---BIOTH. PONTO LESTE. PERÍODO DA HIBRIDIZAÇÃO. DIA 33 DO 18º MÊS. 15H65 DA MANHÃ. ÉPOCA DE FACULDADE. DIA CHUVOSO E ENSOLARADO-----
Finas linhas vermelhas em púrpura que se espalhavam em degradê com os azuis esverdeados, invadem os céus naquela manhã. O clima era fresco. Zero grau para os mais íntimos. Teias de plataformas asfálticas em vidro escuro entrelaçam a gigantesca cidade lotada de prédios espelhados e vegetação multicolorida. Tecnologia e natureza se atracavam aos beijos. Alguns resquícios de chuva ainda persistiam naquela região.
O surto de vida naquela Ilha chegava a provocar aborrecimento nos moradores. Passarinhos esfomeados, felinos de diversos tamanhos, pombos enxeridos, borboletas que camuflam os ares, alguns guaxinins pendurados na estrutura metálica das paragens de ônibus, vacas ambulantes às beiras das praias, e é claro, as malditas mariposas rosadas cheias de pelos aveludados. Esses bichos em particular são os mais irritantes para todos que moram ali. Vivem de procurar comida, justamente porque os mesmos moradores os alimentam com pequenas frutas, castanhas e plantas. Em alguns casos, comem até mesmo grãos de pipoca de milho preto e roxo espalhados pelo chão. Uma imensa variedade de insetos coloridos entupiam as árvores. Enquanto um trisal de dois homens e uma mulher passeavam abraçados pelas ruas suspensas de Vandora, em direção a um dos mais badalados shoppings daquela região, outros aguardavam pelo transporte coletivo para se deslocarem para o outro lado do país.
O Ponto Leste, assim como as outras partes daquela Estrela Marinha em forma de Ilha-País, eram muito semelhantes entre si, mesmo pela distância. Tanto pela cultura das praias, casas de banho, esportes brutais e festas extravagantes, quanto pelo estilo de vida e de vestimentas típicas, todas muito leves, coloridas e multifuncionais. A única diferença é que no Ponto Central do país se localizavam as fazendas, fábricas e dezenas de indústrias em meio a um ambiente cinzento cheio de pinturas e rabiscos de diversas cores. Os viventes daquela Ilha sabiam misturar bem a elegância com o despojado. Até os desenhos na pele eram vivos e fortes. Homens e mulheres de todas as tonalidades de cor, cabelos, olhos, corpos. Mas todos tinham algo em comum: não havia um único ser humano ali que fosse visto com maus olhos quando o assunto era a sua beleza, algo que era estapafúrdia de tão surreal. A perfeição e simetria era tamanha, que a impressão que ficava em minha mente era que Deus deixou os melhores traços para este exuberante planeta. Tudo ali, humilhava de joelhos um ser humano comum.
Mas agora noutro plano, posso dizer: esta foi a primeira vez que havia avistado o paraíso. Nem agora depois de morto fiquei tão próximo de Deus como no primeiro dia em que avistei um habitante daquela Ilha-País pela primeira vez. Mas agora, é a época dos eventos esportivos, e todos que ali vivem já estão se preparando para as dezenas de competições que são lançadas naquela Grande Nação, uma vez que estes ocorrem logo após as férias escolares. Dois daqueles cidadãos já estavam ansiosos por esse dia. Só que o andar da carruagem cronológica ainda era demasiada lerda para aqueles dois jovens.
-----------[SINALIZAÇÃO DE METRÔ. PONTO DE PARADA]------------
...........Roupas leves de frio. Tons cinza e azul escuro. Tons de vinho e preto...................
[Vergil] — "..." — [silêncio].
[Dante] — [olha gradualmente para o amigo].
[Vergil] — [continua em silêncio, entretido com o jornal].
[Dante] — "Vai ficar quanto tempo lendo isso aí?" — [olhar de tédio].
[Vergil] — "..." — [silêncio].
[Dante] — "Hey....!" — [estala os dedos] — "Dá moral pra mim, cara..." — [impaciente].
[Vergil] — "Olha, eu tô ocupado." — [olhar fixado no papel].
[Dante] — "Já faz uma semana que você não diz nada, só fica lendo o dia inteiro... o que tá vendo de tão bom aí?" — [cruza os braços e vira a cabeça para ver o que seu parceiro estava lendo].
[Vergil] — "... Hum..." — [revira as folhas do jornal para frente e para trás] — "Por que raios eles fazem um jornal rosinha e cheio de perfume?" — [vira os papéis e segura com uma mão] — "Dá até vontade de limpar a bunda com isso aqui." — [olha o produto com desdém].
[Dante] — "Está lendo da imprensa patriótica..." — [tédio] — "Ok, agora já pode jogar isso fora e voltar a focar em mim??" — [impaciente].
[Vergil] — "Já não te faço companhia todos os dias?" — [amassa os papéis e o joga em um recipiente metálico azul] — "Você deveria pegar mais nos estudos, aliás..." — [acende um cigarro].
[Dante] — "Isso eu já faço. Só não tenho que ficar lendo por 60 horas seguidas..." — [cara de tacho] — "Já experimentou se comunicar pelo celular um pouco?" — [apanha o aparelho em seu bolso, exibindo com os dedos].
[Vergil] — "Já experimentou desligar esse telefone um pouco?" — [olhar desconfiado] — "É isso que tá tirando o seu foco..." — [continua a fumar].
Levemente agitado e de mãos nos bolsos, Dante cede um leve desvio de cabeça para baixo, mostrando decepção. Ainda com o olhar mirado para a sua lateral, o homem observa próximo de si uma pequena luminária com uma chama rósea, deixada em um suporte vertical do lado direito do ponto de parada. Despertada a curiosidade e lentamente se dirigindo a passos rígidos a esta, o rapaz chegou a abri-la para tocá-la. É quando seu tutor intervém:
[Vergil] — "Hey, esse negócio é quente e pode te queimar...! Ele se espalha rápido." — [espera alguns segundos].
Dante concede leves toques no fascinante fogo acesso enquanto seu amigo o alerta.
[Vergil] — "Depois não vai chorar dizendo que vai morrer, ok? Já vou logo avisando...!" — [desconfiado].
[Dante] — "Agora eu ganhei sua atenção, não foi?" — [leve satisfação enquanto olha para trás].
[Vergil] — "Sim, ganhou, agora dá pra parar de fazer graça e voltar pra cá?" — [aborrecimento].
Aos sorrisos de satisfação, Dante retorna novamente ao seu "posto". Após alguns minutos, o mesmo observa Vergil tragar um cigarro cujo aroma remete a frutas vermelhas exalado pela fumaça rósea. Tinha curiosidade de tentar o uso de alguma droga, bebida, prática de um esporte radical, coisas que para ele, apesar de acessíveis, eram mais limitados. Dante fita o bolso do amigo e aproxima sua mão para tentar pegar uma única amostra fina de embalagem preta com linhas róseas, mas acaba sendo impedido por Vergil, que tampa seu bolso com sua mão.
[Vergil] — "Hey... Segura. Você não pode abusar." — [olha para ele].
[Dante] — "E quem disse que eu iria abusar? Eu só iria tragar um só..." — [dedo indicador, impaciente].
[Vergil] — "É, mas você é um intermediário, tá lembrado? - [traga mais um pouco] — "Isso muda muita coisa." - [olhar sério].
[Dante] — "Não muda coisíssima nenhuma... 70% de mim é SH." — [emburrado].
[Vergil] — "Mas os outros 30% não é..."
[Dante] — "Ah...!" — [suspira] — "Ok, então." — [mão apoiada na bochecha, braço apoiado em outro] — "Vou ter que me conformar com essa segregação maldita..." — [decepção, cabeça virada].
Vergil, já "fadigado", abre uma exceção para Dante e concede uma única unidade do produto para o amigo.
[Vergil] — "Tá, vai, toma um já que você tá tão estourado, mas é só esse, hein??" — [estende o braço com o produto].
O rapaz de cabelos pretos e olhos vermelhos pega a unidade de cigarro e olha pelo corpo do produto. Fita-o, cheira-o, se anima com o perfume e começa a procurar algo para acender. Vergil pega o seu isqueiro elétrico no formato de uma garrafa violeta e acende o cigarro para o amigo.
[Vergil] — "Chegue perto." — [aproxima o isqueiro, enquanto Dante aproxima o produto].
Ao acender o cigarro, Dante observa atentamente a sua queima e, de forma suave, coloca-o em sua boca.
[Vergil] — "É pra tragar, não pra chupar..." — [feição sugestiva].
Dante, surpreso e constrangido, desfere um olhar aborrecimento e vergonha para o parceiro. O cigarro se abaixa sutilmente de sua boca.
[Vergil] — "Vamos! Fume logo..." — [curioso, com as mãos no bolso].
Passado o impacto, Dante segura o cigarro com os dois dedos e começa a aspirar a fumaça, quando subitamente, a expele em meio a algumas tosses.
[Vergil] — "Cuidado. Vai devagar. Vai no amor." — [leve sorriso debochado].
Findado o choque da primeira tragada, Dante tenta mais uma vez absorver o produto. Na segunda tentativa, o rapaz passa a apreciar intensamente o sabor da fumaça em sua boca. Seus olhos se fecham e o fogo se intensifica, tomado pelo prazer. Já aliviado, expeli-a gradualmente enquanto os poros de seu corpo se arrepiam com seus efeitos.
[Vergil] — "E aí? Gostou?" — [observa].
[Dante] — "Isso é bom mesmo..." — [olhar levemente impressionado].
[Vergil] — "Esse é de palha saborizada... melhor que ele não existe." — [olha para o amigo].
[Dante] — [dá uma bela tragada no cigarro] — "Agora você realmente soube como me surpreender." — [fita Vergil].
[Vergil] — "Era tudo que você queria, não é?" — [mãos no bolso do enorme sobretudo, olhar fixo para Dante].
[Dante] — "..." — [leve sorriso, olhar sério].
Dante saca de forma automática, um enorme e comprido folheto de propagandas que estava dentro de uma máquina de jornais, que desdobra-a com a mão e o entrega para Vergil, que o pega. Já entendendo onde seu amigo queria chegar, Vergil se aproxima ao mesmo tempo que Dante se caminha até seu tutor. Ambos dão mais uma tragada nos seus respectivos cigarros antes de Vergil tampar ambos os seus rostos com o enorme folheto, proporcionando-lhes uma grande "sombra" que os encobre. Vergil, suavemente coloca seu amigo contra si segurando-o pela cintura. O vento soprava as respectivas fumaças para o sentido oposto enquanto seus corpos quentes eram ainda mais espremidos um ao outro. Um pequeno ônibus vermelho passava contíguo à linha do metrô, na qual seria o próximo embarque para o Ponto Oeste. Os dois rostos se movimentavam lentamente por trás dos papéis à medida que provavam do aroma um do outro. Lábios se entrelaçavam. Corpos se aqueciam. Batimentos se aceleravam. Antes que se perdessem entre os dedos, o tempo os alerta: o toque do relógio de pulso de Vergil se dispara. O beijo é gradualmente interrompido pelo alarme. Uma das mãos do tutor ainda estava discretamente agarrado nas nádegas por debaixo do sobretudo de seu tutelar. Vergil retira bruscamente o folheto de seus rostos e a sua mão sobre o corpo de seu confidente.
[Vergil] — "É o metrô. Deve chegar agora mesmo."
[Dante] — [ainda saindo do transe, olha brevemente para o relógio de pulso] — "Quanto está a temperatura agora?"
[Vergil] — "30 graus negativos... está bem fresco."
[Dante] — "Vamos jogar o quê hoje? Vai ser competição mista?" — [olha para o amigo].
[Vergil] — [estranhamento] — "Você não me falou nada sobre jogar..."
[Dante] — [olha para o lado] — "Bom... hoje é livre, cada aluno escolhe uma partida e uma turma pra jogar. Eu ainda não sei muito bem onde vou." — [olhar de dúvida].
[Vergil] — "Não está pensando em pular o cerco e invadir os jogos internos do Bloco S, está?" — [sério].
[Dante] — "Não! Tá maluco?" — [semblante sério e surpreso] — "Por que que eu iria pro Bloco daqueles aloprados?" — [dar de ombros].
[Vergil] — "Porque você sempre admirou os esportes dos SH's. Acha que eu não via você assistir às partidas toda a noite?" — [olhar fixo].
[Dante] — Assistir é bem diferente de participar... às vezes acho que você pensa que eu sou incapaz..." — [fuma um pouco].
[Vergil] — "Não, eu não penso que você é incapaz, eu tenho CERTEZA disso. Você me deu várias provas." — [sério].
Dante suspira, exibindo feição de aborrecimento.
[Vergil] — "E como seu tutor legal, é meu dever te vigiar e orientar. É o que me foi designado pelo seu pai." — [fuma o cigarro].
[Dante] — "Ok, tutor super capaz de gene bom! Já acabou o sermão??" — [impaciente, braços estendidos].
Dante se afasta um pouco de Vergil, que se surpreende com a conduta de seu amigo. O rapaz se distancia para tocar nas plantas que estavam próximas do ponto de parada. Cada vez que ficava com raiva, tragava um pouco mais do cigarro.
[Vergil] — "Hey... qual é, eu já te fiz um mimo hoje, não vai ficar com raiva, vai?" — [preocupado].
