mas que não iria garantir proteção por muito tempo.

         As roupas, documentos, calçado e a arma de fogo estavam guardadas dentro da mochila rosada. A carteira e o dinheiro de Earl Cash, também estavam em posse de Vega. Já desesperado para procurar ocultar outras provas que poderiam incriminá-lo, começa a vasculhar a sua própria mochila para certificar de que estaria "limpo". Na carteira de Cash, dois documentos pessoais foram encontrados pelo Transmorfo: uma CNH e uma de Identidade Nacional. Como queria se livrar delas, levantou o closet derrubado no chão e arrancou na marra a abertura das quatro gavetas em busca de algo que pudesse descaracterizar ou destruir o documento.

           Em uma delas, Vega acha um Spray limpador de manchas e tintas mais pesadas. Bem no canto, um pouco mais atrás da cabine, havia uma porta aveludada que dava acesso a uma pia para lavar as mãos e um sabonete líquido jogado no chão. Aproveitando a brecha, o rapaz saca do spray e o testa nos dois documentos da vítima. Com apenas um pouco do produto da parte frontal e traseira dos dois cartões, a imagem impressa se transformou rapidamente em tinta líquida, desaparecendo com qualquer vestígio da identidade de Cash. Ao final, restaram apenas dois cartões totalmente brancos e imprestáveis. Para finalizar, Vega lava e limpa bem a pequena pia metálica e parte os dois cartões em dezenas de pedaços, descartando-os em um novo saco plástico de lixo, espalhado junto a outros no chão, de tamanho menor, antes de jogá-lo no balde levemente amassado. As três colombianas estavam começando a ficar apreensivas.

[Pâmela] — "Hey! Já está voltando??" — [nervosa].

[Vega] — "Eu já vou, só um minuto!" — [responde, olhando para trás].

        Com o token em uma de suas mãos, Vega pensa de que forma irá sair daquele veículo e se disfarçar de forma bem-sucedida. O mesmo já não poderia mais sujar as mãos de sangue pois levantaria ainda mais suspeitas. Sabendo que estava em território estranho, não poderia arriscar ainda mais a sua volta para a sua Terra Natal. Se colocasse suas roupas normais, poderia ser notado pelas autoridades por não estar uniformizado. Dúvida cruel. Não tinha nenhum documento legítimo, estava seminu e com uma morte das costas. Vega então, vasculha por todas as roupas espalhadas na cabine e no closet e em uma delas, encontra uma carteira de identidade e um crachá dentro do bolso da frente de uma camisa branca com detalhes marrom: Stanley Ipkiss. Só haveria uma única esperança.

        Com a foto e um código de barras de Stanley, Vega enxerga uma luz no fim do túnel. para que pudesse ser sorrateiro e não precisasse provocar mais tragédias, iria memorizar a imagem do homem na foto e copiá-lo da forma mais realista possível.

[Nélia] — "Ow, menino! Vem pra cá logo!" — [grita a mulher impaciente].

        Vega se apressa em descer até o esconderijo especial do veículo para auxiliar as três mulheres, já nervosas e apreensivas pela situação a que estavam expostas. Antes que pudesse entrar para dentro da complexa carroceria, um comprido espaço horizontal se abre na parede, liberando um colchão inflável rosado que se enchia de forma instantânea. Essa era a última coisa que faltava para completar o cenário de guerra do veículo.

.......................... 

        De volta ao local, antes que Pâmela indagasse sobre o manual de instruções de 100 páginas do token, Vega já garante um resumo de anotações para a mulher:

[Pâmela] — "Só uma dúvida: a gente vai ter que ler isso tu..." — [a mulher é surpreendida por uma folha de anotações à sua frente].

[Vega] — "Aqui. Isso é o resumo dos principais comandos que vocês precisarão decorar para utilizarem o token. São fáceis... acredito que com isso vocês conseguem se livrar de qualquer abordagem policial..." — [expressão séria].

        As três mulheres examinam as anotações esquematizadas feitas por Vega.

[Pâmela] — "Caramba, como é que você decorou isso tudo?" — [impressionada].

[Yara] — "Que letra linda...!" — [maravilhada].

[Nélia] — "Pra quem chegou agora, você escreve e fala que é uma beleza, hein filho?" — [olhar suspeito e surpreso].

[Vega] — "Imagina..." — [olhar tímido] — "Quero que mantenham isso bem guardado, e nem deixem ninguém pegar, Ok?" — [olhar fixo].

                          As três sinalizam positivamente para Vega. Nélia, guarda o papel. Vega entrega o token para Pâmela.

[Vega] — "Ah, e mais uma coisa... se o combustível acabar, provavelmente a máquina vai avisar, e se isso acontecer e vocês não encontrarem nenhum galão de energia, saiam do caminhão e fujam pra longe, ok?" — [olhar sério].

[Nélia] — "Deixa isso conosco. Temos um estoque que roubamos aqui..." — [expressão neutra].

[Pâmela] — "Você apagou os rastros?" — [apreensiva].

[Vega] — "Ocultei o rastreio. De resto, acho que o veículo fará um novo Pit-Stop daqui a 30 minutos..." — [breve olhar de canto] — "só o robô de fala que estragou um pouco..."

[Yara] — "Você vai embora?" — [olhar de leve melancolia].

[Vega] — "Tenho que ir... se eu ficar, vou ser um estrago para os planos de vocês. E além do mais, não posso mais ficar me escondendo nesse caminhão, tenho que arrumar outro lugar pra me deslocar ou vou acabar ficando aqui pra sempre..." — [vira-se para subir novamente para a cabine do caminhão].

[Nélia] — [pausa] — "Vai sair dessa muito em breve..." — [olhar confiante].

[Vega] — "Assim espero. E vocês também." — [aponta para as três].

[Nélia] — "Ok. Vai lá. Boa sorte pra você" — [confiante].

[Vega] — "Obrigado." - [sinaliza positivamente].

[Pâmela] — "Obrigada pela ajuda."  [braços cruzados e olhar esperançoso].

[Vega] — "Não há de quê..." — [leve sorriso].

[Yara] — "Gostei de te conhecer, espero vê-lo de novo um dia..." — [simpatiza com o rapaz].

[Vega] — "Também espero vê-la também, Yara. Boa jornada pra ti." — [coloca gentilmente a mão na cabeça da garota].

        Antes que pudesse subir e voltar para o seu posto, Pâmela fita Vega querendo dizer algo para ele. Em silêncio, a moça não consegue pronunciar qualquer palavra, algo que foi notado pelo Transmorfo, com alta sensibilidade para detectar emoções. Olhando para trás, Vega lança um convite para Pâmela.

[Vega] — "Hey, Pâmela." — [olhar sugestivo].

        A mulher volta seu olhar para Vega.

[Vega] — "Espero que você consiga vida nova em Nova York. Quero convidá-la pra sair..." — [leve olhar devasso].

        A mulher ri sem graça, com uma expressão mista de negação e timidez, mas que não recusa às investidas do Transmorfo.

[Pâmela] — "Eu aceito o convite..." — [levemente perplexa].

        Após essa surpresa, Vega sai do local e as mulheres não têm mais contato com ele. Nélia e Yara ficam de olhos arregalados para Pâmela, que não sabe onde colocar o rosto.

...............[pausa de alguns segundos]............

[Nélia] — "...Sortuda..." — [olhar sarcástico].

[Pâmela] — "Argh.... Nélia...!" — [sussurra, com a mão na testa e olhar arregalado].

[Nélia] — "Ué...! E não é??" — [indaga].

        A mulher exibe um sorriso bastante sem graça sem saber o que pronunciar.

[Nélia] — "Olha, tenho que comentar, esse cara é bonitão mesmo, hein??" — [cede uma leve cutucada na colega enquanto exibe metidez].

[Pâmela] — "Ai, meu Deus..." — [risos].

[Yara] — "Ele parece um anjo, não parece?" — [sorri].

[Nélia] — "Ele mais parece um Deus...!" — [expressão sarcástica].

[Pâmela] — "Falem baixo...!" — [sinaliza timidamente] — "Ele vai ouvir... aliás, a Yara nem devia estar ouvindo isso..." — [olhar de surpresa].

[Nélia] — "Ahh, menina..." — [olhar de desconfiança e sorriso irônico para a colega] — "ela já é mocinha. Nessa idade eles já entendem tudo...!" — [balança uma das mãos horizontalmente].

        Pâmela, já contente pelo convite e atraída por Vega, Chega bem próximo aos ouvidos de Nélia, como se fosse revelar um segredo.

[Pâmela] — "Sabe aquela hora que o caminhão levantou e nós fomos lançadas pra trás?" — [sorriso tímido].

[Nélia] — "Sei..." — [curiosa].

[Pâmela] — "Então... Ele tem cheirinho de neném..." — [sorriso devasso].

        Nélia fica boquiaberta e de olhos arregalados com a revelação de Pâmela. As duas começam a se segurarem para não rir.

[Yara] — "Quê que vocês duas estão falando aí?" — [curiosa].

[Ambas] — [se entreolham] — "Nada...! Nada não..."  [mãos gesticulantes e caras vermelhas].

[Yara] — [virar de cabeça e olhar de curiosidade].

..............Pausa..........

[Pâmela] — [cruza os braços] — "Só sei que eu quero sair daqui logo e trabalhar na primeira loja de esquina que eu achar..." — [olhar de canto inferior].

[Nélia] — "Eu quero montar minha própria loja." — [confiante] — "Vou vender jantinhas e doces. Arepas, lechonas, bandeja paisa, tacos, arroz carreteiro, crepes, feijão vermelho, sancocho, peixe frito, patacones, legumes bem temperados..." — [contrai os lábios e as sobrancelhas de relance, fazendo um sinal de "OK"].

[Yara] — "Parece bom..." — [sorridente].

[Pâmela] — "Tá aí, uma coisa que queria fazer... comer." — [leve expressão de lamentação].

[Yara e Nélia] — "Eu também!" — [olham para Pâmela].


================>>> 11h30 DA MANHÃ. SOL QUENTE. POSTO DE COMBUSTÍVEIS DRISCO II. PRÓXIMA ROTA DE FUGA. DISFARCE.


        "PRÓXIMA PARADA À FRENTE. PROGRAMADO HORÁRIO PARA A PRÓXIMA PARTIDA. PAUSA DE 30 MINUTOS. NENHUM BLOQUEIO POLICIAL À FRENTE". A máquina robótica já pronunciava com certa dificuldade após o vandalismo do veículo. Já sentado ao banco do motorista e vestido com um uniforme encontrado no closet, Vega já estava irreconhecível. A cabine havia sido parcialmente reorganizada para fins de fazer parecer uma tentativa de assalto do que uma truculenta revista policial. Os lençóis que tampavam as janelas haviam sido dobrados e postos no colchão inflável, na cama horizontal fixada à parede. Como sua bolsa rosada poderia ser uma pista para a polícia, aproveitou para agonicamente raspá-la com uma caneta magnética convertora de cores, trazida consigo junto a seus pertences. No final, o objeto adotou uma tonalidade amarela. Na camisa, estava o crachá do funcionário Stanley Ipkiss, que por ironia do destino, estava de folga no dia do "incidente".

