------BIOTH. VANDORA. PONTO CENTRAL. 45H00 DA TARDE. PERÍODO PRÉ ARMAGGEDDON. TENSÕES SOCIAIS. EXPULSÃO DE REBELDES. COMITÊ DE JULGAMENTO. -------

 -------PÔR DO SOL. MÃOS FEMININAS TOCANDO O BOTÃO DO ELEVADOR. UNHAS DE EFEITO ESPELHADO, EM VERDE MARINHO.TRISTEZA NO OLHAR.--------

      Läude esperava pelo corredor de um largo e gigantesco edifício, rente a uma parede de vidro. Mal podia-se detectar a população que caminhava pelo abundante círculo de piso de concreto polido, na qual refletia majestosamente o sol. A escolta em suas costas mantinha um olhar devastado, um semblante sério. A mão em seus ombros a deixava ainda mais quebrada. De olhos fechados, incrédula, a mulher voltou a fitar o documento oficial de pedido pela sua expulsão. Não um banimento qualquer. Ser rejeitada de um bairro, de uma cidade, de um país. Era um banimento que lhe faria pó de sua existência, mesmo estando viva.

     O guarda que estava ao seu alcance, não saberia mais o que dizer, nem como se despedir. Só podia lhe desejar sorte. E esperar pela saudade. De talvez um dia algo de tamanha magnitude pudesse ser revertido, o que não podia. Läude não via mais o tempo passar. Só podia apreciar o pôr do sol. O seu último. Em sua casa. Sua Terra. Em suas mãos, seus pertences, que não eram muitos, mas o suficiente para começar no escuro. Já não percebia mais a realidade à sua volta. Nos seus olhos de cor celeste, só havia um vazio e desilusão.

----------FLASHBACK. 44h76 DA TARDE. 17º MÊS. 43º DIA. -------

     Duas mulheres numa vultuosa banheira térmica com sais de banho e pétalas de rosa violeta. Faltariam apenas alguns dias para a decisão final do Comitê de Julgamento decidir pelo destino de uma “rebelde” que até então, era uma cidadã reconhecida e respeitável. Ironicamente.

     De frente a uma grande parede de vidro na qual possa contemplar a vista, Läude, em posse de uma taça azul-fortuna, desfrutava de um vinho branco, tal qual como o leite que conhecemos. Um espumante doce, mas ao mesmo tempo, seco, delicado. A mesma divide a mesma taça com sua companheira de quarto, e até então, sua melhor amiga, depois de Otis e Magal.

[Läude] – Como está o gosto? – [olha sedutoramente para a colega].

[Saiph] – Está perfeito como sempre... – [devolve o sorriso amistoso].

[Läude] – Sabe...? Eu não estou satisfeita com o rumo que isso está tomando...- [levanta levemente as mãos, com os braços relaxados] – O País era um poço de amor e respeito mútuo, agora virou um Império da Futilidade.

A bela mulher negra de olhos vermelhos âmbar, percebe a preocupação e a angústia de sua amiga, o que a deixa aflita:

[Saiph] – Sabe, Läude...? Eu não sei se vale à pena persistir nessa militância em prol dos sub-humanos. Se eu fosse você, eu desistiria dessa empreitada.... – [olhar preocupado].

[Läude] – Desistir por que, Saiph?? – [“sorriso” de indignação, mãos e olhar para cima, voltando para a colega] – Eles são pessoas assim como nós...! – [estende o braço para frente].

[Saiph]- Podem até ser pessoas, mas nunca serão como nós... – [aponta o dedo como protesto].

[Läude]- Como não serão como nós? Eles sentem dor, eles têm sentimentos, tem seus próprios rituais, necessidades, consciência, podem pensar... –[gesticula].

[Saiph]- Mas são lentos, limitados, fracos e de baixa resistência à frustração e pressão, são BURROS, adoecem cedo, estragam fácil, choram por qualquer coisa, mal enxergam, precisam de fraudas, só dão despesa não dão conta de fazerem nada sozinhos, Läude...! – [olhar e braços para cima, seguido de um olhar bravo para a colega] - Eles podem ter direitos sim... –[aponta o dedo para cima]- Mas como especiais, não como nós... –[aponta para si mesma].

[Läude]- Eles não precisam ser como nós pra terem os mesmos direitos que nós temos, Saiph...! – [estica os braços horizontalmente e projeta os ombros para cima] – Nós podemos conviver com eles com harmonia e respeito que todos merecem...! –[olhar de protesto e sorriso triste].

[Saiph] - Eles não têm que conviver conosco, Läude...! Olha pra eles! Olha a BADERNA que eles fazem, olha a quantidade de híbridos que eles deixaram...! Nossa raça está sendo completamente descaracterizada...! – [olhar sério].

[Läude]- Descaracterizada aonde...? – [mira o rosto para cima com semblante de indignação] – Porque são diferentes?? E você quer o quê, que elas sejam massacradas?? – [olhar sério, de braços estendidos para os lados] - .... - [suspira, com as mãos brevemente na cabeça] -...Eu fico me perguntando, sabe, Saiph? E se fôssemos nós aquelas pessoas? – [aponta para a grande janela aberta] – Como você iria se sentir, perdida ou nascendo em um País onde você não pediu pra ser aniquilada por existir? – [gesticula]- Dar direitos fundamentais pra essas pessoas não prejudicam nossa existência...!

[Saiph]- Läude...-[olhar de aborrecimento] – Quem queria colonizar esse País foram eles...! Quem tomou a iniciativa de nos procurar foram eles, e quem roubaram nossos recursos, foram eles...! Além disso, misturar com eles gerou seres ainda mais fracos e limitados física e mentalmente, e isso custa CARO – [aponta o dedo três vezes para baixo]. Portanto continuam sendo estranhos, ok? – [bebe o drink].

