----15 DE JULHO DE 8850. ESTRADA ASFÁLTICA DO POSTO DE COMBUSTÍVEIS DRISCO ATÉ A ÁREA RURAL. 16H45 DA TARDE-------
A poeira da estrada se abaixava à medida em que os ventos sopravam menos. Embora o calor já houvesse diminuído, o sol estava ardente. Todos os funcionários passaram a maior parte do dia em silêncio. Falavam apenas o necessário e mal se entreolhavam. A histeria e a denúncia relâmpago rasgaram as relações entre eles, restando desconfiança e incerteza. Sem mais uma liderança, o lugar ficará desordenado. Cada um cuidava de várias funções ao mesmo tempo.
Ainda
pela manhã, várias discussões e gritarias foram novamente protagonizadas dentro
da loja de conveniências. Mas a única fumaça com que poderia se preocupar, era
a que exalava do café. Mal tinham apetite. O rastreamento global de
placas de veículos já não conseguia localizar o caminhão perseguido e nenhum
dos celulares apresentava quaisquer novidades. Ao que tudo indicava, a
"vítima" não teria tanta prioridade. Viraria mais uma estatística
pela sua má fama. O singelo posto de combustíveis passou pelo restante do tempo
vazio. Sendo assim, alguns gastaram o período de trabalho cuidando da limpeza.
Outros, de vigiar o local, parando para beber e fumar nas horas vagas. Magal,
já uniformizado e de braços cruzados, notou que um dos integrantes não estava
presente. Estranhando o sumiço repentino, checa seu relógio de pulso e se
dirige para um dos colegas com quem ainda poderia manter alguma prosa.
[Magal] — “Aí...! Cadê
a riponga?” — [olhar desconfiado].
[Funcionário] — “Sei
lá... Ela falou que iria ver a irmã...” - [passa o rodo com pano úmido pelos
cantos] — “E sinceramente, eu quero mais é que ela se foda...” — [olhar de
desprezo].
[Magal] — “Já era pra
ela ter voltado...” — [gesto de negação com a cabeça] — “Isso aqui vai ficar
uma zona...” — [insatisfação].
[Funcionário] — “Eu
prefiro que isso aqui vire uma zona do que ter que olhar praquela vigarista...”
— [coloca um palito entre os dentes e continua a esfregar o chão].
Magal
desvia o olhar para o lado e exibe menosprezo em seu semblante.
[Magal] — “Nem me
fale... Essa mulher é intragável.” — [feição de desprezo].
Magal
começa a ter um mal pressentimento e caminha em leves movimentos circulares.
Querendo tomar um pouco de luz solar, se dirige até alguns metros longe da
DRISCO, em direção ao ambiente desértico e de poucas gramíneas. Conforme
caminhava, chutava algumas pedras enquanto mantinha as mãos nos bolsos. De
frente a um cacto, Magal se distrai colocando os dedos nos espinhos da planta,
fixando seus sérios olhos nela. Sequer sentia qualquer desconforto enquanto
mexia nas farpas. Entre os seus dedos, Magal detectou um discreto e dourado fio
de cabelo preso entre as pontas afiadas. Seu olhar é de suspeita. Do seu lado,
um barulho de algo similar a plástico o faz desviar o seu rosto. Algo escuro
estava logo atrás de um emaranhado de vegetação misturada a cactos.
Ao
fixar os olhos mais de perto, o homem ruivo se aproxima gradativamente do
objeto de conteúdo desconhecido. Temia ser de restos mortais. De frente para o
saco plástico, o rosto do homem se franzia ao passo que seus olhos saltavam. Em
um único movimento rápido, o saco plástico é rasgado ao meio, deixando-o
completamente aberto. Alguns fenecos transitavam pelo solo arenoso nas
redondezas de onde estava Magal. Dentro da sacola, vários maços de dinheiro
vivo dispostos uns aos outros sob uma liga elástica caseira. Incrédulo, Magal
se agacha e apanha um pouco do dinheiro que estava em papéis soltos entre os
maços. Sua expressão de espanto corrobora seu pressentimento.
[Magal] — “Hey,
Rick...!!” — [gesto de chamamento com o braço].
Seu
grito ecoa pela região, chegando aos ouvidos do colega. O funcionário se
aproxima de forma apressada de Magal e começa a ficar pasmo com o que vê.
[Rick] — “Cê só pode tá
de brincadeira...” — [intrigado].
O
homem fica abestalhado com o tanto de dinheiro jogado no meio do deserto.
[Rick] — “Quem é louco
que fez isso??” — [incrédulo].
[Magal] — “Eu que
pergunto...!” — [surpreso] — “Como isso veio parar aqui??”
[Rick] — “Será que não
foi o morto?” — [coça a cabeça].
[Magal] — “Como, se o
Cash nem estava aqui??” — [fita o colega, incrédulo, enquanto estende os
braços].
