-----DESEMBARQUE. NEVADA. MADRUGADA DE 15 DE JULHO EM DIANTE. ANO DE 8850. CAMINHADA. PRIMEIROS DIAS EM NOVA YORK.PARTE #1-----

===============>> P R I M E I R O    D I A.

    Um salão arredondado e escuro, com poucas luzes verdes que refletiam o ambiente com estofamento branco, suas paredes, até o piso era "almofadado". No local haviam janelas arredondadas com reforço extra para não quebrarem, o que dava para enxergar toda a beleza do espaço sideral. Os passageiros, todos amontoados próximos aos outros, tendo que dormir encostados em assentos e pufes estofados para suportar o logo tempo de viagem, que mal sabiam se eram horas, dias, ou semanas. Nos outros cômodos do veículo espacial, haviam banheiros, pequenos chuveiros, sabonetes líquidos e lenços higiênicos, ambos sem nenhum perfume, toalhas brancas individualizadas, desodorantes sem perfume, estoques de ração militar com fogareiros e outros "mimos", cápsulas de alimentos, água e soros que tentavam parecer sucos de frutas. Café solúvel, leite em pó, plantações de legumes, frutas e temperos também faziam presença no lugar. Computadores quânticos com telas do tamanho de um cinema ficavam todos no andar de cima, às portas fechadas. Enormes ventiladores pareciam "sugar" o ar daquele ambiente ao mesmo tempo que mantinha uma temperadora e cheiro agradáveis, como se estivesse se renovando "em círculos" a cada respiração dada por cada um dos hóspedes ali presentes. Água, idem. Parece nunca acabar. 

    Toda a espaçonave foi projetada para se auto sustentar pelo maior período de tempo possível. Os passageiros balançavam de um lado para o outro como bonecos de pano, mas sem expressarem qualquer contrariedade. Todos estavam apáticos. Alguns aparelhos de distração e ante estresse eram disponíveis para os hóspedes. Vega, sentado em posição de pernas e braços cruzados, estava encostado ao lado da janela redonda assistindo o vazio e as estrelas de fora enquanto a nave espacial balançava suavemente para cima e para baixo, de forma "macia" e maleável como se estivesse "escorregadia", sem ruídos. Apesar de apertado, o lugar ainda suportável de se alojar.

    Por curiosidade, Vega começa a observar as pessoas que estava junto a ele na astronave e nota pelas pulseiras em seus pulsos. Em todas elas ele percebe uma nota de "EXPULSÃO" em pelo menos 6 línguas diferentes, dentre elas, a vandoriana. Ele era o único que tinha o visto de "TURISTA" exposto em sua manilha. Os que haviam sofrido banimento, mantinham manilhas de cor preta e letras brancas, enquanto Vega, tinha destacado a cor rosa choque e letras pretas em sua pulseira. Por várias vezes, Vega tentava manter uma conversa com um dos banidos na astronave, mas nenhum deles quis muita conversa. Dentro de sua mochila, também rosa choque, ele certifica dois documentos autorizando sua entrada nos Estados Unidos para fins de visita: um em papel vergê, posto perfurado e lacrado a uma pasta preta de plástico e um papel de segurança plastificado com selo oficial de seu país de origem, mas que, por infelicidade, não iriam lhe garantir toda a receptividade que o mesmo esperava. Vega passou vários dias no mais profundo silêncio acompanhado com o desânimo e a apatia dos outros hóspedes. Em sua maioria, eram formados por pessoas descendentes de Super-Humanos de origem em Vandora, Bëiss, Sagat ou outras nacionalidades do planeta BIOTH e que participaram da rebelião. Muitos híbridos. Desde a carga genética mais modesta, até a mais forte. Alguns SH's puros também estavam por lá. Vega era o único Transmorfo nível 5, a mais evoluída dos Super-Humanos até então. Sua expressão era de constante tédio e sua tentativa de não prestar atenção no tempo fez com que ele assumisse as mais variadas posições esdrúxulas: de bananeira, pendurado de cabeça para baixo em um dos apoios de metal do segundo andar, deitado de bunda virada para cima e seus braços apoiados ao piso, posição de "frango assado" com carinha de bebê carente enquanto segurava um ursinho de pelúcia, sentado em forma de "W" com as mãos amolecidas e a cabeça virada para o lado, fazendo barra fixa em uma das estruturas do teto da nave espacial e outros treinos que envolvem força física e equilíbrio, prática de yoga, dentre vários outros. 

