----DESEMBARQUE. NEVADA. MADRUGADA DE 15 DE JULHO EM DIANTE. ANO DE 8850. CAMINHADA. PRIMEIROS DIAS EM NOVA YORK.PARTE #3-----

......INVESTIGAÇÃO DE HOMICÍDIO. 8h00 DA MANHÃ. ALGUNS METROS PRÓXIMO AO POSTO DE COMBUSTÍVEIS DRISCO COMPANY.

    Sirenes da polícia sinalizam. O local é isolado com fitas largas e compridas em preto e amarelo. Triângulos de sinalização são espalhados pela cena do crime e três viaturas movidas à levitação magnética estavam presentes. O fruto do "acidente" estava jogado no chão, apodrecendo logo após a encosta, sujo de terra e algumas pequenas folhas. Sentado na divisória de concreto das ruas estava um dos funcionários da DRISCO, sem camisa e munido de um machado que mais parecia uma foice. Um dos peritos fotografa o corpo enquanto o outro faz anotações transmitidas em áudio para um caderno digital. Dois policiais observam a cena do crime enquanto os outros checam o Posto de Combustíveis DRISCO COMPANY e coletam informações dos presentes. Um dos policiais mantinha os braços cruzados, o outro, desfrutava de seu primeiro dos 10 copos de cafés do dia.

[Policial 01]- Earl Cash....-[verifica os dados da vítima no celular]- Olha esse cara, bicho...-[impressionado].

[Policial 02]- Amassaram ele igual a um pedaço de melão...-[levemente enojado]-...Tu ainda consegue beber café olhando pra isso aí?-[encara o colega, ainda nauseado].

[Policial 01]-...Já me acostumei...Já vi até piores...-[bebe o café quente].

[Policial 02]- Parece que tem cacos de vidro na cabeça dele...-[tenta ver melhor o corpo].

[Policial 01]-Em toda parte...Inclusive atrás de nós.

    Ambos olham para trás em direção ao asfalto.

[Policial 02]- Cara...Disseram que o caminhão era com vidro de alta blindagem...-[estranhamento].

[Policial 01]- Mas alguém ou alguma coisa arrebentou a cabeça da vítima no vidro. -[encara o colega]- Me surpreende ele não ter tido a cabeça inteira esmagada...

[Policial 02]- De certo era cabeça dura...-[expressão irônica].

    Os dois policiais voltar a olhar para a cena do assassinato. Vários flashes da potente máquina fotográfica de um dos peritos eram disparadas rente às "curvas" de banha do morto, cujas imagens eram produzidas em sua mais alta resolução do mercado. Até o mais velho resquício de sujeira do umbigo do defunto era fantasticamente registrado detalhadamente com suas cores mais vivas.

    No posto de combustíveis, os outros três policiais coletam as primeiras informações da pessoa mais próxima de Earl Cash: sua esposa já viúva. Atendente e administradora da loja de conveniências. Os três se aproximam amigavelmente do balcão para conversar com a mulher.

[Policial 03]- Com licença, Senhora...-[mostra o distintivo, já com o nome do agente]- Viemos fazer algumas perguntas sobre a vítima Earl Cash.

    A mulher limpava os talheres e secava a maior parte delas com uma máquina desensopadora enquanto esfregava um pano nos outros pratos que restavam. Ela olha brevemente para os policiais:

[Mulher]- Diga...Estou toda a ouvidos...-[semblante altivo e destemido].

[Policial 04]- Como se chama a Senhora?-[refere-se gentilmente com uma das mãos enquanto mantém um olhar sério].

[Mulher]-...Maria Helena Cash...-[sorri]- Maria Helena EX "Cash".....[reforça com um dedo abaixo do olho e o outro dedo indicador suavemente apontado para o policial].

[Policial 05]- A Senhora era esposa da vítima?

[Maria H. Cash]- Olha...-[feição irônica]- Deus que me perdoe, mas GRÁÇAS AOS CÉUS....!-[estende firmemente as mãos]- ERA...-[olha brevemente para o policial]-Aquele pedaço de desgraça pelada caída ali na rua -[aponta o dedo]- nunca prestou...

[Policial 05]- Devo presumir então que vocês dois não se bicavam...-[olhar sério].

    A mulher de cabelos louros ondulados sorri de raiva e rancor, seguindo de uma expressão irônica enquanto relata sobre Earl, ainda lavando os pratos:

[Maria H. Cash]- Quando eu descobri o quê que esse desgraçado fazia pelas estradas....Aí eu tomei foi ÓDIO dele...E "num" foi traição não...-[acena negativamente com o dedo indicador, olhando ironicamente para o policial].