Magal sai de imediato do local, deixando Rick sozinho. A
passos largos, o mesmo caminha exibindo expressão acentuada de desconfiança e
aborrecimento. Chegando ao posto de gasolina, os outros funcionários olham
curiosos pelo estado do rapaz, que entra na loja de conveniências com um
empurrão nas portas. Afim de encontrar pistas do fio de cabelo, apalpou as
paredes por toda a parte da loja. Paralelo à bancada, uma das paredes, tampada
com uma cortina florida em tons de pêssego e azul marinho, apresentava um
pequeno afundamento denotando ser uma entrada. Magal destroça a porta metálica
disfarçada com uma única pesada, descobrindo um porão secreto escondido por
onde estava um baú de madeira, com algumas estantes paralelas cheias de
ferramentas e uma lâmpada grudada no teto. Os outros funcionários escutam o
barulho assustados, entreolhando-se uns para os outros.
Descendo lentamente pelas escadas, Magal repara um uniforme deixado em
cima de uma escrivaninha ao lado do baú de madeira, junto a uma peruca escura e
um boné da DRISCO apoiado sobre a cabeleira. Abrindo bruscamente o baú, Magal
nada detecta além de uma pilha de roupas. Jogando-as para todos os lados,
esvazia o recipiente de madeira por completo. Nada encontra. Apoiado sobre o
baú e com uma das suas mãos percorrendo seu rosto e seus cabelos, desvia o
rosto em direção às roupas largadas na escrivaninha. Fechando novamente o
recipiente, vai rumo às vestimentas para checá-las. Sacando a peruca fio a fio,
a averigua de ambos os lados. Na outra mão, pega o uniforme e sente o odor de
ambos os objetos. Uma pausa de alguns segundos acende a fúria de Magal.
[Magal] — “Riponga
FILHA de uma...” — [expressão de raiva e face franzida].
O
homem que larga as peças ao chão e se apressa para fora do porão. Na porta da
loja, outros colegas estavam sussurrando uns com os outros sobre a reação
súbita de Magal e o dinheiro encontrado, já trazido de volta à sala restrita aos
funcionários. Empurrando bruscamente as portas ao ponto de quase chocar contra
os homens, Magal se apressa até a uma van que estava estacionada em uma garagem
ao lado do posto de gasolina, já com as chaves em mãos.
[Rick] — “Aí, aonde
você vai?? Quê que tá pegando!?”
[Magal] — “Atrás
daquela VACA!” — [fita o colega com raiva enquanto aciona o veículo].
[Rick] — “O que ela
fez??” — [confuso e espantado].
[Funcionário 02] — “O quê
que tá acontecendo??” — [braços estendidos].
[Funcionário 03] — “Peraí,
como é que aquele dinheiro foi parar ali no mato??” — [espanto e gesto de
protesto].
[Funcionário 04] — “Alguém
pode me dizer o que está havendo?” — [confuso].
[Magal] — “FOI A
RIPONGA! Ela que roubou o dinheiro e deixou uma parte no deserto pra fazerem
pensar que foi alguém daqui!!” — [aponta fortemente o braço em direção ao
deserto].
[Rick] — “E como é que
você sabe disso??” — [antebraços levantados e expressão de espanto e raiva].
[Magal] — “Vai lá no
porão e veja a peruca!” — [expressão de ódio enquanto entra na van e fecha a
porta] — “Ela tentou botar a culpa em você!!”
Magal
canta os pneus da van, espalhando toda a fumaça e poeira existente na região
para partir em direção à residência da fugitiva.
[Funcionário 03] — “Porra,
tu nem sabe onde é a casa da mulher, moço!!” — [corre em direção à van e ergue
os braços para cima].
[Magal] — “EU JÁ FUI NA
CASA DA CADELA!! ME ESPEREM AÍ...!!!” — [dirige a todo vapor na direção oposta
até a residência do alvo].
Rick
e os outros funcionários permanecem parados na estrada com cara de tacho. Um
pássaro pousa em cima do asfalto, deixando um rastro de bosta pela estrada
antes de partir em voo.
........................30
MINUTOS ATRÁS.
A
música toca no talo. As duas fugitivas curtem o momento de esbórnia. Uma picape
de cor espelhada a 110 km por hora. As duas irmãs já haviam combinado até o
vinho que usariam para comemorar a picaretagem. Uma com uma enorme bolsa no
colo e a outra de óculos amarelados.
[Irmã] — “Contou o
dinheiro, amiga?” — [sorriso empolgante].
[Maria H. Cash] — “São
05 MILHÕES de ‘dolores’ pra "nóis"...” — [sorriso genuíno].
[Irmã] — “Adorei...!” —
[animosidade] — “Tá com o mapa?”