    Como ninguém se comunicava com Vega, este simulava diálogos entre dois brinquedos de pelúcia, desenhava e escrevia coisas em seu diário para suprir tamanho tédio e desânimo com a longa viagem. Pouco antes de dormir, aproveitava um dos chuveiros para trocar de pele, renovar as células, expulsar e limpar sujeitas pelo corpo, regenerar as unhas, hiperaquecer seu organismo e meditar enquanto a água corrente cai em sua cabeça. As impurezas eram filtradas logo abaixo da plataforma de metal com aberturas de onde Vega estava apoiado, e tudo isso (pele, sangue, ossos, sujeira, tecidos), virada fonte de energia elétrica. Vega, carregado de energia presa em seu corpo em repouso forçado, descontava todas as suas "dedicatórias" enquanto desfrutava dos seus longos banhos quentes. Saía do banheiro exausto, sem forças, como se tivesse saído de uma briga com facadas e dormia o equivalente a 20 horas em um dos pufes. Era fornecido para os hóspedes, um pijama de dormir para todos os tamanhos.

    O veículo espacial se prepara para adentrar a órbita da Terra. Os passageiros sentiam solavancos a cada camada atmosférica que a astronave perpassava. Vega ainda dormia como se morto estivesse e não haveria ninguém que pudesse acordá-lo naquele momento. A astronave cria um mecanismo de invisibilização que a camufla em meio a atmosfera para torná-la imperceptível. À medida que o veículo espacial se preparava para pousar no deserto seco e de mata rasteira da Base Secreta da Força Aérea Norte-Americana, os passageiros se levantavam, prontos para sair quando fosse aberta a entrada da astronave. Vega continuava dormindo como um filhote de gato recém-nascido. Do alto, dava para ver portões cheios de grades e armadilhas não muito convidativas para quem vinha de fora e uma placa branca com uma faixa vermelha bem grande escrita de forma bem clara: "RESTRICTED AREA. NO TRESPASSING BEYONG THIS POINT (PHOTOGRAPHY IS FORBIDDEN)". Uma outra placa escrita em vermelho "WARNING! MILITARY INSTALATION.OFF LIMITS TO UNAUTHORIZED PERSONNEL", também era suficientemente hórrido para desconhecidos. Eram 3h10 da manhã quando a nave fez o seu lento e gradual pouso. Ao encostar na terra, um aviso de um funcionário ecoava a partir de saídas de som espalhados pelo ambiente interno do veículo espacial: 

📣....."ATENÇÃO A TODOS OS PASSAGEIROS. EM ORDEM E EM SILÊNCIO, TODOS SAIRÃO DA NAVE E PARTIRÃO EM DIREÇÃO À ESTRADA ASFÁLTICA DIRETO PARA SEUS RESPECTIVOS DESTINOS.NÃO TENTEM EM HIPÓTESE ALGUMA FAZER MOVIMENTOS BRUSCOS ENQUANTO ESTIVEREM NESTA REGIÃO. SAIAM DEVAGAR E LEVEM PERTENCES E DOCUMENTOS OBRIGATÓRIOS. DAQUI EM DIANTE, VOCÊS ESTARÃO TODOS POR SUA CONTA E RISCO. UM BOM DIA E BOA SORTE A TODOS".............

    O anúncio foi feito em 6 línguas diferentes, incluindo a vandoriana. Todos os passageiros carregaram os seus pertences e saíram em fila indiana, apáticos e silenciosos para seguir as instruções descritas nos seus respectivos mapas rodoviários em que estavam em mãos e sendo guiados pelos militares que ali cercavam. Todos eles, munidos com armas a raios e antimatéria que seriam o suficiente para desintegrar instantaneamente SH's e híbridos. Mas até o momento, nunca fora testado em transmorfos. Vega era o último que havia sobrado naquele lugar. Adormecido no seu 58º sono profundo, um dos militares o ergue pelos dois braços, sacode seu rosto e pega a sua mochila rosa:

[Militar]- Hey, você! Acorda, ow, Bela Adormecida, está na hora de ir embora...-[dá dois pequenos tapas em Vega].

