---TERRA. 13 DE OUTUBRO. ANO 8.860. NOVA YORK. 17H00 DA TARDE. DISPUTA DE GANGUES.----

Era uma variação tosca de um veículo futurista com uma singela velharia. Uma caminhoneta cinza envenenada, pintada à base de spray de várias cores para ser mais exato. Do outro lado daquela tranquila rua, um garoto, nos seus 04 anos de vida, apreciava de um belo sorvete de fruta enquanto esperava sentado em uma cadeira estofada, cuja pequena mesa redonda estava na altura de seu pescoço. O sol ardia tanto quanto embelezava aquela tarde. Cabelos ruivos e olhos azuis acinzentados. A única coisa que usava para vestir, era um “camisão” infantil que lhe cobria até os joelhos e uma roupa íntima por baixo. O tom laranja chamava muita atenção da criança. Seus sapatos pretos mal davam para enxergar os cadarços brilhantes de silicone. Enquanto chupava o sorvete, desenhava aleatoriedades em um caderno digital que simulava perfeitamente o papel. A fina caneta em suas pequenas mãos, podia manifestar todas as cores que quisesse.

O bairro onde movimentava a pacata lanchonete, era constantemente mal frequentada por gangues e vagabundos que disputavam o domínio da cobiçada região. Podia haver o que fosse: qualquer pessoa que lá transitasse não deveria ser incomodada ou sua integridade atentada. Um único relato de roubo poderia custar a vida do arruaceiro. A criança, de espírito desarmado, já era hóspede da casa e até recebia alguns mimos dessa estranha comunidade retro futurista: comidas, roupas, um banho quente, um videogame portátil da cor que quisesse, sapatos, uma boa cama para dormir. O menino era adorado por todas as pessoas daquele setor.

 Mesmo tão mimado, o garoto aprendeu a viver sozinho por um bom tempo. Até mesmo se disfarçou como uma garota, mudou o tom de cabelo, diminuiu sua altura e adulterou seu cheiro e temperatura para se virar em uma megalópole tão complexa. O menino parecia ingênuo, mas sabia exatamente o motivo pelo qual era tão amado no bairro até pelas outras crianças, as quais muitas vezes não tinham metade de sua atenção. Ele tinha perfeita ciência do que era capaz de fazer, apesar de não ver necessidade de ir muito longe.

A histeria era tão grande que o pequeno garoto parecia ter sido elevado ao status de “Messias”. Ele conseguia tudo o que quisesse sem dizer uma única palavra. Até mesmo as gangues se rivalizavam só para ter o que o menino podia fornecer de mais valioso e inesgotável fonte autônoma de riqueza. Ninguém o questionava, embora para aquele garotinho, isso não tivesse a menor importância. Tinha alma pura e bem receptiva até com os seres humanos mais peçonhentos. Uma minirrádio tocava algumas músicas latinas enquanto um grupo de 07 homens de coletes escuros estava de olho no menino. Alguns se muniam de chapéus para disfarçar o olhar. Apesar de gigantesca, a informação circula rápido na megalópole. Até os jornais já haviam testemunhado pessoas nunca antes vistas há cerca de uns 05 anos atrás. A informação roda. Em milésimos de segundos. Mais cedo ou mais tarde os mafiosos iriam ficar sabendo, mesmo duvidando. Aqueles 07 homens não tinham mais dúvida quanto a veracidade das informações. O garoto tinha algo especial. Seus “adotantes”, dois bandidos de meia tigela que costumavam realizar furtos, comiam panquecas ao lado do garoto.

[Henry] – E aí, rapazinho? Está se divertindo, ãh? – [sorriso hospitaleiro e rosto próximo ao garoto, inspirando confiança].

     O menino mostra um sorriso sereno e desarmado para o homem de boina escura e casaco de frio. Estava um dia gelado apesar do sol brilhante.

[Marv] – Hey...! Vamos levar você para o melhor parque de diversões da cidade, dos bons, hein?? – [animosidade e gesto de leve tocar dos cotovelos no braço do menino, que retribui a simpatia].

[Henry]- Marv, tá com os minérios? – [olhar sério e desconfiado enquanto come].

[Marv] – Sim, todos eles...Pode ficar despreocupado. – [olhar desconfiado para o comparsa, ao perceber a gangue espioná-los.

     Ao notarem os olhares estranhos, os dois homens resolvem apertarem o passo para saírem do local. O menino de temperamento tranquilo olha para os homens encapuzados logo atrás, em sua diagonal. Ele recebe um “tchauzinho” do líder da gangue, um senhor musculoso de óculos azulados, longos cabelos pretos trançados e bigode mexicano. O pequeno retribui o cumprimento.