[Maria H. Cash] — “Lógico,
amor... E ainda tô com a arma a laser pra se algum erro aparecer no nosso
caminho...” — [saca uma arma de fogo restrita] — “Toma, um é seu...” —
[orgulhosa].
A
mulher encaixa o presente da irmã aos risos na parte lateral do banco, em um
suporte. Em um pequeno cooler entre os bancos, Maria aciona um botão que abre
um recipiente de bebidas com algumas minitaças. Ela seleciona um dos espumantes
rosê contidos no cooler e serve nas duas taças, cedendo uma à sua irmã. Risco
era o sobrenome das duas.
[Maria H. Cash] — “Um
brinde...” — [ergue a taça, mostrando felicidade].
[Irmã] — “A nós!” —
[retribui a alegria].
[Ambas] — “SAÚDEEE...!”
— [as vozes mesclam-se em coros e risos enquanto as taças tocam uma à outra].
[Irmã] — “Você nunca
perde o timing, sabia??” — [empolgada].
[Maria H Cash] — “Nunca
te deixei na mão, meu bem...” — [sorriso de satisfação e dedo indicador
direcionado à irmã].
[Irmã] — “Comprou as
passagens?” — [curiosa].
Maria
saca de dois vouchers brilhantes de sua bolsa pomposa, exibindo orgulho em sua
face. Empolgação e risos são compartilhados entre as duas irmãs. A alegria era
genuína.
[Irmã] — “Humm... Isso
aqui está delicioso...!” — [saboreia a taça].
[Maria. H. Cash] — “Bota
delicioso nisso, amada.” — [bebe mais um pouco] — “Sou viciada nesse trem...” —
[contorce os lábios para baixo com olhar confiante].
[Irmã] — “Eu mal posso
esperar pra sair daqui...”
Maria
checa a estrada pelo retrovisor e olha para trás em direção à janela traseira
para certificar-se de alguma perseguição. A irmã nota a desconfiança da mulher.
[Maria H. Cash] — “A
barra tá limpa... Agora é só pegar as coisas lá em casa e vazar...”
[Irmã] — “Já até deixei
as malas prontas e deixei a cópia das chaves da propriedade com o rapaz de quem
te falei...”
[Maria H. Cash] — “O
contrato digital tá com você?” — [desfruta a bebida].
[Irmã] — “Tá logo atrás do banco...” — [gira brevemente a cabeça para trás].
Maria
se ergue para pegar o documento digital em forma de retrato simulando um papel
real. Era uma tela virtual branca, mas com a forma de um contrato, com as
devidas assinaturas em punho, reproduzidas digitalmente. A mulher empunha a
tela enquanto a esfrega suavemente com suas mãos de esmalte bordô nas unhas.
[Maria. H Cash] – “Coisa
linda... Vida nova, aí vamos nós...!” — [breve sorriso de satisfação].
[Irmã] — “É isso aí, pé
na porta e soco na cara...!” — [bebe da taça enquanto a outra mão está no
volante].
O momento
de felicidade da mulher é interrompido momentaneamente por um mal
pressentimento que a faz olhar novamente para trás, esperando que houvesse
algum veículo no encalço das duas. O misto de animosidade, tensão e ansiedade assola
os pensamentos de Maria.
[Maria H. Cash] — “Aperta
o passo, amiga... Não quero visita inesperada na minha cola...” — [tensão].
[Irmã] — “Fica
tranquila, a gente já tá chegando na sua casa...” — [aparente
preocupação].
Ambas
tentam se manter relaxadas e finalizam as bebidas das respectivas taças. Maria
se escora no banco do veículo e encara o ambiente exterior em movimento pela
janela. Com um semblante apático, começa a armazenar lembranças dos 30 longos
anos de sua vida desde o dia em que se casou. Nunca mais pensou em voltar a
estudar. Desde então, seu foco fora o seu primeiro filho... Depois o segundo, o
terceiro... Até a quinta e última filha. Mas parece que nada para Maria Helena
havia dado certo. As únicas apostas que fizera, fracassaram junto com a morte
de Cash. Junto com seus filhos homens desviados. Junto com sua pobre filha à
mercê de um mafioso, a qual passou a mantê-la dentro de uma bolha de cristal. Maria
pensava muito sobre sua vida, e se o dinheiro roubado compensaria a sua dor.
................................ÁREA
RURAL - 17H47 DA TARDE.
.
.
.
A
casa estava toda revirada até ficar às moscas. As malas que seriam usadas para
o destino marcado pelas irmãs estavam no porão da residência. Era uma boa casa,
diga-se de passagem. Toda esculpida em madeira, com direito a uma boa lareira.
Era um local aconchegante e bem elaborado. Ainda sobraria um tempinho para um
bom vinho. No quarto, as duas felizardas comemoram sua fortuna ilegítima, já
alcoolizadas.