[Dante] — "Não..." — [fuma mais um pouco enquanto toca a planta].
[Vergil] — "Olha, isso é para o seu bem..." — [desapontado].
[Dante] — "Não vou discutir, ok? Já deu..." — [olha brevemente para trás].
Vergil olha para cima, e depois um tempo para baixo. Traga um pouco mais do cigarro, mas já aborrecido. A relação entre os dois já estaria começando a ruir. Dante se sentia um estorvo para Vergil e um inepto para o mundo ao seu redor. Seu tutor, tinha medo de que uma nova tragédia vitimasse Dante por sua culpa. Mas tinha preocupações quanto ao impacto de seu emocional. Sendo um híbrido, o rapaz possuía cidadania parcial e não tinha plenos poderes sobre sua vida. Sentindo que estava magoando Dante, se via cada vez mais na obrigação de colocá-lo como um igual, mesmo perante os desiguais a ele. Dante só queria ter as mesmas condições de acesso a tudo que um cidadão comum poderia ter, sem restrições, sem barreiras. Cada vez que era taxado como um "incapaz", sentia um buraco na alma. Era como se sua existência, que já era mais do que privilegiada em relação aos sub-humanos, fosse diminuta. O metrô finalmente chega. Os dois entram em silêncio.
Ambos exibem os cartões com códigos em pontos frente às máquinas identificadoras automáticas. Cada cartão tinha um valor específico para o acesso ao metrô, seja por horas, dias meses, até anos. Nos mesmos cartões, cada usuário mantinha em cadastro para leitura, os dados de seus documentos de identificação pessoal para que ficassem registrados e fossem também fiscalizados. Os tons de neon esverdeado mesclado a uma púrpura metálica reforçava o leve filtro escuro dado ao ambiente. Bancos, todos acolchoados com material de poliuretano e couro à prova de sujeira, bem projetados para dar espaço e conforto aos usuários. Nos tetos, haviam pequenas e finíssimas telas projetoras em que imagens holográficas eram transmitidas para que os passageiros pudessem assistir. O veículo de transporte não possuía rodas e se movia um pouco acima da superfície. Sequer barulho fazia.
O transporte até o outro Ponto da Ilha-País demoraria pelo menos duas horas. Como duas horas era muito, daria de sobra para dormir, escutar música, assistir aulas, ler notícias, que não eram muitas, nem muito interessantes. Eram fúteis, na verdade. O jornalismo há muito vem enfrentando a falta de novidades, a falta de crimes, de tragédias, de desgraças, de eventos inusitados, sinistros. Precisava de algo para se alavancar, mas não achava. Precisava de algo podre para se alimentar, mas não encontrava. Dante e Vergil, sentados um ao lado do outro, se apoiavam em dois suportes um pouco acima de seus braços. Até há alguns anos, os bancos não vinham com cintos de segurança, sendo algo recente até então. Destinado para pelo menos metade de todos os acentos dos transportes públicos daquele país, presumia-se que híbridos e sub-humanos, apesar de rejeitados, poderiam fazer uso desses veículos de alguma forma. Até hoje tentam extinguir essa lei. Mas como um cidadão vandoriano é um bom cumpridor de leis por cultura, nenhuma empresa se negou a atender a medida.
Sentados lado a lado, nenhum dos dois se comunicavam. Dante sente as pontadas ditas pelo seu tutor. Incapaz. Isso o mortificava a cada minuto que passava. Amava seu amigo de corpo e alma, mas algumas condições ali precisariam serem impostas. Ainda fumavam enquanto o veículo se movia. Ambos ao mesmo tempo, com os mesmos movimentos, com a mesma intensidade. Dante não era incapaz. E nem Vergil era seu controlador. O homem de cabelos curtos e brancos, olhos azuis escuros, e pele levemente dourada, conhecia bem seu potencial, até onde poderia ir. Mas Dante não. Tais qualidades, ou defeitos, mal teve a chance de descobrir pois tudo era restrito para si. Se negava a se utilizar dos protocolos de segurança pois sentia que isso o enfraquecia. Vergil o protegia. O protegia de quase tudo. Seu trauma parecia nunca ter sido apagado. Continuava por lá. Continuava atormentando seus sonhos toda vez que fosse dormir.
[Dante] — "Ainda continua tendo pesadelos?" — [semblante triste].
[Vergil] — "Éh, às vezes sim... infelizmente não tem muito o que fazer quanto a isso."
[Dante] — "..."
[Vergil] — "Olha..." — [olha para o amigo] — "Me desculpe pelo que eu disse agora há pouco." — [arrependido].
[Dante] — "Acho que também não tem muito o que fazer quanto ao risco de me machucar em tudo que eu fizer, não é?" — [olhar abatido].
Vergil acende o alerta. Salta os olhos por um breve momento.
[Dante] — "É um fardo que tenho que assumir..." — [olhar abatido].
[Vergil] — "Eu entendo seu ponto. Só quero te proteger." — [olha para o amigo].
[Dante] — "Eu não sou um fraco, Vergil. E nem preciso de muletas. Eu sei até onde posso ir." — [olha com raiva para Vergil].
[Vergil] — "Você não é fraco, nem incapaz... só acho que tem certas coisas que não temos controle, ainda que queiramos. Eu me expressei mal..." — [desvia o olhar, entristecido].
[Dante] — "..." — [olhar apático].
[Vergil] — "Se não estiver se sentindo bem, não precisar vir comigo se não quiser."
[Dante] — "Não. Eu vou." — [olha para Vergil, balançando a cabeça] — "Eu vou sim."
Ambos voltam a fumar em silêncio. À medida que os longos minutos se esvaem, os cigarros se queimam até o fim de seus corpos, restando apenas a fumaça rósea. Bastante saboroso para Dante, este se sente mais relaxado e focado. Estava determinado a jogar naquele dia. Embora nunca tinha se sentido tão ultrajado, não gostava de discutir. Vergil sentia que tudo que tocava parecia se dirigir para um mesmo lugar, um mesmo destino. Quanto mais vezes provocava sem querer, mais fazia seus amigos próximos se flertarem com a morte. Não era apenas uma questão de virilidade, mas existencial. Humano, pura e simples.
Fora do metrô, a gigantesca plataforma concedia vistas estonteantes da paisagem, dos prédios, das casas e da natureza. Alguns insetos e pássaros conseguiam entrar dentro de veículo e até fazer ninhos. Isso quando não entravam outros animais pequenos como gatos, micos, guaxinins e furões. Já houve casos de possantes tigres vermelhos de estimação frequentando normalmente os metrôs da cidade. Como não faltava serviço para os cidadãos, os transportes eram constantemente limpos e organizados.
O tempo passa devagar. Nenhuma palavra foi pronunciada entre Vergil e Dante. Duas horas pareciam um dia. Dante ajustou seu assento para que pudesse ficar deitado por um tempo e Vergil se isola em seus fones de ouvido. Sem que o híbrido percebesse, o homem olha para Dante, já pensativo e preocupado. Não estava mais seguro sobre como lidar com quem conviveu por vários anos. Ao mesmo tempo, não queria afastá-lo. Toca gentilmente o ombro do amigo, que sutilmente retribui tocando a sua mão. Em silêncio, ambos permanecem com olhares fixos para a frente e sem qualquer expressão em suas faces.
......[DESEMBARQUE.PONTO OESTE. SETOR III. 17H73 DA MANHÃ]......
Os passageiros se retiram ordenadamente do veículo, todos com sobretudos das mais diversas cores extravagantes, alguns com toque de neon em sua composição. Os dois amigos são os últimos a sair. Uma longa caminhada ao longo de uma comprida e extensa plataforma brilhante foi percorrida pelas pessoas, a qual de declinava até o piso asfáltico. As variadas construções de diversos tamanhos, cores e formatos em conjuntos de três grandes ruas, cada qual para cada pedaço de uma enorme estrutura em forma de cruz da área urbana, dava uma dimensão do tamanho daquela cidade. Uma possante e ramificadíssima árvore rica em flores e frutos, ficava localizada na parte central do cruzamento. Sinaleiros muito bem elaborados e estilosos, mais pareciam enormes abajures modernos. Só haviam três cores: o vinho, o azul celeste e o laranja, na qual o primeiro, seria o "PARE". O segundo, "SEGUIR". O terceiro, "ATENÇÃO". Bem peculiar. Ao virar à direita na rua mais próxima, o destino estaria logo à frente. Dois absurdos blocos espelhados horizontais de 10 andares, cercado por áreas que mesclavam o verde, os muros brancos, que mais pareciam serem feitos à base de mármore, e o piso de granito da mais alta qualidade. Para cada bloco, havia uma clara divisão entre os alunos "normais", o bloco "S" à direita, e os considerados "especiais e afins", o bloco "E" à esquerda.
Era a época de jogos internos. O 18º mês era a época das competições. Havia grandes partidas esportivas espalhadas por toda a Ilha-País como uma forma de celebração ao esporte. Desde a queda livre de altos prédios, colisão de veículos pesados e até pancadaria e lançamento de bolas gigantes e maciças, eram o ponto alto deste período. Corridas de patins e jogos de empurra-empurra também eram muito comuns junto com as queimadas. Todos daquele país queriam e gostavam de praticar atividades físicas. Era um hobby e necessidade. Para cada intervalo de trabalho, os SH's costumavam parar para jogar nas praias, arenas e quadras por pelo menos meia hora antes das refeições. Para quem tivesse muita fome, bastava inverter as funções. Quando finalmente chegam na porta da estonteante faculdade, os dois, tutor e tutelado, se separam:
[Vergil] — "Te vejo às 23?" — [sem jeito].
[Dante] — "Vou te ver no intervalo." — [neutro].
[Vergil] — "Ok... então até mais..." — [se despede, exibindo uma das mãos para cima e virando as costas].
[Dante] — "Até..." — [mantém o olhar segundos antes de partir em retirada].
Dante caminha por um longo percurso até onde seria a sua turma de sala, a qual misturava os "subs" e os intermediários. Quase todos bem desinteressados. Alguns, empacotados de frio. Ao colocar seus objetos em uma das mesas individualizadas, o mesmo vai buscar por um café em uma máquina de bebidas ao lado. O próprio robô automático preparava cafés, chocolates, cappuccinos, chás, dentre outros. Dante escolhe o tradicional café vermelho. De longe o híbrido podia escutar as conversas dos alunos sobre os eventos. "Você vai participar de algum esporte?"; "Eu? Vou participar como, se nem aguento uma bolada na cara? Vou focar nos jogos de tabuleiro mesmo..."; "Eu acho tão chato isso, enquanto os do bloco S tem os melhores jogos, a gente aqui fica sem nenhuma relevância..."; "Se pra vocês já é difícil, então imagina pra mim? Eu envelheço em dois tempos e não posso fazer absolutamente nenhuma dessas atividades, e eu PRECISO me exercitar! E o pior é que esses jogos valem nota, e eu nem vou poder jogar..."; "O povo de lá só tira nota máxima, não se vê ninguém com nota baixa... poxa, eles podiam dar um pouco da nota dos jogos pra gente! Afinal, nós organizamos esse vento"; "E você acha que eles vão dar a nota de gordura pra gente?? Nunca!". Dante fica pensativo e desapontado com o que escuta. Mas ainda assim, estaria disposto a pagar um preço pela ousadia que viria a cometer.
Voltando ao seu lugar, passa a observar os colegas enquanto saboreia o café. Munido de sobretudo escuro, com luvas sem dedos de inverno vermelhas, Dante pouco conversava, pouco interagia. De sala com alunos de origens misturadas, cada qual costumava procurar por iguais para se encaixar. Híbridos se misturavam com outros híbridos enquanto os humanos comuns preferiam se juntar com outros de mesma linhagem. Semi-híbridos poderiam ter mais dificuldades de se encontrarem devido à baixa taxa dessa variação genética. Sendo Dante, o mais próximo de um SH, pouquíssimos alunos se interessavam em ter qualquer contato com o mesmo.
Ao longo da vida, o rapaz cultivou poucas amizades, mas todas sólidas, apesar. Desde muito cedo, já vinha cultivando laços duradouros, já que era mais difícil arranjá-los. Entretanto, não era incomum Dante receber penalizações pelos diversos espancamentos que fizera contra seus provocadores em período escolar...
-----------------[F L A S H B A C K]---------------
Coros e gritos de uma roda de alunos uniformizados rondavam dois jovens montados um ao outro, em um banho de sangue. Apesar de encharcados, as feridas costumavam cicatrizar de forma relativamente rápida. Especialmente para quem estava em cima, que mal havia sofrido qualquer arranhão. O rapaz debaixo fazia de tudo para se defender dos socos, mas só arrecadava mais golpes no meio do nariz. Perfurações na orelha, joelhadas nos testículos, dedos nos olhos. Apesar dos hematomas, nenhum golpe baixo neutralizava Dante.
[Garota 01] — "Acaba com ele, Dante!!" — [mãos paralelas à boca].
[Homem 01] — "Levanta daí, seu imbecil!!" — [joga um dos braços].
Uma forte torcida pendia para o híbrido, que estava em vantagem sobre o rival. Cadeiras, barras de ferro, garrafas e pedaços de madeiras eram jogados por todos os lados. Tudo foi usado para golpear Dante, que mal tonteava. De tanto apanhar na cara, o jovem acenou desistência para que Dante parasse. Após 03 horas de briga, triunfante, o vencedor logo se levanta com os braços estendidos e descamisado enquanto era fortemente ovacionado pelos outros estudantes. Limpando o rosto e cuspindo ao chão, Dante segue em meio à multidão de arruaceiros, que passaram a respeitá-lo após esse fatídico dia.
