---NOVA YORK. 22H30.BAR TOURO VERMELHO. SEXTA-FEIRA 13----

    O frio gelado e a brandura se unem em uma única noite onde as ruas asfálticas permanecem úmidas e as garoas são impercebíveis. Sopros tornam-se fumaças bem visíveis para aquecer as mãos. Pequenos e finos chuviscos frequentes sem tempo certo para terminarem. Iluminação urbana de cores bem presentes, mas fracas. Mesclavam entre o amarelo, branco, azul, vermelho, até tonalidades híbridas podiam ser vistas em estabelecimentos e construções prediais, de pequeno e médio porte. Alguns passantes aproveitavam o dia de sexta-feira para passar nos bares da cidade. Outros, vagavam sem rumo pelas ruas, entre cigarros de todos os sabores e copos fechados cheios de café e chocolate quente para beber. Apesar de vazios, guarda-chuvas escuros, gorros, luvas e capas de chuvas que abusavam dos tons crepusculares e synthwaves, ainda circulavam pelos bairros ermos. Era lua nova. Apenas um indivíduo não usava vestimentas robustas para um inverno tão gelado. Macacão de gola italiana "mussum black" com detalhes vermelho púrpura e bolsos na cintura e nas pernas. Coturno cano longo preto, de cadarços de mesmo tom avermelhado. De um dos lados, mangas longas com cores em oposição ao restante da vestimenta: o vermelho é o todo, o preto, os detalhes. Luvas finas e pretas. E a maldita mochila rosada nos ombros. Vega perdia o rumo da estrada, mas nunca perdia a mochila por nada, nem o que estivesse dentro dela. A tal mochila, era parte dele.

=========================>> BAR TOURO VERMELHO 1%

    De fachada preta e letras garrafais vermelhas iluminadas, a entrada continha o símbolo de um touro vermelho com um anel nasal, dentro de um triângulo da mesma cor. A atmosfera sombria do lugar atraiu Vega. Fora do estabelecimento, havia na calçada algumas mesas com uma relativa quantidade de consumidores do local. Os olhares de desconfiança e estranheza de homens e mulheres logo se miraram para Vega à medida que este gradualmente adentrava em território alheio. Sequer tinha prestado atenção a uma placa que continha os dizeres "PROIBIDA A ENTRADA DE ESTRANGEIROS". Ou talvez, não tenha ligado para o aviso. Não se sentia nem um pouco intimidado com a advertência. Era evidente que Vega chamava a atenção de pessoas por onde passava, na sua maioria, pessoas comuns. Mas um clima de hostilidade foi se agravando a cada passo que o Transmorfo dava em direção à porta de entrada de madeira com couro de vaca entintado de preto, aliado a uma caveira branca. Esta, era em forma de "saloon", só que um pouco mais comprida e espessa.

.

.

.

    Vega, de forma tímida, entra no bar despretensiosamente e sem nenhuma malícia em seu ato. O Transmorfo gostava de explorar ambientes e ares diferentes. Livre de qualquer julgamento, temor e de rosto sereno, observa os detalhes daquele ambiente que até então, não era permitida a sua estadia. Distraído e fascinado com as estranhas minúcias e beleza daquele bar, o rapaz nem nota o quão estava sendo observado. Os seus frequentadores, que adotavam um estilo típico de motociclistas, lançavam sussurros e encaradas invasivas sobre Vega, momento em o clima de insatisfação começa a se manifestar em muitos visitantes do bar. A silenciosa hostilidade nos olhos dos presentes, refletiam a maneira como tratavam o estabelecimento como se fosse a sua segunda morada. Com vestimentas totalmente diferentes dos outros visitantes, todos os frequentadores eram envolvidos com coletes massivos de couro preto e símbolos de um crânio de um carneiro de chifres contido o numeral "1%", no canto superior direito das roupas. Um dos clientes encarou Vega de forma compenetrada e séria, roçando levemente seus cabelos com uma de suas mãos. O moço afasta a cabeça e se mostra incomodado com o ato, mas tenta abstrair da situação focando em sua admiração pelas pequenas coisas que tornavam aquele mundo fantasticamente charmoso, apesar de um verdadeiro inferno. Gostava de sair pelas noites e madrugadas afora sem rumo, sem compromisso, sem um objetivo. Só passear pelo simples prazer de fazê-lo.