..........[GRITOS DE
ÂNIMO E RISADAS]
[Irmã] — “Finalmente
você tá livre disso, menina, Deus a livre! Só labuta nessa sua vida...!” —
[sorriso e espanto na face].
[Maria H. Cash] — “Hoje
eu me livrei daquela PRAGA e agora eu tô na ‘PIXTA’, meu amooorr...!” — [ergue
horizontalmente os braços, seguido de punho cerrado na testa, com um suave
requebrado de quadril] — “Maria Helena, SEM O CASH, na área...!” — [aponta o dedo
indicador sob uma piscadela].
[Irmã] — “Uhuuull!!” —
[bater de palmas acima da cabeça] — “Tá certinha, minha filha, arrasa que agora
quem faz a nossa vida somos nós...!” — [aponta o dedo indicador, expressando
orgulho].
[Maria H. Cash] — “Pode
crer...” — [bebe um gole de uma taça de vinho escuro] — “Já toma esse remédio
aqui pra tirar a bebedeira...!”
Maria entrega uma cartela de comprimidos na mão da irmã, que tira uma
unidade para ingerir com água antes dos últimos preparativos para a partida.
[Maria H. Cash] — “Amiga,
eu vou dar uma checada nos animais e nas portas, já vai preparando o café e
deixa as malas no carro pra mim?” — [coloca a arma de fogo restrita na cintura,
levando a taça de vinho consigo].
[Irmã] — “Beleza,
amada, vou lá...!” — [se levanta para executar a sua parte das tarefas].
Maria,
já de fogo, desce pelas escadas revestidas de madeira de forma sorrateira, já
com o desconfiômetro ligado e a arma letal em sua mão. Ela deixa a taça já
vazia em cima de uma pequena divisória vertical entre as escadas. Mesmo bêbada,
sabia que provavelmente não estavam sozinhas. A irmã, ajeitando suas roupas,
olha para os lados, estranhando uma certa movimentação atípica. Ao checar pela
janela da casa, nada encontra além de um aterrador e sombrio crepúsculo e o
veículo que usaram para fugir estacionado em sua frente. Era o momento certo
para se evadir, assim como para se esconder.
A
mulher deixa de lado sua má impressão e vai até a cozinha preparar o café.
Seria a maior das insônias. Após alguns minutos, Maria volta do curral para
deixar as luzes acesas e retirar as suas luvas de manuseio, já tendo alimentado
os animais. Coçando a cabeça, checa um aplicativo de espelho realista no seu
celular para retocar sua aparência. O cheiro de café saía pela janela da
pomposa cozinha e sua irmã já estaria preparando a garrafa térmica da noite.
Espalhando seus enormes e ondulados cabelos loiros e guardando seu batom cor de
pêssego no bolso de sua tradicional calça de cintura baixa, a mulher repara em
seu espelho que alguns dos seus "fios" aparentavam estar vermelhos.
Maria começa a estranhar o reflexo que estava vendo, pois um pouco da imagem
que estava desfocada não era a sua. Movimentando suavemente o seu aparelho,
seus olhos saltam gradativamente à medida que um pequeno buraco borrado era
evidenciado no espelho virtual...
Até que a imagem foca...
[ESTOURO DO APARELHO
CELULAR EM CENTENAS DE PEDAÇOS]......
[Magal] — “RIPONGAA!!!”
— [dispara contra a mulher, exibindo raiva].
Magal efetua mais tiros de raspão contra Maria, que sai correndo quase
agachada. Os disparos a laser da sofisticada arma acerta várias partes da
residência, deteriorando e explodindo tudo o que havia pela frente. Um dos
estilhaços decorrentes dos tiros parte o salto de Maria, que a faz tropeçar no
chão. Sem perder tempo, Maria também já estava aos tiros em direção a Magal
enquanto permanecia deitada no pasto, com suas mãos empunhadas no revólver que
estava em sua cintura.
[Maria H. Cash] — “TINA,
SE ABAIXA!!” — [raiva e adrenalina].
A mulher grita para a irmã enquanto esta corre em direção ao porão
para pegar a sua arma. Mais tiros são disparados e a casa começa a ser exposta
ao risco de ser derrubada em decorrência da deterioração provocada pelo laser.
Maria, que estava deitada, aproveita para se esconder atrás de um recipiente
que abrigava alguns blocos de palha. Magal também aproveita para se esconder
atrás de um pequeno muro de pedras da área rural. Alguns metros longe um do
outro, o faroeste estava formado naquela noite.
[Maria H. Cash] — “PÁRA
DE DESTRUIR MINHA CASA, SEU FILHA DA PUTA!!” — [grita enquanto mantém a
arma em sua mão].
[Magal] — “Se renda,
Riponga!! Todo mundo sabe que foi VOCÊ que roubou o dinheiro!!” — [se dirige a
Maria].