..........[PARADA LENTA E GRADUAL. LOCAL POUCO HABITADO].....

        Vega olha para fora da janela do veículo e checa quantas pessoas haviam no local e como era a parte interna do estabelecimento. Com um ampliador natural em seus olhos, o Transmorfo consegue detectar uma lavanderia junto à loja de conveniências e um banheiro masculino na parte lateral direita. Seria o bastante para lavar suas roupas e voltar à forma normal. Vega sente algo de dentro do bolso da calça e retira para ver. Era uma foto do caminhão de Cash, com um extravagante enfeite felpudo vinculado a enormes chifres de marfim na parte frontal da cabine, na parte mais alta. Para não se distrair muito, guarda a foto dentro do porta-luvas. Vega verifica suas mãos, seu rosto e parte do seu corpo pelo retrovisor quando se depara com um dos funcionários abrindo sua porta de maneira súbita, fazendo-o quase pular do banco.

[Funcionário] — "STANLEY, meu chapa! Como é que você tá?" — [alegre e altivo, o homem exibe um austero sorriso com dedos sobre o boné na cabeça].

        Após o susto, Vega se disfarça e tenta manter a animosidade para com o desconhecido. De forma rápida, o fugitivo identifica a identidade do homem pelo crachá: Joe Alwyin.

[Vega] — "Oi...! E aí, cara? Que surpresa!" — [sorrindo de nervoso].

[Joe Alwyn] — "Fazendo hora extra éh?? E sua voz cara, parece que engoliu um souzafone!" — [risos].

[Vega] — "Ah, sim!" — [risos e mão no pescoço] — "Eu andei meio gripado, sabe?? Deve ser esse clima sazonal...!" — [semblante amistoso e sem graça].

[Joe Alwyn] — "Pois, é, chapa. Poxa! É seu dia de folga! Podia ter me ligado!" — [surpreso].

[Vega] — "Ah, o pessoal me pediu pra dar uma força e levar mais um pouco da carga pra Nova York..." — [sorriso de canto].

[Joe Alwyn] — "Caceta, Nova York?? LONGE pra burro, rapaz!" — [espanto] — "Mas e o Cash?? Cadê ele? Não era ele que tava indo pra NY?" — [mostra gesto de dúvida e lábios contraídos].

[Vega] — "Estava..." — [leve nervosismo] — "mas acabou que estamos..." — [olhar descontraído] — "dividindo a estrada, sabe...? Ele quer passar mais tempo com a esposa..." — [sorriso furtivo e balançar de cabeça] — "Mas tô bem, tô curtindo a viagem!" — [sorri disfarçadamente, com mãos no volante].

[Joe Alwyn] — [risos] — "Beleza, então, ué!" — [sorriso cômico] — "Vem pra cá, cara! Bora aproveitar e comer um hamburguer antes da próxima viagem...!" — [projeta-se para frente, quando repentinamente olha para o lado].

[Vega] — "Ah, obrigado, mas eu só vou lavar minhas roupas na lavanderia e vou pegar a estrada..." — [sorrindo].

[Joe Alwyn] — "Rapaz, o quê que aconteceu aqui?? Quebraram tudo, bicho...!" — [assustado].

[Vega] — "Tentaram me assaltar há uma hora atrás, acredita nisso?" — [leve melancolia].

[Joe Alwyn]  [espanto]  "Tá brincando! Sério??"  [pausa]  "E você conseguiu se esconder??"  [surpreso].

[Vega] — "Tive que ficar um bom tempo no esconderijo lá embaixo..." — [aponta o braço para a porta de onde conecta a carroceria] — "Lá tava cheio de mofo e MUITA poeira." — [ressalta, com semblante de repulsa].

[Joe Alwyn] — "Nossa senhora, que sufoco!" — [estranhamento e surpresa] — "Eles chegaram a roubar alguma coisa da carga??" — [balança a cabeça horizontalmente].

[Joe Alwyn] — "Argh!" — [rosto para cima baixo, mãos para cima e logo ao volante] — "Por muita sorte ou milagre, não levaram nada! Eu até fiquei surpreso, sabe??" — [gesticula].

[Joe Alwyn] — "Porra...!" — [surpresa e estranheza].

[Vega] — "Sim...!" — [balança a cabeça] — "Foi muito aleatório..." — [gesticula com a cabeça].

[Joe Alwyn] — "E eles usaram arma pesada, hein?" — [visualiza toda a cabine] — "Quebraram até o vidro blindado..."

[Vega] — "Usaram até EXPLOSIVOS..." — [ressalta].

[Joe Alwyn] — "EXPLOSIVOS??" — [saltar de olhos].

        Vega sinaliza afirmativamente com a cabeça.

[Joe Alwyn] — "Mas que bandidagem, viu? Brincadeira...!" — [expressa revolta] — "Tu passou o maior apuro então, ué...!"

[Vega] — [suspira]  "Nem me fale, cara...! Eu passei muito medo...! Sequer trouxe meu celular pra ligar pra polícia..." — [semblante de temor misturado a receio].

[Joe Alwyn] — "Poxa, Stanley! Que mole que tu deu...! Vamos, venha tomar um ar, me explique melhor isso aqui fora...! Vou acionar as autoridades..." — [saca o aparelho telefônico]— "..." — [pausa e olhar de estranheza para Vega] — "ué...você ficou mais alto?" — [visualiza de baixo pra cima].

[Vega] — "Eu?" — [olha para o próprio corpo] — "Não reparei não..." — [confuso].

        Pausa constrangedora.

[Vega] — "...Meu sapato é um pouco mais alto ou então..." — [olhar de canto] — "devo ter comido muito cereal..." — [levantar de ombros, sorriso sem graça].

[Joe Awlyn] — "Ha ha ha há há, ha harss....! Essa foi boa..." — [sorriso genuíno] — "Vambora! Vamos tomar um café...!"

        Vega pega a sua mochila convertida e ambos caminham juntos até a copeira enquanto conversam para servir o café, fazendo jus ao disfarce. As câmeras, monitoravam cada fio de cabelo detectado dos corpos e vestes dos passantes filmados.

[Joe Awlyn] — "Poxa, esse caminhão já foi mais empombado! Tu lembra que o Cash até colocou 'chapéu' viking de pelos na parte frontal da cabine??" — [sorridente].

[Vega] — "Éh! Lembro! Acho que entendi porque que ele tirou... Pegou meio mal botar esse chifre ali..." — [aponta o polegar para o caminhão].

[Joe Awlyn] — "Háárrss... ha ha ha háááh....!! Você me mata de rir, Stanley...!" — [quase chorando].

        Vega tenta distrair Joe para que pudesse colocar suas roupas para lavar e ter acesso ao banheiro. Enquanto o homem servia o café, o fugitivo discretamente começa a vistoriar o ambiente. Por sorte, as fotos relacionadas ao homem pela qual estava se disfarçando, eram bem nítidas e forneciam dados suficientes para que Vega pudesse copiá-lo da forma mais perfeita possível, tirando a sua voz. Nada que fizesse seu "colega" notar alguma diferença.

[Joe Alwyn] — "Sabe, Stan..." — [manuseia a garrafa] — "a gente nasce, cresce, faz 18 anos..." — [vira o rosto, contrai os lábios] — "sai de casa, vai trabalhar, rala..." — [ressalta] — "cresce de novo, casa, cria filhos..." — [pausa] — "quando você vai ver, passaram-se 50 anos." — [olhar fixo, reflexivo] — "Mas são aqueles 50 anos que você vira pra você mesmo e diz: foram muito bem vividos!" — [acena positivamente, contrai os lábios] — "Fiz tudo o que eu poderia, o que eu deveria, e o melhor...!" — [aponta para Vega] — "Tudo o que eu PRECISAVA fazer..." — [sinaliza positivamente].

[Vega] — "Hum..." — [sorriso discreto].

[Joe Alwyn] — "E aí a gente vê esses "boyzinhos" por aí," — [estende o braço] — "que tem tudo na mão, que tem dinheiro, família, tem amor, tem cuidado, tem TUDO o que queria...!" — [pausa] — " e resolvem migrar pro crime." — [solta o braço e exibe decepção] — "Ao invés de estudar, trabalhar, fazer algo produtivo, até casar com gente rica... não! Assaltam à mão armada vários pobres coitados por aí." — [vira a cabeça para o lado] — "Justamente os batalham pra conseguirem o pão de cada dia... é mole?" — [abismado].

[Vega] — [suspira] — "Éh... não é fácil." — [bebe o café] — "Compartilho da sua revolta..." — [rosto para o lado].

[Joe Alwyn] — "Até porque, né...?" — [vira o rosto, levanta os antebraços].

[Vega] — "Éh...!" — [acena positivamente].

[Joe Alwyn] — "Se eu fosse esses moleques e tivesse um pingo de vergonha, eu procuraria um tutelar pra mim...!" — [ressalta com dedo indicador, polegar e rosto].

[Vega] — [semblante de leve incerteza] — "Já ouvi falar de negócio de tutela, mas nunca soube como funciona..." — [olhar confuso].

[Joe Alwyn] — "A tutela funciona da seguinte maneira:"  [mãos em posição paralela]  "É um contrato que se faz entre uma pessoa disposta a cuidar da outra e a pessoa disposta a ser cuidada pelo seu tutor, ESPECIALMENTE se você é maior de 18 anos de idade... pode ser gratuita ou onerosa, tanto faz..." [olhar fixo].

[Vega] — "Hum..." — [atento].

[Joe Alwyn] — "Quando se tem 18 anos, os pais geralmente mandam seus filhos pra fora de casa e alguns até custeiam a faculdade. Nesse período, para que o jovem tenha uma margem de segurança financeira maior, convém ele arrumar uma tutela de 05 anos com alguém mais velho e influente do que ele... o que inclusive, facilita, E MUITO, pra que o jovem recém adulto arrume um trabalho mais rápido..." — [sorriso confiante e balançar de cabeça].

[Vega] — "Hum... interessante... e por onde ele arruma?" — [levemente impressionado].

[Joe Alwyn] — "Sites, boca a boca, anúncios, apostas de jogos, bares, prostíbulos, boates, tudo o que você imaginar..." — [movimento de jogar para frente uma das mãos].

[Vega] — "Entendo..." — [volta a beber o café].

