----DESEMBARQUE. NEVADA. MADRUGADA DE 15 DE JULHO EM DIANTE. ANO DE 8850. CAMINHADA. PRIMEIROS DIAS EM NOVA YORK.PARTE #2-----

----DESEMBARQUE. NEVADA. MADRUGADA DE 15 DE JULHO EM DIANTE. ANO DE 8850. CAMINHADA. PRIMEIROS DIAS EM NOVA YORK.PARTE #2-----

     Silêncio. Escuridão. 80km por hora. 05h da manhã. A única luz pequena azulada, vinha de uma Smartrádio que iluminava o ambiente de forma fraca. O volume da rádio estava baixa e só transmitia notícias com sons quase estáticos. O caminhão era "pomposo", luxuoso, cheio de partes constituídas por "fachadas" de vidro com letras dinâmicas compostas de luzes neon amarelo, todas com propagandas de ferramentas de construção, anúncio de carnes, mercearia e clubes de prostituição, todos com os seus próprios preços. Sua direção era leve, e suas rodas, iluminadas paralelamente como se fosse "fios azuis" que piscavam de forma lenta. Na sua traseira, uma marca gigante do nome da empresa transportadora: "DRISCO". Também composto por letras animadas e piscantes vermelhas. 

O veículo parecia uma árvore de natal. Especialmente embaixo de sua suspensão, uma luz verde permanecia acesa por 24 horas. De forma estratégica, atrás dos bancos de passageiros, havia uma passagem atrás de uma cortina vermelha aveludada que dava partida direta para a entrada na carga do veículo, facilitando a fuga. Uma passagem entre uma cabine e a era de carga envolvida por uma espécie de "capa" flexível, mas firme como velcro nas extremidades. Uma cabine, aliás, era luxuosa. Parecia um micro estúdio. Os bancos, macios e caramelados. O volante, era composto por uma "vestimenta" de couro de vaca de duas cores e algumas pelagens brancas. Além da Smartrádio, tinha um grande painel com comandos que mais parecia a de uma aeronave militar. Os cintos de segurança não deixavam a desejar.

    Vega, até o momento, permanecia calmo, levemente encostado à janela do caminhão com uma de suas mãos em seu rosto, mas relaxado, apreciando a passagem das estradas. O motorista, por mais de três vezes, fita Vega de forma indecorosa sem que o mesmo percebesse. Estava tão distraído que mal podia prestar atenção na situação que acabara de se meter. Foi então que pelo reflexo da janela blindada do caminhão, Vega notou o olhar fixado do motorista para ele. Era um olhar perverso, de quem mais se assemelhava a um predador. Misturava desprezo e satisfação em seu semblante. Sem cerimônias, Vega se vira de volta ao condutor do veículo e manifesta estranheza em sua face:

[Vega]- ... Hum ...? - [olha desconfiado].

[Motorista]- Vai querer alguma coisa, filho? - [muda o semblante para indiferença].

    Vega se acalma um pouco e encosta-se ao banco:

[Vega] - Ehm .... Teria um copo d'água ...? - pergunta com um olhar tímido e alerta].

    O motorista saca de um mini frigobar na parte lateral do seu banco com um botão e pega uma garrafa d'água para Vega.

[Vega]- ...Valeu...- [diz enquanto faz seu primeiro gole].

[Motorista]- Bebe muita água? - [olhando para a estrada].

[Vega]- Muita...- [acena positivamente com um sorriso de canto, olhando para o condutor].

[Motorista]- Hum...Curte leite, filho? - [olhar devasso para Vega]

Vega quase engasga com sua água e olha espantado para o motorista:

[Motorista]- Thumrsssshum, hum, hum ....- [leve risada nasal e um sorriso espontâneo] - Tô só perguntando...- [Olha para a estrada].

    Vega sente um clima estranho envolvendo o motor e tenta desviar a atenção do mesmo para a Smartrádio:

[Vega]-... Será que...O Senhor teria como colocar uma música pra escutar ...? -[pergunta timidamente, encostado no banco].

    O condutor direciona seu dedo polegar para um botão no volante que muda na estação de rádio. O mesmo direcionou a ferramenta para uma rádio de músicas estranhas. Músicas de uma estação que parecia ser totalmente dedicada ao erotismo. Vega olha estranho e envergonhado. Percebendo que sua tática havia falhado, o motorista, olhando para Vega com um ar de "Não gostou?", muda novamente a estação de rádio para uma de temas Country e Jazz. Passado o constrangimento, Vega se acalma e encosta ao banco para descansar.

......................................

    Longos e tensos 12 minutos se passam imediatamente. Apesar do clima hostil, as músicas ainda acalantavam Vega, que permanecia estático olhando para a estrada. Ironicamente, uma canção aconchegante e amigável tocava em um ritmo lento para compensar a atmosfera de tensão.