    O militar, que sabe a língua vandoriana, desperta a atenção de Vega. Este, por sua vez, lentamente volta para a realidade e, se esticando, pergunta com as mãos coçando os olhos:

[Vega]- Tenho que me trocar...?...A minha mochila...-[rosto cansado].

[Militar]- Está aqui...-[entrega à Vega, como se estivesse jogando em seu peito de forma incisiva]- Não precisa trocar de roupa, só pegue suas coisas e vá embora daqui.

    Vega, descrente e cansado, pergunta ao militar:

[Vega]- Será que eu posso escovar os dentes antes...?-[olhar cansado e pidão].

    O militar suspira e vira os olhos por, mas concede:

[Militar]- Pode, filho...Mas anda logo, não demora.

    Vega vai até o banheiro. De torneira aberta, lava seu rosto, usa lenço umedecido para limpar sua pele e, de posse com sua escova e pasta dental, higieniza sua boca e logo em seguida, com um enxaguatório bucal que tinha um sabor de canela, mas deixava a garganta nos trinques. O mesmo lava as mãos, se seca e guarda seus pertences em sua mochila. Sai do banheiro, e, sem olhar para trás, vai em direção à porta. O militar alerta:

[Militar]- Aí, isso aqui é seu?-[diz empunhando um ursinho de pelúcia lilás].

[Vega]- É meu...-[pega o brinquedo]- Valeu!- Faz um gesto de despedida com uma das mãos abertas da testa para cima em posição de "sentido" ao caminhar, enquanto a outra mão carrega o ursinho de pelúcia e a mochila rosa fica nas costas de Vega. Este vestia uma roupa de dormir cinza com listras azuis esverdeadas que mais parecia destinado a uma festa de pijama. A parte de cima, era uma "camisete" de manga curta e largura até o quadril. A parte de baixo, um short meia coxa de cintura média que caía perfeitamente em seu belo corpo. Vega sai andando normalmente como se estivesse indo a uma cafeteria. O militar olha atentamente para Vega perplexo e impressionado.

[Militar]-....Mas é muito baitola, meu Deus....-[murmura baixo e balança a cabeça negativamente].

[Militar Feminina]- Eu acho ele muito fofinho...-[expressa ternura].

[Militar]- Cê tá de brincadeira, né...?-[olhar de tédio, incrédulo].

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.....Após alguns metros longe do veículo espacial e das armas letais que permaneciam viradas para Vega enquanto descia da entrada da nave até os portões de grades da Área 51, o mesmo finalmente estava fora de perigo por enquanto. Vega sente uma atmosfera diferente de BIOTH. O cheiro, a sensação ao andar, a gravidade, as estradas, a vegetação. Tudo era mais simples, mas empobrecido, mais sombrio...Vega teve a sensação de estar dentro de uma obra de terror e suspense na qual costumava assistir com seus amigos e família enquanto estava em Vandora. Até as cores não eram as mesmas. Eram mais frias, mais carregadas, o ambiente era mais tenebroso, mais pesado. Era tudo muito simplório e macabro, lúgubre, mas apesar disso, tinha seu toque de charme para Vega. Um charme rústico, bruto, mas marcante. Jamais se compara com Vandora de BIOTH, mas tinha lá suas qualidades sinistras.

