- DELEGACIA DE POLÍCIA DE NOVA YORK. 21 DE JULHO DE 8.850 D.Z. 21H30 DA NOITE. INVESTIGAÇÃO DO CASO EARL CASH -

         Em cima da mesa de escritório cinzenta, 30 copos descartáveis de cafés vazios se acumulavam como um castelo de areia malformado. Alguns deles, já descascados em fitas por mãos sujas de pó de lápis e tinta de caneta. Na sua frente, um enorme quadro dividido entre a forma branca e a cortiça, cheia de anexos de anotações, avisos e lembretes. Na parte lisa, rabiscos de todas as cores possíveis. Os computadores eram pujantes, suas telas, compridas e bem altas. O trabalho parecia pior do que se poderia imaginar. Nenhuma pista relevante era encontrada para descobrir o assassino de Earl Cash. Apesar de sua má fama, o homem já estava morto. Vergonhosamente, nada mais poderia mais ser feito pelo Estado.

        Todas as câmeras relacionadas ao trajeto do veículo interceptado, foram vasculhadas de cabo a rabo. Nenhuma delas puderam identificar o suspeito procurado, apesar dos relatos sobre sua aparência. O chefe de polícia mal piscava os olhos das fotografias. O relógio de pulso já sequer marcava as horas, e a lâmpada, balançava infinitamente de um lado para o outro sob um leve chiado para dar um toque de som ambiente àquele local lúgubre. O pequeno radinho ao estilo vintage, tocava baixinho algumas músicas antiquíssimas que eram disponibilizadas gratuitamente para serem baixadas. Enquanto o tempo passava, o homem nem via até que alguém o lembrasse de que já estava tarde.

[Homem 04] — "Hey, chefe...!" — [fecha a porta] — "Já que vai passar a noite com isso, não vai pelo menos parar pra comer alguma coisa? Eu trouxe alguns sanduíches..." — [coloca os dois pratos em uma mesinha e pega um para comer].

[Homem 01] — "E então? Acharam algo no caminhão?" — [olha para trás].

[Homem 04] — "Nada. O veículo foi todo desmontado. Os peritos ainda estão analisando os objetos encontrados no saco de lixo. Conseguiram encontrar alguma coisa nas câmeras?" — [come o sanduíche].

[Homem 03] — "Nós acompanhamos o trajeto de três colombianas que estavam no bunker do caminhão. Elas foram abordadas e estão sendo interrogadas, mas não acho que elas tenham algo a ver com a morte do caminhoneiro." — [olho fixo no computador].

[Homem 01] — "Também não... seria incoerente afirmar isso sabendo que elas estavam escondidas. Além do mais, o único que foi flagrado entrando do lado do banco do passageiro, foi o garoto de pijama. Nenhuma daquelas mulheres iria afundar a cara do Cash daquela forma, ainda mais quebrar um vidro blindado daquele."

[Homem 03] — "Com certeza. O nível da pancada deixa nítido a desproporção de força..."

[Homem 01] — [retira os óculos e perpassa dos dedos nas pálpebras] — "A minha cabeça está rodando..." — [mão deslizando sobre o rosto] — "eu nunca vi um caso tão estranho em toda a minha vida..." — [impaciente].

[Homem 04] — "E olha que nem chegamos na metade do caminho..." — [de pé, encostado na parede].

[Homem 01] — "Já olhamos tudo. Todas as rotas possíveis por onde passam os veículos de transporte desde Nevada até Nova York foram vasculhadas até a data de hoje. Era pra pelo menos em um deles o assassino ser localizado. Como é que ele desaparece assim, sem deixar pistas??"

[Homem 02] — "E se ele tiver desembarcado em outro local?" — [olha para trás].

[Homem 01] — "Impossível... o último posto de combustíveis onde ele esteve com o caminhão de Cash foi algumas horas depois da DRISCO. Depois disso, ele só foi visto pegando uma carona com um homem cujo veículo estava programado para ir em direção à Nova York, é só verem pelo token universal. Os dois pararam em vários pontos de outros Estados pra poderem comer, beber e foder. E logo depois disso, nem um sinal do garoto...!" — [feição séria, mãos soltando sobre a mesa].

[Homem 02] — "Mas e se ele trocou de carona no caminho? Isso acontece muito com amadores ou garotos de programa..." — [feição de dúvida].

[Homem 01] — "Tendo em vista que a última parada deles foi em um motel em Allentown e que nas imagens enviadas pelos outros departamentos não foram identificadas qualquer sinal do assassino, então eu só posso presumir que ele estava acompanhando esse rapaz para a Capital de Nova York..." - [semblante focado].