.......................”Johnny Cash - You are my Sunshine Original”

    Uma mudez amedrontadora para aquele ambiente incômodo, e o motorista, nesse meio tempo, já havia lançado uns 10 olhares, de cima para baixo, direcionados à Vega. O homem não tirava por um minuto os olhos do Transmorfo. O mesmo parecia se roçar ao banco como se quisesse demonstrar uma ansiedade, e ao mesmo tempo, preparado. Vega tinha mais medo do que poderia ser obrigado a fazer que com o que poderia fazer a ele. Era um mundo injusto e impiedoso, e Vega sabia que poderia sofrer consequências permanentes de seus atos.

    Vega, aos poucos, começa a demonstrar um gradual incômodo com aqueles olhares do condutor. O mesmo tenta se concentrar nas músicas da Smartrádio, mas ao mesmo tempo, se sente constantemente invadido e pouco relaxado. Para alguém como Vega, essa situação poderia ser facilmente solucionada do jeito que aprendeu em Vandora. Um bom e velho modo "Old School". Mas além de estar lidando com pessoas as quais poderia destroçar ao menor esforço, poderia inclusive enfrentar problemas para retornar à sua Terra Natal. Vega então tenta resolver o problema por ali mesmo:

[Vega]- Será que você poderia me deixar aqui mesmo, moço? -[pergunta exausto, olhando para o condutor].

[Motorista]- Ué, mas a gente nem chegou...! -[expressa espanto]- Além disso, tem o dinheiro pra você trocar...-[olha para a mochila rosa choque de Vega, logo embaixo de seus pés, num compartimento especial para bolsas e garrafas].

    O motorista olha desconfiado para Vega, quase aborrecido:

[Vega]- Ah, sim, desculpe...! -[coloca as mãos no rosto, irritado e ao mesmo tempo desconcertado]-...Vou esperar o próximo posto de combustíveis onde houver troca cambiária, aí eu te pago....Pode ser...?-[olha desconfiado para o condutor, mas com a mesma expressão de tédio].

[Motorista]-.....Pode ser...-[demonstra estar decepcionado, com uma expressão apática enquanto gira levemente a cabeça para o lado ao responder Vega].

    Os dois permanecem calados por mais algum tempo. O condutor permanece em silêncio, olhando para a estrada. Vega, numa expressão de tédio e cansaço, apoia um dos braços em outro enquanto encostava sua mão em seu rosto e mantinha uma postura desleixada no banco do passageiro. Sem querer, as suas roupas evidenciavam detalhes de seu corpo, suas minúcias, suas curvas, sua sensualidade acidentalmente expostas. Era um pijama, com uma camiseta de botões e um short meia coxa, um estilo vintage, já "ultrapassado" ou "inadequado" para a época daquele planeta. O tecido era fino e elegante, e seu material, não era confeccionado em qualquer lugar que não fosse em BIOTH. Vega era belíssimo da cabeça aos pés e qualquer ser humano que o visse, poderia despertar, na sua maioria das vezes, os sentimentos de ódio ou paixão intensos. O motorista, percebendo aquilo, voltou a olhar para Vega enquanto parecia "ajeitar" sua calça jeans, como se estivesse disfarçadamente arrumando o seu cinto.

    Vega olha para cima com um ar de arrependimento e percebe a quão ridícula era a situação que havia se metido. O Transmorfo resolve se virar novamente para o condutor, e de forma direta lhe pergunta:

[Vega]- [suspira e revira levemente os olhos] - ...Tá precisando de alguma ajuda?...Quer que eu dirija? - [dá um sorriso irônico e debochado enquanto projeta seu rosto para frente].

    O motorista dá um sorriso lascivo e dispara para Vega:

[Motorista]- Na verdade, eu quero sim...Só que não é pra dirigir...- [apoia uma de suas mãos na sua perna enquanto a outra fica no volante e mantém o sorriso indiscreto].

[Vega]-...Então eu nem vou querer ouvir o resto...! - [cruza os braços e se volta para o banco com uma expressão de espanto e deboche ao mesmo tempo].

    O motorista ri de Vega de forma arrastada e nasal, enquanto sorri de maneira genuína e alegre. Veja olha entediado e emburrado para o mesmo.

[Motorista]- Você é de onde? - [não disfarça seu olhar invasivo].

    Vega, com um semblante de desprezo, responde olhando para ele:

[Vega]- De outro planeta.... - [olhar com o mais profundo tédio e desprezo].

[Motorista]- Hááhrrsss...!!!...Ha, ha, ha, ha, ha, ha, háááhh...! - [ri de deboche e satisfação].