[Henry] – Vamos sair daqui, Marv... – [o cutuca com o cotovelo, já finalizando sua refeição e limpando os lábios].

[Marv] – Hum... – [limpa os lábios] – Vamos... – [se prepara para sair da mesa].

[Henry] – Vamos lá garoto...! – [chama com o braço] - Vamos que nós três ainda temos que decidir seu nome e procurar sua escola.

[Marv] – Ele vai ter que ir mesmo pra escola...? – [confuso].

[Henry] – Como toda criança, Marv... – [exibe horizontalmente a palma das mãos, mostrando leve irritabilidade].

[Marv] – Mas ele é muito diferente das crianças... – [estende o braço direito].

[Henry] – E o que isso impede ele de estudar, oras?? – [contando a gorjeta].

[Marv] – E se alguém sequestrar ele? – [olhar de dúvida].

     Henry exibe olhar estranho para o comparsa.

[Marv] – A cidade inteira tá de olho nesse menino, Henry... – [olhar desconfiado].

[Henry] – Marv, ninguém encosta o dedo nesse menino a não ser que ele deixe, tá legal? – [gesticulando]- Vamos sair logo daqui antes que ferrem com a gente... – [fala por entre dentes para não ser notado pela gangue].

     Os três, ao pagarem pela comida, entram no veículo e saem imediatamente do local sem olhar para trás. Os 07 homens ainda mantêm o mesmo olhar de alguns minutos atrás enquanto observavam os dois capangas no carro.

[Marv] – [olha para trás e volta para o banco] – Viu o olhar daqueles caras? – [aponta o polegar para trás].

[Henry] – Eu vi, Marv... – [olha brevemente para trás] – É por isso que nós temos de abandonar Nova York e investir numa vida na Flórida, que é o mais longe daqui.

[Marv] – Mas não vamos ficar muito tempo na Flórida, vamos? – [olha para Hanry com dúvida e levantar de mãos].

[Henry] - Eu não sei...Eu nem pensei nisso...

[Marv] – Se eu puder te dar uma dica, eu estive pensando da gente sair pro Canadá e passar o período escolar dele lá...

[Henry] – [seriedade]- E temos que registrar esse menino logo, se quiser que isso aconteça...! – [aponta o indicador para a criança, que terminava o sorvete].

[Marv] – [acena discretamente com as mãos pedido para falar baixo] -Então é melhor a gente pegar as coisas no apartamento e dar um pé daqui ainda hoje. – [olha para trás] – Vai avisar o locador? – [olha para o colega].

[Henry] – Não, não vou avisar nada, o negócio aqui é jogo rápido, entendeu...? Vamos trocar uma das pedras no banco depois de registrar o menino.

[Marv] – Não é melhor trocar com o pessoal do beco?

[Henry] – Par quê, pra nos matarem? Tá maluco? Tá todo mundo doido nessa criança... – [olhar tenso, pé suavemente pisando no acelerador].

[Marv] – Cuidado pra não pegar uma infração de trânsito, Henry. – [alerta o capanga] - Hey, homenzinho... – [semblante simpático para o menino enquanto fica apoiado ao banco de encosta] – Se eu te pedir para mudar a cor do cabelo, você faria isso pro tio? – [sorriso tolo].

     O menino rapidamente atende o pedido do mafioso e muda a tom de seu cabelo para branco, adicionando ainda, olhos com tom mais escuro do azul. Os bandidos ficam empolgados e mostram euforia com as habilidades do menino.

[Henry] – Hah, haaah...! É isso aí, garoto! – [amistoso].

[Marv] – Gostei de ver, jovenzinho...! Toca aqui...! – [exibe suavemente o punho fechado para a criança, que retribui o comprimento].

     Marv volta a se endireitar ao banco e sente-se ainda mais empoderado com seu futuro e de seu colega.

[Marv] – Henry, nós vamos ficar RICOS... – [felicidade].

[Henry] – MUITO ricos, Marv, pode ter certeza... – [sorriso maligno].

..............APARTAMENTO VELHO NO CENTRO DE NOVA YORK. 20H45 DA NOITE. ROTA DE FUGA DOS BANDIDOS.............

     O pequeno apartamento mofado estava inteiramente revirado de cabeça para baixo. Os dois vagabundos estavam ajeitando as malas a todo vapor para levarem a criança para bem longe dali.

[Henry]- Sabe, Marv? Com essa criança, nós nunca mais vamos precisar furtar carga, viver de quinquilharias ou invadir bancos...Isso dá trabalho... – [coloca rapidamente alguns objetos numa bolsa sacola].

[Marv] – Ah, lógico...! Se eu fosse escolher como viver, seria sem a polícia na minha cola, isso pra mim já basta... – [recolhe outros objetos do armário].