[Homem 02] — "De qualquer forma, não podemos descartar a possibilidade de desvio de caminho. Ele pode ter desistido de NYC e ter mudado de rumo..."

[Homem 01] — "Pode ser que seja..." — [conformado].

[Homem 04] — "Mas esse não era o que tinha cabelo preto?? A mulher falou que ele era castanho... cor canela, eu acho..." — [comendo o lanche].

[Homem 01] — "Ele pintou o cabelo pra se disfarçar, não viu que ele saiu de um banheiro 30 minutos depois que o caminhão foi estacionado? E mais na frente, ele ainda muda a cor do cabelo e sobrancelhas para um tom alaranjado meio pêssego!" — [olha para o colega, gesticulando com os braços].

[Homem 03] — "Se não me engano, o nome dele é Vega, não é isso?? Da onde veio esse cara?"

[Homem 01] — "Disseram que ele estava vindo do Condado de Lincoln em Nevada, mas que nem ele sabia responder de onde era..." — [careta de estranhamento] — "Deve ser mais um insano que temos que lidar..."

[Homem 03] — "Tem algum registro dele no sistema?" — [digitando].

[Homem 02] — "Nada. Nem um ID, passaporte, rede social, banco genético, nada... sequer uma imagem ou nome desse infeliz pode ser encontrado com base no que temos das fotos..."

[Homem 03] — "Imigrante?"

[Homem 01] — "Ele facilitou a fuga das três colombianas, provável que sim..." — [expressão facial positiva].

[Homem 02] — "E o que mais elas disseram?" — [vira o rosto rumo ao colega].

[Homem 01] — "Não muita coisa, só que tinha um rapaz de cabelos castanhos meio cor canela, olhos violeta e que estava bastante nervoso e completamente nu..." — [feição de suave desapontamento].

[Homem 02] — "Mais um tarado, ou um a vítima pra conta?" — [feição de desdém].

[Homem 01] — "Tá mais pra um desesperado pra se livrar das provas..." — [olhar fixo no computador].

        Um dos homens sentado em uma das cadeiras afastadas da mesa dos policiais se atenta à conversa dos agentes. O técnico de informática, ainda com alguns donuts na sua mão, vira-se de seu assento giratório e se aproxima timidamente dos colegas que estavam logo à sua frente.

[Técnico] — "Desculpe interromper, mas... como é o rosto desse sujeito?" — [curioso].

        Um dos agentes pega uma fotografia digitalizada de uma das filmagens do posto de gasolina e exibe para o colega interessado.

[Homem 01] — "O suspeito do assassinato é esse carinha aqui. Ele estava usando um pijama no local do crime..." — [olhar de estranhamento].

[Técnico] — "Suspeito?? Esse aí parece o meu gato...!" — [feição de desconfiança e desdém enquanto come um donut].

[Homem 03] — "Se é gato ou não, o maluco é bonitão mesmo, hein...?" — [impressionado].

[Homem 04] — "Tenho que admitir, ele é bem... peculiar..." — [levemente impressionado, de braços cruzados].

[Homem 01] — E é por essa peculiaridade é o que me permite dizer que esse sujeito não é uma pessoa normal..." — [negação com a cabeça, apontando para a tela do computador].

[Homem 04] — "Humpf! Disso eu tenho certeza! Aquele buraco na cara do motorista também não é normal." — [braços cruzados].

[Homem 01] — "Pra piorar, o projétil que estava no saco de lixo foi disparado, mas não foi encontrada nenhuma marca de disparo no vidro do passageiro, nos bancos, ou qualquer outro lugar, muito menos na vítima, a não ser a pólvora nas suas mãos." — [trava os lábios] — "E pra fechar com chave de outro, não há nenhum resquício mínimo de sangue na bala...!" — [dedo indicador para cima] — "A mesma foi disparada de dentro de um veículo fechado e não acertou nada, nem feriu ninguém...!" — [mãos em posição de dúvida] — "Vai entender uma porcaria dessa...!" — [impaciente].

[Homem 04] — "Mas o tipo da arma nós já temos... se acharmos esse cara, o exame genético na vítima irá bater com o dele." — [braços cruzados].

[Homem 03] — "Mas chefe, com isso podemos sugerir que esse assassino pode ser um SH, não é?" — [feição de dúvida].

[Homem 01] — "Eu tenho no meu íntimo que sim, essa criatura me parece ser um Super-Humano, e é por isso que precisamos contê-la antes que piore as coisas." — [dedo indicador sobre a mesa cinzenta] — "Mas, ainda que seja um SH, eu tenho por mim que esse moleque é muito mais estranho do que eu pensava... tem certas fotos dele que parecem não bater..." — [confuso e sério, clica várias vezes no mouse do computador].