Nos seus pensamentos, apenas passavam pelos momentos em que era constantemente coagido por sete alunos pelos corredores enquanto avistava sub-humanos encolhidos pelos cantos, uns de rostos tampados, outros até machucados. "E aí, damasquinho! Foi você que sentou no meu lugar, não foi??"; "Seu lugar é no fundo, seu palhaço."; "Quem você pensa que é pra entrar na copeira, hein, sangue fraco??". O período do ensino médio, era um inferno para a maioria daqueles pobres seres. Mas a humilhação de perder para um intermediário, aquele infeliz jamais iria esquecer.
Em isolamento numa detenção escolar por 30 dias, agradecia a cada segundo por cada surra que conseguira desferir contra seu algoz. Das paredes ao lado, Dante podia escutar um grupo de alunos se queixando enquanto tomavam batidos de leite.
....."Caceta, eu meti tudo o que podia na cara dele! Cadeira, taco, garrafa, facas, pedras, a PORRA TODA! O cretino nem tremeu!".....
........."Eu acho que ele mentiu sobre a origem dele! Nunca que alguém iria te surrar daquele jeito ali."
.........."Eu também fiquei surpreso... acho melhor você parar de tomar amaciante e passar a se alimentar melhor. Sua força tá indo pro ralo, cara"....
Após a derrota, o perdedor já estava novo em folha, mas destruído por dentro. Dante estava sob fortes dores pelo corpo, mas inteiramente realizado.
-------------------------- MOMENTO ATUAL. 20H50 DA MANHÃ.
Terminam-se as aulas e inicia-se grande evento dos jogos internos. Vários alunos se preparam para competir. Mesmos os esportes mais irrelevantes eram muito praticados pelos estudantes. Às 21h50, seria dado início à cerimônia de entrada. Porém, enquanto todos lotavam as cantinas, Dante iria logo buscar seus pertences em um dos seus armários privativos e ir em direção aos fundos dos prédios para pular os muros rumo ao bloco "S", descendo pelos corredores. Saltando de uma janela e passando pelo gramado junto a uma trilha de piso em granito, o híbrido facilmente pula às paredes que dava acesso à área de lazer do grande bloco de acesso restrito aos SH's. O local estava vazio e intocado. Com o céu brilhante e raios solares intensos, cada um dos aparelhos, assentos e estruturas, eram bastante realçados. Sem que ninguém o visse, passou junto aos muros até uma porta de entrada para a escadaria até o primeiro andar. As edificações da grande universidade eram construídas em forma de dois grandes e suspensos quadrangulares, suavemente "deitados" um em oposição ao outro, até que uma das extremidades de um toque a do outro. Para cada extremidade, havia um suporte forte o bastante para mantê-los lindamente intactos. Dentro de uma das construções, a enorme e circular área de esportes, aonde dezenas de pessoas estariam se inscrevendo para participar logo após o término das aulas.
---------------[1º ANDAR. EUFORIA. LOCAL DE INSCRIÇÕES]-----------
Um imenso corredor recepcionado a gritarias, coros e risadas coletivas dominava as cobreadas e extensas paredes daquele lugar. As luzes do sol batiam nos rostos de cada um dos estudantes uniformizados, cada qual com respectivas carteiras de identidade para que pudessem fazer parte dos grandes jogos. A agitação daquele ambiente deixava Dante ainda mais fascinado. Homens que se cumprimentavam com forte colisão de cabeças e mulheres que jogavam jarros d'água colorida à 100 graus umas nas outras para comemorarem. Tudo era clima de confraternização e alegria, e os esportes, eram extremamente agressivos. Os primeiros seriam um dos mais pesados: Queimado e Tornado. A premissa de cada um era testar justamente a resistência de cada jogador até que os perdedores sejam jogados para fora da linha da faixa sinalizadora ou percam a bola de vista. As bolas eram todas feitas de chumbo maciço e eram bastante pesadas. Qualquer humano comum que tentasse, era morte. Tanto é grave que as fronteiras que isolam a área de esportes são feitas de material siliconado, composto por um estofado que reduziria o impacto das bolas. Por mais que as construções fossem resistentes, ainda havia risco de danos à estrutura. Os tetos do local, eram todos compostos de vidro espelhado.
Vinculado às paredes, o afortunado rapaz se depara com telas de computadores que computavam as inscrições de cada aluno aos jogos internos. Ao tentar colocar o seu nome junto ao sistema, Dante é surpreendido com a negativa de sua participação alegando a mensagem "HÍBRIDO NÃO É AUTORIZADO". Desapontado, o híbrido tenta descobrir um jeito de ludibriar a máquina.
Dante visualiza novamente a máquina
computacional e pensa por alguns segundos. Aproximando-se da mesma, se
depara com uma das alternativas de inscrição: a de convidado. Caso o
fizesse, teria que dar o nome completo da pessoa que supostamente o
convidara para participar dos jogos, o que lhe acarretaria uma taxa de
permissão direto à sua conta, debitada de forma automática. Pensou por alguns momentos em colocar
terceiros da universidade como responsáveis pelo convite para que tivesse a permissão de jogar. Deslizando suas mãos sobre os cabelos escuros, faz a primeira tentativa. NEGADO. Segunda tentativa. NEGADO. Terceira tentativa. NEGADO. Quarta tentativa. NEGADO. Quinta e última. NEGADO. Nenhum dos nomes estava confirmado como responsável. Para tal, teriam que enviar o convite virtual para o e-mail do convidado. Como não recebera nada de Vergil, não sabia o que fazer.
Andando de um lado para o outro, acaba trombando com um dos fiscalizadores do evento, que o fitou com certa desconfiança.
[Dante] — [balança brevemente a cabeça para o homem e estende os braços, em tom de afronta].
[Fiscal] — "Você é que é o Dante?? Do bloco E??" — [aponta para o mesmo, desconfiado].
[Dante] — "Não, tá me confundindo..." — [olha para o lado].
[Fiscal] — "Então qual é seu nome?" — [olhar inquisitivo].
[Dante] — "..." — [fica surpreso e se cala por alguns segundos].
[Fiscal] — "Éh... parece que é você mesmo...!" — [abre um dispositivo similar a um tablet, só que em forma de película dobrável, preso a dois suportes paralelos].
[Dante] — [língua nos lábios] — "Olha, eu vim aqui como visita, não sou jogador..." — [levemente nervoso].
[Fiscal] — "Então porque omitiu seu nome?" — [desconfiado].
[Dante] — "Porque achei que não pudesse entrar aqui...!" — [olhar fixo, mas confuso e sem graça].
Era uma tática primária, quase estúpida. Mas o homem de pele levemente dourada e cabelos louros, concede o benefício da dúvida para o rapaz, com milhões de ressalvas.
[Fiscal] — "Quem é seu tutor?" — [olhar vigilante].
[Dante] — "Vergil DREDD..." — [olhar para o tablet].
O fiscal, temendo um novo tumulto envolvendo mistura de "raças", saca de um micro dispositivo de sua bolsa em sua cintura e coloca gentilmente na nuca de Dante, que quase reage à ação do homem.
[Dante] — "Não, não...! Ah...!" — [suspira, com o rosto em leves movimentos enquanto expressa decepção].
[Fiscal] — [aponta o dedo para Dante] — "Você será monitorado." — [avisa] — "Se acontecer qualquer coisa com você, vai cair na conta do seu tutor." — [olhar inquisitivo].
[Dante] — "Não acredito, é sério isso??" — [levanta uma das mãos com o intuito de retirar o aparelho dispositivo de sua nuca].
[Fiscal] — "Não toque no aparelho! Vai te dar uma descarga elétrica...!" — [aponta para Dante].
O híbrido relaxa os dois braços, visivelmente aborrecido.
[Dante] — [olha para os lados] — "... Ok, então... é só isso?" — [decepção].
[Fiscal] — "Éh... é só isso." — [parte em retirada].
Antes que o homem se distanciasse de Dante, o mesmo o pergunta:
[Dante] — "Quer dizer que vou poder jogar??" — [olha em direção ao homem].
O fiscalizador vira o rosto para trás.
[Fiscal] — "Não deveria... mas na real, eu cansei de ser babá de híbrido..." — [tédio].
Dante deixa escapar um micro sorriso enquanto fitava o fiscal. Percebendo o híbrido cheio de si, o homem de camisa laranja finaliza.
[Fiscal] — "Que é? Acha que é o único a burlar os jogos?" — [sorri brevemente] — "Tem um monte deles infiltrados aqui..." — [vira as costas e caminha pelo corredor].
Após o término da abordagem, Dante se sente aliviado por não ter sido expulso. Antes que pudesse partir em retirada, o mesmo repara uma pulseira solta da máquina da qual tentava desesperadamente se cadastrar para ter permissão de acesso. O mesmo puxa a pulseira rosa choque e a adesiva em seu pulso, já com a descrição "autorizado", em letras pretas. No final, a permissão de cadastro foi realizada pelo próprio fiscal que o abordou. Sentindo-se livre e levemente orgulhoso, Dante caminha pelos corredores em busca de um vestiário, já munido de sua mochila. O fiscal, já distante de Dante, fala entre murmuros:
[Fiscal] — [suspira] — "Esses filhos de presidente sempre arrumam uma enrascada." — [balançar de cabeça].
..........................................................
[INTERVALO.PÁTIO DO 2° ANDAR. PERÍODO DA MANHÃ]
Os dois cúmplices há muito tempo não aproveitavam os minutos de mãos entrelaçadas entre cabelos e o dedilhar de dedos pela nuca. Era o beijo mais longo daquela manhã. Os enormes cabelos em suave lavanda mais pareciam macias e volumosas cortinas sedosas e brilhantes. Cinturas e peito se uniam um ao outro. Após vários anos, finalmente tiveram o privilégio de estudarem na mesma instituição. Depois de longos minutos grudados um ao outro, ambos se sentam bem próximo ao outro em um dos bancos acolchoados do corredor. Perna sobre perna, braço perpassando ombros.
[Eksênia] — "Você está tão radiante, Vergil...!" — [desliza carinhosamente suas mãos no rosto de seu parceiro] — "Senti tanto a sua falta..." — [feliz].
[Vergil] — "Também senti saudades minha querida... como tem sido seus dias na Estrela do Norte?" — [sorriso leve].
[Eksênia] — "Calmos e frios, na verdade. Lá tudo é bem nevoso e o sol muito forte. Estava terminando o ensino médio e me falaram dessa universidade aqui de Vandora."
[Vergil] — "E a do seu município? Nunca quis concorrer à vaga?" —[sereno].
[Eksênia] — "Ah, eu até queria. Mas as universidades de lá são todas pagas e caras. Não é pra qualquer um. É daí que descobri que as universidades de Vandora são custeadas pelo governo. E como eu adoro esporte, não pude deixar passar essa oportunidade." — [feliz].
[Vergil] — "Isso é ótimo! Tive uma vida mais tranquila quando eu e meu pai nos mudamos de país. Ele me deixou morar sozinho desde os 33 e agora é o presidente da Ilha-País e o favorito do povo. Um gestor de primeira."
[Eksênia] — "Sim! Ouvi falar do seu pai. 33? Nossa, bem cedo! Como se virou nesses tempos?" — [surpresa].
[Vergil] — "Meu pai é muito amigo de um dos aristocratas daqui de Vandora, e por isso, esse cara me colocou para ser o tutor do filho híbrido dele em troca de um valor. O salário é muito bom. Tem me quebrado o galho. Fora as atividades em família que ele sempre me chamava para participar. Eu sempre aproveitava para comer e tomar banho. Já dormi várias vezes no casarão também."
[Eksênia] — "Que coisa boa! Eu só soube o que era morar sozinha aos 70. Eu trabalhava em uma boate e ainda estava terminando a escola. Mas me fala, e o seu tutelado? É aquele híbrido? O de cabelos pretos e olhos vermelhos?" — [curiosa].
[Vergil] — "É ele mesmo! O nome dele é Dante." — [animado].
[Eksênia] — "Mas ele está tão bonito...! Como ele está?" — [admirada].
[Vergil] — "Está ótimo. Meio agitado e desfocado às vezes, mas está bonito e cheio de saúde. E FORTE viu? Ele anda me surpreendendo..." — [sorri, olhando brevemente para o lado].
[Eksênia] — "Hum..." — [sorriso sugestivo] — "Pelo visto você andou cuidando bem dele, hein?" — [sorri junto a uma leve cutucada e uma piscadela].
[Vergil] — "Ah...!" — [risos, mão nos cabelos] — "Você não faz ideia do quanto ele tem me dado trabalho esses tempos..." — [sorriso de canto].
[Eksênia] — "Ahh, todos eles são assim. Eu tenho um híbrido na família e ele sempre quer experimentar tudo o que não pode... Mas é compreensível." — [sorriso contendo o riso].
[Vergil] — "O meu é exatamente desse jeito!" — [entre risos].
[Eksênia] — [dedos frente à boca, entre risos] — "Mas e aí, somos nós no mesmo time?" — [saca de um aparelho telefônico de sua bolsa].