        Vega absorve as informações do homem cada vez que este abria a boca para falar sobre assuntos diversos. Enquanto preparava os hamburgueres, o Transmorfo notou todos os símbolos, cores, texturas, aparelhos, números e dados que eram deixados pelo ambiente ao seu redor. Passaram-se 10 minutos desde que Vega se juntou ao estranho, e distraí-lo, estava se tornando cada vez mais cansativo. Logo além das paredes de vidro à frente, Vega reparou um caminhão estacionado a alguns metros. Dentro dele, um outro motorista saiu do veículo, provavelmente para fazer algumas compras na loja de conveniências. Como o local era consideravelmente grande, passaria despercebido. Entre os goles de café e olhar fixo rente ao veículo, Vega trata de acelerar as coisas e ir até a lavanderia.

[Vega] — "Joe, se não se importa, vou pegar dois dos seus sanduíches e vou já lavar minhas roupas pra pegar a estrada..."  [pega os dois hambúrgueres e os coloca dentro de um recipiente arredondado de silicone].

[Joe Alwyn] — "Ué, já vai??" — [surpreso].

[Vega] — "Tenho que chegar no próximo ponto o mais cedo possível, eles estão com baixa de estoque e precisam da mercadoria com um pouco de urgência..." — [coloca a mochila em um dos ombros e exibe feição de pressa].

[Joe Alwyn] — "Uai, tá bom..." — [vira o rosto] — "Se você vai eu também já vou indo. Te vejo mais tarde então!" — [pega dois sanduíches e parte em retirada].

[Vega] — "Valeu!" — [sinal de positivo, parte em retirada].

        Vega vai à passos largos até a lavanderia já abrindo os zíperes de sua robusta mochila, cuidadosamente retirando as vestimentas contaminadas de sangue e jogando-as na máquina de lavar roupas. Vega encontra um armário vermelho cheio de caixas de alvejantes e amaciantes em pó, depositando cada qual nos seus respectivos recipientes da máquina. De paredes com blocos de tonalidades marinho e amarelo, o cômodo abrigava duas fileiras de 20 máquinas complexas cada. Cada uma delas cumpria as funções de lavar, e logo em seguida, secar e desamassar. Para que a mesma funcionasse, Vega teria que depositar $10 para que as roupas ficassem limpas. $20, seria para deixá-las limpas e secas. $30, para desamassar as vestimentas. Vega retira a carteira de Cash de seu bolso e procura notas de dinheiro para depositar na máquina. Enquanto o eletrodoméstico trabalha, o rapaz saboreia os sanduíches.

==============>>> 10 minutos depois............

        O caminhão vandalizado que estava estacionado ao lado do posto de combustíveis teria mais 10 minutos de prazo de parada. Após, o veículo logo partiria em retirada. Estando no automático, as três mulheres clandestinas seriam as únicas que teriam controle sobre o automóvel. Vega tinha esperança de conseguir outra carona para não ser notado. Logo à frente, havia um espelho móvel que poderia ser posicionado de várias formas. Certificando-se de não ter saído do script, o Transmorfo analisa seu rosto e corpo seguido de uma olhada rápida no relógio de parede laranja pendurado à vista.

[Vega] — [suspira] — "Caceta, anda logo..." — [negação com a cabeça].

        A máquina de lavar vinha com uma tela digital de contagem regressiva, as funções detalhadas e o cálculo do número de peças que teria que lidar. Faltavam apenas 01 minuto para que a limpeza fosse finalizada...

===========[MÁQUINA SE ABRINDO. FUMAÇA EXPELINDO]===========

        As roupas e calcado são entregues limpos, secos e desamassados. Vega os pega apressadamente, fechando a abertura da máquina com um dos pés. Correndo até o banheiro masculino, tranca-se em uma das cabines que mais parecia um modelo inglês de cabine telefônico, com direto a uma cortina interna para tampar a parte da frente, feita com partes de vidro maciço. Vega retira o uniforme com os sapatos e retoma à forma anterior de sua transformação. Restos de pele, fumaça, sujeira e unhas caem no piso da cabine. 

        Na sua lateral, um enorme espelho bizarramente atrelado à cabine para que o usuário pudesse se observar, mesmo se estivesse utilizando a privada. Vega resolve dar um toque na cor dos cabelos, adotando uma tonalidade "musum black", tornando-os escuros de tal forma que passasse a impressão de uma cortina de seda. A cor de seus olhos foram mudadas para o verde oliva, e sua pele, levemente mais escurecida, mas ambígua, para distorcer as imagens das câmeras de segurança e confundir os olhos de quem o vir de longe. Nada foi feito em relação a sua estatura. Decidiu se manter um pouco mais alto. Do visual anterior ao seu disfarce, a única coisa que mudou em Vega foram as cores de seus cabelos, sobrancelhas, olhos e pele. Os cabelos repartidos ao meio, escorrendo até o início dos ombros, continuavam os mesmos.

        O rapaz veste suas roupas que havia trazido de sua Terra Natal e coloca novamente seus sapatos originais. O uniforme, dobra-o e guarda-o dentro de sua mochila. Em direção a um ralo do piso, Vega empurra toda a sujeira com os pés e sai da cabine para lavar as mãos e rosto. Conferindo novamente as formas de sua face e corpo, o Transmorfo não nota nenhuma mudança nas suas formas e curvas. Vega usa um óleo desodorante de aroma ambíguo e atraente para se manter higienizado. O calçado marrom vinil de Stanley Ipkiss, foi deixado de lado por Vega dentro de uma caixa de doações ao lado de um dos espelhos do banheiro, que mais parecia um perfil de um camarim pelas luzes e o piso aveludado.

        12h10 da manhã. O dia brilhava fortemente sobre as cabeças dos reles mortais. Apesar do calor, beleza não faltava até ao mais melancólico e escangalhado ambiente. O céu estava limpo de não sobrar fio sobre fio das nuvens. Vega caminha suavemente até o estacionamento como uma criatura inofensiva e desarmada. De mochila nas costas, o Transmorfo certifica se o estacionamento estava vazio e se o homem que havia visto ainda estava lá. O caminhão que havia vislumbrado continuava estacionado naquela região. O homem em questão, estava encostado na parede, ligando um isqueiro e o fechando de volta, para frente e para trás. O Transmorfo aproveita para passar pelo homem e comprar algo para beber. O desconhecido nota sua existência. O rapaz volta munido de uma água de coco na qual ingere com um canudo rosa.

        O motorista não consegue tirar os olhos de Vega por um minuto sequer. Atlético de roupas pretas, luvas escuras, coturnos e cabelos escuros em um corte lateral, o esbelto e atraente homem, a princípio, parecia reprovar o Transmorfo com os olhos. Mas depois, silenciosamente o homem vai percorrendo suas vistas pelo corpo de Vega, o analisando de forma persistente como se começasse a gostar do que estava vendo. Vega utilizava uma camiseta de uma só manga e um elegante short meia coxa. Os sapatos, pareciam sofisticadas meias que simulavam perfeitamente uma espécie de bota futurista. Na camiseta, uma faixa branca ao meio e tonalidade vinho escuro no restante da peça. O short, abusava de um vermelho púrpura, enquanto os sapatos, deixavam claramente explícito o seu tom rosa fandango na sua totalidade. Na lateral de sua cintura, Vega improvisou uma pequena e discreta pochete branca, que para muitos é brega, mas caía perfeitamente no corpo do belíssimo Transmorfo.

        Nada parecia desalinhado, estranho ou risível em Vega. Apesar das roupas diferenciadas, nenhum detalhe desvalorizava de nenhuma forma o seu corpo ou seus traços delicados. Percebendo o flagrante olhar do homem, Vega emite uma quantidade cavalar de feromônios para tentar atraí-lo ainda mais. Sem mais do que beber de seu refresco, o mesmo aposta em um olhar para o motorista, que responde oferecendo um vidro de refrigerante. Apesar do rosto marrento, Vega rapidamente percebe as intenções do sujeito e aceita a sua gentileza, se aproximando para pegar a bebida de suas mãos.

[Vega]  "Valeu..."  [sorriso discreto].

[Homem]  "Tá esperando alguém?"  [curioso].

[Vega]  "Queria pegar um táxi, mas..."  [levantar de ombros]  "eu tô sem nenhum telefone e perdi minha identidade... tô só andando aqui por essas bandas mesmo... talvez eu tenha que arrumar algum lugar pra dormir."  [olhar sereno, encostado na parede].

[Homem]  "O que houve com seu telefone e identidade?"  [olhar fixo].

[Vega]  "Roubaram..."  [olha para o homem].

[Homem]  [Olha para baixo, pensa um pouco]  "Pra onde você tá indo?"  [levemente interessado].

[Vega]  [bebe um pouco]  "Nova York. Capital." 

[Homem]  "Vai a turismo?"  [curioso].

[Vega]  "Tô procurando um trabalho..."  [olha para o homem]  "saí de casa cedo..."

[Homem]  [balança a cabeça positivamente, olhando para baixo]  "... Eu iria te dizer pra usar o telefone da recepção lá atrás, mas... eu também vou pra Nova York..."  [olha para Vega].

[Vega]  "Sério?"  [internamente animado].

[Homem]  "Sim. Meu próximo destino é lá..."  [sinaliza].

[Vega]  [leve sorriso]  "Massa..."

[Homem]  "Se quiser ir..." — [olha pra frente, seguido para Vega]  "eu te levo lá. Só me falar..."  [confiante].

[Vega]  "Caramba..." — [discretamente feliz]  "valeu mesmo."  [pausa]  "Eu quero ir sim".

[Homem]  [balança a cabeça positivamente]  "Maravilha".

[Vega]  "Quanto você cobra pela carona?"  [encostado na parede de forma descontraída].

[Homem]  "De você não cobro nada... te levo de boa."  [acende um cigarro].

[Vega]  "..."  [sem graça]  "Tem certeza?... De que não precisa pagar...."  [receio].

[Homem]  "Não..."  [nega com a cabeça]  "não esquenta com isso não, guarda seu dinheiro." — [dá uma piscadela] — "Vai precisar."  [volta a fumar].

[Vega]  "Ok, você quem manda..."  [mãos nos bolsos].

[Homem]  [pausa]  "Tem pressa pra chegar lá?"  [olha para Vega].

[Vega]  [breve olhar de surpresa]  "Não...! Tô bem tranquilo. Aonde você for eu vou também..."  [confiante].

[Homem]  "Beleza, então..."  [satisfeito].

[Vega]  "...Hum..."  [bebe da garrafa, olhando em seguida para a mesma]  Isso aqui é muito bom... nunca havia provado algo assim..."  [levemente impressionado].

[Homem]  [surpreso]  "Nunca tomou pepsi antes?"  [encostado na parede].

[Vega]  "Nunca..."  [sereno].

[Homem]  "Rs...! Acho que vou acabar é te estragando..."  [expressão sarcástica].