[Läude] – Correção, - [aponta o indicador para cima] – quem permitiu a entrada deles foram NÓS, os vandorianos se misturaram com os especiais porque QUISERAM. Ninguém foi forçado a nada! E quem começou toda essa guerra foram as 12 sementinhas de damasco que achavam que podiam expandir o “I M P E R I A L I S M O    A M E R I C A N O”, fora aquele palhaço que eu nem quero mencionar o nome dele aqui. – [faz um grande e suave sinal de círculo com seus braços e mãos, seguido de um suave deslize de dedos e antebraços] - Portanto ninguém pode acusar os outros inocentes que estavam por lá...

[Saiph]- ...... – [continua bebendo o drink, já “nauseada” pela discussão].

[Läude]- Saiph.... – [olhar triste] – Olha o que isso virou...Olha como está a Ilha-País...! – [mostra com o braço rumo ao ambiente externo à janela] – Quando eu vim aqui, essa Nação era só AMOR, Saiph. AMOR, solidariedade, respeito às diferenças, aceitação dos pequenos, colaboração entre os cidadãos, agora OLHA o que nós nos transformamos! Nem a VIDA, que é o valor mais nobre de nosso País, valorizamos mais, nós PERDEMOS os nossos valores, Saiph.

[Saiph] – Dentre os nossos valores, Läude, está a PRESERVAÇÃO da nossa raça. Nossos genes não foram concebidos pra serem exterminados da forma como estão sendo...!

[Läude]- Então qual a sua concepção de valor, Saiph? Só tem valor como existência o que for absolutamente igual a você?? – [gesticula com os antebraços de baixo para cima] - Eles não podem ter suas particularidades, e quem disse nós somos perfeitos? –[indignação].

[Saiph]- Nós não somos mesmo não, Läude, mas nós somos MUITO superiores a eles – [estala os dedos várias vezes], isso você não pode negar... – [olhar seco].

[Läude]- Eles não ESCOLHERAM nascer como nasceram...! – [olhar triste].

[Saiph] E se tivessem escolhido?? Teriam menos valor por optar?? – [olha firme para a colega].

[Läude]- NÃO!! – [bate com a mão fechada na água] - Eles só teriam as mesmas CHANCES! – [olha brava e triste para Saiph].

     Läude sai da banheira, nua e inconformada com a discussão infrutífera com a amiga, já que adotava um posicionamento mais tradicionalista dos costumes. Era patriótica e teimosa, assim como milhares que lá viviam. Pela primeira vez, mulher estava sozinha, sem qualquer apoio, indo de encontro contra todos ao redor. Saiph, já não mais sabia como reagir enquanto sua amiga deixa o cômodo para ir embora. A taça permanecia no canto. A colega tenta corrigir o que fez:

[Saiph]- Eu só não quero que você seja presa, expulsa ou MORTA, Läude...! –[semblante triste].

......................RETORNO AO PRESENTE.....................

     A voz de sua companheira de quarto ecoa sobre seus pensamentos enquanto se prepara para entrar ao elevador, junto à sua escolta, enviada pelo próprio Estado que a baniu de seu País. Fardado e sob posse de armamento pesado, Magal exibe um olhar de luto, profundamente sentido com o que teria de ser obrigado a fazer. Acompanhar sua parceira e amiga, para um caminho sem volta. Läude, já dentro da cabine do ascensor, toca lentamente o botão que simbolizava o primeiro piso. Moldado em material que simulava um vidro semitransparente e de furta cor, com linhas paralelas iluminadas, de ordens de tamanhos distintas, que percorriam seu “teto” até a porta, o elevador parecia uma singela e elegante “cápsula”. Na frente, um espetacular panorama a acompanha durante a descida, no exato momento do pôr do sol.

     A lenta e gradual descida parecia durar uma vida inteira. Seu olhar vazio mal a fazia segurar o papel que estava em suas mãos. Para cada andar, um pedaço de sua vida lhe passava pela cabeça. A enorme bola vermelha sob a púrpura celestial era uma das últimas despedidas na qual Läude gostaria de realizar pela última vez. Já havia guardado dezenas de fotos em seus pertences. De tudo que viveu. De tudo que jamais queria esquecer.

--------FLASHBACK. COMITÊ DE JULGAMENTO. 19H77 DA MANHÃ---------

     Um aglomerado de pessoas grudadas umas nas outras em frente ao grande portão de vidro maciço, e em completo silêncio, cercavam aquela imensa sala redonda composta por assentos circulares com detalhes em madeira e metais preciosos em amarelo-limão. Lá reuniam pelo menos 50 pessoas responsáveis por pela decisão final de Läude. Todos de toga vermelho-púrpura e sentados em na forma circular. Ao centro, no ponto mais alto, ficava o Líder Máximo de Vandora, que teve origem em um país da Estrela do Norte, e toma as mais importantes decisões daquela Pátria.

Cada membro escolhido pertencia a um País diferente. 25 deles falaria em favor da Julgada, o restante, argumentaria contra. Metade dos espectadores apelavam pela sua expulsão. A outra metade, estava dividida entre a pena de morte e o perdão da rebelde. Os que estavam ali presentes, não eram nem 1% da população de Vandora que gostariam de ter tido a oportunidade de participar da desordem. Afinal de contas, muitos era híbridos. Outros, humanos comuns. Muitos tinham laços com os diferentes. Alguns eram persistentes. Outros eram apenas mais humanos e menos “nacionalistas”.

     A sessão começaria aos gritos de protestos e constantes coros coletivos mesclados de batidas conjuntas com os pés e as mãos. As telas de outdoors estavam todas ligadas em exibição da sessão de Comitê de Julgamento, a qual o mundo inteiro testemunhava. Os representantes seriam os primeiros a falarem. A solene abertura da Corte foi iniciada sem muita cerimônia ou morosidade. Läude, teoricamente, seria a última a falar e teria a última chance de se defender. O objetivo da sessão era convencer o Governante Máximo do País:

.