[Técnico] — "Essa produção de humanos aprimorados em laboratório já está saindo do controle... todo dia tem uma tragédia nova envolvendo SH's."

[Homem 03] — "Não lembram do caso do sanatório há 50 anos atrás? Foi depois daquilo que as leis civis mudaram para diferenciar pessoas comuns de SH's." — [olha para o técnico].

[Técnico] — "O que eu acho bizarro. Produzem essas pessoas pra depois escravizá-las?... Purf!" — [feição de repulsa] — "Esse país já foi melhor..." — [come um donut].

[Homem 01] — "..." — [suspira, dedo nos lábios] — "Queria muito saber de qual laboratório ele pode ter sido produzido e qual a filiação dele..." — [pausa por um momento e vira-se para trás] — "Yao! As colombianas disseram mais alguma coisa??" — [segura os óculos].

[Agente Yao] — [dedos próximos à orelha, com uma escuta no ouvido] —"... Estão dizendo aqui que o rapaz que estava com elas era um SH... — [olha para os presentes].

        Todos os presentes da sala se espantam ao escutar a notícia. Um dos agentes deixa cair os donuts. O outro, quase derrama o café sobre a mesa.

[Homem 01] — "Tá vendo só??? Eu sabia!" — [bate a mão fechada sobre a mesa].

[Homem 02] — "O que mais elas disseram??" — [muito curioso].

[Homem 04] — "Sshh!" — [atenta-se às mensagens da escuta no ouvido].


.......Pausa de alguns segundos. Olhares de ansiedade e atenção.

......Chiados da escuta eletrônica.


[Agente Yao] — "..." — [olhar de surpresa e confusão] — "Acabaram de dizer aqui que o rapaz em questão é um..." — [pensa alguns segundos] — "um 'Transmorfo'..." — [confuso].

[Homem 01] — "Trans o quê???"  [bestificado, feição de incredulidade].

[Agente Yao] — "Transmorfo...!" — [olhar impaciente] — "Foi o que eu acabei de escutar..." — [dedos próximos do ouvido, olhar para a direita].

[Homem 02] — "Trans... morfo? Da onde existe esse negócio?" — [ar de rejeição, olhando para o lado].

[Técnico] — "Eu ainda não vi nada nessa vida..." — [confuso e desapontado].

[Homem 03] — "Chefe, sabe o que raios é um Transmorfo??" — [incrédulo].

[Homem 01] — "Eu sei lá! Nunca vi isso na minha vida!" — [gesto de confusão e incerteza].

       Os presentes começam a se olhar entre si como se estivessem sentados em um bobódromo, de frente uns para os outros. Logo em seguida, lentamente começam a virar o rosto em direção a Yao, que permanece atento à escuta eletrônica em seu ouvido. O técnico, já com a metade de um donut entre os seus dedos, vira-se lentamente para o chefe de polícia e o indaga de forma estupidamente sugestiva:

[Técnico] — "...É mais uma das letras daquele alfabeto...?" — [feição de desconfiança].

[Homem 03] — "Ainda bem que o sinal de "+" foi criado há uns 20 mil anos atrás, viu... senão nós estávamos ferrados...!" — [feição de sarcasmo, arrancando um sorriso do técnico de informática].

        Percebendo o princípio de uma algazarra, o Chefe de Polícia logo trata de cortar o clima:

[Homem 01] — "Tá, mas isso aqui não é uma revista de futilidades, é uma investigação de assassinato, ok? Foco...!" — [olhar sério e mãos posicionadas um pouco mais acima].

[Homem 03] — "Desculpe, Chefe..." — [postura de retratação].

[Técnico] — [vira-se discretamente para o seu computador à frente e conserta os óculos, já um pouco sem graça].

        Dois minutos de silêncio foram feitos para que houvesse mais informações pela escuta de Yao. Não havendo mais nada que pudesse ser acrescentado, a transmissão é finalizada por quem estava do outro lado da linha.

[Agente Yao] — "Éh!" — [retira os dedos do ouvido] — "Nada mais a adicionar. O sujeito em questão parece ser um louco contador de histórias ou uma estranha variação genética de um SH..." — [levantar de ombros] — "ou as próprias mulheres podem estar inventando uma narrativa pra saírem ilesas..." — [cruza os braços].

[Homem 01] — "Qual foi o acordo que fizeram com as colombianas?" — curioso, encostado na cadeira e de pés cruzados].

