----TERRA. 10 DE ABRIL DE 8854 D.Z. FEIRA GENÉTICA CLANDESTINA. INTERIOR DE WISCONSIN. 06H DA MANHÃ----

         As temperaturas máxima e mínima variavam entre 8,3ºC e 15ºC apesar dos dias limpos e brilhantes. O tempo era muito frio. Para piorar, ainda estava úmido. Era um tempo úmido e gelado. A bela arquitetura clássica do enorme casarão dava uma discrição para o seu enorme bunker, onde se localizava uma clínica distinta. Apesar de cedo, o local estava com uma fila quilométrica de homens, mulheres, crianças, animais e vários, vários copos fechados de café e cappuccino quentes.

        A maioria dos "clientes" estavam munidos de roupas excêntricas e elegantes para se aquecerem. Desde tricot, couro, vinil, algodão, moletom, fleece, e até nylon. Todos vindos de diversos estados do país. Na extensa fila de pessoas, somente estavam a postos quem tinha disposição para permanecerem desde as quatro da manhã esperando pela próxima vez. Muitas levaram cadeiras infláveis de diversas cores para suportar a longa espera. As mulheres de finos e compridos saltos estavam a ficar agoniadas. Muitas até preferiram permanecer descalças. 

       Os que mais cedo chegavam, mais à frente estavam da fila monstruosa. Mais precisamente, no subsolo, um enorme espaço feito à base de concreto polido, com algumas luzes amareladas atreladas ao teto e paredes. O ambiente retangular e sombrio, era infestado de mulheres desesperadas para serem sorteadas para a recepção das melhores amostras genéticas coletadas sem a autorização do "pai". Os homens, tentavam proteger suas companheiras de outras feras. Crianças ficavam grudadas em seus pais.

       A enorme fila se subdividia em cinco. Cada uma se dirigindo a uma das cinco rampas as quais levavam até um salão feito de granito esverdeado, para onde havia pelo menos 06 elevadores. Para não superlotar a casa, só era permitida a entrada até às 07h da manhã em ponto. Caso os clientes dispensados ainda tivessem o número de suas comandas em suas pulseiras, poderiam voltar novamente sem muitos problemas. Para ter uma pulseira, precisaria ser registrado em um sítio oculto e irrastreável, para fins de um melhor controle sobre os serviços da clínica. 

       O casarão era constado como um lar para pessoas de rua e famintas, mas para disfarçar, os clientes atendidos eram enviados para o andar de cima, mais precisamente, na sala de estar da residência, onde todos eram bem servidos para comerem e beberem à vontade depois de receberem "doações". O local era gerenciado, controlado e administrado por vários funcionários que guiavam as filas, forneciam as pulseiras, transportavam as pessoas, faziam sorteios, atendiam clientes, coletavam e manipulavam gametas, realizam inseminações clandestinas e serviam café da manhã aos convidados. 

       O tão esperado procedimento é realizado na mesma hora, e a clínica, continha pelo menos 12 cabines em um cômodo rigidamente controlado para, supostamente, garantir a segurança sanitária do lugar. O esconderijo era insano: o bunker, em seu total, havia 06 andares. O último andar, era a clínica propriamente dita. A sala de estar do casarão, era só mais um detalhe. Nos elevadores, sequer existe o sexto botão para descer ao último andar. Quem o quisesse acessá-lo, deveria apertar o botão escuro de "emergência" 05 vezes para que a máquina entenda que o comando é para o "sexto andar negativo". A cada duas semanas, uma "manutenção" de conveniência era feita no elevador para modificar novamente o comando do último piso abaixo do casarão.

        Várias pessoas abastadas até vinham disfarçadas de pobres e indigentes com cobertores feitos às coxas, véus e toucas velhos e antigos, saias rasgadas, sapatos maltrapilhos, luvas de pontas soltas e desarrumação total dos cabelos, barbas e maquiagem. Todos que ali estavam, queriam ter uma família. Ou mais um irmão. Ou um criado. Ou uma mera fonte infinita de riqueza e energia para os membros da família ou de uma propriedade de fazendeiros. Ou um reprodutor para uma comunidade faltante em mão de obra. Ou um doador compulsório de sangue para os outros membros da família. Ou até mesmo, um futuro escravo sexual. À essa altura do campeonato, todos queriam seus caprichos satisfeitos pelos futuros "Super Descendentes".

        Antes do sorteio, cada homem, mulher ou casal, seja homo ou hétero, respondia um questionário com uma bateria de perguntas que poderiam variar de cinquenta até quinhentas questões. Tal procedimento vinha com o objetivo de sondar os valores, preferências, particularidades e hábitos de cada entrevistado, e com base nisso, escolher de qual "pai" o gene seria coletado para aquele cliente específico ter o filho "encomendado". Perguntas dos mais variados tipos eram feitas às caras, as respostas, as mais criativas possíveis aos ouvidos dos ‘médicos’:

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..."Como você gostaria que fosse a cor de pele, cabelo e olhos de sua filha?"...

              ..."Quanto de impulsividade você quer adicionar ao seu filho?"...

     ..."Alta ou baixa? Seios grandes ou pequenos? Coxas grossas ou afinadas? Cintura fina, quadril largo? Modelo à brasileira? Não?? ... Tá bom...."...  

..."Quer que ela seja mais inteligente ou mais ingênua? Mais mansa ou brava? Amigável... receptiva... ou fechada?"...

..."Você vê algum problema em ter uma criança sexualmente flexível? Quer reduzir ou manter a libido? ... Super–Humanos são omnissexuais por natureza, Senhor, isso já vem no pacote..."...

..."Quer um menino carinhoso e emasculado ou um sociopata viril? Não dá para misturar frieza e sensibilidade no mesmo lugar... ok, vamos começar de novo..."...

..."Se quiser um garoto conquistador, tem que adicionar destemor nele... não adianta ser um pai rígido e tornar o filho inútil pra vida.. quer mesmo um rapaz submisso pra família?"...

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..."Você quer um superdotado? Ele já vai nascer extremamente inteligente e com uma dose cavalar de autoconhecimento, você não vai precisar dizer a ele duas vezes pra fazer uma coisa."...

..."Jovialidade já vem no pacote, quer adicionar mais alguma característica? Atrevimento, furtividade, algum talento, sexualidade aprimorada, inteligência linguística extrema, o quê mais?"...

..."Cabelo crespo, cacheado ou liso? ... O que seria ‘raça ariana’, Senhor? Não entendi..."...

..."Que vantagem você vê em acovardar seu filho? Você é algum sádico, por acaso?"...

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"Prefere um filho mais descrente ou apegado à Deus? Mais racional ou emocional?"...

"Você odeia ateus ou não vê problema neles? Prefere um menino a uma menina? ... A Senhora tem problema com meninas?"...

"Se seu filho for um Transmorfo, ele pode se transformar de um sexo para outro de forma instantânea, gostaria de manter essa habilidade? Tem alguma questão quanto a isso? Se não quiser, podemos formar um SH, mas ele não será um Transmorfo..."...

"Você quer uma garota submissa ou com coragem? Gorda, magra, ou falsa magra?... Não, não! Não é obesa, deixa eu te explicar..."...

"Quer adicionar um pouco mais de instinto de fuga em momentos de estresse pra facilitar o controle sobre seu filho? ... Não acha isso perigoso? Isso pode molhar seu tapete e torná-lo limitado e suicida, um incompetente social talvez.."...

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"Por qual etnia você quer que seu filho se atraia?"...

..."O quão fogosa você quer que a garota seja? A ponto de ter 30 filhos?? E por que raios você quer 30 netos??",

..."Quais habilidades extras você gostaria de adicionar ao seu filho? Uma língua mais afiada?"...

..."Tamanho de nariz e lábios, como você quer?"...

..."Você não é maluca de adicionar instinto de fuga em um Super-Humano, é? É como criar um nada na vida..." ...

..."Deixe eu entender, você quer um filho homem que seja totalmente dependente de você e não queira mais nenhuma outra mulher senão a você? Olha, eu te recomendaria um psiquiatra..."...

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..."Sério que você adicionar essa característica na sua filha só pra ela ter vontade de transar com você??? SOME DA MINHA FRENTE, SEU ANIMAL! Levem-no daqui!!"...

 ..."Não acha meio sádico querer uma filha de baixa autoestima e que produza crises de choro em momentos de culpa?"...

..."Que tipo de vagina você quer que ela tenha? Mais clara?... Igual a da atriz pornô que você assiste?? ... Como é??"...

..."Quer deixar a menina mais frígida? Por quê? Você é religioso? Faz parte de uma Igreja?"...

 ..."Vai querer anular a capacidade de questionamento e expressão da sua filha? Isso vai reduzir o desenvolvimento dela... não é esse o objetivo de se ter um Super-Humano como filho, Senhor... está no lugar errado."...

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..."Vai mesmo querer uma filha mais gorda?? Isso não é maldade?? Melhor escolher um SH ao invés de um semihíbrido..."...

..."Quer um filho útil na casa ou sexista? Acha que ajudar em casa é coisa de marica? Sério isso?"...

..."Tamanho do pênis, qual você quer? E o formato?"...

..."Seu filho já vai vir com bissexualidade, quer que ele nasça sem a próstata?"...

..."Minha Senhora, ele é um ser humano, não seu pet. Não está no lugar errado?"...

..."Ok. Um garoto com altíssima resistência a situações de precariedade extrema? Espere um pouco, você tá procurando mão de obra barata, não tá?"...

 ..."VOCÊ É RETARDADO POR ACASO??"...

 

 

... Sério... O local é um verdadeiro hospício.... E quem está dizendo isso é um morto...

 

        No meio de todo o caldeirão de insanidade, estava Maria e seu recente esposo, Rick. A mulher como de costume, usava salto alto, calça jeans, jaqueta curta e uma blusa similar a um elegante espartilho, com brincos de argola. Fazia questão de estar bonita para aquele momento. Dessa vez, investiu nas cores vermelho-terra, caramelo e preto, tendo somente como dourado, os acessórios de orelha e os sapatos. As unhas, estavam na cor violeta. E o batom, de tonalidade mais clara, puxado para o pêssego. Parecia estar acostumada com o frio. No meio daquela insana aglomeração de pessoas, os dois afortunados foram um dos primeiros a chegarem ao casarão e terem acesso ao local subterrâneo.

        No salão de corredores de granito por onde seriam acessados os elevadores, a fila andava vagarosamente em silêncio. Quem pudesse, tirava um tempo para distração com pequenos Walkmans que poderiam fazer leituras de minidiscos, pendrives, fitas cassetes em miniaturas coloridas, e até receber e enviar arquivos via bluetooth. Quem não tivesse aparelhos retrofuturistas, investia nos próprios aparelhos celulares. O ambiente frio era abafado com os vários copos de café e cappuccino quente nas mãos dos visitantes. Para Maria Helena, essa seria uma das datas mais especiais de sua vida.

[Rick] “Amor...” — [tom baixo].

[Maria H. Cash] — “Diga...” — [olha para ele].

[Rick] — “Vai querer tomar café da manhã aqui depois do exame?”

[Maria H. Cash] — “Hum...” — [dedo para cima] — “eu tô afim de comer na lanchonete e cafeteria GEM&JAM...” — [semblante carinhoso].

[Rick] — “GEM&JAM, éh? Os antigos donos da TRABUCO?” — [beija a esposa] — “Ok... você quem manda...” — [satisfação].

        Os apaixonados se dão as mãos. O sonho de ter um filho não convencional seria concretizado logo no dia do nascimento de Maria. Esse seria seu presente de aniversário, já que ambos os futuros pais desejam ter um novo filho. Um filho novo em folha.

[Maria H. Cash] — “Ai...” — [leve sorriso e ansiedade] — “que fila ENORME...” — [olha para os lados] — “mal posso esperar pra chegar no elevador...” — [sopra as mechas do cabelo] — “ah, não, onde fica o banheiro?” — [olhar de agonia].

[Rick] — “Mas já deu vontade??” — [pasmo].

[Maria H. Cash] — “Claro que deu, ora...!” — [olhar de irritação] — “Tô há duas horas aqui...” — [procura com o rosto].

[Rick] — “Ali, óh...!” — [mira o braço e aponta o dedo para um toalete logo à frente] — “Bem ali tem cinco banheiros, não demore muito...”

[Maria H. Cash] — “Tá bom. Segura meus documentos...” — [entrega para Rick, que os guarda em sua bolsa].

[Rick] — “Anda que essa fila é imprevisível...” — [vigilante].

      Maria se dirige apressadamente ao toalete enquanto o companheiro aguarda na fila rumo aos elevadores. Havia cinco aglomerados de pessoas esperando naquele gigantesco salão. Logo ao retornar, haviam se passado 05 minutos de espera.

[Maria H. Cash] — “Ai, pronto. Que alívio.” — [ajeita os cabelos e é abraçada na cintura pelo marido].

        As massivas filas começavam a andar mais rapidamente em direção aos elevadores. Todos estavam impacientes e ansiosos para chegarem até a tumultuada clínica. Dava para ouvir os gritos de euforia intercalados com um breve silêncio vindos do último andar. Muitos paravam para irem ao toalete, especialmente mulheres. Antes de irem para a clínica do sexto subsolo, cada cliente é submetido a uma breve aula sobre os variados aspectos históricos e característicos dos "seres humanos geneticamente modificados", sendo logo após, aplicada uma longa prova de 150 questões para serem respondidas. Se tivesse pelo menos 70% de acerto, já contribuía para receber a pulseira e fazer parte da fila. 