.

.

[Membro 01] - Como o Alto Máximo pode confirmar pelo histórico da Senhora LÄUDE, está mais do que explícito a aliança indevida que a mesma fez com os rebeldes em prol da subversão de valores cultivados, não apenas por essa Ilha-País, mas também por esta órbita, o que ameaça à longo prazo, o padrão genético de nossa espécie.

[Membro 32] - Comandante Máximo, como representante de Bëiss, Nação de origem da Julgada, eu me sinto no dever convencer a este Comitê para deixar que a Senhora Läude retorne ao País de onde nasceu e cumpra sua sentença por lá. É por medida de Justiça.

[Membro 10] – Eu discordo. Se a Julgada rejeita os valores que cultivamos então que viva no mesmo ambiente que os rebeldes.

[Membro 40] – Isso não faz o menor sentido. A Julgada nunca rejeitou quaisquer valores do País onde passou a viver como cidadã e nunca ameaçou a própria raça. Quem escolheu se mesclar com os sub-humanos foram os próprios moradores de Vandora.

[Membro 17] – Mas foi ela que subverteu o coletivo e incentivou aqueles ataques que vimos nos estabelecimentos. ELA estava até há pouco tempo fazendo parte de uma militância em prol da equiparação dos especiais para fins de concessão de direitos igualitários. E isso vai extinguir a nossa raça como a conhecemos e vai nos enfraquecer.

     Uma súbita interrupção de Läude silenciava aquele recinto de pesada atmosfera e pouco acolhimento.

[Läude] – Gostaria de ressaltar que eu nunca incentivei terrorismo e não respondo pelos excessos de quem quer que seja, principalmente do senhor James Wesley. – [olhar irônico e leve sinal de irritabilidade].

[Membro 25] - Não pode se manifestar antes do Comitê, Senhora. – [encosta os cotovelos à mesa, exibindo olhar sério].

[A. Máximo] – Manifestação aceita. – [olhar neutro e sério].

     Läude exibe um breve e discreto sorriso.

[Membro 18] – Se não responde, por que se tornou cúmplice dele?

[Membro 38] – Ilustríssimo, a Julgada não tem controle sobre corpos de ninguém aqui. Sequer nós conseguimos dominar os especiais, imagine ela? – [aponta o polegar].

[Membro 19] – Não controla, mas patrocinou o acesso ao líder dos rebeldes à tecnologia, conhecimento e entrada não autorizada em um dos laboratórios do Ponto Central da Ilha-País.

[Läude] – Eu não patrocinei acesso a laboratório nenhum... – [negativa com a cabeça e olhar de nervosismo].

[Membro 11] – SILÊNCIO...! Silêncio. – [acena com o dedo indicador próximo aos lábios] – A Senhora fala por último.

     Läude, constrangida, se silencia e mantém a cabeça baixa.

[Membros 37] – Senhores, por favor.... – [olhar de comoção] – Olhem para essa mulher...! – [exibe as mãos paralelas uma à outra] – É realmente necessário que apelemos para a EXECUÇÃO ou expulsão de uma mulher de seu PRÓPRIO planeta...?? Isso já mão é cruel o bastante? – [olhar de espanto] – Ela cometeu FALHAS e não ataques à raça.

[A. Máximo] – Execução está longe de minha decisão. – [olha para o membro] – Minha escolha não será pela morte a não ser em casos extremos.... Prossigam. – [olhar frio].

     Läude, apesar de nervosa, respira levemente aliviada.

[Membro 47] - Até agora nenhum dos opositores provaram qualquer participação da Julgada nos crimes de terrorismo e conspiração contra a humanidade...Somente o fato dela ser militante pela equiparação dos especiais à condição de cidadãos... – [vira o rosto para o lado e coloca os antebraços de mãos dadas à mesa, como sinal de desdém].

[Membro 06] – E as gravações das câmeras são o quê...? – [expressa ironia e vira o rosto]. Isso não é prova suficiente? – [estende o braço suavemente para frente].

[Membro 47] – Que James Wesley invadiu o laboratório? Tá, e daí? O que tem a Julgada nisso? Ela não estava nas filmagens, sequer participou de atentados... – [olhar de desdém e gesto de levantar de mãos].

[Membro 10] - E precisa participar? Basta que ela forneça qualquer auxílio e se vincule à causa. Não precisa participar de atentados. – [olhar sério e de espanto] – Eu sou do pensamento de que esta Senhora deveria estar PRESA em um estabelecimento de contenção máxima... – [aponta para Läude].

[Membro 27] – Cadê as provas?? – [olhar de espanto e desdém].

     Um membro joga sobre a mesa todos os registros de quebra de sigilo telefônico e bancário feito em desfavor de Läude, lacrados dentro de uma pasta.

[Membro 16] – Tem tudo isso e mais um pouco que as investigações descobriram sobre as atividades da Julgada vinculadas ao grupo terrorista. Leiam à vontade – [faz um semicírculo com um de seus braços].

     Läude não aguenta o que escuta, então se auto concede sua primeira defesa.

[Läude] – Nenhum de vocês se perguntaram se os especiais tem motivos pra reagirem da forma como estão reagindo...?

     Todos no recinto de calam por um instante, até um dos membros tentar novamente silenciar a Julgada:

[Membro 11] - Vamos ter que suspender a sessão, Alto, a Julgada não sabe o seu lugar de fala, ora...! – [irritado].

[A. Máximo] – Deixe ela falar... – [dispara um olhar frio] – Os Senhores já a expuseram quanto podiam... – [olhar vazio para frente].