[Policial 05]- Então foi o quê?-[intrigado e sério].

[Maria H. Cash]-...Esse PORCO IMUNDO parava nos posto de gasolina pra fazer, sabe o quê?-[olha pro policial]- Pegar menor de idade...!-[ódio]- A maioria meninos...-[suspira com raiva e sorri]- Ele gostava de fazer medo e pavor nos garotos...Quanto mais a vítima reagia, mais ele gostava.-[joga o pano com força na pia, os três policiais assustam].

[Policial 04]- Ouvi dizer que a fama desse caminhoneiro não era lá muito boa na praça...[olha para o colega].

[Policial 03]- A Senhora chegou a fazer alguma denúncia?-[braços cruzados].

[Maria H. Cash]- Se eu cheguei??-[ironia]- HAH! Tem um MONTE de denúncia aí que eu mandei registrar no site, Doutor...!Minha e de um TANTÃO de gente...!-[aponta para o celular do policial]- TODO DIA eu mandava...!-[gesticula]- Mandava pro Xerife, mandava pra mídia, mandava pra PUTA QUE PARIU....![joga as mãos para um lado e para o outro]- Eu cheguei a filmar aqui, escondida, tudo que esse canalha fazia...!-[soca uma mão na palma da outra]- E advinha o quê que o pessoal daqui dessa região fez?? -[bate as mãos opostamente uma à outra, simbolizando "tanto faz"]- NADA...-[decepção e revolta].

    Os três policiais escutam calados e cuidadosamente a versão dada por Maria Helena. O depoimento da mulher vinha recheado de verdades não ditas. Durante o breve silêncio, a depoente continua lavando mais uma pilha de talheres.

[Maria H. Cash]- Não é não, chefe?-[decepção]- TODO mundo aqui sabia o que o Earl fazia...-[joga o pano]- E esses funcionários aí tudo que trabalhava pro Cash, -[aponta o dedo e gira o braço em torno de si, de cima para baixo]- TODOS eles sabem ATÉ HOJE o quê que ele fazia! E NINGUÉM-FEZ-NADA...! NENHUM desses funcionários aí vale a PORRA que jorra...!-[gesticula]-....Desculpa o palavrão...Enfim...-[estende a mão para cima e expressa vergonha].

    O funcionário que estava sentado na divisória de concreto escuta as falas exaltadas de Maria Helena, de fora da loja de conveniências. O mesmo carregava o enorme machado nos ombros e fitava com desconfiança para a atendente.

[Maria H. Cash]-Pois é, Doutor....-[sorriso de decepção]- O canalha tinha costas quentes com a cidade INTEIRA...Só porque era "rEpReSeNtAnTe" da DRISCO. -[ironiza, gesticulando com os dedos]- Esses "pilantra" aí tudo...-[aponta o dedo de forma suave]- Não valem nada igual a ele...

[Policial 05]- Éh...Isso é vergonhoso...-[concorda com a mulher].

    Maria faz um gesto de concordância, contraindo os músculos de sua face e estendendo o braço para o policial.

.      .       .

    A porta da loja de conveniência se abre. O funcionário armado, contrariado com o depoimento de Maria, coloca seu machado em um canto e dá calmamente a sua versão sem ter sido chamado.

[Funcionário]- ...Só queria relatar aos Senhores que não tive nada haver com as falcatruas de Cash. Sequer presenciei qualquer tentativa de estupro por essas bandas, diferente do que essa riponga falou...-[aponta para Maria].

    Maria fica agitada e enraivecida com o insulto.

[Maria H. Cash]- MELHOR SER RIPONGA DO QUE SER CÚMPLICE DE ESTUPRADOR....-[devolve Maria]- NÃO DEVO NADA PRA NINGUÉM NÃO, MAGAL!-[grita histérica].

[Policial 05]- Hey, já chega, se continuar a baixaria, eu prendo logo os dois!-[avisa o policial, bravo e sério].

    Magal sai da loja de conveniência com o machado, já irritado com a situação. Fora da loja, aponta o braço para Maria:

[Magal]- Arrombada....-[expressa insatisfação].

    Maria mostra o dedo do meio para Magal e bate levemente a mão no balcão enquanto expressa raiva. A mulher mexe nos cabelos e se volta novamente para os policiais, de cotovelos encostados no balcão:

[Maria H. Cash]- Bom, continuando...Earl Cash era um PEDÓFILO, -[dedo polegar]- ESTUPRADOR -[dedo indicador]- e um belo de um vetor de doenças...-[volta-se novamente para os pratos]- O último que ele violentou no ano passado tá há UM ANO sem botar o pé pra fora de casa. -[seriedade e decepção].

