-----ESTRELA DO NORTE.22H87 DA MANHÃ. PERÍODO DO GRANDE CHOQUE. 30º MÊS. 17º DIA. REUNIÃO ENTRE AS FAMÍLIAS-------

    Estrela do Norte. País de dimensões continentais astronômicas e uma grande referência tanto bélica, quanto de seus costumes tradicionais. Suas construções eram moldadas em forma de fabulosos e exuberantes castelos medievais cheios de cores brandas e discretas, muitas vezes góticas, mas que não deixavam de apostar em tons mais fortes como o vermelho cor de sangue ou o rosa bebê com traços marrons e um amarelo, quase dourado, harmoniosamente casado com toques azuis bem claros e delicados. As vidraças pareciam verdadeiras obras de arte e muitos turistas (assim como eu), se deslocavam até esse lugar para guardar magníficas fotografias. Muitas delas coloridas, feitas com pinturas de rosas, símbolos, mosaicos. 

    As flores que desabrochavam nas mais altas árvores que se tem referência naquele planeta, brotavam como mini cortinas onduladas, felpudas e branquinhas. Caíam aos montes no gramado fértil. Junto a  elas, pequenos frutos com gominhos se despencavam dos galhos. Crianças as pegavam ainda frescas do chão para comerem no café da manhã. As dezenas de ramificações de galhos daquelas árvores de madeira negra davam a sensação de estar enxergando enormes e belíssimos cabelos "armados". Pequenas construções baseadas em uma elegante arquitetura europeia, que se contrastava com as luzes aconchegantes e piscantes das noites calmas daquela Nação. Neve e dias quentes faziam presença naquele lugar, e gotas d'água pingavam de plantas envoltas de gelo. As mulheres daquele local andavam somente com vestidos dos mais cobiçados e elegantes, e não economizavam nos mais diversos penteados barbaramente atrativos, pujantes e bonitos. Jamais dispensavam luxos ou ornamentos a não ser que o clima estivesse muito quente. 

    Os moradores daquele país tinham um jeito vintage de se vestirem, mas de extremo bom gosto. Chapéus, boinas, espartilhos, coletes, sobretudos escandalosos de bonitos, botas de cano logo, luvas, sapatos bem desenhados. A elegância imperava naquele gigantesco país. Os guarda-sóis eram todos feitos na base de renda e tecidos sofisticados. A beleza era levada ao grau absoluto. Até o mais esquisito era impecável. Os homens também não dispensavam a imponência de suas vestimentas. Eram fabulosos, e costumavam deixar seus majestosos cabelos, sejam eles escorridos, cacheados ou crespos, crescerem até a altura de seus tornozelos. Eram radiantes como o sol, de tamanha vida e cor, o que lhes dava ainda mais prestígio social. Os rostos, por sua vez, eram completamente limpos de quaisquer fios de cabelo. Gostavam de manter seus rostos lisos. Estrela do Norte, apesar de tradicionalista, tinha ampla tecnologia e não faltava modernidade. Eles conseguiam conciliar os dois mundos com muita harmonia.

    Na fria manhã daquele 7º dia semanal, podiam se avistar de longe, em uma trilha gramínea com rastros de neve e com florestas paralelas, duas crianças se preparando para brincar. À medida que o sol brilhava, as majestosas flores caíam lentamente ao solo. Um enorme castelo dividido entre suas famílias, uma delas de estrangeiros, a outra, de naturais daquela Terra.

[Mulher]- Deixe-me ajeitar sua gravata...- [diz arrumando seu filho]- Cuidado porque ele é muito frágil, você entendeu bem? Brinque direito com ele...-[toca com suave firmeza no rosto de seu filho Vergil].

[Vergil]- [balança a cabeça positivamente, olhando nos olhos da mãe].

    A mulher dá um beijo na bochecha do pequeno Vergil e o manda-o seguir em frente com uma de suas mãos nas costas do menino, sorridente, serena, crendo ser mais um agradável final de semana para que os garotos desfrutarem de suas brincadeiras. Vergil, com sua bola de borracha e mochila nas costas, sai correndo feliz e animado para mais uma de suas aventuras. Antes que estivesse muito longe da mãe, o mesmo se despede estendendo sua mão, balançando de um lado para outro. A mulher retribui o carinho, e "timidamente" levanta uma de suas mãos, sorrindo, fazendo o mesmo movimento.