     O membro foi totalmente silenciado e colocado no seu devido lugar. Não restava mais nada além de escutar a Julgada. Quase prestes a se emocionar, Läude faz o seu primeiro discurso.

[Läude] – Sabem, Senhores...? Quando eu cheguei em Vandora, todos tinham seu espaço. Todos podiam ter suas diferenças. Nós temos diferenças, apesar da raça. A vida tinha valor. Nós respeitávamos a bandeira. O Rosa era de Cidadania, não de tristeza. – [bate suavemente no peito] - Solidariedade era sagrado. Hoje em dia, depois do Grande Choque, tudo que eu vejo e escuto é sobre extermínio dos mais fracos. É sobre matar, torturar, vender e escravizar estrangeiros que NADA tiveram haver com os grupos de conflito.... São pessoas massacrando seres vivos conscientes POR ESPORTE! Será que nenhum de vocês conseguem enxergar que o maior erro desse País foi o fanatismo que criamos?! – [indignação, balançando fortemente os braços] - O PALHAÇO do líder dos ultranacionalistas está aí, LIVRE LEVE E SOLTO, cometendo vários crimes e provocando mais reação do povo!

[Membro 13] - A Senhora não tem moral alguma pra falar de fanatismo aqui...! – [levanta subitamente da mesa, exibindo autoritarismo].

     Läude surta de ódio.

[Läude]- QUEM NÃO TÊM MORAL SÃO VOCÊS!!! – [aponta fortemente o dedo para o membro] – A MAIORIA DOS QUE ESTÃO NESSAS CADEIRAS JÁ ESTUPRARAM VÁRIAS MULHERES SUB-HUMANAS E AS DEIXARAM PRA MORRER COM OS FILHOS DE VOCÊS!!! NÃO ME VENHAM FALAR DE MORAL!!! – [aponta o dedo por diversas vezes, furiosa].

O recinto inteiro fica em um completo clima de constrangimento e intimidação pelas falas de Läude.

[Läude]- Vocês são os PRIMEIROS a submeter e enfraquecer outros povos quando convém...! – [aponta o dedo] - Ou vocês acham que alguém aqui esqueceu o que fizeram com as outras civilizações?? – [olha para os lados] – Ninguém aqui quer OBRIGAR vocês a se misturarem com os especiais, mas que apenas tenham o MÍNIMO de respeito pela limitação do outro, e que PAREM de achar que raça de vocês é mais digna que as outras!! VÃO À MERDA!!! – [aponta fortemente o dedo, furiosa e ofegante de ódio].

     Por alguns segundos, nenhum dos membros do Comitê tiveram coragem de rebater os argumentos da Julgada. O Governante Máximo, a olhou nos olhos para certificar se Läude tinha algo mais a dizer. A mulher nunca havia se esgoelado tanto em sua vida para berrar o que estava entalado:

[Läude] – Alto Máximo, isso é tudo. Permanecerei em silêncio... – [se senta no banco] - E o que vocês decidirem, aceitarei de bom grado... – [exausta e triste, coloca as mãos sobre a cabeça já baixa e se escora na mesa, como sinal de desistência].

[A. Máximo] – Muito bem...Vamos prosseguir. – [olhar de desapontamento e leve comoção pela Julgada, apesar da aparente frieza].

     Após o incidente, o Comitê seguiu normalmente como se fosse apenas mais uma sessão comum de julgamento. Sem tensões, discussões ou gritarias, seguindo de forma fria e absolutamente formal e seco possível. Apesar dos 50 representantes de Nações distintas naquela luxuosa sala redonda, pela Lei, o Governante Máximo de um País onde o crime aconteceu, tem poder de decisão final sobre o destino de um Julgado após o voto dos membros do Comitê. E Läude, não parecia alimentar muitas esperanças sobre sua permanência em BIOTH. A decisão estava dividida entre PRISÃO ou BANIMENTO, estando este último, entre o banimento normal e o extraordinário, que era o que Läude teria mais chances de obter como sentença. O sol, já levemente esverdeado pelo reflexo da parede de vidro, batia em seu rosto abatido e de olhar vazio de quem estaria prestes à uma exclusão.

Apesar de uma minoria barulhenta, nenhum dos presentes cogitou sequer a ordenar a morte da Julgada, tendo em vista ser uma pena desproporcional para os seus ditos “crimes”. Läude não escutava mais vozes, somente ruídos abafados. Nesse momento, passou 03 horas escutando tudo o que podia e mais um pouco. Nada mais a afetava.

----------------------RETORNO AO PRESENTE-------------------

     O elevador descia como se estivesse passando pela trajetória de vida da condenada. Cada andar, era um ano que pairava diante de seus olhos. Toda a sua infância e juventude descendo pelos andares de um elevador, como a água desce pelo ralo de uma pia. Toda a sua existência se pondo como o sol daquela bela e amarga tarde.

     Magal transitava entre a raiva, a incredulidade e a tristeza. Ficou por vários minutos imaginando o que poderia ter feito para evitar aquela situação. Para livrar sua amiga de anos de uma condenação tão humilhante. Aquele mundo vivia em um Dilema. Lidar com o que até então, nunca precisaram conviver. Uma civilização acostumada com mais alto nível de sua categoria como espécie, como seres vivos daquela órbita, hipocritamente, não aceitavam nada menos do que eram. Apesar de suas vantagens, eram fúteis, eram desprezíveis. Mal estavam acostumados a verem sangue, quanto mais com “imperfeições”. Com frustrações. Com perder. Com feridas. Com falhas. Com assumir a condição de fraqueza ou limitações. Isso era inadmissível para eles.