    Vega caminha, só de meias sapatilhas pretas nos pés e seu pijama descontraído com sua mochila rosa choque nas costas. O mesmo ainda carregava pelos bracinhos de seu ursinho de pelúcia em uma de suas mãos. Tudo que precisava por pelo menos 03 meses estava naquela bolsa em suas costas, que nada tem de modesta. Era resistente, bem elaborada, com excelentes espaçamentos para que fosse bem aproveitada. Nela, a sua revista de mapas rodoviários mostrava como um dos destinos para Nova York. Vega caminha tranquilamente pela madrugada fria na estrada asfáltica empoeirada do local seco. À nível faroeste americano, pode ser visto ao logo da caminhada de Vega, um tumbleweed, uma espécie de bola de palha se locomovendo pelas ruas desérticas daquela madrugada fria. Meia hora se passou desde que Vega começou a caminhar pela estrada. Já eram 4h00 da manhã quando, em poucos metros à frente, Vega avista iluminação de postes, e mais à frente, um posto de gasolina. É aí que as coisas começam a ficar mais tensas.

===============>> K 7  S P E C I A L    R O U T E  5 1

    Vega se aproxima do posto de gasolina cuja fachada era vermelha e amarela, bem distribuídas. À medida que caminha até a loja de conveniência, um grupo de 5 homens o olha de cima para baixo e quase viram o pescoço para acompanhar seus passos. Vega finge não notar e segue tranquilo o seu curso. Não estava interessado em caçar brigas. Só queria uma água e um bom café, apesar de não saber bem qual daquelas bebidas seria o que procurava. Vega se aproximou e foi recebido com um "Boa noite, Senhor, em que posso ajudar?". O mesmo pediu, em inglês para a atendente:

[Vega]-Boa noite, moça, você teria um copo d'água para me fornecer, por gentileza?

[Atendente]- Sim, claro, já vou pegar... 

    Vega tem seu copo cheio d'água trazido para matar sua sede. Depois de beber, senta-se a um banco horizontal vermelho de frente a uma mesa retangular verde marinho, ambos no estilo retro e contempla um cardápio de bebidas e alimentos, todos em inglês. As paredes era todas de cor mostarda. O balcão, azul claro. A atendente observa Vega e seu jeito de comportar com ternura, um certo carinho, como se estivesse lidando com uma pessoa pura e inocente. Enquanto isso, os 05 homens mal encarados sussurravam entre si olhando para Vega. Pareciam ser de uma gangue e todos usavam trajes escuros, com coletes muito parecidos. Dois deles usavam soco inglês, um deles estava munido de uma faca de combate e o outro, de um revólver 357. Mas Vega não parecia ligar para nada do que os delinquentes diziam sobre ele. Aquelas armas não eram nada para ele. Pareciam mais interessados em fazer fofocas de de senhoras do que conversar entre eles. Vega, em dúvida sobre o que beber, se dirige ao balcão e pergunta para a moça, novamente em inglês:

[Vega]- Moça, qual desses dois aqui é o melhor na sua opinião?-[aponta Vega para o cardápio olhando para a moça].

[Moça]- Hummm....Eu gosto muito desse cappuccino com chocolate amargo...É muito bom recomendo....-[sorriso "metido" e simpático].

[Vega]- Tá bom...-[sorri]-Gostei da ideia, vou pedir esse aqui.-[ selecionou a bebida].

    A atendente amistosa vai até a sua máquina de cafés encomendar a bebida quente para Vega. Este percebe a hospitalidade da moça e passa a se sentir em casa, mesmo em um isolado posto de gasolina em meio ao nada. Com os braços cruzados e cotovelos apoiados no balcão em espera de seu café especial, o semblante de Vega parecia a de uma criança na véspera de natal. Suave e sereno, sequer notava os olhares de ódio e repreensão dos homens que estavam do lado de fora do posto. Ao trazer a bebida, Vega pergunta:

[Vega]- Ah...!Quanto custa?

[Moça]- Custa 6 dólares...

    Vega saca sua nota de dinheiro em moeda vandoriana e lembra que não possui em dólar:

[Vega]- Errm...Moça...Você aceita moeda estrangeira?...-[diz, de um jeito sem graça].

[Moça]- Humm...Não tem problema...Eu quebro seu galho.-[dá um sorriso de canto amistoso e uma piscada de olho]- Tenho uma coleção inteira só dessas notas rosinhas. -[mostra a gaveta de seu caixa, orgulhosa]. Depois eu as troco na outra cidade.

[Vega]- Jura?? Nossa, obrigado demais, moça, você me salvou...-[aliviado e empolgado].