[Policial 03]- Vocês dois chegaram a ter filhos juntos?-[curioso].

[Maria H. Cash]- Tivemos CINCO...-[mostra os cinco dedos da mão, com cara de tacho]- 04 homens e uma mulher. Mas nem quero comentar muito sobre isso...-[estende a mão para cima].

    Pausa alguns segundos de silêncio.

    Fora da loja de Conveniências, Magal senta-se em uma poltrona de madeira estofada para fumar um cigarro de canela, enquanto dispensa seu machado ao lado do apoio de braço. O homem ruivo mantinha o mesmo penteado de um século atrás. Logo detrás, um policial, que já havendo coletado informações dos outros funcionários, se aproxima para tirar o depoimento de Magal. Este olha para o agente, já com o cigarro em brasa e um pequeno acendedor em mãos.

[Magal]-.....Quer fumar?-[oferece ao agente].

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[Policial 04]- A Senhora sabe alguma coisa sobre o assassinato de Cash?-[desconfiado].

[Maria H. Cash]- Aaahh...Hahahahaha...-[risada maléfica]- Agora vocês chegaram BEM aonde eu queria....-[gesticula, com sorriso de satisfação].

    A mulher finaliza os pratos e começa a preparar 04 copos de café quente com melado para ela e os policiais. Estes, intrigados com a história contada por Maria, permanecem atentos ao seu depoimento. Como eram experientes na carreira, não sentiam qualquer tentativa de má-fé por parte da mulher que lhes relatava o caso.

[Maria H. Cash]- Sentem aí, meus queridos, aceitam café? É por conta da casa...-[coloca sedutoramente os três copos de café sobre o balcão].

    Ambos aceitam a oferta de Maria, por vê-la também bebendo o mesmo café.

[Policial 03]- Ah...Obrigado.

[Policial 04]- Obrigado.

[Policial 05]- Obrigado. -[seriedade].

    Ambos dão seus respectivos goles da bebida. Pareciam que estavam prestes a assistir o último episódio de uma importante série de TV.

[Maria H. Cash]- Olha, antes que alguém pense que eu tive alguma coisa haver com a morte do Cash, pensou errado...-[acena negativamente com o dedo e mostra desprezo em sua face]- Ele achou que porque suas vítimas eram garotos ele tinha total poder sobre eles...Mas um dia...-[Maria Helena começa a esboçar um sorriso maquiavélico e concede risos nasais e cínicos que mais pareciam de uma bruxa]- O Cash foi brincar de predador com a pessoa errada...-[olha com um sorriso aberto para o policial].

[Policial 05]- Quem estava com o Cash?-[transmite seriedade em seu rosto].

    Maria exibe um semblante que mescla um sorriso debochado com surpresa excitante.

[Maria H. Cash]-...Ssss...-[trava os lábios]- Um rapazote que chegou aqui recentemente, sabe...?-[malícia]- Meio baitola, mas era "BUNIIITO..." -[risos com expressão debochada e olhar satírico]- Mas PENSA num rapaz bonito...!-[bate suavemente à mesa]- Acho que o nome dele era...-[dedo indicador nos lábios]- VEGA...-[gesticula]- Isso! O nome dele era Vega. Quando Cash chegou aqui, ele foi abastecer e comprar bebida -[faz um gesto com as mãos, que simbolizava "bebedeira"]- , enquanto o outro, foi tentar trocar dinheiro do Caixa Cambiário ali de fora -[aponta para o Caixa arrombado pela polícia]. Só que eu percebi que ele tava armando o terreno pra violentar mais um...-[bebe o café]- Daí eu fui checar mais de perto, já com o telefone na minha mão.-[exibe seriedade, sacudindo suavemente o celular].

.............FLASHBACK............

    Barulho estrondoso de vidro blindado se partindo, similar à de um estouro de uma bomba é ouvido pelos presentes. A mulher encapuzada só podia ver a sombra de um veículo tendo sua janela estraçalhada, com uma mão agarrando algo arredondado e meio a um azul claro, antes do sol da manhã. O telefone estava em mãos, já com uma ligação realizada.

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    Maria faz uma pequena pausa antes de concluir seu relato para beber o restante do café, mostrando satisfação em seu rosto.