[Agente Yao] — "É aquela história: 'diga tudo o que sabe eu te darei tudo o que deseja', inclusive a liberdade..." — [encosta-se à parede].

[Homem 01] — "Éh. Parece um bom ponto. Se estiverem sendo sinceras, é claro." — [estende a mão] — "Continue..." — [curioso, dedos sobre o queixo].

[Agente Yao] — "Elas relataram terem visto o dito cujo mudar a cor da pele de forma instantânea e que ainda tiveram acesso a um documento nos pertences dele com alfabeto totalmente aleatório..."

[Homem 02] — "Ah, tá de brincadeira que elas disseram isso...!" — [desdém] — "É curtição, não é??" — [indignação].

[Homem 01] — "Não, não é, o que elas disseram parece ser piada, mas agora está começando a fazer algum sentido..." — [muda o olhar para desconfiança].

[Homem 03] — "E que sentido tem um relato desse??" — [estranhamento] — "Transmorfo, mudança de cor, alfabeto desconhecido... esse cara deve ser um louco, sabia??" — [coça a cabeça] — "E essas três tontas caíram direitinho no papo dele...! Isso é um estelionatário." — [gesticula].

[Homem 01] — [massageia a testa] — "Eu adoraria que isso fosse verdade, mas..." — [pausa e pega alguns documentos em uma pasta preta] — "olhem atentamente para essas fotografias aqui..." — [ergue-se para frente e entrega algumas amostras para os colegas].

        Os agentes e o técnico apanham algumas fotos digitalizadas de detalhes de filmagens de postos, restaurantes e bares. Os presentes ficam confusos sobre o que o chefe de polícia queria dizer.

[Homem 01] — "Agora vocês olhem bem para as fotos..." - [olhar focado].

        Uma pausa de alguns segundos é feita. Os presentes começam a se entreolharem.

[Agente Yao] — "A cor dos olhos..." — [fita o chefe].

[Homem 01] — "Exatamente. A COR dos olhos..." — [olhar de espanto e seriedade] — "percebam, são três cores diferentes, três disfarces diferentes..." — [gesticula].

[Homem 03] — [volta o olhar para o chefe].

[Homem 02] — [Olhar de suspeita] — "...Eu ainda não entendi direito, o que tem os olhos dele?" — [confuso].

[Homem 01] — "Em todas as fotos o sujeito aparece com uma cor de olhos diferente da outra..." — [aponta o dedo para cada fotografia].

[Homem 03] — "Mas chefe, isso pode muito bem ser lente de contato..." — [expressão de tédio].

[Homem] — "SERIA...! Se não fosse por TRÊS depoimentos..." — [três dedos para cima].

[Agente Yao] — "E um desses depoimentos está relacionado ao segundo motorista que estava com ele?" — [curioso].

[Homem 01] — "Uhum, esse mesmo. Estão lembrados de que ele disse que o olho da pessoa a quem ele transportou, eram verdes?" — [olha para os colegas].

[Homem 02] — "Tá, e daí...?" — [cético].

[Homem 01] — "No Restaurante onde os dois jantaram juntos... uma garçonete disse que um rapaz EXTREMAMENTE bonito que ela atendeu, tinha olhos em tom de rosa salmão..." — [exibe o dedo indicador] — "e ela disse mais: que o suspeito NÃO... USAVA... LENTE... DE CONTATO." — [descreve lenta e gradualmente as últimas palavras].

        Os homens começam a se entreolharem com desconfiança e voltam a atenção para a explanação do policial.

[Homem 01] — "Estão lembrados da Maria Helena Cash e os outros funcionários da DRISCO? Magal e companhia?" — [recosta-se à cadeira].

[Homem 03] — "Lembro..." — [curioso].

[Homem 04] — "Lembro..." — [curioso].

[Homem 01] — "Então....TODOS, absolutamente todos ali relataram que o rapaz em questão tinha olhos da cor VIOLETA." — [pausa] — "Estão lembrados?" — [balançar de caneta entre os dedos].

[Homem 02] — "Éh, eu lembro disso... mas e se for lente?" — [ainda cético].

[Homem 01] — [Retira os óculos, se coça e os coloca novamente] — "No tempo em que ele vai de um posto de gasolina até outro e depois vai jantar em um restaurante, não existe nenhuma loja ou clínica oftalmológica em absolutamente qualquer lugar por aquelas bandas, ISSO PORQUE...! Eu já chequei." — [mistura de sorriso e espanto, com o dedo indicador mirado para si mesmo].