[Vergil] — "Sim... nós somos o time roxo. O laranja são os panacas do 3° andar." — [dedo para cima, sorriso de desdém].
[Eksênia] — Heck! — [entre risos] — "É por isso que eu sei que escolhi a melhor faculdade. Você é demais!" — [sorriso genuíno].
[Vergil] — "Mas também não é pra menos! Depois de quebrarem 10 garrafas de bebida na minha cabeça na recepção de calouros, eu tenho pelo menos que tirar as contas, não é mesmo??" — [confiante].
[Eksênia] — "Justo! Vou gostar de ver isso! Vai passar no vestiário?" — [guarda o celular].
[Vergil] — "Sim. Te vejo lá no estádio. Prepare os galões de água, vamos precisar." — [coloca a mochila nas costas].
[Eksênia] — "Sem problemas. Te vejo por lá." — [prepara seus pertences].
...........[CERIMÔNIA DE INÍCIO DOS JOGOS. 21H50. VESTIÁRIO]....
Fechando um dos espelhos do vestiário, Dante se olha por um tempo antes de descer para a quadra. Ainda de cabelos úmidos, verifica algo em sua bolsa, atrelada à cintura por meio de um cinto. Estava vestindo uma camiseta laranja com uma logomarca prateada no canto superior direito. Roupa que havia mantido conservada por meses anteriores aos jogos. Como o estilo dos uniformes não mudaram até então, seria mais fácil para o híbrido se infiltrar nos jogos.
Entretanto, a informação se espalhou muito rápido, e ao se dirigir até um dos armários, vários jovens de uniformes lavanda entraram no vestiário. Eram pelo menos uns sete. Dante sabia que eles eram problema, já se precavendo com um disparador de choque elétrico escondido. Os arruaceiros se depararam com o híbrido fechando o recinto para se retirar. O líder deles, um veterano da faculdade, se aproxima à largos passos de Dante até a porta, impedindo sua passagem por meio de um dos braços apoiados à frente da saída. Com uma feição cínica e debochada, o homem fita Dante, que mais parece estar entediado, desviando brevemente o olhar. Os outros encrenqueiros cercam Dante em círculo, uns apoiados nos armários, outros de pé e de braços cruzados. A sensação de desapontamento e de "De novo não..." tomavam a cabeça do rapaz. Por alguns segundos, os marginais encaravam o híbrido de forma ousada. Para quebrar o gelo, o rapaz corta o clima tenso do lugar:
[Dante] — [ombros pra cima, braços estendidos, olha para ambos os lados, seguido de feição de estranhamento] — "O que é isso...? ... Oh...!" — [feição sarcástica] — "Vieram me convidar pra um sexo grupal?" — [feição de indiferença].
Risadas são arrancadas dos sete marinais em todo o vestiário. Mal conseguiam se segurar de pé de tanto rirem.
[Líder] — [risos discretos] — "Criativo você, hein?" — [sorriso].
[Homem 01] — "Esse aí deve entender bem disso..." — [bate três vezes no armário, dando risadas].
[Homem 05] — "Ninguém aqui achou o pau no lixo, oh, lavagem de porco..." — [aproxima o rosto de Dante, enquanto o humilha].
Dante fecha os olhos, respira fundo e pensa por alguns segundos, já com raiva e nervosismo pelo constrangimento. Olha brevemente para cima e devolve a gentileza para um dos veteranos.
[Dante] — "Sorte a minha então..." — [evita encarar o marginal].
[Líder] — "Então é você é que é o "saladinha" do Bloco E, não é?" — [deixa o corpo ereto e coloca um pirulito na boca, cruzando os braços].
[Dante] — "Não, não sei, o que é um "saladinha"?" — [balançar de cabeça, seguida de feição irônica].
[Líder] — "Ah, qual é, amigo!" — [feição de aborrecimento] — "Tá de onda??"
[Dante] — "Não, é VOCÊ quem tá de onda com a minha cara...!" — [feição de surpresa e raiva].
[Líder] — "Ok, então." — [entre risos] — "Acha mesmo que pode entrar aqui e invadir os jogos de quem pagou pra entrar, filho??" — [polegar para trás e olhar inquisitório].
[Dante] - "Eu PAGO por esta merda." — [ressalta, olhando nos olhos do líder, mesmo constrangido].
[Líder] — "Paga VÍRGULA. Você paga pra jogar no SEU Bloco," — [gesticula] — "não no nosso." — [olhar invasivo].
[Dante] — "Eu PAGUEI pelos jogos. Paguei À PARTE." — [destaca] — "Os jogos são livres, ok??" — [ressalta com as mãos] — "Agora me dá licença que eu tenho que descer..."
Dante é bloqueado pelo arruaceiro e o impede de sair do vestiário.
[Dante] — "Cara... Me deixa passar..." — [constrangido].
[Líder] — "Se quiser descer, vai ter que passar por mim..." — [desafiador].
[Dante] — "E vai ficar quanto tempo na minha frente?" — [raiva].
[Líder] — "O tempo que for preciso..." — [deboche, colocando o pirulito azul na boca].
Dante começa a ranger os dentes de raiva e dá uma profunda respirada antes de fitar a cara do arruaceiro. Os outros marginais coagem cada vez mais o Dante, deixando-o em desvantagem. Dante começa a ficar nervoso e ao mesmo tempo, ríspido.
[Dante] — [olha para os lados, seguido de olhar de constrangimento e ódio] — "Se você não sair da minha frente, eu vou quebrar a sua boca junto com esse pirulito..." — [mão discretamente deixada na parte da frente da cintura].
O líder pega Dante pela gola e aproxima seu rosto com o dele para intimidá-lo.
[Líder] — "AH, É?? ENTÃO QUEBRA. QUEBRA QUE EU QUERO VER." — [feição de raiva].
Sem que o marginal percebesse, Dante havia colocado o disparador bem junto ao pescoço de seu agressor com o intuito de neutralizar o SH a qualquer momento. Trêmulo, o vagabundo percebe o nervosismo de Dante e se dá por satisfeito.
[Líder] — "Olha..." — [entre risos] — "Você tá com medo. Tadinho..." — [solta Dante jogando-o para frente, já visivelmente humilhado] — "Parece que alguém aqui não vai se concentrar direito..."
Um dos arruaceiros atrás de Dante, segura-o pela cintura para evitar que caísse no chão. Nenhum deles parecia se intimidarem com a arma nas mãos do híbrido.
[Homem 01] — "Opa! Cuidado aí, coisa linda..!" — [coloca-o de volta de pé, ainda com a arma na mão].
[Líder] — [Semblante de satisfação] — "Bora. Vamos saltar pra fora daqui. Nosso jogo vai começar."
Outro jovem, também com um pirulito na boca, aproveita para assediar Dante, agarrando seu rosto com um beijo no canto da boca para surpreendê-lo.
[Homem 03] — "Tchau, damasquinho." — [roça o pirulito rente à boca de Dante, que estapeia sob expressão de repulsa e nojo].
Todos os marginais partem em retirada para fora do vestiário. Antes que todos pudessem ir embora, o Líder acrescenta:
[Líder] — [Tira o doce da boca] — "Ah, é só pra constar, o time que vai enfrentar o seu somos nós, ok?" — [dá uma piscadela, enquanto arranca mais risadas dos outros membros] — "Vamos embora!" — [chama os outros com uma das mãos, enquanto dá o impulso com a outra em uma das extremidades da porta para fora do local].
Dante, já suficientemente devastado e constrangido, quase chora, sentando-se em um dos bancos por alguns segundos. Em uma ira súbita, dá um golpe de soco em um dos armários, que fica completamente destruído. Em seguida, arranca a porta do objeto e o lança contra um dos espelhos, quebrando-o em pedaços. Já com ódio, Dante saca sua arma e sai à passos largos em direção à quadra de esportes, já não tão animado quanto antes, mas mais vingativo do que nunca.
................................[PLATEIA AOS GRITOS E CORO. TORCIDAS ORGANIZADAS. PREPARAÇÃO DOS JOGADORES. TIME ROXO VERSUS TIME LARANJA. PRIMEIRA PARTIDA: QUEIMADO].
Todos os jogadores estavam ansiosos pelo início da partida. Seriam dois times opostos de 12 participantes cada. O jogo seria misto: Tornado e Queimado. Na primeira partida, as bolas só poderiam atingir mãos e pés. Caso qualquer outra parte do
corpo fosse atingido, o competidor era eliminado. Na segunda, o objetivo
era não ultrapassar a linha sinalizadora e jogar os adversários para
além da referida faixa. Se isso fosse feito, o competidor era eliminado. O time roxo se aproxima do gramado enquanto a torcida das arquibancadas levantava pompons, bandeiras e faixas aos cantos e coros bem altos. Grandes telões suspensos acima das arquibancadas iriam transmitir o jogo em tempo real para toda a faculdade.
O gramado possuía pigmentos que mudavam instantaneamente de cor à medida em que eram estimulados. O solo, não era terra: era uma película que abrigava perfeitamente as plantas, mantendo o a superfície do piso rígida, apesar de plantada. Vergil e Eksênia dariam cobertura um ao outro conforme combinado entre eles. O grupo laranja, do time oposto, fazem sua entrada, com sua torcida não muito diferente em nível de intensidade. Aquela cultura não cultivava líderes de torcida nos esportes. Ao invés disso, faziam competições de dança e ginástica coletivas nas competições. As típicas roupas daquele povo eram todos banhados às cores do time pelo qual torcem. O uso de tintas, fumaças coloridas e corantes eram bem comuns. Poucos eram os que permaneciam neutros nas arquibancadas.
O último a chegar na quadra, logo atrás dos "colegas", era Dante, que sequer fazia questão de disfarçar sua presença. Por sorte, o rapaz chegara à quadra muito antes de outro jovem cadastrado que estaria prestes a chegar. Por ter chegado por último e o time estar completo, o rapaz teve de ser deixado como reserva, o que lhe acarretou irritabilidade. "Como assim, já está formado?? Só tinham 12 contando comigo!". Dante conseguiu acesso mediante uma das pulseiras que arrancou da máquina pela qual não conseguia cadastrar aos jogos. Finalmente, ao notar que o híbrido estava no campo, Vergil fica incrédulo, e de forma discreta, se dirige ao tutelado, que fica de mãos no quadril:
[Vergil] — "... Você tá ficando MALUCO??" — [sussurra próximo ao rosto de Dante, com mãos abertas próximas ao próprio rosto].
[Dante] — "Não começa, ok?? Eu não vou sair daqui por sua causa!" — [irritadiço].
[Vergil] — "..." — [mãos deslizando no rosto] — "Faz isso só pra me irritar, não é?" — [aborrecimento].
[Dante] — "Que foi?? Tá com medo de perder pra mim??" — [braços horizontalmente estendidos].
[Vergil] — [surpreso] — "Ah, então é assim??" — [feição irônica].
[Dante] — "Éh, isso mesmo. Agora é assim que vai ser. Você contra mim, até o final dos jogos!" — [dedo indicador de cima para baixo].
[Vergil] — [balançar de cabeça com feição de desdém e raiva] — "Beleza..." — "Mas a multa fica pra você...!" — [vira as costas, irritado].
[Dante] — "Ótimo...!" — [feição de aborrecimento].
Já criado um clima de atrito entre os dois, ambos se posicionam nos seus respectivos espaços. Para cada um, havia uma faixa sinalizadora que não podia ser ultrapassada. Eksênia fica surpresa com a presença do jovem híbrido.
[Eksênia] — "..." — [estranhamento, seguido de um olhar para Vergil] — "Ele... ele vai jogar?" — [aponta discretamente o dedo indicador para Dante].
[Vergil] — [Olha para Eksênia com feição tédio e braços brevemente estendidos, como se fosse um "fazer o quê"].
A colega ficou sem saber o que pronunciar sobre o ocorrido. Era algo delicado e que poderia render desentendimentos. Os sete marginais fitavam Dante com ar de deboche. O líder seria o primeiro a quem Dante estaria disposto a massacrar. Cada partida teria a duração máximo de 50 minutos, e cada time teria direito a três jogadores extras. Os outros integrantes do time laranja começaram a notar Dante, estranhando a sua presença:
[L - 1] — "Hey... você."
[Dante] — [vira a cabeça].
[L - 1] — "Você é calouro daqui?" — [desconfiado].
[Dante] — Ãhn...sim, sou...!" — [meio sem graça].
[L - 6] — "Psiu!" — [chama pelo Dante].
Dante se vira para ele, sinalizando com a cabeça.
[L - 6] — "Eu posso te dar cobertura se quiser..." — [propõe].
[Dante] — "Valeu... eu vou aceitar sim..." — [balançar de cabeça].
Dante e o solícito colega se organizam para que ao híbrido fosse dada a cobertura. Uma garota, de longos e ondulados cabelos vermelhos escuros notava a presença de Dante. O seu nome: Haidi. As bolas de ferro maciças, eram compostas por um material similar a um silicone preenchido de amarelo-limão, que se destacava muito bem pela cor. Eram bem pesadas, mas tinham a eficiência de uma bola leve. Em eventos passados, as bolas eram colocadas todas "nuas" para serem utilizadas. Por milhares de anos, ainda se utilizavam bolas de ferro superaquecidas antes dos jogos. Mas Como havia a mistura genética, certos hábitos tiveram que ser revistos por precaução, já que o intuito era atender ao máximo de pessoas nos jogos, já pensando-se inclusive, nos "penetras". Eventos de acesso restrito eram bem mais brutais.