[Maria H. Cash]- ...Eu só fui ver o estrago que o "frasquinho" tinha feito nele, depois que eu vi ele sendo despejado pra fora do caminhão...-[projeta o queixo para frente]- O menino pegou as coisas e óh....-[estapeia uma de suas mãos de trás para frente]- Meteu o pé pela estrada...-[expressão altiva].

[Policial 04]- Tem alguma foto do garoto?-[intrigado].

[Maria H. Cash]- Não...-[expressão de desapontamento]- Infelizmente eu não peguei nenhuma imagem dele...Sequer sabia que um "molecote" daquele podia matar alguém. E olha que o Cash era suplementado...Ele batia de frente com um SH fácil, fácil...-[expressa surpresa e seriedade]- E como só tinha ele junto com o morto, não resta dúvida, ele liquidou o Cash...-[com o dedo para cima, o aponta brevemente para frente e para trás, expressando seriedade].

[Policial 03]- Saberia descrever a aparência dele?-[intrigado].

[Maria H. Cash]- Olha...Foi muito de relance que eu vi ele...-[fecha os olhos e tenta-se lembrar]- Mas ele tinha...Cabelos meio avermelhados, cor de canela, sabe?-[contorce suavemente sua face enquanto gesticula com sua mão]- Cabelos bem lisos e escorridos...Mas era MUITO cabelo que esse menino tinha, Doutor...-[impressionada]- Uns três andares de puro cabelo...-[feição de surpresa]- Era um penteadinho repartido bem no meio, desses que ia até o pescoço, assim, óh...!-[gesticula com as mãos, de cima para baixo].

    Os policiais acenam positivamente e escutam atentamente a descrição de Maria enquanto fazem anotações pertinentes.

[Maria H. Cash]- Ele era branco...Mas daqueles branco italiano que dá pra pegar um bronze, sabe? Um douradinho sem queimar...-[olhar lúdico e gestos com as mãos para descrever o assassino]- Mas tem uma pele LINDA!-[bate no balcão]- Quê que é aquilo, meu Deus....E os olhos, Doutor...?Não sei se era lente, -[gesticula com mãos e braços e contorce sua face, demonstrando afastamento]- mas vou te falar uma coisa, viu...Aquela cor violeta é de se suspeitar...-[faz sinal de afastamento e desconfiança]-...Eu já vi gente de olho rosa, então...-[mãos suavemente ao peito, seguido de gesto de afastamento]. 

[Policial 04]- Ele era alto?-[cotovelos encostados à mesa].

[Maria H. Cash]- Olha...Não parecia muito alto não...-[expressão contorcida]- Era da minha altura. -[mão acima da cabeça]- 1 metro e 74, por aí -[sacode horizontalmente a mão]...Era um frasquinho, o menino. -[olhar de confiança].

[Policial 03]- Que roupas ele usava?-[curioso].

[Maria H. Cash]- Um pijama...-[expressão irônica]- Tem base? -[estende os braços]- Era um PIJAMA listrado. Simples assim...-[gesticula, de cima para baixo, com os dedos da mão]- A cor era...-[sacode horizontalmente uma de suas mãos e contorce sua face]- Um cinza com...Meio verde, meio azul...Ah, as listras eram tipo isso aí...! E mostrava metade das "coxa", rssssrsrsr...-[sorriso em meio a risadas arrastadas].

[Policial 05]- A Senhora já havia questionado seu marido alguma vez sobre as acusações?-[sério].

    Maria imediatamente muda sua expressão. Ela adota um tom de seriedade e decepção no olhar.

.................FLASHBACK................

PEQUENA CASA RURAL. CURRAL. 15H45 DA TARDE. MOINHO DE VENTO GIRATÓRIO. 03 MESES ANTES DA MORTE.

    Maria, no topo de uma escada, próxima ao celeiro da área rural, pintava as paredes e o teto com uma pistola de tinha à laser, que produzia as cores escolhidas pelo usuário à medida em que os flashes eram disparados. Com óculos escuros, Maria trabalhava calmamente em mais um dia rotineiro em sua residência. Atrás dela, vem seu esposo, carregando um enorme garfo de 05 pontas afiadas:

[Maria H. Cash]- EARL...!-[grita ao marido].

[Earl Cash]- Fala, mulher!-[olha para a esposa].

[Maria H. Cash]- Cuida dos "cavalo" pra mim, que eu tô ocupada aqui com as paredes...! Tem mais palha ali na caminhoneta...!

[Earl Cash]- Beleza...!-[segue em frente, rumo à caminhoneta].