[Henry] – Eu vou mandar bastante dinheiro pra aposentadoria da minha mãe, pra minha esposa e pro meu irmão desempregado... – [olha para Marv].

[Marv] - Eu não tenho esposa, então tá tudo certo...! – [vira-se brevemente para trás, aos sorrisos enquanto gesticula com as mãos].

[Henry] – Mas tem mãe, não éh? – [fita Marv].

[Marv] – A minha morreu faz muito tempo. – [sorriso irônico].

     Henry faz um gesto braçal de “deixa pra lá” e volta a recolher o máximo de pertences que pudesse. O menino, porém, chega ao cômodo, munido de um retrato em movimento, que desperta a curiosidade de um dos bandidos.

[Marv] – Quem é aí nessa foto? – [curioso].

[Menino] – É a minha mamãe... – [olha inocentemente para Marv].

[Henry] – Deixe eu ver... – [toma pacificamente a foto da mão do garoto e a fita com surpresa].

[Marv] – Conhece ela? – [olha desconfiado].

[Henry] – Já tive um lance com essa doida...... – [acena negativamente] - Era a mulher de um caminhoneiro... – [foto em mãos e semblante de negação].

     O mafioso devolve o pequeno retrato digitalizado para o pequeno e se encarrega as duas grandes malas com seus braços. Marv pega mais duas malas e chama o menino com a cabeça. A criança vai logo atrás.

...........[PORTAS DA CAMINHONETA SE FECHANDO]........

[Henry] – Sabe onde colocou o saco de dinheiro? – [tenso].

[Marv] – Sim, sei... – [mostra o mapa com a localização pelo celular]. Está bem aqui. Não tem câmeras, é um lugar seguro pra desenterrar e escapar.

[Henry] – Tá, me dá isso aqui.... Deixe-me apoiar... – [ajeita o telefone eu um suporte ao lado do para-brisa] – Ok. Beleza, vamos lá... – [liga o veículo e parte em retirada].

     Marv ajeita o espelho da caminhoneta e dá uma piscadela com o polegar para cima para demonstrar simpatia com a criança, que sorri para o delinquente. Ambos verificam a munição de seus revólveres e coloram as armas ao lado dos seus bancos, penduradas em um suporte, uma espécie de auxiliador de carregamento e movimentos precisos.

[Henry] – As pedras estão aonde? – [olha para Marv].

[Marv] – Na mochila beje. Logo atrás de você.

[Henry] – Pegue a mochila e fique de olho. Alguém pode roubar... – [motores ligando].

     A extravagante caminhoneta sai do local e se dirige até o esconderijo do dinheiro. Os faróis são ligados. As ruas estão mais vazias e os lugares menos badalados. Os lugares por onde o veículo transitava ficavam cada vez mais frios, escuros e vazios à medida que Henry dirigia. O dinheiro estava muito distante dali. Tudo parecia tranquilo para os capangas executarem seu plano de fuga temporário para Flórida. Ambos olham para um lado e para o outro. Os vidros do veículo eram escuros e os comparsas utilizavam capuzes escuros. O menino não parecia se preocupar com absolutamente nada daquilo. Os três permaneceram a maior parte do tempo em um absurdo silêncio. Para cortar o clima tenso, Marv tenta quebrar o gelo:

[Marv] – Aí, garoto... – [olha momentaneamente para a sombria estrada] – Vamos escolher um Belo nome pra você... – [sinal de “OK”] – Algum palpite, Henry? – [disfarça sua empolgação].

[Henry] – Eu pensei em “Dylan”.... Ou “Jane”... ”Thomas Jane”, que tal? – [semblante confiante].

[Marv] – Eu estive pensando em “Mark”... Ou “Conrad”... – [dedos no queixo, olhar amistoso].

[Henry] – “Conrad” é bom... – [expressão de concordância].

     Marv olha momentaneamente para o pequeno diversas vezes.

[Marv] – E você, catatauzinho? – [semblante amistoso] – De que nome você se chamaria, hein? – [olha pelo espelho do veículo].

[Menino] - ...Conrad... – [sorriso tímido].

     Henry e Marv se entreolham por um tempo.

[Henry] – Ele gostou do “Conrad” – [aponta sorridente e empolgado para Marv].

[Marv] – Também gostei... – [ajeita a gola do casaco orgulhoso].

[Henry] – Bom, então vai ser “Conrad”, o que acha, galãzinho? – [olha para a criança].

     O menino acena positivamente para sinalizar concordância. Ambos os capangas demonstram satisfação nos seus olhares.

[Marv] – Bem-vindo ao time, Conrad...! – [olhar empolgado ajeitando o boné escuro].

     Ambos riem satisfatoriamente de forma maligna depois de terem nomeado seu futuro filho adotivo, que provavelmente iria lhes proporcionar uma vida de grande fortuna e ostentação.