Chegou a hora. A bola, que estava nas mãos do time roxo, é jogada dando início à partida. 20 minutos se passaram, e até então, o jogo estava equilibrado. Um dos membros do time laranja, rebate a bola na mesma proporção, projetando-a rumo à uma das mãos de Vergil, que a derruba no chão, fazendo-a ricochetear de leve. Pegando-a de volta, mira em uma das garotas que estava próxima de Dante, que desvia rápido da bola. Aproveitando o embalo, o membro L - 1 interrompe a trajetória da bola com um dos pés, joga-a para cima e a chuta lindamente rumo ao líder dos marginais, que a chuta novamente. Com a bola indo rumo a Dante, este instintivamente soca a bola de forma a acertar um dos membros do time roxo, que se defende com o braço, lançando a bola para longe.
[R - 1] — "Ah...! Merda!!" — [reclama e sai do campo].
O líder dos marginais começa a ficar irritado com a perca de um dos membros e se dirige até a bola a fim de lançá-la contra Dante. Ao jogá-la com toda a sua força ruma à face do híbrido, este desvia curvando seu corpo para trás enquanto outro membro laranja cai, chutando a bola de ferro para a parede. Outro laranja aparece, e de longe, lança a bola contra Eksênia, que é protegida por Vergil com um dos punhos fechados. O objeto chumbado colide em um dos muros da quadra e Dante assume a bola, jogando-a a partir do canto de uma das extremidades da quadra. Lançando-a fortemente tendendo-a ao chão, um dos membros roxo erra o cálculo e a bola acaba ricocheteando contra o joelho do competidor, após ser repelida com um de seus pés. Ao ficar de pé, fica incrédulo.
[R - 4] — "Inacreditável...!" — [expressa negação e aborrecimento].
Vergil começa a chacoalhar as coisas. Já pega a bola, e de início, arremessa com toda a brutalidade para a cara do membro L - 6, que ao tentar segurar com as duas mãos, estas são projetadas contra seu rosto devido ao impacto. Por sorte, não teve contato com a bola. Caindo de costas e cabeça ao chão, a bola refletida termina rolando para o time adversário. A arquibancada se surpreende com a força de Vergil. Eksênia, furiosa, já lança a bola de ferro contra a garota de cabelos vermelhos escuros, que desvia sua cintura, quase escorregando, mas sem perder o equilíbrio. O membro L - 12 corre com a bola e salta 07 metros para acertar um dos membros do time roxo. Por sorte, todos rapidamente desviaram, acertando o piso do campo e fazendo a bola saltar por duas vezes parando nas mãos do membro R - 3. Este, repete o mesmo procedimento como reação à provocação do time laranja, só que quase acertando um dos membros que estava no fundo da quadra, rachando as paredes. Por sorte, todos os muros do campo eram cobertos com material siliconado, meio emborrachado, para amenizar o choque. O membro L - 7 engana o time roxo enquanto corria, tendo logo em seguida se jogado ao chão com o objetivo de acertar a bola com um de seus pés contra a perna de um dos membros, que acaba sendo pego por reflexo. Desacreditado, o homem sai batendo o pé para fora da quadra.
[R - 8] — "Mas que...MERDA!!!" — [grita furioso].
Já Eksênia, faz que vai acertar a bola para a esquerda contra Dante, mas, enganando os laranjas, arremessa a bola contra a garota ruiva, acertando fortemente a parede e voltando para as mãos de Vergil. Sob tática trampolina, Vergil arremessa o objeto contra a parede, fazendo com que um dos membros se jogasse para trás e a bola ricocheteasse e acertasse Haidi no traseiro. A menina ficou inconformada.
[Haidi] — "Mas que BOSTA, Vergil!" — [olhar irritadiço, caminha para fora da quadra. Vergil sorri se satisfação].
Eksênia e Vergil comemoram a saída de Haidi do campo. Dante resolve avançar agressivamente contra o líder que o agredira no vestiário, mas tem a sua bola contida por Eksênia, que, ricocheteando para baixo, foi novamente bloqueada pelas mãos do híbrido. Os dois então começam a medir forças um com o outro: um arremessa a bola, e o outro, repete a mesma ação de forma enérgica e rápida. No último arremesso de Eksênia, Dante se desvia, fazendo a bola acertar bem no meio do rosto de um dos membros laranja. Perdido o rumo de casa, o pobre rapaz cai ao solo com o impacto. Confuso e constrangido, este estende os braços horizontalmente e caminha até para fora da quadra. Já eram dois, de cada time.
[Líder Roxo] — "Já vai tarde!" — [grita, de mãos entre a boca].
[L - 9] — [mostra o dedo do meio para o provocador, com semblante de raiva].
Enquanto o líder sorri de satisfação, uma bola quase acerta de raspão em seu rosto, ricocheteando da parede e parando nas mãos de outro membro roxo. Após passado o susto, percebe que foi Dante que deu a iniciativa, exibindo um olhar desafiador. Tomando a bola do colega, o líder furiosamente lança a bola contra o chão para refleti-la contra Dante, que liso, desviava com facilidade. Outro membro laranja simula um movimento circular para arremessar a bola, que, devido a força, acerta bem no ouvido de um dos membros roxo, que acaba caindo para fora da faixa. Era o R - 5. A humilhação estava feita. O homem ficara levemente desnorteado por alguns segundos pois os ouvidos dos SH's são um pouco mais aprimorados e sensíveis a impactos. As telas dos televisores, focam no rosto do homem caído como um verdadeiro pedaço de repolho.
Enquanto os membros laranja davam risada e comemoravam o ataque, duas grandes boladas puderam ser presenciadas contra três membros laranjas: ambos em seus rostos. A trágica dinâmikca do trajeto foi a seguinte: quando a bola acertara contra um, ricocheteava contra o outro, e em seguida, contra um terceiro. Tudo isso num piscar de olhos. O estrago estava feito. Em alerta, Dante e os outros laranjas começam a desviar de várias boladas como se fossem balas. Era impossível pegar a bola ou mantê-la parada na parte do time laranja devido aos fortes impactos que a faziam voltar em sentido contrário para o time roxo. Os adversários acionaram o modo "Rage" para o desespero dos laranjas. Os três coitados que já estavam fora do jogo, sequer tiveram tempo para se levantarem. Viraram escudo humano. Só tomavam porradas atrás de outras. Tiveram que rastejar para fora do campo. Os telões das arquibancadas continuavam a exibir cada detalhe do jogo.
Por sorte, Dante era liso. Qualquer arremesso que faziam, ele desviava como se tivesse fazendo uma apresentação de dança. Pés para cima, costas para trás, cintura para esquerda e direita. Cabeça de um lado, depois para o outro. Não se cansava. Era como se tivessem arremessando balas de canhões contra os laranjas, que não paravam de correr ou desviar. Era desesperador. A plateia vibrava com a desgraça dos laranjas. Até que em um dado momento, o feitiço voltou-se contra o feiticeiro: o líder, ao se utilizar de força muito superior ao costumeiro para arremessar a bola, esta, além de refletir da parede do time oposto, de forma veloz, a bola volta contra a parede do time adversário, ricocheteando de forma certeira, contra atrás da cabeça do jovem marginal. Este, sendo projetado para frente, salta os olhos e percebe que foi eliminado. O homem conseguiu a façanha de acertar a si mesmo. Eksênia, fica impressionada com a cena:
[Líder] — "Mas QUE CARALHO!!!" — [joga a bola no chão, rachando o piso].
O homem caminha com raiva para fora do campo e começa a encarar Dante:
[Líder] — "BOA, seu híbrido de merda!!" — [raiva genuína].
[Dante] — "Foi você que se acertou, SH inepto...!" — [devolve, projetando seu rosto para frente].
[L - 7] — "Espera aí... Híbrido? Foi o que eu ouvi?" — [estranheza].
[Dante] — [olha para trás] — "Você não ouviu nada, cara, só joga...!" — [uma bola passa rente os dois competidores].
A arquibancada entra em choque com a gafe do líder e mais gozações rendem a plateia. Haidi dá risada do outro lado da quadra e Vergil esboça decepção com seu colega. Apesar da agitação, muitos espectadores que escutaram a lamúria do competidor, ficaram suspeitosos quanto a Dante. Uma mulher que estava na arquibancada, foi até um dos organizadores do evento questionar a legitimidade de Dante para jogar: "Com licença, aquele rapaz é um híbrido? Ele pode jogar?". A informação começou a se espalhar pelas arquibancadas e até alguns híbridos que estavam infiltrados começaram a se levantarem dos bancos e irem embora. Pelo menos por enquanto, até a poeira baixar. Outros espectadores começavam a achar interessante o fato de um híbrido invadir os jogos: "Será que aquele ali machuca?? Eu tô ansioso pra ver se alguém consegue queimá-lo"; "Corajoso, hein? E o tutor dele? O que será que ele acha disso??".
O jogo continua. O ritmo frenético de lançamentos de bola como se fossem foguetes não paravam. Para interromper o ciclo, um dos laranjas, o L -11, consegue acertar a bola com um dos seus pés em sentido contrário enquando a mesma rodava rumo ao campo do time roxo. Com o primeiro passo dado, um dos aliados logo atrás dos demais jogadores se joga no chão para interceptar a bola, fazendo-a parar nas mãos do time laranja. Já pronto para lançar o próximo ataque, o rapaz arremeça a joga para cima quando os dois membros das duas cores pulam para tentarem chocá-la no sentido contrário. Quando um laranja a alcança primeiro, o golpe do jogador colide a bola contra a mandíbula de um dos roxos, que simultaneamente a reflete contra o rosto do competidor laranja, eliminando os dois de uma única vez. 06 jogadores de cada time já haviam sido eliminados da disputa.
Com a bola no chão, bem ao meio entre a região do time laranja e o time roxo, Eksênia e Dante se jogam rumo ao objeto para tomá-lo um do outro. Com ambos pegando o objeto ao mesmo tempo, Eksênia força para que os dois saiam rolando no gramado com a bola esverdeada nas mãos. Percebendo que Dante era persistente, ambos se levantam para puxar a bola um do outro com as forças que tinham. Transitando entre a posição de joelhos e depois de pé, Dante não conseguiria medir forças com Eksênia por muito tempo. Dessa forma, o homem rapidamente empurra o objeto contra o peito da moça, que acaba caindo para trás junto com a bola. Tal feito ardiloso a fes ser instaneamente eliminada da partida. Com a bola verde em suas mãos e se sentindo uma completa idiota, Eksênia dá um estridente grito de inconformismo e lança violentamente a bola contra Dante, que se abaixa, deitando-se ao chão. O objeto chumbado colide-se fortemente contra a parede e Vergil se surpreende com a raiva de Eksênia. A força era tamanha, que a bola ultrapassou a proteção que estava vinculada à parede, ficando cravada à mesma.
[Dante] — "Hey...!" — [assustado e incrédulo].
[Eksênia] — "Dê um jeito de tirar seu tutelado do campo, Vergil..." — [expressão de raiva enquanto passa pelo seu amigo].
[Vergil] — "Relaxa, Eksênia... é só um jogo, mulher..." — [preocupação].
[Eksênia] — "Humpf!" — [senta-se em um banco, já emburrada].
Após o surto de Eksênia, a bola é retirada com um pouco de custo da parede e para nas mãos de um dos laranjas, o L -8, que logo tem Vergil como alvo principal do ataque. Esticando seu corpo para arremessar a bola, esta por pouco para na cara de Vergil, que desvia. Um dos roxos logo atrás dele, também se abaixa. Vergil toma as rédeas do jogo e corre com a bola a fim de se deslizar no chão e confundir os adversários. De barriga para cima, o mesmo arremessa a bola com os seus dois antebraços de trás para frente, que quase acerta o queixo de um dos desavisados do time oposto. Dante assume a bola e a joga para cima para acertá-la como se fosse uma partida de vôlei. Ao se defender do objeto, um dos roxos acidentalmente bloqueia a bola com os antebraços ao invés das mãos, o que o faz ser eliminado do jogo.
[R -11] — "Ah....! Porcaria...!" — [suspirando, parte em retirada].
Os roxos já estavam começando a ficar em clara desvantagem por conta de seus deslizes tolos. O momento de atordoamento coletivo é interrompido quando um dos membros surpreende os laranjas com um lançamento utilizando-se de um dos pés, o que faz a bola explodir contra a parede bem próximo à cintura de um adversário, que ao se desviar, percebe que por pouco não foi atingido. O problema é que um dos desavisados laranja aproveita o embalo para pegar a bola atrás dele, e direto, lançá-la no sentido oposto quando é surpreendido por um roxo contendo o objeto bem à sua frente, com as duas mãos, mesmo em longa distância. Já pego de surpresa, o membro roxo só precisou devolver a bola rumo ao rosto do adversário em milésimos de segundos. Finalmente, um laranja é expulso. A bola cai no chão e o competidor eliminado a pega de volta, já desapontado. O felizardo pelo ataque, foi o próprio Vergil.
[L -03] — "Sua vez...!" — [dirige-se a Dante, lançando a bola para o mesmo].