[Rick] — “Você acertou quanto da prova?” — [olha para a esposa].

[Maria H. Cash] — “140 questões.” — [sorri orgulhosa] — “Fui a melhor da turma...” — [sorriso genuíno].

[Rick] — “Êita porra, tá podendo, hein?” — [sorri].

[Maria H. Cash] — “Se tô, meu amor...” — [faz uma dancinha]. 

[Rick] — “Alá, já estamos chegando...” — [fita o corredor de elevadores].

        À medida que a multidão de aproximava dos elevadores, os clientes começavam disputar entre si pra verem quem iria entrar nos primeiros elevadores. A agitação começa e a competição se intensifica. Rick segura Maria para que ela não se machucasse e os dois tentam sair daquela bagunça. Vozes começam a se manifestar de forma mais enérgica e estridente. Objetos são lançados em meio aos candidatos. Pessoas atrás da fila tentavam puxar os adversários pelos braços e arrancavam pedaços das roupas de quem estava na frente. Puxões de cabelos e pessoas passando por debaixo das pernas das outras. Carrinhos aleatórios são utilizados para coletar os parentes e afastar os outros pretendentes como se fosse um trator. Alguns clientes desconhecidos foram coletados juntos aos pares e levados diretamente como entulhos. Mulheres começavam a empurrar umas às outras e diversas bolsadas foram registradas. Chaves de pescoço e homens derrubando uns aos outros ao chão, também não faltaram. O local estava inaudível. Rick e Maria são obrigados a seguir o horrível fluxo de desorganização se protegendo com os braços. Tal fenômeno mais parecia uma manada arrombando as porteiras de um pasto. Não havia civilidade alguma na procura por um espaço em um dos elevadores. Em meio a vários gritos de protesto e arranca-rabos entre os indigestos pretendentes, Maria não parecia se importar com a baderna. Já Rick, queria sair dali o mais depressa possível:

[Maria H. Cash] — “EU GOSTO É DE MUVUCA, CARALHO!!! BRIGUEM SEUS FILHAS DA PUTA!!!” — [exibe euforia e um sorriso de satisfação].

[Rick] — “Calma aí, porra, CALMA AÍ, CARALHO! DEIXA A GENTE PASSAR, NA MORAL!!” — [estende o braço para evitar que qualquer dos dois se machucassem].

        Enquanto olhava para os dois lados, Rick blindava Maria de receber golpes de socos, lançamentos de bebida, ou acerto de objetos pelo ar. Em meio ao caos completo, uma mulher grita em meio à multidão de pessoas mal-educadas.

[Desconhecida] — "GENTE, vamos caminhar de forma civilizada, pelo amor de Deus!! Tem criança aqui!!"

 ..."OW, anda logo aí na frente!! A gente tá com pressa!!"...

..."Tão obstruindo a fila!! Escolhem um elevador logo!"...

..."Cara, ela me deu uma bolsada, eu vou dar na cara dela, não saio daqui até arrebentar ela!"....

Conversas paralelas e gritos de protesto se intensificavam até que uma penca de pessoas se grudaram nas portas de cada elevador para entrarem a qualquer custo. Por sorte, Rick e Maria conseguiram se enfiar em um dos elevadores localizado ao meio, logo mais à frente dos corredores de ascensores. Este era mais espaçoso e luxuoso. Era bem iluminado e suportava até 40 pessoas. Antes que a manada em fúria tentasse adentrar ao elevador central, este tem suas portas rapidamente fechadas por um dos clientes. Assim que o recinto é fechado, um dos residentes apertam cinco vezes o botão escuro de emergência, o que é prontamente atendido pela máquina. Os usuários respiram aliviados por não terem sido pisoteados ou esmagados no processo.

... “Meu Deus, aqui não tem fiscalização não, gente?” — [semblante de surpresa].

        ..."Naaaaada....!Aqui sempre foi assim....!"...

..."Credo, você viu que desorganização?"...

... "Nossa, uma coisa horrorosa! Teve gente atropelando os outros com um carrinho diagonal!"...

 ..."Eu vi...!"...

..."Teve um que arrancou minha camisa, cara... uma selvageria, nunca vi isso..."...

..."Eu e minha mulher tivemos que nos tampar com o cobre-leito, porque tava difícil, viu..."...

..."Pra você ver como o povo consegue ser mal-educado..."...

..."Fiquei com medo de me roubarem...! Eu segurei minhas coisas aqui que não larguei mais..."...

..."Quantas vezes você tentou passar por aqui?"...

..."Já é a 15º vez que tento vir aqui pra ter um filho, é sempre a mesma baderna"...

..."Sorte de quem estava no banheiro, viu?"...

[RISOS COLETIVOS].

        Maria, Rick e os outros presentes, desciam todos quase espremidos dentro do espaçoso e iluminado elevador. As luzes do recinto emanavam dos cantos do piso, paredes, até o teto, todas em tom azul celeste. Tal brilho refletia nos rostos ansiosos dos visitantes e ressaltava a cor prateada dos lados das paredes. As faces azuladas permaneciam estáticas. Maria começava a ficar levemente zonza durante a decida. A mulher fecha os olhos e coloca sua mão em seu ventre.

[Rick] — “Tudo bem?” — [fita a esposa].

[Maria H. Cash] — “Tô meio tonta...” — [feição de cansaço].

       Rick coloca sua mão na testa e pescoço de Maria para certificar se estava com alguma febre. Nada aparentava.

[Rick] — “Você dormiu pouco, deve ser por isso...” — [acaricia o cabelo da esposa].

         Maria exibe feição meio cabisbaixa por alguns segundos.

[Mulher 02] — “Passou mal?” — [olha para o casal].

[Rick] — “Teve uma ‘tonteira’ de repente.” — [diz, enquanto segura gentilmente a esposa, que permanecia de olhos fechados].

[Mulher 02] — “Pobrezinha... quer um tablete digestivo?” — [tira pastilhas da bolsa].

[Maria H. Cash] — “Eu vou aceitar sim, obrigada...” — [leve sorriso].

[Mulher 02] — “Quer o de tutti-frutti ou de limão?” — [segura duas amostras, uma amarela, outra lilás].

[Maria H. Cash] —  “O de limão, por favor... —  [pega o medicamento] — “‘brigada’ mais uma vez...” —  [sorriso espontâneo].

[Mulher 02] —  “Por nada. Me chame, se precisar.” —  [se mostra hospitaleira].

[Maria H. Cash] — “Pode apostar.” — [devolve a simpatia].

        Maria ingere duas pastilhas digestivas. Nesse momento, o elevador estaciona no último andar. Um robô programado para falar os números de cada piso, expressa a frase: "ANDAR DE EMERGÊNCIA". As portas se abrem. O casal, que estava bem em frente à porta, teve logo de se afastar para o canto esquerdo para que os outros participantes passassem, sendo Maria acoplada pelo companheiro. A manada de pessoas saem apressadamente dos respectivos recintos CENTRAL e LATERAL em direção à enorme e retangular entrada de vidro da clínica clandestina. Maria e Rick, deixaram para serem os últimos a saírem. O gigantesco andar era composto por um massivo salão feito inteiramente à base de concreto polido verde-acinzentado, composto por lâmpadas de luz amarela anexadas nos quatro cantos do piso e paredes laterais. Com múltiplos corredores sustentados por pilares de onde ficam os elevadores, um semicírculo era formado em torno do salão. 

        A massa populacional estava alguns metros afastada do ambiente cercado por vidro, e uma enorme placa de contagem estava inserida logo acima do portão principal. Na recepção, toda composta na cor branca em sua totalidade, havia três fileiras horizontais somente para o atendimento dos candidatos à recepção dos genes selecionados. Na liderança, uma mulher negra de exuberantes e compridos cabelos crespos amarrados em coque, ficava logo ao centro da primeira fila, munida de um enorme megafone, na cor branca. No canto direito, em uma mesinha e cadeira à parte das fileiras, um homem alto, magro e de cabelos lisos e castanhos, carimbava alguns documentos assinados pelos candidatos que acabaram de subir para os andares de cima. Todos os funcionários eram uniformizados na mais completa e absoluta cor branca, e tudo do que ali era feito, compunha de materiais reluzentes e exageradamente limpos. Sem manchas, sem pelos, sem amarelados, ou desbotamentos. Cada um dos recepcionistas posicionavam-se de forma ereta, com os respectivos antebraços encostados à brilhante mesa, com os dedos de suas mãos entrelaçados. Todos que tinham cabelos compridos, os deixavam prendidos ou amarrados. Até os adereços eram rigorosamente brancos. Impaciente com desorganizações, a médica logo tratou de colocar os visitantes nas rédeas.

[Atendente Líder] — “ATENÇÃO TODOS VOCÊS! Iremos iniciar a segunda etapa de qualificação para a fecundação in vitro! CADA um de vocês irá responder uma série de perguntas para que possamos saber a compatibilidade de cada um para com os respectivos genes que gostariam para seus descendentes!” — [olha rapidamente para um folheto escrito] —  “Chamaremos CADA UM, EM ORDEM, pelo NÚMERO DA COMANDA DA PULSEIRA DE CADA PRESENTE AQUI! Eu fui clara?!” —  [olhar impaciente].

        Apesar da tentativa de comunicar as regras do protocolo para a população de agitados, muitas conversas paralelas e barulhos impertinentes tornaram o esforço em vão. A médica, abaixa lentamente o megafone, já com um semblante de pavio curto.

[Atendente Líder] — “ATENÇÃO!! BANDO DE ANIMAIS!!” —  [volta a erguer o megafone, estourando os tímpanos dos presentes] — “EU VOU REPETIR MAIS UMA VEZ! IREMOS CHAMAR CADA UM NA ORDEM DE SUAS COMANDAS EM SEUS PULSOS PARA FAZER UMA ENTREVISTA DE COMPATIBILIDADE COM O PERFIL GENÉTICO QUE ESCOLHEREM, EU FUI CLARA??” — [alto em bom som].

      Todos respondem silenciosamente de forma positiva. Nos arredores da clínica, vários seguranças armados com dispositivos à laser, também usavam uniformes inteiramente brancos, moldados com material similar a um spandex, mas projetado para ser altamente resistente a armas de vários gêneros. Do pescoço, mãos, até os pés, as vestimentas pareciam espécies de estilosos macacões, as quais davam um toque elegante, e, ao mesmo tempo, extravagante aos soldados.

[Maria H. Cash] —  “Hársshárrss!....Gostei dela...” — [sorriso de satisfação].

       O restante dos presentes olham com estranheza para a mulher. Rick fica sem onde esconder a própria cara.

[Atendente Líder] —  “Obrigada, loira de espartilho logo atrás...” —  [olhar de paisagem].

         Novamente os olhares são redirecionados para Maria Helena Cash. A mulher começa a ganhar uma mini notoriedade entre os candidatos.

[PLACA SINALIZA OS NÚMEROS DA COMANDA]--------------------

[Atendente Líder] — “Muito bem! Números 02607 ao 02717, se posicionem nas faixas!” —  [feição de seriedade].

        Os 110 clientes sorteados se dirigem até as 11 fileiras demarcadas por faixas sinalizadoras em neon esverdeadas para serem entrevistados um a um. Para cada fila, havia 10 pessoas, o bastante para cada atendente lidar de forma razoável. Cada profissional mantinha um grande folheto com dezenas de perguntas a serem feitas para cada candidato. Esta seria apenas a primeira etapa para se concorrer aos genes selecionados. Enquanto os que foram chamados estavam nas filas, os outros pacientes arranjavam alguns lugares para se encostarem e sentarem. Vários bancos estavam disponíveis juntos aos pilares e alguns banheiros unissex ficavam dispostos nos corredores ao lado dos elevadores, também iluminados na entrada.

        Maria e Rick estavam entre os participantes chamados pelos números das respectivas comandas e seriam os últimos a serem atendidos. À medida em que os clientes eram questionados, várias anotações eram feitas em um sistema computacional fisicamente vinculado à mesa de material perolado. Eram nessas telas de formato touchscreen em que eram registradas as respostas de cada cliente. A entrevista era feita com ambos os companheiros juntos para que haja um consenso. Dentre os casais presentes, dois deles, um homem de 40 anos, camisa azul celeste e cabelos e barba mais brancos do que os uniformes, e outro, de 33 anos, chapéu de cowboy, pardo, cabelos pretos e roupas de fazendeiro, não estavam dispostos a terem menos do que almejavam do perfil genético constado no banco clandestino. Ambos desejavam ter um transmorfo na sua linhagem genética. Na verdade, todos ali tinham a melhor espécime genética como preferência.

        Maria já estava se sentindo bem melhor depois de ingerir as pastilhas saborizadas. Ela estava entre as melhores pontuações no teste para ter acesso à clínica clandestina aparentada de legítima. Rick, estava ansioso para que chegasse a vez do casal.

-------------Longos minutos depois.

         Os últimos pacientes se aproximavam da mesa de recepção. Os dois homens problemáticos se entreolhavam como se já soubessem que eram rivais. Nenhum deles estavam acompanhados a não ser por seus respectivos símbolos religiosos. Maria puxa assunto com seu esposo para cortar o tedioso silêncio das fileiras.

[Maria H. Cash] —  “Amor, eu até esqueci de te perguntar, quanto foi sua nota?” —  [olha para o esposo].

[Rick] — [feição contorcida] — “... Minha nota foi um porre... tirei 75,0.” — [decepção].

[Maria H. Cash] —  “Tá bom, ué...” — [estranhamento e conformismo].

[Rick] — “Bom? Não reprovei por um triz...” — [dedo indicador para cima].