    Vergil, com 17 anos de vida, ainda era uma criança que aparentava seus 8 anos de idade. Ainda estava no período escolar, mas apesar de tenra idade, já tinha bastante conhecimento das coisas. Ou pelo menos, da maior parte delas. Ele estava a caminho para mais um dia de passeio com seu amigo Carlos, que por sua vez, era filho da família vizinha que dividia aquele castelo sob a permissão e os comandos do patriarca da família Estrela-Nortense. O amigo em questão era um "especial" e aparentava também ter seus 8 anos de vida, apesar de que seu desenvolvimento biológico era totalmente destoante de Vergil, que tinha uma vida e jovialidade longa e plena, ao passo que para Carlos, a vida representava um breve sopro de sua existência.

    Do outro lado, vemos uma mulher, vestida de preto com alguns ornamentos dourados e discretos, mostrando uma expressão tensa e apreensiva enquanto arrumava seu filho.

[mulher 2]- Você tome muito cuidado com essa família, viu, Carlos...? - [olha, angustiada, para certificar se Vergil havia chegado]- Nada de brincadeiras agressivas, ouviu bem? Você tá lidando com SH's e eles são perigosos...! -[olha fixamente para o menino].

[Carlos]- Tá bom, mãe...!Já entendi...-[demonstra irritabilidade].

[Mulher 2]- O senhor carregue o micro celular e os documentos no bolso...E volte pra casa às 45h em ponto!-[ aponta o dedo e expressa brava e inquisitiva e despeja os objetos no bolso com zíper do menino].

[Carlos]- Tá bom, mãe....-[constrangido e intimidado].

[Mulher 2]- Agora vá...[empurra o menino para frente].

    A mulher cruza os braços e permanece séria observado a chegada de Vergil no ponto de encontro entre os dois. Carlos tinha em mãos um aparelho plano que seria utilizado para dar dinâmica às suas brincadeiras. O local onde iriam brincar não era muito longe do castelo em face de que as famílias moravam no mesmo lugar e frequentavam a mesma região entorno deste.

    Vergil chega ao destino de seu amigo, reluzente e cheio de alegria para brincar. Para ele, era mais um lindo dia de sua bela infância. Para Carlos, era um alívio de uma única amizade segura e sólida, em meio a uma clandestinidade e solidão naquele presídio paradisíaco. Ao se aproximarem, a mulher se tranquiliza e se afasta do local para ir até o castelo falar com o Patriarca.

    Vergil era branco, tinha olhos azul-turquesa e cabelos bem brancos, curtos e bem distribuídos em seu penteado. Carlos era preto, olhos cor de mel e tinha cabelos pretos, com corte ao estilo soldado que o deixava mais sério. Vergil gostava de usar roupas mais azuis-escuros, enquanto Carlos apostava em um vermelho cor de sangue. Vergil carregava uma bola escura, que mesclava uma tonalidade preta-esverdeada cintilante, como se fosse a de um raro besouro. Vergil e Carlos gostavam muito um do outro apesar das diferenças sociopolíticas entre os membros das duas famílias. 

    O Patriarca, pai de Vergil, passava a maior parte do tempo no Castelo. A família Estrela-Nortina era muito rica. Já o pai de Carlos, trabalhava pelo menos 20 horas por dia fora da residência cedida pela Nobre família, mas ainda assim, a família de Carlos ainda podia desfrutar de alguns luxos e confortos por lá. Os dois meninos finalmente se cumprimentam:

[Vergil]- E aí, Carlito?-[animado].

[Carlos]- E aí, riquinho?-[sorri].

    Ambos se cumprimentam com uma leve batida com os punhos fechados, em posição reta e avante. Sem muita cerimônia, os dois organizam as preliminares do jogo e ficam em posição padrão para iniciar a competição. Vergil dá três toques na bola e o arremessa para Carlos. Ambos têm como objetivo não deixar a bola escapar de suas mãos e todo tipo de arremesso é permitido. Se usar os pés, cabeça, peito, cintura, todos serão válidos. Ambos têm que exibir habilidades como rapidez e agilidade para pegar e lançar a bola. O jogo é cronometrado através de um aparelho que se assemelhava a um Tablet com um apoio em sua traseira, mas que possuía sensores que mediam a quantidade de vezes que um objeto perpassava paralelamente ao aparelho, contando, para cada um dos jogadores, o número de arremessos efetuados em um determinado período de tempo. A linha sensorial vermelha, media as atividades em tempo real, à escolha do usuário. O Tablet estava apoiado em uma altura razoável para os meninos e a bola que eles estavam utilizando era parecida com a uma bola de lacrosse, só que um pouco maior e menos maciço. Até o momento, o jogo começa em um ritmo mais leve para os garotos. 