................

    Sem que Vega notasse, vários aparelhos portáteis estavam mirados para o seu rosto afim de fichá-lo. Chegando próximo ao balcão, Vega estava pensando em pedir alguma coisa para beber ou comer, quando um comentário em alto e bom som silencia toda a clientela do bar:

[Cliente 1] — “Tá voltando da Fórmula 1, guri?” —[deboche e ironia].

    Risadas graduais ecoam o bar. Vega percebe que o comentário foi direcionado para ele por causa de suas vestimentas. O homem impertinente segurava a copada de chopp quando o rapaz, visivelmente constrangido, olha para o mesmo desconfiado, sem entender nada:

[Vega] — “Hã?... Desculpe, não entendi... Fórmula o quê...?” — [irritabilidade e desconforto].

    O atendente do balcão, de cabelos longos e barba Fu Manchu, tão intragável quanto o cliente, resolver constranger Vega ainda mais enquanto limpa os copos.

[Atendente] — “Pelo visto você não deve entender nem a língua inglesa, não é não?” — [coloca o copo sobre o balcão e apoia um dos cotovelos sobre a mesa, com feições de arrogância].

    Ao receber a provocação, Vega olha diretamente nos olhos do atendente com ar de raiva e tom desafiador, projetando levemente seus membros superiores para frente.

[Vega] — “Sabe alguma coisa sobre mim, chefe? Eu sei a sua língua muito bem, obrigado.” — [olhar intimidador].

    A plateia, animada com a discórdia, faz pequenos coros vocais de satisfação com a rivalidade. O homem joga o pano no balcão de forma enérgica e responde rispidamente:

[Atendente] — “Só sei que Americano você não é!” — [raiva] — “E se você leu o aviso lá fora,” —  [aponta o dedo para a porta] — “estrangeiros não são bem-vindos aqui...” — [contrai os lábios para baixo e arregala os olhos].

[Vega] — “Ah, é?” — [sorri com os olhos saltados de raiva] — “Com base em quê você acha que pode chutar estrangeiros daqui?” — [mostra raiva em seu rosto]. 

[Atendente] — “Nosso país, nossas regras...!” — [vira a cabeça de um lado para o outro] — “Não é assim que funciona na sua Terra? Por que não volta pra lá?” — [aponta o dedo de forma autoritária na direção oposta à Vega e olha fixamente para o Transmorfo]. 

    Vega, virando o rosto para o canto e exibindo expressão de puro tédio, dá um leve sorriso irônico e uma pequena revirada de olhos enquanto se prepara por alguns segundos antes de responder. Os presentes permanecem em silêncio absoluto.

[Vega] — “...Porque eu sou livre pra andar onde eu quiser andar e eu estou PAGANDO pra isso...” — [responde de forma desaforada e em tom controlado, enquanto aproxima o rosto para próximo do atendente].

 A plateia faz um coro em voz alta, como se tivesse havido um nocaute naquele momento constrangedor, mas de deleite para os presentes. Ao testemunharem a ousadia do rapaz, os espectadores do conflito logo transformam a rejeição coletiva destilada ao “invasor” em torcida organizada apoiando pela briga. Ato contínuo, a gota d’água começou a partir dali.

..................................................

[Espectadores] — “OOOOOOOUUUUUUHHHHH...!!!” — [K.O].

..................................................

Em meio ao escândalo da plateia, um homem alto, atlético e tatuado com mensagens de cunho nazista, se levanta de uma mesa bem do lado do balcão e vai em direção à Vega enquanto dirige a palavra a ele:

[Homem 2] — “Oh... coisa linda, tá vendo aquele símbolo lá em cima?!”