[Maria H. Cash] —  “Isso mesmo, você passou, ué...” — [incentiva].

[Rick] — “É, mas será que a mulher lá na frente vai deixar a gente pegar o melhor "girino"?” — [desconfiado].

      Um dos marrentos ortodoxos de meia idade encara discretamente o casal de forma hostil. Sendo sua nota 147, estava certo de que iria ter acesso privilegiado. Já o Cowboy, tinha ficha limpa apesar de nota um pouco menor: 145. Eram os três melhores até então.

[Maria H. Cash] —  “Bom, vai depender do que a gente responder, né, meu bem?” — [leve dúvida] — “Eu quero MUITO ter um transmorfo...” —  [alegre] —  “só espero que tenha genes pra todo mundo...” —  [olhar fixo para a mesa à frente].

[Rick] —  “Ah, meu bem, o que eles mais tem são genes, pelo menos 01 bilhão deles por amostra...” — [sorriso debochado]. 

[Maria H. Cash] — “Mas eu ouvi falar que não é qualquer um que pode receber material de um transmorfo.” — [olhar desapontado].

[Rick] — “Por quê?” — [confuso]. 

[Maria H. Cash] — “Dependendo da mulher, pode ter risco na gravidez, sabe?” — [olhar triste].

[Rick] — ... — [espantado] — “E tu me fala isso agora??” —  [chocado].

[Maria H. Cash] – “Eles checam pelos exames, amor, relaxa...!” —  [olhar de incômodo] —  “O meu deu como compatível, esqueceu??” —  [aponta para a bolsa do marido] — “O seu deu o mesmo resultado, não deu??”

[Rick] — [olha brevemente para o lado] — “Sim, o meu deu "compatível"...” — [olhar desconfiado].

[Maria H. Cash] — “Então...” —  [estende o braço].

[Rick] — “Tá, mas como um exame de sangue vai garantir que você vai levar a gravidez até o final?” — [semblante de temor].

[Maria H. Cash] — “É simples, ora. O sangue do transmorfo é retirado no banco de doações para crianças com câncer e é confrontado com outras amostras.” — [cruza os braços, com feição de orgulho] — “Já os SH's não Transmorfos, é mais o sêmen que é coletado. Mas é mais difícil...” — [olhar de receio].

        Rick coça a cabeça e ainda se mostra confuso com a confiança de Maria.

[Rick] — “Eles fizeram isso com um único Transmorfo?” —  [desconfiado].

[Maria H. Cash] — “Um ou um milhão, o exame de um é o bastante pra dar uma margem de segurança para os pais...” — [faz um biquinho e empina o rosto].

[Rick] —  “Margem...? De segurança??” —  [feição irônica].

[Atendente Líder] — “Próximos!” —  [olhar neutro].

        Todos os penúltimos candidatos se dirigem até os seus respectivos atendentes. Na mesa do canto direito, uma nova fila é formada pelos clientes atendidos para assinarem um termo de responsabilidade. Tal documento era produzido em unidades através de uma pequena impressora do tamanho de uma caixa de som portátil. O auxiliar marcava os documentos com uma espécie de "fotocarimbo" à laser, para dar mais credibilidade ao documento. Logo que a luz pulsava, uma assinatura vermelha aparecia no papel com o nome de uma instituição de estética e um banco de sangue para ocultar a existência daquela clínica, já que era auxiliada por debaixo dos panos.

[Auxiliar] — “Se perguntarem alguma coisa sobre nós, você cita esses nomes que estão aqui, entendeu?” — [aponta para o documento enquanto olha para o paciente].

        O cliente responde positivamente o auxiliar. Imediatamente, os participantes que forneciam suas assinaturas nos papéis vegetais, eram direcionados novamente para os elevadores para subirem para um dos andares que esteja mais vazio, a fim de receberam novos hóspedes para o café da manhã. Uma das atendentes que atende Rick e Maria começa a coletar os dados de cada um.

[Atendente 02] — “Nome, idade e data de nascimento da Senhora.”

[Maria H. Cash] — “Maria Helena. 54. 10 de abril de 8.800. Só Maria Helena.” — [estende a palma da mão e exibe leve rejeição em sua face].

[Atendente 02] — “Aqui consta como Maria Helena Cash...” —  [olha para a mulher].

[Maria H. Cash] — “É que eu pedi para tirarem o sobrenome, sabe?” — [feição de decepção e cruzar de braços enquanto aponta o dedo para o lado oposto] — “Até agora nunca tiraram.”

[Atendente 02] — “Enquanto não retirarem o sobrenome, infelizmente eu terei que mantê-lo...” — [olhar sem graça].

[Maria H. Cash] — “Ah, tudo bem.” — [gesto manual de "deixa para lá" e semblante de decepção] — “Pode ser.” 

[Atendente 02] — “E o senhor?” — [pergunta para Rick].

[Rick] — “Richard Brody Williams. 51. 03 de Maio de 8.803.”

[Atendente 02] — “Os dois são suplementados?” — [olha para o casal].

[Maria H. Cash] — “Sim, nós dois somos...” — [mira o dedo indicador para ambos].

[Atendente 02] — “Poderiam me fornecer os documentos e exames de fertilidade e perfil genético?” — [faz algumas anotações].

        O casal entrega a papelada que estava na bolsa de Rick, com todos os exames necessários. A mulher faz uma análise breve de cada um dos pacientes.

[Atendente 02] — “Os dois são casados a quanto tempo?” — [fita os dois].

[Rick] — “09 meses de casados... namoramos 03 anos e casamos logo em seguida...” — [sereno]. 

        Maria abraça gentilmente o esposo e sorri como um pedaço de pamonha doce. A atendente deixa escapar um leve sorriso, já começando a simpatizar com o casal inconscientemente.

[Atendente 02] — “Quais foram as notas de vocês no teste?” — [olha para ambos].

[Maria H. Cash] — “Eu tirei 140. Ele tirou 75,0.” — [aponta para o companheiro].

[Atendente 02] — “Certo. Eu tenho aqui comigo uma lista de 50 perguntas sobre as preferências de vocês em relação ao perfil de comportamento e personalidade do futuro filho de vocês.”

        Ambos balançam a cabeça positivamente.

[Atendente 02] — “A partir do que vocês responderem, iremos verificar se no nosso banco genético existe informações condizentes com as respostas dadas por cada um, e se estas batem com o perfil genético de vocês.” — [olha para o casal].

        Rick e Maria olha atentamente para a atendente.

[Atendente 02] — “Depois de comparar os genes da amostra selecionada com o perfil genético dos Senhores, faremos a manipulação em um prazo de 48 horas até 10 dias, no máximo, para que a paciente possa ser inseminada. Alguma dúvida?” — [fita o casal].

        Maria levanta o dedo indicador. A médica foca na mulher.

[Maria H. Cash] — “E seu eu optar pela inseminação sem manipulação? Quero ter esse filho ainda hoje...” — [faz um biquinho e olhar triste].

        A atendente exibe uma expressão de temor e desconfiança, olha brevemente para baixo, coloca uma das mãos à frente da boca e projeta os lábios para dentro, voltando a fitar novamente o casal.

[Atendente 02] — “Olha... aí é o risco da imprevisibilidade genética. Não que a criação de um Super-Humano vá ser sacrificante do ponto de vista das IMENSAS vantagens biológicas, mas...” — [lábios contraídos] — “pode haver fatores psicológicos conflitantes que infelizmente vocês terão que lidar com eles.” — [leve pausa e lábios de canto] — “Fora que o pai,” — [mira a mão em direção a Rick] — “também vai querer compartilhar seus genes com os da amostra, não vai?” — [semblante contraído e sem graça].

[Rick] — “Bem, eu... pra mim, tanto faz.” — [mãos para cima] — “O que importa, pelo menos pra mim...” — [mãos no peito] — “é que nós seremos os pais dele, vamos registrá-lo e cuidar dele como nosso filho legítimo. Seja ele quem for. Não é?” — [olha para a esposa que responde positivamente].

[Maria H. Cash] — “Olha...” — [sorri] — “tudo o que eu quero, é que meu filho seja uma pessoa boa e honesta.” — [faz um sinal de pinça com os dedos polegar e indicador, balançando suavemente uma das mãos]

[Rick] — “E que saiba se defender, né...” — [leve sorriso].

[Maria H. Cash] — “Exatamente!” — [mira para o marido].

[Atendente 02] — “Mas como que seria a sua preferência no que concerne às qualidades positivas que você citou?” — [curiosa].

[Maria H. Cash] — “Eu,” — [mãos no peito] — “não pretendo moldar meu filho, ou filha, de acordo com a MINHA individualidade porque...” — [pausa e contração de lábios] — “que graça vai ter se você controlar de que forma a sua cria vai ser, ou se desenvolver?” — [faz gesto de levantar de ombros e baixar de queixo] — “Você estraga todo o processo de criação daquela pessoa, bom, pelos menos isso sou eu, sabe?” — [breve contração muscular de lábios para baixo] — “Se for pra privilegiar algum traço genético do meu filho, que seja de compaixão e empatia...” — [olhar melancólico].

[Rick] — “E autonomia, coragem suficiente para se defender e defender os outros...” — [balança descoladamente um dos braços para gesticular] — “sei que é meio heroico demais cobrar isso de um filho, mas se isso for pelo bem dele e das pessoas ao redor dele, penso que é o mais razoável...” — [ajeita o boné e exibe olhar de dúvida e conformismo].

[Atendente 02] — “Bom, sendo assim, então já estão respondidas as perguntas de vocês.” — [semblante confiante enquanto guarda o questionário de volta na pasta] — “A única coisa que será avaliado a partir de agora, é somente o perfil genético e comportamental de vocês nos seus documentos.” — [postura decidida].

       Maria fica radiante e exibe um semblante e plena felicidade. Sob grande empolgação, Rick exibe discretamente a mesma alegria de sua esposa. Maria abraça o marido com todas as forças.

[Atendente 02] — “A senhora faz alguma questão de ser fecundada ou prefere receber um embrião pronto?”

[Maria H. Cash] — “Eu quero ser fecundada...!” — [postura firme].

[Atendente 02] — “E o senhor? Tem certeza de que não vai querer fundir o seu DNA com o da amostra?” — [intrigada].

[Maria H. Cash] — “Vai, amor...! Funde o seu também!” — [empolgada].

        Rick começa a ficar um pouco sem jeito ao olhar para as duas mulheres.

[Atendente 02] — “Não se preocupe, nós só vamos precisar de uma microagulha anestésica para fazer a extração do seu espermatozoide de seus testículos e colocar uma parte das suas informações no outro.” — [sorriso amigável] — “O procedimento é rápido, indolor e pode ser feito agora mesmo. O que você acha?” — [semblante sereno e rosto virado para o canto].

[Maria H. Cash] — “Vamos, amor, é uma oportunidade única pra você...” — [empolgada, sacode o marido].

        Rick fica alguns segundos confuso, mas termina concordando com a ideia e aceitando ceder seus genes para que fossem colocados no mesmo ambiente dos de uma amostra não filtrada ou aleatória.

[Rick] — “Quer saber?” — [confiante] — “Eu vou...” — [balança a cabeça positivamente].

[Maria H. Cash] — “AAAAAAAAAHHH....!!!” — [alegria genuína].

        Maria não hesita em deixar escapar um grito de alegria seguido de um grande abraço e um beijo no rosto do companheiro. A mulher, por muito tempo, nunca havia se sentido tão especial. 

[Maria H. Cash] — “Te amo, meu bebê...!” — [felicidade genuína].

[Rick] — “Meu presente se aniversário pra você, minha rainha...” — [beija os lábios da esposa].

        A atendente não consegue conter a felicidade com a euforia do casal e olha para sua colega do lado, que também admira a felicidade de Maria junto ao seu companheiro. Os outros presentes que escutaram tiveram as mais diversas reações, desde a irritação, até divertimento com a excentricidade da mulher. Antes que o homem perguntasse alguma coisa à atendente, esta conclui:

[Atendente 02] — “Não se preocupe, depois da coleta, iremos finalizar o restante das comandas, e aí sim, iremos sortear os genes, ok? E não se assuste, nós sabemos que o senhor possui baixa fertilidade” — [palma da mão verticalmente para cima].

[Rick] — [um pouco surpreso, mas concordante] — “Tá bom...” — [balança a cabeça].

[Maria H. Cash] — “Moça!” — [feição solícita].

[Atendente 02] — “Sim, diga.” — [olha para Maria].

Com um sorriso de pamonha e um orgulho mais forte que uma madeira maciça, a mulher começa a divagar acerca de sua maternidade dos sonhos como se fosse uma amiga próxima da atendente, de tão eufórica que estava. A médica, só escutava atentamente o derrame de alegria daquela boba Senhora:

[Maria H. Cash] — “Eu quero MUITO ter um filho transmorfo... é meu desejo mais íntimo pro meu aniversário, sabe?” — [sorriso de pamonha] — “Eu sempre achei esse negócio de transmorfismo uma coisa realmente fascinante! Eu quero que meu filho possa ter múltiplas possibilidades de...” — [pausa e braços gesticulando] — experimentar coisas da vida, cê entende?” — [colide uma palma da mão com a outra] — “Será que isso seria possível?” — [empolgada].

A viúva de Cash vira melosamente o rosto para o lado, levanta os dois ombros e cruza as duas mãos juntas, deixando transparecer uma feição de um doce animalzinho peludo.