[Henry] – Quem diria que a gente iria encontrar uma criança transmorfa perdida pela cidade, uma verdadeira MINA de ouro na terra... – [olhar sedento e ganancioso].

[Marv] – Uma mina de ouro e à prova de balas... – [sorriso orgulhoso].

[Henry] - Sabe o que eu tô pensando, Marv? Um transmorfo pode doar sangue pra qualquer criatura viva no planeta... Ao doar o sangue, o receptor adquire células transformativas no próprio corpo. – [semblante de cobiça].

[Marv] – E isso significa que... – [aponta, sorrindo para o colega].

[Henry] – Nós dois podemos virar uma mina de ouro, já pensou isso, Marv? – [sorriso maligno].

[Marv] – Vai ser a comemoração de 18 anos dele... – [sorriso debochado].

     Ambos dão uma leve progressiva risada. O menino, já na sua forma original e sonolento, resolve tirar uma breve soneca no banco de trás.

[Henry] – Fica atento, já estamos quase chegando... – [olhar tenso].

     Marv volta a focar na estrada. Luzes de postes em meio a um breu silencioso toma conta daquele ambiente ermo e tenebroso. As folhas das árvores voavam em um ato ritualístico sinistro. Marv nota no espelho, um veículo preto e elegante, logo atrás deles. Era um Volvo, movido à energia mecânica. Altamente silencioso.

[Marv] – Henry... – [tenso].

[Henry] – Eu sei... – [calafrios].

     Henry vira rapidamente a caminhoneta em uma ruela para desviar a atenção do motorista de veículo perseguidor. Ao sair para outra rua, o luxuoso carro já não estava mais atrás deles.

[Marv] – [olha para trás com temor] – Eles já foram...?

[Henry] – Por enquanto.... – [olha para os lados] – Vou estacionar do outro lado... – [semblante sério].

[Marv] – Mas do outro lado tem câmeras...

[Henry] – Ninguém vai notar, relaxa.... – [resmungando] – Coloque o capuz... – [temor e seriedade].

     Os dois percorrem pela estrada por mais 05 minutos sem serem seguidos. O veículo é estacionado um pouco mais à frente de uma calçada, ao lado de um pequeno gramado que ficava junto a uma pequena residência de dois andares feita à base de vidro. Ao redor da quadra, muros pichados aos montes. Uma das poucas luzes amareladas de um poste estava logo acima do gramado, que até vinha com uma caixa de transmissão de sinais. Logo à frente, uma gigante placa escrito “BE AWARE. DANGEROUS PLACE. MILITARY AREA. WE’RE NOT RESPONSABLE FOR ACIDENTS.” estava posta em uma rede metálica, já destruída pelos vândalos. Até então, parecia ser um local vazio, abandonado e acessível.

[Henry] – Aqui é onde ficam os testes feitos pela Base Aérea Americana.

[Marv] – Ali... –[aponta o braço] - É nessa quitinete que eu coloquei dinheiro, tá lá naquele vaso enorme que tá aparecendo ali no canto...Ao lado da cortina meio aberta...

     Os dois bandidos olham para os lados e notam “piscos” flamejantes de fogo em vários cantos diferentes.

[Marv] – É um belo ponto de droga também... – [olhar atento].

     Os dois se entreolham antes de partirem para pegarem a sacola de dinheiro.

[Henry] – Preparado? – [olhar atento].

[Marv] – Preparado. – [olhar firme e breve balançar de cabeça].

     Ambos saem imediatamente da caminhonete, armados encapuzados e de forma discreta. Henry acena com o indicador para fazer silêncio e chama com o braço. Antes de partir, Marv acorda o já sonolento e tranquilo garoto a fim de mantê-lo alerta:

[Marv] – Hey... – [estala os dedos] - Hey, garotinho... - [dá uma leve sacodida na criança adormecida, que desperta] – Precisamos que fique acordado, Ok? Se acontecer alguma coisa, foge o mais rápido daqui, ouviu? Nós já voltamos logo. – [olhar firme].

     Conrad acena positivamente com a sua cabeça enquanto segura seu brinquedo de pelúcia. Henry aumenta os gestos braçais para chamar o comparsa. Marv fecha a porta do veículo e deixa a criança lá dentro. Ambos adentram lentamente na residência abandonada, que estranhamente, parecia bem conservada e limpa por dentro, sem qualquer sujeira ou móvel destruído ou revirado. O menino fica de joelhos no banco para poder ver melhor o que estava acontecendo. A criança sentia algo estranho no ar.