[Vega]  "Provavelmente..."  [sorri].

[Homem]  "Como posso te chamar?"  [olhar confiante].

[Vega]  "Vega."  [olhar fraternal].

[Homem]  "Vega?"  [levemente admirado e olhar direcionado]  "Russel".

[Vega]  "Prazer, Russel."  [satisfação].

[Aperto de mãos].......................

[Russel]  "O prazer é meu."  [semblante de interesse].

        Ambos os recém colegas se entreolham por alguns segundos antes de se recostarem novamente à parede. Aproveitando os momentos de quietude e silêncio naquele espaçoso estacionamento, o tempo parece parar por longos minutos. Nenhum dos dois cúmplices precisaria dizer nada um para o outro. A conexão já estaria feita. O sinal já havia sido dado. Antes de se atraírem, por algum motivo, transmitiram confiança um para o outro. 


==================>>>>> 12h30. NOVA CARONA. ENTRADA NO VEÍCULO. SOL QUENTE COMO A MORTE. AMBIENTE DESÉRTICO.


        Portas se fecham. Ambos ajeitam os respectivos cintos de segurança e se encostam aos bancos. O novo caminhão em questão, apostava em cores voltadas ao azul-petróleo e seu painel era bem mais sofisticado. Não haviam luzes neon ou propagandas espalhadas pelo automóvel. No máximo, lâmpadas amarelas logo abaixo do chassi. Alguns detalhes amarelos como retrovisores e parte frontal da cabine marcavam o design do veículo. Vega parecia mais aliviado e de guarda baixa. Poderia gastar a maior parte do tempo para descansar e parando de um estabelecimento ao outro para comer e beber.

[Vega] — [analisa a cabine] — "Possante isso aqui..."

[Russel] — "Isso aqui é a linha DAF XF ACTROS... ela é quase toda feita de inteligência artificial e blindagem moderna. E o melhor, ele é movido todo à base de energia solar, elétrica e mecânica" — [aciona alguns comandos do veículo para colocá-lo no modo automático].

[Vega] — "Tem comandos de voz?" — [animado].

[Russel] — "Todos que você imaginar...'acionar apresentação'".

        Todos os mecanismos de dentro da cabine são acionados, desde o fechamento das janelas e cortinas laterais, até uma rádio conectada a saídas de som anexadas ao teto do veículo.

[Vega] — "Wow..." — [impressionado].

[Russel] — "Ok, vamos nessa...!" — [aciona um botão que cumpre a função de freio de mão, para desativá-lo].

[Vega] — [bebe o refrigerante e se sente à vontade para colocar o banco um pouco mais inclinado para trás].

        Russel apenas deixa o veículo programado para fazer o trabalho e abre um saquinho de aperitivos para aproveitar a tarde com seu novo passageiro. Os dois conversavam aleatoriedades, usavam o banheiro, escovavam os dentes, rondavam pela cabine e se deitavam nos bancos com revistas sobre seus rostos enquanto se distraíam com boas e variadas músicas e uma boa garrafa de café no percorrer da estrada. Alguns segundos transitavam conforme o veículo rodava. 10 minutos transitavam conforme o veículo rodava. 30 minutos. 01 hora. 02 horas e 20 minutos... Desse tempo, várias garrafas d'água, pacotes de carne desidratada e saquinhos de pipoca de todos os sabores foram gastos. Ainda assim, nada era o bastante para tirar a fome de Vega por completo. Nesse período, já haviam se passado três horas.

[Vega] — [mãos sob a cabeça, revista sobre o rosto] — "Vamos fazer uma parada?" — [olha para o homem].

[Russel] — [olha para o colega] — "Com fome?"

[Vega] - "Eu tô com um pouco de fome sim... eu comi bem pouco antes de vir..." — [olhar de frustração e manha, colocando uma das mãos no estômago].

[Russel] — "Caramba... parece eu no Ensino Médio. Vamos..." — [se levanta e tira o objeto do rosto] — preciso mesmo tomar um ar." — [pega ao volante] — "A próxima parada vai ser ali." — [aponta para uma lanchonete à frente].


===============>>>> 15h50 DA TARDE. LANCHONETE SPILT THE BEANS. LOCAL DESÉRTICO. SOL QUENTE.


        Ambos sentavam-se à mesa em uma sombra, fora do estabelecimento. Como Russel já havia terminado sua pequena refeição, só lhe restava observar Vega, que aos poucos, saboreava elegante e ferozmente um pedaço suculento de carne branca ao molho madeira com alguns legumes e batata inglesa. Já seria o seu terceiro prato que havia pedido desde que chegaram ao estabelecimento, além de 02 litros de refrigerante. Para não dizer ao seu cúmplice que não é só um depósito de porcarias, aproveitou para tomar um enorme copo de suco de laranja e colocar fatias de abacaxi adentro. Fora que ainda sequer foi contabilizada a água natural que iria pedir. Cada vez que o Transmorfo comia, seu estômago parecia uma fonte infinita e inesgotável de recepção de alimentos.

[Russel] — "Caramba, você come, hein?" — [impressionado].

[Vega] — [Limpa os lábios com um lenço umedecido] — "Isso aqui tá muito bom..." — [aponta para o prato] — "parece a comida da minha terra..." — [termina o resto de alimento] — "não havia comido tão bem até algumas semanas atrás." — [limpa as mãos e a boca novamente] — "Bem, acho que já estou alimentado pra daqui há dois dias..." — [sorriso de pamonha].

[Russel] — [espantado] — "Você tem um buraco no estômago, garoto..."

[Vega] — "Minha fome é leonina..." — [sorriso leve].

[Russel] — "Sabe que vai ter que pagar tudo isso, não sabe?" — [desconfiado].

[Vega] — "Sim, claro, eu contei o dinheiro." — [estende um dos braços para a garçonete]  "Não coma nada sem antes de checar a carteira, é o que sempre diziam lá em casa..."  [bebe a garrafa de refrigerante].

[Russel] — "Rrrs. Faz sentido." — [sorriso discreto]  "E parece que você não engorda nem um pouco..."  [olhar de admiração].

[Vega] — [lábios puxados para trás] - "Meu metabolismo é meio insano, sabe...?" — [sorriso sereno].

[Russel] — "Sei..." — [desconfiado] — "Então, bora pedir a conta?

[Vega] — "Bora. Já até pedi a minha."

...............Pausa.........

        O homem, apesar de seu inevitável apreço por Vega, nada tirava de sua cabeça que o garoto que estava à sua frente tinha algo fora da normal. Sem pensar muito e tentando tirar informações do Transmorfo, começa a sondá-lo de alguma forma. Vega, já tinha todas as respostas na ponta da língua.

[Russel] — "Me diz uma coisa..." — [expressão sutilmente maligna] — "você é um desses SH, não é?" — [curioso] — "Digo..." [piscar de olhos e surpresa] — "você não parece nem um pouco com uma pessoa comum..."

[Vega] — "Éh... me pegou..." — [virar de cabeça e sorriso de canto].

[Russel] — "Sabia..." — [aponta para frente e bebe um gole de água tônica engarrafada de vidro]  "pensei nisso desde a primeira vez que te vi. Eu via falar muito de SH's pela televisão, mas nunca tinha tido contato com um..."

[Vega] — "Éh... eu me sinto meio que um estranho no ninho no meio de pessoas com uma origem diferente da minha..."

[Russel] — "Em qual Estado você foi produzido?" - [curioso].

[Vega] — "Nevada..."

[Russel] — "Em qual Cidade?"

[Vega] — "Área 51..."

[Russel] — [surpreso] — "Na Base Aérea da Força Americana??"

[Vega] — "Esse mesmo..." — [levantar de ombros] — "pelo menos foi o que eu aprendi a vida toda..." — [sorriso tímido].

[Russel] — "E você pegou alguma carona ou veio à pé mesmo?" — [curioso e intrigado].

[Vega] — "Eu vim a pé na maior parte do percurso... mas peguei uma carona também..." — [breve desvio de olhar enquanto bebe o restante do refrigerante].

[Russel] — "Eles só te mandaram embora e..." — [jogar de mãos] — "ficou por isso mesmo?" — [antebraços encostados à mesa].

[Vega] — "Foi... eles disseram que com 18 anos eu iria embora de lá." — [esfrega os dedos em uma das mãos, com um semblante de preocupação] - "Então eles me deram uma parcela de dinheiro pra me virar até Nova York e me deram todas as instruções que eu precisava até pra arrumar um tutelar pra mim." — [leve olhar de incerteza e levantar de ombros] — "Eles nem fizeram muita questão de se despedirem, só me mandaram embora mesmo..."

[Russel] — "Éh... meio bruto e seco...." — [olhar de canto].

[Vega] — "Um pouco." — [olhar neutro, mas levemente desconfiado].

        Para não levantar suspeitas, Russel se priva de questionar Vega sobre seus documentos de identidade para fins de verificar se o rapaz estaria mentindo. Preferiu esperar o momento em que ele não desse atenção à sua mochila ou pochete para que pudesse espionar. Era um Super-Humano que estava na sua frente. Sabendo dessa informação, pesquisou pelo seu aparelho celular, através de uma câmera remota, se tinha algum tipo de arma de uso restrito para ameaças mais sofisticadas. Como Vega não é tolo, já estaria começando a suspeitar da desconfiança de seu carona. Já temeroso pelo que poderia acontecer, logo decide sugerir um jogo limpo com o homem antes.

[Vega] — [olhar de canto inferior, de decepção] - "Acha que estou mentindo?" — [olhar fixo para o homem].

[Russel] — [surpreso] — "Eu...?" - [guarda o celular, sem graça] — "Não, eu não achei isso, por que eu pensaria que está mentindo?"

[Vega] — "É que todo mundo que me vê pensa que eu sou algum tipo de golpista, presidiário ou trapaceiro..." — [breve balançar horizontal de cabeça e contração labial] — "não sei porque exatamente..." — [olhar tímido].

[Russel] — "..." — [olhar de estranhamento] — "Por quê? Você é, por acaso? "

[Vega] — "Bom, se eu fosse, eu não diria isso pra você, não é mesmo?" — [leve irritabilidade] — "Nem sequer pediria carona..." — [olhar para baixo]. 

[Russel] — "Não, não acho que você seja nenhum bandido..." — [nega com uma das mãos] — "Eu realmente não pensei isso de você em nenhum momento." — [sério] — "Se tivesse, jamais teria te dado carona...

[Vega] — "..." — [sem graça].

....................[Pausa]..........................

[Russel] — [tenta quebrar o gelo] — "Na verdade eu achei que você tivesse fugido do céu e não da prisão..." — [expressão confiante].

[Vega] — [exibindo um gradual sorriso] — "É mesmo, éh?"