Com a bola em mãos, Dante começa a realizar movimentos em zigue-zague para confundir os integrantes do time roxo. Para sacanear os adversários, simula por diversas vezes que vai lançar a bola, quando na verdade, era só uma distração. A plateia começa a se agitar à medida que o híbrido deixava o suspense e atiçava a ansiedade dos rivais. Um dos homens que fazia parte do grupo que o assediou, virou seu alvo principal. Depois de muita embromação, alguns espectadores perdeu a paciência com Dante: "Joga logo, seu PALHAÇO!!!", o que faz híbrido logo se irritar com a provocação. Em resposta, Dante troca a bola de mãos por três vezes, e ao arremessar como se fosse no sentido esperado, o faz pela direção oposta de forma furtiva, atingindo ridiculamente um dos membros do time adversário no peito, que se assusta por não esperar ser atingido pela bola verde. Incrédulo, o homem olha Dante por alguns segundos antes de se retirar:
[R - 2] — "Filho da puta..." — [resmunga enquanto vai embora do campo].
A expressão de satisfação de Dante era tudo que o híbrido precisava naquele momento. Dois de seus agressores foram eliminados do jogo. Só restavam Vergil e mais dois membros do time roxo. O L - 07, já se sentindo confiante, joga a bola para cima e desfere um golpe com um de seus pés contra os jogadores para surpreender os roxos. Entretanto, ao se aproximar da bola, Vergil a devolve com um belo chute certeiro rumo ao meio do nariz do laranja antes que ele pudesse bloqueá-la com uma de suas mãos, fazendo com que o objeto seja projetado para cima e o adversário caia para trás. O L - 07, já estava acabado.
[L - 07] — "Caramba...!" — [impressionado, limpa o rosto se levanta para ir embora].
Dante observa aquilo surpreso e espantado. Nunca havia visto um movimento tão veloz antes. Se ele tinha o dom de se desviar, o seu tutor era muito bom de ataque. Os membros laranja "05" e "10" começam a fazerem trocação de bola um com o outro por várias vezes seguidos para confundir o time roxo à medida que se aproximavam para o meio de campo. Aproveitando que um dos roxos estavam em um canto mais à esquerda, os dois laranjas aumentavam a velocidade da trocação até que no último repasse, o L - 05 arremessa a bola, atingindo o joelho de um dos roxos que tentava se desviar do lançamento.
[R - 03] — "...Tsc! Desgraça!" — [resmunga].
Os outros eliminados do jogo esperavam pacientemente nos bancos. Alguns mais empolgados, outros mais tediosos com a partida. De braços cruzados, alguns roxos liam revistas enquanto mascavam chicletes. Alguns membros do time oposto apostavam em um café com biscoitos na lanchonete. O local de reserva para os eliminados era protegido por uma vidraça para evitar que alguém fosse atingido pela bola e atrapalhasse a passagem de pessoas no local. A arquibancada estava ficando cada vez mais empolgada com o time laranja. Os torcedores roxos já mal levantavam os seus pompons. Ficavam cabisbaixos em suas confortáveis cadeiras, de braços cruzados e com caras amarradas. Alguns, levantavam de forma tímida e desanimada, umas bandeirinhas bem pequenininhas com feições de descrença. Outros, comiam lentamente a pipoca que restavam em seus recipientes, já decepcionados com a possibilidade de perderem a partida. Só não apostavam que naquele time, ainda tinha Vergil como integrante. E o bastardo não sabia como perder uma competição.
Só haviam 02 integrantes do time roxo e 04 do time laranja. Três mulheres e três homens. Sentindo-se mais seguros entre si, os laranjas começam a atacar Vergil ao mesmo tempo, adotando um radical estilo "balas de canhão" contra o rapaz. As meninas confundiam constantemente o jogador e a bola maciça passava muito próximo ao corpo do jovem, que ainda assim não tinha problemas para desviar. A cada arremesso, a bola ricocheteava da parede do time oposto em direção para o outro lado da faixa sinalizadora, o que facilitava para os laranjas pegarem o objeto e o lançarem novamente, seja no chão ou no ar. Enquanto Vergil era o alvo principal das garotas, Dante focava no jovem que parecia estar livre da atenção delas. Como todo tipo de criatividade já fora posta em prática, não restava nada além da força bruta. Era final de jogo. Era tudo ou nada. A não ser para Vergil.
Como o time laranja não iria permitir que a bola parasse no lugar, os dois jovens mudaram o foco a fim de tentar pegar o objeto de volta. No conseguinte arremesso por uma das meninas, Vergil rapidamente se baixa, mas não perde tempo: pouco antes de uma das bolas parar nas mãos de outra moça, ele a apanhou habilidosamente após o ricochete. A menina pensa em tomar a bola, mas percebe que Vergil iria usar disso contra ela, se afastando rapidamente para o seu campo. Vergil mira justamente na moça que acabara de disputar pela bola e a quase pega na cabeça. Logo atrás, Dante apanha o objeto e joga subitamente a bola no chão, chutando-a logo em seguida contra o time roxo. Um dos jovens roxos joga o seu corpo em sentido oposto para tenta interceptar a bola, mas esta passa por muito pouco de suas mãos. Ao bater na parede, a bola cai por reflexo direto na cintura do competidor caído no gramado, que se assusta e fica perplexo com sua falha. O semblante de incredulidade e indignação podia ser vista no rosto de jovem, já com as suas mãos na cabeça.
[R -09] — "Ah, não é possível...!" — [mãos na cabeça, seguido pelo rosto].
[Vergil] — "...Sério, cara??" — [olha para trás, se braços estendidos].
A plateia começa a dar lugar a torcida pelo time laranja, tornando ainda mais evidente a vitória dos 04 membros. Todos os pompons, faixas, apitos, purpurinas e vuvuzelas eram exploradas ao máximo. Dante começa a cativar um público que até então nunca havia tido antes, o que o deixava gradualmente orgulhoso de seu feito. O seu nome começa a ser perguntado entre os espectadores das arquibancadas e os telões da quadra que exibiam os jogos começam a focar em Dante. Os que ainda torciam pelo time roxo, estavam mais encolhidos que um pau murcho durante a época de frio... Desculpe, não resisti à piada. Ah, qual é, eu sei bem o que é passar frio, me deixa...! — [coça a garganta] — Bom, enfim... Continuando. Mas ainda assim, restavam as pipocas, frangos empanados e sorvetes para se distraírem. Até uma variação de cachorros quentes existiam naquele planeta. O que não faltava, era o apetite daquele povo.
A situação já estava começando a ficar constrangedora para Vergil. Quatro contra um. As meninas, com sangue nos olhos, estavam apenas à espreita de Vergil como um animal vigia a caça, ou melhor, um urubu espera por uma carcaça. Vergil, de forma calma e dissimulada, sai andando até o final de seu campo atrás da bola. Fica por um tempo de costas parado. Os 04 membros laranja redobram a atenção e vigiam cada passo de Vergil. Este, de forma bem discreta, caminha pacientemente até para perto do meio de campo, mais para o lado direito para ser mais preciso. Segurando o objeto com as duas mãos, o jovem faz parecer que iria lançá-la na direção em que estava, mas, estrategicamente, ergue seus dois cotovelos em forma de um "V" e permanece alguns instantes parado, como se estivesse em transe. O rapaz permanece alguns segundos parado e com o olhar fixo, o que acaba incomodando algumas meninas do lado extremo oposto do dele.
[L - 08] — "Hey..." — [caminha devagar até Vergil] — "Joga logo!" — [chama atenção].
[L - 10] — "Menina, você tá ficando malu..." — [a fala da moça é interrompida por uma bolada, que também acaba colidindo com o rosto outra garota próxima].
As duas meninas caem no chão como se tivessem sido atropeladas por um tanque. Dante logo se assusta com seu tutor. Este havia deixado o melhor para o final. Vergil só precisou distrair as garotas para que, com um único braço, lançasse a bola para a sua esquerda, eliminando duas de uma vez só, a L - 08 e a L - 10. Ainda meio zonzas com o impacto, os outros dois membros se apressam para pegar a bola.
[L - 11] — "Tira elas do campo, eu distraio ele!" — [pega a bola de Dante].
Enquanto levanta as duas garotas com seus braços para tirá-las do campo, a corajosa moça tenta pegar Vergil por baixo várias vezes, fingindo que iria arremessar a bola enquanto o híbrido empurra as garotas para fora de quadra. As duas saem do local como se estivesse bêbadas. Vergil era considerado um dos SH's mais impressionantemente fortes daquela civilização. Tanto era potente, que era cobiçado por dezenas de mulheres a fim de dar filhos da mesma linhagem genética que a dele. Ele era ganhador dos esportes mais brutais que existiam naquela época. Enquanto alguns acabavam ficando tontos depois de caírem de edifícios de 100 andares por várias vezes, no final, Vergil nem titubeava. A menina investe agressivamente contra Vergil para acertá-lo de baixo para cima. Como não tinha medo, Vergil fazia questão de ficar perto do meio de campo para pegar a garota de surpresa, que investia agressivamente contra o jovem. Vergil só devolvia a bola ou a bloqueava da laranja. Dante só desviava, por enquanto.
A moça focava tanto em acertar Vergil que os arremessos de bola se transformaram em trocação. Era muito rápida. Confuso aos olhos de humanos comuns. A menina agachada e Vergil de pé, ambos devolvendo a bola um para o outro. Até que Vergil sutilmente trapaceia e devolve a bola rumo à cara da laranja, que se defende acidentalmente com seu punho, sentando-se ao chão. A bola cai bem no meio de seu colo. Agora era tutor contra tutelado.
[L - 01] — "Toma!" — [repassa a bola para Dante] — "É com você agora..." — [sai de campo, já conformada].
A plateia se assusta com a brusca virada de jogo. Os torcedores pelo time roxo começaram a se levantar das cadeiras e ficarem apreensivos como se fosse numa competição de último segundo da Copa do Mundo. A vuvuzelas, pompons, e outros barulhos se cessaram. Agora era um contra um. Dante e Vergil se entreolham por alguns segundos em silêncio. Ambos começam a dar passos, cada qual em um lado oposto a do outro. Dante ia para a esquerda, Vergil, pela direita, e vice e versa, como se fosse um ritual. Ainda com a bola na mão, o híbrido tenta surpreender Vergil com três falsos arremessos, que apesar de fazê-lo se movimentar por reflexo, não o espantava.
[Vergil] — "Muito lento." — [indiferença].
[Dante] — "Tão lento que se assustou." — [tom de provocação].
Vergil cede um leve sorriso ao perceber que conseguiu irritar seu tutelado. Para desconcentrar Dante, persiste nas provocações.
[Vergil] — "Tá esperando o quê? O jogo acabar?" — [deboche].
[Dante] — "Esperando você morder a isca..." — [semblante sério].
[Vergil] — "Morder como, se você nem joga?" — [satisfação e andar descolado].
Isso toca em cheio no gatilho de Dante, que de imediato, lança a bola contra a parede ao lado direito para que o objeto ricocheteasse para rumo a orelha de Vergil. Por sorte, este se desvia por pouco. Vergil pega a bola que havia se chocado contra a vidraça de proteção, ainda dentro do campo, com uma só mão.
[Vergil] — "Wow..." — [sorriso sarcástico] — "lançou forte, hein?"
Dante fica de olho bem aberto na movimentação de seu tutor. De um lado e de outro, caminha sem tirar os olhos das mãos de Vergil.
[Vergil] — "Será que agora você joga de verdade?" — [sorri, seguido de um amplo impulso de seu braço para lançar a bola].
A bola estoura na parede do outro lado da quadra, sem que Dante fosse pego. Logo em seguida, com a bola no ar, o híbrido consegue chutá-la para rumo Vergil, que dá um forte tapa na bola, repelindo-a de volta para o chão. As arquibancadas ficam impressionadas com a força com que os competidores finais lidam com o jogo, tornando a partida ainda mais interessante. Já na posse de Vergil, este sacaneia Dante lançando a bola em sentido diagonal até próximo aos pés de Dante, que para desviar, teve de saltar esticando uma das pernas para evitar ao máximo que fosse atingido. Acabando por se desequilibrar e ficar de mãos e pés apoiados ao chão. Aproveitando a deixa para pegar a bola ainda sentado e evitar que o objeto não caia por pouco em cima de seu abdômen, o híbrido habilidosamente se levanta e realiza movimento ao estilo vôlei, tapeando a bola ainda pelo ar, que é fortemente repelido por Vergil.
A bola é colidida com tamanha força que ricocheteia da parede, voltando para as mãos de Vergil. Logo que a apanha, o jovem a arremessa em uma velocidade muito aquém ao que era de costume. Dante se curva para trás e a bola colide duas vezes de um lado extremo para o outro, impressionando a plateia, que mal conseguia comer as pipocas. O sorvete, já havia se derretido por completo. Dante era liso, e qualquer coisa que pudesse se evadir, ele conseguia. Mal dava para acompanhar a disputa dos dois de tão veloz que eram seus movimentos. De uma pancada para outra, Dante e Vergil tentavam a todo momento acertar um ao outro com a bola.
Em um dado momento, tutor e tutelado correm um em direção ao outro, e de forma instintiva, ambos saltam a fim de um lançar a bola, e o outro, bloqueá-la, provocando uma grande colisão de corpos e mãos que faz lançar a bola se deslizar para cima, e se dirigir para longe próxima à arquibancada. Nariz e boca, perna e quadril, joelho e bunda. O choque foi tamanho que ambos caíram de costas para o chão gramado. Mas de imediato, se levantam. Dante limpa a boca, Vergil, o nariz.