     Já dentro do local, os bandidos notam a residência intacta. Apesar do estranhamento, ambos retiram a planta do grande vaso para pegar o saco de dinheiro, fazendo uma bagunça no piso do local à medida em que eles retiravam a terra. Lá estava o montante guardado, como havia sido planejado. Os dois exibem orgulhosos um semblante de um discreto fascínio:

[Henry] – Muito bom, Marv... – [cutuca-o com o cotovelo] – Nunca mais vamos precisar roubar joias... – [satisfação].

[Desconhecido] – Nunca mais vocês vão precisar ver a luz do sol... – [recarregamento de uma arma de fogo].

     Ambos, paralisados, e com o saco de dinheiro nas mãos, os comparsas acuados lentamente levantam suas cabeças para verem quem estava à frente, munido de uma metralhadora. Outros 06 homens entram em cena pelos outros cômodos da casa, como se já estivessem esperando por lá. O homem que estava lhes apontando a arma, era o líder do grupo da gangue que estava presente na lanchonete. O senhor de longos cabelos trançados e aspecto aterrador. Henry, frustrado, nega com a cabeça por não acreditar que tinha ido tão longe para acontecer tamanha infelicidade. Seu semblante era de agonia. Marv, fica de olhos arregalados e lábios travados, tentando tirar a mente do “branco” que pintava diante de uma situação de alto risco.

[Líder] – Os DOIS, me passa o dinheiro e a criança que tá na carroça. VOCÊ, - [se dirige a Marv] – vá buscá-la...! – [semblante intimidador e sinalizando com a ponta do cano].

     Marv se move devagar, com as mãos travadas e estendidas, para direção de onde o mafioso lhe apontava, ainda sem saber muito o que fazer, senão se render. Mas antes que pensasse em caminhar, Henry se defende:

[Henry] – Olha...Vamos fazer um acordo... – [semblante de incredulidade e frustração].

[Líder] – Não vai ter acordo... – [sério].

[Henry] – É que... – [agonia] – Nós precisamos muito desse dinheiro.... – [gesto de súplica].

[Líder] – Quem vocês “tão” devendo? – [seriedade].

[Marv] – [Balança a cabeça negativamente de forma rápida] - ...Ninguém... – [olhar de temor].

[Lider] – Então não precisam dele... – [olhar de deboche].

[Henry] – Ah, nós temos pedras...! – [tensão e desespero].

[Líder] – Como é que é? – [torce o olhar, mostrando interesse].

[Henry] – Nós temos um MONTE delas...! Podem pegar tudo se quiser, valem uma fortuna...! – [gesto de súplica e tentativa de ser convincente].

[Líder] – Obrigado pela oferta. Mas nós precisamos de muito mais do que 50 milhões. A caminhoneta pode ficar pra vocês. – [semblante de menosprezo e risos coletivos].

     Henry começa a tremer as mãos de frustração e súplica pela fortuna que estava perdendo, bem diante dos seus olhos, nas mãos de uma máfia mais perigosa que já tinha visto. Ele não iria aguentar ver seus planos irem buraco abaixo. Seu medo começa dar lugar à raiva.

[Henry] – Olha, moço... –[agonia e incredulidade] – Eu sou o PAI dele...! – [coloca a mão em seu casado rumo ao peito].

[Líder] – VOCÊ É PAI DELE?? – [mostra enorme sorriso no rosto enquanto aponta o dedo para Henry].

     Todos os sete homens dão risada dos dois capangas. Marv já estava se sentindo totalmente humilhado e não consegue manter olhar reto.

[Líder] – E quem é a mãe dele? É esse daí que tá do seu lado?! – [aponta com o cano da arma para Marv, enquanto sorri debochadamente para os bandidos].

     Mais risadas sucessivas foram tiradas dos 07 homens, que não economizaram na humilhação.

[Líder] – Todo mundo aqui sabe quem são os pais dele, rapaz, pára de me enrolar. E você, - [recarrega a arma] – vá logo e traga o menino pra cá. Sem desculpas. – [olhar bruto].

     Marv olha momentaneamente para o garoto que estava na janela do veículo, com um olhar preocupado e sente algo estranho em seu peito. A criança, percebendo algo estranho, chama Marv com o braço para que voltem ao veículo. O homem tenta, inutilmente, argumentar com o chefe da máfia.

[Marv] – Tá, mas...Por que a gente?? – [gesticula com os braços] – Nós nunca nos metemos com as outras gangues... – [semblante de súplica].

     Um tiro é disparado para a diagonal, fazendo com que Marv dê um salto a “la bicicleta” e pare no chão, de mãos na cabeça, ajoelhado. Henry se assusta, mas mantém a mesma expressão de agonia, frustração e raiva, com uma das mãos projetadas para frente.

[Líder] – A reputação de vocês não me interessa! São vagabundos como todo mundo! É o último aviso... – [recarrega a arma] – Me deem o dinheiro e a criança...! – [semblante bravo].