[Russel] — "Você é algum tipo de enviado?" — [expressão levemente descontraída] — "Porque minha mãe dizia que se uma entidade fosse invocada, ela poderia aparecer..."

[Vega] — [risos, recostando-se à cadeira] — "Talvez eu seja e nem saiba..." — [levantar de ombros] — "você tem fé?"

[Russel] — "Tenho muita..." — [exibe um colar de prata com um símbolo religioso] — "desde pequeno."

[Vega] — "Olha..." — [balança a cabeça enquanto sorri].

        Mesmo depois do pequeno desconcerto, a situação se reverte e Vega cede um breve sorriso para o carona de forma bastante convincente, mas sem deixar a guarda baixa. Os dois cúmplices se encaram por um bom tempo. Sendo um fugitivo oficial, o seu balão poderia estourar a qualquer momento e qualquer pessoa por onde passasse, poderia ser sua potencial inimiga. Dessa forma, o Transmorfo mantém o homem sob sua vigilância e elabora em sua mente uma forma de conciliar a omissão de um crime com a sua transparência e honestidade. Não era possível esconder das três colombianas sobre seu desentendimento com Earl Cash, mas também não queria todos ao seu redor soubessem de seu segredo. É um dilema que iria enfrentar  durante vários anos. Para acalmar o clima tenso, o mesmo exibe um leve virar de cabeça com as palmas das mãos abertas:

[Vega] — "Bom, só não quero que fique desconfiado de mim..." — [sorriso descontraído].          

[Russel] — [risos e virar de cabeça] — "Relaxa, ninguém aqui tá desconfiado..." — [expressão de metidez].

[Vega] — "Ninguém? Mas só tem eu e você..." — [olha para os lados em tom de brincalhão].

[Russel] — "Rsrr....! Você é demais..." — [sorri, balançando a cabeça] — "eu é que não vou querer tomar um soco de você..." — [vira o rosto de lado, sorrindo].

[Vega] — [leve riso arrastado] - "Ah..." — [cabeça de lado] — "não sou tão arisco..."

        A garçonete chega até os dois rapazes entregar-lhes a conta para pagar. Vega pagou por 100 dólares a sua refeição. Parecia que tinha engolido uma roda de um caminhão, mas nenhum peso ou mal estar sentia. Já Russel, iria capotar a qualquer momento. Ambos se levantam da mesa em direção ao caminhão, e, já dentro do veículo, os dois se encostam nos seus respectivos bancos. Ainda digerindo, o homem parecia cansado da estrada e queria achar um Motel para se hospedar.

[Russel] — "Aí..." — [cutuca Vega] — "tô a fim de procurar um Motel mais próximo, eu tô arrebentado... se importa?" — [oferece gentilmente a palavra a Vega].

[Vega] — "Não, claro que não, podemos ir..." — [expressão serena].

[Russel] — [Esfrega os olhos] — "Vamos lá, dessa vez eu vou pegar no volante..." — [se ajeita ao assento e assume o veículo].

        Eram 16h27 da tarde. O sol começa a diminuir o seu ardor à medida que os minutos se passavam e a estrada perpassava como uma movimentação de um filme. A luz nos retrovisores reflete um belíssimo alaranjado, forte como o fogo, que bem rimava com a doce música retrowave que era transmitida pela rádio, simples e prática, mas ao mesmo tempo completa. Ao som de "Mitch Murder - Remember", as faixas amarelas do asfalto davam um tom quase esverdeado, harmonizando com o ambiente seco e o azul límpido celestial, já mesclado com o toque rosa e alaranjado daquele horário. Vega aprecia cada segundo daquele tempo. Das cores fortes. Do privilégio que tinha como existência. Parecia hipnotizado pelo panorama. O tempo naquele planeta onde foi parar passava de maneira muito rápida, muito efêmera. Até desesperadora para os pobres seres mortais daquela órbita. Aos poucos, o laranja e o rosa deram espaço a um vermelho cor de fogo e um verde-safira. A temperatura começa a cair rapidamente. O calor cede trégua e o frio começa, aos poucos, a assumir o seu lugar. Já eram 17h45 da tarde.


====================>>>>>>>>>> 17H45 DA TARDE. PÔR DO SOL. TEMPERATURA AMENA. MOTEL BOHEMIA.

        

        Para cada lateral daquela construção, havia luzes neon rosa meio avermelhado, que sempre que anoitecia, piscava de forma automática. A estrutura do Motel era plano, horizontal, com vários quartos, cada qual com seus aposentos. A placa do estabelecimento tinha uma palmeira e um golfinho como marca registrada. Algumas pessoas seminuas e com vestimentas estravagantes entravam e saíam dos quartos. Todas que por lá passavam, paravam para dormir por lá. Desde homens de terno, mulheres de jaleco, até faxineiras e dançarinos. Apesar de vindo de uma era recente, era costume pagar a diária antes de entrar em qualquer quarto. Caso o tempo de hospedagem fosse ultrapassado, o visitante era convidado a se retirar, o que muito provavelmente poderia lhe resultar em uma gentil remoção física. O estacionamento era espaçoso o suficiente para que veículos de todo o tipo de porte coubessem ali. 

        Os dois homens entram em um dos quartos e Russel joga as chaves no balcão estofado, os seus pertences, na cabeceira. Lançando-se direto à enorme cama queen size cujo colchão parecia um emaranhado de bolas macias ajuntadas, o homem se sente relaxado. Os lençóis, eram à base de seda sintética de cor cinza e a maior parte do cômodo tinha o vermelho rosado como aposta para recepcionar os visitantes, com um extravagante piso de granito verde escuro. Vega se estica, procurando um banheiro mais próximo antes de tomar banho.

[Russel]  [mãos sob a cabeça]  "Cama boa..."  [levanta-se para retirar as botas e as meias]  "vai tomar um banho?" - [olha em direção a Vega].

[Vega]  "Vou... só vou usar o banheiro bem rápido."  [entra no local].

[Russel]  "Ah..."  [pega o controle do balcão]  "vai querer assistir alguma coisa?"

[Vega]  "Eu?? Não por enquanto...!"  [responde de dentro do banheiro].

        Estranhamente, os quartos daquele Motel mantinham os vasos sanitários e pias totalmente separadas do chuveiro propriamente dito. Este, ficava fora do espaço de onde geralmente costuma ser anexado em outras construções habitacionais. O chuveiro era aquecido, moderno, bem elaborado, e da sua fonte, eram transmitidas luzes multicoloridas que deixavam a água corrente em diversas tonalidades. Ao redor do chuveiro, uma plataforma arredondada o circundava, e as cortinas eram quase transparentes. Por ironia do destino, bem em frente ao estranho chuveiro, uma linda e singela janelinha foi deixada um pouco mais acima, na posição exata por onde entrava a luz do sol, o que dava um bonito toque ao estranho quarto. Junto à mangueira metálica, um pequeno depósito por onde era posto o sabonete em barra. Russel não encontra nada de bom para assistir na televisão e de depara com dois óculos de realidade virtual bem ao seu lado direito, conectado a dois tablets.

[Vega]  "Russel!"

[Russel]  "Diga!"

[Vega]  "Teria como manter as luzes apagadas? Quero aproveitar o pôr do sol..."

[Russel]  [estranha um pouco, mas se conforma]  "Tá bem!"  [pressiona os interruptores].

[Vega]  "Que estranho! O banheiro não tem chuveiro, somente fora!"

[Russel]  "É, eu percebi!"  [olha em direção ao toalete].

        Após alguns minutos, o Transmorfo deixa o toalete e sem a menor cerimônia, retira calmamente as peças de suas roupas os colocando em cima de uma cadeira, atraindo a atenção de seu colega. Vega, pensando estar causando algum incômodo ao homem, o indaga.

[Vega]  "Se importa se eu ficar sem roupa?"  [olha para o homem].

[Russel]  "Não, nem um pouco..."  [nega com a cabeça e mostra discrição olhando para o outro lado].

        O rapaz termina de retirar todas as peças da sua vestimenta uma a uma e fecha as cortinas. Apreciando a escuridão e o silêncio, liga o chuveiro e se molha por inteiro da cabeça até os pés. Ensaboando-se lentamente, a forte luz do sol brilhava sobre a pele do Transmorfo e fumaça era levantada pelo calor da água corrente. Eram 70 graus de temperatura, mas bastante relaxantes para Vega. A fineza dos traços de luzes laranjadas dançavam sobre a silhueta do rapaz, que não deixava de atrair os olhos do motorista sentado logo à lateral da cama. Mesmo as cortinas não eram o suficiente para cobrir o corpo do rapaz. De costas para Russel, Vega chama a atenção do homem especialmente pelas suas nádegas, absolutamente bem desenhadas. 

        O cúmplice aprecia em silêncio cada pedaço do corpo do amigo. Logo ao lado, uma almofada preta com uma forma firme e arredondada estava disponível para ser utilizada como um enfeite para a cama. Russel começa a alisar almofada com os dedos de uma das suas mãos. À medida que Russel deslizava os olhos em Vega, mais apertava o travesseiro com vigor enquanto olhava fixamente para a bunda do rapaz, que sequer desconfiava que estava sendo comido com os olhos. Vega limpa toda a espuma de seu corpo e passa para os cabelos, ensaboando-os com um shampoo de tonalidade preta, algo disponibilizado pela casa. O homem se mostra cada vez mais deliciado com o corpo de seu cúmplice e vira o rosto para os lados, pensando em se aproximar do rapaz de relance. Excitado, o homem respira fundo enquanto olha para cima e acaba por sair do quarto para dar uma volta ao redor do pátio do Motel, a fim de esfriar seu sangue.

-------------[Barulho de porta de fechando]-------------


[Vega]  [olha para trás]  "...Russel?"  [confuso].

        O quarto estava vazio, mas com as chaves e pertences do homem ainda em cima da cabeceira.

[Vega]  "Pff! Que estranho..."  [volta a se lavar].


[30 MINUTOS DEPOIS]....................


        Russel retorna para o quarto depois de uma caminhada pelo pátio e nota que Vega já estava pronto para dormir. Suas roupas estavam dobradas em cima da cabeceira em sua lateral e estava vestido apenas com um longo roupão de botões branco. Coberto pela metade pelo lençol de seda, o Transmorfo estava com os óculos RV em seu rosto, que também englobava as orelhas para promover uma maior experiência de imersão. De braços estendidos, Vega parecia começar a dormir. Russel decide aproveitar para tomar um banho e pegar suas roupas de dormir. De camisa regata e calção, o homem aproveita para também pegar os óculos e se ajeitar ao colchão para relaxar. 