    Após um tempo, Maria volta a se distrair pintando as paredes do celeiro. É umas das atividades que ela mais gosta de fazer em sua rotina para se distrair. Artesanatos, argila, garrafas, crochês, reformas, construções, carregamento e transporte de madeira. Sair para cortar. Fazer de dentro de casa. Modelar com as próprias mãos. Era tudo que ela queria para viver. A mulher via prazer nas rotinas simples do dia a dia. Maria se concentra a cada pequeno detalhe de sua pintura. O tempo passa conforme ela se espairecia com a sua atividade. Ao piscar dos olhos, 30 minutos havia se passado.

[Earl Cash]-...Já terminei! -[deposita as ferramentas em um baú de madeira]- Tá acabando aí?-[olha para a esposa].

[Maria H. Cash]- Por hoje, estou quase!-[mantém-se olhando para a parede enquanto dispara os flashes]- Se quiser, já deixei até a janta pronta...Tá lá na cozinha!-[direciona o queixo para o lado direito].

[Earl Cash]- Mas tu é porreta, hein?!-[sorri]-...Maria...?-[olha para o horizonte, sério].

[Maria. H. Cash]-...Hum...!-[concentrada].

[Earl Cash]- Cadê aquele menino que contratei há um mês?-[cara amarrada].

    Maria se vira para Earl, com feição de estranhamento.

[Maria H. Cash]- Eu sei lá, "ômi"! O menino simplesmente sumiu do mapa. Faltou dois dias seguidos e nem deu satisfação...!-[se vira para a parede]- Eu tenho uma raiva disso, viu...Esses moleque tão tudo ficando tudo irresponsável, sem qualquer compromisso...!-[decepção em sua face, enquanto dispara os flashes da pistola].

    À medida que Maria fala, Cash expressa seriedade no olhar, caminha suavemente para frente e suspira pensando por alguns minutos antes de responder sua esposa. Earl fica estático e sério.

[Maria H. Cash]- ...Ow!-[estala dos dedos chamando o marido]- Tá me ouvido??

Earl sai do transe momentâneo.

[Earl Cash]- Tô...!Tô ouvindo, mulher...Pode falar...-[olhar de quem acabou de ser chamado pela mãe].

[Maria H. Cash]- Então...Já é o terceiro funcionário que a gente contrata perde, sabe??-[Maria finaliza a sua pintura e guarda a pistola em sua cintura].

    Enquanto Maria desce as escadas próximas ao celeiro, Earl avista um rapaz, no auge dos seus 16 anos, se aproximando do local para finalizar uma contratação para fins de trabalho na residência do casal, firmado inicialmente com Maria Helena. O que o adolescente recém-chegado não sabia, era que Earl também estava lá.

[Earl Cash]- Hey! Você é o garoto da cafeteria?? O menino da Simone??-[aponta Cash para o jovem].

    Antes que o rapaz respondesse à pergunta de Cash, o mesmo paralisa por alguns segundos e trava seu andar ao avistar o homem logo à frente, deixando cair algumas de suas ferramentas. Em total silêncio e pavor, o menino observa o caminhoneiro se aproximando. Sem pensar duas vezes, o adolescente sai correndo da região, abandonando seus pertences. Maria se assusta com a atitude repentina do menino e se aproxima de Cash:

[Earl Cash]- HEY, MENINO! VOLTA AQUI, PORRA...!-[estende o braço, enquanto o jovem se distancia cada vez mais da zona rural].

[Maria H. Cash]-....Ué! Por que que ele fugiu assim??-[olhar de estranhamento e surpresa para o menino, seguido para Cash].

    Cash fica alguns segundos em silêncio e exibe seriedade e decepção em sua face. O mesmo percebe que precisa fazer algumas mudanças em seus "hábitos".

[Earl Cash]- Sei lá, Maria...Essa geração de moleques é muito frouxa. -[balança a cabeça negativamente e vira-se lentamente para voltar ao celeiro]-...Não aguentam pressão como antigamente...-[permanece caminhando]. Maria olha para o canto inferior direito.

    Maria permanece parada olhando para o horizonte e repara nas ferramentas que foram largadas pelo adolescente. Nesse momento, Maria sente pairar uma desconfiança e uma inexplicável ansiedade em seu peito, na qual nunca mais passou após aquele estranho momento. "Vem tomar café, mulher!". O chamamento de Cash ecoa nos ouvidos de Maria, que permanecia estática, pensativa e com um olhar sério. O vento balançava seus cabelos assim como o sol pairava em seu rosto angustiado, ressaltando seus olhos azulados e suspeitosos.

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[Maria H. Cash]- Aquele dia tirou minha paz, Doutor....-[olhar triste].