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    A mulher sobe por uma trilha inclinada cujo piso era feito à base de minérios rosados, e em seus dois lados, tinha gramíneas e uma vegetação típica do lugar. A moça, impressionada com a beleza, se esquece de como sua vida hospedada naquele lugar era angustiante. Era um Paraíso dentro do Inferno. Mas existiam momentos de paz e tranquilidade onde a mesma contemplava as belezas daquela região e saía para passear nos cafés clubes com a matriarca, que por sinal, era ao menos gentil.

    Durante sua lenta e distraída subida, logo a mulher se depara uma cena que a deixa desconfortável. Logo mais distante, à sua esquerda, embaixo da sombra de uma das grandes árvores dali, haviam dois corpos um em cima do outro, envoltos em vestimentas pretas, muito escuras, que pareciam ser de grandes capas misturadas uma à outra, mas com largos capuzes que cobriam as cabeças de ambas as partes. A mulher não sabia identificar se os tecidos pretos ali presentes eram de vestidos, togas, becas ou grandes sobretudos. Tudo que ela via era um emaranhado de tecidos que se fundiam de tal forma que dava para ver somente as mãos e parte de seus rostos. 

    Ao parar para observar melhor, a moça notou que ambos os "corpos" daquele local se beijavam ardentemente, em ritmo lento e constante, com suas bocas docemente coladas uma à outra enquanto suas mãos permaneciam cruzadas entre si, com ambos os braços levemente estendidos à grama. Dentre os enormes tecidos pretos, nota-se uma movimentação pélvica lenta e gradual por parte da pessoa que estava em cima da outra, enquanto a de baixo, parecia estar com suas pernas suavemente afastadas, o suficiente para se encaixar ao parceiro. Ambos se esfregavam lentamente de forma quente, sutil, e suas mãos se apertavam com cada vez mais força à medida que as movimentações se tornavam mais "pesadas", mas sempre mantendo o ritmo lento e constante. 

    A mulher não sabia identificar se o sujeito passivo era um homem ou uma mulher, mas antes que ela notasse algo, o homem que estava por cima parou com o beijo e gentilmente sua cabeça para verificar quem o estava observando enquanto a que estava debaixo dava pequenos gemidos aliados a espasmos, como se estivesse tendo explosões intensas de prazer, só que discretos, quase imperceptíveis para quem avista à distância. Ao notar a presença da mulher, ela se assusta e imediatamente se cobre com o capuz de seu vestido, virando seu rosto para o lado contrário e voltando a seguir o seu percurso, a passos largos. O homem que a avistou, dá um suave sorriso sedutor com um pequeno riso em seu semblante corado e volta a dar os beijos em sua companhia. O mesmo não tinha pressa e pretendia aproveitar os momentos de prazer um junto à mesma por mais algumas horas.

    Após 10 minutos, a mulher finalmente chega ao seu destino e logo em frente ao portão, aparece o Patriarca, um homem alto de grandes cabelos brancos, vestido com uma grande capa escura decorada e luvas pretas, com mais três filhos logo atrás dele. Ela, retira gentilmente seu capuz e se dirige ao mesmo:

[Mulher 2]- Senhor, será que eu poderia ter sua permissão para pegar alguns alimentos no depósito para minha família? Meu marido vai chegar hoje e eu quero fazer um jantar para ele e os meninos...-[expressa timidez e um ar de "submissão" em seus gestos].

    O homem balança a cabeça positivamente e demonstra ser amistoso com a mulher em seus gestos e palavras, apesar de sua expressão fria e neutra. De longe, podia-se observar a conversa pacífica entre os dois. Havia um clima de conciliação entre as famílias e as diferenças eram deixadas um pouco de lado.

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    Após 15 minutos de jogo, o Tablet computava mais de 300 arremessos. Vergil tirava cada gota de suor de Carlos e ambos tentavam provar um para o outro que eram os mais fortes. Vergil só estava começando a se aquecer, enquanto Carlos, com alguns hematomas pelo corpo, resistia firmemente à fadiga apesar de ofegante e exausto. Vergil percebe que exauriu o amigo e pergunta:

[Vergil]- Tá tudo bem aí?! Você parece destruído....! Já tá cansado, Carlos?- [pergunta com uma expressão timidamente amistosa e desafiadora, mas preocupado].