    Vega fica constrangido com uma risada de deboche e expressa um semblante um pouco amedrontado.

[Motorista]- Ai, ai ...- [limpa seu olho depois de chorar de rir] -...Mas é sério, filho, você vem de qual região? - [retoma a seriedade, projetando seu rosto para frente para inquirir Vega].

[Vega]-... Nevada...- [diz com um ar de timidez e um olhar em estado de alerta].

[Motorista]- Nevada?...- [checa Vega] - Você parece bem diferente do povo daqui...- [desconfia]

    Vega começa a apresentar uma postura de tensão e coloca suas pernas para o lado oposto ao que fica mais recostado à janela do veículo. Este, ainda tinha uma arma de fogo escondida debaixo de seu pijama. O Transmorfo pode sentir à anos-luz as intenções de alguém. E Vega tinha receio de revelar sua origem para o homem, então inventa outra desculpa:

[Vega]- É que meus pais são de fora....E eu me mudei pra cá... - [lábios cerrados, olhar desconfiado].

    O homem percebe a insegurança de Vega e começa a fazer uma expressão amistosa, um sorriso que transparecia sua sensação de estar sob o controle de Vega. O mesmo tenta lançar uma conversa fora do bom senso:

[Motorista]- ...Humpf...! Deve ser de outro planeta mesmo... Bonito do jeito que é ...- [volta a olhar para a estrada e dá uma breve lançada rápida de olhar para Vega].

    Vega permanece calado e constrangido, olhando para o lado com seu rosto virado para a estrada.

[Motorista]- Me fala aí, coisa linda ... Você tem um nome? - [começa a palitar os dentes].

[Vega]- O meu nome é Vega...E não é "coisa linda"...- [sorri ironicamente, com um ar de desprezo].

[Motorista]- Aaaahhhhrrrssss....Rsrsrhah, ha, ha, haaaaaaah ...!! -[explode em risos] - Pô, moleque, tu é muito amolado! Relaxa um pouco...

    Vega encosta no banco acolchoado do veículo, e já cansado daquele constrangimento, resolver fazer o jogo do motorista:

[Vega]-... E o seu? - [olha para o condutor].

[Motorista] -... Eu o quê? O meu nome? ...- [aponta para ele mesmo enquanto dirige o caminhão].

[Vega]- Uhum...- [acena positivamente].

[Motorista]- Earl...Earl Cash. Prazer...! - [estende uma das mãos para cumprimentar Vega, com um sorrisão no rosto, enquanto dirige].

    Vega timidamente aceita o cumprimento e dá um aperto de mãos leve e devagar enquanto transmite um olhar de desconfiança:

[Vega]- ...Prazer...- [olhar tenso e preocupado].

[Earl Cash] - ....Tá solteiro, Vega? - [olhar maledicente].

[Vega]-.... O quê ...? Eu... Solteiro? - [Vega fica confuso].

[Earl Cash] - Éh, pô... Tá sozinho? Tem namorado, namorada...? - [gesticula e mostra semblante irônico de curiosidade].

[Vega]- Eu...No momento eu tô sozinho...- [respira fundo, desconfortável, olhando para estrada, em seguida para Earl].

[Earl Cash] - Poxa, eu também tô...! - [olhar irônico e debochado].

[Vega]- ....Legaaal...- [tensão e em estado de ansiedade enquanto balança a cabeça positivamente].

[Earl Cash] - Aí, Vega...Topa um licor, um vinhozinho...? - Abre um recipiente similar a um “cooler” entre os dois bancos onde guarda as bebidas em miniatura, as mantendo geladas. Vega olha atentamente para as bebidas ao lado de seu assento e dá uma bela respiração de tensão por saber que o homem que está ao seu lado, não tinha resistência a drogas.

    Earl pegou uma garrafa maior, um conhaque alemão com 17% de teor alcóolico, e virou goela abaixo como se fosse água mineral. Vega olha estarrecido com aquilo.

[Earl Cash] - ...Quer um pouco? - [pergunta o homem, estendendo a garrafa diretamente para o rosto de Vega].

[Vega]- Não, obrigado...- [responde Vega, com uma expressão indiferente].

    O homem volta a ingerir aos goles a garrafa de conhaque enquanto Veja expressa desprezo em sua face. Percebendo que provavelmente teria que aguentar mais duas horas de estrada, procurou por alguma bebida no cooler que lhe teria serventia. Dentre estas, estava uma pequena garrafa de Vinho do Porto. Percebendo que precisava manter seu corpo bem nutrido, abriu a pequena garrafa e a tomou por inteiro. As propriedades do vinho serviriam para alimentar Vega. O álcool, nem sequer o afetava. O motorista começa a se mostrar empolgado quando nota Vega a beber:

[Earl Cash]- Olha só....Quem diria, hein? Pra quem tava todo travado.... -[dá um sorriso impressionado, cheio de deboche].