       Um dos homens ortodoxos de cabelos claros olha para Maria com desdém e aborrecimento. Como as cadeiras de atendimento não possuíam blindagem, todos poderiam escutar a potente voz de Maria, que naturalmente, podia ecoar por todo o salão. Apesar da extravagância da mulher, a médica cede um leve e gracioso sorriso.

[Atendente 02] — “Olha, nós teremos que comparar o perfil genético de vocês com os dos outros participantes que tiraram uma nota alta no teste, de 140 pra cima. Só depois é que poderemos decidir com quem fica o gene transmorfo. No caso, o seu perfil irá ser privilegiado em detrimento do seu marido porque ele tem uma nota menor. E essa regra mais rígida é válida só para o transmorfo. Tudo bem?” — [sorriso hospitaleiro].

[Maria H. Cash] — “Tá bom. Eu espero...” — [biquinho].

        Quinze minutos se passaram desde então. À essa altura, Rick já estava na sala de consultório. Maria esfregava as mãos de ansiedade ao mesmo tempo que as colocava em frente à sua boca. O homem caracterizado ao estilo Cowboy, também tinha Rick e Maria em sua mira. Em um dos braços do homem de meia idade e cabelos grisalhos, um pedaço visível de uma tatuagem de um símbolo peculiar de um crânio de um carneiro com chifres, estava parcialmente coberto pelo tecido da camisa que usava, algo notado por Maria. O médico auxiliar apreciava o clima de tensão como um urubu vigia um animal prestes a virar um cadáver.

 

[Dentro do Consultório].........................

 

        Rick passa um bom tempo olhando para o teto com detalhes prateados e azuis. O local possuía um corredor com diversas salas enumeradas de 01 a 50. Tudo naquele quarto era iluminado, desde os cantos do piso, até o teto. Rick estava coberto com um lençol de cor lavanda, deitado de barriga para cima enquanto outros médicos preparam os instrumentos de coleta. Luvas e máscaras roxas, óculos de proteção, toucas brancas, aventais brancos. O homem se distraia olhando para o teto que refletia o seu rosto. Não parecia temer a agulha. Só pensava em sair para comer alguma coisa, já que está a um bom tempo em jejum.

[Rick] — “Nossa... eu tô com tanta fome...” — [olhar de melancolia].

[Médico 01] — “Eu também, viu?” — [sorriso sem graça] — “Estou há um bom tempo de plantão aqui. Louco pra sair e subir pra comer, tomar um banho, ir pra casa e dormir...” — [prepara a agulha].

[Rick] — “Nem me fale. Madrugamos bem cedo. É aniversário da minha esposa...” — [semblante sereno].

[Médico 01] — “É, eu vi...!” — [empolgado] — “Já veio providenciando o presente já, né?” — [olha para Rick].

[Rick] — “Ah, com certeza...!” — [animado].

        Ambos dão risadas.

................................ [Recepção do Salão].

  

        Maria, apoiada sobre os cotovelos, esfrega suas mãos no queixo enquanto olha para os lados. A mulher repara nos dois homens estranhos que haviam finalizado a entrevista sem chamar muita atenção. A aniversariante trava seu rosto em direção aos dois concorrentes quando eles a encaram de forma não muito amigável. Maria exibe um discreto olhar de desconfiança e raiva. Por trás de sua discrição, a mulher transmitia a mensagem de "Está procurando o quê?" através de seu semblante. Sem dar muita bola para os olhares hostis dos dois concorrentes, Maria apenas se encosta na cadeira e permanece de braços cruzados. O senhor de meia idade se levanta e vai até a fila para assinar o termo de responsabilidade, que isentava a clínica clandestina de qualquer fardo quanto a eventuais problemas que os receptores tivessem com os futuros descendentes, geneticamente manipulados ou não. Ao caminhar para a fileira, o homem não tira os olhos de Maria e do cowboy. Este último, por sua vez, encara o rapaz de cabelos brancos com desprezo. Maria coça disfarçadamente um dos braços e tenta puxar assunto com a atendente:

[Maria H. Cash] — “Mas, me ajuda entender uma coisa...” — [olha para os lados e bate delicadamente as unhas na mesa] — “como é que vocês fazem pra tirar uma amostra de um SH, ou um... Transmorfo?” — [sussurra sob um olhar de curiosidade mórbida].

[Atendente 02] — “Ah, isso é bem tranquilo. Nós estimulamos doações de material genético em troca de incentivos fiscais, preços mais baratos para compra de roupas, comida, cosméticos, ingressos para eventos... essa parte da doação a Lei nos cobre.” — [contração nos músculos da face] — “No caso do Transmorfo, isso pode ser um pouco mais complicado, sabe?” — [olha para Maria].

[Maria H. Cash] — “Ãhm...” — [singelo olhar de curiosidade].

[Atendente 02] — “Eu nem devia contar isso aqui, mas...” — [se aproxima de Maria, olhando para os lados] — “nós temos alguns profissionais do sexo aqui que fazem vários dos nossos serviços também.” — [uma das mãos cobrindo a lateral do rosto] — “A maioria das amostras que param aqui, são todas tiradas na base da ‘mão lisa’. Entendeu?” — [olhar desconfiado].

[Maria H. Cash] — “Humm...” — [balança a cabeça].

[Atendente 02] — “Porque se o Estado descobre que existe uma clínica de permite pessoas manipularem genética roubada, nós estamos ferrados...”

A médica afasta lentamente a cabeça e retira sua mão gradualmente da lateral de seu rosto, posicionando-se à mesa brenca.

[Maria H. Cash] — [pausa] — “E quanto as mulheres Super-Humanas?” — [desconfiada].

[Atendente 02] — “Só com doação.” — [olhar sério] — “Em algumas clínicas, eu já vi eletrocutarem mulheres SH para sequestrarem e retirarem seus óvulos...” — [semblante de decepção].

[Maria H. Cash] — [em choque] — “Credo, ué, que coisa doentia... — [espantada, olha brevemente para trás] — “isso não é crueldade não?” — [receio].

[Atendente 02] — “Lógico que é. O princípio da nossa clínica é justamente retirar o material genético sem violência ou constrangimento. Por isso que no nosso caso, é bem mais difícil conseguir um embrião à parte para o casal.” — [levantar de mãos horizontalmente] — “É mais fácil que a mulher já compareça aqui, seja sozinha ou com o marido, namorado, affair... e outros.” — [joga suavemente uma das mãos para frente].

[Maria H. Cash] — “Entendi...” — [atenta].

[Atendente 02] — [encosta os antebraços à mesa] — “Se bem que de uns tempos pra cá, tem aumentado bastante o engajamento das mulheres SH's pra fazerem doações voluntárias. E dos homens também. Não estamos mais precisando corromper financeiramente ou roubar sêmen tanto quanto há 20 anos atrás. Conseguimos muitos híbridos e semi-híbridos pra vários casais. E agora com esse Transmorfo à solta, TODOS os laboratórios estão surtando para pegar os gametas dele...” — [olhar de estranhamento].

[Maria H. Cash] — “Não julgo, sabe?” — [sorri, enquanto joga uma das mãos, de cima para baixo] — “Eu também surtei quando vi ele pela primeira vez...” — [semblante devasso] — “Ele é ‘B U N I T U’, viu?” — [gesto de "OK" com uma das mãos, semblante de admiração e irônico espanto].

[Atendente 02] — [aproxima o rosto] — “E eu não sei? Botamos todas as meninas daqui atrás dele...” — [aponta o polegar para trás].

 

[Dentro do Consultório].............................

 

[Médico 01] — “Bom, Rick, terminamos aqui. Como o senhor pode observar pelos dois frascos” — [exibe os objetos à frente da vista de Rick] — “,seu material já foi devidamente individualizado e será guardado no refrigerador logo ali na frente, ok? Agora, você só precisa colocar uma compressa de gelo e cuidar bem da região. Caso esteja com fome, você pode subir até os andares de cima que eles estão servindo café da manhã para os visitantes.”

[Rick] — “Beleza.” — [fica sentado na cama] — “Vai dar pra esperar o sorteio antes do café.” — [sorri] — “De qualquer forma, obrigado.” — [amistoso].

[Médico 01] — “Por nada, eu que agradeço.” —

O médico cede uma pequena bolsa de água congelada para Rick, que fica alguns minutos colocando-a no local da aplicação.

......................................

        O profissional se dirige até a copeira e recebe uma elegante moça ruiva armada com um vestido de vinil, chapéu e botas escuras e brilhantes. Com ela, havia uma xícara de chá, e o caimento de seus olhos, a aparentava estar entediada.

[Médico 01] — “Dia cheio?” — [sorriso amistoso].

[Moça] — “Quem dera... a demanda está muito baixa...” — [sorriso cansado].

[Médico 01] — “Pois você está com sorte hoje.” — [semblante amistoso enquanto acena o dedo indicador] — “Acabei de receber mais 10 pedidos na ‘Deep’ pelo mesmo alvo...” — [exibe o celular para a mulher].

[Moça] — “Hum...” — [admiração] – “Conheço ele... já somos bons amigos...” — [sorri discretamente].

[Médico 01] — “Isso significa que vamos ter que retirar pelo menos 10 amostras dele para que possamos vender para os clientes...” — [semblante irônico de desconfiança].

[Moça] — “Olha, é difícil ele ceder, viu?” — [semblante de indecisão] — “Eu quando consigo, tenho que pegar ele dormindo...”

[Médico 01] — “Ele tem polução noturna?”

[Moça] — “Dia sim, dia não...” — [bebe o chá].

[Médico 01] — “Bom, então faça o possível para promover os sonhos molhados dele. Eu vou negociar um prazo maior com os interessados...” — [dá uma piscadela].

[Moça] — “Desse jeito vou acabar virando esposa dele...” — [sorriso sem graça].

[Médico 01] — “E isso é ótimo! Se continuar criando vínculo com ele, seu contrato será renovado por mais 10 anos...” — [simpatia].

[Moça] — [semblante satisfeito] — “Sabia que vocês iriam gostar. Todas as clínicas do país querem muito ele...” — [discreto sorriso].

[Médico 01] — “Ouvi dizer que ele vive arrumando brigas em bares e lanchonetes, acha que consegue lidar com o temperamento dele?” — [desconfiado, enquanto prepara um café para si].

[Moça] — “Não se preocupe, ele é um doce.” — [olhar de carinho] — “As mulheres de Nova York falam muito bem dele...” — [orgulhosa, enquanto come uma torradinha com geleia].

[Médico 01] — “Maravilha...!” — [animado] — “Consegue marcar um encontro com ele pra quando?” — [sorriso curioso].

[Moça] — “Hoje mesmo eu dou uma ligadinha pra ele. Já estou sentindo falta.” — [olhar lúdico].

[Médico 01] — “Perfeito. Seu pagamento antecipado.” — [faz uma transação pelo finíssimo celular na conta da mulher] — “Sabe?” — [leve euforia] — “Das amostras que você me trouxe, eu nunca vi nada tão bom e flexível de se trabalhar quanto a desse rapaz...” — [sorriso confiante].

[Moça] — “Eu escolho bem meus pretendentes....” — [orgulhosa].

 

...................................[Recepção do Salão].

 

        Maria, já quase derretendo de esperar, finalmente vê o seu companheiro saindo pela porta.

[Maria H. Cash] — “Que alívio...!” — [mãos horizontalmente abertas] — “Você voltou...” — [ambos se beijam e pegam de volta a papelada das mãos da Atendente].

A atendente entrega a Rick, um comprovante que exibe o valor do serviço a ser pago.

[Atendente 02] — “Este aqui é o valor de todos os serviços juntamente com a inseminação mais o acréscimo de informações genéticas de seu esposo com as do doador. Como vocês cadastraram o banco digital na nossa plataforma, o valor já foi debitado, ok? Como a Senhora entrou pela inseminação sem manipulação, o valor caiu de $3.800 para $1.000 dólares. Agora é só vocês irem até a fila à direita para assinarem um termo de responsabilidade e esperar o sorteio, tudo bem?” — [olhar firme].

[Maria H. Cash] — “Pode deixar.” — [confiante] — “Obrigada, moça.” — [sorri].

[Rick] — “Obrigado.” — [acena com a mão para se despedir].

.........................................

        Após o recolhimento das assinaturas de cada candidato aos genes manipulados, todos se espalharam pelo salão e nos corredores para esperarem pela avaliação. Esta duraria pelo menos 02 horas e 40 minutos de espera, na melhor das hipóteses. Sem muito o que fazer, muitos aproveitaram a deixa para subirem nos andares logo acima para comerem e tomarem uma bebida quente. Alguns iam de suco de laranja, melancia, frutas vermelhas e outros sabores, com um bom prato de ovos com bacon. Outros preferiam cappuccino para aquela manhã gelada. Receitas tipicamente brasileiras, como pão de queijo, eram bastante apreciados pelos visitantes. Não faltaram chocolate quente e o tradicional café preto. Biscoitos de diversos sabores animavam as crianças. Os pães recém assados ficavam com os mais velhos. Torradas e geleias. Frutas e doces. Cachorro-quente e rosquinhas. Tudo que os esfomeados queriam comer, o casarão tinha disponível aos montes. Ninguém saia sem antes de fazer uma boquinha. O casarão subsistiu por muitos anos porque todos ali se alimentavam da apropriação indevida de material biológico, algo conivente entre as grandes empresas ligadas à clínica clandestina.

------------[O ALARME DE CHAMADA COMEÇA A TOCAR]----------

        Todos, já muito bem alimentados, descem novamente para sexto andar, de forma ordenada e pacífica, tal qual como gado manso. Rick comeu até entupir o próprio rabo. Estava apenas munido de um café e um caixa de cerejas frescas. Maria esperava sentada em um dos bancos dos pilares do salão. O homem chega de surpresa perto da esposa e cede para ela a caixa cheia de cerejas.