    Os policiais permanecem em completo silêncio. Maria engole seco e coloca sua mão em seu peito antes de chegar a ponto crucial de seu relato.

[Maria H. Cash]- Quando fui confrontar Cash sobre os meninos que ele raptou....-[sorri de tristeza]- Ele me deu um SOCO nas costas...-[olhar de decepção]- Fiquei roxa por duas semanas....-[olha para baixo].

[Policial 05]- Quando mais ou menos foi que aconteceu a agressão?-[sério e desconfiado].

[Maria H. Cash]- Há algumas semanas...Pouco tempo atrás...-[Maria saca de seu celular, o destrava e o "joga" à mesa para os policiais]- Podem ver...-[acena]- Foi minha amiga que tirou as fotos...

    Um dos policiais, vestido com luvas de procedimento violeta, identificam as fotografias das lesões nas costas registradas por Maria.

[Policial 04]- Vamos ter que espelhar seu celular por precaução...-[fita Maria].

[Maria H. Cash]- Fiquem à vontade...-[rosto neutro]- [E só isso mesmo?-[cruza os braços].

[Policial 05]- Por enquanto sim...Vamos investigar o Caixa de Troca Automática Cambiária. -[aponta o polegar para trás].

[Maria H. Cash]- Ah...! Você disse "Caixa de Troca Cambiária"??-[sorri de deboche].

    Os policiais viram novamente para Maria, antes que fossem rumo ao Caixa extraviado.

[Policial 03]- Sabe de mais alguma coisa?-[sério e impaciente].

[Maria H. Cash]- Tudo. -[expressão altiva e de braços cruzados]- Antes de fazer outras vítimas, Cash as induzia a fazer trocas cambiárias se visse que era uma estrangeira...-[dedo apontado para frentes enquanto mantinha os braços cruzados]- Daí ele mandava um dos funcionários de confiança dele tirar o dinheiro da máquina por algumas horas, especialmente durante a noite...-[expressão de nojo]- A desculpa era pra evitar..."roubos" por parte de ladrões... -[gesticula com os dedos].

[Policial 04]- Acabaram de dizer lá fora que o Caixa foi furtado...-[intrigado].

[Maria H. Cash]- MENTIRA...-[negação com o dedo indicador]- Cash dava permissão de administrador pra um dos vagabundos lá fora. Daí, ele podia adulterar a máquina pra que ela permita que dinheiro seja extraído dela...-[gesto com dos dedos que simboliza poder monetário]- Tudo que ele quisesse fazer com a máquina, era através de comandos pelo próprio telefone celular...-[semblante de revolta]- Quem quisesse roubar a máquina, teria que ter muito culhão pra fazer isso na mão...Porque iria tomar uma BELA de uma descarga elétrica...-[feição de confiança].

    Os policiais olham para Maria, cada vez mais impressionados com o que esta mostrava saber sobre os pormenores do caso.

[Policial 05]- Mas o dinheiro ainda não foi devolvido...-[sério e desconfiado].

    Maria vira a cabeça suavemente para o lado e posiciona suas mãos, horizontalmente sobre o balcão, em um tom de gozação e feição sorridente:

[Maria H. Cash]- Então parece que um amiguinho furou o olho do outro...-[sorriso de satisfação e cotovelos encostados ao balcão].

    Depois dessa declaração, os policiais se entreolham, ainda mais desconfiados. Ambos voltam-se para Maria Helena.

[Policial 05]- Ótimo. Obrigado pelas informações. -[sério].

[Maria H. Cash]- Não há de quê...-[estica os braços]- Ah...! Tudo que eu quero agora é um banho quente e PAZ...Na minha vida...-[caminha em direção oposta para a porta dos fundos da loja].

    Os policiais seguem para fora da loja de conveniências. 04 policiais se reúnem junto aos dois peritos para analisar a máquina de trocas cambiárias.

[Policial 01]- Nenhum arrombamento...Nenhum estrago...A máquina sequer foi tocada...-[intrigado].

[Policial 03]- Quem a administrava?-[olha para o colega].

[Policial 05]- Segundo a depoente, duas pessoas do Posto de Combustíveis. Um era ADM do sistema, sob aprovação da empresa de segurança que fornece o dinheiro, o outro era de confiança do administrador. Isso tudo me soa muito estranho...-[desconfiado].

[Policial 01]- O fato é que o dinheiro sumiu, e até agora não foi retornado.

[Policial 04]- Não sei vocês, mas acho que essa grana foi desviada...-[sinal de afastamento e desconfiança].

[Policial 01]- É o que saberemos daqui a pouco...-[olha para os lados]- Cadê o outro??

