Nascer do Sol. O som de alguns pequenos pássaros casam com algumas músicas lentas transmitidas por uma rádio que mais parecia um casco de celular rosado, apoiado horizontalmente com um pequeno apoio de retrato em sua traseira, em cima de uma estante de cor enferrujada. Muito eficiente por sinal. Na frente dele, somente uma privada de metal, e dos dois lados, um fogão elétrico movido a baterias de tom empobrecido junto a uma pequena máquina de lavar azul, e uma porta que dá de entrada a um quarto. A única coisa que tranquilizada Wesley naqueles tempos era um bom jornal e um aroma de café avermelhado sendo preparado enquanto sai de um cômodo, este continha apenas em uma cama armada equipada com um armário multifuncional e um chuveiro com uma banheira velha e alaranjada. Um pequeno abajur cilíndrico vermelho era a única iluminação que tinha. Porém, era mão na roda. Em cima do teto, pequenos aparelhos fotovoltaicos portáteis que não funcionavam. Aliado a estes, um redemoinho que, apesar de não prestar, nunca parava de girar.
Fora de sua residência, um emaranhado de papéis jogados em um tapete caramelo de "boas vindas" que Wesley nunca entendeu o que significava, já que costumava receber suas "visitas" à óleo quente. Não que isso adiantasse algo. Pegando o jornal, o papel tinha uma cor docemente rosada e um leve perfume que denunciava ser de uma imprensa mais patriótica que o normal. James Wesley pega uma xícara rosa escuro, adoça o café e o coloca no recipiente enquanto se prepara para sentar Ao "trono" e ler o que tinha de útil naqueles papéis. Ao lado da privada, uma cadeira velha e esverdeada. É nela que ele coloca sua xícara a cada pausa dos lentos goles. Por sorte, este demora a esfriar.
As notícias no jornal eram entediantes. Não havia muito o que falar a não ser um monte de propagandas e instruções gratuitas de como consertar eletrodomésticos, dicas de plantios para colheitas, receitas de alimentos, construção de casas, cursos de manipulação de máquinas agrícolas, dentre outros assuntos triviais como anúncios idiotas do tipo "sexo grupal na praia. Encontro às 55h. Levar óleos eróticos." Perto de sua residência, uma ramificação de três postes com alto falantes compostos por iluminações com belos portas lâmpadas abaixo dos alto falantes. Um estilo vintage único que faz lembrar minhas viagens à França. Ou o que sobrou dela.
Mas a breve tranquilidade de Wesley se esvai como um tiro no ouvido quando um mesmo anúncio une os postes, a rádio e o jornal em que, ao mesmo tempo que escutava, lia como se ecoasse goela abaixo:
-----------------------ATENÇÃO A TODOS OS CIDADÃOS---------------
NÃO MANTENHA RELAÇÕES SEXUAIS COM PESSOAS ESPECIAIS. TENHA RESPEITO PELA SUA RAÇA E PRESERVE A SUA NOBREZA GENÉTICA. PESSOAS DE ORIGEM SUB-HUMANA POSSUEM NATUREZA COVARDE, SÃO CRIATURAS LIMITADAS, MENTIROSAS E RASTEIRAS POR DEFINIÇÃO.ESTES SERES NÃO SÃO PROJETADOS PARA SUPORTAR PRESSÕES OU ARMAZENAR INFORMAÇÕES MASSIVAS, E SUAS FRAGILIDADES E DEFICIÊNCIAS NÃO PERMITEM QUALIDADES QUE CONDIZEM COM A SUPERIORIDADE DE RAÇA E AS GERAÇÕES QUE QUEREMOS PARA A NOSSA NAÇÃO, COMO FORÇA, ÉTICA E LEALDADE.PELO FUTURO DE NOSSOS FILHOS! PENSE NOS CIDADÃOS DE AMANHÃ E TENHA DESCENDENTES COM SEUS IGUAIS.VIDA LONGA A TODOS!
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Wesley tremia de ódio à medida em que tirava seus óculos feitos do próprio punho. O mesmo não sabia se dava um tiro na sua única rádio rosada que o mantinha conectado àquele pesadelo ou se tacava fogo no jornal. Na verdade, ele queria incendiar a imprensa como se queima em carne viva um condenado ao Inferno. Respirando fundo e enfezado em cólera, amassou com todas as forças aquele jornalzinho rosa supremacista que passou por tanto tempo recebendo em sua residência sem qualquer cerimônia enquanto fitava uma arma de fogo, encostada num canto. Nunca em toda sua estadia naquele presídio à céu aberto, presenciou tamanha audácia nos seus únicos momentos de paz. Depois disso, Wesley fez um que um bom cidadão de segunda classe faria: limpou o próprio rabo com aquele pedaço de jornal por várias vezes, até que a tinta e o perfume do papel grudasse na sua pele, dando lugar a um aroma de flores de algodão:
[James]-Bando de...Grandessíssimos...Filhos de uma...PUTA...!- Diz enquanto se limpa e joga o que restou do jornal em um balde de lixo. Ah, sim, ele tinha um lixo ao lado da privada! E era rosado...
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