     Ambos os dois bandidos, humilhados e rendidos, se viram em posição oposta e o saco de dinheiro é largado ao chão e chutado para trás, rumo aos mafiosos. De mãos para cima, ficam um do lado do outro, quando começam a se moverem:

[Líder] – O baixinho fica! Só você vai! – [aponta para o Marv].

[Henry] – Espere...! – [lança mais uma tentativa].

     O líder fica em silêncio e espera para ver o que o rendido tem a dizer. Marv trava novamente e olha em estado de alerta para o colega.

[Henry] – Eu tenho aqui comigo um token, junto com um dispositivo que dispara eletricidade...Ele tá no meu bolso...Vocês vão precisar dele se quiser adestrar o garoto.

[Líder] – Ah, éh? E isso presta? – [olhar de deboche e seriedade].

[Henry] – Bom, se ele fugir...Vocês não o pegam mais... – [vira a cabeça para o lado] – Eu falo porque conheço a peça... – [olha para o lado, de mãos para cima].

     O líder da gangue acena com a cabeça para um dos comparsas vasculharem as vestimentas dos rendidos. Dois deles imediatamente se prontificam e vão até Henry e Marv. Quando ambos pensam em relaxar, são advertidos:

[Líder] – MÃOS PARA CIMA, OS DOIS! – [grita].

     Os bandidos imediatamente estendem as mãos para cima, assustados, sem dizerem mais uma única palavra. Henry olhava por diversas vezes para a manga longa de seu braço esquerdo. Era canhoto. Marv não sabia mais como reagir e só disparava olhares amedrontados para Henry, temendo pela própria vida. Após serem revistados da cintura para baixo, Henry percebeu que os dois carrascos guardavam suas respectivas armas na cintura.

[Mafioso 01] – Achei um Token no sobretudo desse aqui...E um revólver. – [retira da cintura de Marv, já todo revirado e pálido e guarda para si].

[Mafioso 02] – Esse aqui não tá armado. Só achei a carteira.

     O líder acena com a cabeça e gesticula com os dedos para virar os rendidos para frente e buscar mais objetos com eles para confiscá-los.

[Mafioso 01] – Virem pra frente e mostrem os braços... – [voz firme e seriedade].

     Isso era tudo que Henry queria.

[Henry] – Ok. Você é quem manda... – [exibe um sorriso contido e debochado].

     Ao se virar, Henry coloca seus braços em posição de “cumprimento”, na qual uma pistola é rapidamente projetada para frente e depositada em sua mão esquerda, através de uma ferramenta vinculada ao seu punho. Antes que desse tempo de o mafioso processar informações, o seu olhar de paisagem para o cano da arma se desfaz com um belo tiro certeiro no seu coração, a qual faz com que todos ali presentes fiquem paralisados. O homem atingido e de olhos arregalados, cai ao chão como um pedaço jaca mole, sem nem ter qualquer reação ao seu infortúnio.

     Marv percebe o tamanho da desgraça que acaba de acontecer. Henry efetua mais dois tiros contra os homens e aciona seu modo tolerância zero.

[Líder] – HIJO DE PUTA!! – [expressão genuína de ódio e adrenalina].

 Uma festa mexicana de balas, sangue e pólvoras, disparadas de forma desordenada e sem rumo, circundava toda a residência naquela estúpida e magnífica noite. Marv rapidamente salta para trás de um sofá que estava à sua frente. Os mafiosos torram o máximo de balas que podia contra Henry, que escondido atrás de uma bancada toda feita de mármore, consegue acertar três dos carrascos, um deles direto no ombro. Ferido, o líder finaliza Henry com os disparos de metralhadora. Um dos homens mancava por conta do disparo feito no joelho. Marv só podia ficar em posição fetal e esperar que aquela desgraça acabasse. Para cada bala disparada, era como traques sendo soltados livremente por crianças para infernizar toda a vizinhança. Era como uma mistura de Copa do Mundo com Festa de Ano Novo envolvendo luzes coloridas e Fuzis Israelenses disparados para o mais absoluto nada.

 Todo coberto de ferimentos graves, Henry é completamente estourado em balas. A sua cabeça fica inteiramente aberta por um buraco feio e sanguinolento. Marv, trêmulo e com as mãos cobrindo seus ouvidos, enxerga uma das metralhadoras caída no chão. Aproveita então a oportunidade para pegá-la antes do homem manco e a dispara com tudo no corpo do mafioso que tentava tomar a arma de volta. Os outros cinco homens voltam a tentar fuzilar Marv e as balas de dois deles que estavam na escada se esgotam.

[Mafioso 03] – AH! DESGRAÇA...! – [incrédulo e com raiva].