O homem fica bem próximo de Vega enquanto o chama com os dois dedos de uma das mãos e aponta o dedo para a plataforma no teto sob pose de intimidação.

    Vega olha para o símbolo do crânio de um carneiro de chifres com o numeral 1% dentro de um grande triângulo, mas fica tão surpreendido quanto seria com o tamanho de uma formiga.

[Vega] — “Sim, eu sei bem quem vocês são... não sou idiota...” —  [mostra desprezo e raiva].

[Homem 2] — “Então se você não é idiota e sabe o que isso significa, mete o pé pra fora daqui, boneca...” — [aponta o dedo indicador para o teto em tom ameaçador e olhar fixo].

[Vega] — “Que eu saiba eu não tenho obrigação nenhuma de obedecer...” — [mostra desprezo em tom de voz desafiadora enquanto se mantém encarando o homem de braços cruzados].

    Outros dois frequentadores se levantam para encurralar Vega e mostrar intimidação. Um deles grisalho, de olhos claros,  barba cerrada, badana na cabeça e de estatura média, mas robusto e de rosto forte e largo como os dentes. O outro, de cabelos longos e ondulados, alto e de barba cavanhaque. O atendente e mais três homens se juntam para desafiar Vega a sair do estabelecimento.

[Homem Grisalho] — “...” — [estrala os dedos das mãos cerradas] — “Vai sair daqui por bem ou por mal?” — [olhar ameaçador].

    O corpo de Vega começa a superaquecer a perto de 200ºC a ponto de expelir fumaça, e a íris de seus olhos começam apresentar um alto brilho em decorrência de seu ódio. O corpo do transmorfo começa a ficar pesado como uma enorme massa de chumbo. Extensões de ossos em formatos de bisturis com corte de alta precisão começam a se formar nos trapézios de suas mãos. Os 04 homens começam a paralisar e a prestar atenção no estranho fenômeno que acabaram de presenciar:

[Vega] — “Encostem um fio de cabelo em mim e eu arranco os braços de todos vocês...” — [fumaça pelo dedo].

O moço aponta o dedo superaquecido como ferro quente para seus agressores enquanto caminha em direção aos quatro amadores sob ódio em sua face. Os seus agressores, acabam cedendo passos para trás intimidados. Dois deles acabam sentando-se nas cadeiras que estavam logo atrás, e os espectadores ficam atônitos. Vega fica parado enquanto encara fixamente os nazistas.

[Vega] — “Vocês estão lidando com um SH, não com um de seus lêmures. Eu vou aonde eu quiser e quando EU quiser...!” — [a íris de seus olhos brilham com mais força enquanto olha fixamente para o homem que o ameaçou de batê-lo].

    A voz de Vega é firme e consegue transmitir toda a sua revolta e insatisfação com a rejeição gratuita de sua presença. Os seus agressores então percebem que sacar suas armas de fogo seriam inúteis contra o rapaz. Um dos homens ri de sua cara:

[Homem Grisalho] — “Rss... ha, hah ...” —  [risos] — “Então você é um SH?” — [diz com um grande sorriso no rosto ao apontar sutilmente o dedo indicador para Vega].

[Vega] — “Sim, por quê...?” — [responde altivo].

    Calmamente, o homem grisalho esfrega suas mãos uma na outra e adota uma postura relaxada na cadeira. De olhos fechados e com um tranquilo sorriso em sua face, mira a visão gradualmente para trás enquanto Vega o encara:

[Homem Grisalho] — “Ah... Thelonius?” — [sua voz é suave e controlada enquanto olha para um membro do bar].

    O carrasco, até então escondido nas sombras das escadarias, apresenta-se perante todos os convidados do bar, em silêncio. O guarda-costas fita seriamente o homem enquanto espera pela sua confirmação. O grisalho então balança a cabeça positivamente com um único movimento para sinalizar permissão para interferir. O homem desconhecido, caminha silenciosamente até Veja, o encarando de frente.