[Maria H. Cash] — “Ah, meu bem, ‘brigada’... eu adoro cerejas...” — [abre e come algumas unidades].

[Rick] — “Falta quantos minutos para o sorteio?” — [ansioso].

[Maria H. Cash] — “Faltam 10 minutos...” — [saboreia as frutas] — “Humm...! Estão maravilhosas...” — [se delicia com as cerejas].

[Rick] — “Tá vendo aqueles caras ali?” — [aponta para a direita enquanto se senta ao lado de Maria].

[Maria H. Cash] — “Hum... quê que tem eles?” — [comendo as frutas].

[Rick] — “O de cabelo branco acertou 147 questões. Já o de chapéu, de cabelo até o pescoço, tirou 145. Ouvi dizer que os dois também querem um Transmorfo.” — [impressionado e desconfiado]

[Maria H. Cash] — “Ah. Mas isso não quer dizer nada não, amor...” — [feição de negação] — “Não é só nota que conta, tem que ter perfil genético que te faça merecer ter o filho transmorfo...” — [confiante].

[Rick] — “E se for devoto? Eles passam na frente?” — [desconfiado].

[Maria H. Cash] — “Passam nada.” — [negação com a cabeça] — “Podem ser até o Presidente, eles não vão passar na frente por causa disso não...” — [olhar fixo, lábios contorcidos].

       Os presentes se ajeitam para assistir o que chamo de "Leilão da Baderna". Nos 20 anos que a feira clandestina atuou, o que não faltou foi pancadaria e disputa pelos “melhores genes”. Agora, além de socos, tiros também poderiam ser trocados a qualquer momento.

[SOM DE TIRO DE PISTOLA]----------------------

       Os clientes do sexto subsolo se assustam com o barulho de disparo de arma de fogo vindos dos andares de cima. Era o restante dos pacientes que estavam na fila de espera para que a leva de 110 concorrentes deixarem o salão, para que pudessem finalmente descer. Mas pelo andar da carruagem, aquele sorteio iria render até o horário de almoço. 

[Maria H. Cash] — “O que é isso, gente?? Já tão matando alguém??” — [surpresa].

[Rick] — “Estão tentando conter a boiada lá de cima...” — [olhar dirigido para o teto].

[Maria H. Cash] — “Cê tá é louco...” — [volta a comer].

        Uma mulher, mais rechonchuda e de tamancos pretos, tenta sair da multidão de pessoas espalhadas pelo salão. Na sua longa caminhada, termina parando do lado de Maria para se sentar. Esta tira de sua mochila uma cadeira inflável e se ajeita de forma que ficasse bem confortável. A mulher, de calça legging berinjela e blusa "asa de morcego" cor de uva, tinha uma excentricidade parecida com a de Maria. Usava brincos de argolas e colar, ambos esverdeados. Ao se sentar perto de Maria, esta não deixa de reparar na concorrente:

[Maria H. Cash] — “É da Vevo?” — [aponta para a própria orelha].

[Mulher 03] — “Isso, esses são da Vevo.” — [balança a cabeça].

[Maria H. Cash] — “Eu compro direto dessa...” — [admiração].

[Mulher 03] — “Amo as semijoias dela, são bem coloridas e não fere a orelha...” — [mão de palma para baixo, movimentando da esquerda para a direita].

[Maria H. Cash] — “O seu vai ser menino ou menina?” — [empolgada].

[Mulher 03] — “Eu quero que a minha seja menina...” — [contorcer de lábios] — “Sempre tive muita vontade de ter uma garota SH...” — [antebraços sobre os joelhos].

[Maria H. Cash] — “Ai, eu sou doida por um Transmorfo...” — [sorriso genuíno].

[Mulher 03] — “Ah, então é você é que tá disputando o Transmorfo??” — [impressionada] — “Tu tirou quanto no teste?” — [curiosa].

        A mulher retira da bolsa, entre a papelada, o documento de sua prova:

[Maria H. Cash] — “Tirei 140...” — [exibe a prova sorridente]. 

[Mulher 03] — “Bom, hein??” — [animada] — “Essa prova é fodida da gota, viu?”

[Maria H. Cash] — “A sua deu quanto?” — [pergunta curiosa].

[Mulher 03] — “Tirei 117... — [decepção] — “mas tá bom...” — [sorriso sereno] — “pelo menos eu posso ter uma filha geneticamente melhorada...” — [palmas das mãos para cima].

[Mulher H. Cash] — “E não é?” — [mira o braço para frente].

        A colega faz o mesmo gesto para sinalizar concordância.

[Maria H. Cash] — “Mas me fala, que jeito você quer sua menina? Tem preferência por cor?”

[Mulher 03] — [olhar lúdico] — “Não ligo muito pra cor não, mas eu quero que minha menina seja um pouco mais gordinha...” — [olha para Maria, que permanece atenta] — “tipo, não gordinha daquele modelo flácida e caída, entende?” — [feição de rejeição] — “Mas uma menina CORPULENTA, sabe? Forte, empinada, com tudo em cima...” — [gesticula com as duas mãos].

[Maria H. Cash] — “Sei, sei bem o que é...” — [aponta para a colega] — “é tipo uma gorda sexy, né?? Aquelas ‘mulher italiana’, né??” — [sorri enquanto faz uma pose].

[Mulher 03] — “ISSO! É exatamente isso que eu quero. Gorda, mas poderosa. GOSTOSA, tá ligada??” — [sinal de "OK" deitado, enquanto balança sua mão].

[Maria H. Cash] — “Tô ligada, "fia", tô ligada demais!” — [sorri balançando a cabeça].

[Mulher 03] — “Só sei que eu vou pagar mais caro, mas a minha garota EU QUERO que seja feita como eu pedir...!” — [semblante de autoridade]. 

[Maria H. Cash] — “Tá certa! Falou e disse...”  — [pequena pausa e polegar embaixo dos lábios] — “Mas... você disse que queria uma SH...PURA, não éh?” — [enfatiza, com semblante de estranheza].

[Mulher 03] — “Isso mesmo...”

[Maria H. Cash] — “Mas aí é que tá...!” — [estende o braço] — “O Super-Humano não tem o metabolismo alto??” — [expressão confusa] — “Se for pra produzir uma menina mais rechonchuda, não teria que usar um gene de um semi-híbrido?” — [confusa].

[Mulher 03] — “Naaada!” — [vira gradualmente a cabeça] — “Eles já conseguem produzir um SH com o metabolismo alto que você mencionou, mas com alto índice de massa corporal e maior capacidade de absorção de gordura.” — [enfatiza com um dos braços].

[Maria H. Cash] — “E o apetite? Tem que comer mais né?” — [desconfiada].

[Mulher 03] — “Sim... naturalmente...” — [concorda] — “Ela não vai deixar de consumir outros alimentos mais saudáveis, mas ela terá uma predisposição para comer alimentos mais gordurosos e açucarados. Vou programar minha filha pra ser bastante eclética com a alimentação dela.” — [confiante].

[Maria H. Cash] — [impressionada] — “É isso aí, minha irmã...! Gostei da iniciativa...” — [sorri e sacode brevemente a cabeça].

        A mulher cede um sorriso de confiança e dá uma piscadela para a sua colega.

Maria H. Cash] — “Mas, e aí, como você se chama?” — [vira o rosto para a mulher].

[Mulher 03] — “Stacy... e o seu?” — [sorri].

[Maria H. Cash] — “Maria Helena...” — [sorri].

[Stacy] — “Prazer, Maria...” — [se aproxima para um aperto de mão].

[Maria H. Cash] — “O Prazer é todo meu...” — [devolve o cumprimento].

 -------------[O TEMPO ACABA. PORTAS SE ABREM. MÉDICOS SE SENTAM NOS RESPECTIVOS ASSENTOS PRÓXIMOS À ENTRADA DA CLÍNICA. A LÍDER SE MANIFESTA]---------------------

        Já munida de um megafone, a líder se aproxima do centro da recepção, e de pé, convoca o rebanho para o tão esperado sorteio.

[Atendente Líder] — “ATENÇÃO, TODOS VOCÊS! Todos os perfis genéticos de vocês já foram analisados e comparados com os de cada um dos doadores com os quais foram identificadas as preferências de cada candidato!!! AGORA... juntamente com o desempenho de suas notas, as respostas dadas por vocês nas perguntas e a análise e comparação de seus perfis genéticos, iremos chamar EM ORDEM NUMÉRICA pelas comandas de cada candidato que foi entrevistado e, à frente do número, a CATEGORIA selecionada na qual será destinado o RECEPTOR! Todos aqui entenderam?!”

      O público fica ansioso para saber de qual amostra selecionada cada um recebeu para ser dado início à produção de um novo descendente geneticamente melhorado. Todos se juntam e escutam atentos para a chamada, em total e completo silêncio. O sorteio começa.

[Atendente Líder] — “PREPAREM-SE PARA A CONTAGEM!...”

“.....NÚMERO 02607! CATEGORIA SH NÍVEL ALTO!”

“.....NÚMERO 02608! CATEGORIA HÍBRIDO MÉDIO!”

“.....NÚMERO 02609! CATEGORIA SH NÍVEL PADRÃO!” 

“.....NÚMERO 02610! CATEGORIA SH, NÍVEL MÉDIO!” 

“.....NÚMERO 02611! CATEGORIA SEMI-HÍBRIDO PADRÃO!” 

“.....NÚMERO....!....” — [continua a contagem].

         A contagem do sorteio continua. Unhas começam a serem roídas. Alguns dos ansiosos tinham coceira. Outros andavam em círculos. Os mais territorialistas usavam tacos de baseball. Os mais extravagantes gostavam de exibir armas de fogo. Mas o mais comum, eram as facas. As mais modernas, eram afiadas como um bisturi cirúrgico. Os mais vulneráveis vinham com um brinde: um armário de pelo menos 02 metros de altura para se resguardarem. Todos daquele salão tinham algo em comum: queriam tirar alguma vantagem em cima das características genéticas dos super-humanos e explorá-los ao máximo para si. As crianças que esperavam por um irmão mais novo começavam a se questionarem se viriam a serem chutadas pelos seus pais depois que o futuro SH viesse a nascer. Outras, temiam serem vitimadas por um ente familiar com 5000 vezes a sua insignificante força física. Os candidatos a pais, no entanto, não pareciam temer qualquer tipo de rebeldia ou retaliação. Queriam um filho perfeito. Sequer prestavam atenção nos filhos que já tinham. Uma nova estética distorcida já havia sido semeada nas mentes daquelas pessoas. À essa altura do campeonato, a vaidade já havia consumido suas almas. Minutos haviam se passado como uma eternidade para a cabeça dos participantes.

 

Continuação da contagem..... 

 

“.....NÚMERO 02649! CATEGORIA HÍBRIDO PADRÃO!”

“.....NÚMERO 02650! CATEGORIA SH NÍVEL PADRÃO!”

“.....NÚMERO 02651! CATEGORIA HÍBRIDO NÍVEL ALTO!”

“.....NÚMERO 02652! CATEGORIA SH NÍVEL MÉDIO!”

“.....NÚMERO 02653! CATEGORIA SEMI-HÍBRIDO NÍVEL 3!”

“.....NÚMERO 02654! CATEGORIA HÍBRIDO MÉDIO!” 

“.....NÚMERO 02655!....” — [continua a contagem].

 

        Silenciosamente, algumas pessoas comemoravam pelo sorteio dos genes de um SH para a produção dos descendentes. Sussurros de alegria e êxtase podiam ser escutadas como pequenos arranhões de cordas de violão pelos cantos do salão. Maria permanecia estática e Rick quase comia a sua mão enquanto olhava para a enorme placa digital.

 

“.....NÚMERO 02672! CATEGORIA SH NÍVEL ALTO!” 

“.....NÚMERO 02673! CATEGORIA SH NÍVEL S!”

“.....NÚMERO 02274! CATEGORIA SH PURO!!”

 

        Sussurros de comoção começam a serem ouvidos. Gritos de comemoração são ouvidos dentro do enorme salão. Ainda faltava muitas comandas pela frente até chegar a vez de Maria. O homem de meia idade começa a suar frio e a prender o símbolo religioso entre as duas mãos. O cowboy, por sua vez, comia pacotes e mais pacotes de carne desidratada uma atrás da outra. Já sabiam eles que seus números estavam bem à frente dos outros, apesar da pontualidade de chegarem cedo para as filas do casarão. Os três mais bem aplicados nas provas, eram os que mais estavam ansiosos. Seus relógios de pulso pareciam estar parados enquanto o tempo parecia voar ao piscar de olhos. Maria começa a comer os cabelos.

 

“.....NÚMERO 02705! CATEGORIA SEMI-HÍBRIDO NÍVEL 2!”

“.....NÚMERO 02706! CATEGORIA HÍBRIDO NÍVEL ALTO!”

“.....NÚMERO 02707!.....” — [pausa] — “CATEGORIA...TRANSMORFO!!”

 

[Homem Devoto] — “O QUÊ???” — [olhos saltados, incrédulo].

[Maria H. Cash] — “AAAAAAAAAHHHH!!! CACETE, EU GANHEI!! EU GANHEI!! EU VOU TER UM FILHO TRANSMORFOOOO!!!” — [pulando de felicidade genuína].