     Marv, desajeitado como um pamonha, dispara de forma aleatória e perigosa, de um lado para o outro, a metralhadora que portava em suas mãos. Ao estilo Rambo, atrás de um sofá verde-safira, destruía tudo o que via na frente. Quando terminou, percebeu que a sala estava inóspita, com dois corpos na escadaria. Marv tinha matado três homens naquela noite. Ainda tenso e de olhos arregalados, olhando de um lado para o outro, não percebeu que o Líder estava atrás de uma parede, escondido.

[Marv]- APARECE SEU ANIMAL! VAMOS ACABAR LOGO COM ISSO...!! – [efetua mais disparos de raspão contra a parede, acuando ainda mais o líder].

     Sem que Marv saiba, um dos capangas da gangue estava logo acima das escadarias, só esperando o momento certo para abater o rival. No meio do surto de confiança de Marv, as suas balas finalmente acabam. O homem olha feito um banana para a arma, quando um disparo é feito rumo em seu peito, próximo ao ombro direito.

[Marv] – AH!....Merda! – [parte em retirada].

     Ao tentar fugir para a porta da residência em direção à caminhoneta, Marv recebe mais um disparo feito pelo líder em sua perna, que o deixa caído, rastejando pelo chão. O pequeno assiste assustado toda a desgraça pelo vidro do veículo. Marv tenta desesperadamente se arrastar para onde estava o automóvel, deixando uma trilha de sangue e ausência de esperança por onde passava. Marv dá sua última olhada para o pequeno garotinho transmorfo. No fundo, ainda gostava dele.

[Marv] – Conrad!...Fuja, garoto...! – [olhar de desespero e gesto de fuga com um dos braços].

     O menino olhava para trás e olhava para Marv, sem saber se fugiria ou se tentaria tirá-lo dali. Um dos homens que estava escondido, aparece caminhando atrás de Marv enquanto carrega a munição de misericórdia.

[Marv] – Fuja pra fora do carro!.... Rápido! – [quase chorando].

     O assassino fica bem rente a Marv, perto de mirar o cano de sua metralhadora no centro da cabeça do homem rendido e vulnerável. O menino olha triste e ofegante para Marv.

[Marv] – Conrad...! – [olha brevemente para o cano da arma, já em lágrimas] – FUJA, CONRAD, FUJAAA...! – [último grito de desespero].

     O som ensurdecedor de estouro completa a implacável execução de Marv. Os pássaros se dissipam das árvores. Para bem longe de onde foi feito o disparo. Outros animais de pequeno porte saem de arbustos e outras construções para fugirem dali. Agora ambos estavam mortos. O menino estava triste e sem saber o que fazer.

     O homem que finalizou Marv retira sua máscara e conserta seu chapéu, limpando o seu sofisticado terno preto com listras brancas, e um pingente de alto valor. Olha para as suas luvas escuras e saca de um pequeno pote de álcool líquido em spray para limpá-las. O piso estava ensopado com o sangue de Marv. As pegadas de sangue do assassino caminhando em direção de onde estava a criança, abatida e confusa, deixavam marcas indiscretas. Um homem, de aproximadamente 40 anos, cabelos penteados para trás, cor castanho claro e olhos claros. Ele fita a criança quando tira o belo chapéu de sua cabeça e se apresenta com um dissimulado sorriso para o pobre garotinho, que já estava novamente solitário.

............

[Líder] – Da próxima vez... Vamos certificar que nenhum deles venham com uma arma na manga... – [se limpa dos cacos de vidro e coloca um lenço branco em seu ferimento, sentando-se à calçada].

Tudo parecia ter sido concluído conforme a gangue planejava. O executor só não esperava que seu sorriso fosse logo desfeito quando notou a aparição de várias luzes e armamentos por diversos cantos.

================>> LUZES E FORTES ALARMES DE VEÍCULOS POLICIAIS.

 

     30 homens fardados e fortemente armados brotaram "do nada" como um surto de plantas por todo o quarteirão. Snipers escondidos em construções velhas e pelas matas, 10 viaturas cantando pneus e cercando a residência, e um helicóptero logo acima da cabeça do homem, que foi logo surpreendido com a frase: “DEITE NO CHÃO E PONHA AS MÃOS NA CABEÇA! O SENHOR ESTÁ PRESO!”. O líder, com uma simbólica feição abestalhada, nada faz além de manter uma das suas mãos para cima enquanto seu bigode murchava. O assassino, deitou-se ao gramado com uma singela cara de tacho e mãos na cabeça. Um terceiro, ainda dentro da residência, soltou ao chão o copo de whiskey que estava em suas mãos, erguendo-as para cima. A festa acabara ali.

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..................30 MINUTOS DEPOIS.................