Com seus impressionantes 2,10 metros de pura musculatura e simetria, e Vega, um lindo "frasquinho" de 1,74 metro de estatura, podia-se notar a aparente disparidade de poder entre os dois. Vega não pareceu nem um pouco intimidado. O carrasco o vislumbra com um sorriso de menosprezo. Olhos verdes bem claros, mas de alto contraste. Cabelos louros quase platinados, bem cheios e espetados em linha reta, ao estilo punk. Uma tatuagem de uma caveira azul clara no lado de seu espesso braço. Vestimentas verde militar, colar de mesmo tema e coturno tratorado preto. Os espectadores somente observam.

[Thelonius] — “Prefere que eu te arranque pelo pescoço ou pelo cabelo...?” — [olhar sério, mas sereno].

[Vega] — “Que tal uma queda de braço?... Ou então me leva pro Motel. Daí você pode arrancar meu cabelo à vontade...” — [sorri, em expressão irônica descontraída].

    Risos da plateia. Olhar de tacho dos agressores. Pessoas curiosas espiando da porta do bar. Apostas online. Olhar de satisfação e deboche de Thelonius. Este acaba deixando escapar uma leve risada pela piada de Vega.

[Thelonius] — “Você quer brincar de ver quem torce o braço de quem primeiro? Faz o seguinte, eu quebro o seu e depois arranco sua cabeça fora.” — [leve sorriso sádico].

    O silêncio lúgubre e assustador se mescla a uma atmosfera de medo entre os presentes.

[Vega] — “Por que quer se dar o trabalho de me decapitar?” — [mão na bochecha e braço apoiado noutro] — “Não vão usar nenhuma das suas armas pra me deteriorar?” — [desprezo, serenidade e deboche].

    Thelonius se agacha de frente à Vega e acaricia suavemente o seu queixo:

[Thelonius] — “...Seria fácil demais te matar... eu quero fazer isso bem devagar...” — [olhar sereno, sério e sádico].

[Vega] — [olhar de desprezo e raiva] — “Ah, que delícia...” — [irônico, de voz aveludada].

    Dentre as expressões das pessoas do local, estas demonstravam desde espanto, receio, medo, preocupação, curiosidade, e até excitação. Alguns presentes se esconderam nas sombras. Outros apagaram o cigarro. Alguns pararam de beber e outras filmavam a cena em tempo real pelos seus aparelhos telefônicos. Mas a maioria estava se divertindo silenciosamente com o confronto. Thelonius ecoava morte por onde passava. No entanto, não gostava de caminhos fáceis. Ele gostava de ser cruel e trabalhava apostando pela dor. Nunca em todas as competições em que fora chamado, Thelonius perdeu.

Thelonius se ergue novamente e continua atiçando Vega:

[Thelonius] — “O palito de dente quer declarar alguma coisa antes de morrer?” — [torce o punho das mãos].

[Vega] — “Bom, que tal fazermos assim... T h e l o n i u s...” — [levanta as duas mãos e faz um sinal de aspas com os dois primeiros dedos] — “Faça uma queda de braço comigo se você tiver colhão. Se eu vencer, eu saio daqui vivo e com 5000 dólares no bolso. Se eu perder, você faz o que quiser comigo...” — [exibe feição desafiadora e debochada].

[Thelonius] — “...Fechado...” — [olhar sereno, mas de menosprezo].

...............................................

[Espectadores] — “UHUUUUULLLL........!” — [animosidade entre os membros do bar].

................................................

    A plateia mostra-se entretida com o confronto. Ânimos ficam acirrados. Todos os presentes começam a fazer apostas online. Todas as fichas estavam favoráveis para Thelonius. O homem grisalho sorri de satisfação com um charuto aceso em suas mãos. Uma mesa de madeira coberta com couro de vaca e entintado de preto, é ajeitada para os competidores. Cadeiras maciças são colocadas em suas devidas posições. Vega coloca sua mochila na cadeira do meio. Ambos se sentam e colocam seus cotovelos bem-posicionados à mesa. Mãos se apertam firmemente uma à outra e ambos os olhares se rivalizam entre si. Todo o conflito se transforma em um verdadeiro espetáculo. Os dois competidores trocam algumas palavras entre si momentos antes de iniciar a partida.