        Era muito cedo para dormir, mas Russel não tinha muito horário certo para tal. Vivia viajando de cidade em cidade, sem parar, sem um minuto de folga. Quando tem uma trégua, dorme pouco. Como a conexão entre aparelhos eram intercambiáveis e de acesso remoto aberto ao público, Russel estava curioso para ver o que seu colega estaria assistindo. Fez os comandos necessários para permitir que o vídeo de seu colega de quarto fosse acessado. Para a decepção de Russel, eram apenas um monte de imagens circulantes, azuis escuras e amarelas, na qual uma música relaxante tocava logo ao fundo à medida que as imagens se movimentavam. Russel suspira e decide cancelar o acesso remoto, retirando a máscara por alguns segundos enquanto coçava a cabeça. Como não tinha nada para fazer, e tão pouco, Vega estaria "disponível", decide então recolocar a máscara e procurar algum filme para se entreter.


=================>>>> 02H10 DA MADRUGADA. NOITE GÉLIDA. MOTEL BOHEMIA. 16 DE JULHO DE 8.850 D.Z.


        Vega, já sem os óculos e dormindo em posição lateral, acaba sendo acordado por um ruído de alguns quilômetros de distância. Russel ainda estava em sono profundo. O Transmorfo, preocupado, sai de sua cama e vai até a porta, abrindo-a gradualmente para certificar o que era. Como era intuitivo, Vega no fundo previa alguma anormalidade. Verificou o estacionamento e ambos os lados esquerdo e direito de onde estava. Tudo limpo. Em silêncio. Resolve lentamente sair para o exterior e fechar a porta sem fazer barulho. Com sua visão aguçada, o rapaz vasculha todo o perímetro da região do Motel, desde a lateral do estacionamento até a ponta do outro lado do local onde estava a recepção e a vigilância. 

        Nada estava ali perto até Vega detectar algumas luzes piscantes vindo da estrada, que pareciam ser de dois veículos pretos. Vega aumenta a resolução de sua vista e percebe pelo menos uns 05 homens saindo de cada um dos veículos. Todos com armamento pesado. Nas suas roupas, alguns vinham uniformizados com a empresa da DRISCO, vestidos com um colete de motociclista por cima das roupas. O Transmorfo analisa atentamente as armas de um dos homens de longos cabelos alaranjados e de barba cavanhaque. Para anarquizar, o homem atira para cima com um fuzil de assalto de origem desconhecida a fim de causar terrorismo na região. Vega porém, reconhece a arma na qual foram feitos os disparos pelas características de suas balas, e pela discrição de seus sons. A arma era branca e violeta, marca expressiva do País onde viveu.

[Vega] — [expressão de medo] — "É arma restrita... Merda...!" — [olhos de alerta].

        Um dos homens, mesmo relativamente distante de onde Vega estava, aponta seu braço para o Transmorfo, que percebendo que poderia ser o principal alvo dos membros da DRISCO, corre rapidamente para dentro do quarto do Motel como um coelho desesperado foge para longe de seu predador. Abrindo a porta apressadamente e fechando-a sem fazer barulho, Vega acorda Russel balançando suavemente os seus ombros, já aflito.

[Vega] — "Russel...!" — [boca entreaberta, agoniado].

[Russel] — [acordando ainda cansado, esfrega as mãos nos olhos e brevemente de espreguiça] — "...Hum... quê que foi? ... O que houve??" — [preocupado].

[Vega] — "Tem uns assaltantes armados lá fora e eles estão vindo pra cá, é melhor a gente sair daqui..." — [aflito].

[Russel] — "O quê??" — [espantado].

        Em alerta, o homem sai rapidamente da cama, veste sua calça e vai até à janela verificar o ambiente externo. Russel detecta os 10 homens armados e os reconhece, ficando apreensivo. Os outros hóspedes, também com medo, podiam ser ouvidos pelas paredes do quarto, desesperados para se esconderem. Fora dos quartos, a recepcionista já estava escondida embaixo da bancada ligando para a polícia. O vigilante do Motel, aproveita para apagar as luzes de onde estava e se camuflar escondido para pegar algum bandido de surpresa. Este, estava munido de um rifle M16A2 e precisaria se concentrar na movimentação dos homens.

[Russel] — [balança a cabeça negativamente] — "DRISCO e suas crias... parece uma seita." — [expressão séria].

[Vega] — [olha para os lados] —  "Dá tempo da gente se trocar e pegar a estrada?? O de cabelo ruivo tem uma arma restrita..." — [nervoso].

[Russel] — "Shh! Calma...! Ainda não."  [aponta a palma da mão para Vega e acompanha os passos dos marginais].

        Russel espera para ver aonde os homens iriam se deslocar. 05 deles se espalharam para o lado direito, o restante para o esquerdo. Vega aproveita o curto tempo para vestir pelo menos a sua peça íntima e guardar seus pertences na mochila. Russel gradualmente caminha até a sua mochila para pegar a sua arma de fogo, uma UZI de 40 centímetros de comprimento. O homem equipa a arma com um silenciador, e, chegando o rosto próximo de Vega, que estava agoniado, tenta acalmá-lo cedendo algumas instruções.

[Russel] — "Mantenha a calma e NÃO coloque os sapatos, ouviu??" — [sussurra, com os dedos de uma das mãos no colchão] — "Nós vamos sair juntos e você vai me seguir até o caminhão, entendido? O homem que você falou está indo pro pátio. Finja que você é um garoto de programa e haja discretamente..."

[Vega] — [tem seus lábios gentilmente cerrados com os dois dedos do homem antes que dissesse algo].

[Russel] — "Não dá tempo." — [fala séria e pausada] — "Pegue suas coisas e vamos zarpar daqui, já." — [transmite expressão de confiança].

[Vega] — "Eu te dou cobertura enquanto você usa a arma." - [olhar fixo].

[Russel] — "Pode ser... vamos..." — [sinaliza com uma das mãos].

        Russel foi à frente, Vega, atrás. Um de roupão, e o outro de camisa regata e calça jeans preta. Em uma das mãos do Transmorfo, estava a arma de fogo de Titane Katley, como uma precaução para qualquer ataque. Vega daria cobertura para Russel, que não tinha colete à prova de balas, e portanto, seria útil para protegê-lo. Ambos já fora do quarto, caminham próximos às paredes dos corredores a passos de algodão. Vega era ambidestro, dessa forma, não haveria problemas em manusear a arma de fogo. Verificando todos os lados possíveis, Vega tenta localizar o homem munido da arma restrita enquanto segura o seu revólver.

[Russel] — "Me dá sua mão..." — [tom baixo].

        Vega cede uma mão para o colega. Mal sabiam eles que o vigilante do Motel estava muito bem armado e esperando o momento certo para atirar. A polícia já tinha sido acionada e os hóspedes do Motel já estavam apavorados em silêncio, todos escondidos debaixo das camas ou nos banheiros. Juntos às paredes dos corredores do ambiente externo, os rapazes alcançam a metade do estabelecimento que dava a entrada até o pátio. Sendo uma das pouquíssimas luzes acesas daquele local e com acesso público ao seu interruptor, Russel verifica gradualmente se algum dos invasores estavam à vista para prosseguir. Vega, olha para trás para certificar de qualquer ameaça. 

        Russel sorrateiramente apaga a luz do poste principal do Motel e o ambiente fica totalmente escuro. Ato contínuo, um dois dos marginais aparecem logo alguns metros atrás de Vega e Russel, mais afastados do estacionamento. Como o roupão tinha um capuz, Vega tratou de cobrir sua cabeça para evitar ser notado. O local estava muito escuro e Russel e Vega foram mais para a frente, onde havia uma pequena vegetação que os podia camuflar. Os marginais que estavam no pátio passam reto por Vega e Russel sem notarem a presença dos dois. Russel sinaliza para o amigo para qual trajeto irão percorrer, dando prioridade às sombras. Vega concorda tacitamente e segue o cúmplice pela pequena vegetação até o canto superior do estacionamento, onde havia mais ausência de luz.

        Vega queria por tudo encontrar o homem ruivo, pois sua neutralização seria o passaporte para entrar em combate corpo a corpo com os outros 09 delinquentes. Por sorte, os dois fugitivos encontram uma entrada vertical cercada por uma barreira de concreto reforçado, que daria um esconderijo temporário para os dois. Ambos expõem parcialmente suas cabeças para fora para verificarem o ambiente. Havia 06 homens espalhados pelo estacionamento e começaram a vandalizarem os veículos, gritando pela procura de um inimigo que tinham como alvo em suas listas negras.

        "Cadê você, seu safado!!" — [efetua três disparos para cima]  "Não vai escapar por muito tempo, seu moleque!!", "Mostra a sua cara, boneca!!" — [quebra os vidros de três carros diferentes com a parte traseira da arma de fogo]. As provocações começam a ficar ainda mais intensas e Russel precisa alcançar seu veículo junto a Vega para fugirem do local. Nesse momento, Vega se depara com o homem ruivo, logo atrás da entrada até o pátio do Motel. Ele estava sozinho. Vega começa a se coçar para se aproximar do homem distraído e abatê-lo por trás.

[Vega] - "Russel, achei o homem com a arma restrita..." — [sussurra baixo e com lábios de canto].

        Russel olha para o homem ruivo e percebe que ele está isolado.

[Russel] — [se aproxima de Vega, com uma das mãos ao lado da boca] — "Vamos fazer o seguinte: eu vou me esconder atrás das plantas do pátio e vigiar os passos do ruivo barbudo..." — [olha para os lados] — "quando eu der o sinal, você vai distrair os arrombados de alguma forma para correrem atrás de você. Pegue." — [entrega o token do caminhão para Vega] —  "Acione o destravamento antes de distrair os caras para que eu possa entrar no caminhão, entendido?"

[Vega] — [concorda tacitamente].

[Russel] — "Não se preocupe com o ruivo, eu cuido dele..." — [expressão séria].

[Vega] — "Ok..." — [balança a cabeça]

[Russel] — "Pronto?" — [posicionado, com a arma em punho].

[Vega] — "Pronto." — [confiante].

        Russel deixa sua mochila no chão e segue o plano combinado com Vega, seguindo sorrateiramente a trilha vertical cercada até chegar ao pátio, por onde se escondeu detrás dos "murinhos" onde ficavam as plantas do Motel. Russel cede um sinal para Vega com um ponto de luz vermelho de sua caneta, mirado em seu roupão. Chegou a hora.

.............Silêncio........... 

        Vega tira a mochila de suas costas, deixa-a ao lado da entrada e se aproxima a passos largos até o meio do estacionamento de forma imperativa, se posicionando logo em frente aos 09 homens espalhados por todo o perímetro. Aciona o destravamento das portas do veículo e encara o vândalo que estava à sua frente.

[Vega] — "HEY, SEU BUNDA MOLE!" — [provoca, com expressão de raiva].

[Homem] — [olhar de raiva] — "???"

[T I R O   D E   R E V Ó L V E R   N O   J O E L H O].........