[Maria H. Cash] — “Roubei
uma PORRA! NUNCA trisquei um dedo naquele dinheiro do caixa!” — [mira o dedo
indicador para cima].
[Magal] — “Ah, é??!
Como se eu achei seu fio de cabelo lá no cacto, sua VACA?!?”
[Maria H. Cash] — “Hááárss...Ha,
ha haaa...!! Você virou o Sherlock Holmes agora??” — [sorriso de provocação] — “PROVA
QUE EU PEGUEI O DINHEIRO, SEU PASPALHO!” — [raiva].
[Magal] — “Não esqueça
que eu vim de uma raça diferente da sua!” — [olha para trás com raiva].
Maria
faz mais uma tentativa de disparo contra Magal, que devolve o troco, quase
acertando a mulher. A parede de pedra onde Magal se refugiava estava
parcialmente deteriorada e esfumaçada.
[Magal] — “QUER
CONTINUAR COM ESSA PALHAÇADA MESMO?!” — [olhar desafiador] — “Como é que vai
ser?! Hein?? Vai admitir logo que você tem uma sacola ROSA na tua bolsa??”
— [raiva].
O sorriso debochado de Maria é imediatamente cessado com a fala de
seu rival. Ela se silencia por alguns segundos, surgindo gradativamente uma
seriedade em sua face.
[Magal] — “Não vai
falar nada, riponga?!” — [olha para trás].
[Maria H. Cash] — “AH,
VÁ À MERDA!!” — [se contorce e exibe feição de protesto] — “Quanto você quer
pra me deixar em paz, Magal?!” — [ódio e indignação].
[Magal] – “TODO O
DINHEIRO! Eu vou devolver aonde ele pertence!” — [aborrecimento e feição
desafiadora].
[Maria H. Cash] – “E
você acha que alguém aqui é TROUXA?! Acha que ninguém aqui sabe que você vai
roubar, seu interesseiro de merda?!? ANDA, fala logo quanto é seu preço!!” —
[dispara contra o ex-colega].
[Magal] – “Ou é isso,
ou eu te arranco daí direto pro departamento de polícia! NÃO VIM AQUI DE
PALHAÇADA, MARIA!” — [ameaça Magal].
Nesse
momento, a Tina surge de uma sacada de madeira da residência na qual estava
escondida, logo abaixo de onde se situava o quarto de Maria, efetuando três
disparos contra o SH, de forma brusca. Por azar, Magal realiza um movimento
rápido, mirando no revólver da mulher e acertando o objeto com um disparo. A
arma, já com o cano derretido pelo laser, é lançada para longe das mãos da
mulher.
[Magal] — “VOCÊ AÍ EM
CIMA! FICA NA SUA OU EU TE MATO JUNTO COM A SUA IRMÃ, TÁ OUVINDO??” — [aponta o
dedo para a mulher enquanto se mantém agachado].
[Maria H. Cash] — “TINA,
AFASTE-SE! VOLTA PRA CASA!” — [alerta a irmã].
Não
resta nada para a mulher rendida a não ser atender à ordem de Maria. De mãos
para cima, Tina se afasta lentamente até para dentro da residência. Pela
primeira vez, a cúmplice soube com o que de fato estava lidando naquele
momento. Maria começa a ficar tensa e entra em negociação com Magal.
[Maria H. Cash] — “Magal...
diga logo quanto você quer pelo silêncio...” — [tensa e levemente ofegante] — “Eu
te dou a quantia, e você deixa a gente ir embora... Metade, metade, pode ser??”
— [olha para trás, já com um suor na testa] — “Vai ser uma compensação, não
vai??” — [começa a dar pequenas risadas de desespero] — “Você pega o
dinheiro... e vai pra longe daqui, longe da DRISCO... Você pode voltar pro seu país,
sabia?...” — [sorriso tímido] — “O que acha??”
Magal
permanece em silêncio e em posição de seriedade e menosprezo para com a fala de
Maria.
[Maria H. Cash] — “Você
e o Cash...” — [começa a sorrir] — “Antes dessa merda surgir, eu lembro que
vocês eram mó parça, sabe? Vocês dois sempre gostaram de pegar na estrada e
fazer uma grana...” — [balança a cabeça positivamente] — “Hein?” — [olha para
trás] — “O que acha?”
Magal concede um sorriso de deboche genuíno em seu rosto.
[Magal] — “Aaahh... Você
quer realmente me compensar??” — [olha para trás].
[Maria H. Cash] — “Éh,
ué! O que me diz??” — [sorriso tenso e olhar de desespero].
..................[EXPLOSÃO
DE TRASEIRA DE VEÍCULO].
Destruição completa da
picape de luxo...
Pedaços de estilhaços e partes em chamas...