    Vega olha com desprezo para Earl enquanto finaliza o vinho. Em silêncio, Vega saca mais uma garrafa, só que dessa vez, de um Champagne nobre, e a bebe também por inteiro.

[Earl Cash]- Tá tentando acabar com as minhas garrafas, menino?! –[pergunta num tom aborrecido e entorpecido].

    Vega finaliza o Champagne e coloca a duas garrafas em um recipiente de descarte, logo atrás do cooler. Este estava decidido a acabar com as bebidas alcóolicas daquele caminhão para que não restasse mais nenhuma delas para o motorista assediador.

    O homem, num impulso de irritabilidade, fecha rapidamente o cooler e o tranca apenas com a sua digital, fazendo com que Vega não tivesse mais acesso às bebidas. Por sinal, restou apenas uma única Vodka, de tamanho mediano. Este, com um sinal de negação com o dedo indicador, diz à Vega:

[Earl Cash]- Hum Hum....! Chega de beber, garoto...-[mostra uma expressão de censura].

[Vega]- Posso fazer isso o dia todo... - [sorriso desafiador].

    Bebendo mais um gole do conhaque, o motorista pergunta intrigado:

[Earl Cash]- Aonde aprendeu a beber desse jeito...? –[pergunta projetando imperativamente a cabeça de baixo para cima].

[Vega]-...Sozinho...-[responde com desprezo].

[Earl Cash]- Nunca passou mal com isso? –[hipocritamente, bebe mais um gole com uma expressão incrédulo].

[Vega]- Não...Eu aguento bem o tranco...-[expressa “mitidez” e indiferença enquanto mantém seu rosto erguido].

[Earl Cash]- Rrsssss....Aguenta o tranco, éh?-[sorri, genuinamente bêbado]

[Vega]-...Só quando eu quero....-[exibe seu olhar de desprezo diretamente para o motorista enquanto permanece de braços cruzados].

[Earl Cash]- Éahh?...-[diz com a voz aveludada, bêbado e excitado, enquanto limpa a boca com uma das mãos]- Você aguenta o tranco, Vega...?- O homem demonstra estar alterado e com um olhar de um predador enquanto deixa sua garrafa de conhaque em um suporte, à frente do cooler.

..........Barulho da garrafa sendo depositada....

[Earl Cash]- Quer aguentar um pouco de tranco comigo, Vega...?-[sorri de satisfação enquanto se aproxima lentamente de Vega].

    Vega, nervoso pela reação que provocara ao homem, tenta quebrar o clima de tensão, mesmo amedrontado:

[Vega]...Éh...Olha...Eu realmente não tô com vontade de transar, eu já me aliviei ali logo trás...-[expressa um sorriso de canto e olhar de medo enquanto aponta com o polegar para trás e balança a cabeça positivamente].

[Earl Cash]- AAAAAARRRSSSSS........HAAA,HA,HA,HA,HA,HÁÁÁÁ´....!! –[o homem não se aguenta e cai deitado ao banco]- VOCÊ ME MATA DE RIR, MOLEQUE, RRRSSSSS.......!!

    Vega olha espantado e sem graça com o que havia desencadeado no homem e dá um “micro” riso de canto da boca enquanto olha para baixo, envergonhado.

[Earl Cash]- Já se aliviou, éh...?-[aos risos].

    Vega permanece em silêncio e constrangido com a situação.

[Earl Cash]- Vem cá...-Vega percebe o homem indo pegar de volta a garrafa de conhaque com uma de suas mãos e tenta subtraí-la inutilmente quando o homem a agarra antes dele- Por que você anda por aí só de pijama? Tem alguma explicação lógica? –[bebe mais um pouco].

[Vega]- Isso eu me recuso a responder....-[mostra-se apreensivo].

[Earl Cash]- Porra, moleque, tu é escorregadio ou tá fugindo da polícia?? Ãhn??-[mostra-se impaciente].

[Vega]- Não tô fugindo de ninguém, nem sei do que está falando...!-[olhar incrédulo e espantado].

    Earl bebe mais um pouco do conhaque e começa a pressionar Vega ainda mais Vega:

[Earl Cash]- Trabalha aonde, Vega? Tem algum serviço, pelo menos?-[desconfiado e impaciente].

[Vega]- Eu não tenho nenhum trabalho....-[responde expressando cansaço e vergonha].

[Earl Cash]- Engraçado, porque até agora eu não sei a sua origem, não sei a sua história, não sei sua a profissão...Se brincar, eu não sei nem sequer seu nome...-[gesticula, demonstrando estar irritado e alterado].