     Após a longa e lenta descida que parecia uma eternidade, finalmente Läude chega, aos poucos, próximo ao primeiro piso, já alguns andares adentro do complexo edifício. Abaixo de sua visão, estaria uma multidão de agitadores esperando pela chegada da condenada sob vários xingamentos e arremessos de latas, copos, tintas, bolas de borracha, areia, pedras, ovos e outras centenas de injúrias:

=======================================================

      “......Sua aberração!!”

                        “.......TRAIDORA!”

“.....VAGABUNDA!”

                  “......Escória da sociedade!!”

 

[CUSPARADAS DIRECIONADAS AO ELEVADOR].

                                      “......Filha de uma PUTA!!”

“...VOCÊ TINHA QUE SER MORTA, SUA SAFADA!!”

 

                                “......CANALHA! CADELA IMUNDA!!”

 

          “.....Você não merece nenhum legado na sua vida!!”

 

“.....Banimento é pouco pra você!!”

 

                              “....SUA FROUXA! CORRUPTA!”

        “...DESGRAÇADA!!”

 

 [SOCO FORTE NA PAREDE DO ELEVADOR. O VIDRO TRINCA].

=============================================================

Aquelas injúrias não pareciam mais afetar Läude. Já compreendendo a realidade que enfrentava em nome de uma causa maior, já estaria começando a aceitar sua condição. Magal, desesperado pela fúria dos manifestantes, mira sua arma à laser rente à parede do elevador para caso um deles tentasse agredir a sentenciada. Läude porém, abaixa suavemente o armamento de seu amigo.

[Läude] – Está tudo bem...Eles não têm coragem. Só estão revoltados... – [olhar vazio e expressão serena].

     Magal, abatido, acena negativamente com a cabeça.

[Magal] – Não está tudo bem, Läude.... – [expressão de tristeza].

Ao mesmo tempo, gritos em coro de pessoas segurando cartazes exaltando a sentenciada, vinham com os dizeres “VERDADEIRA REPRESENTANTE DA NAÇÃO”, “VIVA A REBELDIA”, “HEROÍNA DO POVO, HEROÍNA DE RAÇA”, “VOCÊ É A ÚNICA RAÇA SUPERIOR DE SEU POVO! PARABÉNS, LÄUDE”. Vários protestantes com máscara de oxigênio carregavam o símbolo da bandeira de Vandora em seus ombros e partiam para acertar os opositores com tacos de baseball, tiros de balas de metal e até bombas de gás. Mesmo que nada disso afetasse os SH’s ali presentes.

Ao aterrissar no primeiro piso, mais necessariamente, ao subsolo, mais 04 guardas fardados estava de prontidão em frente à porta. O local, era composto por um corredor que direcionava ao enorme estacionamento. Läude é escoltada pelos guardas até um sofisticado carro preto, composto de 06 portas e 08 bancos, movido à energia mecânica. Sentada ao meio, entre dois homens, a mulher observava o lento levantar da janela espelhada escura do veículo até seu fechamento completo.

...........FLASHBACK. 23H30 DA MANHÃ. 10 DIAS ANTES DO JULGAMENTO............

    Läude, saindo do quarto de hotel por onde se hospedava para aproveitar seus últimos dias, se depara no corredor com seu amigo e colega de anos. Surpresa, a moça, que utilizava um cardigan espelhado aliado a um elegante biquini similar à um vinil e colar de pedras, tira os óculos amarelos e olha fixamente para Otis:

[Otis] – Tudo bem...? – [olhar preocupado, apesar de sereno].

     Läude suspira e acena positivamente com a cabeça.

[Otis] – Podemos conversar? – [semblante de leve aflição].

[Läude] – Claro... – [sorriso tímido].

     Ambos entraram novamente no apartamento. Otis deixa uma pasta de cobre em cima de uma mesa. Os dois, encostados em um dos móveis do recinto, se entreolham por alguns segundos, sem saberem o que dirigirem um para o outro. Läude apresenta um olhar baixo e semblante de vergonha e receio. Otis, exibe olhar baixo, de braços cruzados, seguido de rosto erguido e expressão de desânimo.

[Otis] – Como você pretende se defender, Läude? – [preocupação].

[Läude] – Tenho um consultor jurídico pra me auxiliar.... – [sorriso envergonhado e braços cruzados].

[Otis]- Tem se alimentado bem? – [olhar triste].

[Läude] – Sim...Tenho sim... – [leve sorriso].

     Otis acena positivamente direcionando o olhar para o lado, já um pouco aflito pela situação iminente da colega. Com as mãos no rosto seguido de passos em movimento circular, Otis tenta fazer uma oferta para a moça.

[Otis] – Olha, se você quiser, nós podemos te tirar daqui, oferecer uma fuga, limpar seus dados o que você quiser, Läude.... – [expressão aflita].

     Läude nega com cabeça, mantendo os olhos fechados. A mulher rejeita qualquer ajuda oferecida por Otis e não enxerga qualquer vantagem nessa.

[Läude] – Eu não vou fugir, Otis.... – [olha para o colega] – Não vou piorar ainda mais as coisas.... – [acena negativamente].

     Otis, desolado, olha para baixo e usa seu último apelo.

[Otis] – Você realmente acha que persistir nessa causa vale à pena? – [braços levemente estendidos] – Essas pessoas são tão importantes assim...? – [acena negativamente com a cabeça, seguido de suave bater de mãos rente às laterais das pernas].

     Läude sorri para Otis e o fita fixamente em seus olhos.

[Läude] – Você amaria sua criação? – [sorrindo, referindo-se ao futuro transmorfo].

[Otis] – Como assim...? – [apreensivo].

[Läude] – Se ela viesse com algum defeito?...Ou com alguma imperfeição? – [olhar de intimação e serenidade].

[Otis] – Eu AMO as minhas criações... – [aponta para si mesmo com as mãos].

[Läude] – Mas dá a mesma importância pra todas elas? – [olhar suave e honesto para Otis].