[Carlos]- Tô nada, rapaz...!Eu aguento...Manda mais aí...!-[responde aos respiros ofegantes].

[Vergil]- Toma água, moço, cê tá desidratando...!-[aponta para a sua própria mochila perto dali].

    Carlos, apesar de persistente, não resiste à ideia de beber bastante água e se dirige à mochila de Vergil, que era muito bem equipada com tudo que os meninos precisavam para aquele dia. Ao se aliviar, Carlos pergunta:

[Carlos]- Aí...! Que dia que vai rolar jogos internos na sua escola?-[pergunta molhado em suor e envolto de hematomas].

[Vergil]- Ih, vai dar no mês 10, ano que vem...!-[franze a testa torce os lábios preocupado].

[Carlos]- Eu tô a fim de colar por lá...!-[continua bebendo água]- Quero participar da competição de arremesso de taco...

[Vergil]- Tá aí, é uma boa...! Dá pra jogar tranquilo com os moleque. Só tem que ver se não vai cair no meu aniversário...-[coça a cabeça]- É meu dia de folga e minha família faz uma festa.

[Carlos]- Que dia que é seu aniversário?-[bebe mais água].

[Vergil]- dia 11 do dez...

[Carlos]- Ah, a gente vê até lá...!Se não tiver esse jogo, eu entro pra queimada ou pro tornado...!-[diz confiante].

[Vergil]- Caralhos, tu é maluco mesmo, menino...! Tornado e queimada é pesado pra burro!

[Carlos]- Tenho que aproveitar ano que vem senão eu vou crescer, pô...! Quero pegar minha certidão logo!

[Vergil]- Poxa, pior que é mesmo...Tu tá ficando velho, hein moleque...?-[repara Vergil, com expressão irônica].

[Carlos]-Ah, pára de palhaçada, rapaz...-[sorri franzindo a testa]- Bora! Retoma o sensor aí pra mim...! -[fica em posição firme para voltar a jogar].

    Os dois retomam a partida com força total. O Tablet havia marcado 356 arremessos, quando em 3 minutos, marcava 450. Vergil não estava mais para "brincadeira" e Carlos só o desafiava cada vez mais. Os arremessos começavam a ficar cada vez mais fortes e velozes à medida que ambos se empolgavam. Muitos arremessos acertavam os corpos dos garotos. Vergil ficava levemente corado enquanto Carlos sangrava em algumas partes do corpo, incluindo o nariz. Apesar de pouca força, o menino tinha o corpo atlético, e seu vício por competição foi por influência de Vergil, que era campeão invicto na maioria dos esportes que praticava. No meio de tanta "adrenalina", Vergil corta o radicalismo do momento e se mostra preocupado com Carlos:

[Vergil]- Tu tem certeza que não quer parar? Você já tá sangrando...-[expressa receio].

[Carlos]- Tá louco, tu acha que eu vim aqui pra parar?!-[diz exausto e ofegante]- Manda essa porra aí!-[diz inquisitivo].

    Vergil fica impressionado e os dois continuam a jogar no mesmo ritmo e intensidade. Carlos está mais dedicado do que nunca a ultrapassar seu amigo como vencedor, mas mesmo assim, chega a um momento em que Vergil pega mais leve com o amigo. Durante o jogo, num arremesso atrás do outro, ambos começam a se indagar:

[Vergil]- Aliás...Nunca te perguntei antes....Qual idade você tem hoje?

[Carlos]- Três anos e meio...!-[arremessa].

[Vergil]- Você envelhece mais...Rápido!-[arremessa com o braço].

[Carlos]- Meu pai me falou....Que quando você for de maior....-[pega e arremessa velozmente]- Eu já vou ter morrido...!-[arremessa ofegante com um dos pés].

[Vergil]-[pula alto e arremessa a bola com a cabeça]- Até lá...Eu vou cuidar...-[chuta a bola]- Da sua aposentadoria...!

[Carlos]- Ah, é?!...Eu vou cobrar, riquinho...!-[arremessa com o peito].