        Os que estavam de pé, resolvem aproximar uma cadeira para se sentarem. O interesse e a curiosidade vai aumentando à medida em que a versão do chefe de polícia se torna ainda mais convincente.

[Homem 01] — "Sabendo disso, como raios em algum lugar no planeta a íris de uma pessoa iria mudar por três vezes seguidos em um curto espaço de tempo??" — [olhar de espanto, braços estendidos].

[Agente Yao] — "Quatro, na verdade. Acabei de checar uma de cor celeste..." — [olha o material].

[Homem 01] — "Exatamente!" — [aponta para o colega].

[Homem 03] — [surpreso, mas meio cético] — "Olha..." — [contorce os lábios] — "eu ainda acho isso muito fantasioso..." — [expressa rejeição].

[Homem 02] — "Isso aqui tá virando um daqueles filmes Sci-Fi..."

[Homem 01] — "Não estão convencidos?" — [olha de um lado para o outro] — "Pois bem! Antes de entrarem no referido restaurante, o sujeito foi revistado 3x4 por uma segurança do estabelecimento..." — [aponta o polegar] — "e adivinhem só o que ela descreveu no relatório??"

        Os outros presentes ficam em silêncio, bastante atentos a fala do colega.

[Homem 01] — [inicia a contagem com os dedos] — "Roupas, pijama, lanterna, documentos, dinheiro, cosméticos..." — [olhar fixo] — "uma pasta e escova dental... E TEM MAIS!" — [pausa abrupta dos presentes] — "Foi relatado pelos seguranças que o nome do suspeito era Stanley Ipkiss, inclusive o nome dele foi anotado na comanda do restaurante!" — [aponta o dedo para os colegas, seguido de uma negação e estranheza no olhar] — "O sujeito tinha o MESMO rosto, o mesmo cabelo, a mesma pele! A MESMÍSSIMA estatura física!..."  [jogar de mãos nos joelhos]  "Não tinha lentes de contato e nem nada parecido nos seus pertences...! Da onde raios ele conseguiu mudar a COR dos olhos??"  [gesticula e exibe incerteza com os braços].

[Agente Yao] — "Quando eu penso que não podia ficar mais estranho..." — [negação].

[Homem 02] — Ok, mas e a documentação?? Sem os documentos, não podemos afirmar sequer qual o nome dele...

[Homem 01] — "Por isso mesmo, ora! "Vega", "Stanley"... tudo isso pode ser um mero disfarce, quem garante que esse sujeito tem alguma identidade? Deve colecionar várias, no mínimo!" — [feição de espanto e dedo indicador para cima].

[Agente Yao] — "Vocês não acham estranho o suficiente uma variação de um SH que sequer possui qualquer registro, parentesco ou qualquer dado sobre ele, nem aqui e nem em nenhum outro país? Como é que usou um documento de identidade com foto pra entrar em um restaurante?"

[Homem 01] — "Mas é isso que tá quebrando a minha cabeça!" — [solta as mãos sobre as pernas] — "Essa criatura não tem sequer uma foto do rosto guardada em qualquer sistema governamental! Nem deu pra ver quando esteve na porta do estabelecimento...!" — [mãos no rosto].

[Homem 03] — "Já procurou o J-CAT?"

[Homem 01] — "Já procurei, eles já foram mais solícitos... mas mesmo assim, eles me enviaram o relatório e não acharam NADA! É impressionante! Nenhum país no mundo tem uma foto desse moleque..." — [insatisfação].

[Agente Yao] — "É um caso bem estranho..."

[Homem 03] — "E o segundo motorista que estava com ele?" — [intrigado].

[Agente Yao] — "Não acharam ele... ainda." — [ressalta].

[Homem 02] — "Então vamos ter que achar esse homem logo, porque só o que temos aqui não vai ajudar..."

[Homem 03] — "Com certeza. Isso tá dando é mais dor de cabeça..." — [vira-se novamente para o computador].

        Eis que um dos agentes do outro lado das portas da sala, aparece de forma repentina, trazendo consigo uma enorme garrafa térmica de café e alguns copos acompanhados de saquinhos de salgadinhos das mais variadas porcarias. O técnico, no entanto, só tinha olhos para os donuts.

[Homem 05] — "Mais alguma novidade?" — [deposita a garrafa junto aos copos e salgadinhos em uma das mesas].

[Homem 01] — "Nenhuma. Eu já estou ficando exaurido com esse caso... Ah! E o do furto do caixa de troca cambiária, descobriram alguma coisa?" — [vira o rosto rumo ao colega].