[Otis] – Amor não tem medida, Läude... – [olhar de desapontamento] – A forma como interajo com elas não me faz amar menos, independente de defeito que tenha... – [incrédulo e triste].

[Läude] – Não quero te invalidar.... Eu sei, eu sei... – [ergue a palma da mão verticalmente para cima].

[Otis] – Então por que está fazendo isso...? – [triste e desapontado].

[Läude] – Pra que você entenda a minha motivação... – [sorriso triste] – E se coloque um pouco no lugar dessas pessoas... – [suave estender de braço esquerdo].

[Otis] – Você as ama? – [gesto e feição de incredulidade].

[Läude] – Eu as respeito...Assim como quero ser respeitada, independente de minha condição... – [olhos brilham e Läude fica perto de chorar].

     Otis começa a ficar agoniado e com vontade de chorar. A sensação era de luto, luto por uma “morte”. Que poderia, por decisão oficial, ser uma Morte de fato. Otis dá suaves pulos de aflição e sua expressão é de profunda angústia e tristeza. Läude não consegue evitar o choro, apesar da expressão de seriedade.

[Otis] – Você pode morrer, Läude... – [expressão de tristeza e angústia] - Pra onde você vai se for banida......? – [voz trêmula].

Läude trava os lábios e apresenta olhar de espanto, ainda em lágrimas, sinalizando incerteza sobre seu futuro.

[Läude] – Para algum lugar...... – [leve riso e olhos lacrimejados, mesclando um sorriso genuíno].

     Otis seca seu rosto, e, em meio a suspiros e mãos no rosto, olha para a pasta de cobre e o cede como última alternativa de oferecer segurança mínima para a colega que viria a ser condenada.

[Otis] – Então....Fique pelo menos com essa pasta...Aqui tem tudo o que criamos... – [balança o rosto positivamente] – E tudo que você pode usar, caso precise. – [olhar fixo].

     Läude observa seu colega com a pasta em mãos e fica momentaneamente em hesitação sobre a oferta de seu companheiro:

[Otis] – Não recuse meu pedido...Pelo menos esse...É só o que eu te peço... – [olhar de tristeza].

     Läude apanha gradualmente a pasta das mãos de Otis e a coloca da pequena estante do seu lado e se aproxima de Otis, tocando em seu rosto.

[Läude] – Eu não vou morrer.... Isso eu te garanto. – [sorriso genuíno].

     Otis toca suavemente o queixo de Läude enquanto exibe um suave sorriso e olhar apaixonado para a companheira. As mãos de Läude desliza sobre os ombros de Otis enquanto este perpassa as suas mãos ao longo da cintura da mulher, acariciando-a de baixo para cima. O cheiro de cosmético similar a um protetor solar e o perfume de floral de seus cabelos faz Otis aproximar seu rosto com o da companheira. As gotas de suor que percorriam o corpo da mulher, tocam as mãos de Otis, que frisa seu quadril contra o de Läude.

O gatilho da moça dispara quando tem seu pescoço roçado pelo rosto de Otis e sente o seu perfume na gola de sua camisa. Um peito contra o outro. As mãos da mulher na nuca do parceiro. Os lábios se tocam e línguas dançam em ritmo quente. Otis aperta Läude com mais firmeza, seguido de fricção de suas mãos em suas nádegas. Incendiada, a mulher se entrega e se deixa carregar pelas pernas enquanto abraça intensamente o companheiro. Na cama de hospedagem, Otis coloca Läude deitada enquanto os lábios de ambos permanecem gentilmente colados um ao outro, ambos, com fôlego de sobra. Otis, já “enfurecido”, rasga o biquini de baixo de Läude, espalhando pequenas pedras preciosas por todo o quarto. Otis expõe os seios ouriçados de Läude enquanto esta, já molhada, desabotoa a camisa de Otis. O homem, entretanto, rasga a sua roupa e consome ardentemente sua companheira como se fosse o último dia de sua vida. Um misto de amor, paixão e saudade tomaram conta de seus corpos durante 05 horas.

.........................PRESENTE MOMENTO.......................

     O luxuoso veículo deixa a entrada do edifício aos arremessos de copos e latas, tapas, socos e aos gritos de protesto com placas chamativas, tanto em favor, quanto contra Läude. Cartazes, placas digitalizadas, banners, folhas de papel higiênico multicoloridos, rojões, pessoas correndo nuas pela estrada, explosões e anarquia generalizada faziam parte daquele palco de histeria.

     O veículo, ileso das tentativas de danos, percorre a longa “tela asfáltica”, saindo do Ponto Central, atravessando a grande plataforma da cidade, e deslocando-se rumo ao Ponto Sul-II, aonde Läude seria finalmente embarcada. O transporte demorou 02 horas para chegar ao destino. A mulher acompanhou a transição de cores durante o entardecer, desde o vermelho púrpura, até o crepúsculo, quando chegou ao local designado. A gigantesca embarcação aeroespacial, estava estacionada em um grande campo asfáltico de pouso e decolagem de aeronaves de diversos gêneros, que ficava próximo à uma das praias vandorianas. Frente ao carro, várias pessoas, dentre amigos e parentes de Läude, a esperavam para sua despedida.

     O tenso silêncio pairava sobre a pequena multidão. Todos imóveis. Todos em uma estranha sensação de luto. Mesmo alimentando esperanças de um retorno, sabiam que poderiam ser a última vez que veriam a condenada. Mesmo em revanchismo, os rivais mútuos respeitaram aquele último momento. Läude saiu do veículo, com um sorriso triste e munida de uma mala. Coberta de um terninho, sob elegantes botas, brincos e colar de pedras preciosas. O verde marinho sempre foi uma de suas cores prediletas. O restante da escolta, também saiu do veículo para realizar os devidos cumprimentos à Läude. A primeira pessoa na qual a mulher abraçaria fortemente, é Magal, que não hesita em demonstrar todo o seu carinho e sentimento de falta pela sua grande amiga.