[Homem] — "AAAAHHH! Seu merdinha desgraçado!" — [desequilibra-se ao chão, efetuando três disparos contra Vega].

        Com os tiros derrubando a arma das mãos de Vega, mas não surtindo efeito no corpo do Transmorfo, Vega parte em retirada, fazendo com que os outros 06 marginais o persigam em direção à estrada mais afastada do Motel. Os outros dois que ficaram se guiaram juntos até atrás do caminhão de Russel, com um carregando o companheiro ferido pelo braço, armados até os dentes. Ato contínuo, o homem ruivo entra em estado de alerta e antes que pudesse fugir do pátio, Russel surge de seu esconderijo e dispara um tiro pelas costas da vítima, acertando-o bem no meio da cabeça. O homem morre na mesma hora e cai em cima de sua arma, inundando o piso de sangue. 

        Russel tenta rapidamente tirar a arma debaixo do homem morto, mas é surpreendido por um dos marginais armados mirando o revólver em sua direção, fazendo-o realizar vários disparos contra o invasor por impulso e se escondendo de volta por detrás das paredes do pátio, próximo à parte lateral direita da região por onde tinha mais plantas. Mal sabia ele que o homem que tinha supostamente acabado de derrubar, havia recebido um disparo na cabeça pelo vigilante armado do Motel. Os outros hóspedes, aflitos e com medo, trancavam as portas de todas as maneiras para se protegerem e rezavam para que a polícia chegasse rápido. A recepcionista continuava escondida tentando se comunicar com alguém por uma rádio. Russel coloca a cabeça para um pouco fora das paredes e percebe que o homem com o joelho ferido estava próximo ao seu caminhão.

        Vega vencia os 06 homens pelo cansaço, e a corrida não parecida não lhe causar qualquer esgotamento. Recebendo um tiro após o outro, dá a volta pelo caminho de volta ao Motel enquanto improvisa com um Belo dedo do meio para os seus perseguidores.

[Vega] — "VENHAM PEGAR ISSO AQUI!" — [faz o gesto obsceno, olhando para trás].

[Homem 02] — "SUA BICHA FILHA DA PUTA!!" — [ofegante e furioso].

        Já retornando em direção ao veículo, Vega rapidamente pega a sua mochila e corre até sua arma que estava no chão, pegando-a velozmente para que pudesse intimidar os 06 homens atrás dele. Virando-se para trás, o rapaz acerta três dos seus carrascos em regiões não letais para afastá-los, desarmando um deles. Nesse momento, alguns dos seus documentos que estavam na sua bolsa rosa caem no asfalto.

[Vega] — "Para trás!!" — [imperativo].

[Homem Ferido] — "Ele é um SH! Foca no motorista atrás do pátio!!" — [expressão de raiva].

[Vega] — "Não, Russel...!" — [sobressalto].

        Sob expressão de ódio para o homem, efetua um disparo certeiro em seu ombro como punição.

[Homem Ferido] — "Ohhww...!!" — [geme de dor e vai ao chão].

[Vega] — "Desgraçado..." — [olha de volta para frente].

        Russel estava apreensivo, pois já era para ele ter retirado a arma debaixo do corpo do homem que abateu, e como o homem era pesado, era difícil retirar o objeto. O motorista então vai até o corpo do ruivo e aparece de relance para os marginais que estavam fingindo se afastar de Vega para armar uma emboscada para Russel. Percebendo que Russel, na verdade, estava de conluio com Vega, um dos delinquentes desarmado sorri ofegante para o Transmorfo, virando o rosto logo em seguida para os dois homens intactos logo atrás para dar o sinal de ataque. Russel seria a isca e a arma restrita, o prêmio. 

        Vega percebe a manobra, e ato contínuo, corre freneticamente atrás dos dois homens que estavam atrás de Russel, dando um coice em um dos membros da gangue que estava em sua frente. Numa disputa acirrada para não deixar seu amigo vulnerável, Vega puxa os dois homens ao mesmo tempo pelas suas roupas e colide a cabeça dos dois um contra o outro, deixando-os apagados. Logo após neutralizar os dois marginais, o homem a quem Vega tinha dando um golpe para tirá-lo de sua frente, o surpreende com uma pistola tecnológica de uso restrito, mirado para a sua cabeça. Uma cama de gato havia sido montada para o Transmorfo. Antes que pudesse esboçar algum sorriso, Russel e o vigilante disparam simultaneamente um tiro na cabeça do homem, que cai desfalecido no chão com o crânio partido em milhares de pedaços. Vega cai sentado ao piso devido ao espanto causado pelos disparos.

[Vigilante] — [balança a cabeça negativamente] — "Poxa, filho... podia ter deixado esse pra mim..." — [murmura].

        Assustado e abrandado ao mesmo tempo, Vega se levanta e olha para Russel aliviado por ter sido salvo de um mal maior. O sangue do agressor havia respingado em seu rosto aflito.

[Russel] — "Tudo bem?" — [olhar de acolhimento].

[Vega] — [balança a cabeça positivamente].

        Russel finalmente percebe o vigilante dentro da pequena guarita metálica acima de alguns degraus de escada e descobre que era ele que o estava ajudando. Acenando positivamente em sinal de agradecimento, recebe de volta a sinalização amistosa do homem, seguido de um abraço em Vega. Ambos respiram aliviados. Vega intercepta as duas armas de uso restrito para levar para o caminhão, mas prefere manusear a pistola.

.

.

.

          ................. Barulhos de morcegos.... Luzes de postes acesas. Noite púrpura. Silêncio.....


[Homem 03] — "Anda, vamos dar o pé daqui, tô sem munição...!" — [agitado].

[Homem 04] — "Anda, porra, entrem no carro...!" — [agoniado].

[Homem 05] — "Cacete...!"

        Os três bandidos que restaram, partiram em direção aos veículos escuros para baterem em retirada depois da humilhante derrota contra dois indivíduos e um vigilante. Antes que começassem a se aproximar dos automóveis, um dos carros é atingido por um disparo pela mesma AR que foi interceptada pelo motorista, na qual faz o objeto literalmente explodir em milhões de pedaços e gerar uma grande bola de fogo que repele os três homens para alguns metros de distância. Incrédulos, os três remanescentes observam o cenário que mais parecia a de uma celebração com fogos de artifício do dia 04 de julho. Logo atrás, Vega, segurando a pistola com o roupão cheio de furados e a cara parcialmente ensanguentada. Sua expressão não era de muitos amigos.

[Vega] — "Seu veículo pelos outros." — [aponta com a cabeça para os carros particulares vandalizados] — "Uma troca justa." — [frieza].

        Os três homens encaram Vega ao mesmo tempo e se levantam para definitivamente fugir dali pelo único veículo que lhes restavam. Os vigaristas rapidamente fecham todas as portas do automóvel e cantam pneu pela estrada, empreendendo o máximo de velocidade para fora dali. Um dos membros da gangue aproveita para afrontar Vega.

[Homem 04] — "Você matou um dos nossos, tá ouvindo?? Você vai pagar CARO pelo que fez, SUA BICHA ASSASSINA!!" — [fala em alto e bom tom, com as duas mãos na lateral de sua boina].

        O carro desaparece na estrada.

[Russel] — [correndo até Vega] — "...Bicha assassina?" — [estranhamento].

[Vega] — "Depois eu explico... vamos embora. — [feição séria].

        Russel ajeita sua mochila e verifica sua arma.

[Vega] — "Pegou suas coisas?" — [olha para o homem].

[Russel] — "Peguei tudo. Vamos logo antes que a polícia chegue..."

        Vega e Russel caminha em direção ao caminhão por onde estava o homem lesionado, aparentemente rendido, mas ainda armado.

[Vega] — "Fique atrás de mim. O cara ali ainda tá com arma..." — [fita Russel].

[Russel] — "Beleza..." — [deixa Vega ir na frente].

        Ao chegarem mais próximo ao veículo, o homem, já ferido no joelho e no ombro, tenta surpreender o Transmorfo mirando a arma rumo em direção para Russel. Ainda assim, Vega atira na mão do homem na mesma hora, fazendo-o soltá-la no chão, deixando à mostra a sua mão completamente retalhada.

[Homem Ferido] — "Aaaahhhhhh!! Desgraçaaaa....!" — [agoniza].

        Ambos, Vega e Russel, entram no caminhão e fecham as duas portas do veículo. Colocam as armas e as mochilas para trás dos bancos e o automóvel é acionado. O token, é colocado entre os bancos passageiro e motorista.

[Vega] — "Pisa fundo..." — [fita Russel].

[Russel] — "..." — [acelera o caminhão para longe do Motel].

.

.

. [LUZES COMEÇAM A PISCAR. SONS DE SIRENE COMEÇAM A TOCAR].


........................

        O som da estrada era a única coisa que ecoava naquela madrugada. Não havia música, luzes ou qualquer interação entre os dois passageiros. Vega sequer havia limpado o próprio rosto ou trocado seu roupão furado e havia uma certa apatia nos seus olhos. Russel, apesar de sua calma, já vinha tendo uma desconfiança em relação a Vega que despertaria uma insatisfação escalonada desde o momento em que pararam na lanchonete. Enquanto dirigia, o homem mexia no seu próprio celular repetidas vezes, resultando em um breve semblante de decepção. Percebendo a apatia do rapaz, o homem cede alguns panos umedecidos para que Vega pudesse se limpar. O Transmorfo pega o produto sem dizer nada. Os dois permaneceram calados por pelo menos uma hora.


======================>>>>>>> 03H15 DA MADRUGADA. BEIRA DE ESTRADA. POUCAS LUZES. CAMINHÃO ESTACIONADO. PAUSA PARA SE ALONGAR E FUMAR.

        Só havia um único poste iluminado para aquele pequeno espaço de asfalto escuro e de faixas brilhantes. Os dois passageiros aproveitam para tomar um ar puro fora do veículo para se desintoxicarem da adrenalina que passaram. Vega se encosta na lateral do veículo enquanto o homem faz uma pausa para fumar. O Transmorfo parecia não parar de cavar em sua bolsa de nenhuma forma. 

[Russel] — [fuma um cigarro de costas].

[Vega] — [vasculha sua mochila rosa] — "Droga...!" — [aflito].

[Russel] — [olha para trás] — "Que foi?"

[Vega] — [suspira e fecha brevemente os olhos] — "Nada... perdi umas coisas..." — [triste, encosta na parede do veículo].

[Russel] — [retira o cigarro] — "Você quis dizer isso aqui?" — [saca os documentos legítimos de Vega e o de Stanley Ipkiss].