A torcida se empolga. 10 intensos minutos eram muito bem gastos por Dante e Vergil. O jogo estava equilibrado em meio às centenas de "quases" e "por uns fios" a cada segundo que se passava. Dante tapeava a bola como se estivesse lidando com uma massinha. Vergil a arremessava como se fosse uma bolinha de pula-pula. Cada golpe era uma porrada que poderia ser escutada por toda a rua fora da universidade. Os minutos começaram a passar mais devagar. O suor começa a ser levemente derramado em Vergil. O rapaz mal havia bebido água antes de competir. Dante não estava muito diferente.
À medida que Vergil jogava, gatilhos de seu passado eram acionados de quando seu melhor amigo de infância, jogava com ele. Os sons da torcida começam a se anular. Pétalas caíam. Os raios de sol batiam no campo. Uma enorme pedra cede lugar à parede da quadra. O gramado, fica ainda mais verde, e as árvores floridas, tomam o lugar das arquibancadas... "Joga essa bola que nem homem, Vergil!!". Era Carlos que estava logo à sua frente.
...................."Arremessa essa bagaça de bola, filhão! Tu tá parecendo minha mãe...!" — [diz marrento e desafiador].
...............Mas na verdade, era Dante...
Em um lapso de milésimos de segundos de ansiedade, medo e horror, Vergil quase é atingido por Dante, uma vez que só não é esbufeteado pela bola por se desequilibrar e se ajoelhar ao chão da quadra. A bola ricocheteia na resistente parede e sai girando até próximo ao campo de Dante, alguns centímetros junto à faixa de sinalização, que era aonde Vergil estava. Vergil, por alguns segundos põe as duas mãos na cabeça, parecendo estar atordoado. Dante percebe a perturbação de seu tutor e fica preocupado:
[Dante] — "Hey...! Você tá bem?" — [semblante de receio].
Vergil balança o rosto e pisca por várias vezes para tentar afastar aquela momentânea alucinação que passara. Os sons do ambiente estavam bagunçados, e o rapaz podia ouvir um eco na voz de Dante. Se aproximando devagar, mas sem chegar muito perto, Dante nota que Vergil está atordoado. Vergil fecha os olhos por alguns segundos. Os sons se reorganizam. O ar volta. A plateia volta a fazer barulhos e o ambiente volta a ser a quadra.
..............[SÚBITO ABRIR DE OLHOS]
Ainda de joelhos, Vergil rapidamente pega a bola e a lança com toda a sua força contra Dante, que se esquiva se curvando para trás sob a forma de uma letra "U", tocando suas mãos em cima do gramado. O problema é que, ao fazer isso, o objeto acidentalmente "raspa" junto ao seu genital antes de atingir a parede, algo que é notado por Vergil.
[S I L Ê N C I O M O M E N T Â N E O].
.........Platéia sem nenhum som...
..........................Mosquitos zumbindo...
........Passarinhos piando...
[Vergil] — "AAAAAAHHHH!!! EU TE ACERTEI, FILHO DE UMA ÉGUA, EU TE ACERTEI!! RASPOU BEM NO SEU PINTO QUE EU VI!! EU VI COM ESSES OLHOS, CARAALHO!! CHUPA ESSA AGORA, CAVALO!!" — [gesticula enquanto aponta para Dante, em extrema excitação pela vitória sobre o puro azar do mesmo].
Dante, ainda em posição de letra "U", não consegue acreditar na maneira como havia acabado de perder para seu tutor. Seus olhos começam a apresentar tiques. Inconformado com a sua desgraça, no fundo, ele sabia que havia sido pego.
[Dante] — "Não... não, não é possível, eu não acredito nisso..." — [tique em um dos olhos, cara de tacho].
Os telões da quadra, mostram exatamente o momento em que a bola toca o genital de Dante. O híbrido se senta em posição de "W" e fica profundamente abismado com a sua derrota. A torcida do time roxo, que antes estava descrente, agora está mais vibrante do que nunca. Os laranjas já eram.
[Dante] — "Oh, MEEEEEEERRDAAAAAA......!" — [grita para cima e bate o punho no gramado, quase estourando a superfície].
O grito de Dante ecoa como um som vindo direto das montanhas. Vergil, apesar do trauma, comemora feliz da vida a sua suada vitória na primeira partida, que nem o fez cansar.
[Dante] — "Mas que CACETA, não é justo! Você me enganou, porra!!" — [aponta o dedo para o tutor, indignado].
[Vergil] — "Ninguém manda não usar roupa íntima debaixo da calça, bonitão!" — [a plateia dá risada enquanto Vergil coloca um dos polegares no nariz, com o mindinho à mostra, e exibe a língua para o tutelado, que esboça feição de gato injuriado].
A torcida laranja, chocada com a vitória, aplaude o desempenho dos dois últimos competidores, mesmo tendo perdido a partida. Dante e Vergil ganham destaque na faculdade e o híbrido começa a ser mais admirado pelos alunos. Estava já na boca dos estudantes e foi cumprimentado pelos seus outros colegas de jogo, incluindo Haidi. Vergil, apesar de ter ganhado, estava animado e orgulhoso de seu tutelado. Os agressores de Dante nada mais comentaram sobre ele. Os outros híbridos que estavam escondidos, voltam a aparecer de fininho na quadra como reservas. O jovem laranja, que até então havia chegado atrasado e foi preterido por Dante, consegue fazer parte da segunda partida a qual seria a de Tornado. Pela grande repercussão do jogo, os torcedores clamaram pela presença de Dante e Vergil novamente nas quadras. Até lá, uma pausa de 30 minutos foi feita para os jogadores se abastecerem.
[Eksênia] — "Parabéns...! Orgulho de você." — [abraça Vergil].
[Vergil] — "Obrigado, minha querida. Ganhamos essa." — [diz, munido de um galão de 03 litros de água que bebia.
[Eksênia] — "Vou caçar algo para comer. Te vejo depois..." — [sorri].
[Vergil] — "Vai lá..." — [continua a beber água].
Após sua amiga se afastar para comer alguma coisa na lanchonete, um dos seus colegas de jogo que agrediu Dante, se aproxima de Vergil para tentar constrangê-lo indiretamente.
[Líder] — "Aí..." — [encara Vergil] — "Aquele híbrido ali é seu tutelado?" — [feição de desdém].
[Vergil] — [pensa por alguns segundos] — "Não, ele não é nada meu, por quê?" — [semblante de aborrecimento e desconfiança].
[Líder] — "Você parecia empolgado na quadra. Parecia até que se conheciam..." — [sorriso desconfiado].
[Vergil] — [ainda com a garrafa erguida] — "Eu sou empolgado. Sempre fui assim nos jogos." — [estranhamento].
[Líder] — [leve risada] — "Ok, então..." — [dedo no nariz].
Um clima de receio e desconfiança havia sido criado entre os dois. Vergil passou a ver o homem com outros olhos e começa a encará-lo como um estranho no ninho.
[Líder] — [Olha para Dante] — "Bonito ele, não?" — [sorriso debochado] — "O sujeito que tutelou esse damasco o forjou bem. É até bem resistente pra um merdinha. Mas... eu mal consigo imaginar como é que o tutor desse rapaz iria terminar... sabe? Sendo preso por deixar um híbrido se machucar na quadra..." — [sorriso sarcástico enquanto se seca com uma toalha].
Esse leve tom de ameaça acende o pisca-alerta de Vergil, que mesmo se sentindo atingido, não titubeia perante o marginal.
[Vergil] — "Bom... acho que isso é problema dos dois, não é? Não vejo porque temos alguma coisa a ver com isso..." — [vira o rosto, mostrando indiferença à fala do homem].
A fala de Vergil, arranca algumas pequenas risadas do malfeitor.
[Líder] — "Éh..." — [contração de sobrancelha e sorriso no rosto] — "Sábias palavras... então, boa sorte na próxima partida, Mestre Vergil." — [vira as costas e acena com uma das mãos se afastando de Vergil, dando um certo alívio ao homem].
Vergil respira fundo. Como não queria levantar suspeitas, não queria se aborrecer com qualquer dos colegas perturbados com quem tinha que conviver. Queria poupar Dante. Mas sabia que algo estaria sendo tramado por um dos marginais. Dessa forma, passou a ficar de olho bem aberto ao Líder.
...................................
Passados os minutos de descanso, a nova partida seria iniciada em instantes. Alguns jogadores já não estariam mais nessa partida tendo em vista que os competidores que já estavam de reserva, teriam espaço para participarem. Somente Vergil, Dante, Haidi e Eksênia, estariam escalados para o próximo jogo. Dante, já conformado com sua derrota, gira os ombros, desfere dois golpes no ar e sobe ao campo, já animado para outra partida. Novamente, a plateia aclama pela presença de Dante e Vergil, o que causa uma certa raiva em alguns competidores que foram presenciados virando o rosto. Um dos antigos roxos aparece afastado do campo trocando algumas palavras com um rapaz, que também era novato e reserva. Este concorda e acena a cabeça para sinalizar que está de acordo com o que foi sugerido.
Dante aproveita para realizar alongamentos enquanto o time oposto subia no gramado. Vergil, já desconfiado, estava bem atrás de um dos novatos do seu time. Aquela seria a última partida até então. As próximas seriam disputadas pelas outras turmas da universidade. Ao se aproximar do campo, um dos novos roxos encara Dante por um longo período de tempo. Já Dante, estava conversando com Haidi antes do jogo começar. Os dois finalizam, se abraçam, e logo após, se organizam dentro da quadra.
Faltavam alguns segundos para iniciar a partida. Pés firmados ao chão. Saltos de aquecimento. Mais goles d'água. Estalar de dedos e pescoço. Posição agachada. Ambos os times se aproximavam um ao outro até o limite da faixa. A regra era clara: jogar cada integrante do time adversário para fora do limite quadra demarcada em faixa verde e preta. As bolas que saíam da linha da quadra, eram rapidamente devolvidas por uma Equipe de Funcionários que as jogavam de voltam ao campo. Mas muito dificilmente uma bola de chumbo costumava sair do lugar. A única função de cada membro, era dar e receber boladas. Cada time, teria direito a 12 bolas no total. Cada competidor tinha uma bola em mãos. 03 amarelas, 03 verdes-safira, 03 rosas romã e 03 roxo tom de uva.
-------------[O SINAL TOCA. A SEGUNDA PARTIDA SE INICIA]----------
Todos os integrantes levantam os seus braços e lançam, ao mesmo tempo, as 24 bolas de chumbo maciças. Os lançamentos e boladas eram um pesado ritmo harmônico de sincronia entre elas. Todas nas respectivas caras dos jogadores, sem exceção. Era lindo de se ver. Por vezes braços, chutes, cotoveladas e cabeçadas contra os golpes também faziam parte do espetáculo. Bolas de cores vivas e brilhantes voavam ordenadamente em sentidos opostos uns aos outros, mas sem perder a delicadeza. A luz do sol brilhava mais forte à medida que as cores dançavam pelos ares. Uma delas, já com um resquício de sangue. Era Dante. O híbrido já estava tendo leves marcas de hematomas ao redor do corpo e respingava sangue de seu nariz e boca. Os ataques eram muito fortes.
Sendo um híbrido, era de se esperar que iria sofrer mais nas mãos de 23 Super-Humanos na mesma quadra. A bola com o respingo de sangue, havia sido pega por Vergil, que começa a ficar assustado. Dante se defendia dos ataques o máximo que podia com seus braços e joelhos. Haide começa a notar que Dante estava sangrando e começa a achar estranho. Pensava que o rapaz tinha a imunidade comprometida. Para tentar livrar o tutelado, Vergil alerta Dante:
[Vergil] — "Dante! Fica atrás de alguém!" — [preocupado].
[Dante] — "Eu aguento!" — [responde].
[Vergil] — "Protege o rosto!!" — [grita com as duas mãos entre a boca, recebendo uma bela bolada em seu rosto].
Dante segue o conselho do tutor e aumenta a proteção de seu rosto. Somente quando a luz solar começava a bater sobre o canto do campo adversário é que Dante começou a notar a presença de um dos novatos do time roxo, que havia sido aparentemente "deixado de lado". Ele caminhava rumo à direção de Dante, já munido de uma bola amarela. Para a surpresa do híbrido, o rapaz que ele fitara, lhe era familiar. O jovem parecia caminhar em câmera lenta quando Dante percebeu que o rapaz se tratava de seu antigo rival do ensino médio, cuja face estava cheia de vingança. Quando abaixara os braços para ver melhor o seu rosto...
------[VISÃO TURVA. SOM DE UM FINO CHIADO. SANGUE. CESSAR DE SOM. VISÃO DO TETO DE VIDRO DA QUADRA. TONTURA. VOZES EM ECO]-------------
Dante estava caído no chão. Mal havia sentido choque da porrada que levara em seu rosto de tamanho impacto da bolada. Tossindo sangue e cuspindo 03 dentes de sua boca, o híbrido estava banhado de uma poça vermelha. Cor tal, que não era algo que os vandorianos estavam acostumados a se deparar. Havia até um hematoma em seu rosto. Nas suas mãos, a prova de que era de uma linhagem genética intermediária. A plateia entra em choque generalizado com a flagrante violência. Vergil treme e a bola amarela, manchada de sangue, é vista bem do lado do rapaz atingido. Haide, impressionada, observa atentamente o sangramento do híbrido. De mãos na boca, a moça se aproxima do colega, junto aos outros 11 jogadores, para dar suporte a Dante.