[Policial 05]- Tá com o Magal...Ali no fundo...-[desvia o olhar para o lado esquerdo].

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    Magal e o policial conversam sentados ambos em suas respectivas cadeiras personalizadas do Posto de Combustíveis.

[Magal]- ...-[traga o cigarro]- Amigo, eu não sumi com esse dinheiro, e nem defraudei a máquina...-[negação enquanto fita o policial]- Ele "travou" durante a transação e eu não tenho controle disso...E quanto ao dinheiro vivo, eu nem sequer toquei nessa máquina nos últimos 03 dias...-[encara o policial].

[Policial 02]- Hum...-[só observa atentamente o depoente].

[Magal]- Quem controla se a máquina abre ou não, é o próprio Earl. Então se alguém subtraiu, foi com a permissão dele...Ou ele concedeu permissão de ADM pra outro cara, e não me falou NADA...-[fita o policial, girando o dedo indicador de uma das mãos].

[Policial 02]- Certo...Mas como esse "travamento" aconteceu?-[intrigado].

    Magal joga o cigarro no chão e o apaga com seu sapato. Pegando-o logo em seguida, o descarta em um pote de porcelana destinado a restos de tabaco. O cheio de canela paira pelo ar.

[Magal]- Bug na ferramenta, cara...-[olhando para o chão]- O sistema "trava" às vezes. 

    O policial observa, desconfiado. Magal sabe da desconfiança do homem sobre sua boa-fé.

[Magal]- Olhe...Ele faz três tentativas: -[fita o policial]- se uma der errado, ele a realiza novamente depois de duas horas...-[faz sinal de "dois" com os dedos, com o cotovelo apoiado em seu joelho].

[Policial 01]- Certo...-[acena positivamente].

[Magal]- Quem realiza as transações, na verdade, é a própria ferramenta. Nós só damos os comandos para proteger a máquina. -[feição tranquila]- Olha, pode pegar meu telefone, se quiser, tá tudo aí...-[joga o aparelho em uma mesinha de madeira disposta entre ele e o policial e encosta sobre a cadeira]- Se quiser olhar as câmeras de segurança também...Fique à vontade.

    O policial permanece com olhar desconfiado para Magal.

[Magal]- Quanto aos meninos...-[expressão séria].

    O policial volta a ficar atento a Magal.

[Magal]- Eu NUNCA presenciei ou compactuei com os estupros feitos pelo Earl Cash...Nunca nem soube das denúncias contra ele. Eu sou invisível aqui, Doutor...-[fita o policial, suavemente gesticulando com os dedos].

[Magal]- Apesar de que os problemas dos humanos não são da minha conta, eu NUNCA fui cúmplice de MERDA nenhuma. Se querem me acusar de alguma coisa, que não seja de ser cúmplice de um depravado...-[volta a olhar para frente, não direcionando mais os olhos ao policial].

    O policial observa, sem saber muito o que dizer ou perguntar naquele momento. Seus olhos se direcionam para o lado esquerdo enquanto uma de suas mãos está sob o queixo. Ele apaga o seu cigarro no pote de porcelana. O doce cheiro de canela paira novamente pelo ar.

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    O policial que coletou informações de Magal caminha rumo a seus colegas. para tirarem suas conclusões.

[Policial 01]- E aí? Conseguiu alguma coisa?-[olhar sério e curioso].

[Policial 02]- Consegui o celular do rapaz...-[exibe o aparelho, sob luvas de procedimento, dentro de uma sacola com lacre]-Ele afirma não ter roubado nada...-[desconfiado].

[Policial 05]- E quanto aos outros funcionários?-[sério].

[Policial 01]- A mesma coisa, ninguém sabe nada, ninguém viu nada, ninguém fez nada...-[acende um cigarro, com um semblante irônico de "tanto faz"]- Apesar de um lá atrás -[aponta o polegar]- relatou que o Cash já havia pegado o dinheiro de volta...-[gesto de "vai saber"].

[Policial 05]- Éh...É o caso mais estranho que já vi...-[seriedade].

[Policial 04]- É só isso mesmo? Já podemos sair?-[olha para os colegas].

[Policial 01]- Nenhum de vocês vão perguntar sobre o computador pessoal da vítima?-[exibe um notebook preto lacrado em uma sacola plástica e uma leve ironia em sua face].

[Policial 03]- Onde achou?-[curioso].

[Policial 01]- Na sala privativa dos funcionários...Lá no fundo...-[joga a cabeça para o lado, sob um olhar desconfiado].