[Vega]–[olha indignado]- Meu nome É real! E você nem devia estar bebendo enquanto dirige...-[expressa aborrecimento em sua face].

[Earl Cash]- EU BEBO QUANDO EU BEM QUISER!-[raivoso e inquisitivo, projetando seu corpo para frente em direção à Vega]. Vega fica perplexo com a reação grosseira de Earl. Seu olhar é de espanto e raiva. Silêncio de 5 segundos.

    Por algum milagre, o caminhão continua mantendo seu percurso harmoniosamente, apesar da agitação e desconcentração do motorista. O mesmo começa a olhar maliciosamente para Vega. Quanto mais tenso este ficava, mais excitado Earl se mostrava. Queria “destruir” Vega como um predador destroça uma caça.

    Vega, tenso, aperta firmemente as suas mãos sob seus joelhos e se recosta à porta de entrada do veículo, pronto para pegar sua mochila e fugir se precisasse:

[Earl Cash]- Deixa eu adivinhar....Você é garoto de programa, não é? –[expressa malícia]- Fugiu de casa e é de menor, não é...?-[olha com desejo para Vega, demonstrando estar bêbado e alterado]- Vem cá, vem...Conta aqui no meu ouvido o quê que você faz na rua...Humm?-[olhar devasso].

    A situação já estava saindo do controle. Antes de Vega pudesse destravar a porta do caminhão e sair, a mesma é travada por um dispositivo à base de um pequeno controle remoto nas mãos de Earl. Vega começa a tremer, mas de raiva, enquanto olha com espanto para Earl.

[Earl Cash]- Vai fugir, éh...? Foge de mim não....-[manda beijo para Vega e dá uma piscadela].

    Earl olha se deliciando para Vega tocando em suas calças enquanto este tenta abrir a porta na força bruta. Quando este fizera o mínimo de força com o intuito de arrancar a porta com suas próprias mãos como, a mesma rapidamente aciona um alarme que dispara eletricidade e assusta Vega. Grudado à janela blindada da cabine para se manter longe de Earl, Vega o encara com nojo ao passo que o homem desliza suas mãos em sua nuca e seus cabelos. Seu corpo estava tenso, quase encolhido, travado. O homem começa a alisar o corpo de Vega, descendo lentamente até seu ventre, tentando colocar sua mão por dentro do short de Vega. Segurando seu pulso com força para que o homem não pusesse a mão sem sua genitália, em ato contínuo, Vega olha para o trânsito e grita:

[Vega]- MOÇO, A ESTRADA...!!- Aponta Vega para o trânsito enquanto Earl percebe que o caminhão havia ultrapassado a faixa amarela e estava no rumo de outro veículo pesado à frente. Earl imediatamente volta para o volante apavorado e completamente esticado ao banco, tentando manobrar bruscamente o caminhão a fim de evitar um acidente grave:

[Earl Cash]- PUTA MERDA!!-[exclama com feição de espanto e pavor].

[......BARULHOS DE FREIOS DE CAMINHÕES. TOCAR ENSURDECEDOR DE BUZINAS. MOVIMENTO BRUSCO PARA DIREITA E ESQUERDA........]

    Por muito pouco o caminhão não colide com o veículo pesado. O susto e o medo tomam conta dos dois passageiros. Vega, espantado e travado ao banco, segurando firmemente a parte estofada com suas mãos, olha para Earl, que suava e respirava como se tivesse tendo seu peito asfixiado. Os dois, travados, olhavam para a estrada com seus olhares arregalados e bocas entreabertas. Todo o clima de tensão e conflito dá lugar a um medo e um silêncio absoluto. Há uma sensação de que o rumo daquela situação estaria seguindo fortemente um caminho diferente do que estava acontecendo antes do incidente. O motorista volta novamente para si como quem recebe uma descarga de desfibrilador ou adrenalina injetável no peito para ressuscitá-lo. Ambos se entreolham lentamente, sem disfarçar suas expressões de susto, concordando de forma tácita que deveriam se manterem imóveis até a próxima parada. Os dois voltam a olhar para a estrada com um semblante de quem tinham acabado de receber uma singela ameaça de cintadas da própria mãe ou tivessem tido um fuzil apontado para suas cabeças.

===================>> 5h45 DA MANHÃ. POSTO DE COMBUSTÍVEIS DRISCO COMPANY.FACHADA MARROM. LETREIRO BRANCO.ILUMINAÇÃO.

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[Earl Cash]- Cacete...!-[passa a mão pelo rosto]- Eu tenho que colocar um piloto automático nesse caminhão...-[ajusta o freio de mão, que era leve e macio e exibia uma luz vermelha para sinalizar que fora acionado].