     Após isolado o local da cena do crime e a região ser lotada de peritos e policiais, o menino é “resgatado” e retirado para fora do veículo, sentado em um banquinho com um cobre-leito para se cobrir do frio. Do frio que mal sentia, na verdade. Ao esperar alguns minutos, dois agentes fazem uma suave averiguação na criança, mantendo-se agachados para ficarem em posição de equidade com a mesma.

[Agente 01] – Qual o seu nome, rapazinho? – [olhar de compaixão].

[Conrad] – Conrad... – [olhar de serenidade].

[Agente 02] – Alguns deles chegaram a machucar você?

[Conrad] – Não.... – [feição neutra].

[Agente 01] – Aqueles dois homens que estavam com você, quem eram? Eram seus pais?

[Conrad] – Eram meus amigos.... – [sereno].

[Agente 02] – Eles eram seus únicos amigos? – [olhar sério].

[Conrad] – Não...Tive outros... – [ajeita o cobre-leito].

[Agente 01] – E o que aconteceu com eles...? – [curioso].

[Conrad] – Eles morreram.... – [semblante triste].

     Os dois agentes se entreolham preocupados com a situação daquela criança.

[Agente 01] – E quem cuida de você? – [preocupado e sério].

[Conrad] – Ninguém... – [olhar neutro].

     Mais olhares de estranhamento e preocupação são compartilhados entre os dois agentes.

[Agente 01] – E.... – [gira uma das mãos, exibindo confusão em sua face] – Conheceu alguma criança que lhe fizesse companhia...? Uma criança mais velha? – [gesto de incerteza].

[Conrad] – Eu conheci...Elas me chamavam de “macaco branco”. – [sorriso envergonhado].

[Agente 02] – “Macaco branco”? – [feição de estranhamento].

[Agente 01] – Meu Deus.... – [cara de tacho].

[Conrad] – Só que as pessoas que ficam perto de mim sempre se machucam... – [trava os pequenos lábios e mostra timidez].

[Agente 02] - ... E por que que elas se machucam? – [preocupado].

[Conrad] – Eu não sei... – [expressão genuína de desapontamento].

     Um dos agentes suspiram ao ouvir o relato de Conrad. O outro, expressando genuína preocupação, acende uma lanterna para verificar o corpo da criança, começando pelos olhos.

[Agente 01] – Hey, Brad, o menino é um SH. E dos bons... – [olhar fixo].

     O outro colega aproxima o rosto para ver melhor o olho de Conrad. O menino não piscava nem por um segundo.

[Agente 02] – A pupila dele é transparente.... – [estranhamento].

[Agente 01] – E meio furta cor também... – [olhar concentrado].

     Ambos os agentes se levantam, mantendo o olhar para Conrad. Um deles, porém, percebe uma foto nas pequenas mãos da criança.

[Agente 01] – Posso ver a foto que está na sua mão? – [semblante simpático e educadamente inclinado para frente].

     Conrad acena positivamente e entrega a fotografia em movimento para os policiais, uma fina e singela figura em tela “GIF” de uma mulher, recoberta em material metálico. Ambos os policiais analisam as imagens.

[Agente 02] – Acho que conheço ela... – [olhar fixo].

[Agente 01] – Como? – [fita o colega].

[Agente 02] – Esse caso saiu nos jornais alguns anos atrás...Eu acho que essa é a mãe do menino que te falei... – [olha para o colega].

     O agente volta a fitar o pequeno Conrad e tem vagas lembranças de uma investigação feita há 04 anos. Ao pesquisar pelo nome da mulher da fotografia, nota uma notícia jornalística que saiu na época.

[Agente 01] – Benjamim......Deve ser ele... – [aponta suavemente para o menino, que nota cada movimento].

     O outro policial fica curioso.

[Agente 02] – É esse o Benjamim?

[Agente 01] – Éh...É esse sim...

     Mais 10 minutos se passam após aquela peculiar entrevista, na qual os corpos são recolhidos da cena do crime. Conrad, não espera mais nada além de seguir o “fluxo” do que viesse pela frente. Um dos agentes, se abaixa novamente para o garoto:

[Agente 01] – Vamos levar você pra um lugar seguro... – [olhar honesto].

[Conrad] – [acena positivamente].

     O agente pega o pequeno ruivo pela mão e o auxilia a carregar o cobre-leito até a viatura para designá-lo às autoridades competentes e receber de brinde, um belo chocolate quente. Outro mimo. As luzes azuis e vermelhas piscam em conjunto. Tudo que se sabe, é que Benjamim este desaparecido por 04 anos, sem pai e sem mãe. Somente nas mãos de desconhecidos. E agraciado por Deus. Seu novo nome de batismo: Benjamim Conrad.


                              ............[Luzes de Sirenes].

 

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