---PERÍODO PÓS-ARMAGEDDON. JANEIRO. NOVA YORK. ANO 8851.02H30 DA MADRUGADA. CAMPO ABERTO-----
Um emaranhado de chaves presas a um metal girando por entre os dedos das mãos. O tédio e a falta de perspectiva o faz repensar sobre como estacionou naquele lugar. Apoiados os antebraços sobre uma barra metálica, em meio a um campo improvisado de basquete, já não mais entendia o motivo de estar ali. Parecia inútil. Parecia uma mera futilidade. Pensava se havia valido o esforço. Sair de tão longe para se deparar com uma civilização que mal conhece. Que nem de perto, iria deixá-lo fugir dos holofotes. Por bem ou por mal, chamava atenção. Sua estadia afetaria aquele povo mais cedo ou mais tarde. Quando não se disfarçava à luz do sol, saía pelas noites. Os poucos que o avistavam, não eram amigáveis. Era raro boa receptividade. Aquele mundo estava insano.
Vega passava a maior parte do tempo sem ser notado. Em um dos bancos, a notícia sensacionalista dos papéis de jornal se espalhou como um vírus e a repercussão gerou comentários e discussões generalizadas. "ALEGAÇÃO DE MORADORES SOBRE AVISTAR UM META-HUMANO REFORÇA TEORIAS CONSPIRATÓRIAS". Logo atrás, um rapaz encostado na rede metálica do campo se mostrou interessado em se aproximar. Camisa preta, casaco vinho e calça verde-oliva. O homem de botina marrom e mãos nos bolsos, logo se oferece para compartilhar a companhia. O rapaz apoiado sobre a barra metálica nota a sua presença, mesmo não direcionando seu olhar. O desconhecido então, fala na língua nativa de Vega como forma de identificação.
[Homem] -...Posso falar com você? -[cabeça baixa].
O rapaz entende a iniciativa.
[Vega] - À vontade... - [olhar fixo].
O homem ruivo se junta a seu então colega, também apoiando os braços sobre a mesma barra. Ele saca de uma mini garrafa de bebida e toma um pequeno gole. Logo em seguida, oferece para Vega, que aceita e toma uma bicada. O metal por onde se apoiavam as chaves é prendido na fivela da calça de Vega. Os dois começam a se lembrar de detalhes até então ficados para trás.
[Homem] - ...Eu te vi lá na plataforma... -[bebe um pouco] - Estava com um vestido de cetim verde com detalhes dourados... - [olha para Vega].
[Vega] -... - [pensa um pouco] - Eu lembro de você também... - [recebe da mão do homem, a garrafa] - É um dos expulsos, suponho.
[Homem] - É isso.
[Vega] - Então você deve conhecer o SUII... - [bebe um gole].
[Homem]- Se for quem eu tô pensando, talvez...
[Vega] - É um fortão, alto, pele "dourada", de cabelo preto, olho azul-escuro... - [devolve a garrafa para o homem].
[Homem] - Então eu sei quem é... - [bebe um pouco]- O nome dele agora é "SUII"? - [estranhamento].
[Vega] - Qual era o nome dele? - [olha para o homem].
[Homem] - Vondano... - [olhar vazio].
[Vega] - Hum...Tiraram até a identidade dele... - [recebe a garrafa mais uma vez].
[Homem] - Ele abriu mão do nome dele...Não aguentou o baque.
Vega dá uma bicada na bebida.
[Homem] - Onde conheceu o Vondano? - [curiosidade].
[Vega] - Foi por acaso. Eu morei com ele por um tempo. Na verdade foi o melhor período que passei desde que pisei aqui... Magal é seu nome real? - [olha para o colega].
[Homem] - Sim. Quanto a isso eu já eu bati o pé. Continuo com meu nome de batismo. -[olha para Vega] - Magal. - [estende a mão para cumprimento].
[Vega] - Vega. - [devolve o cumprimento ao rapaz].
Ambos gastam alguns minutos em silêncio bebendo e curtindo os minutos tediosos. No céu não havia lua que pudesse apreciar, apesar do cintilar das estrelas. Umas poucas luzes de postes abaixo de onde os dois estavam, permaneciam ligadas. Os olhares retos se mantinham fixos.
[Vega] - Como você fez pra se identificar aqui? - [preocupado].
[Magal] - Só me ferrei... - [tampa a garrafa e o guarda] - Nos deixaram aqui sem documentação, sem informação, sem nada, foi uma merda... - [feição de decepção e negação com a cabeça]- Tentaram me internar quando falei a verdade sobre mim e tive que inventar um monte de abobrinhas. Até eu sair do status de apátrida, já me meti em um monte de enrascada. Sorte que eu ainda sabia a língua inglesa.