De caso pensado, Magal mira onde fica o reservatório de gasolina do
veículo de Maria e acerta em cheio o carro, que explode em chamas formando uma
verdadeira fogueira de festa junina. A mulher, boquiaberta, salta os olhos de
indignação ao ver seu bem móvel destruído.
[Maria H. Cash] — “Meu....
CARRO....” — [olhar de espanto e frustração].
[Magal] — “Essa é a
compensação por você me associar ao seu marido estuprador!!!” — [aborrecimento
e semblante de vingança].
[Maria H. Cash] — “SEU
GAROTO DE PROGRAMA DE MERDA!!!” — [seu semblante se converte em fúria e ódio].
Maria se levanta num impulso de matar Magal, efetuando vários
disparos em cheio contra a parede na qual ele estava escondido. De tanto
acertar o muro de pedra, um pouco dos resquícios de laser acerta o ombro do SH,
deixando-o ferido. Sem alternativa, Magal escapa de seu abrigo temporário aos
tiros contra a mulher, que rapidamente se joga ao chão cheio de palha e se
enfia aos fundos do curral para se esconder atrás de um recipiente de
armazenamento de ração animal. A mulher arranca seus dois sapatos de uma única
vez e volta a trocar tiros e outras farpas com Magal, já camuflado atrás de uma
cerca de concreto rodeada de vegetação. Maria estava em puro ódio.
[Maria H. Cash] — “APAREÇA,
SUA PUTA INTERESSEIRA!!!” — [abre fogo contra o rival].
Magal se
deita com uma das mãos na cabeça no intuito de se proteger de eventuais tiros
da arma de sua arqui-inimiga. Como se não bastasse ser coagido, continuou
recebendo provocações.
[Maria H. Cash] — “Você
e o Cash são a mesma BOSTA!! Eram carne e unha um do outro!! Aposto que vivia
levando ele pra escolinha de ensino médio enquanto eu limpava a bunda de vocês!!”
— [ofende Magal].
[Magal] — “a única
escolinha de ensino médio que ele conhecia foi quando ele te achou!!
VAGABUNDA!!” — [ódio].
[Maria H. Cash] — “Eu
era emancipada quando ele me conheceu, seu PALHAÇO!! Eu honrei essa BOSTA de
casamento enquanto eu só tomava gaia!!” — [raiva e histeria].
[Magal] — “Você esquece
que transou comigo enquanto teu marido estava fora, né cadela??” — [retruca à
mulher com semblante de raiva].
[Maria H. Cash] — “TRANSEI
PORQUE NÃO TINHA NADA PRA COMER EM CASA!! MARMITA BARATA!!” — [ódio em sua
face].
[Magal] — “TÃO BARATA
QUE GOZOU 10 VEZES COMIGO, PIRANHA!!” — [responde acidamente à mulher].
Implacável, a viúva de Cash não perdoa o homem ruivo e nem o poupa de fugir de
várias tentativas de refúgios. Maria se joga para trás no momento em que um
dos lazeres acerta um bloco de palha próximo a ela. Os animais da área
rural ficam agitados, e alguns chegam a pular as cercas para fugir do local. Um
deles quase atropela a mulher, que assustada, gruda-se à parede. Dois cavalos
correm para fora da residência e pulam por cima de Magal, que se agacha para
não ser atingido. As galinhas se rebelam e saem voando anarquicamente sobre os
ares da fazenda, espalhando todas as penas que podiam. Os porcos, arrebentam as
porteiras dos estábulos onde eram mantidos presos e saem correndo para longe de
lá. Latidos de cachorro faziam parte da música de fundo daquele cenário de
filme.
Mesmo
parecendo uma ave, Maria continuava atirando por onde Magal estava e não dava a
menor chance de revide ao rival. Sem paciência para arranjar mais esconderijos,
abre fogo generalizado rumo às sustentações de madeira e aos blocos de palha, o
que obriga a mulher a sair dali para fora.
Enquanto isso, Tina, já desesperada para sair da residência antes que
esta pudesse ser demolida pelos tiros, surge do porão com as quatro malas
pesadas arrastadas na base da raça pelos braços e a garrafa de café sendo
carregada pela boca por um suporte grudado ao recipiente. O celular que estava
em seu bolso, recebe duas notificações por mensagens de aplicativo. Uma delas
sob os dizeres "Já estou indo! Me espere aí!". A bolsa cheia de
dinheiro estava nos ombros de Tina. Só restava esperar que as duas irmãs
saíssem ilesas da região.
Maria, descalça e quase sem munição, corre rapidamente para o outro lado
da área rural a fim de escapar de Magal, que persegue a mulher logo atrás.
Sendo mais rápido e resistente que a rival, Maria olha para trás e começa a se
desesperar, apostando uma última tentativa de acertar Magal na testa. Sendo
mais ágil e reflexivo que Maria, o homem rapidamente desarma a mulher com um único
tiro no revólver, que pula de sua mão enquanto esta acaba tropeçando no gramado
pelo susto que levara.