    Um círculo perfeito havia se formado. Ambos os garotos arremessavam a bola sem que esta ousasse sair de seus respectivos campos de visão. A harmonia no jogo estava instalada. Entretanto, Carlos notou que o ritmo do jogo diminuiu e que Vergil estava tendo mais cuidado com o amigo. Tal atitude, deixou Carlos ainda mais impaciente:

[Carlos] Oh, Vergil! Arremessa essa bagaça de bola, filhão! Tu tá parecendo minha mãe...!-[ergue os braços em posição de protesto, aos tropeços de exaustão e suor envolvendo seu corpo].

[Vergil]- Tá maluco, rapaz?!-[segura a bola]- Se tu desmaia aí no chão, tu vai pagar um maior vexame!-[responde com uma "agressividade" sadia e com um sorriso debochado].

[Carlos]- E eu lá tenho cara de quem desmaia, ow, damasquinho?! Manda essa troça pra cá...!-[bate no peito, firme e convicto].

[Vergil]- Ihh...Tô vendo que eu vou ter que carregar até lá em casa...-[expressão irônica].

[Carlos]- Sou eu que vou ter que te carregar, ow mané! Joga essa porra que nem homem!-[diz, marrento e desafiador].

[Vergil]- Aahh, éh...?-[lança um olhar de surpresa misturada à raiva e demonstra um tom provocativo]-....Pois então agora você pediu....- Arregala os seus belos olhos e sorri com lábios travados de raiva enquanto pega a bola preta-esverdeada e a lança com todas as suas forças para o rumo de Carlos. Este, por sua vez, em posição firme e confiante, a arremessa de volta para Vergil com um dos seus braços. Quando Vergil abre os olhos para devolver a bola para o amigo, este percebe que esta foi parar longe do seu campo de visão, lá no gramado em um declive mais a fundo da vegetação. Na trilha da bola, havia rastros de sangue.....


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        .    ......Cair das flores...O soprar dos ventos...

             .  ......O sol da manhã...
     
                   .     ......Brilha sobre Carlos....



              ....Trilha de sangue....Massa encefálica........Pedaço de um braço com seu osso à mostra.....Pedaços de crânio humano.............Carlos estava morto...........Caído no chão....Como um manequim sem vida.... 

               ...........Sua cabeça aberta, estraçalhada, um pedaço de um de seus braços completamente arrancado, em posição de tentativa de arremesso da bola que jogavam......Seus olhos cor de mel deram lugar a um vazio, ao nada, a um poço sem sem fim....

    Vergil desfaz gradualmente seu semblante de raiva e satisfação, dando lugar a uma expressão de horror, medo, angústia, tristeza e culpa. O mesmo estava pálido, os olhos arregalados, mas não mais de surpresa, mas de espanto, de puro horror pelo que acabara de fazer...... Nos seus olhos azuis, declinavam junto a seus joelhos bambos e fracos, um pranto de luto e desespero. 

.........Ainda no chão, chorando e rindo ao mesmo tempo e com suas mãos tampando sua boca, Vergil não consegue acreditar no que ocorreu: sem sentir as próprias pernas, ele se levanta e caminha até o corpo de seu amigo e tenta inutilmente reanimá-lo "montando" de volta as partes de sua cabeça com suas próprias mãos nuas, na tentativa desesperada de recolher o cérebro, o crânio e o sangue de volta no lugar....

[Vergil]-Carlos....?.....Carlos?.....Carlos, tá me ouvindo......? Carlito....?? Não, não, não é possível, CARLOS?!.....CAARLOOOS!!...NÃÃÃÃOO...!!

    Quanto mais Vergil tentava "consertar" seu amigo morto, mais este se sujava de sangue e lágrimas. Suas mãos, roupas, todas cobertas de sangue do seu frágil companheiro. O mesmo, de tamanha incredulidade com a tragédia, coloca o sangue de seu amigo em todo o seu rosto. Sua expressão agora, é de choro e desespero genuínos.

[Vergil]- SOCOOOROOOO....!!-[Vergil rasga sua voz aos quatro ventos enquanto se levanta atordoado, chorando desesperadamente]- ALGUÉM ME AJUDAAA!! PAAAAAII...!!! MÃÃÃÃÃEE....!!- Vergil sai correndo para casa em busca de ajuda quando tromba com sua mãe, assustada com os gritos que escutara de seu filho, todo sujo de sangue. A mulher, fica horrorizada com o estado de seu filho e quase chora com suas mãos no rosto:

[Vergil]- MÃE...! O Carlos tá morrendo, me ajuda!-[este chora igual a um bebê enquanto sua mãe o abraça com força, também chorando].