[Vega] — “Você é um SH, sabe que isso aqui é ridículo...” — [referindo-se ao bar nazista].

[Thelonius] — “Diga isso para os seus... mantenha a sua boca fechada.” — [dirige-se à Vega].

    Os olhares continuam fixos um ao outro. Nenhum dos dois sequer piscavam. Uma árbitra cheia de ornamentos, cabelos pretos e curtos e maquiagem escura, se posiciona entre os dois para demarcar o início da disputa. Com longas botas de salto alto, saia gótica e espartilho, a moça ergue uma de suas mãos de unhas compridas e pretas.

[Árbitra] — “Preparados...?” — [olha para Vega e Thelonius].

    Ambos os rivais não tiram um minuto dos olhos um do outro e suas mãos estão extremamente coladas e cimentadas uma à outra.

[Árbitra] — “Muito bem ... o jogo começa em 3...2....1!!” — [joga rapidamente seu braço para sinalizar a "largada"].

    Thelonius coloca toda sua força com o intuito de deslocar de vez o braço de Vega. Veias de seu braço quase saltam para fora e suor se espalha pelo seu rosto, já vermelho como um pimentão. Seu braço fica trêmulo à medida que coloca a todo o esforço para movê-lo na direção na direção oposta de Vega. De olhos fechados e confiante de sua vitória, Thelonius aplica ainda mais força bruta em seu braço e mão, o que reflete na maior parte de seu corpo. O empreendimento era muito maior do que fazia de costume para derrotar seus oponentes. Quando passou 15 segundos, Thelonius passou a desconfiar de que tinha algo de errado naquela disputa.

.

.

.

[Vega] — [semblante monótono].

    O braço de Vega não havia movido um único milímetro do lugar. Sequer fazia muita força para manter o braço posicionado. A sua mão não movia um único fio do lugar. Se mantinha pleno e com expressão de tédio enquanto olhava para Thelonius, que investa até o que não tinha para mover uma faísca do braço do Transmorfo. O ódio foi tomando conta de Thelonius:

[Thelonius] — "...MEEEEERRDAAAAA...” — [ódio em sua face].

[Vega] — “Tá tudo bem aí, chefe?” — [pergunta em tom de deboche e feição irônica].

    Thelonius exibe feições de incredulidade mesclado a ódio. Seus olhos arregalam e seus lábios se contraem em pura ira à medida em que observa Vega não expressar uma única gota de desconforto ou cansaço. A frequência cardíaca podia ser vista pulsando de seu pescoço, cheio de veias e suor que exalava de seu corpo. Apesar das intensas provocações e torcida acirrada por Thelonius, a plateia estava começando a exibir feições de derrota. O homem grisalho exibe expressão de paisagem enquanto o charuto lentamente cai de seus dedos. Vega começa a bocejar. 

[Thelonius] — “AAAAAAAAHHHHH, FILHA DA PUTA!!!” — [grita de raiva enquanto bate na mesa de madeira maciça, e a parte literalmente ao meio como um pedaço de isopor].

B L U M ! ! ! !---

    O bar se silencia. Vega olha para baixo e verifica o estrago feito pelo Thelonius e o observa com expressão de pena irônica:

[Vega] — “Ué, já quebrou a mesa...? Achei que queria quebrar meu braço...” — [ironia no olhar enquanto ligeiramente vira a cabeça para o lado].

[Thelonius] — “...Dzzh...!...DESGRAÇAAAADOOOOO...!!  — [a ira do homem se acentua ainda mais em sua face].