    Vega observa uma máquina de troca cambiária à sua frente. O mesmo repara que deixou uma marca no pulso de Earl e começa a ficar preocupado com o desfecho que poderia ter pela frente. O mesmo estava tão alterado que nem sentiu o seu pulso ser pressionado por Vega. Estava mais focado em beber. 

[Earl Cash]- Eu vou abastecer e comprar umas coisas na loja de conveniências. Enquanto isso, você troca o dinheiro.

    Vega concorda tacitamente e a porta do caminhão é destravada para que o mesma saia. Vega sai da cabine do veículo em direção ao Caixa de Troca Cambiária Automática para trocar seu dinheiro pelo dólar. O motorista o vigia, desconfiado, a caminhar até a máquina para garantir se Vega iria fugir. Seu olhar é estático e perverso. Havia no posto de gasolina mais 05 homens que estavam à serviço da empresa. Como eram conhecidos de Earl, o mesmo direciona seu olhar para dois deles e acena positivamente colocando seus dedos indicador e polegar na aba de seu boné para sinalizar um código. Os dois homens que recebem o sinal, sinalizam para os outros homens ali presentes. Todos haviam acenado para manter o estado de alerta e vigilância sobre Vega, que era até então, um forasteiro naquele local. Vega se aproxima da máquina e através de uma tela touch screen, seleciona o tipo de moeda que pretendia trocar e coloca seu maço de dinheiro vivo em uma abertura em que o dinheiro é sugado para ser identificado e contabilizado. 

    Para o azar de Vega, a máquina aponta insuficiência de dinheiro para realizar a troca cambiária. O mesmo observa atônito que não havia um único centavo de dólar para ser trocado pela moeda vandoriana, apontando pela tela, um valor de ZERO DÓLARES. A máquina expele de volta o maço de dinheiro e Vega tenta novamente a transação, só que com menos quantidade de dinheiro vivo para trocar. O seu desespero se reflete no modo como o mesmo abre e fecha a sua carteira à medida que as tentativas falham. Vega tentou por 10 vezes realizar a transação cambiária sem sucesso. Nenhuma outra moeda estava disponível para efetuar a troca. 

    Nesse tempo, Earl já estava de posse com suas compras atrás da cabine e já havia ordenado um dos funcionários do posto de gasolina a fazer o fornecimento de eletricidade no caminhão, em uma tomada adaptada para veículos, e uma quantidade de Diesel e Biomassa em outras duas entradas do caminhão dedicados ao abastecimento de combustíveis. Vega, nervoso, olha para Earl Cash pensando em uma forma de escapar daquela situação. Voltando-se de volta para a máquina, este desiste de insistir na troca cambiária e, decepcionado, decide em tentar fazer um acordo com Earl para que a troca fosse feita na próxima parada. Mal sabia ele que o dinheiro que deveria estar na máquina, era constantemente subtraído e desviado do posto de gasolina. Nem mesmo Earl suspeitava que seus próprios comparsas poderiam ser ladrões. O transporte de valores passava toda semana naquele local para abastecer a máquina, e havia um limite de troca cambiária.

    Earl havia comprado mais cervejas e carnes defumadas processadas, mas a garrafa de conhaque ainda estava em mãos. Ao subir de volta para o caminhão, deposita suas compras atrás do banco em um assento estofado e reclama:

[Earl Cash]-Puta que me pariu, o diesel tá nas alturas....!-[exclama irritado].

    Olhando para baixo e pensativo, Vega guarda o maço de dinheiro em sua carteira, a coloca em sua mochila e se dirige até a cabine do caminhão à passos lentos e com um estranho pressentimento do que viria à seguir. Ao sentar-se ao banco, ambos fecham as portas. Earl saca de um pequeno pacote de comprimidos coloridos de origem desconhecida e ingere um deles com bebida alcoólica. Vega não queria prosseguir com o percurso, mas não tinha o dinheiro que havia prometido a Earl. Ele só tinha como única alternativa, fazê-lo aceitar a moeda estrangeira. O condutor estaciona seu veículo um pouco mais à frente, em um encostamento. De portas fechadas, Vega inicia:

[Vega]- Earl...-[engole seco, constrangido].

[Earl]- Diga...-[olha para Vega, já com as mãos no volante].

[Vega]- A máquina não tinha dinheiro...-[olha pra baixo].

[Earl]-...Como assim?-[projeta seu rosto levemente para frente].

[Vega]- Eu tentei trocar o dinheiro por 10 vezes, mas a máquina não tinha nenhuma outra moeda. Sinalizava como "ZERO"...-[olha envergonhado para Earl].

    Earl olha para Vega em silêncio, sem mudar a expressão de seu rosto...