    Os policiais acenam positivamente. Um deles até tira os óculos para certificar do que está vendo. Uma porta verde safira com uma placa dizendo "ENTRADA SOMENTE PARA FUNCIONÁRIOS".

[Policial 05]- Como sabe que é dele? -[desconfiado].

[Policial 01]- Logo ao iniciar o Sistema, o nome dele já é exibido na tela, e um dos funcionários lá atrás confirmou que o notebook era dele...Aliás! As gravações de segurança do Posto de Gasolina estão bem aqui...-[exibe o notebook preto].

[Policial 03]- Tem mais alguma coisa que podemos coletar por aqui?-[limpa os óculos].

[Policial 01]- Por hoje é só...-[olha a prancheta de anotações compartilhadas pelos colegas pelo celular]- Alertem todos os Departamentos sobre um rapaz chamado "Vega" com as devidas características dele. Montem em cima...-[aponta o dedo].

[Policial 03]- Ok, chefe.

[Policial 04]- Certo, chefe.

[Policial 05]- Pode deixar, chefe.

[Policial 01]- Eu vou investigar melhor sobre o passado de Earl Cash quando eu voltar ao escritório. Os dois peritos vão espelhar os telefones celulares da depoente Maria Helena Cash e Magal aqui mesmo e entregar para os respectivos donos. -[explica]- O restante dos aparelhos vai vir conosco. Se acharem mais registros em vídeo, interceptem de imediato! -[olhar inquisitivo e dedo apontado enquanto caminha].

[Ambos]- Sim, senhor...!

    Os outros colegas confirmam positivamente e separam-se entre si. Os peritos interceptam os aparelhos portáteis para serem espelhados e preparam suas ferramentas. Aparelhos sofisticados de perícia são colocadas sob uma das mesas do Posto de Combustíveis enquanto os policiais fazem a escolta dos profissionais.

[Policial 04]- Quanto tempo demora o espelhamento? -[curioso].

[Policial 05]- Dez minutos no máximo...Pra dois celulares é bem rápido. -[olha para o colega].

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    Depois de todo o procedimento completo, os celulares são devolvidos a Magal e Maria Helena Cash. Outro veículo aparece próximo ao Posto de Combustíveis DRISCO para ensacolar e recolher o corpo gelado de Earl Cash. Os policiais retornam às viaturas para retornar aos seus postos de trabalho. O homem de longos cabelos vermelho âmbar observa as viaturas se distanciando do local enquanto fica de mãos nos bolsos.

[Magal]- Éh...Parece que o dinheiro da corrupção serviu pra alguma coisa, né chefe...? -[murmura de cara amarrada, acendendo um cigarro].

PORTA DOS FUNDOS. LOJA DE CONVENIÊNCIAS DO POSTO DRISCO COMPANY.

    Maria entra pelos fundos da loja onde somente ela possui acesso e se aproxima de um baú feito de madeira. O ambiente era escuro e só constituía uma única lâmpada que ficava grudada ao teto. nos lados paralelos, instantes cheias de ferramentas do estabelecimento. Maria abre o baú, abre uma grande bolsa vermelha conservada e nota que o saco cheio de dinheiro, pelo qual ela trocou por um rosa para disfarce, estava intacto dentro da bolsa. Outro telefone celular, mais sofisticado e tecnológico, foi encontrado junto a seus pertences camuflados.

[Maria H. Cash]- ...Ora de fazer uma viagem...-[risos arrastados, sorriso genuíno].

    Maria olha para trás e percebe que a porta metálica está bem trancafiada. Esta volta a olhar para o conteúdo do baú. Do seu lado, havia uma grande capa preta e um uniforme masculino.

[Maria H. Cash]- Éh, meu AMOR...-[referindo-se ao morto]- Parece que o jogo "virô"...Rsrsrsrsrs....!-[contorce sua face, em meio a risadas e uma expressão debochada].

    Magal permanece parado na encosta do Posto de Combustíveis, com o cigarro em mãos. O sol brilha sobre seu rosto. O cheiro de canela ainda paira pelo ar...

========>> 9h00 DA MANHÃ. PÉ NA ESTRADA. 80-100KM POR HORA.

    Vega dirige por cerca de 03 horas. Olhando para o horizonte frente ao piso asfáltico, Vega conduz o volante sem rumo, sem respostas, sem nenhuma previsão. Somente a imensidão da estrada desértica, lugar na qual não saberia aonde ir, a não ser dirigir em meio ao sol quente e clima seco. Em algum lugar, ele iria chegar.


            .........."Cat Stevens - Miles from Nowhere".

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