[Moça]- Não há de quê...-[sorriso simpático]- Você é novato por aqui, não é?- A atendente percebe pela pulseira em um dos pulsos de Vega.

[Vega]- Sou sim, eu tô meio perdido e estava querendo ir pra Nova York. Mas eu não tenho dinheiro em dólar, então...-[faz uma expressão de decepção e conformismo].

[Moça]- Ah, sim, não tem problema...! Todos que passam por aqui vão direto pra lá. Aconselho a você pegar carona por aqui e achar um caixa eletrônico para troca cambiária. Toda hora passam motoristas aqui em frente. Só aconselho a tomar cuidado com alguns...Taradinhos daqui...- [diz sussurrando baixo].

[Vega]- Ah, sim...Pode deixar-[olhar alerta e sorriso contido]- Obrigado pelo cappuccino, mais uma vez.-[sorriso amigável].

[Moça]- Não há de quê, fique a vontade para se sentar nas mesas...-[olha para um dos bancos horizontais vazios].

    Vega pega sua bebida e antes que pudesse se sentar, notou os olhares tortos dos homens mal encarados fora do estabelecimento e se sente desconfortável. Percebendo isso, a atendente se oferece:

[Moça]- Precisa de ajuda com aqueles caras ali?-[sorriso irônico].

[Vega]- Bom...Não sei dizer, será que eles vão me deixar ir embora depois de beber...?-[pergunta com olhar desconfiado e sorriso tímido].

[Moça]- É provável que não...-[abre um armário lacrado e certifica algo dentro dele]- Esses palhaços aparecem aqui pra bater em gays e assediar mulheres...

[Vega]-...Gays?- Vega fica confuso quanto ao termo, desconhecido para ele.

[Moça]- É um nome separatista que eles usam para denominar homens que não seguem o estilo de vida chato deles...E parece que você virou um novo alvo...-[a atendente puxa algo que parecia ser uma alavanca para carregar uma arma de fogo, e logo o guarda embaixo do balcão].

    Vega, desconfiado e receoso, pergunta à atendente:

[Vega]- Devo me preocupar...?-[olha para ela preocupado].

[Moça]- Humsrsrs....-[riso contido]- Não se preocupe, eu dou um jeito neles...Já me acostumei com esses marginais.- Responde à Vega enquanto, discretamente, abre um cofre de trás da parede e pega um taco de baseball bem comprido cheio de arame farpado, colocando-o atrás da cintura por meio de um suporte em seu cinto. Também coloca disfarçadamente a arma de fogo por dentro de seu sutiã. A mulher parecia estar bastante relaxada e confiante. Vega olha surpreso e preocupado:

[Moça]- Não se preocupe comigo, eu ficarei bem. Vá, sente-se, relaxe e tome sua bebida antes que esfrie...-[ordena de forma confiante].

    Vega, apesar de preocupado com o que pudesse ocorrer, seguiu comando da Atendente e discretamente se sentou, quietinho no banco horizontal vermelho no fundo da loja, com sua mochila e ursinho de pelúcia do lado e desfrutando de seu cappuccino, colocado em um copo de tampa fechada com um espaço apenas em um singelo buraquinho, por onde a bebida era conservada quente por mais tempo. Vega olhada atentamente para a atendente pelo lado de fora da loja. A cada gole que este dava, era um clique do ponteiro do relógio de design violeta em cima da parede do balcão. A cada expiração de pausa da bebida, era um som se um ferrolho sendo puxado para o carregamento de munição da arma de fogo, de posse em um dos marginais. A cada cheiro do perfume do café, era um som fino de um soco inglês sendo afiado. A atendente contava que iria resolver o inconveniente em menos de 2 minutos. Tempo exato para Vega finalizar a sua bebida quente.

    O sino da porta de entrada da loja de conveniência toca ao se abrir:

[Moça]- Com licença, rapazes, será que vocês poderiam deixar o meu amigo ali atrás terminar o café dele e permanecer um pouquinho mais afastados, naquela mesa ali na frente?-[aponta para uma mesa 3 metros dali]- Logo, logo ele já vai embora pra casa e vocês poderão voltar a sentar aqui de perto se preferirem, pode ser?-[sorri de forma irônica].