[Maria H. Cash] — “PAROU,
PAROU, PAROU!!” — [sacode os braços horizontalmente, clamando rendição].
Já
rendida por Magal e deitada no gramado de mãos para cima, Maria não enxerga
outro caminho a não ser fazer o que mais temia: devolver sua fortuna em troca
de sua liberdade. Incrédula e frustrada, só restava encarar o cano da arma do homem,
com quem por muitos anos teve rixa. Naquele
momento, o ombro de Magal já havia cicatrizado, apesar da mancha escura.
[Magal] — “Levanta...” —
[impositivo e com feição de raiva].
Maria se
ergue lentamente, meio cambaleante e receosa de tomar um disparo no rosto.
Constrangida e sem dizer uma palavra, permanecia com as mãos para o alto para
simbolizar sua desistência.
[Magal] — “Mostre os
bolsos, as costas e o abdômen, já!” — [imperativo]
Maria tinha os braços nus e só usava na parte de cima um elegante
espartilho branco. Mesmo assim, puxou o fundo dos bolsos e conseguiu levantar
um pouco da blusa para mostrar que não havia mais armas consigo, tanto de
frente como de trás. Aparentando não estar satisfeito, Maria então desabotoa
sua blusa para mostrar a região do peito e tórax. Só de sutiã, Magal se dá por
convencido de que a rival estava vulnerável.
[Magal] — “Agora me
mostre onde está a bolsa com o dinheiro...” — [olhar intimidador].
[Maria H. Cash] — “A
bolsa tá em cima da cadeira de balanço, atrás de você...” — [voz contida e cara
de tacho].
O SH então vira as costas para Maria e se aproxima da porta da
casa de onde estava Tina, com as malas de viagem em cima de apoios de madeira e
a bolsa de sua irmã em cima de uma cadeira de balanço. Ao longo dos pisos de
pedra que chegam até a porta da residência, havia jardins floridos de todos os
tons de cores rodeados por "murinhos". Cada passo de Magal era como
uma sentença de morte em câmera lenta. Tina, apreensiva, pensa em reagir, mas
logo é alertada pelo homem:
[Magal] — “Não tente
fazer nenhuma besteira...” — [tom de ameaça e olhos fixados na mulher].
Quando percebe, Magal já estava com o revólver apontado para o
abdômen de Tina, que se afasta gradativamente para trás, cedendo espaço para o
homem ruivo. Maria, que aparentava estar agoniada, aproveita a brecha para usar
sua última cartada. A mulher, sem que o seu ex-colega perceba, retira de seu
tornozelo um discreto aparelho de choque à distância. Com a forma de um
delicado controle remoto, era suficiente para apagar Magal temporariamente se
atingido na nuca. Com semblante de cobiça e raiva, Maria não estaria disposta a
largar o osso. Seus lábios travavam enquanto seus olhos ardiam de raiva. Era
sua última e arriscada tentativa. Quando finalmente mira com suas mãos para os
longos cabelos vermelhos de Magal, o seu polegar lentamente começa a se
declinar para o botão de lançamento...
............[SOM DE
ELETROCHOQUE. FORTE BARULHO DE COLISÃO DE CORPO AO CHÃO].............
O homem
ruivo subitamente se desliga e despenca em cheio ao piso de madeira,
permanecendo desacordado. Maria se assusta com o ato repentino, pois não havia
acionado o aparelho que estava em sua mão.
[Maria H. Cash] — “Que
porra foi essa??” — [espanto e estado de alerta, com braços abertos quase em
posição de defesa].
Tina fica
espantada com o que vê e certifica-se de que Magal ainda se mexe cutucando-o
com a ponta de seu pé. Maria olha para todos os lados quando aparece um homem
de boné da DRISCO à sua diagonal, munido de um aparelho de choque mais robusto
e com maior voltagem. Usando botas escuras, uniforme vinho e calça jeans, o
intruso dá as devidas boas-vindas.
[Maria H. Cash] — “RICK??”
— [surpresa].
[Tina] — “DEMOROU,
HEIN??” — [grita de longe enquanto ergue os braços].
Rick faz
um sinal de cumprimento à Tina com seus dois dedos sobre a aba de seu boné,
mostrando um sorriso amistoso. Ao olhar para Maria, nota a sua incredulidade e
saltar de olhos.
[Rick] — “O quê? Achou
que eu ia ficar de mãos abanando enquanto vocês fogem com 05 milhões no bolso?
Eu não sou tão trouxa assim...” — [olhar de desdém enquanto coloca um palito de
dente na boca].
[Maria. H Cash] — “E a
nossa ‘briga’ que a gente combinou??” — [gesticula com os dedos para sinalizar
aspas].