[Homem 05] — "Nada... os dados foram TODOS apagados. A única filmagem que encontramos foi a do suspeito. Os peritos aqui estão sofrendo à beça pra acharem alguma prova. Eu estou começando a achar que foi o próprio Cash que estava subtraindo o dinheiro..."

[Homem 01] — "Ou a viúva dele! Ela queria por tudo expor Cash e arruinar a vida dele. Não que ele não merecia, mas é provável que ela possa ter tido algo a ver com o apagamento dos dados..."

[Homem 05]  "Somente o Cash e o Magal tinha acesso de administrador ao Caixa de Troca Cambiária..."

[Técnico]  "Eu não confiaria muito nisso. Hoje em dia qualquer um penetra aparelhos telefônicos só com alguns comandos. Invasão democratizou demais de uns anos pra cá..."  [come um donut].

[Homem 05]  "Isso é verdade..."  [senta-se e abre um salgadinho].

[Homem 01]  "Já está quase dando no horário, a perita ainda está lá, Yao?"  [rosto apoiado sobre a mão enquanto olha as horas].

[Agente Yao]  "Está. Ela está examinando um material biológico que ela achou no saco de lixo..."  [olha as horas] - "acho que já deve estar terminando...

[Homem 01]  "Nossa, mas que dias..."  [esfrega a mão no rosto].

[Agente Yao]  "Bom... já está mais do que ficando tarde, então vou voltar pra casa, tomar um banho e dormir..."  [pega a pasta].

[Homem 03]  "Já estou quase finalizando aqui também..."  [cansado].

[Técnico]  "Alguém pode me dar carona?"  [olha para os colegas].

[Agente Yao]  "Já te demos carona a semana inteira, hoje você vai de táxi..."  [sério].

        O técnico deixa escapar um leve bico de bebê e exibe expressão de tristeza.

[Homem 02]  "Vou querer mais um café antes de ir..."  [pega o copo].

[Homem 05]  "Toma aí..."  [despeja a bebida no copo do colega com a garrafa térmica]  "aceita salgadinhos?"  [fita o colega].

[Homem 02]  "Não, obrigado. Vou acabar tendo acidez..."  [bebe o café].

[Agente Yao]  "Vocês três vão ficar por aí mesmo?"  [vira-se para os colegas].

[Homem 02]  "Eu vou logo depois dele."  [aponta para o colega comendo salgadinhos].

[Agente Yao]  "E você, chefe? Não vai ao menos voltar pra casa, tomar um banho e tirar um cochilo?"  [encara o colega].

[Homem 01]  "E pra quê que eu vou voltar pra casa se eu tenho chuveiro aqui?"  [dedo indicador para baixo, olhando para Yao].

....[risos]...

[Agente Yao]  "Tá de brincadeira, não tá?"  [cara de tacho].

[Homem 01] - "Nada, aqui tem um sofá e um chuveiro."  [aponta para os dois cômodos, virando-se para o computador]  "Vou passar a noite aqui. Amanhã eu volto...!"  [joga suavemente a mão para trás].

        O agente consegue arrancar alguns risos dos outros colegas.

[Homem 03]  "Esse é workaholic...!"  [sorriso sarcástico].

[Agente Yao]  "Humpf! Você é maluco... então até!"  [abre a porta].

[Ambos]  "Até!"

            Aos poucos, o restante dos colegas foram indo embora da delegacia e retornando para suas respectivas casas. Somente o chefe de polícia permaneceu de mãos cruzadas sob o queixo, esperando algo que lhe trouxesse alguma luz sobre o que o caso que investigara. Nada parecia aquietar o homem. Procurando pelas fotografias que havia produzido a partir das filmagens, o chefe nota que em uma das imagens, o suspeito portava algumas notas rosadas em mãos, algo que até então, não havia se atentado em observar.

[Homem 01] — "Que troço rosa é esse que tá nas mãos dele? ... É moeda europeia?" — [fala consigo mesmo, com estranheza em seu rosto].

        O mesmo perpassa foto por foto, a fim de alinhar a sua desconfiança a respeito dos boatos que circulavam rapidamente aos arredores de Nevada a respeito de Vega. As provas se conectavam, mas estranhamente pareciam não bater. O tédio e a inquietação vão tomando conta de sua mente até que a porta da sala é bruscamente empurrada, fazendo o homem despertar de seu transe.

[Perita] — "Senhor, preciso que venha ver isso..." — [tom e olhar de seriedade].

        Colocando seus óculos de volta no lugar após o susto, o chefe de polícia se levanta de sua cadeira e vai até o laboratório de exames periciais por onde é guiado pela mulher. Ao chegarem ao recinto, a perita suspende um enorme pedaço de pele morta com uma pinça, exibindo-a para o homem.