[Homem 1]- E se a gente não quiser...?-[demonstra feição de desprezo].

[Moça]- Então infelizmente vou ter que retirá-los do meu estabelecimento...-[faz uma cara de "decepcionada" e com uma das mãos estendida, "convidando-os" a se retirarem].

    O outro membro da gangue se levanta da mesa e se aproxima da atendente:

[Homem 2]- Oh, boneca, ninguém vai sair daqui não...-[cruza os braços, inquisitivo e de feição arrogante].

    Os outros homens se aproximam da atendente, com o intuito de intimidá-la.

[Homem 3]- E você é o quê daquele ali? É teu namoradinho? -[diz em tom de deboche].

    A mulher, com sorriso irônico, respira fundo e surge a gota d'água quando um deles diz:

[Homem 4]- Sai você daqui, empregada...-[expressão de raiva e desprezo]- Deixa a gente entrar e resolver isso logo de uma vez-Estrala os dedos das mãos olhando para Vega, que mostra um olhar selvagem e atento, pronto para atacar quem quer que fosse. Ainda assim, desfrutava lentamente de seu café.

    O sorriso irônico da mulher dá lugar a um misto de ódio e desprezo quando esta dá apenas alguns passos para perto do homem munido com um soco inglês. Os outros se afastam, dando espaço para ambos que se encaram, e, paralelo a este, a mulher rapidamente agarra sua cabeça e o arremessa contra a mesa com todas as forças, deixando uma expressiva marca de sangue na sua extremidade. Os outros se assustam com o ato, e o segundo deles saca raivosamente sua arma de fogo para atirar na moça. Esta por sua vez, agarra o cano da arma com uma das mãos, tampando o buraco de saída das balas enquanto acerta um forte chute traseiro no rosto de outro capanga que estava atrás dela. Disparando a arma sem sucesso, o homem tem seu revólver bruscamente retirado de suas mãos e é rapidamente nocauteado com um certeiro golpe reto pelo nariz e testa, derrubando-o como um pedaço de jaca mole e o deixando desacordado. O terceiro bandido, com o rosto machucado pela marca da bota, agarra a moça pelo pescoço, mas essa ergue uma de suas pernas e desloca brutalmente o joelho do homem com um de seus pés e o joga em cima da mesa no sentido oposto, com muita facilidade, lesionando suas costas. O quarto homem, que deu um golpe certeiro com soco inglês na cara da mulher, viu seu ataque não surtir qualquer efeito na atendente. Esta, furiosa, saca de seu taco de baseball farpado e destroça a mandíbula do homem junto com seu pescoço, voando vários respingos de sangue e dentes na porta de entrada da loja de conveniência. O homem voa até a parede e bate com a cabeça, tendo logo deslizado até o chão. A mulher ajeita seu vestido, limpa seus óculos, arruma seus cabelos e alinha seu cinto para recolocar o taco. Quando a mesma começa a se virar de costas para entrar no estabelecimento, um dos homens que havia sido lesionado na cabeça se levanta e empunha um revólver escondido para acertar a mulher pelas costas:

[POWN...!!POWN, POWN, POWN, POWN, POWN, POWN, POWN, POWN, POWN, POWN!!!....].

    Fumaça exalava do cano da arma empunhada pelas mãos da mulher, que, ao estilo Django, havia imediatamente virado-se para o infeliz e desferido 11 tiros ao longo do corpo do atual cadáver, com apenas leves toques em cima do ferro. Era uma versão moderna de uma Remington 2058 Sheriff's. Satisfeita e com a sensação de dever cumprido, observa em volta do posto de gasolina. Ninguém viu nada a não ser Vega, que estava com um semblante impressionado e fascinado com a capacidade de combate da mulher. O incidente terminou em exatamente 2 minutos. Momento exato em que Vega termina seu cappuccino. Admirado em com um leve sorriso que parecia ser de esperança e alegria, Vega percebe não estar lidando com um ser humano comum. Este então, não resiste à curiosidade:

[Vega]- Você é uma SH?-[pergunta fascinado].