"Ele tá sangrando??"; "Celestial, o cara é um híbrido mesmo, olha isso...!"; "Caramba, aquilo é sangue"; "Senhor, que coisa mais horrível". Os torcedores, chocados com a cena, despertam a atenção de uma das organizadoras do evento, a diretora da universidade, que indaga seus colegas e funcionários na parte central das arquibancadas.
[Diretora] — "Mas quem deixou um híbrido INVADIR os jogos?? É sério que deixaram chegar a esse ponto?? Retirem aquele rapaz, rápido! Ele NÃO pode continuar jogando! E eu quero o tutor dele NA MINHA SALA!" — [diz furiosa].
Ao ver seu tutelado machucado daquela forma, Vergil fita o jovem que acertou Dante. Com um véu em seus olhos, Vergil parte para cima do rapaz e o derruba no chão aos socos e joelhadas, o que faz os outros jogadores se juntarem em coletivo para tentar pendurar em Vergil e apartar a briga. Como é de se esperar, o resultado é desastroso: socos, tapas, pontapés, cadeiradas, pauladas, puxões de camisa e cabelos são trocados em forma de histeria coletiva. Para revidar o ataque, o novato espreme os olhos de Vergil a fim de interromper as agressões. A cada integrante que se pendurava em Vergil, tomava uma cotovelada. Um dos jogadores agarra Vergil pelo pescoço e luta se inverte, com o jovem agressor ficando por cima de Vergil e o linchando de socos.
A tragédia estava feita. Guardas saíram das portas para apartar a briga coletiva e dois funcionários agarraram os braços de Dante para tirá-lo dali. Como não havia bombas de efeito moral que resolvesse a bagaça, armas à taser eram acionadas para neutralizar os brigões. A plateia, que antes aparentava choque, agora parecia estar se divertindo com a briga. Sons de coros e ecos de incentivo à violência coletiva começam a ficar mais altos. SH's adoram uma pancadaria. E não é para menos.
[Dante] — "Hey...! Tão me tirando daqui por quê?? Eu posso jogar...!" — [tenta resistir, indignado].
[Fiscal] — "Não está não! Levanta! Vamos embora daqui!" — [diz bravo].
Mais dois funcionários aparecem e levantam Dante para levá-lo para fora das quadras. Incrédulo com toda a confusão que seu ferimento causou, Dante tenta insistir em voltar para a Partida que já tinha se transformado em um ringue de luta livre.
[Dante] — "Eu tô apto pra jogar, calma aí! É só uma bolada, me deixa voltar! Eu posso jogar...! Hey! Me deixem voltar!" — [clama enquanto é levando pelos braços].
A diretora, profundamente decepcionada, observa o cenário de guerra que havia se instaurado após o incidente. Respirando fundo, a mesma nota a bola amarela cheia de sangue, parada no meio do gramado. A bola, que até então simbolizada a riqueza, alegria, agora se torna a mácula, a vergonha. Dante foi levado para a sala de tratamento médico da universidade e Vergil foi finalmente separado do jovem aos puxões de cabelo e rasgar de roupas. O SH, nunca havia ficado tão furioso quanto naquele momento. Carlos e Dante tinham algo em comum: a audácia estava em suas veias. Os raios solares evidenciavam aquela bola amarela manchada de sangue.
....................HORAS DEPOIS......24H10 DA MANHÃ.
Lá estava Vergil sentado em um das plataformas do pátio da universidade quando Dante sai pelos portões do enorme salão, aparentemente sem nenhuma sequela do dano que havia sofrido. O rapaz senta-se ao lado de seu tutor, e por alguns segundos, ambos se encaram como dois tolos sem saberem o que dizer um ao outro. De repente, ambos deixam escapar uma discreta risada, que por ironia, seria em um momento de penalidade ao invés de celebração.
[Vergil] — [breve semblante impressionado] — "Você jogou bem..." — [olha para Dante].
[Dante] — "Você também..." — [balança a cabeça].
[Vergil] — "E a boca?" — [curioso].
[Dante] — "Está intacta..." — [mão no queixo] — "Até os dentes se regeneraram de novo..." — [abre os lábios para exibir os dentes novos].
[Vergil] — [impressionado] — "Éh... seu corpo regenera bem mesmo..." — [toca o rosto de Dante e examina-o].
[silêncio por alguns segundos].
[Dante] — "..." — [pausa] — "Eu realmente queria ter ficado pra jogar..." — [decepção].
[Vergil] — "Mais um pouco ali e você teria machucado feio..." — [preocupado].
[Dante] — "..." — [pausa, expressão de dúvida e decepção] — "E... o que foi aquela pancadaria lá na quadra?" — [confuso].
[Vergil] — "Eu mesmo que iniciei..." — [feição de orgulho] — "eu vi quem foi o idiota que te acertou..." — [olha para a paisagem].
[Dante] — "Vergil, não precisava fazer isso..." — [sorriso sem graça] — "você pode ser multado ou até suspenso..." — [preocupado].
[Vergil] — "Hum..." — [leve feição de desdém] — "Suspenso eu até posso ser, mas que eu enfiei a mão no nariz daquele cara, isso eu não me arrependo..." — [estala os dedos de punho fechado].
[Dante] — [estoura em risos] — "É por isso que eu sei que foi a melhor coisa meu pai ter te escolhido, sabia?" — [olha para o tutor].
[Vergil] — "Ah, quê isso, tá me superestimando..." — [sem graça].
[Dante] — "Não, é sério...!" — [leve toque em Vergil] — "Eu aprendi a brigar assim foi com você..." — [sorriso de canto].
[Vergil] — "Então valeu a pena..." — [sorri].
Vergil cede um leve aperto nas bochechas de Dante, que sorri lisonjeado. Ambos se encaram por mais um tempo.
[Dante] — "O cara que acertou..." — [pausa] — "era um palhaço do ensino médio que eu tretei..." — [fita o tutor].
[Vergil] — "Não acredito..." — [perplexo].
[Dante] — "Sim, era ele. Eu lembro perfeitamente do rosto dele e do dia que nós brigamos..." — [sorriso de canto].
[Vergil] — "Wow..." — [surpreso] — "Então foi amor à primeira vista, hein?" — [sorriso irônico].
[Dante] — [leves risos] — "E foi... ele só não tem coragem de assumir..." — [levantar de ombros, seguido de feição sarcástica].A porta principal se abre e a jovem de enormes e belos cabelos vermelhos bem escuros se aproxima de surpresa até onde estavam os dois colegas para oferecer suas congratulações a Dante.
[Haidi] — "Dante?" — [sorridente].
[Dante] — "Haidi!" — [empolgado] — "Como vai você?" — [animado].
[Haidi] — "Eu é que pergunto...! Depois daquele golpe eu fiquei preocupada com você. Está se sentindo melhor?" — [checa o rapaz].
[Dante] — "Estou ótimo! Não demorou meia hora para cicatrizar e nascer dentes novos..." — [tranquilo].
[Haidi] — "Ah, ótimo!" — [posição ereta e confiante] — "Eu gostei muito do seu desempenho no jogo, então eu queria te fazer um convite pra fazer parte do nosso time na minha academia..." — [exibe um cartão digital para o híbrido].
[Dante] — "Oh, céus...!" — [pega o cartão de Haidi] — "Sério??" — [impressionado] — "Mas que privilégio, vou poder jogar com outros SH's?" — [feição de surpresa].
[Haidi] — "Claro que vai!" — [sorri] — "Nós temos times mistos, jogamos com Sub's, Híbridos e SH's também... a instituição é gratuita e qualquer um pode entrar. O que acha??" — [se abaixa e aproxima seu rosto de Dante, com expressão gentil].
[Dante] — "Claro! Eu aceito demais! Amanhã mesmo irei me inscrever...! Obrigado por ser gentil comigo..." — [feliz].
[Haidi] — "Não há de quê...! Me avise quando fizer parte da academia." — [animada].
[Dante] — "Deixa comigo..." — [acena positivamente].
Antes que Haidi pudesse se afastar dos dois jovens, esta vira-se para o jovem híbrido:
[Haidi] — "Aliás, você vai achar estranho, mas... gosto do jeito como sangra..." — [suave semblante de satisfação].
A moça vai embora e deixa os dois rapazes um pouco surpreendidos com a declaração da mulher. Vergil não deixa esconder a sua perplexidade e disfarça-se coçando o seu rosto e sacando de uma garrafa de água para beber.
[Vergil] — "...Você e a Haidi?" — [leve sorriso, ergue a garrafa].
[Dante] — "..." — [olha para o lado, travando os lábios] — "Sim, eu e a Haidi..." — [fita Vergil].
[Vergil] — "..." — [bebe da garrafa] — "Tem coragem..." — [aponta para Dante].
[Dante] — "Ah, qual é...!" — [vira o rosto de um lado para o outro] — "Vou ter que usar látex agora?" — [sorriso e decepção mista].
[Vergil] — "..." — [olhar de canto] — "Não exatamente, mas vai ter que usar curativo depois de "jogar" com essa menina aí, ela é meio sádica..." — [sorriso sarcástico].
[Dante] — "Sádica?" — [surpresa] — "Uau... pelo visto ela vai cortar pedaços..." — [sorriso irônico].
Bem no momento da conversação entre os dois, sai do portão principal, um dos fiscais que seria responsável por aplicar a penalidade aos dois competidores. Dante e Vergil se viram para ele:
[Fiscal] — "Bom... como pudemos analisar pelas câmeras, a maior parte da culpa acabou sendo aplicada ao híbrido, portanto o Senhor Dante ficará banido dos esportes por 01 ano de duração à partir de hoje, enquanto o Senhor..." — [arranca um papel de uma espécie de caderneta similar a um cheque] — "Vergil! Pagará uma multa de 650 vands por negligência a um vulnerável." — [entrega ao rapaz] — "Como as lesões não foram de sua responsabilidade, você não será denunciado. Passar bem..." — [acena, vira as costas para ambos e caminha até a porta].
Ambos os jovens exibem um olhar de perplexidade e espanto ao escutarem as respectivas penalidades. Um breve silêncio de um minuto é feito pelos dois.
[Vergil] — "Éh, me parece que alguém vai pra jaula, e não sou eu..." — [feição irônica, enquanto acende um cigarro].
[Dante] — "Uau... um ano sem jogar..." — [chocado].
[Vergil] — "Bom, você não tem os jogos internos, mas agora tem a Haidi..." — [vira o rosto] — "vai poder jogar fora da faculdade..." — [levanta os antebraços].
[Dante] — "Éh, tem razão, acho que eu vou superar... culpa daquele..." — [suspira, balançar de cabeça] — "deixa pra lá. E essa multa?" — [preocupado].
[Vergil] — [contrai os lábios] — "Vou ter que arcar, né?" — [olhar receoso, sorriso de canto].
[Dante] — "Não..." — [negação] — "Eu pago."
[Vergil] — "Não, eu sou o responsável..." — [feição de conformismo].
[Dante] — "Como você mesmo disse na quadra, eu arco com a multa..." — [olhar de desapontamento].
[Vergil] — "Ok, não precisa ser assim também." — [balança suavemente o rosto] — "A gente pode... rachar a multa, talvez..." — [antebraços sobre os joelhos].
[Dante] — "Éh, pode ser... só falta agora eu arranjar algum trabalho, porque eu não quero ficar parado com uma dívida nas costas..." — [escora-se nos joelhos].
[Vergil] — "Pode ficar tranquilo que trabalho não vai faltar..." — [sereno].
Ambos se encaram entre si, já com semblantes muito mais leves. Ambos passaram a enxergar um ao outro por uma outra perspectiva. O olhar agora, não é de tutor e tutelado, mas de respeito e compreensão. Mas esse seria só o começo.
[Dante] — "Então... qual desses lugares aqui aceita um híbrido?" — [indaga enquanto mexe no finíssimo celular].
Vergil dá uma olhada no aparelho celular de Dante e percebe que todos os locais que pesquisara em um raio de 5000 km, vinham com um alerta de "ACESSO PROIBIDO
À LINHAGEM GENÉTICA ABAIXO DO INDICATIVO". Ambos os dois rapazes se entreolham entre si, nascendo uma mistura tenebrosa de perplexidade e medo no olhar, ao se depararem com algo que seria ainda mais desafiador.
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Dante vai até o vestiário pegar o restante dos seus pertences e se despedir da camisa laranja que usara. Antes de sair da universidade, passou em um dos seus armários no Bloco E para pegar alguns livros de estudo. Uma das alunas "Subs" de uma sala próxima a ele, chorava horrores de pernas trêmulas. A menina não conseguia acompanhar o desempenho das aulas como a maioria dos outros alunos. Seus documentos em mãos, denunciavam seu desespero. Ao ver o que estava acontecendo, Dante percebe a diretora olhando friamente para a menina enquanto dizia algo que não podia escutar. Provavelmente a garota não teria mais direito de frequentar a universidade devido às suas baixas notas. De coração partido, Dante fecha as portas de seu armário em meio a longos suspiros, sem nada que pudesse fazer para ajudar a pobre moça. Mais um corpo seria relatado nos jornais rosados patrióticos.
.............."Radiohead — Karma Police".
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