    Mesmo sem a mesa, Vega mantinha o ritmo como se tivesse algo sustentando o seu braço, totalmente imóvel e paralisado. O suor pingava aos montes no piso do bar. Thelonius não tinha a derrota como opção. Ambos Vega e Thelonius estavam posicionados às cadeiras de forma que seus corpos fossem projetados à frente e seus rostos próximos um ao outro, com os seus respectivos olhos, também fixados um ao outro. O ódio de Thelonius abriu espaço para um sorriso misturado à raiva de Vega, que lentamente consegue torcer a mão e o braço do rival. Os olhos de Thelonius se arregalam e sua feição transforma-se em espanto.

[Thelonius] — “AHH!!! CHEGA, PORRA...!!” — [joga o braço de Vega para trás, quase o derrubando da cadeira].

    A vergonha era tanta que Thelonius imediatamente desiste de finalizar a queda de braço, gerando um enorme silêncio constrangedor no bar. De cara amarrada, o SH se levanta de forma brusca da cadeira, arranca uma mesa de madeira no fundo do salão e a coloca entre ele e   Vega, sacando um maço de dinheiro vivo de sua carteira dentro do bolso e jogando na cara do rapaz, que se esvai em um misto de constrangimento e irritabilidade à medida que o papel-moeda desliza de seu rosto e cai em cima da mesa, já rachada devido ao impacto. Alguns sussurros ecoam o estabelecimento e olhares de espanto são exibidos diante da situação vexatória.

[Thelonius] — “Pega essa BOSTA e dê logo um fora daqui...” — [insatisfeito e aborrecido].

    Vega expressa desapontamento e constrangimento pelo modo de como Thelonius se dirige a ele:

[Vega] — “Uau... isso foi bem rude da sua parte...” — [semblante triste, pega o dinheiro da mesa e o guarda] — “Pelo visto alguém aqui não sabe perder...” — [decepção].

Thelonius esfrega sua mão em seu rosto suado, respira fundo, e calmamente pega a cadeira e a coloca virada para trás, sentando-se apoiado sobre o seu encosto, de braços cruzados. O homem olha com uma expressão serena, mas firme para Vega. O Transmorfo o encara com seriedade. O bar se mantém em completo silêncio:

[Thelonius] — “Sabe, garoto... eu tenho que admitir que você me impressionou com a sua força.” — [seca a testa com um pano] — “Mas infelizmente você ainda é um rapaz muito ingênuo.” — [fita Vega de forma séria, que mantém seu olhar fechado] — “Não adianta pensar que vai conseguir entrar na marra em um lugar onde ninguém quer você. Só a sua força não vai ajudá-lo a se sentir preenchido. Por mais livre que você seja, pelo mesmo motivo que o meu,” — [aponta para si mesmo] — “quase nenhum lugar aceita nossa presença, e mesmo que estejamos onde queremos,” — [bate suas mãos paralelamente uma contra a outra para frente e para trás] — “ninguém vai querer interagir conosco...” — [expressão de desprezo].

    Vega mantém seu olhar para baixo, demonstrando decepção e um ar triste em seu rosto.

[Thelonius] — “...Portanto, se quiser ser bem-quisto aqui, ou em toda a América do Norte...” — [dedo indicador para baixo, enfatizando] — “você terá que obter sua cidadania oficial por aqui.” — [fixa o olhar em Vega]

    Vega continua em silêncio, e só balança a cabeça positivamente, com o olhar direcionado para baixo.

[Thelonius] — “Você tem um dono, não tem?... Alguém que te resguarda e "cuida" de você, não tem?” — [aspas com os dedos].

[Vega] — “...Tenho...” — [voz tímida e triste].

[Thelonius] — “Então nos faça um favor... vá pra casa e procure sua turma. Até lá,” — [pega a mochila de Vega e a coloca em sua frente] — “seja um americano...” — [posiciona as mãos com as palmas viradas para cima]. 

    Vega balança a cabeça positivamente, visivelmente desapontado e constrangido com o que tinha escutado de seu rival. Antes que o Transmorfo pudesse pegar sua mochila, um cliente, escondido no canto mais escuro do bar, empunhava um revólver antimatéria em suas mãos com o intuito de atirar em Vega. O SH percebe a investida:

[Thelonius] — “Oh IDIOTA, o máximo que você vai conseguir fazer ao tentar acertar o frasquinho aqui na frente é derreter as pessoas desse bar!” — [aponta o polegar para Vega] — “GUARDE essa arma, cacete...!” — [dispara Thelonius contra o cliente imprudente, que guarda o revólver a contragosto].