        Em surto de alegria, Maria se lança nos braços do esposo, que a roda por várias vezes seguidas demonstrando toda a alegria de ver sua companheira realizando seu desejo de aniversário. Já o homem de meia idade e cabelos brancos, fica bestializado, não conseguindo acreditar no que aconteceu. O jovem cowboy, pega o seu próprio chapéu e o joga pelo chão de insatisfação. Enquanto o casal comemorava de alegria, a médica terminava com um certo esforço a contagem devido a explosão de euforia de Maria. No final, toda a contagem havia sido finalizada e o sorteio concluído, tendo apenas por insatisfação, duas queixas:

[Homem Devoto] — “Hey, espera um pouco!!” — [levanta o braço] — Espera um minuto! — [indignado] — “Eu tenho uma reclamação!” — [olhar de revolta].

        A Líder, já cansada, atende o protesto do homem que se sentiu injustiçado:

[Atendente Líder] — [dá uma longa respirada] — “Sim, pode falar...” — [cruza os braços, com um semblante de tédio].

[Homem Devoto] — “Eu disse a um dos atendentes da clínica que desejava receber um gene de um Transmorfo há pouco tempo atrás e vocês me deram um híbrido!” — [braços estendidos] — “A minha nota de corte foi a MAIOR da turma de 500 candidatos!” — [exibe o documento e ressalta] — “E isso me DÁ, por si só, o direito para concorrer a um Transmorfo! Então por que que ELA foi sorteada, e eu não fui??” — [aponta para Maria com indignação] — “Eu acho isso um absurdo, sabia??” — [indignação].

[Maria H. Cash] — [feição de irritabilidade] — “...”

[Homem Devoto] — “Eu me cadastrei na disputa restritiva, paguei pra fazer uma prova difícil, respondi TODAS as perguntas e não vou receber uma ÚNICA unidade do gene para qual me cadastrei??” — [dedo indicador para cima].

         À medida que o homem se queixava do sorteio, Maria vai exibindo uma gradual expressão de aborrecimento, derivado de seu sangue quente. Para ela, colocar seu nome numa discussão, era um desaforo. 

[Maria H Cash] — [semblante de irritabilidade e olhar de desprezo fixo para o homem] — “É perfil, filho.” 

[Homem Devoto] — “O quê??” — [olha para Maria].

        Rick acende seu pisca alerta.

[Maria H. Cash] — “É uma questão de perfil!” — [protesta].

[Homem Devoto] — “Não, não éh...!” — [negação].

[Maria H. Cash] — “É questão de PERFIL!” — [insiste].

[Homem Devoto] — “Mesmo assim! O regulamento DÁ o direito de acesso a um Transmorfo se a nota de corte for de 140 pra cima! Se NÃO for esse...” — [voz de Maria sobrepõe a do homem].

[Maria H. Cash] — “Então LÊ de novo!...” — [irritação].

[Homem Devoto] — “Eu sei muito bem o que eu li!” — [gesticulando e irritado].

[Maria H. Cash] — “Então LÊ de novo!!” — [rosto altivo, olhar de raiva] — “Lê de novo o REGIMENTO INTERNO, que você não estudou NADA!” — [raiva].

         Rick começa a segurar a esposa pela barriga e a coloca de costas contra si para acalmá-la. Os ânimos de acirram e a discussão começa a piorar. Enquanto os entreveros ocorriam, a médica que fez a chamada já estava com uma das mãos na testa, percorrendo pelos seios de sua face um misto de aborrecimento e esgotamento pela discussão infrutífera. De mãos já sobre a mesa, esta pega o megafone e começa a ficar atenta ao clima de tensão que estava sendo criado.

[Homem Devoto] — “VOCÊ é que não estudou nada!” — [aponta o dedo pra Maria] — “Você foi lá pedir pra recepção te SORTEAR pro Transmorfo que eu VI!” — [dedo em frente a um dos olhos].

[Maria H. Cash] — “UMA OVA, EU NÃO OBRIGUEI NINGUÉM A NADA NÃO, O TRANSFORMO É MEU POR MÉRITO!” — [sacode fortemente o dedo indicador da mão] — “MÉRITO! COISA QUE VOCÊ NÃO TEM!” — [ódio].

[Homem Devoto] — “Você ME RESPEITA! VOCÊ ME RESPEITA! A regra do direito ao gene Transmorfo é muito clara! ELES têm que fabricar o Transmorfo com a personalidade que EU COLOQUEI nas respostas! Então com que argumento eles vão me negar acesso ao Transmorfo???” — [protesta].

[Maria H. Cash] — “O MEU PERFIL É COMPATÍVEL, O SEU NÃO! PONTO! PÁRA DE RECLAMAR E ACEITA!” — [raiva].

[Homem Devoto] — “QUE ACEITAR O CACETE! NINGUÉM NEM TE CHAMOU NA CONVERSA, OW MIMADINHA!” — [raiva].

[Maria H. Cash] — “VAI TOMAR NO SEU CU, SEU INVEJOSO GUELÃO DO CARALHO!!” — [esgoela, enquanto mostra o dedo do meio].

[Homem Devoto] — “VAI VOCÊ, SUA VAGABUNDA PROMÍSCUA!!” — [aponta para Maria].

        O inferno já estava feito. Um misto de vozes começam a se digladiarem em um coro de torcida enquanto outros começam a sacarem suas armas. Tal ousadia do homem ressentido acendeu a fúria de Rick, que parte para a briga.

[Rick] — “AÍ, RAPAZ, NÃO FALA ASSIM COM A MINHA MULHER, BAIXA A TUA BOLA...!!” — [caminha até o homem enquanto lhe aponta o dedo]. 

[Homem Devoto] — “BAIXA TUA BOLA VOCÊ, SEU GADO IMUNDO!” — [olhar altivo e desafiador].

[Atendente Líder] — “HEEEEEEYYY!!” — [bate várias vezes na mesa] — “Vocês dois, PAREM de tumultuar o sorteio!”  

        A autoridade da médica não surte efeito. Os outros recepcionistas começam a ficar assustados, ao contrário do auxiliar, que apreciava calmamente a confusão com um sorriso no rosto. Maria e outros presentes começam a segurar Rick e o seu agora rival, enquanto outros que ali estavam a se divertir com a potencial agressão física entre os dois.

[Rick] — “SUA BICHA RESSENTIDA!!” — [aponta para o homem].

[Homem Devoto] — “BAITOLA AQUI É VOCÊ!! SOME DAQUI SEU VAGABUNDO!! VAZA DA MINHA FRENTE!!” — [tom de ameaça, enquanto aponta o dedo para Rick].

[Rick] — “AH, É?? VAI FAZER O QUÊ??? VAI ME ESFAQUEAR COM ESSA BOSTICA AÍ??? VEM PRA CIMA, ARROMBADO!!” — [fúria].

[Homem Devoto] — “VOCÊ QUER APARECER...!!” — [gesto de deboche] — “VOCÊ QUER PROVAR QUE NÃO É UM BOSTA PRA TUA DONA AÍ ATRÁS!!” — [gesto de antebraços entre o rosto].

[Rick] — “TU LAVA A SUA BOCA PRA FALAR DELA, SEU LIXO...!! — [ameaça]. 

[Homem Devoto] — “EU FALO DO JEITO QUE EU QUISER, SEU DEGENERADO!!” - [joga sua mão de trás para frente].

[Atendente Líder] — “GUARDAS!” — [acena com seu rosto para mobilizar os seguranças].

        Rick e o homem são segurados por mais pessoas para impedir que uma violência se inicie. Os guardas rapidamente se deslocam para separar os brigões. Crianças assustadas são abraçadas pelos seus pais e mães e afastadas da multidão. Ao chegarem ao aglomerado de pessoas, a baderna é desfeita com empurrões contra os agitadores de plantão, e ambos os rivais são afastados um do outro. Mãozadas na cabeça e puxões em golas de camisas também apagaram o fogo dos presentes. Braços são agarrados e jogados para os cantos e armas são tomadas das mãos de vários dos candidatos. A médica líder, tenta impor novamente a ordem no salão.

[Atendente Líder] — [saca o megafone] — “Atenção! Vamos no acalmar e ficar em silencio todos!! Ninguém vai ganhar nada com essa briga, POR FAVOR, PESSOAL...” — [implora].

        Gritos e discussões continuam a se perpetuar e conversas paralelas zumbem como abelhas. O cowboy, que havia presenciado todo o vexame protagonizado, assistia calmamente sentado em um canto, de pernas e braços cruzados. A oportunidade para reclamar, chegaria em breve. A ira da médica faz com esta saque de um revólver barulhento debaixo de sua mesa e aumente a potência do megafone em suas mãos até estourar os tímpanos. 

-----------------[SONS DE TRÊS TIROS]-----------------

[Atendente Líder] – “HEY, CALEM O MALDITO RAIO DE BOCA DE VOCÊS SEUS BANDO DE ANIMAIS!!!” — [voz potente] — “FIQUEM SENTADOS EM SILÊNCIO ENQUANTO SÓ EU FALO, VOCÊS ENTENDERAM?!” — [olhos saltados em fúria].

        Um brusco e repentino silêncio tomou todo o sexto subsolo de forma que todos, já de mãos nos ouvidos, ficassem atentos às palavras da médica que já estava furiosa:

[Atendente Líder] — “VOCÊS NÃO TEM COMPOSTURA NA VIDA DE VOCÊS NÃO?? NÃO SABEM RESPEITAR MINIMAMENTE UMA CASA PÚBLICA?! É ESSE O EXEMPLO DE PAIS QUE VOCÊS QUEREM SER PARA OS FILHOS DE VOCÊS??” — [mira o antebraço, gesticulando-o várias vezes] — “QUE VERGONHA!!!” — [ira e revolta, enquanto joga o dedo indicador para a mesa].

        Os presentes escutam em total silêncio o sermão que estavam recebendo. Todos os candidatos estavam completamente murchos. O auxiliar, descascava uma banana e a saboreava enquanto o caos rolava.

[Atendente Líder] — “E de agora em diante, eu vou fazer o seguinte: SOMENTE EU” — [mão no peito] — “converso com o candidato insatisfeito!! NINGUÉM mais fala enquanto eu NÃO resolver a pendência dele, ENTENDERAM?? Quando eu acabar, vou dar espaço para mais alguém que quiser reclamar, EM ORDEM!” — [autoridade] — “SE ACONTECER esse tipo de bagunça MAIS UMA ÚNICA VEZ, eu ENCERRO as atividades aqui e NINGUÉM MAIS VAI TER FILHO NENHUM!” — [braços abertos, de dentro para fora] — “Dá pra ser mais clara?!” - [olhar de ódio].

        Todos respondem positivamente com a cabeça. Maria só cruza os braços em silêncio, já aborrecida por ter sido jogada pelo braço por um dos guardas. Rick aparentava estar emburrado, mas nada dizia em consideração ao aniversário da mulher. O homem religioso senta em um dos bancos e se encosta de braços cruzados, ainda insatisfeito e aparentemente revoltado.

[Atendente Líder] — “Você!” — [mira para o homem de meia idade] – “Qual é o seu nome?” — [autoridade].

[Homem Devoto] — “Júlio Braga, Senhora!” — [resposta firme].

[Atendente Líder] — “Então, Júlio Braga, o Senhor relatou que sofreu uma injustiça porque não foi aprovado para ser o receptor do gene Transmorfo, através de sua companheira que não está aqui neste momento, CORRETO??” — [firmeza e autoridade].

[Júlio Braga] — “Exatamente!” — [mãos cruzadas, de pé, ereto].

[Atendente Líder] — “O que ocorre em relação a sua reclamação é que, além da incompatibilidade do SEU perfil com a do dono da amostra, que até o presente momento só existe UM ÚNICO registrado em TODO o planeta, as respostas que o Senhor deu em várias das perguntas realizadas na entrevista, possui preferências que NÃO PODEM SER MANIPULADAS nas informações genéticas do Transmorfo legítimo!” — [olhar e gestos firmes] — “É impossível, por exemplo, — [olha a caderneta de respostas] — “fazer com que sua filha transmorfo seja FRÍGIDA, BRANCA e SUBMISSA!” — [abaixa a caderneta de respostas bruscamente em uma de suas pernas] — “Porque um Transmorfo NÃO foi programado para sofrer uma única influência permanente em seu DNA! A única coisa que dá pra fazer é colocar DOIS ESPERMATOZOIDES, um de um humano comum, outro de um Transmorfo no mesmo óvulo, OU colocar um gameta para FUNDIR com o outro!” [gesticula].

        O homem permanece indignado e o expressa estendendo horizontalmente seus braços.

[Júlio Braga] — “Mas Doutora....! Se a premissa da Casa é a manipulação genética, como é que os médicos não conseguem alterar as informações dos genes de um Transmorfo conforme as preferências do cliente???” — [indignado].

[Atendente Líder] — “Querido, é um Transmorfo! Um Transmorfo muda as funções corporais dele do jeito que ele quer, na hora que ele quer, entendeu?? São seres altamente FLEXÍVEIS!” — [olhar incrédulo].

[Júlia Braga] — “Doutora, desculpa, eu não estou entendendo.” — [dedos na testa, seguido de palmas da mão para cima] — “Um SH PODE ser modificado....! Que mistério é esse que um DNA de um Transmorfo não possa ser modificado??” — [confuso].