     O próximo que Läude abraçou, era Otis, também seu inominável companheiro e uma das pessoas as quais mais amou em sua vida. Otis abraça Läude como nunca fará em sua vida. Chora como um condenado, mesmo que discretamente. O terceiro, era James Wesley, na qual acompanhou sua trajetória e mutuamente se apoiaram em causas que consideraram justas. Também foi seu grande companheiro e acolhedor. James mal conseguia abraçar a amiga, de tamanha vergonha que sentia. De sobretudo e roupas “country”, o mesmo se cobria parcialmente com o seu chapéu e olhava para baixo. Percebendo sua culpa, a amiga o consolava:

[Läude] – Não se culpe, James....Está tudo bem. – [coloca as mãos em seu rosto] – Tudo vai melhorar, eu te garanto.... Mas eu te peço uma coisa...

     Wesley olhava fixamente para Läude.

[Läude] – Volte pra casa, James, por favor, volte...Não persista mais nessa guerra...Tudo o que Ele quer, é te desestabilizar. Você já tem condições de ir embora se quiser.... Não faça disso um inferno pra sua vida. – [sorriso triste e aflito].

     Wesley nada respondeu, apenas acenando timidamente sua cabeça positivamente.

     A quarta pessoa a quem Läude disse adeus, era para Saiph, que já estava desiludida com o banimento de sua amiga. As duas se abraçaram firmemente por alguns segundos. Saiph cedeu para a amiga, um colar de sua lembrança para mantê-la consigo.

 Os outros a quem Läude se despediria, eram seus familiares, que já estavam devastados com a sua partida. A mulher não conseguia segurar sua tristeza e os outros que assistiam, também já não mais podiam disfarçar o lamento em seus olhares. Dante e Vergil, logo atrás de Wesley, acompanhavam sentidos toda solene despedida. Läude, mesmo não criando tanto vínculo com os dois, também fez questão de abraçá-los de maneira fraternal e hospitaleira. Vondano, que era o mais alto e robusto de todos ali presentes, também demonstrou sentimentos pela expulsão de Läude e recebeu um grande abraço da mesma. Sendo amigo de James Wesley, barreira alguma impediu de ter havido respeito e consideração mútua. A condenada deu seus devidos cumprimentos ao restante dos 60 ali presentes. Aos prantos, Laude caminhava até próximo à entrada da espaçonave, acompanhada de Magal.

Brindada com um beijo nas mãos, Magal concedeu, o que até então, seriam suas últimas palavras dirigidas em seu último contato com sua amiga.

[Magal] – Se cuida, Läude... – [semblante triste].

[Läude] – Me cuidarei... – [sorriso suave].

    

A aeronave finalmente se fechava e trancou todas as suas entradas enquanto Magal cedia alguns passos para trás. Por uma grande janela levemente esverdeada, daria para ver Läude se acomodando em um confortável e extenso assento enquanto a tripulação se prepara para a partida. A viagem duraria, pelo menos de 10 à 30 dias de distância. Ainda em lágrimas, a mulher ergue a palma de sua mão para fazer um gesto de “tchauzinho” para todas as pessoas que lá estavam, sendo respondida com o mesmo gesto, simultaneamente. O sol já estaria quase totalmente se pondo, e a cor celestial se misturada entre o laranja, vermelho-púrpura e azul escuro.

     O veículo aéreo fez sua decolagem e sentido diagonal, e aos poucos, a visão de Läude ia diminuindo à medida que a aeronave se distancia do ponto de embarque. As pessoas se tornam cada vez mais “pequenininhas”. As areias, a praia, a vegetação, todas viraram pequenos projetos feitos em “maquete”. Os prédios, veículos, aerodinâmicos ou não, e as plataformas, pareciam feitas de “brinquedo”. E finalmente, as nuvens tampavam toda a visão terrestre e a espaçonave atravessava altitude suficiente que daria para dar uma última olhada no crepúsculo à sua frente, em meio à uma espécie de mar de algodão. A nave estava apenas subindo, e subindo, e subindo....

 

.

 

     .

      

           .

 

..............................

--------------------[SILÊNCIO ABSURDO]--------------------

    Os 60 cidadãos presentes ficaram durante 01 minuto em silêncio, alguns olhando para direção de onde Läude partiu, outros de cabeça baixa. Magal, visivelmente abatido, lentamente foi dando lugar a uma discreta expressão de fúria em sua face. O homem ruivo, já estava direcionando seu olhar de desprezo para James Wesley. Já este, ajeitando seu chapéu, acabou reparando na raiva de Magal enquanto estaria prestes a acender um cigarro. James, porém, não faz qualquer cerimônia.

[James Wesley] – Que foi? Tá com diarreia, filho? – [menosprezo].

     Todos as 59 pessoas olharam para Wesley como quem repara um bêbado recém chegado de um bar.

[Magal] – Seu verme caipira...... – [expressão de raiva].

     Wesley, com sangue já no talo, estava disposto a partir na mão com o primeiro que viesse. Dante e Vergil ficaram em estado de alerta. Vondano observava Wesley com cara de tacho.

[Vondano] – Fodeu...... – [olhar de paisagem].

[James Wesley] – Quer falar alguma coisa?? Pode falar, aproveita...! – [expressa destemor e atrevimento].

     Magal caminhava lentamente até Wesley, incrédulo pela coragem do homem, perto de estourar em raiva.

[Magal] – Falou comigo, vadia? – [raiva].

[James Wesley] – Não, gracinha, falei com a PUTA que te pariu...! – [desafiador].