[Vega] - A minha estadia aqui também não está sendo das melhores... - [desapontamento].
[Magal] - Eu fiquei sabendo... Foi aquele "carona", não foi? - [curioso].
[Vega] - Sinceramente, eu quero esquecer disso... - [percorre a mão no rosto] - Não sei nem descrever como meus dias aqui estão ficando estranhos... - [negação com a cabeça].
[Magal] - E isso na sua nuca? - [preocupado].
[Vega] - É o sinal de "hospitalidade" dos humanos daqui... - [retira do bolso um chiclete em fita e separa um pedaço para si] - Aceita? - [oferece a Magal].
O homem separa um pedaço da fita de chiclete em sua mão. Magal não pôde deixar de notar por mais tempo o dispositivo de contenção de Vega.
[Magal] - Admito que já passei por algo parecido, mas era com uma coleira. Eu fui colocado pra ralar num prostíbulo.
[Vega] - Não deve ter sido uma experiência muito agradável...
[Magal] - Tirando a parte da zona de conforto, éh...Topei com todo tipo de dragão... - [olhar de tédio].
[Vega] - Você e o SUII não ficaram juntos? - [fita Magal].
[Magal] - Nós fomos separados em naves diferentes. Eu fui pra um lado, ele para o outro. Mas nós temos nossos becos aqui. A gente se reúne mais pro fundo do Touro Vermelho.
[Vega] - O bar nazista? Já estive lá. Ganhei uma aposta. Mas fui expulso pra variar. - [feição de deboche].
[Magal] - É muita disposição pra ser expulso de um bar nazista...Aquilo parece um jardim de infância.
[Vega]- Até que foi divertido.... - [discreto sorriso].
[Magal] - Até porque eles não iriam conseguir triscar em você... - [sorriso irônico].
[Vega] - [suspira] - Odeio fazer julgamentos, mas os humanos são bem ariscos...Não sei se é só comigo... - [semblante de receio].
[Magal] - É com todos nós, Vega...Durante esse tempo todo que estive aqui, a maioria deles nunca gostaram de nós... - [decepção] - Somos muito diferentes uns dos outros. Pra eles nós somos uma ameaça. E de fato, não deixamos de ser. Qualquer mínima interação já é o suficiente pra machucá-los. Eu não me adapto aqui. - [vira-se de costas e inclina-se o cox sobre a barra, com os cotovelos apoiados] - Às vezes prefiro ficar sozinho...
[Vega] - Só não entendi como que ninguém aqui soube que existe outra órbita além da Terra.
[Magal] - Quando os humanos foram a BIOTH, a expedição falhou. O fracasso da missão resultou em guerra que durou muito além do que os humanos daqui podiam acompanhar. Por conta disso, o Governo jogou para debaixo do tapete como se fosse mais uma teoria conspiratória. Só que agora com você aqui, eu receio de que esse plano de esconder informações do povo venha a calhar.
[Vega] - Até agora eu fui trocado de mão como se troca um carro. E o pior é que eu não sei como tirar essa bosta da minha nuca.
[Magal] - Já tentou fugir pra longe? - [fita Vega].
[Vega]- Não adianta....Qualquer um que tiver um token, pode acioná-lo de qualquer parte do globo. E eu não tenho Cidadania. - [suspira].
[Magal] - Esse país é bizarro de vários níveis....Regrediu ao invés de evoluir.
[Vega] - Vandora também estava indo na mesma linha pelo que fiquei sabendo por alto...
[Magal] - Não posso negar. Fizemos muita cagada por lá também.
[Vega] - Trabalhou pro Cash por quanto tempo?
[Magal] - Uns bons anos... - [sopra uma bola de chiclete].
[Vega] - Ele te aceitava bem? - [olha para Magal].
[Magal] - Depois que livrei o rabo dele de um assalto, sim, virou meu amigo. - [acena positivamente, com semblante irônico].
Vega acena positivamente.
[Magal] - Mas, e você? - [fita Vega] - Tirando essa porcaria do seu pescoço, o que anda fazendo? - [olhar fixo].
[Vega] - Tô me distraindo com alguns cursos. E tentando convencer SUII a me deixar voltar pro hotel.
[Magal] - E por que ele te cedeu pra outra família? - [estranhamento].
[Vega] - Frescura dele.... - [franzindo o rosto] - Disse que não quer se vincular... - [feição irônica].