[Vega]- Eu sei que não era isso que você queria, eu até te peço desculpas por isso, mas...Você não teria como abrir uma exceção para a minha moeda estrangeira?-[Vega mostra o dinheiro vandoriano para Earl].

Earl fica estático, olhando para Vega com a mão no volante, com um semblante apático.

[Vega]- Olha...Deve ter outros Caixas Eletrônicos Cambiários em outros postos, se for o caso, eu te pago 50 vands e você poderá trocá-lo por um valor bem maior, em dólar....-[tenta negociar Vega, com uma expressão de culpa e vergonha].

Earl Cash, ainda estático e com um olhar fixo para Vega, diz em tom assustadoramente controlado e "sereno":

[Earl Cash]- Só tinha esse Caixa......

    Vega não sabe o que dizer e olha preocupado e estático para Earl. Num impulso de tentar corrigir a situação, Vega pensa em trocar o dinheiro na loja de conveniências:

[Vega]- Ok, então eu vou...-[olha brevemente para o lado oposto de Earl e aponta o dedo para trás]- Aqui na loja de conveniências, e...

    Earl, em segundos, nota algo oculto debaixo das roupas de Vega. Antes que o mesmo tentasse abrir a porta, esta trava novamente e Earl consegue subtrair seu revólver que estava escondido em sua cintura, apontando para a direção de Vega. Vega se assusta com o movimento hostil de Earl e fica perplexo com a ameaça que acabara de receber, exibindo expressão de indignação e espanto:

[Earl Cash]-Você acha que me engana moleque?-[diz, apontando o revólver para o rosto de Vega].

Vega acena negativamente para Earl, já com uma feição de tristeza e lábios cerrados. Earl, continua a humilhá-lo.

[Earl Cash]- Já faz tempo que você fica tentando me enrolar, seu diabinho! Se quisesse trocar o dinheiro, já teria feito, CADÊ QUE VOCÊ MOSTRA O COMPROVANTE DA TRANSAÇÃO, HEIN?? CADÊ??-[o homem mostra estar alterado e fora de si, com expressões de raiva].

    Vega exibe olhar de extremo constrangimento e tristeza. Seu rosto começa a se voltar para baixo e seus lábios ficam levemente reclusos e "espremidos". Ele olha para a nota de 50 e começa refletir coisas da vida.

[Earl Cash]- Até agora eu não sei nada sobre você, não é, V-E-G-A?? Você gosta de esconder informação sua, não gosta? O que mais você vai me mostrar?? Um RG falso, ÉÉHH??-[vira o rosto para o lado e exibe expressão de deboche].

    Vega começa a perder o brilho em seu rosto. Sua íris, de cor violeta, passa a se tomar uma tonalidade acinzentada.

[Earl Cash]- OLHA PRA MIM, MOLEQUE!-[grita o motorista].

    Vega se assusta e volta para si novamente, com as mãos abertas e levemente para cima, em decorrência do revólver mirado em seu rosto. Curiosos começam a se aproximar do caminhão para verem o que estava acontecendo.

[Earl Cash]- APOSTO que é do presídio! Tá fugindo da polícia, né, seu malinha?! Ia me fazer DIRIGIR pra conseguir fuga! NÃO É NÃO?? Você NEM tem seu nome registrado no site governamental e vem me falar que é de NEVADA?!?-[expressões acentuadas de raiva, desprezo, ódio e deboche se misturam no rosto do motorista].

.............FLASHBACK..............

Earl, sem que Vega percebesse enquanto estava no Caixa, pesquisa por dados de Vega em sites governamentais e tenta de alguma forma, identificá-lo. Earl demonstra

..................................

    Vega começa a fechar os olhos e ter vontade de chorar. Só queria sair dali o mais rápido possível. Todos os curiosos só olhavam como se aquilo fosse um espetáculo. Uma senhora, entretanto, já estava chamando pela polícia no telefone.

[Earl Cash]- Você acha que eu sou só um caminhoneiro de MERDA, né, princesa??-[Earl saca de um distintivo de policial]- Mas o merda aqui é POLICIAL MILITAR. TÁ VENDO ISSO AQUI?...TÁ VENDO ISSO AQUI??

    Vega acena positivamente com a cabeça, já com lágrimas nos seus olhos, mantendo seu rosto com a mesma expressão de tristeza, culpa e vergonha.

[Earl Cash]- E esse dinheiro ROSA aqui?!?-[toma bruscamente a nota de 50 vands com uma de suas mãos livre]. ISSO AQUI é moeda VANDORIANA, seu bastardinho! TU ACHA QUE ALGUM BANCO SÉRIO TROCA ESSA BOSTA?! –[solta o dinheiro pelo ar, na mais pura arrogância].