[Perita] — "Isso aqui que você está vendo, é um enorme pedaço de pele morta encontrada no saco de lixo." — [pega outra pinça].

[Homem 01] — "Caramba..." — [impressionado].

[Perita] — "E quando você abre," — [manuseia com as pinças] - "ela assume o formato de um rosto perfeito..." — [exibe a amostra].

        O homem fica boquiaberto com o que estava observando.

[Homem 01] — [dedos se movendo de um lado para o outro] — "Isso aí tudo... é pele humana??" — [impressionado].

[Perita] — "Me parece que sim, mas tem algo que eu ainda vou ter que te detalhar mais afundo..." — [coloca a pele de volta em uma superfície próxima a um microscópio e mexe no computador] — "O que o senhor irá testemunhar agora, é algo que eu nunca vi em toda a minha vida..."

        Já com o teclado em mãos, a perita começa a abrir e exibir arquivos de imagens registradas no seu sistema, com as versões mais minúsculas e amplificadas de cada célula descoberta da amostra de pele.

[Perita] — "Como dá pra ver, são células epidérmicas, mas com uma estrutura um pouco diferente de um ser humano como o qual estamos acostumados. Veja essas duas fotos, olha a diferença..." — [clica em dois arquivos].

[Homem 01]  "Estou vendo... é bem bizarro..."  [estranhamento]  "as da segunda foto parecem mais... arrojadas, firmes, não sei."  [desconfiança].

[Perita] — "Mas isso que o senhor está vendo não é nem de longe o mais bizarro... o que me deixou realmente encabulada está nesse vídeo que eu vou te mostrar..." — [fecha algumas janelas e abre um dos vídeos registrados].

        O homem observa atentamente o vídeo registrado da atividade celular em tempo real, de uma das unidades que ainda estava "viva" na amostra de pele investigada. O que apareceu diante dos olhos do homem era insano: cada vez que a imagem do vídeo era amplificada, mais nítida era a flexibilidade da célula capturada pela câmera. As fitas genéticas assumiam variadas configurações e sofriam transformações em sua estrutura por pelo menos 100x por minuto. A célula em questão, também mudava de tamanho, formato e de cor ao longo das gravações. O homem retira lentamente seus óculos, incrédulo, e ao mesmo tempo, internamente extasiado pelo que havia descoberto.

[Perita] — "Acho que com isso, eu posso ter a liberdade de tomar a palavra e perguntar: com que merda nós estamos lidando afinal?" — [cara de tacho e desconfiança].

[Homem 01] — "Com algo que pode ser potencialmente mais perigoso que podemos imaginar..." — [tenso].

[Perita] — "Eu te asseguro: em 20 anos de trabalho, eu nunca vi algo tão extraordinário e assustador antes..." — [olhar sério].

[Homem 01] — "Éh... e parece que até agora somos nós..." — [olha para a mulher].

[Perita] — "Tirando esse fato que vai tirar meu sono, o sangue do Cash bate perfeitamente com a que está na pele..." — [aponta o dedo para onde estava a pele foleada].

[Homem 01] — "Ótimo, já é alguma coisa. Acho que já tive minha sessão de bizarrices por hoje..." — [coloca de volta os óculos].

[Perita] — "Isso porque eu ainda nem comecei a examinar as unhas que achei no saco de lixo..." — [expressão de sarcasmo].

[Homem 01] — "Preciso que você faça a reconstituição do rosto humano a partir daquela máscara de pele," — [aponta para a amostra] — "isso vai nos ajudar a descobrir a identidade do suspeito..."

[Perita] — "Pode deixar...! Amanhã a equipe toda vai estar aqui, e você terá tudo isso e mais um pouco..." — [olhar de confiança].

[Homem 01] — "Ótimo, obrigado. Caramba..." — [mãos nas costas, olhando as horas logo em seguida]  "bem, acredito que já deu sua hora, não já? Eu vou me arrumar para dormir..."  [sorri].

[Perita] — "Vai lá... Eu já vou pra casa também." — [retira o jaleco e desliga o computador].

[Homem 01] — "Ok...Até amanhã!" — [acena com uma mão].

[Perita] — "Até!" — [sorri discretamente].

        Luzes se apagam, restando apenas a lâmpada central acesa e um toque amarelado no meio da escuridão. Em uma das portas daquela sala, ficava o banheiro com chuveiro, toalha e sabonete. O homem pega suas roupas e outros pertences de sua pasta marrom e entra pela porta vermelha, trancando-a em seguida. Passados 30 minutos, o homem sai do banheiro, já vestido para dormir e com uma arma na cintura. O sofá daquele salão parecia uma nuvem branca e estufada. Algo incomum para um ambiente tão lúgubre. Travesseiro e cobertor são retirados de um armário logo acima da mesa. 