    Vega, posicionado com uma de suas mãos no bolso em decorrência da ameaça, por pouco se livra do que sabe Deus o que iria enfrentar se recebesse o disparo. Pouco antes de partir, o rapaz ainda faz alguns questionamentos para o rival.

[Vega] — “que estranho, você anda armado... por que não me matou quando teve chance?” — [voz contida e olhar letal].

[Thelonius] — [leve riso] — “...Além de ingênuo, você não se conhece, rapaz...”

[Vega] — “Eu não viria aqui se não me conhecesse...” — [feição de desprezo].

[Thelonius] — “Veio... mas ainda não se conhece...” — [balança ligeiramente a cabeça de forma negativa].

    Veja, de olhar desconfiado e confuso, cerra os lábios e franze as sobrancelhas.

[Thelonius] — “Acha mesmo que alguém como você seria criado pra ser vulnerável a isso aqui?” — [saca um revólver antimatéria enquanto expressa feição de desprezo].

[Vega] — “E como você tem certeza disso...?” — [desconfiado].

[Thelonius] — “Porque você não é um SH. Você é um Transmorfo PURO.” — [olhar fixo para Vega] — “E um Transmorfo, filho, não morre com essa porcaria...” — [olhar de desprezo e ironia].

    Vega fica pensativo e intrigado com a afirmação.

[Thelonius] — “E se você anda armado, já que está com a mão na cintura” — [aponta para o bolso de Vega] — “é porque no fundo ainda tem medo de morrer. Por isso você não se conhece... não sabe o seu potencial.” — [olha impressionado para Vega].

    Vega suspira e permanece com seu olhar fixo para Thelonius.

[Thelonius] — “Além disso, eu precisava confirmar isso com minhas próprias mãos.” — [olha para uma de suas mãos] — “Pelo visto, já foi provado que minha força não é nada perto da sua... Sendo assim, vá em paz, amigo.” — [joga levemente um dos braços de baixo para cima, em posição reta, para sinalizar permissão para sair].

    Vega se levanta e coloca sua mochila nas costas, partindo em retirada do bar.

[Thelonius] — “Ah, e mais uma coisa...”

    Vega para e se vira para o SH.

[Thelonius] — “Quando for usar um revólver, coloque ele na frente, não atrás...” — [faz uma simulação de empunhamento de arma, com feição de ironia].

[Vega] — “Certo... Obrigado pela dica, frangote...” — [olhar de desprezo].

    Thelonius ri de forma arrastada para Vega. O homem grisalho, ainda incrédulo com as cenas que presenciou, pergunta ao Transmorfo:

[Homem Grisalho] — “Hey...! como é que sua roupa não queimou...?” — [intrigado].

[Vega] — “Elas são feitas à prova de fogo...” — [responde, indiferente].

    Vega sai em direção à porta do estabelecimento para ir embora do local. O cliente que havia roçado os cabelos de Vega, coloca sua cabeça atrás da cadeira com os braços estendidos para Veja, de tão bêbado:

[Cliente] — “Aí...! Me dá seu telefone...!” — [feições de satisfação] — “Eu te aceito do jeito que você é...!” — [bêbado e letárgico].

    Vega empurra as portas do bar e sai a passos calmos do local, voltando a ter a noite fria e chuvosa como sua companhia. Ainda no asfalto escuro e molhado, o moço olha para trás com um ar de decepção, tristeza e desapontamento que a fala de seu rival havia lhe gerado, já que no final das contas, apesar de vitorioso, ainda saiu perdendo. Ele se vira novamente para caminhar por longas horas sem nenhum rumo certo para onde ir, a passos lentos...

 

            ...."Devil May Cry (Anime)OST- Track 15"

 


Comments