[Rick] — “Ah, relaxa,
ninguém vai notar... E além do mais, eu também quero viajar...” — [retira uma
passagem de avião de seu bolso] — [sorriso de desdém].
Maria
revira os olhos e exibe uma cara de tacho, já de braços cruzados.
[Maria H. Cash] — “Ok...
E as gravações das câmeras?” — [desconfiada].
[Rick] — “Eu
apaguei tudo com um software remoto que destrói dados no prazo que você der...”
— [guarda o aparelho na cintura, confiante].
[Maria H. Cash] — “E o
outro carinha lá? O que entregava as coisas de madrugada e ia embora?” —
[semblante de desconfiômetro].
[Rick] — “Nem
foi descoberto... A peruca te salvou.” —
[olhar confiante].
Maria ainda
permanece alguns segundos de braços cruzados desconfiada de seu colega, o que a
deixa momentaneamente pensativa.
[Rick] — “Ah,
qual é, e aí, o que me diz??” — [gesticula] – “Eu te
livro do Magal e você me deixa na praia com 300.000 no rabo...” —
[sorriso de orgulho e safadeza].
[Maria H. Cash] —
[semblante de tédio] — “Quer saber? ... Foda-se, entra na van.” — [aponta o
polegar para o lado].
Naquele
momento, Tina já havia pegado as chaves da van dos bolsos de Magal e já se
preparava para levar a enorme bagagem para dentro do veículo.
[Maria H. Cash] — “Preciso
de um sapato...” — [caminhar altivo e olhar ranzinza enquanto toma um par de
sapatos das mãos da irmã].
[Rick] — “E aê, boneca?”
— [cumprimenta Tina sem qualquer cerimônia, que devolve um sorriso
desconfiado].
Tina olha
aos arredores e mostra preocupação com o domicílio.
[Tina] — “Mana, e a
casa?” — [de dedo polegar apontado para o lado, referindo-se à destruição de
parte da residência].
[Maria H. Cash] — “A
casa tá intacta!” — [joga uma das mãos para trás] — “Esquece o curral. Os
bichos voltam depois...”
Tina
demonstra um olhar de conformismo e "brocheza" pela resposta ríspida
de Maria, que não queria saber de mais nada além de marchar para fora dali. A
não ser que...
[Maria H. Cash] — “Ah!
Me esqueci de uma coisa!” — [volta com um sorriso debochado em sua face, rumo
em direção a Magal].”
Após calçar os sapatos nos dois pés, a fugitiva dá um forte chute
nas costelas do homem ruivo, que nada sente.
[Maria H. Cash] — “Filho
de uma PUTA!” — [desprezo e raiva].
Ambos,
Rick e Tina, se entreolham impressionados com o feito histórico e inutilmente
efetivo de Maria. Com cara de paisagem, Tina já sente o peso nas costas.
[Tina] — “Amiga, vamos,
tá pesado aqui...” — [cara de paisagem].
[Maria H. Cash] — “Deixe
eu te ajudar, amada...!” — [exibe um sorriso disfarçado, que é retribuído pela
irmã].
[Rick] — “Eu pego os
mais pesados pra você...” — [sorriso hospitaleiro].
[Tina] — “Obrigada...” —
[semblante de alívio].
Os três
mosqueteiros não convencionais se dirigem até a van usada por Magal para deslocar-se
até a área rural. A pesada bagagem é colocada no porta-malas pelo Rick, as
chaves ficam de posse de Tina como motorista e Maria faria as honras com o seu
ilustríssimo humor instável e patifaria em charme. Ambos entram no veículo,
quase todos com semblante de exaustão. Um deles, de inconformismo. A garrafa de
café seria a companhia da noite.
[Maria H. Cash] — “Aquele
desgraçado DESTRUIU o meu CARRO de propósito, mas que ódio, viu?!” — [braços
cruzados e feição de aborrecimento].
[Tina] — “Algum de
vocês aceita café?” — [muda radicalmente de assunto, erguendo a garrafa].
[Rick] — “Aceito! Com
açúcar pra mim...” — [empolgado, surge do banco de trás exibindo uma caneca com
tampa adaptável que achou em uma das malas].
[Tina] — “O seu vai ser
com açúcar também, flor?” — [oferece Tina].
[Maria H. Cash] — “Não...
O meu vai ser BRUTO.” — [contorce os músculos da face e exibe feição de
confiança].
[Tina] — “Ok, então, lá
vai...” — [abre a garrafa multifuncional].
Após servidos, a van liga os faróis e move-se imediatamente
do ponto de partida em direção à estrada. Aquela noite seria a mais insana,
doentia e aleatória da vida daqueles três. Para as irmãs, risco era o sobrenome
delas.
............."The
Proclaimers – I’m on My Way".
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