        Empolgado, o homem envia de seu aparelho celular algumas mensagens do que acabara de descobrir: "Pé de Cabra — Parece que o nosso contador de histórias não é tão contador de histórias assim..."; "Yao — Como assim?"; "Pé de Cabra — A Perita detectou uma atividade celular bem peculiar em um pedaço de pele morta de um rosto inteiro! Se ver o vídeo, vai entender o que estou dizendo!"; "Yao — Tem como mandar esse vídeo??"; "Pé de Cabra — Infelizmente não... mas amanhã, você terá a resposta. Sério, era uma célula que mudava de formato, tamanho, cor e até as hélices do DNA trocavam de forma a cada segundo!"; "Yao — Que bizarro...! Eu tô curioso pra ver isso!"; "Pé de Cabra — Não vai se decepcionar!".

        Finalizada a conversa, o homem desliga seu telefone celular, joga duas pílulas de medicamento de uma escrivaninha rumo goela abaixo e se deita para passar um bom tempo olhando para o teto azulado e escuro. Fora da janela lateral, um reflexo de luzes entrelaçadas que batiam nos limites de cada parte da sala. O laranja e azul de contrastavam. Por vezes, resquícios do vermelho e do branco invadiam as duas cores e logo se afastavam. Cortinas se sacodem ao soprar gelado da ventania noturna. O asfalto úmido, o gato em cima da caçamba de lixo, o vidro parcialmente quebrado, o neon que pisca com falhas. O "tick tack" do relógio de parede. Os pingos d'água caindo da torneira. As luzes do teto azulado se fundem até que imagens borradas assumam formas arredondadas e coloridas. Na mesa, a garrafa térmica de café que ainda permanecia quente, mesmo depois de várias horas. Já eram 07h da manhã. O homem babava sobre o sofá em forma de nuvem.


------[PORTAS SE ABRINDO BRUSCAMENTE]-----


[Agente Yao] — "Chefe!" — [repentino].

        Quase pulando do sofá e limpando a boca, o homem encara o colega como se tivesse sido acordado pela mãe.

[Agente Yao] — "Stanley Ipkiss foi encontrado, e o motorista que estava com o suspeito, já está vindo pra cá pra fornecer informações extras." — [bem-disposto].

[Homem 01] — "Acharam o cara??" — [tira os pés do sofá e senta-se, curioso].

[Agente Yao] — "Esse é outro. Ele trabalha na DRISCO, e alguém sumiu com o documento de identidade dele. Estava andando com a carteira de motorista..." — [olha para o colega].

[Homem 01] — "Achamos o nosso cara, Yao..." — [confiante].

[Agente Yao] — "Eu não confiaria nisso..." — [desvia o olhar] — "se aquele vídeo for o que você tá dizendo, então vai ser bem mais difícil de encontrá-lo." — [cético].

[Homem 01] — "Primeiro nós vamos pegar mais informações sobre quem exatamente é esse tal de Vega e o que mais podemos descobrir sobre as peculiaridades dele... depois, nós vamos atrás dele..."

[Agente Yao] — "Vamos precisar de ajuda das outras polícias. Já não estamos mais tratando de algo conhecido..." — [negação, desconfiado].

[Homem 01] — [pega a garrafa de café e já a despeja em seu copo].

[Agente Yao] — "Isso ainda presta?" — [aponta para o café].

[Homem 01] — [olha para trás] — "Não só presta como está quente, vamos venha tomar um!"  [chama com a mão].

[Agente Yao] — [pega um copo descartável para despejar a bebida] — "E o que vai fazer sobre isso? Vamos ter que acionar o Boureau?" — [encara o colega].

[Homem 03] — "Não..." — [balança o dedo indicador] — "vou fazer melhor..." — [pega o telefone celular em cima do sofá e a exibe para Yao] — "Quero que entre em contato com a agente Audrey Smith, ainda HOJE." — [olhar sério].

[Agente Yao] — "Muito bem...!" — [acena positivamente e toma o celular para si].

        O amontoado de copos descartáveis se acumulam cada vez mais sobre a mesa cinzenta. Para cada copo utilizado, mais trabalho era acumulado, mais tempo era gasto e mais energia era despendida para o deslinde do caso. O que eles mal sabiam, é que o disfarce seria o menor dos problemas para o procurado...


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