    Logo chegam juntos o Patriarca e a mãe de Carlos, graças aos gritos ensurdecedores de Vergil. O Patriarca, assustado com o estrago feito em Carlos, fica pálido ao avistar o seu filho ensanguentado chorando em cima do corpo do falecido amigo. A mãe de Carlos, paralisada e com um nó em sua garganta, deixa cair toda a bolsa cheia de alimentos que estava em suas mãos. Com estas trêmulas, próximas ao seu próprio rosto, como se estivesse se perguntando "Como isso foi acontecer?", a mãe de Carlos não conseguia sequer pronunciar uma única palavra. Esta simplesmente caiu sentada no gramado, travada e com lágrimas em seus olhos espantados de incredulidade.

    Sem muito o que fazer, o Patriarca pega seu filho pela cintura enquanto este chora descontroladamente e o afasta, colocando-o no gramado, para tentar de alguma forma ressuscitar Carlos com alguns kits de pronto-socorro específicos daquele mundo. Também trêmulo, choroso e se sentindo responsável pela tragédia, a esposa do Patriarca olha para o marido com expressão de desesperança e desalento. Depois de tentar por mais de 10 vezes, já não haveria mais volta para Carlos. Até os dois amantes que haviam sido avistados pela vegetação foram assistir a tragédia, perturbados e agarrados um ao outro.

    Vergil estava aos prantos em posição fetal no gramado enquanto via o corpo frio e destruído de seu amigo. Ele chorava tanto, que sentia dores ao sentir contrações no seu diafragma. Um trauma e vazio que este nunca iria esquecer. Vergil dá seu último lamento de frustração pela morte de Carlos:

[Vergil]- ÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃHHHNNN.....!!!-[chora compulsivamente]

    Ambos o Patriarca e Esposa abraçam um ao outro, se  sentindo muito culpados pelo sofrimento de Vergil e pela morte precoce de Carlos. O Patriarca agarra Vergil pelo braço, já totalmente amolecido pela tristeza, e, chorando junto ao filho, o coloca para se lamentar no seu colo. A mãe de Carlos, partida em milhões de pedaços, que até então não conseguia pronunciar uma única palavra, deu seu primeiro lamento, trêmula, de olhos arregalados, numa expressão de extremo horror e desilusão:

[Mulher 2]- AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHH!!!!!!!!!

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========>> 70 anos depois...


....Vergil acorda aterrorizado, com pupilas dilatadas, molhado em suor e respiração ofegante decorrente de seu pesadelo. O mesmo sonho ruim que o fazia lembrar e retornar ao seu passado traumático. Suas mãos tremiam, prontas para agarrar o pescoço do primeiro que estivesse em sua frente. O grito feminino de horror ainda ecoava em sua cabeça e todas as cicatrizes daquele fatídico dia horrível ainda não haviam desaparecido. Já um pouco mais calmo, mas ainda ofegante e em estado de alerta, acaba acordando um rapaz que dividia a mesma cama com ele, ambos nus, cobertos por um comprido lençol cinza, em um quarto com uma persiana que refletia uma luz amarelo-esverdeado:

[Dante]- Vergil?...O que foi?-[pergunta preocupado enquanto toca gentilmente o seu ombro].

[Vergil]- Outra merda de pesadelo....-[diz ofegante, deslizando a mão no seu rosto suado].

[Dante]- Calma, eu tô aqui, vai passar...[coloca as duas mãos em seu rosto, tentando consolá-lo].

Vergil olha para baixo e se contenta com sua desgraça, desestimulando o colega:

[Vergil]- Isso nunca vai passar, cara.....-[diz, limpando seu rosto e olhando para o seu colar militar em sua mão]- Vou ter que conviver com esse Inferno pro resto da minha vida...- Vergil olha para o amigo com um semblante apático, que fica sem saber o que fazer para ajudá-lo. O mesmo se levanta da cama em direção ao banheiro para lavar o rosto e Dante o acompanha com seu olhar de preocupação enquanto permanece deitado na cama, confuso e ao mesmo tempo triste e desolado pelo seu colega.
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    Lavando o rosto. Fechando o espelho multifuncional. Feixe de luz solar. Olhar indócil. Bestial.

  




         "Scarface Soundtrack- Dealing With Lopez-Giorgio Moroder"




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.......O Tablet, com respingos de sangue, havia marcado 1050 arremessos.











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