    Vega fecha os olhos e derrama algumas lágrimas, trêmulo, mas com raiva. Sua raiva aumenta à medida que o homem continua a pressioná-lo. Até que veio a gota d'água:

[Earl Cash]- NUM CHORA NAUM, COISA LINDA....-[o homem expressa um sorriso maligno e continua com a arma apontada para Vega]- Já que VOCÊ não pode me pagar, EU...-[bate no peito]- Te boto pra PAGAR um BOQUETE pra mim! Seu moleque atrevido...ANDA!-[começa a desfazer de seu cinto e a abrir o zíper de sua calça]- ANDA, MOLEQUE! Vem aqui e me PAGA o que você me deve, VAI! Anda logo! E faça BEM FEITO...-[pega a arma com as duas mãos e a sacode, ordenando que Vega fizesse o ato que lhe tinha coagido].

    Vega olha brevemente para baixo, e sua expressão muda rapidamente para desprezo. Um semblante de indiferença e ódio começam a discretamente se manifestar. Vega, ainda em posição de rendido com as mãos pra cima, se aproxima levemente para perto do motorista.

[Earl Cash]- Isso MERMO, vem pra pertinho de mim, vem...Abaixa...Abaixa!-[aponta a arma e a sua cabeça para baixo, em tom imperativo].

    Vega rapidamente sai do seu modo "vítima" e segura o revólver do seu agressor, tampando seu buraco de saída das balas. Ato contínuo, o homem se assusta com raiva e atira na mão de Vega, não surtindo qualquer efeito sobre ele. Depois do forte barulho, o homem fica incrédulo com Vega contendo o tiro só com uma de suas mãos. Furioso e com uma expressão de ódio, Vega tira a arma da mão de seu agressor como se tira doce de criança e o nocauteia com um único forte soco certeiro no nariz, fazendo-o quebrar de vez a janela blindada do lado do passageiro motorista com a própria cabeça. Earl morreu na mesma hora. Seu rosto estava totalmente deformado por uma marca expressiva de um "buraco" com marcas de sangue e dentes arrancados. Sua cabeça, havia sido estraçalhada pelo impacto do choque sobre o vidro blindado. Earl sangrava como uma cabra.

    Vega, ainda trêmulo e assustado com o estrago que tinha feito em Earl, fica de boca aberta e respirando ofegante, com uma de suas mãos cerradas ainda na posição de ataque. Ao olhar para sua mão, um dente de ouro do motorista havia grudado entre seus dedos. Vega sacode sua mão de nojo e medo e fica quase escorado sob o banco, como uma forma de afastamento do corpo de Earl Cash. O transmorfo olha para os lados, e com medo, pega todos os seus pertences, procura pelo controle remoto de Cash e aciona a porta do seu lado da cabine para sair e tentar fugir daquela situação.

    Vega, ao sair da cabine do caminhão, a passos largos, caminha na direção à frente do veículo para escapar da enrascada que acabara de ter se metido enquanto carrega sua mochila. Entretanto, logo à sua frente, Vega avista alguns dos curiosos, um deles munidos com uma grande afiada forquilha, outros com machados e alguns deles com bolas de ferro com espetos e espingardas com balas antimatéria. Para sua surpresa, todos SH's. Em silêncio, não pareciam nem um pouco amigáveis. Vega, assustado, dá a volta para trás e corre de volta para o caminhão e abre a porta da cabine para entrar novamente no veículo. Ao entrar, Vega olha para o corpo e coloca suas duas mãos no rosto e as deposita firmemente ao banco, de irritabilidade. Com seu rosto mirado para baixo, Vega olha horizontalmente para Earl, com desprezo e aborrecimento.

...........................6h00 da manhã

    O céu estava azul claro, suave. Tempo frio, com pássaros e insetos cantando como despertadores naturais. É possível avistar a porta do caminhão se abrindo bruscamente e o corpo de Earl Cash sendo jogado para fora como um saco de cimento estragado, rolando logo abaixo pelo mato desértico. Fechando novamente a porta, de forma tal que sacode o caminhão, Vega toma o volante do veículo e canta os pneus do caminhão, dirigindo o mais rápido possível para fora dali enquanto observa em alerta para os pedestres ali armados. A carteira, dinheiro e pertences de Earl, tinham sido confiscados pelo Transmorfo. Vega mantém um olhar sério e posição firme frente ao enorme volante à altura de seu rosto de "bebê", do caminhão do homem que acabara de matar por acidente.

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    A senhora, que chamou a polícia, coloca seu capuz de volta à cabeça e se dirige à loja de conveniências do Posto de Combustíveis DRISCO, já aliviada e contente com o desfecho de Cash.

 

                 ”Johnny Cash - You are my Sunshine Original”

 

 

 

 

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