        Momentos antes em que retornavam para o veículo, Vega não havia percebido que seus documentos haviam despencado de sua complexa bolsa, que agora já havia perdido a tonalidade amarela. Sendo assim, Russel prontamente os interceptou para si e os guardou em seu bolso. Como eram objetos de material sofisticado, raramente emitiam algum som quando colidiam ao chão. Somente o crachá poderia fazer barulho quando estatelava-se. Somente depois, Vega descobriu que seu carona estaria colocando algo em seu bolso.

[Vega] — [surpreso e levemente constrangido] — "Como..." 

[Russel] — "O que é isso Vega?" — [sério e desconfiado].

[Vega] - "Russel... eu vou te contar..." — [feição de leve frustração].

[Russel] — "Que documento rosa é esse com a sua foto?" — [inquisitivo].

[Vega] — "Olha, eu sei que é loucura, mas..." — [tenta explicar].

[Russel] — "E o que o crachá desse tal de Stanley Ipkiss estava fazendo nas suas coisas?" — [impaciente e imperativo].

[Vega] — "Você quer deixar eu terminar de falar?? Não é o que parece, tá legal??" — [impaciente, mãos paralelas uma à outra].

[Russel] — "Não é o que parece?? Então parece o quê?? O que mais você tem na sua bolsa, o telefone que te roubaram??" — [revolta].

[Vega] — [fecha os olhos e balança a cabeça negativamente] - "Russel... deixa eu me explicar..." — [olhar de decepção].

[Russel] — "Explicação de quê? Até agora a pouco você falou que não tinha documento, e agora aparece isso na sua bolsa??" — [exibe os documentos] — "Quem garante que o dinheiro também é seu??" — [braços estendidos e indignação em sua face].

[Vega] — "Russel, chega...!" — [semblante triste].

        Enquanto discutiam, os dois cúmplices caminhavam em movimento circular em sentido anti-horário, mudando a posição dos dois em relação ao veículo. Vega mantinha as mãos na cabeça, já quase à beira de um surto pelo julgamento de Russel, que estava cada vez mais desconfiado do rapaz.

[Russel] — "Perguntou pra mim naquela hora se eu achava que você estava mentindo pra me distrair, não foi isso?? Não foi??"  [dedo indicador à esquerda]  "Você não queria que eu procurasse nada sobre você...!"  [cada vez mais impaciente].

[Vega] — "Russel..." — [triste, balançar de cabeça].

[Russel] — "O que aqueles caras sabiam sobre você??" — [leve agitação].

[Vega] — "Eles não sabiam nada sobre mim, Russel!" — [indignado e triste].

[Russel] — "Ah, não sabiam?? Então me dá sua mochila, anda! Eu quero ver o que mais você tá escondendo de mim!" — [estende um dos braços para pegar o objeto de Vega].

[Vega] — [retém bruscamente a mochila] — "Não, eu não tenho nada pra esconder na minha bolsa, Russel!"

[Russel] — "Então o que é isso Vega?!" — [impaciente, mirando para as provas em mãos] — "Hãm?!"  "Por que raios eu não achei NADA sobre você nos sites governamentais??"  [leve movimento em círculos dos dois braços].

[Vega] — "..." — [emputecido].

[Russel] — "Não vai falar??" — [indignado] — "... Só falta agora eu descobrir que nem o seu nome é verdadeiro, nada seu é verdade!" — [feição de indignação].

        Vega subitamente empurra Russel com uma mão em seu rosto contra a parede do veículo, a fim de silenciar o homem. Os documentos caem das mãos do motorista devido ao movimento brusco do Transmorfo. Enfurecido e tampando fortemente sua boca, Vega finalmente realiza sua catarse:

[Vega] — [expressão de ódio] — "O 'documento rosa' é a MINHA verdadeira identidade, o meu nome É verdadeiro! NÃO estou indo pra Nova York pra procurar trabalho, mas SIM, por um familiar que PERDI! E eu só usei a PORRA do crachá do Staley Ipkiss porque o seu colega lá atrás...!! — [ressalta com dedo polegar para trás] — "Tentou me estuprar com uma ARMA que eu sequer sabia a origem APONTADA na minha cara! E que por isso, eu ACIDENTALMENTE acabei matando ele com um SOCO!!" — [solta Russel, que fica assustado com a reação de Vega].

[Vega] — "E eu não fui produzido em laboratório... satisfeito agora??" — [olhar de raiva].

[Russel] — [coloca a mão em seu rosto, já assustado] — "Olha, você me machucou..." 

[Vega] — "Desculpe se eu te machuquei, mas eu precisava falar a verdade...!" — [braços estendidos].

[Russel] — "... Então foi por isso que a gangue da DRISCO foi atrás de você...."

[Vega] — [balança o rosto] — "Isso... à essa altura, você já deve estar sabendo do caso Cash..."

[Russel] — "... Conheço o Cash..." — [tom de voz baixo, sério e desconfiado].

[Vega] — "Então? ...." — [levantar de ombros] — "Ainda acha que eu tô mentindo?" — [melancolia].

[Russel] - "Me conte melhor esse lance do laboratório..."

[Vega] — "O lance do laboratório é bullshit... aquilo nunca existiu, nem aqui e nem no espaço..." — [semblante sério].

[Russel] — "Mas o governo diz que..." — [interrompido].

[Vega] — "Que os Super-Humanos foram criados do nada como experimentos científicos em laboratórios e depois inseridos em sociedade de forma aleatória?" — [cara de desdém] — "Você ainda acredita nessa palhaçada?" — [olha para Russel].

[Russel] — "Bom, se você sabe tanto, então de onde eles vieram? Quem os fez?" — [sério].

[Vega] — "Ninguém!" — [olhar neutro e apático] — "Eles foram expulsos do planeta onde viviam, e eu sou de lá..." — [aponta para si].

[Russel] — [espantado e confuso].

[Vega] — "Não é piada, não é mentira, não é conspiração. BIOTH existe e fica na Galáxia de Andrômeda. Os humanos foram lá uma vez e acabaram permanecendo no planeta. Ficaram presos. Aliás, nós aprendemos o inglês por causa deles..." — [olhar de honestidade].

[Russel] — [em leve choque].

[Vega] — "Se você já ouviu falar de Joseph Richard Prisley, vai entender o que eu estou dizendo..."

[Russel] — "O livro de Joseph R. Priesley é de ficção científica..." — [tom de voz confusa e temerosa].

[Vega] — "Não é." — [nega com a cabeça] — "É real. Inclusive o Cash sabia, não sei como," — [balançar de ombros] — "que o dinheiro da minha carteira era moeda vandoriana."

[Russel] — "..." — [pausa] — "E o que tem nesse documento?" — [referindo-se ao documento rosado].

        Vega calmamente pega os documentos que estavam no chão e saca de sua mochila, um finíssimo aparelho telefônico de origem desconhecida. Na frente de Russel, Vega liga o telefone e o entrega para o homem, que fica espantado com o design e as configurações do aparelho. O homem descobre fotos de lugares que nunca viu, textos com um alfabeto fora de sua familiaridade e mecanismos de interação totalmente alheios ao que o mesmo conhecia antes. Símbolos e logotipos era completamente estranhos para o motorista. Os pontos foram se ligando e o boato conspiratório que tanto se espalhava começava a fazer sentido.

[Russel] — "Rs!" — [balança a cabeça negativamente, sorrindo de incredulidade].

        Em uma de suas pesquisas no aparelho, Russel descobre a foto de Vega com um de seus primos. O homem percebe que Vega tinha os olhos amarelos e a sua forma era feminina, de cor de pele escura. Na outra foto, Vega já era branco, na sua forma masculina e de olhos violeta, cabelos de cor canelado. Passando por um dos aplicativos que parecia ser de mensagens, Russel roda um dos arquivos que aparentava ser de um áudio. Era a mensagem de seu pai para com Vega. Russel salta os olhos ao escutar a fala desconhecida. Olhando de volta para o Transmorfo, o motorista fica ainda mais bestificado.

[Vega] — "Isso que você acabou de ouvir é a minha língua natal..." — [expressa na sua língua materna].

        O homem chega a uma conclusão.

[Russel] — "Você não é daqui...." — [assustado].

[Vega] — [nega suavemente] — "Definitivamente não..."

        Russel, boquiaberto, já não sabia mais como reagir a tantas provas contundentes que explodiam em suas mãos. Boquiaberto e estupefato, o homem se encosta à parede do veículo para respirar e raciocinar um pouco. Com uma das mãos cobrindo seus olhos e deslizando-a em sua face, o homem olha para baixo e faz um pedido a Vega.

[Russel] — "Mude de cor..." — [olha fixamente para Vega].

[Vega] — "..." — [muda a cor de sua pele, cabelos e olhos].

        O homem quase deixa o aparelho telefônico ser despejado ao chão ao se deparar no que estava vendo em sua frente. Vega, durante sua demonstração, havia deixado a sua pele clara, os cabelos em tom de pêssego e os olhos azuis celestiais. O homem senta gradualmente de nádegas ao asfalto. Enquanto estava atordoado com o que vira, Vega pega de volta seu aparelho telefônico e o guarda novamente em sua mochila rosa.

[Vega] — [olha para baixo, com semblante de decepção] — "Bom... acho que depois disso, provavelmente você vai me enxergar como um estranho..." — [abatimento].

[Russel] — [olha para Vega].

[Vega] — "Se você não me quiser mais como carona, eu entendo..." — [olhar muito triste].

        Russel pensa por alguns segundos olhando para Vega. O semblante de seu cúmplice, parecia emergir uma expressão de súplica por trás de sua discreta vontade de chorar.

...........................

.

.

.

        De volta na estrada, lá estava Vega e Russel sentados nos seus respectivos assentos depois da pequena turbulência que passaram um com o outro. Russel, apesar do susto, já não mais se via desconfiado de Vega, enquanto este, já se sentia aliviado por revelar a verdade sobre sua origem e seu envolvimento com Earl Cash. O seu emocional oscilante e de impulsividade instável quase o fez ferir Russel, a quem estaria prestes a criar um vínculo afetivo com o rapaz. Tal fator põe em xeque para Vega a sua capacidade de conviver em uma sociedade pelo qual este dificilmente irá conseguir se adaptar. Tudo variava de 08 a 80 em um único estalo. O olhar do garoto, era de alívio e tristeza. Mais do que nunca, sentiu seu peito constringir sua latente vontade de abraçar Russel e pedir desculpas a seu amigo, a ponto de quase romper seu coração. Era a única coisa que poderia encerrar o arco de sua relação com o motorista sem nenhuma grave sequela. Entretanto, até para tal conduta se sentia desencorajado, pois no fundo, sabia que não deveria ter mentido sobre sua origem, tão pouco, o machucado. Apesar de todas as consequências que o fugitivo teria que enfrentar pelas suas ações, Vega só tinha um único desejo em mente: não mais matar.


           ..........."The White Buffalo - The Whistler".


        

 



        

        


Comments