[Atendente Líder] – “Porque as células Transmórficas NÃO podem ser modificadas ou adulteradas! Essas células foram projetadas para transformarem TUDO o que forem colocados para modificarem as estruturas delas em um ESTADO ANTERIOR ORIGINAL! Entendeu?? NÃO EXISTE qualquer possibilidade de modificar informações genéticas de um Transmorfo. Só o Transmorfo pode escolher sua forma como bem quiser que queira! Se ele quiser mudar de cor, ELE VAI MUDAR DE COR. Se ele quiser mudar de sexo, ele VAI MUDAR DE SEXO! E se ele quiser sentir TESÃO, ele VAI SENTIR TESÃO!” — [gesticula].

        O homem fica em reticências.

[Atendente Líder] — “Além disso, ainda que fosse possível, não há necessidade de estabelecer limitações a um SH porque esses seres NÃO SOFREM IMPACTOS FÍSICOS de suas consequências. O Transmorfo, menos ainda!”

[Júlio Braga] — “...” — [cara de tacho].

[Atendente Líder] — “E pelo amor de Deus, com o devido acatamento! — [olhar de rejeição] — “Há de se convir que colocar nas respostas que a menina deverá ser de ‘RAÇA PURA, assexuada, delicada, dependente, subserviente e com nível de covardia aumentado para garantir obediência aos pais e ao marido’, NÃO me faz crer que com coisas ABSURDAS como essa, o Senhor realmente esteja procurando uma filha geneticamente melhorada, mas sim, uma criatura FRACA e LIMITADA!” — [exibe a caderneta].

[Júlio Braga] — “Limitada e fraca AONDE, doutora?? Eu só quero que minha filha cresça com valores que a tornem uma mulher DECENTE e que RECONHEÇA, única e exclusivamente, o papel dela como mulher! E se hoje em dia o MUNDO não pode fornecer isso, EU tenho direito como PAI de fabricar uma garota saudável e que tenha valores morais por essência...!”

[Atendente Líder] — “MOLDAR a tendência genética de um SH NÃO É DEIXÁ-LO INÚTIL, FRAGILIZADO OU SOCIALMENTE INCOMPETENTE, JÚLIO BRAGA!” — [conta nos dedos, falando em alto e bom som no megafone] — “E o Senhor NÃO vai conseguir adicionar qualidades "delicadas" em um ser que já é programado para ser uma máquina de guerra, filho! OU você escolhe um SH PURO, ou terá que ficar com um HÍBRIDO, que é MAIS parecido com o seu perfil genético que o Senhor apresentou...! Se o SEU objetivo nesta clínica é DESUMANIZAR seu futuro filho, o Senhor está no lugar errado!” — [cruza os braços, exibe irritabilidade].

[Júlio Braga] — [indignado] — “Poxa, gente, pelo amor de Deus... EU TÔ ERRADO??” — [feição de súplica].

[Stacy] — “Está!” — [irritação].

[Júlio Braga] — “Não te perguntei!” — [irritabilidade].

[Stacy] — “Perguntou e eu estou respondendo!” — [rosto empinado].

[Júlio Braga] — “Pois agora eu rebato,” — [aponta para Stacy] — “não estou errado em desejar uma filha aos moldes dos MEUS valores...! Não quero criar uma perdida que cede aos primeiros desejos carnais que convém. Ponto...!” — [cruza os braços] — “VOCÊ, por exemplo, pode fabricar uma filha GORDA!” — [desdém] — “Agora EU não vou querer uma garota GORDA e PROMÍSCUA como laço do meu sangue!” — [mãos no peito].

[Stacy] — “Minha filha é uma SH nível ‘S’, ela não precisa do seu moralismo, obrigada...! FRACASSADO!!” — [feição irônica].

A mulher cospe no chão como quem lança um projétil. Maria se diverte com a situação.

[Maria H. Cash] – “Hááhss....Ha, ha, haaaa....! Se fodeu, panaca!” — [gesticula com uma mão aberta e a outra, de punho fechado].

        Um coro de vaias e deboches é formado e Júlio ri da cara de Stacy. Maria se entretém com a devolução do troco por Stacy e Rick se recosta em um dos pilares junto ao cowboy, ambos silentes e serenos. Antes que a discussão volte novamente a escalar para uma briga, a médica intervém.

[Atendente Líder] — “SILÊÊÊNCIOOO! Silêncio, não comecem!” — [sacode um dos braços].

       Para piorar, um dos presentes curiosos do salão, um homem alto, robusto e de barba média, decide indagar Júlio.

[Homem 02] — “Olha! Não quero me meter, mas eu tenho uma pergunta pra ele...!” — [mira para Júlio, com um lento olhar suspeito] —"... Se ela for frígida, como é que ela vai transar com o marido?” — [estranheza].

[Júlio Braga] — “...” — [tela azul].

      Constrangido com a pergunta, o homem começa a entrar em um estado de desparafusamento de sua cabeça. O auxiliar, que não poderia perder a oportunidade de tumultuar o sorteio, se intromete sem o menor pudor.

[Auxilia] — “Ué, mas a mulher tá lá justamente para servir ao marido, não é verdade?” — [sorriso de deboche, de mãos erguidas para cima].

     Com a resposta desaforada, vários participantes começam a vaiar o médico auxiliar como forma de retaliação:

.......................

       ... "Ahhh... vai à merda, cara!"

               ..."Pô, meu irmão, cala tua boca aí!",

    ... "Vai se FODER, ow engomadinho!",

                     ... "Virgem de 40 anos!", "É muito palhaço!",

    ..."Tu nem tem mulher, rapaz, vai dormir!",

..."Não deve pegar sem gripe e tá aí enchendo o saco de todo mundo!" 

                                   ...........................

        Para a alegria do rapaz, um grande coro de vaia, repúdio e rejeição é feito pelo público, já que só queria chamar a atenção. Diversos comentários, incluindo os de Maria, o rechaçavam de todas as formas possíveis.

[Atendente Líder] — “VOCÊ QUER CALAR SEU RAIO DE BOCA??” — [acerta em cheio o auxiliar].

[Auxiliar] — “Ok, desculpe! Não precisam me esculhambar...” — [palmas da mão para cima e semblante irônico de surpresa].      

[Atendente Líder] — “ATENÇÃO!!” — [bate várias vezes com uma régua metálica] — “Eu gostaria de ressaltar uma coisa pra vocês! Me escutem bem!”

          Todos param para escutar o que a médica, já exausta e cansada, tem para dizer.

[Atendente Líder] – “No que concerne ao problema do Senhor Júlio Braga, eu tenho visto muitas coisas distorcidas por aqui... em primeiro lugar, quero deixar bem claro a TODOS os pais presentes que, PARA CADA protótipo dos seres humanos aqui produzidos, podem sim, serem aplicadas personalidades voltadas para valores, sejam eles religiosos, conservadores ou quaisquer outros de suas preferências!” — [começa acenar negativamente com o dedo indicador] — “Mas nós NÃO IREMOS tornar uma pessoa FRÍGIDA, LIMITADA, HIPEREROTIZADA, IMPOTENTE, SOCIOPATA, TIRANA, ACOVARDADA ou QUALQUER característica que PREJUDIQUE SEU DESENVOLVIMENTO como ser humano!! Esses NÃO SÃO os valores que nós pautamos NESTA CASA!” — [dedos para baixo] — “OU VOCÊS VIERAM AQUI PRA QUÊ??” — [gesticula] — “Para fabricar seres humanos geneticamente melhorados ou criar MAIS uma geração que é dividida entre de frouxos, sem noção, ou delinquentes???” — [olhar de provocação].

      A plateia observa atentamente a médica, cada um silenciosamente demonstrando concordância através de balançares lentos e graduais de cabeças.

[Atendente] — “Poxa! É ÓBVIO que ter um Super-Humano na família TEM SIM suas consequências!” — [começa a contar nos dedos] — “Eles são MAIS destemidos, MAIS valentes, MAIS ousados, MAIS impulsivos, MAIS destrutivos, MAIS sexuais e NÃO foram projetados para serem subservientes a NINGUÉM! O que podemos fazer, é EQUILIBRAR a intensidade dessas características! Mas se vocês querem REALMENTE uma geração biologicamente e psicologicamente aperfeiçoada, vocês TERÃO que assumir o RISCO de terem filhos DESTA categoria! Senão, se for para criar celeumas e impor um monte de empecilhos para o desenvolvimento genético desses seres, então é melhor que vocês NÃO TENHAM FILHOS!” — [solta os dois braços em direção às pernas] — “Ou se tiverem, que os tenham da forma tradicional!”

        Nenhum dos presentes pensou em questionar qualquer argumento da médica. O sermão continuava.

[Atendente Líder] — “E pra vocês três aí na frente que disputam pelo Transmorfo!” — [alerta].

        Maria, Júlio e o Cowboy, ficam simultaneamente atentos à mulher.

[Atendente Líder] — “Vocês realmente sabem o que é conviver com um Transmorfo?? Sabem o PERIGO que é de não terem seus perfis compatíveis com a do doador do sêmen?” — [olhar de autoridade] — “Isso pode acarretar TRAGÉDIAS!” — [enfatiza] — “Submeter um Transmorfo a constante estresse seja ela de que natureza for, pode acionar um mecanismo de defesa conhecido como ‘Modo Feral’.” — [aponta o dedo indicador para cima] — “Se isso acontecer, ele literalmente MATA tudo o que ele ver pela frente!” — [sacode os antebraços pausadamente] — “Homem, mulher, criança, pai, mãe, irmão, avó, tio, periquito, gato, cachorro, fantasma, TUDO...!” — [expressão de alerta].

        As pessoas se assustam com a declaração da médica. A explicação da mulher só confirma ainda mais o temor das crianças daquele vasto e enorme salão. Maria, tem queda de temperatura de seu sangue pelo medo que sentia.

[Maria H. Cash] — “Cruz credo...”

[Atendente Líder] — “Ou vocês acham que o recente massacre da boate Underground foi o quê?!” — [olhar fixo, rosto para os lados] — “Genética NÃO é brincadeira, pessoal, ESSE sistema de protocolos aqui” — [mãos na pilha de documentos] — “é o MÍNIMO que deve ser seguido por motivos de SEGURANÇA. Da mesma forma que podemos criar seres humanos melhorados, isso também é um prato cheio para se criar MONSTROS!”

 

--------------[SILÊNCIO ENSURDECEDOR]--------------

 

        Um dos guardas do salão, aparentemente seco e silente, coloca um dos dedos no ouvido depois de passar todo o tempo escutando os gritos ensurdecedores da médica, para compensar a irritabilidade auditiva. O restante dos seguranças já eram prevenidos: todos vinham com tapa ouvidos.

[Atendente Líder] — “Então? Eu Tenho que desenhar para vocês??” — [feição de aborrecimento].

        Todos acenam negativamente com a cabeça ao mesmo tempo.

[Atendente Líder] — “Ótimo! Então vamos prosseguir com a próxima etapa do sorteio, que são as queixas! Quanto ao Júlio Braga, mais alguma pergunta??” — [olha para o homem].

[Júlio Braga] — [nega com a cabeça] — “É só isso mesmo, doutora...” - [sem graça].

[Atendente Líder] — “Mais alguém gostaria de fazer alguma queixa??” — [olhar vigilante].

        Um dos candidatos levanta a mão.

[Cowboy] — “Olá, doutora... eu gostaria de fazer uma ponderação sobre a questão do... Transmorfo, e a categoria que foi sorteada pra mim...” — [gesticula de forma gentil e suave]. 

[Atendente Líder] — “Pode falar.” — [altiva].

[Cowboy] — [Pega o chapéu] — “Bom, eu... trabalho em ambiente rural já há muitos anos, e de uns tempos pra cá, eu e minha família temos tido problemas com solo muito pobre e recursos muito escassos. Como eu dependo do trabalho na roça pra sustentar a mim, minha mulher e aos meus filhos, eu pensei se existiria a possibilidade de fazer uma reavaliação do meu perfil genético com a de um Transmorfo do nível padrão médio ao invés de usar a amostra do puro... se a Senhora puder, é claro...” — [mexe no chapéu, expressão tímida].

[Atendente Líder] — “Certo. Seu nome, por favor?” — [olhar fixo].

[Cowboy] — “Ruffus... Anderson Ruffus...” 

[Atendente Líder] — “Muito bem.” — [ajeita os papéis] — “Nós vamos analisar o nosso banco genético para ver se existe algum Transmorfo não puro para ser confrontado com seu perfil, ok? Aí o Senhor terá que assinar um documento de ‘Reclamação do Sorteio’ e remarcar nova data para um novo sorteio com custo ZERO. Entendido?” — [olhar fixo].

[Anderson Ruffus] — “Sim, Senhora.” 

[Lorraine] [antebraços sobre a mesa] “Mais alguém aqui nesta casa tem mais alguma ponderação a fazer sobre o que discutimos aqui hoje?” [olha para os lados].

[Maria H. Cash] [levanta uma das mãos] “Eu tenho!” [sorriso de palhaça].

[Lorraine] [expressão de tédio] “Fala, meu anjo...”

[Maria H. Cash] [empolgada] “Eu só queria dizer que eu vou ser uma ÓTIMA mãe...” [biquinho] “Obrigada, de nada...” [sorriso de deboche, polegar nos lábios].

        Um longo e prolongado lamento do público surge em forma de coro em reação à resposta da mulher. Os mais diversos elogios podiam ser escutados de vários cantos:

..."Aaaahhhhhhh... pelo amor de Deus....";

                                    ..."Me erra, cara...";

..."Jura mesmo que você parou pra dizer isso??";

                ..."Nossa, é mesmo??";

    ..."Já terminou, minha filha??".

[Lorraine] [tédio] “Muito bonito, querida. Muito emocionante mesmo...” [irônica] “Obrigada por esse momento motivacional. Continuando...” [volta a ajeitar os papéis].  