[Moça]- Híbrida, mas com a maior herança vinda do meu pai...Ele era um encrenqueiro. Toma! Presente pra você...! - A mulher joga a arma de fogo carregada que a mesma havia tomado do delinquente na direção de Vega, que a pega com uma de suas mãos.

[Vega]- Obrigado...!-[sorri leve e feliz]- Nossa, foi incrível o que você fez com eles, eu tô admirado...!-[empolgação].

[Moça]- Ah, não há de quê, querido! Isso aqui virou rotina. Já entrei em combate com homens bem mais interessantes que esses palhaços aí fora.

    Vega dá uma leve risada de satisfação:

[Vega]- A propósito, nem perguntei sobre seu nome...Eu me chamo Vega.-[projeta-se levemente para frente, com as mãos à extremidade da mesa e um sorriso amigável].

[Moça]- Katley...Titane Katley. Prazer em conhecê-lo, Vega- [expressa orgulho e simpatia].

[Vega]- O prazer é meu, Katley...

    A moça iria se virar para terminar seus afazeres quando lhe bateu uma singela dúvida sobre Vega:

[Titane]- Aliás...Você não me parece ser daqui. Pela sua pulseira, presumo que seja de Vandora, não é isso?

[Vega]- Exatamente.-[afirma com a cabeça].

[Titane]- SH ou híbrido?-[curiosa].

[Vega]- Sou um transmorfo...-[diz com um sorriso suave e descontraído].

[Titane]- Cacete....!Então é real mesmo...Eu percebi pela sua pupila. É bem diferente...-[diz impressionada].

[Vega]- Sim, minha pupila é meio transparente, meio furta cor, eu acho...

[Titane]- Então você é bem mais forte e robusto que um SH, na verdade. 

[Vega]-Éhh...-[mão na bochecha, tímido e lisonjeado, com olhar para baixo à direita]- Ainda tô me descobrindo....-[sorriso tímido e espontâneo].

[Titane]- Logo você vai descobrir muito mais. É realmente fascinante....Bom...Foi um prazer conhecê-lo mais uma vez, Vega. Se precisar vir me visitar, sabe onde me encontrar.

[Vega]- O prazer é todo meu, e o café estava delicioso.-[faz um gesto de coraçãozinho].

    Katley também faz um gesto amigável de coraçãozinho para Vega. Os dois se despedem e Vega sai do posto de gasolina caminhando pela estrada à procura de carona para ir à Nova York. O ursinho de pelúcia lilás ainda é uma companhia inseparável de Vega na madrugada fria e escura. À essa altura, eram 4h30 da manhã. Mal sabia Vega que haveria muito mais infortúnios por vir ao longo da viagem. Olhando na revista de mapa rodoviário, ainda faltava pelo menos umas 40h de viagem para seu destino. Vega aguentaria distâncias até muito maiores, mas os recursos são escassos e este precisaria o mais breve possível de um transporte. Logo perto à frente, entre o meio do nada e um poso de combustível, um caminhão robusto encostado na estrada de areia, fora do asfalto. Nele, havia um motorista tirando uma breve soneca. Vega aproveita para ir até a região desértica para fazer xixi e limpar as mãos com lenços higiênicos logo em seguida. O motorista acorda e percebe Vega de costas para ele. Parado, sem mover um cisco, espiona Vega e finge estar ainda adormecido. Vega se dirige até o posto iluminado, logo à frente.