[Magal] - Rs...Vondano sempre foi desse naipe... - [expressão irônica].
[Vega] - E você? O que tem feito além de trabalhar no Posto de Gasolina da DRISCO? - [olha para Magal].
[Magal] - Bem...Nada demais. Mas, sabe?...Ultimamente eu já estou começando a ficar cansado daqui. Viver em um lugar onde todos querem te caçar ou te chutar não tem sido a melhor das minhas férias. - [passa a mão no rosto] - Perdoe-me a piada. - [mostra a palma da mão, com um semblante de tédio e decepção].
[Vega] - Eu devo presumir que você planeja voltar pra BIOTH, correto?
[Magal] - Eu tô preferindo viver como um foragido lá do que permanecer aqui...Se queriam me matar de tédio, então está funcionando. - [semblante de monotonia].
[Vega] - Tive sorte que ninguém questionou minha documentação até agora. Dá pra voltar. - [olha Magal].
[Magal] - Como que você trouxe os documentos sem ser notado? - [intrigado].
[Vega] - Eu os escondi bem. E escondo até hoje... - [estende o braço] - Debaixo da minha pele.
[Magal] - Nem raio-x?
[Vega] - Nem raio-x....
Magal acena positivamente e mostra-se impressionado. Os dois permanecem temporariamente no mais absoluto silêncio. Magal de costas, Vega de frente. A cortina de vento move a bola de basquete por alguns centímetros. Na rua, uma senhora de bengala passava a passos lentos, observando atentamente a conversa dos dois homens. Ambos compartilham mais um pouco do chiclete levemente azedo um com o outro.
[Magal] - Como você vai fazer pra voltar pra casa? - [semblante preocupado].
[Vega] - Eu ainda não sei, mas...Vou ter que me disfarçar e arrumar um jeito de sair daqui dentro do prazo de 10 anos.
[Magal] - Se quer um conselho, vá embora o quanto antes... - [feição de conformismo] - Está gastando seu tempo aqui procurando pela Läude. Ela não vai dar as caras de novo, pois já decidiu.
[Vega] - Cada minuto sem minha mãe é como uma peça faltando...Se eu puder ao menos vê-la, já me basta.
Magal apresenta um semblante preocupado, percebendo não ter como convencer seu conterrâneo a desistir pela sua busca.
[Magal] - Bom...Se um dia você for deixar o planeta, me chame. Eu quero ir com você. - [prepara-se para partir].
[Vega] - Pode deixar... - [acena positivamente].
[Magal] - Obrigado pelo chiclete. - [feição amistosa].
[Vega] - E obrigado pela bebida. - [sorriso discreto].
[Magal] - Não há de quê, Madame... - [curva-se com um leve cumprimento com um dos braços como cortesia].
Vega sorri. Mas antes que Magal fosse embora, Vega o pergunta:
[Vega] - Hey, Magal...!
[Magal] - Hum. - [vira-se para Vega].
[Vega] - Por acaso já topou com um sujeito maluco chamado Thelonius? - [feição de orgulho e ironia].
[Magal] - Você topou com o Thelonius?? - [surpreso].
[Vega] - Ao vivo e em cores...Naquele bar que mencionei. - [leve sorriso enquanto se encosta seu cox na barra].
Magal acena negativamente e exibe feição irônica de surpresa.
[Magal] - É muita disposição pra irritar um cara como o Thelonius....Você é maluco... - [sai caminhando e levanta um dos braços, acenando com os dois dedos como sinal de despedida].
Vega exprime sorriso genuíno enquanto observa seu colega se distanciar. A senhora de bengala, observa toda a cena incrédula:
[Senhora]- Meu Deus, esses jovens de hoje são tudo doido... - [conserta o óculos] - Se não bastasse esse monte de gírias, agora deram pra inventar um dialeto que ninguém entenda nada, veja só... - [semblante ranzinza].
Sai andando de bengala a passos lentos e com alguns pombos enxeridos logo atrás. Vega suspira enquanto está escorado na barra metálica.
[Vega] - Rs...! Esses humanos são sem noção... - [sorriso irônico e negação com a cabeça].
Caído no chão, um cartão vermelho com letras escuras chama a atenção de Vega. Ao pegá-lo, nota ser o número de contato e e-mail de seu conterrâneo. Vega sorri e o guarda em seu bolso, resgatando o bolo de chaves que estava depositado no mesmo. O chaveiro volta a girar por entre os dedos do rapaz, que torna novamente a ficar pensativo.
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