        Rick fita a companheira já com um leve sorriso de constrangimento, balançando negativamente a cabeça. Enquanto a médica ajeita a papelada, um dos atendentes a alerta sobre Júlio:

[Atendente 03] — “Lorraine...” — [acena o rosto para o homem].

[Lorraine] — “Sim, eu sei. Não se preocupe, eu cuido dele...” — [olhar de desconfiança].

        Lorraine pela primeira vez observa atentamente Braga sob uma nova ótica. O que para ela era só um homem sexista e perturbado, na verdade, poderia ser uma erva daninha. A médica prossegue:

[Lorraine] — “Atenção a todos, por favor! Todos aqueles que optaram pelo instituto da inseminação sem manipulação, ORGANIZEM-SE EM FILA!” — [autoridade] — “O restante, aguardem a chamada posterior!

        As novas filas, já bem menores, são finalmente formadas. Rick e Maria renovam seus humores e vão abraçados até a fileira de espera para que Maria pudesse ser inseminada com as duas amostras, tanto do companheiro, quanto do Transmorfo. No final, o casal estava vibrante pela paternidade. Após alguns minutos, já ansiosa, chegava a vez de Maria.

[Lorraine] — “Próximo!” — [chama a próxima leva].

        Os últimos das 11 fileiras se sentam nos respectivos assentos brancos e acolchoados, com braços de acrílico igualmente branco.

[Maria H. Cash] — “Ah!” — [alegre] — “Finalmente...!” — [pega a papelada e a cheira] — “Tô tão feliz, moço!” — [felicidade genuína].

        O atendente ao lado de Lorraine exibe um sorriso de simpatia para Maria. Rick desfere um olhar apaixonado para a mulher.

[Maria H. Cash] — “Rapaz, eu tô mais rabuda do que ganhador de loteria...!” — [sob risos de pamonha, a mulher recosta-se na cadeira, seguido de bater de mãos nos braços da cadeira] — “Finalmente eu vou ter uma cria que me dá gosto!” — [biquinho e esfregação das duas palmas das mãos] — “Não repara minha doidera não, viu? É que eu já tive muito azar com os meus 05 filhos, sabe?” — [empolgada].

        O sereno rapaz escuta pacientemente a prosa (vulgo besteirol) de Maria.

[Maria H. Cash] — “Meus "filho" saiu tudo bichado.” — [decepção irônica] — “04 partiu tudo pro tráfico e "virou" bandido.” — [acena com o para o lado] — “A minha QUINTA filha...” — [feição de incrédula] — “coitada... casou com um...” — [semblante de negação].

Por lapsos de segundos, Maria se recosta à cadeira e cruza brevemente os braços, seguido de posição ereta novamente. Não podia deixar de transparecer naquele micro momento, a dor que sentia pela perda de seus filhos.

[Maria H. Cash] — “bom!” — [bate uma palma] — “Não importa, agora já passou.” — [ajeita os cabelos] — “E eu tô feliz demais...” — [reluzente, permanece inclinada sobre a mesa].

[Atendente 03] — [sorri] — “Éh, eu percebi. Mas também...” — [levantar suave de mãos da mesa] — “Eu ficaria no seu lugar.” — [sorriso sereno].

[Rick] — “Ela tá mais feliz que eu no último campeonato de Liverpool antes de me aposentar...” — [aponta o polegar para a esposa].

         Ambos estouram em risos. Antes que o papo evoluísse para um cenário de bar, o rapaz cede ao casal uma caneta para que pudessem firmar uma assinatura em punho.

        [Atendente 03] [tosse para não rir] — “Assinem esse termo aqui, por favor...” [mãos frente à boca].

         O conteúdo do objeto gráfico era na verdade composto por uma substância similar a um "laser", mas que não emitia calor. Era algo que transmitia cores ao sofisticado papel, mas não manchava, borrava ou parecia derramar.

[Maria H. Cash] — “Prontinho...!” — [dá uma batidinha da caneta no papel]

[Rick] — “Assinei também...” — [satisfeito].

[Atendente 03] — “Ótimo. Me acompanhe, por favor, Senhora.” — [respeitoso].

        Maria cede um longo celinho em seu companheiro e se dirige até o laboratório para ser finalmente inseminada.

 

---------------Dentro do Consultório----------------

 

        Maria, já nua e com roupas hospitalares, permanece acoplada a uma cama hospitalar com os dois pés na colcha, de pernas separadas. Ao lado no balcão, dois documentos com um relatório completo da identidade do Transmorfo na qual Maria iria receber o material genético. Foto colorida e dados detalhados são exibidos logo no cabeçalho dos papéis. Logo ao seu lado, mais acima e próxima ao iluminado teto prateado, uma enorme tela de um televisor que iria transmitir, em tempo real, a inseminação propriamente dita. Uma microagulha seria introduzida dentro de Maria para que seus óvulos pudesse ser coletados. O anestésico, já estava de prontidão. Como estava em período fértil, seria mais fácil realizar a extração. Após a retirada de seu material, Maria olha espantada para o televisor enquanto seu óvulo é recebido pelas duas amostras.

[Maria H. Cash] — “Senhor amado! O esperma parece uma água viva....!” — [espantada].

[Médica 02] — “Sim, é uma espécie de água viva microscópica...” — [ressalta] — “o que achou?” — [sorriso leve] — “Impressionada?” — [sorriso].

[Maria H. Cash] — Muito! — [olhos saltados, boca entreaberta] — “Ele tem umas cinco caldas! ... E ele tem uma ‘sainha’...” — [impressionada].

        Os outros médicos se divertem com a surpresa de Maria quanto a amostra do Transmorfo. Em poucos minutos, o óvulo já havia sido fecundado pelo material genético dos dois espermatozoides. O espécime do Transmorfo parecia sugar o outro gameta por completo, "fundindo" as moléculas do DNA desta como se um predador fosse. O "corpo" do gameta cujo material foi absorvido, nadava morto pelo líquido enquanto o gameta vencedor "convertia" as moléculas de seu "inimigo" em novas, a partir das suas, já existentes. Só após esse micro massacre, é que o espermatozoide "fundido" foi introduzido ao óvulo. Enquanto isso, Maria assiste todo o processo pelo televisor como se tivesse descoberto a América.

[Maria H. Cash] — “O que aconteceu com outro??? Foi tirado as ‘tripas’??” — [surpresa].

[Médica 02] — “O gameta do Transmorfo roubou e ‘converteu’ as moléculas do outro espermatozoide, deixando apenas a casca dele. Em suma, o gameta do doador ‘saqueou’ o do seu marido...” — [olha para Maria].

[Maria H. Cash] — “Ah...!” — [impressionada].

        Enquanto a paciente assiste pelo televisor, um dos médicos realiza cuidadosamente o procedimento.

[Médico 03] — “E pensar que embriões assim eram impossíveis de sobreviver...” — [concentrado].

[Médica 02] — “Os tempos mudaram muito... agora com esse Transmorfo, vai pipocar crianças com essa genética...” — [assiste a inseminação por outra tela].

[Médico 03] — “Humf...!Pode esperar que vai ter um surto delas...” — [olhar fixo].

   Nesse momento, Lorraine adentra o consultório para verificar o andamento da inseminação e pegar um copo de café para si. Maria então, não resiste em perguntar.

[Maria H. Cash] [muda sua expressão e vira seu rosto para a Líder] “Moça, posso te fazer uma pergunta?” [curiosa].

[Lorraine] “Hum?... Sim, diga.” [desperta].

[Maria H. Cash] “Como é que você aguenta aquele merda que fica sentado na mesa de assinatura??” [semblante de rejeição].

[Lorraine] “Quem? O auxiliar?? Ah...! Nem me fale...” [bebe o café revirando os olhos] “eu já nem levo mais a sério o que ele diz. Tem que aguentar esse imbecil, né menina... pelo bem do profissionalismo.” [olhar de tédio].

          Os outros médicos quase riem de Lorraine.

[Maria H. Cash] Sei... te entendo demais.” [tédio] “Já tive uma praga dessas quando eu trabalhava no posto de gasolina...” [lábios contraídos].

[Lorraine] [olhar de monotonia].

 

-----------------------Minutos depois.........

 

Já com o processo de inseminação finalizado, Maria volta do consultório, animada com seu novo filho que estaria prestes a ser formado em seu ventre. Os outros candidatos que estavam presentes no Salão, não deixam de encarar o felizardo casal por alguns minutos. De metida a besta, Maria se vangloria de seu presente improvisado de aniversário:

[Maria H. Cash] “Abram alas, meus amores!” [sorriso genuíno] “A aniversariante grávida vai passar...!”

A mulher realiza um sutil levantar de um dos ombros seguido de um bico de pato, enfeitando com uma leve rodopiada de 360 graus sob os finos saltos de seus sapatos. Como parte de seu show, Maria é vaiada pelos participantes:

     ..."Aaaaaaaahhhh... metida...";

         ..."Tem mais o que fazer não, minha filha?";

 ..."Só podia, viu??"; "Vai encher o saco de quem tem tempo...";

         ..."Tá se achando só porque vai ter filho TM";

                ..."Nossa, que mulherzinha nojenta.....";

..."Brega demais, viu...";

           ..."Ai, ai... quer mesmo aparecer...";

     ..."Chata demais... vai embora logo, minha filha...".

        A mulher atraiu a atenção que queria. E a tensão que também queria. Especialmente de Júlio Braga, que não gostou nem um pouco de ter sido preterido. Com um olhar fulminante, o mesmo iria sofisticar suas preferências para sua próxima tentativa de ter um filho. Rick, já munido de todas os pertences do casal, a recebe com um beijo em sua mão e, guiando gentilmente seu braço até seu ombro, a pega pela cintura caminhando juntos até o elevador dos fundos que os levariam até o primeiro andar, já caracterizado pelo típico design do enorme e clássico casarão.

        Ruffus, observa atentamente a estranha face do homem de meia idade, que aparentemente, não sabia lidar com derrotas. Triunfantes, marido e mulher se entreolham sem olhar para trás:

-----------------------Saída do elevador

[Maria H. Cash] “Sabe aonde a gente poderia ir agora, vida?” [doce sorriso]. 

[Rick] “Sei...” [apaixonado] “Fazer uma bela refeição no GEM&JAM e dar um rolê pela estrada no nosso caminhão, o que acha?” [sorriso confiante].

[Maria H. Cash] “Adorei a ideia...” [radiante].

 

--------------[TEMPO FRESCO E ENSOLARADO. CÉU LIMPO. ÁRVORES MULTICOLORIDAS E VARIEDADES DE PASSARINHOS PELOS CANTOS].

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---------------Algumas horas depois. Salão vazio. Organização de documentos.

 

[Lorraine] “Ai, céus...! Eu estou tão exausta... minha garganta está estourada...” [desliza as mãos pelo pescoço enquanto organiza os papéis da recepção].

[Atendente 02] “Doutora, eu vou fazer um lanche. Joelho brasileiro, framboesas e um suco de laranja, a Senhora topa?” [receptiva].

[Lorraine] “Nossa, claro! Você chegou bem na hora, eu estou realmente com fome. Já, já, irei para a copeira.” [aliviada].

[Atendente 02] “Tudo bem... te espero lá.” [leve sorriso].

        Passos se aproximando próximo à Lorraine. Uma mão é posta em seu ombro.

[Médico 01] “Tudo bem, Doutora?” [atencioso].

[Lorraine] “Meio detonada, mas estou bem... amanhã vai ser a minha folga, vou me preparar para descansar.” [ajeita os cabelos].

[Médico 01] “Folga merecida! Isso aqui pode enlouquecer qualquer um...” [sorriso tímido].

[Lorraine] “Me diga, tem lugar pior do que esse aqui??” [feição de estranheza].

[Médico 01] “Olha...” [sorriso irônico] “Pode acreditar... tem lugar muito pior do que aqui...” [sorriso de falso desespero].

[Lorraine] [cara de paisagem].

 

===[DETROIT. 20H50 DA NOITE. AMBIENTE ABERTO. FEIRA LIVRE]===

 

        Chuvas e trovoadas. Asfalto molhado e cheio de lama. Papéis, bitucas de cigarros, garrafas e muito lixo por toda a parte. Lâmpadas antigas e amareladas iluminavam o local, já escuro e ermo. Estruturas velhas, encardidas e feitas de madeira. Uma multidão desesperada para ser a primeira a chegar ao caótico e desorganizado balcão, superlotavam uma feira que era escancaradamente aberta e sem quaisquer restrições ou "sorteio". Dezenas de mulheres eram empurradas em quartos improvisados como gados destinados ao açougue, e centenas de frascos com sêmen eram leiloados à esmo. A regra era uma só: quem desse mais, ganhava a amostra. Valia de tudo. Desde celulares, joias, anéis, quadros, medalhas, dinheiro vivo, pedras preciosas, até o próprio sangue era uma moeda de troca. Pessoas eram quase pisoteadas para disputarem pelo melhor sêmen. Mãos e braços exaustivamente levantados e gritos ensurdecedores marcavam aquela noite. As entradas mais pareciam estábulos particulares e as portas de vidro eram constantemente estapeadas e vandalizadas, além de que tudo era feito à mão nua. Nas coxas. Da pior forma possível. Sem qualquer fiscalização. Não havia guardas, comandas ou ordem naquele lugar. Era bruto. Era seco. Era rudimentar. Do outro lado da clandestinidade, existia a sucursal do inferno.

 

......... Don't Look Up - Main Title Suite (Bonus Track).

 

 

      

 

 

 

      

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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