     Todos os presentes ficaram em estado de alerta. A família de Läude, ficou por alguns segundos pensativa entre agir ou se afastar do conflito. O restante, se preparava discretamente para o que viesse pela frente. Mãos colocadas nos bolsos, tacos de baseball tirados das costas, correntes retiradas da cintura, garrafas de bebida em punho, facões puxados das bainhas, armas de fogo comum sendo municiadas. Tensão e desconfiança com tudo que tem direito.

[Magal] – Você tem memória curta, não é seu bostinha? – [discreta expressão de ódio].

     Wesley acendeu seu cigarro com um isqueiro neon, dando uma bela tragada, e logo em seguida, apagando maço do produto bem no peito de Magal, sinalizando seu total desprezo pelo rapaz. Otis olhava aquilo surpreso e atento.

[James Wesley] – Memória de quê, boneca Barbie? Te fiz alguma coisa?? Desembucha logo...! – [semblante confiante].

[Vondano] – Hey...! – [tenta impedir a briga] - Vamos esfriar o rabo todo mundo aqui, Ok? Acabamos de presenciar um banimento agora há pouco... – [estende as mãos].

[Magal] – Primeiro você mata a Bäuma... – [aponta para Wesley] – Depois você tenta minar a Ilha com incêndios e ataques terroristas...E agora faz a Läude ser expulsa... – [olhos fitados em Wesley].

[James Wesley] – Ah, é?? E você acha que eu tenho culpa? Nem relevância você tem pra causa e quer sair falando merda, seu PALHAÇO!

     Magal dispara um tapão certeiro de “mão traseira” no rosto de Wesley, fazendo voar seu chapéu. James, no entanto, agarra a mão fechada de Magal e o acerta no nariz por três vezes com um soco inglês de pontas afiadas, o deixando levemente atordoado. Magal levanta Wesley pela cintura e o joga com força no piso de metal, já partindo para cima do homem com vários socos, ferindo-o levemente. Apesar de um “sub-humano”, James era suplementado e podia disputar forças com um Super-Humano. Dante e Vergil tenta tirar Magal de cima de Wesley, mas são retirados à força por outros arruaceiros. Otis também tenta apartar a briga, mas é empurrado por Magal.

 Inicia-se uma briga generalizada, sem previsão de término. Vondano pega quatro homens de uma única vez, com os dois braços, e os lança como bonecos de pano para longe, em direção ao mar. Vergil repele 05 metros à frente, dois homens com seus dois pés no peito de cada um. Logo em seguida, desvia de uma machadada e arremessa a cabeça do agressor em um corrimão de metal, amassando-o por completo. Vários tiros são disparados, mas todos pareciam ter o mesmo efeito de bolinhas de paintball. Dante joga um Spray 800x mais forte que a de pimenta na cara de Magal e dos outros três brigões. Apesar de potente, só daria pra sentir a irritação de uma cebola e meia. Magal agoniza e Wesley aproveita para dar uma forte mordida em seu pênis, trazendo ainda mais infelicidade para o ruivo. Dante acaba sendo puxado pelos cabelos e atirado rumo à área litorânea.Quando dá por si, percebe um homem o erguendo pelas pernas e tira proveito de seu pescoço para sufocá-lo, segurando seus punhos como uma pinça puxa um fio de cabelo inflamado.

A briga termina se desencadeando na praia, e vários participantes terminaram por comer areia pelas várias partes do corpo. Uma maciça garrafa de bebida foi quebrada no rosto de Vondano, e este, sem esboçar qualquer desconforto, agarra o infeliz pelo pescoço e concede um belo soco no meio dos testículos do homem, jogando-o logo em seguida contra a areia, afundando sua cabeça e metade do seu corpo por completo. Magal tenta "cavar" o estômago de Wesley com socos enquanto engancha sua cabeça e James tenta se desvencilhar dos golpes. Magal tem seu pescoço prendido por um valentão que lhe estava desferindo um “Mata-Leão”. Injuriado, Wesley tira proveito de Magal e segura suas pernas, apesar de vários chutes na cara e em outras partes do corpo. Para se vingar, James pisa com toda a força de seu ódio nas bolas de Magal como se estivesse esmagando uma barata na brutalidade.

Otis era o único que não havia participado da briga, até que...

[agressor] – Diga olá, Doutor...! – [tenta raivosamente arremessar um pedaço gigante de pedra na cabeça de Otis].

     O homem desvia do golpe e acerta a mandíbula do agressor, de baixo para cima, com uma barra de metal improvisada na qual vinha munido em sua cintura. Otis desvia de mais 03 golpes e dá um chute certeiro no diafragma do adversário. Até mesmo os familiares de Läude, fizeram questão de entrar na briga como bons vandorianos que eram. A pancadaria à céu aberto era um esporte.

     A baderna coletiva não acabaria tão cedo. Motins de socos, chutes, tapas, mordidas e apertões, seguiriam seu curso normal por pelo menos 03 horas. Os SH’s, pouco sentiram. Os híbridos, tiveram alguns leves hematomas. Já os humanos comuns, sangraram como cabras. Wesley já estava em cima de Magal tentando sufocá-lo com seu próprio chapéu enquanto dava cacetadas aleatórias em outros participantes com um nunchaku improvisado. Passantes que caminhavam, aproveitavam para filmar o combate coletivo.

     Chaves de gancho, meia lua de compasso, tiro na boca, polegar nos olhos, arremessos, joelhada no estômago, empurrões, golpes de facão, pauladas na cabeça, cadeiradas, lançar-se o próprio peso contra os adversários, ataques aéreos, jogar areia nos olhos. Todo tipo de golpe baixo estaria permitido naquele triste, cômico e fatídico dia. Enquanto isso, a espaçonave continuaria subindo...

 

                                    “Shinedown – Enemies”.

 

Comments