===================>> P O S T O  GEM&JAM   T R A B U C O

    De faixada verde e branca, o casal Gemma e Jamie é que administrava o estabelecimento. Assim como o posto de gasolina K7 SPECIAL ROUTE 51, o abastecimento era feito pelo próprio cliente através de uma inteligência artificial que só permitia a liberação do produto depois de efetuado o pagamento via "chave" bancária ou depósito de notas de dinheiro no balcão do casal, que controlava o sistema de fornecimento de combustíveis de forma remota. Os dois possuíam duas espingardas, um cofre escondido abaixo do piso do local e algumas mesas com cadeiras, um pouco mais simples e robustas. Geladeiras com comidas prontas também faziam presença. O ambiente tinha tons de verde e cinza. Vega esperava do lado de fora na esperança de que uma carona lhe pudesse ser fornecida até Nova York, ou pelo menos, até o mais próximo possível da Metrópole. O casal olha atentamente para Vega, pensando ser mais um garoto "menor de idade" perdido pelas estradas. Imediatamente, aparece de frente a Vega, o caminhão na qual havia se deparado com o motorista, de origem duvidosa. A porta do veículo se abre e o homem, forte, gordo, com barba rasa, boné, camisa cavada, calça jeans marrom, bota curta preta e com um olhar estranho, marrento e entorpecido, se dirige à Vega:

[Motorista]- Psiu! Ow!...Tá precisando de carona??-[pergunta em alto e bom tom].

[Vega]- Eu...??-[surpreso com a iniciativa precoce].

[Motorista]- Sim, você mesmo! Tá indo pra onde, filho?-[jeito inquisitivo].

[Vega]- Nova York...!O senhor teria como me levar?-[pergunta com um leve ar de "súplica"].

[Motorista]- Levo! Você tem quanto aí pra me pagar?-[indaga].

[Vega]- Eu tenho isso...E é moeda estrangeira...Tem algum problema?-[mostra sua carteira, demonstrando um leve constrangimento e timidez].

[Motorista]- Tem não! Lá na frente a gente troca no Caixa Eletrônico Cambiário. Sobe aí, coisa linda...!-[acena com a cabeça].

    Vega acende o seu primeiro pisca alerta quando escuta o "coisa linda", mas ainda assim, não demonstra resistência. Antes que pudesse se aproximar para subir no banco passageiro do motorista o indaga:

[Motorista]-...Isso é um ursinho de pelúcia...?-[direciona um olhar perverso para Vega].

Vega, constrangido, guarda seu brinquedo rapidamente em sua mochila, como se estivesse sofrendo alguma reprimenda. O homem percebe o desconforto de Vega:

[Motorista]- Não, relaxa, eu tô brincando com você, filho...Rsrsrs...Vamos, suba aí, vem...-[desmancha um ar de tensão para um sorriso amistoso].

    Vega, um pouco mais aliviado, mas ainda tenso, sobe no veículo do motorista e se assenta ao banco passageiro quando as portas se fecham. Vega olha pela janela, apreensivo, mas aliviado ao mesmo tempo, quando avista o casal, Gemma e Jamie, o encarando preocupados com sua ida acompanhado de um motorista de caráter duvidoso.

[Gemma]- Meu Deus....-[exclama assustada].

[Jamie]- Esse aí tá ferrado, viu....-[balança a cabeça negativamente, indignado].

[Gemma]- Vou contactar o Sherife...-[diz, preocupada].

[Jamie]- Faz bem...-[acena positivamente]-Já até anotei a placa do caminhão....

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5 minutos depois...

    Titane sai da loja em posse de um balde de produtos de limpeza para limpar os vidros sujos de sangue quando se depara com um dos homens que foi abatido em combate rastejando pelo chão. Ele tinha o símbolo de "1%" na tatuagem de seu braço e um crânio de um carneiro com chifres, na outra metade de seu escalpe. No seu colete, a marca "Braço Forte" escrita em preto e branco com dois fuzis cruzados. Katley, com um olhar de desprezo e uma voz suave e aveludada, joga um micro telefone celular no chão e se agacha, encarando o homem:

[Titane]- Tá doendo muito, meu bem...? Agora rasteje até o telefone e peça pra alguma ambulância vir resgatar você e suas prostitutas antes que eu mesma peça para o lixeiro vir buscar vocês, seu bostinha...-[coloca os óculos no rosto, ergue-se e volta a limpar os vidros].

    O homem escuta os dizeres trêmulo de dor e atordoado ao ver o sangue esparramado do cadáver de um dos seus comparsas, já retirado e dado cabo por Katley. Com certeza não era uma experiência que queria ter para sua vida novamente. O policiamento era baixo e o mundo era um caos...


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"Rob Zombie- The Devil's Rejects"


                                -C O N T I N U A.



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